Avalanche Tricolor: Saudade do Gaúcho

 

Grêmio 2 x 2 Lajeadense
Gaúcho – Olímpico Monumental

A televisão ainda passava jogos em video tape. A tecnologia oferecida não permitia transmissões de partidas a longa distância, ao menos não a um custo que valesse a pena investir. Jogo ao vivo e em cores era na arquibancada e os mais próximos disputados pelo Campeonato Gaúcho.

Era uma época em que competição daquele quilate não exigia aumentativo para ser valorizada. Desconfio que esta mania de chamar as disputas de Gauchão, Paulistão e outras coisas mais surgiu no momento em que a importância destes campeonatos diminuiu.

Gauchão pra gente era o Paixão Cortês que surge na ilustração do Xico Silva.


Seja como for, foi nas viagens ao interior do Rio Grande do Sul que aprendi como se joga futebol de verdade. Deixava-se Porto Alegre para cruzar o estado e éramos abrigados em estádios de madeira, com alambrado despencando, vestiários precários e torcida adversária vibrando como se fosse final de Mundial.

Foi nestes gramados – forma de dizer porque há muito a grama não era vista nem plantada naqueles campos – que assisti às mais impressionantes retrancas; zagueiros que trocariam um Troféu Belford Duarte pela canela do primeiro atacante que se atrevesse cruzar na intermediária; carrinhos que riscavam o chão e trilhavam o caminho com faíscas da chuteira de cravo antes de alcançar a perna alheia.

E eu gostava muito de tudo aquilo.

Jogar futebol era uma aventura, principalmente para os jogadores que chegavam da capital, sempre um alvo a ser abatido. Mesmo assim, o meu time era melhor e superava todas estas intempéries. Voltava para a “cidade grande” com sangue na camisa, barro nas meias, calção corroído pela poeira e a satisfação pela batalha vencida.

Sofri muito ao lado do campo vendo tudo isso acontecer. Vibrei e chorei com vitórias incríveis. Entendi que no futebol nem sempre o melhor ganha, é preciso também ter mais coração. Sabe aquela coisa de raça e determinação ? Pois é, nos jogos do Gaúcho era mais do que necessário.

Eu fui forjado torcedor neste campeonato, onde ganhei meu primeiro título – história já contada neste blog.

Muitos de nós passamos a nos apaixonar pelo futebol nas competições estaduais que se iniciaram neste fim de semana. Não exatamente neste arremedo de jogos disputados em fórmulas que mal conseguimos explicar aos nossos filhos. Hoje, os grandes times entram em campo preocupados em preservar seus jogadores para os jogos importantes da temporada.

O Grêmio, por exemplo, está de olho na pré-Libertadores, no dia 26 de janeiro, e para se livrar dos compromissos do Gaúcho fará, nos próximos dias, uma sequência absurda de partidas para um time que recém começa o ano – a largada para esta maratona foi hoje. Jogou muito bem no primeiro tempo, sem fôlego para marcar mas com talento na troca de bola. No segundo, cansou, desistiu ou estava desacostumado com as coisas do Estadual.

Distante do Olímpico e de volta ao papel de torcedor de PPV, assisti à partida sem a apreensão do passado. Sinal dos tempos, talvez. Apesar disso, tenha certeza de uma coisa: eu ainda acho muito bom ser campeão Gaúcho.

Veja mais ilustrações do Xico Silva no álbum do Picasa

Assis, de promessa do futebol a fazedor de promessas

 

Por Airton Gontow
Jornalista e cronista

Você se lembra do jogador Assis? Não, não falamos do ótimo atleta do Fluminense e do Atlético-PR, que marcou época no futebol brasileiro, formando com o centroavante Washington a versão brasileira do Casal 20.

Nos referimos a Roberto de Assis Moreira, o empresário, conhecido no mundo do futebol, como ‘o irmão do Ronaldinho Gaúcho”.

