Propaganda da Câmara de Vereadores custará R$ 4 mi

 

Texto publicado no Blog Adote São Paulo, da revista Ëpoca SP

 

A Câmara de Vereadores de São Paulo está com uma campanha publicitária no ar na qual destaca a aprovação da Lei do Ficha Limpa para o serviço público municipal, aprovada neste ano. A medida é interessante pois transfere a regra imposta a candidatos nas eleições para à administração pública como um todo, incluindo servidores, detentores de cargos comissionados ou empregados da administração direta e indireta do município. A despeito de alguns funcionários e assessores parlamentares estarem incomodados e não entenderem a importância da lei no combate à corrupção, espero que a mesma seja levada aos demais níveis de governo, estadual e federal. Assim como gostaria que a Câmara aprovasse rapidamente projeto de lei que irá colaborar na transparência dos gastos públicos ao obrigar a prefeitura e demais instituições do município a divulgarem o custo da campanha nas próprias peças publicitárias. Sempre bom relembrar que todos os anúncios feitos no rádio, na TV, nas mídias impressas ou digitais pela administração municipal são pagos com dinheiro arrecadado dos nossos impostos, portanto, nada mais justo que saibamos quanto estamos desembolsando para fazer propaganda das obras do prefeito e iniciativas dos vereadores, por exemplo.

 

O projeto de lei que pede transparência na publicidade foi proposto pelo Movimento Voto Consciente e foi aprovado por nove de 10 vereadores que fazem parte da Comissão de Constituição e Justiça. Mas para ser transformado em lei tem muito chão pela frente e, no mínimo, duas votações em plenário. Se já estivesse valendo, juntamente com a publicidade da Câmara Municipal que assistimos na televisão seria divulgado o custo da campanha. Ou no anúncio de jornal, estariam grafados os valores. E o cidadão teria como avaliar quanto do seu dinheiro estaria sendo gasto e se estaria sendo bem gasto.

 

No campanha atual, a previsão é de que serão usados R$ 4 milhões, o que inclui sua produção e divulgação, com inserções em TV, rádio, jornais, jornais de bairro e internet, segundo me informou a assessoria de comunicação da Câmara. Apesar de ainda não termos o projeto de lei da transparência na publicidade,
é possível saber os valores a medida que as informações do contrato assinado com a agência encarregada de produzir a campanha, a Contexto, estão divulgadas no portal da Câmara Municipal de São Paulo, em formato aberto.

 

A propósito, o que você acha da campanha publicitária que a Câmara Municipal de São Paulo colocou no ar ? Considera importante que o legislativo faça este tipo de prestação de contas na mídia ? Ou entende que é um desperdício investir R$ 4 milhões nesta forma de comunicação ?

Tá na hora da democracia participativa

 

Por Julio Tannus

 

Se fizéssemos uma pesquisa de opinião hoje sobre a reeleição, com candidatos à reeleição, certamente teríamos 100% de favoráveis. E essa é a grande questão de nossa política: a busca pela perpetuação no poder. A manutenção de uma estrutura de interesses voltada para assegurar o privilégio de poucos. Um Estado privatista que atende ao interesse de grupos privados. A ascensão ao poder para assegurar o interesse de grupos… E nossa sociedade reproduz esse modelo à exaustão. Não que sejamos contra a ideia de reeleição em si, mas sim contra os moldes do que observamos como prática política.

 

Assim, precisamos nos afastar de Maquiavel, que diz: política é a arte de conquistar, manter e exercer o poder, o próprio governo. E nos aproximar de Hannah Arendt. Para ela, a tarefa da política está diretamente relacionada com a grande aspiração do homem moderno: a busca da felicidade – o sentido da política é a liberdade… A tarefa e objetivo da política é a garantia da vida no sentido mais amplo.

 

Por que temos tantos prefeitos, vereadores, deputados estaduais, federais e senadores? Por que a representação no Congresso Nacional não é proporcional aos efetivos estaduais? Por que não temos políticos que representem o interesse geral da população? Por que os cargos executivos – desde prefeito a presidente da república – não são exercidos como representação do coletivo?

