Assédio moral permitido

Por Abigail Costa

Numa noite dessas, perdi o sono. Olhei para o controle remoto e em seguida o clique na TV. O apresentador com aparência de patrão dava as ordens. Os concorrentes tinham que cumprir tarefas. O  certo é: tinham que pagar mico.

Homens e mulheres disputavam uma vaga de trabalho, um prêmio em dinheiro, ou quem sabe só tinham vontade de aparecer na televisão. Até aí, gosto não se discute. Mas, cá entre nós, dá para lamentar.

Olhava para a TV e pensava: Como assim, por exemplo ? Como essas pessoas se permitem enfrentar isso?

E o chefe berrava. O homem se mexia constrangido na cadeira. A mulher mais sensível chorava, sem se incomodar com a maquiagem que derretia entre as lágrimas. Cena de novela, com personagens da vida real.

Eu pensava: Jesus! A mulher dele está vendo o marido ser nocauteado em rede nacional com direito a transmissão para a TV internacional.

E os filhos? Será que os amigos estavam acordados?

Aperto o botão vermelho do controle e a imagem some da tela, mas não da minha cabeça.

Penso, penso, sem que o sono volte, e a conclusão é obvia: eles consentiram esse assédio moral. Então, o problema é deles. O meu, é arrumar um jeito de voltar a dormir.

Antes que alguém me diga porque liguei a TV e não peguei um bom livro, respondo: Assumo o erro. Da próxima noite de insônia, nada de televisão nem livros. Vou acordar meu marido.

E, certamente, no dia seguinte falarei de amor e prazer.

Abigail Costa é jornalista e toda quinta-feira escreve no Blog do Milton Jung para tirar o sono de muita gente (o meu, inclusive).

O tempo passa diferente para algumas pessoas

Por Abigail Costa

Você já se pegou olhando para alguém que não via há algum tempo; olhando e pensando com aquele ponto de exclamação:

– Nossa,  como está envelhecida !

As rugas acentuadas, a pele que já não tem mais aquela rigidez, os fios grisalhos sem disfarce.  “Coisas” dessa tal lei da gravidade.  Isso é o que  os olhos podem enxergar.

Me disse um amigo outro dia:

– O tempo passa diferente para algumas pessoas.

Concordo:  por dentro e por fora.

Uns envelhecem mais rápido; uma dose a menos de vaidade, cá entre nós, também contribui para acelerar o processo,

Um processo absolutamente  compreensível. Nascemos, crescemos, envelhecemos e por fim…. deixa pra lá.

O que a visão não alcança só os mais observadores percebem. Os amigos. E como tem gente que insiste em envelhecer por dentro, quando a insistência deveria ser ao contrário.

É difícil, mas com um pouco de boa vontade dá para mudar aos pouquinhos, como dose de remédio. Se tomar de acordo com a prescrição a tendência é melhorar.

Deixe para trás certas manias. Lá dentro não se permita ser chamada de menina ou de tia.

Onde poucos conseguem chegar,  permita-se ser jovem todos os dias.  O jovem arrisca, erra, perdoa, começa tudo de novo.

Enquanto o controle das rugas para o rejuvenecimento interior não chega, vamos ajudar.

O tempo pode ser um aliado, ou não.  E para andar de braços dados com ele, a escolha é nossa.

Dá para começar hoje.

Abigail Costa é jornalista e as quintas-feiras, aqui no blog,  mostra que sabe como poucas controlar o seu tempo, no corpo e na alma.

Falar eu falo, o problema é como

Por Abigail Costa

Já escrevi aqui mesmo. Ninguém é perfeito. Muito menos eu. E preparem os ouvidos. Aqui vai um desabafo. Falo na primeira pessoa.

Ouço isso desde criança: “Olha como você fala !”.

Para mim normal. Nos ouvidos dos outros, agressivo, de forma destorcida.

O que eu imagino ser tranquilo, mais tarde compreendo muitas vezes pela cara feia, pela tristeza dos outros que magoei. Fui fundo demais.

Aí numa terapia de mim pra mim mesma, busco respostas para algumas perguntas.
Será que sou tão grossa assim?

Será que quando eu disse, lá no fundo, a pessoa não tinha um problema e resolveu inverter o jogo?

Será que terei que repensar o que devo dizer? Ou o melhor é ficar de boca fechada?

