De vida e de morte

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Domingo, onze da manhã, em frente ao prédio da tia Inês. Vamos visitar a minha mãe no Recanto onde mora com outros senhorzinhos e senhorinhas que precisam de cuidados especiais. Ela precisa; sofre do Mal de Alzheimer. Na estrada, colocamos a conversa em dia. Falo muito. Da minha recuperação, do novo tipo de alegria que faz parte da minha vida, e de quanto gosto dela. Da alegria e da vida. Falo de novos projetos, e de como mudo a cada dia. Tenho tido surtos de idéias, e minha tia me empresta ouvidos pacientes e generosos. Sei que não vou levar nada comigo quando tirar mais uma das minhas cascas e mudar de estado vibratório, mas gosto do ato de criar. Preciso dele para existir.

Segunda-feira, cinco da tarde, ala de observação de um hospital de São Paulo. Sala comprida, dividida em pequenos espaços por cortinas verdes até o chão, a fim de dar certa privacidade ao paciente e seu acompanhante. Enfermeiros e médicos vão e vem. Quando você precisa deles eles vão, quando quer um pouco de calma e silêncio, eles vêm. Procurar uma veia melhor nas mãos e braços de idosos é tarefa árdua. A veia estourou. Ai, ai, ai! É o que mais se ouve. Tenta na mão. As veias dela enganam. Você olha e pensa que é uma veia boa e ela já está pronta para estourar. Dona Clélia, está tudo bem, a gente só vai dar uma picadinha. Ela quer acreditar. Acredita e depois percebe que acreditou errado. É novamente uma criança, mas a pele das mãos é dura, devido ao trabalho. Não falo de louça lavada nem de queimaduras no fogão. Não falo de vassoura, pano de chão lavado no tanque com água sanitária. Falo do trabalho que fica impregnado na alma, no corpo. Do trabalho que se confessa através dos nossos gestos, da constituição de nossa pele. Mas voltando à sala de recuperação, a troca de médicos é constante e a gente sofre a inconstância de suas presenças. A cada troca de pessoal, informações preciosas se perdem. Principalmente as que não são registradas na planilha de controle. Pressão arterial e temperatura do corpo são medidas por sofisticados aparelhos, mas a identidade da dor não se revela facilmente. É preciso saber ler os símbolos dela, para poder avaliar sua intensidade, formato, origem, e os porquês de sua manifestação.

Quarta-feira, onze da manhã. Espero a vinda do médico para dizer se vamos ou se ficamos. Olho minha mãe e vejo, através do seu corpo, uma história de vida atirada na cama, para quem quisesse ler. Tudo ali. Nada dos móveis bonitos, nada de tevês, discos ou livros. Fogões, panelas, jóias, vestidos, e tudo que lhe passou pelas mãos, reteve um pouco dela. Isso sim, mas ela mesma ficou assim, de mãos vazias e pés nus. O coração, que tanto bateu nos mais diversos ritmos e que por vezes quase parou, vai levar com ele também, um pouco dela.

Será que não existe meio-termo entre vida e morte?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

São Paulo perde o ritmo em livro de Arlindo Gonçalves

Reproduzo neste espaço texto de apresentação do livro “Desacelerada Mecânica Cotidiana” do escritor e fotógrafo Arlindo Gonçalves, lançado nesta semana, pela Editora Horizontes:

“Cidade que não pára, frenética, corrida. Esses são apenas alguns dos predicados que
recebe a capital paulista. São Paulo é tudo isso sim. Mas nela há também espaço para
ritmos mais amenos, movimentos letárgicos no amanhecer de trabalhadores que
caminham para pontos de ônibus, estações de metrô, locais de trabalho. Ações mecânicas e
lentas que muitos podem julgar patéticas, como é o clima de alguns ambientes para os quais este livro traça um retrato afetivo.

São velhos bares, padarias, baixos de viadutos — todos povoados por pessoas esquecidas,
desempregados ou subempregados na sua maior parte. Uma gente que convive em lugares que,
apesar do frenesi da cidade, parecem parados no tempo, congelados de tal forma que tudo neles se mostra ultrapassado.

E, se o ritmo desses ambientes contrasta tanto com o da Paulicéia, seria natural esperar que as
vidas dos que os freqüentam estariam também numa inércia semelhante, em que nada de
importante acontece. Mas não é. Então, quase que imperceptivelmente, eventos únicos tomam
forma…

Duas vítimas de violência passam décadas cultivando uma amizade que as ajudará a superar
seus traumas. Um músico fracassado e pobre ajuda crianças doentes. Um homem atormentado
pela lembrança da morte de sua esposa passa as horas livres ouvindo e apoiando alcoólatras em bares. Uma terceira vítima de violência cultiva a atenção dos freqüentadores do boteco onde trabalha. Um engraxate otimista e bem-humorado ilumina a vida de todos os que conhece pelas ruas. Um fotógrafo desempregado tenta superar suas tristezas e limitações artísticas pelo carinho que nutre pela cidade. E uma velha analfabeta reza desesperadamente pela sorte de todos eles.

