Avalanche Tricolor: não se lamente, Ricardinho! 

Grêmio 2×0 Brasiliense

Copa do Brasil – Arena Grêmio

Ricardinho no caminho do gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Um gol, uma assistência e a cara de lamento no banco —- assim foi, na tarde desta quarta-feira, Ricardinho, o goleador que assistimos nascer no berço tricolor, desde que foi descoberto em São Paulo. Que tem marcado um gol a cada duas partidas disputadas, neste ano. E gols de um de um tipo de centroavante que há algum tempo faz falta para nós. Na trombada, na bola sobrada, na perspicácia de roubar do zagueiro desatento ou aproveitando-se da falha alheia. 

A cada gol uma emoção nos atinge. Ricardinho bate continência para a câmera e ergue a camisa para revelar ao público a homenagem eterna ao pai e ao avô, que morreram de Covid-19. Uma perda que, claramente, ainda causa dor no guri de apenas 20 anos. Ele próprio, dia desses em entrevista coletiva, agradeceu pelo acolhimento dos companheiros e pelo fato de que quando entra em campo consegue amenizar o sofrimento da morte de gente que para ele é referência na vida.

Hoje, foi na disputa apertada, dentro da área congestionada de marcadores, que Ricardinho fez o Grêmio desencantar e abrir o placar na nossa estreia na Copa do Brasil, aos 44 minutos do primeiro tempo. Na volta para o segundo tempo, novamente foi ele, o oportunista, quem percebeu a falha na reposição de bola do goleiro e a desatenção do zagueiro, para arrancar em direção ao gol. Chutou uma, duas vezes. Até encontrar Jean Pyerre na pequena área pronto para empurrar a bola às redes. 

Ricardinho foi essencial para a vitória que deu boa vantagem ao Grêmio nesta briga por uma vaga à próxima fase da Copa do Brasil.

Não foi o suficiente para o nosso atacante sair satisfeito de campo. Um erro que ele cometeu aos 19 minutos do segundo tempo —- quando o Grêmio já tinha vantagem —-, ao desperdiçar o gol aberto e colocar a bola no travessão, deixou o centroavante inconformado.

Nosso jovem goleador lamentou, socou a trave, bateu as mãos nas pernas, tapou o rosto quando sentou no banco, logo que foi substituído. Vai dormir essa noite com o lance na mente; com a tristeza de quem fez o mais  difícil e não soube concluir a gol.

Não se lamente, Ricardinho! 

A gente até entende seu desejo de marcar e marcar cada vez mais gols. É importante que tenhamos esse desejo de acertar sempre. De sermos perfeitos —- mesmo que saibamos que somos apenas humanos. De pararmos para pensar por que erramos ou como evitar esse erro novamente.

Mesmo que você leia aqui ou acolá alguma crítica ao gol perdido, tenha certeza de que o gol marcado e o gol armado por você foram muitos mais relevantes. Se você perdeu um gol feito é porque você se fez presente para tentar marcar mais uma vez. Assim é a nossa vida: acertamos e comemoramos; erramos e aprendemos; sorrimos e sofremos. 

Valorize suas conquistas —- elas nos fizeram muito mais felizes nesta estreia da Copa do Brasil. E, em nome desta felicidade, agradecemos a você, Ricardinho.

Avalanche Tricolor: lições da estreia

Ceará 3×2 Grêmio

Brasileiro – Arena Castelão, Fortaleza CE

Vanderson é destaque na foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Nossos jovens —- que preferimos chamar de guris —- têm sido exaltados nessa temporada que começou tarde, atropelada e muito disputada, em 2021. E por jovens ou guris que são, tanto devemos esperar momentos de exuberância quanto temos de estar prontos para assistirmos a ações descompassadas. 

Na estreia do Campeonato Brasileiro, tivemos os extremos da juventude em campo.

A jogada atrevida de Vanderson no fim do primeiro tempo, com uma puxada de ponta da chuteira e o giro sobre a bola, que deixaram os marcadores perdidos,  foi um desses instantes incríveis. Um lance que se perderia nos melhores momentos da TV não tivesse sido concluído com uma tabela rápida dentro da área com Matheus Henrique e o gol do nosso lateral direito.

