Avalanche Tricolor: É muito bom ser pai desses meninos

    Grêmio 3 x 0 Botafogo
    Brasileiro – Olímpico Monumental

    Olímpico Monumental

    Os foguetes começaram a estourar logo cedo. Alguns ônibus já estavam estacionados perto de casa e torcedores improvisavam o local para o churrasco. Ouviam-se gritos à distância e camisas do Grêmio desfilavam na calçada diante da casa de minha infância e adolescência. Foi ali que meu coração foi forjado gremista e minha alma, imortal.

    O clima era de decisão como tantas que havia assistido em meu passado porto-alegrense, boa parte delas com o direito de me iludir com os ídolos e me enganar com as promessas de vitória. Às derrotas, havia meu pai suficientemente maduro e calejado para me consolar.

    Hoje não, o pai era eu. Quem havia motivado os meninos para viajar à Porto Alegre e torcer pelo Grêmio no Monumental, neste começo de férias, é quem teria de assumir a responsabilidade pelo feito (ou desfeito).

    Por que não levá-los à primeira partida no Olímpico em jogo menos complicado? Quem sabe um de campeonato Gaúcho, desses por onde comecei a saborear o gosto pelas conquistas? Fui escolher logo uma “final” de Brasileiro, com a difícil tarefa de vencer e esperar um resultado externo para saber se teríamos o direito de estar mais uma vez na Libertadores.

    E se nada desse certo? O resultado ruim, a frustração, o estádio lotado de tristeza, os meninos me olhando querendo entender tudo aquilo ? Será que encontrarei lugar para eles sentarem e assistirem à partida com segurança?

    Nessas horas, tudo ganha uma dimensāo muito maior do que deveria. Tinha a responsabilidade de transformar aqueles momentos em algo especial, mesmo que boa parte do espetáculo não dependesse apenas de mim.

    Os meninos foram se vestir para o jogo, e buscaram na mala camisas azuis, sem que eu pedisse – davam sinal de ansiedade, também.

    Lá fora, a música entoada pelos torcedores aumentava, ainda faltavam algumas horas para seguir ao estádio, apesar de minhas preocupações já terem percorrido toda a curta caminhada até o nosso destino.

    Churrasco em família encerrado, não dava mais para recuar. Era hora de sair para ver o Grêmio no Monumental. É bem diferente do que vê-lo em qualquer outro lugar, muito mais do que torcer por ele diante da televisāo como os acostumei.

    Saí de casa de mãos dadas com os dois, e havia ainda a companhia dos meus irmão e sobrinho, ambos neófitos nestas caminhadas até o estádio – torcem pelo Grêmio sem sofrimento, na maior parte das vezes de ouvido apenas.

    Em Familia

    Tantas dúvidas e apreensões não resistiram atė a esquina da Saldanha Marinho, rua que sempre marcou o início do meu passeio ao Olímpico. Os primeiros passos na companhia deles foram suficientes para perceber quanta bobagem desnecessária havia passado pela minha cabeça. Temer o quê, se estar ali com meus dois filhos – acrescido de mais dois caras muito legais em minha vida – era, sim, o mais importante. Maior do que qualquer outra coisa que o futebol pudesse me proporcionar.

    Entrar no Pórtico dos Campēoes com eles em meio a multidão entusiasmada de gremistas foi especial, estávamos quase correndo como se não suportássemos mais a ansiedade de entrar no estádio e encontrar nosso lugar para gritar e comemorar aqueles instantes juntos.

    Pouco antes de subirmos ao nosso espaço não-reservado, encontrei dois velhos conhecidos. Verardi, eterno supervisor do clube, e Pedrão, antigo segurança sempre presente ao lado do time. Foi ele quem me lembrou de frase-lamento que repeti várias vezes ao meu pai sempre que uma adversidade surgia no caminho do Grêmio: “estão nos roubando, pai!?”

    Desta vez ninguém me roubaria a alegria de estar com meus dois filhos no Monumental, independentemente da estratégia armada pelos técnicos e do jogo jogado pelos times.

    Quis o destino, porém, que a alegria fosse completa.

    Meu time e a minha torcida foram cúmplices da satisfação de cantar trechos do hino rio-grandense ao lado dos meninos, de aplaudir a escalação e a movimentação dos jogadores, de socar o ar na bola que explodia no travessão ou fora tirada do adversário com um elegante carrinho.

    Foram cúmplices na festa do gol, dos três gols, emocionantes gols marcados por nossos ídolos. Os de André, Jonas e Douglas. Os evitados por Vítor e Paulão. Os quase feitos por Clementino. Os que se tornaram possíveis graças a inteligência emocional de Renato.

    Meu prazer, nosso prazer, de estarmos pulando, abraçando um ao outro, rindo dos torcedores boca suja, vibrando com o resultado e pedindo sorvete para matar a sede me fez criança como eles. Como na época em que eu era eles. Em que eu era apenas um menino apaixonado pelo seu time.

    Hoje, sou o pai desses meninos. Meus meninos gremistas.

    Vibrar

    18 comentários sobre “Avalanche Tricolor: É muito bom ser pai desses meninos

    1. Quanta emoção ao mesmo tempo. Todas as belas palavras ainda não conseguem traduzir. Parabéns aos novos tricolores pé quentes que ainda puderam ver o Olimpico dessa maneira. Esta geração frequentará na maior parte a nova casa, que importante que levem este espírito para lá. Abraços tricolores.

    2. Muito bom o texto!

      Essa emoção descrita, a sensação de felicidade pura, a ansiedade, a volta à infância… É assim mesmo. E nada melhor do que compartilhar tais histórias, tais momentos, tais sentimentos com aqueles que amamos.