Desacelerada mecânica cotidiana faz um recorte representativo dessa realidade. Marasmo e tédio seriam o que se esperaria dos palcos em que se passam as narrativas deste livro. No entanto, sem que suas personagens notem, pequenas revoluções são empreendidas, ficando latente que o ser humano nunca é um derrotado. E que, se faltam as posses, podem sobrar as coisas realmente essenciais: a amizade despretensiosa, o respeito às diferenças e a solidariedade como mecanismos de resistência à violência e ao desamparo.”

A lata do lixo de São Paulo está cheia

Nesta quinta-feira, a Fabíola Cidral entrevistou o diretor de controle de poluição ambiental da Cetesb Otávio Okano sobre a intenção da Ecourbis, uma das empresas responsáveis pela coleta de lixo na cidade de São Paulo, voltar a usar o aterro sanitário Sõo João, naa capital.

Atualmente, a Ecourbis e Loga estão despejando o que recolhem na porta da sua casa em duas cidades da região metropolitana e pagando mais por isso. Por decisão judicial, não podem usar os aterros que estariam entupidos de lixo.

O problema tem se tornado a dor de cabeça de gestores públicos em várias cidades pelo mundo. A encrenca com o lixo é mal-resolvida na maior parte dos municípios brasileiros, inclusive São Paulo. Apesar da reordenação do setor que ocorreu há pouco mais de três anos com a assinatura de novo contrato com as empresas que venceram a concorrência pública, falta espaço para a quantidade de lixo produzido na cidade.

Se continuarmos com os hábitos de consumo irresponsáveis e produzindo lixo de maneira descontrolada, em breve teremos de pedir licença para transformar este terreno baldio próximo da sua casa em aterro sanitário.

Rever o tipo de produto que consumimos, dar preferência a embalagens menos agressivas ao ambiente, reaproveitar e reciclar os resíduos são caminhos difíceis mas fundamentais.

Em 2007, a coletiva seletiva recolheu 29.666 toneladas, segundo a prefeitura de São Paulo. Conforme as contas da Secretaria Municipal de Serviços, deixou-se de jogar nos aterros sanitários 4,9% do que se produz de resíduos na cidade. O índice se refere apenas a quantidade de material reciclado pelo sistema da prefeitura. A decisão da atual administração de rever os contratos com as duas empresas que dividem o mercado em São Paulo impediu que a reciclagem atendesse toda a cidade. A meta da prefeitura, agora, é aumentar o volume coletado em até 7%.

Morumbi vai ganhar Fura-Fila


Pista elevada vai cruzar a Jorge João Saad

Ônibus circulando em uma pista elevada, semelhante do Fura-Fila, para transportar passageiros da futura estação de metrô São Paulo-Morumbi até o estádio, em uma distância de 1,18 km, pela Avenida Jorge João Saad. O projeto que faz parte dos investimentos urbanos previstos para São Paulo se transformar em sede da Copa do Mundo de 2010 preocupa moradores das redondezas que temem a possibilidade de serem vizinhos de um novo Minhocão na cidade.

O projeto inclui a construção de estacionamento subterrâneo com quatro andares, 4.800 vagas, em área de 40 mil m2. Na parte superior, haverá tratamento paisagístico e a criação de parque com 26 mil m2, que também receberá os passageiros que vierem pelo Fura-Fila. O estacionamento seria aproveitado, em dias que não houverem jogos, pelos passageiros do metrô que moram distante da estação e tenham de fazer o primeiro deslocamento de carro.

A possibilidade de ganharem mais uma praça na região não anima os moradores do bairro que consideram desnecessária a construção do elevado, pois entendem que o deslocamento dos torcedores poderia ocorrer a pé, entre a estação e o estádio, pela Jorge João Saad. Outro motivo que incomoda, é o fato de que o “Minhocão” colocaria abaixo o canteiro central da avenida que está arborizado, em um trabalho que se iniciou há muitos anos na região.

O tema já foi discutido pelo Conselho de Segurança do Morumbi e será ampliado com a convocação de entidades que atuam na região. Os moradores pretendem levar os argumentos contrários a construção do Fura-Fila para os candidatos a prefeitura de São Paulo.

