Por Carlos Magno Gibrail
Pelo PIB, somos o 9º país do mundo; pelo poder de compra o 6º; e pela população o 5º. Em Beijing, ficamos em 23º lugar. Incompatibilidade. E daí?
Daí que, segundo o Comitê Olímpico Brasileiro, houve progresso: COB constata evolução do esporte brasileiro e registra conquistas inéditas em Pequim é o que está escrito no site http://www.cob.org.br .
A verdade é que 23º lugar é inferior a classificação no ano da primeira participação brasileira, 1920, na Antuérpia, quando obteve o 15º lugar. Moscou, em 1980, 18º lugar; Los Angeles, em 1984, 19º lugar; Atenas, em 2004, 16º lugar; também são melhores que a posição de Pequim 2008.
De 1920 até 1956, diferentemente de hoje, não havia apoio formal aos atletas, mas tivemos Guilherme Paraense, na Antuérpia, ganhando ouro em tiro, e Adhemar Ferreira da Silva com ouro, em 1952 e 1956, no salto triplo.
Adhemar, que foi descontado do salário na Prefeitura de São Paulo pelo prefeito Jânio Quadros, dos dias em que esteve ausente representando o Brasil nas Olimpíadas, recebeu apenas apoio do São Paulo Futebol Clube, onde treinava. Na camisa do São Paulo, existem duas estrelas douradas que simbolizam as medalhas de Helsinque e Melbourne.
Juca Kfouri comenta que nunca antes neste país se deu tanto dinheiro ao esporte de competição, nada menos do que 1,2 bilhões de reais, nos últimos quatro anos. Cada medalha custou, portanto a monstruosidade de 80 milhões de reais. E não se investe quase nada na prática de esportes nas escolas….
É preciso estabelecer um sistema que considere o esporte como fator agregador de saúde, educação, e inclusão social. Além dos crescentes recursos públicos, o sistema capitalista demonstra cada vez mais interesse em atuar nesta área. O COB tem como patrocinadores oficiais Olympikus, Petrobrás, Caixa, Sadia, Sol, Oi. Empresas estatais como o Banco do Brasil, Correios, Eletrobrás e Infraero também participam. Esperamos que a exigência do capitalismo aos seus executivos por resultado, permaneça tal qual nas suas empresas. Aguardemos.
De outro lado, iniciativas como as do Pão de Açúcar, que criou um Projeto de Esportes ambicioso, serão sempre bem vindas.
Nuno Cobra insere: O homem global é formado por corpo, mente, espírito e emoção. Parece até coisa sabida, praticada, mas não é! Vive-se parcialmente..
Para seu perfeito funcionamento o corpo necessita de movimento. Mas movimento ordenado, sem sacrifícios. O esforço faz bem desde que o prazer o acompanhe. Do grego Hipócrates, pioneiro ao valorizar o exercício físico e do poeta romano Juvenal, que em latim se expressou Mens sana in corpore sano, mente sã em corpo são, temos a base científica e filosófica a que Nuno se refere.
Kfouri arremata: A Organização Mundial de Saúde afirma que para cada dólar investido na massificação do esporte poupam-se três dólares na saúde.
Cabe apenas um alerta, bem apresentado na Revista Brasileira de Medicina do Esporte :
A grande exigência do esporte competitivo tem provocado sérias conseqüências em atletas envolvidos em treinamento de alto nível. Por sua vez, a mudança dos padrões estéticos tem levado indivíduos a buscarem, por meio do exercício físico, a redução da massa corporal, o aumento da massa muscular e do condicionamento aeróbico. É comum atletas e não-atletas excederem os limites de suas capacidades físicas e psicológicas ocasionando o desenvolvimento da síndrome do excesso de treinamento (over training),
Com tanta tecnologia e recordes quebrados até onde iremos? De acordo com o Instituto de Pesquisa Biomédica da França, até 2068: A progressão dos recordes nas provas esportivas caminha para um limite absoluto que é o da espécie humana e não do indivíduo.
Causa e efeito, meio e fim, acredito que o caminho para medalha de ouro não é apontar para as Olimpíadas, que deve ser apenas efeito. Causa, meio e fim, estaremos trabalhando nas bases, com crianças nas escolas, nos clubes, nas associações, nas comunidades, de todas as classes sociais. E por que não, com adultos e idosos?
Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e usa a camisa do São Paulo não apenas porque é fã do Adhemar Ferreira da Silva. Toda quarta, ele escreve aqui o blog e durante a semana bate papo com os ouvintes-internautas nos comentários.