Meu Deus, a vida é um estalo!  Como se pode perder tempo com isso? Não foram palavras de acusação. Na maioria das vezes uma constatação.

Para encurtar o assunto.

Eu prometo.

De hoje em diante vou pensar, analisar, e depois dizer ou não. Eu prometo idas mais constantes ao terapeuta. Prometo reforçar a dose do antidepressivo.

Só não prometo ser eu mesma, se isso servir para não magoar as pessoas que mais amo.

Abigail Costa é jornalista e às quintas-feira faz do blog uma espécie de BBB da própria alma.

A saudade do reencontro

Por Abigail Costa

Saudade. Uma palavra deliciosamente dolorosa.
Sem masoquismo, mas esse sentimento é do bem.

Falta se sente de gente boa, que é ou  foi amada.
Lembranças, de lugares marcantes.
Ausência, do que se foi, do que se perdeu, mas que valeu a pena. De situações engraçadas.
Viagens, trabalhos, horários. Estilos  diferentes de vida,  e  uma sintonia que quebra distâncias.

Já dizia a melodia: Pode o tempo passar, tudo acontecer….
E acontece, passa. O que não pode  passar  é  a saudade de  pessoas importantes pra nós.
E como certas pessoas fazem falta.

Passam dias e meses e a necessidade de um reencontro pode ser sentida. Esta se faz presente.

Reencontro. Hora de conversas sinceras, de dar gargalhada. De falar, falar:
– Desculpe, quase não te deixei falar, estava com saudade.

Isso é um elogio. Uma declaração de amizade.
Um selo de garantia no reencontro.

A quem tem o privilégio de poucas, mas boas amizades, aproveite os reencontros.
Antes tarde…

Abigail Costa é jornalista e se reencontra com a gente todo quinta-feira aqui no blog.

Mulheres no banheiro

Abigail Costa

Mulheres…. banheiro…. e devaneios eróticos.

Pode parar. Não é nada do que está pensando.

A cena é a seguinte: algumas mulheres se encontram já na saída do banheiro. Uma se olha no espelho, a outra lava as mãos,  tem aquela que acompanha a situação, enquanto há uma que precisa desabafar.

– Você não acredita o que o meu marido me disse ontem?
– Mentira!!!!  
-Isso sem contar que que “essa observação” veio depois de um dia inteiro de trabalho,  de buscar filho na escola,  de preparar o jantar.  

A outra:
-Isso não me espanta. Semana passada o meu comentou que…. 

Era quase uma sessão de terapia, sem nenhuma ponderação. Parecia uma partida de vôlei. Uma levantava e a outra cortava. Foram dez, quinze minutos de conversa. Uma história contada com personagens diferentes, num só enredo. Ali, nenhum dos homens em questão mantinha laços de amizade, mas tinham uma afinidade: a falta de sensibilidade.  

Moços, por favor não me queiram mal. Meu universo de convivência é  masculino, mas elas tinham razão. Não pude defendê-los.  Talvez porque somos de Vênus.

O certo é:  se na maioria das vezes as observações, os questionamentos, fossem ditos diante do espelho, estes não seriam repetidos às mulheres. 

Por quê ? 

Puro constrangimento. Talvez você não saiba, mas falta de sensibilidade gera constrangimento. No mínimo para quem ainda tem. 

Abigail Costa é jornalista e toda quinta manda recado pelo blog

Saber esperar é uma virtude

Por Abigail Costa

São frequentes as conversas sobre o descontentamento na vida profissional. Gente com dez, quinze anos de casa.  Gente que se sente desmotivada na função. Às vezes, devido as promessas feitas pelos chefes e não cumpridas. Outras, por causa da promoção do colega que entrou bem depois de você.

Esse blá-blá-blá todo, é para resumir a ansiedade que vem tomando conta da vida de alguns. Claro, todos queremos ser notados profissionalmente, ter reconhecimento financeiro, mas em determinados momentos é preciso saber esperar. Em paz.

Tirar o pé do acelerador não significa ligar o botão do “não tô nem aí”. Essa folga é para respirar melhor. Falar menos e observar mais a nossa volta. O lado pessimista parece sempre bem mais espaçoso do que o outro, mas um olhar cuidadoso e profundo pode mudar a situação.

O que escrevo, soa como papo de auto-ajuda ? Se você pensar assim e isto lhe fizer bem, por que não?