Baixinho e habilidoso, foi um dos grandes casos de craque excepcional que acabou não acontecendo. Integrou diversas Seleções Brasileiras e atraiu o interesse dos europeus que tentaram “sequestrá-lo” para a Itália. Foi resgatado pelo Grêmio e brilhou por pouco mais de um ano no tricolor gaúcho, que conduziu ao título da Copa do Brasil de 89, com atuações estupendas. Fez um dos gols na vitória gremista de 2 a 1 na partida final contra o Sport. Na semifinal, o time gaúcho havia despachado o Flamengo com uma humilhante goleada de 6 a 1.

Na época, o empresário Juan Figer chegou a afirmar que Assis era a promessa mais valiosa do futebol mundial.

Com muitas perspectivas, em estranhíssima transação Assis foi jogar no vibrante futebol suíço: no FC Sion. Lá seu futebol não evoluiu, apesar de algumas boas atuações. Pelo contrário, piorou, murchou. Quase sumiu. Mesmo assim, conseguiu transferir-se em 95 para o Sporting Clube do Porto, onde ficou pouco tempo. Em 96, jogou seis meses no Vasco e outro semestre no Fluminense. Voltou ao Sion e, novamente, a Portugal, para jogar no poderoso CF Estrela da Amadora. Pouco depois foi atuar na equipe japonesa do Consadole Sapporo. No ano 2000, foi defender o Corinthians e, em 2001, foi à França, para jogar no Montpellier, onde encerrou sua carreira.

Assis acabou não acontecendo. Percorreu o mundo, mas não chegou ao estrelato. Fracassou, para a surpresa de todos que o acompanharam nas equipes de base do Grêmio e da Seleção Brasileira.

Com a morte prematura do pai, tornou-se a figura paterna para o pequeno Ronaldo. E quando Ronaldinho Gaúcho confirmou as previsões de que seria o maior craque da família Moreira, Assis passou a gerenciar a sua carreira. Não deixaria o irmão repetir seus próprios erros, garantiu.

Roberto de Assis Moreira é presidente e fundador do Porto Alegre Futebol Clube, criado em janeiro de 2006. Após alguns anos na Segundona Gaúcha, o Porto Alegre conquistou o título em 2009 e a ascensão à Primeira Divisão. No ano passado, garantiu a permanência na elite da competição estadual. Em 2011, estará novamente entre os principais times do estado.

Assis é um homem rico. Mas não conseguiu cumprir a promessa de ser um bom gerenciador para a carreira do irmão.

Ronaldinho Gaúcho ganhou competições importantes, foi campeão do mundo pela Seleção Brasileira, foi duas vezes eleito o melhor jogador do mundo pela FIFA, tem uma fortuna estimada em 100 milhões de euros, mas está claro para todo mundo – mídia e torcedores – que – quando o assunto é apenas futebol e não situação bancária – é um jogador que desperdiçou o enorme talento que “Deus lhe deu”.

Nunca um gênio do futebol amargou tantos momentos no banco de reserva. Foi assim no Grêmio, ainda que em início de carreira; assim foi no Paris Saint-Germain, no Milan e até mesmo no Barcelona. Aos 30 anos, não foi convocado para a Copa do Mundo de 2010.

Ronaldinho Gaúcho é um craque que não é o grande ídolo em nenhum dos clubes em que atuou. Teve, sabemos, milhões de admiradores no mundo inteiro. Mas não é amado por torcida alguma. Não deixou saudades no Paris Saint-Germain e no Milan. Saiu vaiado do Barcelona, onde foi substituído e implacavelmente superado por Messi.

Não tem nem a paixão da torcida brasileira. As vozes que cobraram Dunga por sua desastrosa convocação para a última Copa pediam Ganso e Newmar. Poucos reclamaram a ausência de Ronaldinho Gaúcho.

Nada indica que se for para o Flamengo o excepcional jogador conseguirá ocupar na história do clube e no coração do torcedor rubro-negro o espaço que é de Zico. Sua última chance de se tornar um ídolo para a história era no Grêmio.