Aquele início de segundo tempo, com Jean Pyerre, de cabelo descolorido  e sua nova camisa 88, metendo a bola onde o marcador não alcança, também foi genial. Melhor ainda foi ver Vanderson, mais uma vez, acreditar na roubada da bola quase fora de campo, na sua defesa, o que proporcionou o lançamento para Leo Chu, na esquerda, que saiu atrás, atropelou e superou o tranco do marcador para cruzar na área e encontrar o artilheiro Ricardinho —- que foi veloz e preciso na conclusão a gol.

Por outro lado, faltaram sorte e poder de decisão para Ruan em quem a bola desviou no pé no primeiro gol tomado e quem não a despachou como deveria no início do lance que resultou o segundo gol. Assim como faltou malícia a Brenno que se tivesse seguido na jogada teria boas chances de impedir o terceiro gol —- haja vista as defesas que já tinha proporcionado ao longo da partida, duas delas salvadoras.

O revés faz parte da construção da personalidade da gurizada. Aprender com erros e decisões mal tomadas é primordial. Que a a lição de casa seja feita para que possamos o mais rapidamente possível recuperar os três pontos perdidos na estreia do Brasileiro.

Avalanche Tricolor: pra cumprir tabela

La Equidad 0x0 Grêmio

Sul-Americana – Estádio Bellavista, Equador

Foto: Divulgação / Conmebol / Twitter

Classificado por antecedência e com merecimento, o Grêmio foi para a última partida desta fase de grupos da Sul-Americana com poucas pretensões. Fez o suficiente com o pouco que tinha de jogadores —- apenas 15 viajaram para o Equador e um deles, Pedro Lucas, ainda se sentiu mal antes do jogo. Nenhum dos garotos tinha mais de 21 anos e para a maioria era a primeira chance entre os profissionais. Todo o restante do grupo permaneceu em Porto Alegre treinando para o início do Brasileiro.

Diante da altitude, o Grêmio precisava poupar o fôlego de todos que estavam em campo, sob risco de não ter quem os substituíssem. Ainda sofreu revés logo no início com a lesão de Elias, após uma das muitas entradas violentas da marcação adversária. E desperdiçou um pênalti no segundo tempo em cobrança ruim de Guilherme Azevedo.

Foi o suficiente, mesmo que tenha tido a vantagem de dois jogadores a mais, após as expulsões assinaladas pelo árbitro para coibir a violência do adversário. O importante era  manter a invencibilidade e garantir a melhorar campanha na competição —- muito mais para pela preservação do bom astral dessas últimas semanas do que propriamente pelo destino na Sul-Americana. O que tinha de ser feito já havia sido feito. E fomos ao Equador apenas cumprir tabela. Cumprimos.

Agora é esperar a estreia no Campeonato Brasileiro.

Avalanche Tricolor: “aí vem o Grêmio!!!” e outros capítulos do rádio gaúcho

Aragua 2×6 Grêmio

Sul-Americana — Caracas/Venezuela

Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Os que tiveram o privilégio de ouvir transmissões de futebol na época de ouro do rádio gaúcho têm na memória o grito que marcava a entrada do time do Grêmio no estádio Olímpico. ‘Aí vem o Grêmio!!!’ — com direito ao alongamento de todas as vogais e tom de voz firme —- era a senha do repórter de campo João Carlos Belmonte para a explosão de alegria do torcedor que recepcionava seus jogadores aos gritos e sob foguetório. Ele ficava com microfone da Rádio Guaíba em punho ao lado da escadaria que dava acesso ao gramado e a medida que os jogadores se posicionavam em fila, citava nome a nome, e a cada nome o coração batia mais forte no nosso peito.

O ritual se repetia no Beira Rio com o time da casa —- e dizem as más línguas com uma pitada maior de alegria, reveladora; eu não concordo. Mas como esse espaço tem suas exclusividades, vou me ater a emoção que Belmonte provocava na nossa torcida. Era mágico. Transgressor. Porque seu olhar e palavras devassavam o escurinho do túnel, quase sagrado, tantos eram os ídolos que se reuniam a espera da batalha. Belmonte descrevia a movimentação dos jogadores, a conversa ao pé da orelha e os gritos motivacionais, tudo hoje naturalizado pelas câmeras de televisão e pelo insípido cerimonial de entrada em campo.

Quando Belmonte fazia do rádio magia, eu era  guri de manga curta, ouvinte e gremista encantado pelas palavras dele.