A bagunça do não-sei-direito-o-que-pensam-ao-meu-respeito, só fere um lado: o seu. Nessas horas, melhor mesmo é procurar o colo de um amigo.  Não aquele de mal com a  vida que vai lhe aconselhar a jogar tudo para o alto. Mas o apaziguador, que vai lhe ajudar a esperar.

Você se lembra  quantas crises dessas já foram deixadas no passado? Pois é:  essa é só mais uma.

Paga pra ver!

Abigail Costa é jornalista e toda quinta escreve aqui no blog com a experiência de quem soube esperar.

Alguns levados pelas mãos, outros no colo, mas todos vão

Por Abigail Costa

Voltar para casa é sempre bom. Mas ando enrolando as minhas saídas do trabalho às sextas-feiras. É como se o tempo gasto em conversas no fim do expediente me distanciasse de uma realidade com hora marcada Falo da movimentação de centenas de mulheres e dezenas de homens, carregando malas, pacotes, trouxas de roupa.  O ponto de encontro é numa praça vizinha ao terminal rodoviário da Barra Funda, aqui em São Paulo.

Eles de um lado, e muitos, mas muitos ônibus do outro.

O destino: penitenciárias no interior paulista.  Em meio a agitação  dos  camêlos que tentam vender mercadorias de útima hora e dos sanduíches reforçados de pernil, que valem por um jantar (sim, é preciso forrar bem o estômago, muitos viajam até 600 quilômetros.).

O que me faz “enrolar ” para deixar a redação, são imagens que ficam martelando na minha cabeça, cenas que me fazem imaginar histórias, sem muita expectativa de final feliz. Não são apenas homens e mulheres que vão visitar parentes nas celas. São filhos levados pelas mães, muitos ainda de colo, outros pequeninos que já andam,  arrastados pelas mãos. Eles também estarão no sábado pela manhã, num ambiente,  para eles familiar.

É aí que viajo: Que conversas eles ouvem ? O que passa nessas cabeçinhas ainda sem maturidade ? Eles tem idéia por que estão lá? Seria esse o lazer dessas crianças, o páteo das penitenciárias?

Nada contra filhos visitarem pais, ainda que nesses lugares. É direito assegurado por lei. É justo. Injustiça é o que pode vir pela frente.

Quanto eles  terão de lutar para ter uma vida diferente?
Quantos olhares maldosos de julgamentos desnecessários terão de ignorar?
Quantos deles terão o discernimento de pegar um atalho para outros rumos?

Desses que amanhã embarcarão mais um vez para uma longa viagem, sem mesmo ter noção de que rodovia estarão passando, quantos terão uma sorte diferente da que eles conhecem e convivem ?

Quantos?

Abigail Costa é jornalista, daquelas que jamais serão pautadas pela insensibilidade

Se você ensinar hoje, ele fará a diferença amanhã

Por Abigail Costa

Chega uma certa idade, um certo alguém e,  como um relógio, bate o instinto materno.  Neles, o paterno. Começam as conversas, os planos de ter um filho e, por fim, o desejo é concretizado. Passado o momento de emoção, o lado racional cutuca.

Do jeito que o mundo está,  da maneira como andam as coisas, o que restará para eles?

A sua responsabilidade vai até um  certo ponto.  Num dado momento não será mais possível seguir de mãos dadas com as “nossas crianças”. Até para encontrar alívio próprio, você acaba se dando respostas otimistas.  Daquelas: “é,  mas a tecnologia avança a cada dia”,  “as descobertas da medicina andam aceleradas”.

Um dia você abre o jornal  e lá  está: “Fulano, aquele eleito com trocentos votos, tem um castelo”.  Que bom ! Uma maravilha que a Receita Federal desconhece. Prá quem lê o assunto, vira o estômago. Fico imaginando, para quem votou nele a sensação deve ser:  “FDP!”.  Com razão.

Passa mais uma semana e alguns dias e outra bordoada. “Ele” que tem um cargo de confiança, que trabalha há mais de dez anos em Brasília, diz que declarou a compra de um terreno numa área nobre da cidade. O valor da terra: 180 mil reais. Um detalhe foi esquecido. Um detalhe de cinco milhões de reais, preço estimado da “residência”.

E daí ? De que vale a tecnologia para desviar o trânsito, para construir aterros sanitários ? De que vale o homem receber um coração totalmente artificial, se o que corre nas veias é a ganância, a falta de vergonha ? Eles mentem ou, politicamente correto, omitem.