Há poucos indícios de que o jogador está realmente disposto a resgatar seu grande futebol. As notícias sobre o craque gaúcho mostram que ele encontrou Romário na churrascaria Porcão, que foi esta semana a uma feijoada e que ontem foi até Florianópolis para assistir, às duas da manhã, ao show de Amy Winehouse. Nenhuma informação ou imagem trazem o Ronaldinho entrando em uma academia ou correndo na praia, em busca de entrar em forma, ainda que todos os times já estejam em plena pré-temporada.

O leilão promovido por Assis e a ridícula coletiva de imprensa no Copacabana Palace desgastaram ainda mais a marca Ronaldinho Gaúcho. Se o futebol do jogador já estava em declínio desde 2006, sua imagem parece seguir o mesmo caminho, ainda que seu provável destino seja o Flamengo, time com a maior torcida do futebol mundial.

Promessa e Assis são palavras que andam, inexoravelmente, juntas. De eterna promessa, Assis é um homem que promete para todo mundo.

É triste a atual imagem de Ronaldinho Gaúcho.

Seu famoso sorriso faceiro parece hoje, para a maioria das pessoas, o riso de um homem sem personalidade, um bobo alegre, que deixa tudo nas mãos do irmão.

Assis e Ronaldinho Gaúcho flertaram ao mesmo tempo com pelo menos três clubes, deram a palavras de que o negócio estava fechado e fizeram promessas que não cumpriram. Juras de amor foram apenas para o Grêmio. Cairão, porém, nos braços de outros torcedores.

Para os gremistas que estão tristes e indignados, digo o que falaria para um bom amigo, traído pela mulher:

– Chora não. Ela não presta!

Jogada rara no futebol

Dignidade e ética são palavras que costumam não combinar com futebol. Mas fazem parte da estratégia do técnico Franco Navarro, vice campeão peruano pelo Leon de Huanuco, provável adversário do Grêmio na Libertadores 2011 – pelo que se constata ao ler reportagem publicada na primeira página do uruguaio El Pais.

Navarro abriu mão do título do campeonato nacional do Peru ao deixar fora da equipe seu melhor jogador, o volante argentino Gustavo Rodas, que havia sido expulso na partida anterior por ter se envolvido em uma briga generalizada. A Comissão de Justiça da Associação Profissional de Futebol, porėm, deu ao jogador efeito suspensivo sob a alegação de que ele não havia agredido ninguém – mesmo que as evidências mostrassem o contrário.

“Todos concordam, inclusive Rodas, que não se deve tirar vantagem de algo errado. Há muita hipocrisia no futebol, porém, este clube tem dignidade”, disse o treinador em atitude pouco comum ao esporte. Com a derrota por 2 a 1 para o San Martín, Navarro perdeu pela quarta vez a disputa do título nacional, mas parecia bem mais preocupado em defender seu caráter a uma taça.

Com este gesto, Navarro mexe com nosso mais básico instinto de torcedor e põe em xeque comportamentos com os quais nos acostumamos na busca pela vitória.

Antes de aplaudir a atitude dele, no entanto, pense o que você diria ao técnico do seu time caso ele tomasse a mesma decisão.

Avalanche Tricolor: Meninos, eu vi, juro que vi

 

Grêmio 3 (5) x 1 (3) Goiás
Sulamericana – Avellaneda (ARG)

Menino, eu vi, eu juro que vi Vítor de braços abertos fazendo milagres em defesas impossíveis.

Meninos, eu vi, eu juro que vi Paulão despachando a bola para as arquibancadas sempre que o perigo esteve próximo.

Meninos, eu vi, eu juro que vi nossos alas correndo, aloprados, ao fundo do campo deixando tontos os marcadores adversários.

Meninos, eu vi, eu juro que vi Rochemback, Rafael Marques, Adílson e todos os nossos marcadores comendo a bola com a ponta da chuteira.

Meninos, eu vi, eu juro que vi Douglas com maestria entregar a bola aos seus companheiros como se a eles desse uma joia rara.