 

Penso que a solução para essa e outras questões está na nossa forma de regime político. Precisamos passar da Democracia Representativa para a Democracia Participativa. Passar da mera escolha de dirigentes para uma participação efetiva da sociedade civil organizada na administração de seus respectivos governos eleitos. Para isso é necessário criar efetivos mecanismos de controle da sociedade civil sob a administração pública, não se reduzindo o papel democrático apenas ao voto.

 

O regime da democracia participativa é um regime onde se pretende que existam efetivos mecanismos de controle da sociedade civil sob a administração pública, não se reduzindo o papel democrático apenas ao voto, mas também estendendo a democracia para a esfera social.

 

A democracia participativa ou democracia deliberativa é considerada como um modelo ou ideal de justificação do exercício do poder político pautado no debate público entre cidadãos livres e em condições iguais de participação. Advoga que a legitimidade das decisões políticas advém de processos de discussão que, orientados pelos princípios da inclusão, do pluralismo, da igualdade participativa, da autonomia e da justiça social, conferem um reordenamento na lógica de poder político tradicional.

 

Os defensores da Democracia Participativa argumentam que o real sentido da palavra democracia foi esvaziado ao longo dos tempos, e foi reduzida a mera escolha de dirigentes, sem participação efetiva da sociedade civil organizada na administração de seus respectivos governos eleitos.

 

Um exemplo de democracia participativa é o Orçamento Participativo, que tem o intuito de submeter o destino de parte dos recursos públicos à consulta pública, através de reuniões comunitárias abertas aos cidadãos, onde primeiro são coletadas propostas, depois votadas as prioridades, e encaminhadas ao governo para que ele atenda a solicitação através de investimento público.

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Cidadãos querem Ficha Limpa em Bertioga

Ficha Limpa em Bertioga

 

Moradores e eleitores de Bertioga, no litoral paulista, aproveitaram o dia de aniversário da cidade, 18 de maio, para iniciarem coleta de assinatura em documento que pede para que a Câmara Municipal aprove a lei do Ficha Limpa para contratação e indicação de pessoal no serviço público. A intenção é levar para a cidade o mesmo mecanismo que afastou parcela dos políticos brasileiros das eleições e já está implantado em alguns Estados e municípios. Com esta regra, pessoas condenadas em primeira instância por irregularidades administrativas, por exemplo, não poderiam ser convidadas para ocupar uma secretaria municipal. Para apoiar esta iniciativa entre em contato com o Movimento Voto Consciente de Bertioga. Se na sua cidade esta iniciativa ainda não foi tomada, o que você está esperando. Organize-se, apoie as organizações sociais do município e mobilize sua comunidade.

Vereadores gastam mais com gráfica, em São Paulo

 

 

O jornal Diário de São Paulo, nas edições de hoje e ontem, publicou reportagem destacando os gastos nos gabinetes dos vereadores paulistanos. O custo médio mensal de cada um dos 55 parlamentares é de R$ 135,1 mil, conforme dados que estão disponíveis no site da Câmara Municipal de São Paulo. Na reportagem de hoje, o Diário destacou que a despesa com a impressão de material gráfico é o principal gasto da maioria dos vereadores. Foram desembolsados R$ 184,3 mil, em março – o que representa 28,17% dos R$ 654,2 mil que o Legislativo gastou em verba indenizatória. Reproduzo trecho da reportagem publicado na edição dessa segunda-feira do jornalista João Carlos Moreira, o material completo você encontra no site do Diário de São Paulo:

 

O mandato de cada um dos 55 vereadores da capital tem um custo médio mensal de R$ 135,1 mil aos cofres municipais. O valor inclui o dinheiro destinado ao pagamento de até 18 funcionários em cargos de confiança a que todo parlamentar tem direito, além da verba para as demais despesas do gabinete e do salário do vereador. O gasto anual do mandato dos 55 eleitos chega a R$ 89,1 milhões.

O maior custo do mandato recai sobre a chamada verba de gabinete, ou seja, os R$ 106,4 mil que o vereador dispõe para pagar funcionários comissionados. Somente essa despesa pode chegar a um desembolso mensal de R$ 5,8 milhões para a Câmara Municipal, cujo orçamento é bancado com o dinh eiro repassad o pela Prefeitura.