      A cumplicidade que se forma entre os apaixonados pelo mesmo time é uma das mais difíceis de se quebrar.

      Viva o Imortal Tricolor!

    3. Que texto. Fiquei sem palavras e tocado. Nao sou pai, e meu pai, se tratando de Futebol, foi meu coração, pois meu pai de fato é colorado (mesmo assim o amo, heehhehe) e aprendi a entrar no Monumental com meus próprios pés…

      Eu estava lá, em meio a multidão da Geral, com avalanches, minha prima/irmã e abraços a pessoas desconhecidas que no momentos você só pensa em um motivo para comerar com eles: Somos todos gremistas. Nada mais importa.

      Parabéns por este relato, por esta emoção e por fazer seus filhos terem um ótimo fim de semana contigo!

    4. Foi uma tarde de orgulho, né?
      Família bonita e o Grêmio como sempre.
      O esporte, em especial o futebol, tem a magia de transbordar alegria.
      Que sejam assim, felizes, todos os torcedores, parabéns!

      Agora, o Grêmio fez a sua parte, mas falta secar o Goiás na quarta.
      Sinceramente, apesar de não ser Gremista, prefiro ser mais bem representado por um time mais coração do que o Goiás.
      Mas, que vá o melhor!

    5. Que lindo texto! Quanta verdade e sabedoria nessas linhas! Ameiii!! Posso confessar que deixar escapar algumas lágrimas… tudo bem que eu sou um tanto chorona, mas emocionar-me assim, com tanta alegria, foi estupendo!
      Essa ansiedade que percorre o corpo todo quando nos aproximamos do portão de entrada é realmente indiscritível, e os abraços e o sorriso que estampa os rostos quando, finalmente, o momento mais esperado se concretiza, não tem preço.

    6. Milton, linda família. Parabéns. No Domingo a tarde na Tv Cultura de SP vendo jogos do passado de 1971 vi a legenda: Narração: Milton Jung. Acredito que não seja vc, em 71 vc deveria ser ainda um guri. Rsss Acredito que deve ser o Jung Pai. Certo? Igual o desenho: Bob pai bob filho. Rssss Sucesso Sempre brother. Boas Férias e Boas Festas.

      • Daniel,

        O Milton que você ouviu ė mesmo o meu pai, vô dos meninos da foto e que aparece nos comentários deste post. Narrador de primeira categoria, não tenha dúvida. Pra conferir ouça os gols da primeira libertadors conquistada pelo Grêmio que estão no You Tube

    7. Quando o Mílton me telefonou pedindo que conseguisse lugares para ele e os meus netos,mais Christian,meu rebento mais novo e o filho dele,levei medo. Sabia que a procura por ingressos seria enorme. Como fazer para não decepcionar minha turma?O velho amigo Verardi me salvou,facilitando a entrada dos cinco no Olímpico. Seria preciso,porém,que o Grêmio fizesse a sua parte. E como fez! Sobraram gols. A vitória foi um presente para os meus,vindos de São Paulo,e os dois daqui, Para a alegria deles,minha e de todos os gremistas ser completa falta a confirmação da Libertradores. Esta independe do Grêmio.Fosse o Imortal a entrar em campo e não haveria problema. É duro ter de confiar nossa sorte a outos pés.

    8. Oi Milton
      O seu relato me fez lembrar os tempos que meu pai me levava no “Morumba” assistir os jogos.
      Obviamente o glorioso SÃO PAULO FUTEBOL CLUBE, infelizmente não mostrou muita coisa nestes últimos campeonatos.
      Tempos bons que não voltam mais, pore´m ficam como agradáveis lembranças em nossas mentes.
      Sou pais de filhas e estas adoram esportes, mas não o futebol.
      Aha!
      Mas tenho um neto.
      Só que Curintiano
      Fazer o quê ne?
      Afinal nada é cem por cento e ninguem é perfeito.
      Mas a sua atitude em levá-los ao campo, certamente esta passagem jamais sairá das cabecinhas “das suas crianças” assim como eu e outros tantos.
      Um dia, recentemente tive a satisfação e o grande prazer de conhecê-lo pessoalmente.
      Durante “um longo” papo, notei claramente a sua sensibilidade como pai e chefe de familia.
      Parabéns pelo texto e que Deus ilumine a todos os seus.
      Nada melhor que poder curtir ferias, dias agradáveis junto a familia, filhos, esposa.
      Curta muito suas merecidas férias.
      Aqui em SP garoando em pleno “quase verão”, cinzento.
      Grande abraço
      Armando Italo
      http://www.blogdoaitalo.blogspot.com

    9. Pois é meu irmão só tu mesmo vindo de São Paulo para me levar a um jogo de futebol do nosso time sabes que nunca fui totalmente apaixonado pela modalidade esportiva isso desde os tempos de acompanhar o Pai na cabine de transmissão dos jogos. Lembro de um jogo no interior que no primeiro minuto de jogo o bandeirinha recebera um pacote de cal pela cabeça. Confesso que me liguei mais no detalhe engraçado que no jogo. Hoje vejo que se realmente acompanhesse os jogos com o mesmo fervor não teria coração para aguentar. Dos que assisto nunco fico tranquilo durante os 90 minutos é realmente muito difícil não se envolver.
      O jogo que fomos ver realmente foi muito bom e o Grêmio demosntrou a sua superioridade em campo. Ainda melhor foi poder estarmos ali juntamente com essa nossa turminha que não tão distante estarão levando os seus filhos aos jogos, talvez aí sim acompanhados de dois velhos babões.
      Bom tu mais babão porque é o mais velho!!!
      Foi ótimo estar lá e poder contar com a presença de vocês.
      Forte abraço!

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