Meninos, eu vi, eu juro que vi Andre Lima atrapalhado colocando a bola para as redes e Jonas fazendo a única coisa que é capaz de fazer em campo: muitos gols.

Meninos, eu vi, eu juro que vi Renato gesticulando ao lado do campo, gritando frases inaudíveis na inútil tentativa de organizar o caos.

Mas eu vi muito mais do que isso, juro que vi, na noite e madrugada de futebol jogado na argentina Avellaneda, em estádio com emblemático nome Libertadores da América.

Estavam lá nas arquibancadas Lara, Arce, Ancheta, Airton, Calvet, Everaldo, Dinho, Gessi, Ronaldinho, Iura, André Catimba, Alcindo, Juarez, Tarciso … e tantos outros que se misturavam aos milhares de torcedores que empurravam os azuis à conquista de uma vaga na Libertadores.

O Grêmio foi grande, desta vez travestido de Independiente. Assim como o foi em tantos outros momentos mágicos do futebol mundial em que nossos espírito foi incorporado por times nem sempre com jogo qualificado, mas com desafios inacreditáveis

Avalanche Tricolor: É muito bom ser pai desses meninos

    Grêmio 3 x 0 Botafogo
    Brasileiro – Olímpico Monumental

    Olímpico Monumental

    Os foguetes começaram a estourar logo cedo. Alguns ônibus já estavam estacionados perto de casa e torcedores improvisavam o local para o churrasco. Ouviam-se gritos à distância e camisas do Grêmio desfilavam na calçada diante da casa de minha infância e adolescência. Foi ali que meu coração foi forjado gremista e minha alma, imortal.

    O clima era de decisão como tantas que havia assistido em meu passado porto-alegrense, boa parte delas com o direito de me iludir com os ídolos e me enganar com as promessas de vitória. Às derrotas, havia meu pai suficientemente maduro e calejado para me consolar.

    Hoje não, o pai era eu. Quem havia motivado os meninos para viajar à Porto Alegre e torcer pelo Grêmio no Monumental, neste começo de férias, é quem teria de assumir a responsabilidade pelo feito (ou desfeito).

    Por que não levá-los à primeira partida no Olímpico em jogo menos complicado? Quem sabe um de campeonato Gaúcho, desses por onde comecei a saborear o gosto pelas conquistas? Fui escolher logo uma “final” de Brasileiro, com a difícil tarefa de vencer e esperar um resultado externo para saber se teríamos o direito de estar mais uma vez na Libertadores.

    E se nada desse certo? O resultado ruim, a frustração, o estádio lotado de tristeza, os meninos me olhando querendo entender tudo aquilo ? Será que encontrarei lugar para eles sentarem e assistirem à partida com segurança?

    Nessas horas, tudo ganha uma dimensāo muito maior do que deveria. Tinha a responsabilidade de transformar aqueles momentos em algo especial, mesmo que boa parte do espetáculo não dependesse apenas de mim.

    Os meninos foram se vestir para o jogo, e buscaram na mala camisas azuis, sem que eu pedisse – davam sinal de ansiedade, também.

    Lá fora, a música entoada pelos torcedores aumentava, ainda faltavam algumas horas para seguir ao estádio, apesar de minhas preocupações já terem percorrido toda a curta caminhada até o nosso destino.

    Churrasco em família encerrado, não dava mais para recuar. Era hora de sair para ver o Grêmio no Monumental. É bem diferente do que vê-lo em qualquer outro lugar, muito mais do que torcer por ele diante da televisāo como os acostumei.

    Saí de casa de mãos dadas com os dois, e havia ainda a companhia dos meus irmão e sobrinho, ambos neófitos nestas caminhadas até o estádio – torcem pelo Grêmio sem sofrimento, na maior parte das vezes de ouvido apenas.