Outra despesa é a verba de custeio, para cobrir aluguel de automóvel e gastos com combustível, Correios e gráfica, entre outros. Cada gabinete pode gastar até R$ 17.287,50, mas deve comprovar a despesa (veja abaixo a prestação de contas de março). Já o salário do vereador foi reajustado de R$ 9.288 para R$ 11.393, mas o aumento está sendo questionado na Justiça. Por enquanto, a Câmara está pagando o valor antigo e depositando numa conta à parte a diferença de R$ 2.105.

O vereador José Police Neto (PSD) considera adequado o gasto que o Legislativo tem com a atividade parlamentar. “É preciso analisar a questão com critério. O mandato na capital tem o tamanho de uma cidade, cada vereador responde por 220 mil habitantes”, disse. Segundo ele, a verba de custeio permite flexibilidade para que o parlamentar adapte o valor aos gastos de seu gabinete.

Sonia Barboza, coordenadora da ONG Voto Consciente, considera o gasto excessivo, principalmente com funcionários de confiança. “Não há necessidade de 18 comissionados. A Câmara deveria ter os servidores”, afirmou. Para o cientista político Rui Maluf, o gasto não é um problema maior. “A democracia não sai de graça, tem um custo. Mais importante é o eleitor acompanhar o desempenho do vereador, fiscalizá-lo no exercício do mandato”, disse.

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Consocial: plano de metas e financiamento público aprovados

 

O Plano de Metas que está em vigor na cidade de São Paulo desde 2009 deve ser implantado em todos os Estados e municípios brasileiros, de acordo com proposta aprovada durante a 1a. Consocial – Conferência Nacional sobre Transparência e Controle Social. A decisão tomada no encontro dará suporte para a mobilização que já existe pela aprovação de projeto de emenda constitucional que está em andamento no Congresso Nacional e prevê que o presidente, os governadores e os prefeitos apresentem, três meses após tomarem posse, as metas que pretendem alcançar nos quatro anos de mandato. O texto da PEC, assim como ocorre na capital paulista, não prevê punição ao administradores se os resultados não forem atingidos, porém é uma ferramenta excelente de avaliação de desempenho. Acompanhe a campanha municipal em São Paulo este ano e você perceberá como o prefeito Gilberto Kassab (PSD) e aqueles candidatos que ele apoiar serão cobrados pela não realização de obras e programas que haviam sido previstos.

 

O financiamento público de campanha foi a proposta que alcançou o maior apoio entre os participantes da Conferência, no fim de semana, em Brasília. Dos 1.200 delegados 970 votaram em favor da mudança no financiamento dos partidos e candidatos com estratégia para reduzir o impacto do poder econômico nas eleições. É interessante esta convergência de opiniões a medida que o tema ainda divide boa parte dos cientistas políticos e especialistas no tema, mesmo entre aqueles que concordam que o atual modelo é prejudicial à democracia ou que haja necessidade de se aumentar o cerco contra o caixa dois.

 

Dentre as propostas que mais se destacaram na Consocial estão, também, o apoio ao projeto de lei 6826/10 que aplica penalidades civil e administrativa às empresas corruptoras, que pode ser votado ainda nesta seamana; o incentivo a política de dados abertos que aumenta o controle da população sobre o serviço público; e a criação de conselhos de transparência e combate à corrupção em todos os níveis, assim como já ocorre no Governo Federal.

 

Das 40 propostas que vão integrar o Plano Nacional de Transparência e Combate à Corrupção uma pretende incluir no currículo escolar aulas de ética, controle social e educação fiscal, como forma de transformar os estudantes em cidadãos capazes de monitorar a prestação de serviço público.

 

Confira aqui todas as propostas votadas na Conferência

Partido tem de ser punido por político corrupto, também

 

No noticiário, Demóstenes Torres aparece sempre seguido da informação de que é um senador “sem-partido”, desde que o Dem que o elegeu por mais de uma vez, afastou-o de seus quadros devido às denúncias de envolvimento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. A estratégia tem sido usada por vários partidos políticos quando surgem acusações de irregularidades envolvendo um de seus integrantes. A atitude é uma forma de demonstrar discordância com o comportamento dele, mas não exime o partido da responsabilidade de ter dado legenda para o político. É o que pensa o ouvinte-internauta Milton Pereira que defende a ideia de que os partidos sofram algum tipo de punição para que tenham mais responsabilidade na hora de escolherem seus candidatos nas eleições.

