Por Maria Lucia Solla
Olá,
Na quarta-feira eu dirigia tranqüila pela Marginal Pinheiros, com folga para a aula do meio-dia. Ouvia o rádio, mas mantinha sentidos e reflexos assanhados. Se você dirige ou já dirigiu nas marginais da cidade de São Paulo, sabe do que estou falando. Atenção multiplicada e nível de irritação dividido. Metade você descarrega ali mesmo, no fígado, e a outra metade despeja na família e nos amigos. Como? Contando como foi a tragédia, nos mínimos, venenosos e suculentos detalhes, por exemplo.
De repente, um misto de pocpoc pufpuf, e lá se foi a atenção para o engasgo do carro. Momento de tensão. Meu pé direito, coordenado e condicionado por anos de repetição, ainda apertou o pedal do acelerador, cheio de esperança; mas eis que o pocpuf voltou. Arregalei os olhos e aceitei o óbvio. Pane. Ainda deu tempo de esterçar a direção, aproveitar o embalo do carro e escorregar até a margem mais segura da pista da direita, sob a ponte João Dias. Respirei fundo, abri a bolsa e… O cartão do seguro do carro, que acabei de renovar, estava lá, no lugar onde deveria estar. O foco na organização mostra algum resultado, finalmente. E isso é bom.
Chamei a seguradora do carro que me atendeu prontamente, garantindo que o socorro estaria comigo no máximo em meia hora. Dois minutos depois, me enviou um torpedo informando o nome do socorrista a caminho. Em menos de quinze minutos, quase fui esmagada umas cinco vezes, e dois carros da CET desviaram de mim e passaram batidos, com cinco minutos de diferença um do outro. Exatos quinze minutos depois da minha chamada, chegou o socorrista Gilmar e resolveu tudo muito bem. Teve até lanchinho oferecido pela empresa. Hoje, quinta-feira, precisei acionar meu seguro saúde, e meu carro foi socorrido, novamente. Desta vez pelo socorrista Gilberto. Bons profissionais bem selecionados, e que gostam do que fazem.
Dou-me conta de que poder ser bem atendida por Gilmares, Gilbertos, enfermeiras Paulas e doutores José Jorges é um prazer que dá deixa para a reflexão. No dia em que tivermos serviços públicos decentes, esses serviços certamente serão ainda melhores do que os particulares de hoje. Do lado de lá, gente capaz e honesta. Do lado de cá, todos pagando menos.
Isso não temos, mas temos obras faraônicas, coisas que nunca ninguém viu, nem no primeiro mundo. Não sou contra o progresso e a busca pelo melhor, mas minha sogra, a dona Ruth, sempre nos descreve como uma sociedade que usa casaco de veludo e deixa a bunda de fora.
Pense na sábia frase dela, ou não, e até a semana que vem.
Ouça aqui o texto na voz da autora:
Maria Lucia Solla é terapueta, escritora e está todo domingo ao nosso lado aqui no blog. É a autora do livro De bem com a vida mesmo que doa, publicado pela Libratrês.