    Em Familia

    Tantas dúvidas e apreensões não resistiram atė a esquina da Saldanha Marinho, rua que sempre marcou o início do meu passeio ao Olímpico. Os primeiros passos na companhia deles foram suficientes para perceber quanta bobagem desnecessária havia passado pela minha cabeça. Temer o quê, se estar ali com meus dois filhos – acrescido de mais dois caras muito legais em minha vida – era, sim, o mais importante. Maior do que qualquer outra coisa que o futebol pudesse me proporcionar.

    Entrar no Pórtico dos Campēoes com eles em meio a multidão entusiasmada de gremistas foi especial, estávamos quase correndo como se não suportássemos mais a ansiedade de entrar no estádio e encontrar nosso lugar para gritar e comemorar aqueles instantes juntos.

    Pouco antes de subirmos ao nosso espaço não-reservado, encontrei dois velhos conhecidos. Verardi, eterno supervisor do clube, e Pedrão, antigo segurança sempre presente ao lado do time. Foi ele quem me lembrou de frase-lamento que repeti várias vezes ao meu pai sempre que uma adversidade surgia no caminho do Grêmio: “estão nos roubando, pai!?”

    Desta vez ninguém me roubaria a alegria de estar com meus dois filhos no Monumental, independentemente da estratégia armada pelos técnicos e do jogo jogado pelos times.

    Quis o destino, porém, que a alegria fosse completa.

    Meu time e a minha torcida foram cúmplices da satisfação de cantar trechos do hino rio-grandense ao lado dos meninos, de aplaudir a escalação e a movimentação dos jogadores, de socar o ar na bola que explodia no travessão ou fora tirada do adversário com um elegante carrinho.

    Foram cúmplices na festa do gol, dos três gols, emocionantes gols marcados por nossos ídolos. Os de André, Jonas e Douglas. Os evitados por Vítor e Paulão. Os quase feitos por Clementino. Os que se tornaram possíveis graças a inteligência emocional de Renato.

    Meu prazer, nosso prazer, de estarmos pulando, abraçando um ao outro, rindo dos torcedores boca suja, vibrando com o resultado e pedindo sorvete para matar a sede me fez criança como eles. Como na época em que eu era eles. Em que eu era apenas um menino apaixonado pelo seu time.

    Hoje, sou o pai desses meninos. Meus meninos gremistas.

    Vibrar

    Avalanche Tricolor: Tem decisão eu vou

     

    Guarani 0 x 3 Grêmio
    Brasileiro – Campinas (SP)


    Chegou a hora da conquista. Até aqui, disputamos cada partida pelo orgulho de ser gremista. Superamos os momentos mais difíceis neste campeonato, quando muita gente grande nos olhava com desdém, dava de ombros às nossas vitórias  e nos considerava um time com data de validade vencida, após não seremos capazes de conquistarmos a Copa do Brasil.

    Para estarmos onde estamos foi preciso recuperar não apenas o futebol, mas a auto-estima de jogadores desgastados com os resultados ruins. Que não acreditavam neles mesmos. Entravam em campo como se carregassem o peso de uma história em vez de tê-la como aliada.

    Houve um momento em que cada partida teria de ser encarada como uma decisão isolada, como se estivéssemos disputando um campeonato particular em que nosso pior adversário era a imagem que estávamos construindo na contramão dos nossos feitos.

    Renato Gaúcho foi convocado para encarar este desafio, um técnico muito mais elogiado pelo que fez com os pés do que vinha fazendo com a cabeça. Verdade que no comando do Bahia havia ajeitado o time, este ano, e o colocado no rumo da primeira divisão. Mas o restante de sua história diante da casamata não era motivo de exaltação.

    O torcedor gremista acreditou na aura de Renato, apostou na possibilidade dele contaminar o vestiário, mudar o espírito da equipe, torná-la competitiva e fazer, novamente, do Olímpico Monumental uma muralha intransponível. Isto seria pouco, porém, para buscarmos um destino melhor no Campeonato Brasileiro, haja vista os resultados obtidos até aquele momento e a distância que estávamos da tropa de elite.