 

Leia o e-mail que ele enviou para milton@cbn.com.br

 

“Existe um assunto que me deixa muito intrigado, pegando o exemplo do caso Demóstenes Torres, me causa indignação saber que ele foi ou será destituído, cassado, expulso do partido e ou da política mas o partido que o elegeu ficará impune.

 

Fico indignado de saber que hoje qualquer partido recebe dinheiro do candidato, faz propaganda com o candidato, ajuda a eleger esse candidato, usa a imagem do candidato para se promover, mas quando esse é eleito e pego em situação “complicada” a única coisa que o partido faz é correr para desvincular o nome do partido do nome do político.

 

Hoje vejo a posição dos partidos como muito cômoda, pois são tantos investigados que praticamente envolve todos os partidos, mas todos continuam isentos da responsabilidade de aceitar na legenda condidatos “honestos”. Até acredito que no passado um partido envolvido com candidato desonesto era penalizado pelo simples fato de ser noticiado o envolvimento. Lembro até de partidos que desapareceram, mas hoje não mais.

 

Não seria interessante que, com o objetivo de diminuir a corrupção e forçar o partido a captar candidatos honestos e também “acompanhar” para que este permaneça honesto, o partido fosse penalizado de alguma forma?

 

Essa punição poderia ser em relação ao tempo na propaganda na TV, ou com a diminuição no recebimento de verbas partidárias, ou sobre a quantidade de cadeiras no plenário, ou até, dependendo da gravidade, a impossibilidade do mesmo apresentar candidatos para determinada região ou eleição. Lógico que a premissa para a pena seria a prova do envolvimento do político com facilitações, desvios de dinheiro, recebimento de propinas, etc.

 

Hoje, vejo uma total falta de “punição declarada” sobre o partido que, em minha opinião, é o primeiro filtro para captar candidatos honestos e interessados em atender aos interesses da população e não aos interesses exclusos dos patrocinadores da sua candidatura. Também não vejo hoje nenhuma iniciativa da mídia para exigir que os partidos respondam sobre o que estão fazendo para evitar candidatos desonestos nas suas legendas.

 

A pergunta que não sai da minha cabeça é: “não está na hora dos partidos que ajudam a eleger candidatos envolvidos com picaretagem também serem responsabilizados?”.

 

Em outros países os partidos têm essa mesma liberdade?

 

Abraços,
Milton Pereira
Empresário em São Bernardo do Campo – SP

Audiência pública discute terreno para Instituto Lula

 

Desde a promessa do prefeito Gilberto Kassab (PSD) de ceder um terreno na região da Cracolândia, em São Paulo, para o Instituto Lula, em período no qual “namorava” com o candidato à prefeitura Fernando Haddad (PT), uma polêmica surgiu na capital paulista. Em um debate contaminado pelas convicções partidárias, cada lado defende com unhas e dentes (e pouquíssimos argumentos coerentes) sua posição a favor ou contra a entrega de 4,4 mil metros quadrados para que a instituição criada pelo ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva levante um prédio onde deve funcionar o Memorial da Democracia. Em todas as entrevistas que fiz no Jornal da CBN para tratar do assunto, confesso, não consegui ser convencido nem por vereadores petistas nem por vereadores tucanos em relação as suas pretensões em relação ao projeto de lei. Tudo soava muito parecido com “sou a favor porque é do Lula” e “sou contra porque é do Lula”.

 

Foi apenas na semana que antecedeu a aprovação do projeto assinado pelo Executivo em primeira votação na Câmara Municipal, em abril, que ouvi alguma explicação mais clara sobre o que se pretende fazer com a área. De acordo com Paulo Vannuchi, diretor do Instituto Lula e ex-Secretário Nacional dos Direitos Humanos, a intenção é criar no local um museu interativo aos moldes do Museu do Futebol dedicado a resguardar a memória da luta no país pela democracia e com referências a períodos importantes da história brasileira como a abolição da escravatura e a campanha pelas Diretas. “Sempre colocando a população como personagem central”, disse Vannuchi em resposta aos que temem que o espaço se transforme uma espécie de Museu do Lula. Além da cessão do terreno, a instituição seria toda mantida com dinheiro privado, explicou. Nada disso, porém, está explícito no projeto 29/2012.