Vibrava no cimento do Olímpico acompanhando a festa comandada pelo repórter de rádio que mexia duplamente com a minha imaginação. Por torcedor que era e por jornalista que sonhava ser. Transformei-me repórter de campo anos à frente. Anos luz distante do talento de Belmonte e outras feras que fizeram o rádio gaúcho ser dos melhores do Brasil. Ele e a mulher Ligia —- recentemente falecida — eram amigos dos meus pais e faziam parte de um círculo de casais, ligados ao jornalismo, que saíam quase toda semana para jantar. Isso me gerou alguma intimidade com o Belmonte e com muita gente boa do meio. E colaborou para minha escolha de carreira.

Certamente, foi essa mesma convivência que fez Roberto Villar e o Caco Belmonte seguirem a carreira jornalística. Eles são os filhos da Ligia e do Belmonte e foram os responsáveis por convencer o pai a escrever suas histórias, curiosidades, estratégias e furos de reportagem no livro “Fala, Belmonte! Memórias do cronista esportivo”(Farol3 Editores). Um exemplar está aqui em casa, lido e guardado junto a outros três que deveriam, obrigatoriamente, fazer parte de um caixa literária sobre o jornalismo esportivo: “Olha Gente – As histórias de Lauro Quadros”, escrito pelo próprio; “Pedro Carneiro Pereira — O narrador de emoções”, de Leandro Martins, e, claro, “Milton Ferretti Jung. Gol, Gol, Gol, Um Grito Inesquecível na Voz do Rádio”, de Kátia Hoffmann.

Essa ‘coleção’ conta, em cada capítulo e livro, um pouco do que se fez no radiojornalismo e esportivo brasileiro, através da história de seus protagonistas —- dois deles dedicados à narração, Milton, o pai, e o Pedrinho; dois à reportagem e ao comentário esportivo, Lauro e Belmonte. Deve ser preservada porque traz a memória de um rádio que, mesmo permanecendo forte, já foi mais influente na opinião pública. Hoje, é inimaginável a cena de um repórter de campo regendo um coro de milhares de torcedores no ‘parabéns à você’ em homenagem ao jogador aniversariante com quem conversa ao microfone. Belmonte era capaz. 

É interessante saber como eram as jornadas internacionais em uma época pré-internet, a dificuldade de deslocamento, o improviso das estruturas e a qualidade com que se conseguia levar os fatos aos ouvintes, Em “Fala, Belmonte!” vale uma dedicação especial à cobertura do título Mundial do Grêmio, em 1983. Sim, Belmonte viveu intensamente aqueles momentos:

“Dias após o Grêmio conquistar a Libertadores de 1983, fui enviado ao Japão. Missão: desbravar Tóquio e remeter matérias à Rádio Guaíba e Correio do Povo, gravar um programa de uma hora para a TV2 Guaíba. Além disso, havia a missão ‘secreta’ de contratar linha 24 horas, disponível antes e depois do jogo final, conectando o nosso hotel e o estádio com a emissora em Porto Alegre”

Belmonte viveu e vive aqueles momentos, mesmo que aposentado. Conversei com ele dia desses para agradecer pelo envio do livro, oportunidade em que relembramos algumas passagens que teve com o pai. E na qual percebi que mantém uma das marcas de sua personalidade. Amigos mais próximos dirão que é a avareza — fama desmentida pelo próprio Caco Belmonte, no texto de introdução. Belmonte, para mim, além de referência jornalística, sempre foi um cara bem humorado. Alegre com o que fazia. E disposto a deixar seus ouvintes ainda mais felizes — como ficávamos lá no Olímpico, todas as vezes que ele anunciava: “aí vem o Grêmio !!!”

PS: sei que o caro e raro leitor desta Avalanche entenderá minha disposição de escrever sobre João Carlos Belmonte em lugar de ocupar este espaço, como sempre faço, com mais uma goleada gremista no exterior. A partida da noite de ontem era fava contada, apesar de ter me divertido muito em ver os guris brincando com a bola em campo. E o que importa mesmo nesta semana, vai acontecer domingo, em mais um Gre-Nal. Pena que o Belmonte não estará na beira do gramado para chamar a torcida ao delírio.

Avalanche Tricolor: de futebol, de Bruno Covas e da alegria de viver

Inter 1×2 Grêmio

Gaúcho — Beira-Rio, Porto Alegre/RS

Ricardinho comemora gol da virada em homenagem ao pai morto por Covid-19 Foto Lucas Uebel GrêmioFBPA

Deve achar estranho o caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche que depois de mais uma vitória em clássico, de virada, na casa do adversário e em final de campeonato, eu tenha demorado tanto para me apresentar neste espaço. Em outros tempos, a publicação viria ainda com o suor encardido do jogo sofrido e a emoção aflorando do coração à mente e da mente aos dedos que digitam cada palavra deste espaço. Estranho não é meu comportamento. São os tempos em que vivemos.