    Renato foi além. Montou uma equipe corajosa que não temia o adversário no campo dele e organizou o time de forma inteligente, reposicionando jogadores como Lúcio e Fábio Santos, a ponto de fazer do nosso lado esquerdo o caminho mais rápido para chegar ao ataque. Deu confiança a Fábio Rochemback que passou a dominar a frente da área e a Douglas, que ganhou liberdade para criar. Também trouxe sangue novo como o xerife Paulão, incontestável zagueiro que esperávamos há tanto tempo. E Diego Clementino, esse rapaz que tem cara de gremista.

    Fomos conquistando os pontos disponíveis em nossa caminhada até chegar os atuais 60, que nos posiciona entre os quatro melhores da competição e o melhor no segundo turno. Fomos marcando gols e mais gols até nos transformarmos no ataque mais forte do Brasileiro, com os 65 alcançados hoje. Sem contar o artilheiro-dançarino Jonas (com 22), Andre Lima (com 10, quem acreditaria nele?) e Diego (que com 5 deve ter a melhor média de gols por minuto jogado, este ano).

    Falta apenas mais um jogo nesta temporada. Vencemos o que devíamos até aqui. O Grêmio voltou ao seu lugar, entusiasmou sua torcida, levantou seu moral e obrigou analistas a reverem seus conceitos. Chegamos onde muitos, mesmo gremistas, não acreditavam mais em 2010.

    A partida de domingo é tão importante para nós como foram todas as demais sob o comando de Renato. É a última desta série de decisões que nos impuseram. E que pode nos abrir caminho para mais uma conquista da América.

    Todos ao Olímpico domingo que vem. Eu vou

    Do “pontualismo” utópico ao pragmático!

    Por Airton Gontow
    Jornalista e cronista

    A realidade venceu a utopia. Como muitos, sonhei durante anos com a justiça para todos do Campeonato Brasileiro por pontos corridos. “Chega de medíocres assumindo a ponta no final das competições! Basta de vermos o time de mais pontos eliminado precocemente em um simples dia ruim em mata-mata” – bradava com a mão esquerda estendida, acompanhado pelo bom senso dos de boa parte dos apaixonados por futebol. Mas o sonho do campeonato mais justo acabou. O campeonato de pontos corridos foi corrido pela ditadura dos resultados, pelos ranços e oportunismos oriundos de rivalidades históricas e atávicas.

    Agora as forças revisionistas propõem uma volta ao passado, como se as conquistas dos últimos anos tivessem de ser jogadas fora: melhor nível técnico e campeonatos mais disputados e justos, apesar de todas as mazelas.

    A melhor solução é uma espécie de meio termo. A volta de outra fórmula: campeão do primeiro turno contra o vencedor do segundo! Na final, a vantagem do empate para a equipe de mais pontos, entre as duas, ao longo do campeonato, sem saldo de gols. Dois empates nos dois jogos decisivos ou uma vitória para cada time, por qualquer resultado, e o título para o time de mais pontos!

    O mesmo vale para o G3 ou G4. O terceiro do primeiro turno contra o terceiro do segundo. Com alguns ajustes para os casos de times que, por exemplo, ficarem em terceiro em um turno e em segundo no outro. A regra também vale para os últimos colocados. Mata-matas para ver quem vai para a Libertadores e para ver quem cai. Ajudaria também que fosse adotada a sugestão do técnico são-paulino, Paulo César Carpeggiani: clássicos guardados para nas últimas rodadas, para evitar pouco caso ou favorecimentos.

    Não seria a mais justa das competições, mas é bem melhor que os mata-matas antigos, que tornavam os primeiros dois terços dos campeonatos cansativos e quase sem sentido. Além disso, haveria sempre a chance de serem recompensadas equipes que tiveram recuperações estupendas, como a do Grêmio este ano, que disputaria o título após o inferno da proximidade do rebaixamento.

    A ideia está lançada. Qual é a opinião dos internautas?