 

Desde a primeira votação, quando 37 vereadores foram a favor da cessão do terreno e 10 contrários, aumentou a pressão de diferentes setores da sociedade. E parte destas ações poderá ser percebida nessa quinta-feira, durante audiência pública que se realizará, a partir das 10 da manhã, na Câmara Municipal de São Paulo. O Grupo NasRuas ao lado de o Revoltados On Line que se notabilizaram pelas manifestações contra a corrupção estão divulgando uma petição eletrônica pedindo o cancelamento do projeto de lei sob a justificativa de que “a população tem o direito de escolher o que fazer com um terreno desta dimensão e que será concedido à uma instituição privada por um século”. Reclamam, entre outros aspectos, do fato de o projeto não especificar o que de fato será realizado no terreno e não ter havido concorrência pública. Você pode ler aqui a petição pública e assinar se considerá-la justa. Mas pode, também, participar da audiência na Câmara acompanhando os diferentes argumentos, interferindo na discussão e influenciando na opinião dos vereadores.

Enfiando os pés pelas mãos

 

Por Julio Tannus

 

Há algum tempo, para ser um pouco mais preciso há cerca de 13 anos, tramitou no Congresso Nacional Brasileiro um projeto de lei que atribuía aos evangélicos a exclusividade da atividade de psicanálise. Já pensou que desespero! Não que sejamos contra os evangélicos, mas temos tudo contra os evangélicos terem a exclusividade da psicanálise. Afinal de contas, 100 anos de ciência de repente nas mãos do sobrenatural!

 

E de repente me deparo com a notícia: “Senado inclui restrições a pesquisas na lei eleitoral”. Isso é muito próximo de atribuir exclusividade da psicanálise aos evangélicos, ou seja, o Senado Federal Brasileiro legislando sobre algo que não tem a menor ideia e a mínima formação.

 

Senão vejamos: segundo a emenda, dados socioeconômicos, como sexo e grau de instrução, terão de seguir padrão do IBGE. Ora, isso é tão absurdo como dizer que, tomando como base os dados do IBGE, há mais mulheres do que homens e mais jovens do que idosos no prédio onde moro. Pois, não só o correto, mas o mandatório é que uma amostra para ser representativa de um universo tenha que ser extraída desse mesmo universo. No caso de pesquisas de intenção de voto, o universo a ser considerado é o universo de eleitores e, portanto, a amostra deve ser extraída desse universo e não do total da população. Assim, a fonte correta de obtenção de amostra é o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e não o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

 

Além disto, toda amostra deve ser obtida a partir de informações as mais atualizadas. Os dados do IBGE sobre a população brasileira, os denominados dados censitários, são obtidos a cada 10 anos e o último censo foi realizado em 2000. O que existe de mais atualizado são projeções, portanto sujeitas a desvios. Assim, quem possui os dados mais atualizados desse universo é o TSE e não o IBGE.

 

E, por fim, toda amostra deve ser obtida a partir de critérios metodológicos, e corresponde a uma área técnica da pesquisa cuja responsabilidade está a cargo de um profissional de estatística. E aqui eu pergunto: como e por que uma instituição política como o Senado Federal se propõe a estabelecer critérios técnicos de estatística?

 

Ou seja, o que estamos aqui contestando é o Senado se imiscuir nos critérios metodológicos de uma pesquisa de intenção de voto. Só falta o Senado estabelecer critérios para os procedimentos cirúrgicos da área médica. Deus nos livre…

 


Julio Tannus é consultor em estudos e pesquisa aplicada, co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada”, recém-lançado pela Editora Elsevier na Livraria Cultura, e escreve no Blog do Mílton Jung

Vereador tem mais o que fazer …

Texto publicado no Blog Adote São Paulo, da Revista Época SP

 