Estranhos e complexos. Difíceis de serem digeridos. Tomados de absurda desconsideração com o outro. Com a vida. Com a gente querida. Noticiamos mortes e a elas —- sim, com direito a pronome pessoal de tão familiares que se tornaram — somamos outras tantas. E de tanto que noticiamos, passamos a traduzir a tragédia sanitária vivida apenas em números: um + um + mil + uma centena de milhares …

Quando os corpos ganham nomes e histórias, a realidade se apresenta. Foi o que aconteceu comigo neste domingo ao acordar com a informação da morte de Eva Wilma, aos 87 anos, por câncer no ovário. Ela fazia parte da família, não fazia? Se não pelo teatro —- onde tinha talento impressionante, quase sempre ao lado do amado Carlos Zara —, certamente pela televisão que transformou seu rosto e sorriso populares. Familiares.

O almoço de domingo ainda não estava servido, quando chegou a notícia da morte esperada de Bruno Covas, aos 41 anos, também vítima de câncer. A doença do prefeito acompanhamos mais de perto. Desde que a descobriu, em outubro de 2019, tornou-a pública e a tratou com transparência —- apenas uma das muitas lições que aprendeu com seu avô e guia Mário Covas. Com seu exemplo, deve ter fortalecido muitas outras pessoas que sofrem do mesmo mal. Revelou resiliência e desejo de estar vivo — e isso é um mérito diante de atos que colocam dúvidas sobre a sanidade mental de algumas pessoas que parecem prezar a morte (a dos outros, lógico).

O domingo não havia terminado quando soubemos da morte de MC Kevin, aos 23 anos, vítima aparentemente de sua própria vontade, em situação ainda estranha ao nosso conhecimento. Confesso que do músico do funk sabia pouco. Mas era mais uma cara a ilustrar a morte. E isso tudo me impacta sobremaneira. 

A amenizar a dureza da realidade, havia o futebol na televisão, assistido ao lado do filho mais velho, que há algum tempo tem-se revelado tão ou mais gremista que o pai. Conhece cada jogador. Sabe quem deve entrar. Quem deve sair. Qual o caminho do gol a fazer e o do gol tomado. O futebol em família é outro dos fenômenos que fazem este jogo ultrapassar as fronteiras do esporte — e não vou me atrever a destrinchar essa teoria porque já foi feita por gente de alta qualidade como Gilberto Freyre, Eduardo Galeano e Franklin Foer. Dê um Google neles. Valem a pena!

Nos dois gols que marcamos, depois da decepção de sair atrás no placar, comemoramos juntos em pé no sofá da sala. Batemos as palmas das mãos. Nos abraçamos. Beijamo-nos. Fomos cúmplices no sofrer diante da tela quando aquela bola, quase no fim da partida, relou o travessão — se entrasse resultaria em um empate até aceitável, mas amargo para quem estaria próximo da vitória.

Mesmo naquela alegria fugaz do futebol e talvez até por isso, uma imagem não me saía da cabeça: a do dia em que o prefeito Bruno Covas apareceu ao lado de seu filho Tomás, de 15 anos, na arquibancada do Maracanã, semi-fechado devido a pandemia.

Apenas alguns poucos tiveram aquele privilégio. E a crítica sobre o prefeito foi intensa, pois enquanto ele estava por lá, deixava para trás a ordem de todos ficarmos em casa, aqui em São Paulo. Parecia uma contradição. Um desrespeito. Devia solidariedade ao povo paulistano, dizia-se. 

Covas explicou que seria uma oportunidade única torcer pelo Santos ao lado do filho, em uma final de Libertadores. Nunca disse, mas deixava explícito que lá estava não porque seria a única, mas porque seria a última. Ele tinha consciência do avanço da doença. Do drama pessoal que passava. Da dor de perder os momentos mais intensos de nossas vidas. Que em breve, não sabia quando, mas em breve, teria de abrir mão tão cedo de tudo aquilo que só nós que estamos vivos podemos usufruir, mesmo que não saibamos valorizar. 