Foto-ouvinte: Cai cai balão, aqui na minha mão


No ar, bela imagem …

Enorme, colorido e perigoso, este balão despencou sobre casas na Vila Santana, em São Paulo. Dezenas de pessoas de carro e moto percorriam em terra o trajeto feito no céu até chegarem ao local do pouso forçado – o telhado de uma residência. Quando a polícia chegou, 20 minutos após a queda, a turma do balão já havia dado no pé e restou aos moradores a calda com os suportes de fogos de artifício e decoração, de acordo com o ouvinte-internauta Anderson Freitas que registrou as imagens publicadas no blog e em nosso álbum no Flickr.


…em terra, perigo

Do Gibrail: Kotler o “Sábio” ou os consumidores precisam de socorro

Por Carlos Magno Gibrail

“O marketing é muito importante para ficar restrito aos especialistas de marketing” – Philip Kotler.

Esta frase vale para todas as atividades: engenharia, economia, medicina, direito, etc …

Casas projetadas por engenheiros tendem a ser racionais por excesso, críticos de cinema gostam de filmes que não dão bilheteria, leis que contemplem apenas o jurídico não funcionarão, etc …

Tomemos o caso das grandes empresas e seus “call centers” ou seus “SAC”. Vemos dois fenômenos. De um lado uma estrutura específica para o atendimento que o torna o objetivo do próprio atendimento. De outro, o departamento é independente mas onipotente para o consumidor, que jamais terá acesso à área que está gerando o problema E fica na mão dos “especialistas” em atendimento.

O fato atual em que a justiça interfere nos “call centers” e exige uma série de mudanças para cancelamentos de serviços é ilustrativo e bastante positivo.

A Volkswagen, provavelmente, ouvindo seus “experts” em engenharia de “bancos automobilísticos reversíveis”, entregou à sua área de marketing um tremendo “pepino”. Convencer pessoas que perderam o dedo que estavam erradas.

Deve ser “piada pronta” e de mau gosto para o consumidor com problemas ligar a TV, rádio ou ler jornal e ver na propaganda a empresa que não está correspondendo prometendo o paraíso e entregando o inferno.

Carlos Magno Gibrail é empresário, mestre em administração e professor de marketing de moda. Toda quarta-feira, estará neste blog compartilhando com você as muitas idéias que surgem enquanto está pendurado no telefone aguardando o atendimento da turma do vamos-estar-fazendo.

Ambiente Urbano: Vida e morte paulistana

Por Osvaldo Stella

“Árvores absorvem a maioria dos poluentes encontrados nas grandes cidades, ozônio, oxido de nitrogênio e material particulado são retirados da atmosfera pelas árvores. Estudos realizados nos Estados Unidos,
Áustria e Inglaterra concluíram que florestamento urbano gera economia de milhões de dólares. Além de contribuírem para a melhoria da qualidade do ar, as árvores promovem outros benefícios para o ambiente urbano, regulando a temperatura e tornando o clima mais ameno, armazenando água contribuindo para redução de enchentes, economia de energia para ar condicionado, entre outras. Enquanto cada vez mais se entende a importância das árvores para a qualidade de vida da população da grandes metrópoles, em São Paulo 100 mil metro quadrados de bosque são derrubados para a construção de um cemitério na zona oeste da cidade. Por não serem nativas a maioria das árvores do local foi derrubada, árvores que forneciam um pacote de serviços ambientais para todo a comunidade. Existe uma série de outros agravantes, a obra está em área de preservação permanente, o lençol freático está a apenas 8 metros de profundidade e pode ser contaminado pelo necrochorume. E o pior de tudo, tudo legalizado pela CETESB. A vida cedendo espaço para a morte”.

Osvaldo Stella é comentarista do quadro Ambiente Urbano que vai ao ar, toda segunda, logo após às 11 da manhã, no CBN São Paulo. Atua na ONG Iniciativa Verde e não se cansa de denunciar os cemitérios verdes da capital.

Direito de resposta: Sidney, em tese, esteve na bicicletada

Poucos e ilustres os internautas que têm a gentileza de deixar seus comentários neste blog. Surpreendido em meu primeiro dia de férias, li a resposta do colega Sidney Rezende e decidi oferecer o devido destaque dedicando um post a ele.

Pela justificativa do mestre do jornalismo fluminense (não confunda, ele torce mesmo é para o Flamengo), Sidney esteve em São Paulo durante a bicicletada nu, na Paulista. Esteve não de corpo presente (e nu), mas de alma:

“Caro Milton, grande amigo, estou gargalhando com o seu post. Não sei andar de bicicleta e por isso não teria como engrossar a manifestação realizada em São Paulo. Mas concordo com o objetivo do protesto. Por fim, foi melhor assim, afinal poupamos o público de uma paisagem trágica. Boas férias!! Sua inteligência e bom humor já estão fazendo falta. Seu fã. S.”