A Câmara de Vereadores de São Paulo dedicou o primeiro dia útil da semana para votar 71 projetos que concedem nomes a ruas, vielas, praças e pontes, além de medalhas e homensagens a cidadãos paulistanos. O vereador Arselino Tatto (PT) foi autor de quase a metade desses projetos, todos dedicados a seu reduto eleitoral, na zona sul da capital. Assim que levei a informação ao ar, no Jornal da CBN, comecei a receber mensagens de ouvintes-internautas criticando o trabalho dos parlamentares. Houve quem de forma irônica dissesse que é melhor deixá-los fazendo estas homenagens, pois enquanto gastam seu tempo com medidas de baixo impacto deixam de aprovar leis que possam causar danos ao município. O problema é que mesmo as concessões de títulos acabam se transformando em prejuízo para o bolso do paulistano, pois são promovidas solenidades oficiais com realização de coquetel, entrega de certificado, bandeja de prata e placas – tudo regado com dinheiro público.

 

É importante ressaltar que batizar locais públicos faz parte das funções do legislativo. E morar em uma rua com nome pode mudar muito a vida de um cidadão, facilitar o acesso de outras pessoas, entrega de encomendas e, inclusive, ajudar no momento de fazer crediário na loja ou no banco. Já ouvi muito morador contando com orgulho o fato de a casa dele estar agora em uma rua com nome e sobrenome. O resultado para o vereador é tal que tem assessores de gabinete destinados apenas à função de procurar ruas sem nome. O problema começa quando este passa a ser o papel principal do parlamentar, é muito pouco para o cargo que ocupam e o dinheiro que ganham. Estão lá para debater temas fundamentais para a cidade, encontrar soluções para problemas frequentes e apresentar projetos inteligentes e criativos que realmente impactem o ambiente urbano e, destaque-se, a aqueles que agem desta maneira.

 

Sou a favor da ideia de tirar esta função dos vereadores e deixá-la apenas com a prefeitura ou subprefeitura. Um levantamento organizado seria suficiente para identificar quais ruas (ou avenida, ou pontes, ou vielas, ou seja lá o que for) precisariam ser batizadas. Consulta-se o grupo de moradores ou um banco de nomes à disposição da sociedade (que podem ser sugeridos por qualquer cidadão – inclusive os vereadores) e por decreto determina-se como o local passará a ser conhecido. Pode deixar para consulta pública por um determinado momento e se não houver qualquer rejeição o problema está resolvido. Sem muita politicagem, aproveitamento eleitoral e custo baixo.

 

E aí o gaiato sentado ao meu lado comenta: se não tiverem o direito de batizar rua, o que os vereadores vão fazer da vida? Tenha certeza, que eles tem muito trabalho e um desafio enorme a enfrentar. Àqueles que não entenderam direito estas responsabilidades, cabe o eleitor tirá-los do parlamento no voto ou, ao menos, interferindo no mandato deles através do seu poder de fiscalização. Quem sabe aceitando convite que faço há quatro anos: adote um vereador.

Por uma constituinte popular permanente

 

Texto escrito por Francisco Whitaker um dos criadores do Fórum Social Mundial e da Lei do Ficha Limpa:

 

Enquanto era um simples projeto de iniciativa popular, para o qual eram recolhidas assinaturas de apoio pelo Brasil afora, a atual Lei da Ficha Limpa sofreu muitos e diversificados ataques. Chegou a ser chamada mesmo de autoritária, por fazer um reparo à conquista indiscutível da humanidade que foi a adoção universal do principio anti-barbárie da presunção da inocência. Mas seus principais opositores se encontravam justamente entre os que seriam por ela atingidos e que, apoiando-se na infindável possibilidade de recursos aberta pelos nossos Códigos processuais, usavam esse principio para assegurar sua impunidade. E por isso mesmo foi de fato uma surpresa que o projeto superasse a barreira que se erguia contra ele no Congresso, onde se dizia, quando lá chegou com seu milhão e meio de assinaturas, que era mais fácil uma vaca voar do que ele ser aprovado.