Estar na arquibancada ao lado do filho era um prazer do qual Covas não queria abrir mão, a despeito das críticas que ouviria. Fui cúmplice dele ao não criticá-lo. Ele tinha esse direito. E o exerceu. Quem já se deu a oportunidade de pular na arquibancada e abraçar seu pai pelo gol assinalado ou o título conquistado, vai me entender. Já o fiz como pai e como filho. Tomás levará para a vida o gesto e o exemplo do pai, que nos deixa muitas lições — a começar a de termos consciência do que realmente é importante no nosso cotidiano, a quem devemos prezar e dedicar o nosso amor.

Espero um dia aprender essa lição por completo. Que não seja tarde.

PS: Ricardinho, que ilustra foto deste post, perdeu o pai e o avô recentemente e segue compartilhando com eles a alegria de cada gol.

Avalanche Tricolor: Ferreirinha é o futebol jogado com prazer

Grêmio 3×1 Lanús

Sul-Americana — Arena Grêmio

A bola a caminho do gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Um time com personalidade. Disposto a provar sua superioridade. Retomar o futebol que encantou o Brasil e a América, mesmo que para isso precise rever posicionamento, reajustar peças e revezar jogadores. Desde a primeira rodada da Copa Sul-Americana, o Grêmio tem tido 100% de aproveitamento, superando adversários dentro e fora de casa —- respeitando-os, com certeza, mas expressando em campo o futebol mais elevado que construiu nos últimos anos.

Hoje, entramos em campo com uma formação um pouco diferente daquela que estamos acostumados. O Grêmio deixou no banco jogadores que precisam retomar o fôlego para as partidas finais do Campeonato Gaúcho, demonstrando a importância de se ter um elenco equilibrado e o compromisso que assumiu de provar que, a despeito do revés inicial na temporada, segue grande e vitorioso.

Tiago Nunes escalou um time reforçando na entrada área com dois volantes que ofereceram mais segurança à defesa, sem perder a qualidade na distribuição de jogo: Thiago Santos, que tem se destacado positivamente, e Lucas Silva, que fez sua melhor partida desde que chegou ao Grêmio.

Havia ainda um terceiro falso volante na equipe: Matheus Henrique. O pequeno gigante do nosso meio de campo estava mais livre para armar lá na frente e chegar à área.

Como dizem os comentaristas de esporte: volante moderno tem de colocar o pé na área. Assim como havia feito na partida do fim de semana, pelo Gaúcho, Matheusinho surgiu entre os zagueiros para marcar de cabeça, aos dois minutos de jogo. Concluiu jogada construída por Ferreirinha.

Aliás, caro e raro leitor desta Avalanche, se você ainda não tirou algumas horas do dia para assistir a este guri jogar bola lá pelo lado esquerdo do Grêmio, não demore muito. Gente da qualidade de Ferreirinha não costuma ter vida longa no Brasil. Em breve, algum gringo estará assediando o menino. Ele faz chover. Raro atacante que dribla sem vergonha. Que irrita o marcador com seu talento. Que joga pra frente, em direção ao gol. E invariavelmente consegue chegar ao seu destino. Hoje, além da assistência para Matheus Henrique, marcou mais duas vezes. A primeira, depois de encontrar Rafinha livre na direita e correr para dentro da área para fulminar de cabeça no gol adversário. E a segunda, empurrando a bola bem passada por Diego Souza. Não por acaso, em quatro partidas nesta Copa Sul-Americana, Ferreirinha foi considerado o melhor jogador em campo em três delas —- incluindo a de hoje. Ferreira é o futebol jogado com prazer. 

Avalanche Tricolor: futebol e vitória no Dia das Mães

Grêmio 2×0 Caxias

Gaúcho — Arena Grêmio

Gol de Matheus, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Mesmo tonto depois do golpe na cabeça, na sequência do gol que marcou, Matheus Henrique ainda teve noção de procurar a microcâmera presa na parte alta da rede, olhar com carinho e mandar mensagem para a mãe: ‘eu te amo!’, teria dito ele —- foi o que entendi a partir de leitura labial. A mãe deve ter ficado orgulhosa tanto quanto preocupada pelo lance que levou o guri ao chão e o impediu de comemorar o gol que selou a presença do Grêmio em mais uma final de Campeonato Gaúcho.

Hoje, ao sair na frente no placar, aos 29 minutos do primeiro tempo, praticamente nocauteou o adversário, que já havia vencido na primeira semifinal, por 2 a 1, fora de casa. Tendo diante de si um time que não fazia resistência, o Grêmio limitou-se a levar o jogo até o fim, ainda que Ferreirinha insistisse em impor velocidade, driblar os adversários e tentar o gol. De tanto insistir, aos 37 do segundo tempo, deixou seus marcadores para trás com uma cruzada de pernas e marcou no canto esquerdo do goleiro. Fez por merecer. 