Calma ! Sou otimista por vocação. O que me faz acreditar que no futuro, naquelas cadeiras do Planalto Central, poderão estar sentados homens de bem é a criação que investimos em nossos filhos hoje. Não se trata de quem pode pagar uma escola particular ou não. Falo de valores que não são aprendidos, necessariamente, em instituições de ensino.

Outro dia, tive o privilégio de ouvir do meu pequeno: 

– “Papai, como a criança pode ganhar dinheiro sem depender da mesada?”

– “Porque a pergunta, filho?”

– “Quero tanto ajudar quem tem menos do que eu !”

Ele, junto com os seus filhos, seguramente vão tentar fazer desta uma vida melhor.

Abigail Costa é jornalista e toda quinta-feira, neste blog, mostra por que ainda acredita na capacidade do cidadão

Eles existem, pode acreditar !

Por Abigail Costa

Já não é de hoje que uma das frases mais ditas em meio a crise – não a financeira – a de egoísmo é “cada um por si e Deus por todos”.

É assim mesmo ?

Nem tanto.

Aconteceu comigo. Outro dia, em uma situação difícil, de necessidade em dividir o problema de tão pesado que era, me deparei com anjos, alguns vestidos de calça jeans, outros com ternos e sapatos sociais. Gente de verdade.

Nem foi preciso pedir ajuda, eles se aproximaram pelos olhares, conselhos, orações …

Estava na maquiagem e além de um bom dia não havia dito mais nada. Não tinha condições. Foram instantes de silêncio entre nós duas. Silêncio para mim. Ela orava. A cada pincelada de blush me sentia mais leve.

Levantei-me da cadeira e a pergunta me desconcertou: “O seu coração está mais tranquilo ?” Minha resposta, um abraço. O buraco dentro do meu peito já não ardia tanto.

Essa foi uma entre tantas outras pessoas amigas, algumas conhecidas, que tiveram sensibilidade de perceber que aquele problema eu  jamais conseguiria carregar e resolver sozinha, por mais forte que imaginava ser.

A vontade era calçar um chinelo, andar numa estrada reta até não aguentar mais, até não ter mais condições de pensar. Não precisei andar. Eles perceberam que eu não teria forças. Cada um dentro das suas possibilidades foi aliviando o fardo das minhas costas e, por fim, todos me carregaram no colo.

Pode ter certeza, os amigos existem, na hora certa.A eles, muito obrigada !

Abigail Costa é jornalista e as quintas-feiras revela-se aqui no blog.

Cara feia prá mim é intestino preso

Por Abigail Costa

Não sei se você já se deu conta de quantas pessoas com as quais cruzamos corredor a fora tem a mesma cara:  fechada, de mau humor, sem paciência.

Um dia ou outro, vá lá. É a enxaqueca que persiste. O cheque especial explodindo. A conta no vermelho. O tempo mais apertado do que o orçamento. Mas não me refiro desses de-vez-em-quando. E sim da cara fechada de-vez-em-sempre.

Pode estar certa, na maioria dos casos esse fenômeno vem com segundas intenções: provar autoridade, querer se impor.

A grosseria é um torto pedido de respeito. “Eles” se esquecem de um detalhe; SOMOS PARCEIROS APENAS DE QUEM ADMIRAMOS. Aí sim, de forma respeitosa.

Se eles e elas conhecessem o diagnóstico médico do mau humor tenha certeza que a cara ENFEZADA seria amenizada.

Enfezado (a), vem de IRADO (A), ENRAIVECIDO (A), BRAVO (A), MUITO NERVOSO (A). Literalmente quer dizer “CHEIO DE FEZES”,  situação que provoca rancor na pessoa quando esta acumula muitas fezes no organismo.

Olhando por este lado fica mais fácil de compreender. Aceitar já são outros tostões.

Essa é mais uma bobagem que alguém copiou de alguém que pensa que deu certo e passou a diante.

Bom humor é para poucos e bons. Se você é uma delas, não se intimide, passe a frente.

Como de louco e médico cada um tem um pouco, se cruzar com alguém enfezado por aí, sugira um laxante (no mercado há vários naturais, sem efeito  colateral).

Ao persistirem os sintomas, um médico deverá ser consultado.

Abigail Costa é jornalista e toda quinta-feira escreve aqui no blog porque nunca teve medo de cara feia.