 

E eis que o bom senso desse milhão e meio de eleitores chegou – depois de uma verdadeira maratona dentro do Congresso, no Tribunal Superior Eleitoral e por fim no Supremo Tribunal Federal – a encurralar o principio da presunção da inocência lá onde ele tinha mesmo que ficar: no direito penal. E a sociedade se viu enfim contemplada com a validação do principio também universal da precaução, ainda mais quando se trata, como no direito eleitoral, de eleger pessoas às quais será entregue a responsabilidade de cuidar dos destinos do país.

 

Uma vez feito mais esse avanço na vagarosa construção de uma verdadeira democracia no Brasil, chovem loas à nova lei, vindas das mais diversas e às vezes incríveis procedências. Um sólido consenso, apoiado numa significativa proporção de votos no STF, se forma no país em torno da necessidade indiscutível de uma biografia inquestionável para se ter o direito de exercer funções públicas. Ficha Limpa passou a ser um novo e importante conceito da cultura nacional. E como se todos tivessem de repente descoberto o ovo de Colombo, multiplicam-se, do nível municipal ao nível federal, novas leis estendendo essa obrigatoriedade a todo e qualquer cargo de governo, inclusive os de confiança. Fomos enfim capazes de introduzir algumas barreiras a outros tipos de barbárie, como a de se apropriar insaciavelmente de recursos que são de todos – a corrupção que hoje se escancara em todo o mundo – ou como a de se apoiar no poder conquistado pelo voto para se resguardar de condenações por diferentes tipos de crime.

 

Mas eu gostaria de analisar outro aspecto da experiência vivida. O processo de conquista da Lei da Ficha Limpa teve outro tipo de efeito, que pode vir a ser ainda mais amplo: o de dar aos cidadãos a consciência de que podem mudar as leis do país em favor da coletividade. Um pequeno artigo da Constituição de 1988, já então chamada de Constituição Cidadã, criou o instrumento da Iniciativa Popular de Lei, pelo qual uma proposta de mudança legislativa pode ser levada ao Congresso desde que um por cento do eleitorado a subscreva.

 

O primeiro uso desse instrumento – uma proposta de criação de um Fundo Nacional de Habitação Popular – ocorreu cinco anos depois. Mas o projeto correspondente levou 17 anos para se transformar em lei. Com o aprendizado da primeira, uma segunda tentativa, seis anos depois, foi mais bem sucedida: um projeto que estabelecia que perderiam seu registro os candidatos que comprassem votos – a chamada corrupção eleitoral – foi transformado em lei sete semanas depois. E passados mais dez anos a proposta da Ficha Limpa veio coroar a efetividade do instrumento, ainda que tivesse exigido oito meses para ser transformada em lei.

 

E eis que de repente, após o término da novela da Ficha Limpa, surgem por todo o Brasil, do nível federal ao municipal (nos Municípios cuja Lei Orgânica também incorporou o instrumento), projetos de lei de iniciativa popular. Nem tenho informações sobre tudo que está sendo gestado pelo Brasil afora. Mas há muitos grupos de cidadãos e cidadãs, reunidos em associações e entidades da sociedade civil, que estudam projetos visando questões que nossos Parlamentos não enfrentam adequadamente.

 

A Plataforma pela Reforma do Sistema Político, que congrega 35 entidades nacionais da sociedade civil, lançou um projeto de lei visando a Reforma Política. Todos sabemos que ela é extremamente necessária em nosso país, mas o Congresso sozinho não consegue realizá-la. Há pouco outro importante problema nacional começou a ser enfrentado também por meio de uma Iniciativa Popular: foi lançado no Amazonas um projeto de lei de Desmatamento Zero, que contesta diretamente a decisão congressual sobre o Código Florestal. Há associações que estão elaborando uma Iniciativa que limita em dois mandatos consecutivos o exercício da representação política – que uma vez transformada em profissão perverte o seu sentido. A proposta de limitar o número de mandatos está sendo inclusive levada ao nível preparatório final da 1a. Conferência Nacional sobre Transparência e Controle Social. Há grupos estudando uma Iniciativa de Lei que interdite as empresas de financiar campanhas eleitorais – que as leva a dominar em seu favor as decisões congressuais e do próprio Poder Executivo. Retomam-se também velhos sonhos como o da Tarifa Zero no transporte coletivo da cidade de São Paulo, ou o da obrigatoriedade de plebiscitos prévios à realização de obras públicas de elevado valor ou significativo impacto ambiental, previstos na Lei Orgânica desse mesmo município. Até um Poder considerado intocável como o Judiciário será seguramente um dia surpreendido por propostas populares visando corrigir as distorções que ocorrem em seu funcionamento.