    Avalanche Tricolor: Pelo direito de sonhar

    Grêmio 3 x 1 Atlético PR
    Brasileiro – Olímpico Monumental

    Poucas vezes demorei tanto para publicar uma Avalanche. A partida se encerrou há 24 horas e você, caro e raro leitor deste blog, sabe do meu esforço para exprimir aqui sofrimentos, paixões, admirações e, na maioria das vezes, alucinações sentidas no decorrer dos 90 minutos de jogo tão logo este termine.

    Desta vez, porém, deixei ir embora as emoções da partida, e toda a rodada se completar. Ao contrário do que possam imaginar, não tomei a atitude porque estaria concentrado na arte de secar o adversário, esporte preferido da torcida brasileira em especial quando o campeonato está próximo do fim.

    Tenho tido o cuidado, desde o início desta nossa recuperação, de me ater apenas aos nossos feitos. Deixo que os defeitos dos outros se revelem por si só. Mesmo porque não acredito muito que olho grande mude alguma coisa no futebol. Seriedade, sim. Perseverança, também. Confiança, determinação, doação, humildade, bola rolando com sensatez, luta e talento. Todas estas coisas que apareceram em nosso time nesta segunda parte do campeonato.

    Incrível a mudança que assistimos nesta sequência de resultados positivos. Nesta mesma fase, na primeira parte da competição, éramos um bando de desnorteados que contávamos, única e exclusivamente, com a nossa saga.

    Sempre soubemos que nossa história havia sido marcada por provações até alcançarmos algo realmente relevante. Por isso, sempre nos damos o direito de sonhar com algo acima do possível.

    As vitórias voltaram com um time mais bem organizado, marcação eficiente, passes em velocidade, carrinhos certeiros, movimentação coerente, chutes confiantes a gol. E muitos gols: temos o melhor ataque da competição, o melhor atacante e a melhor campanha neste segundo turno. Não tenho medo de dizer que temos, também, o melhor time nesta altura do campeonato.

    Vítor não exige mais palavras; Paulão se mostrou zagueiro seguro; Neuton se revela a cada oportunidade, desta vez com um golaço; os dois volantes, Adílson e Rochemback, estão acima do lugar comum; o lado esquerdo alucina o adversário com a rapidez de Fábio Santos e Lúcio; Douglas tem um talento excepcional; e quando Jonas está no time, seja qual for seu companheiro, o ataque joga muito. Sem falar o simpático – pela cara, pelo jogo e pelo nome – Diego Clementino. E mais um grupo que está sempre pronto para atender ao chamado do técnico.

    Apesar de tudo isso, ainda tínhamos dificuldade de nos colocarmos entre os mais bem classificados. O caminho estava congestionado. Havia muita gente na frente para ultrapassar. Alguns mais distantes, outros bem próximos. Mas todos foram ficando para trás. Um a um. Até colocarmos os pés no propalado G-4.

    Ainda faltavam os resultados deste domingo para confirmarmos presença na elite do Campeonato Brasileiro. Não queria escrever antes disto se concretizar.

    E a rodada se completou com o nome do Grêmio surgindo no alto da tabela.

    O futebol recuperado não foi suficiente para nos dar a chance de disputar o título, apesar de termos time tão equilibrado quanto os três pretendentes. Não temos a garantia de que o quarto lugar nos levará à Libertadores, devido as mudanças no regulamento após a competição se iniciar.

    Com certeza, porém, o Grêmio, sob o comando de Renato Gaúcho, voltou a ser o Grêmio de todos nós. Que sempre nos oferece o direito de sonhar mais. E sonharmos juntos.

    Avalanche Tricolor: Reféns de nossas façanhas

    Santos 0 x 0 Grêmio
    Brasileiro – Vila Belmiro (SP)

    Mal terminado o jogo, ouvi do comentarista de plantão que se o Grêmio quisesse a vaga da Libertadores precisaria jogar mais do que na noite deste sábado. Fui navegar e leio na capa do Terra que o “Grêmio só empata com o Santos”.

    Foram motivadoras as afirmações. Consagradoras, também.