 

A Constituição exclui do alcance da Iniciativa Popular mudanças constitucionais. Nada impede porem que a aspiração popular chegue ao Congresso com milhões de assinaturas e um grupo de parlamentares assuma a iniciativa de propor, apoiados nessa aspiração, um Projeto de Emenda Constitucional – PEC, nos termos da proposta popular. É o caso da iniciativa sobre o número de mandatos, que já prevê a necessidade de uma PEC, e da iniciativa resultante do impacto causado pelo drama de Fukushima, que propõe que nossa Constituição vede a construção de usinas nucleares em nosso país e determine a interrupção da construção de Angra III e o desmonte de Angra I e Angra II, livrando-nos do pesadelo dos terríveis acidentes com reatores e as gerações futuras da herança diabólica do lixo atômico.

 

Corremos na verdade o risco da banalização desse instrumento. Até porque que tais empreitadas são gratificantes mas não são fáceis. Nas duas iniciativas bem sucedidas acima citadas – contra a compra de votos e pela Ficha Limpa – levou-se um ano e meio, em cada uma, para se chegar ao 1% do eleitorado. É preciso muita perseverança. E uma vez entregue ao Congresso, a tramitação da proposta tem que ser acompanhada dentro dele pelos seus promotores, passo a passo, para que não fique, como a primeira delas, 17 anos mudando de gaveta. As vacas só voam com muito embalo… E a um período de entusiasmo e multiplicação de propostas pode-se seguir cansaço, desencanto, frustração… Precisaríamos estar bem conscientes de que só devemos lançar Iniciativas Populares se estivermos organizados e dispostos a ir até o final de um processo difícil e longo.

 

Nesse quadro alguns parlamentares já se apressam, quase afoitamente, para mudar a Constituição e facilitar as coisas para o povo. Por exemplo, criando a possibilidade da coleta de assinaturas pela Internet, que permite que se chegue mais rapidamente ao mínimo necessário. No caso da Ficha Limpa, no final do seu processo, e já entregue o projeto ao Congresso, mais 400.000 assinaturas obtidas pela Internet foram incorporadas.

 

Mas essa facilitação reduz a adesão ao trabalho de ler uma proposta e apertar um botão para expressá-la, e anula toda a dimensão educativa do processo de coleta de assinaturas. Essa coleta pode ser demorada mas é também uma pedagogia de exercício da cidadania. As pessoas que buscam assinaturas têm que estar bem cientes do que estão propondo e as pessoas que assinam só o farão se estiverem convencidas. No caso da lei contra a corrupção eleitoral foi possível criar com essas pessoas, em todo o Brasil, após sua aprovação, os chamados Comitês 9840 (número da lei), que assumiram a função de garantir que fosse realmente aplicada lá onde moravam – e mais tarde foram animadores da coleta para a Ficha Limpa.

 

Alem disso, com a coleta pela Internet corre-se com isso o risco de não se ter muita gente disposta ao demorado trabalho de acompanhar e pressionar o Congresso, durante todo o tempo de discussão e decisão sobre o projeto – no caso da Ficha Limpa foram oito meses.

 

Se o tema de uma proposta for preciso, compreensível, e corresponder a uma efetiva aspiração da sociedade, essa forma de participar do processo legislativo pode ser efetiva, como ficou demonstrado com as leis da compra de votos e da Ficha Limpa. E quanto mais o instrumento da Iniciativa Popular se consolidar no conhecimento dos cidadãos e cidadãs e passar a contar com maior apoio dos meios de comunicação de massa, os prazos podem ser mais curtos e a pressão sobre o Congresso mais forte.

 

O Senador Pedro Simon, em recente desabafo no Senado, falou de seu desencanto com o Congresso, opinando que somente a pressão da sociedade faria com que ele assumisse plenamente suas funções. Quem sabe o surgimento de um processo constituinte popular permanente possa atender à sua angustia.