    O adversário era o time sensação do ano, atuando em casa e disposto a tirar o Grêmio da Libertadores como confessou o seu técnico interino. Por mais de uma hora de partida teve um jogador a mais em campo – o goleador do Brasileiro havia sido expulso -, um pênalti corretamente marcado a seu favor e um árbitro que usou medidas diferentes para punir e, assim, agradar os da casa.

    Este cenário nāo amedrontou o Grêmio que teve de redescobrir a maneira de chegar ao ataque sem o seu artilheiro, seja pelos gols que faz seja pela movimentação e atenção que exige do adversário, principalmente. Com a bola no chão, de pé em pé, algo difícil de se fazer quando há maioria do lado de lá, se aproximou do gol santista, fez o goleiro contrário se esforçar para impedir nossa vitória e jogou como se 11 vestissem sua camisa.

    Lá atrás, o incrível VÍtor haveria de marcar o seu gol ao repetir contra o Santos o que fez em todo este campeonato. Ele terminará a competição com feito inédito, pois defenderá mais pênaltis do que levou.

    Foram nove no Brasileiro. Como é fácil marcar pênalti contra nós, talvez seja pela admiração que os árbitros tenham de assistir ao Vítor defendendo-os. Os atacantes só tiveram sucesso em três deles.

    Nosso goleiro muda a ordem natural dos fatos com este desempenho. Que ninguém mais diga que o pênalti é o martírio dos goleiros. Pênalti contra Vítor é o pesadelo dos atacantes.

    Apesar de tudo isso, os críticos ainda tiveram coragem de dizer que seria preciso mais, que fizeram pouco. Mal acostumados que estão com nossos feitos, provavelmente. Parecem considerar normal que o Grêmio atue com um jogador a menos – e o seu gioleador, pois devem se lembrar que já fomos campeões com apenas sete. Parecem acreditar que pênaltis são para serem defendidos, afinal é o que Vítor mais faz.

    Talvez tenham razão mesmo. Foi assim que forjamos nossa imortalidade, na intempérie, contra o destino traçado pelo adversário, tenha ele uma camisa diferente ou um apito na boca.

    Somos reféns da nossa própria história. E todos estāo sempre a espera de um grande façanha.

    Nós também.

    Avalanche Tricolor: De Lara a Douglas, a imortalidade

    Grêmio 5 x 1 Ceará

    Brasileiro – Olímpico Monumental


    “É craque mas muito lento”. Foi das primeiras coisas que ouvi de colegas ao ser anunciada a contratação de Douglas.

    “Está com data de validade vencida”, me provocou amigo de redação após vê-lo carregando com sofreguidão a bola em um time desmontado.

    Mesmo entre torcedores havia dúvidas sobre o comprometimento do nosso camisa 10 com a nossa camisa tricolor. O topete de ator canastrão e o olhar neutro de poucos amigos colaboravam para a construção dessa imagem.

    Qualquer dessas visões se desfaz, porém, quando Douglas começa a dialogar com a bola. Poucos no futebol brasileiro são capazes de se entender tão bem com ela.

    A suposta lentidão é negada pela forma como conduz o jogo, sem ansiedade para se livrar dela, e pelo toque que desconserta o adversário, sempre disposto a servir da melhor maneira possível o companheiro de equipe.

    Consegue ser preciso, decisivo e solidário.

    Foi assim ao lançar a bola na cabeça de André Lima, no primeiro gol; ao cruzar de pé trocado para Jonas completar, no segundo; ao distrair a defesa na falta de Rochenback, no terceiro; ao marcar de maneira excepcional o quarto gol.

    E no quinto gol ? Onde estava Douglas ?

    Provavelmente, aplaudindo a jogada de Jonas e André Lima. E descansando seu talento para as próximas quatro decisões que temos pela frente nesta caminhada em que a cada jogo escrevemos mais um parágrafo desta história marcada pela imortalidade.

    Uma história que começou a ser contada há 75 anos, em um seis de novembro, quando o maior goleiro que já pisou o planeta Terra foi viver em outra encarnação e nos deixou este legado, Eurico Lara.