No primeiro gol tinha sido o responsável pela assistência ao fazer o lateral dançar e cair dentro da área. No segundo, foi protagonista desde o início da jogada. Deve ter deixado orgulhosa a mãe, a quem ajudava no trabalho da feira quando ainda era um guri de calça curta lá no Mato Grosso do Sul.

Geromel completou 300 jogos, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Outra mãe — e essa tive o prazer de conhecer —- que deve ter ficado bem feliz neste domingo é a do Geromel, ao ver o filho entrar em campo pela 300ª vez, vestindo a camisa do Grêmio. Nosso zagueiro e capitão cumpriu bem o seu papel, afastou os poucos riscos que o adversário ofereceu e demonstrou enorme esforço para posicionar a defesa que ainda se ajusta ao comando do novo técnico. 

Verdade que mãe é uma figura curiosa. Nem precisa que o filho faça gol, jogue bem, tenha talento e persistência para estar feliz com o pimpolho. A despeito do que o menino faça ou desfaça, ela sempre estará por perto para ajudar, acolher, disciplinar se necessário e justificar o que encontrar no caminho dele. 

Lembro muito da minha, que perdi cedo, quando estava começando a vida adulta. Era quem colocava ordem na família, puxava a orelha na bagunça e arremessava o chinelo para nos aquietar. Assim como era a primeira a partir em nossa defesa, abraçar e desculpar. 

Foi minha protetora sempre que precisei. Me safou de constrangimentos quando meu Grêmio aprontava das suas nas rodadas do fim de semana pelo Campeonato Gaúcho, especialmente nos clássicos regionais. No dia seguinte às derrotas clamorosas, era minha cúmplice. Percebendo minha dificuldade de encarar os colegas que torciam para o adversário, me perguntava antes de sair de casa se eu estava me sentindo bem: era a senha para eu fazer uma cara de dor e pedir para voltar para cama.

Naquele tempo, as segundas-feiras pós-decisão costumavam ser duras. Mas a Dona Ruth era forte. E não me deixava só. Atualmente, as segundas-feira até que têm sido muito generosas comigo —- até porque, convenhamos, o Campeonato Gaúcho perdeu boa parte da sua importância no calendário. Mas trocaria todos esses dias de vitória por tê-la ao meu lado neste domingo e poder, assim como fez Matheusinho, mandar um beijo para ela e dizer: “eu te amo, mãe!”

Avalanche Tricolor: gol, gol, gol ….

Grêmio 8×0 Aragua

Sul-Americana — Arena Grêmio

Foram necessários poucos minutos para saber o risco que corríamos de golear o adversário. Foi um, foram dois, foram gols atrás de gols. Por um lado. Por outro. Por cima. Por baixo. Confesso, perdi a conta no meio do caminho. E tive de algumas vezes conferir o placar na tela da televisão. Falar de um jogo assim, querer entender essa superioridade, é desnecessário. Por isso, deixo as palavras de lado e reproduzo as imagens de Lucas Uebel, fotógrafo do Grêmio FBPA, que acompanha o time onde o time estiver. Hoje, teve direito a cumprimento de Maicon, que marcou de penalti. Considere-se cumprimentado por mim, também, Lucas — a quem não conheço pessoalmente, mas usufruo da arte de registrar os mais belos momentos da nossa Imortalidade.

Avalanche Tricolor: meu WhatsApp com o Diego Souza tá bombando!

Caxias 1×2 Grêmio

Gaúcho — Centenário, Caxias/RS

Diego Souza comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Devo ser figura rara entre usuários do WhatsApp. O número de grupos no meu mensageiro é restrito. Aquele famoso da família, jamais foi construído. De amigos, nunca tive — refiro-me ao grupo, lógico, porque amigos consegui manter alguns na minha lista. Bem poucos para ser sincero. Mas isso resolvo no divã. O grupo do Jornal da CBN só se formou há um ano e por causa da pandemia. O outro que tenho são das duas turmas de aula que frequento. Têm data para expirar. O da Igreja preservo porque é apenas para receber recados. Ninguém pode escrever nele, além do administrador. 

Quem entra no meu WhatsApp, vê de cara a mensagem: “vale a pena?”. Pode parecer antipático, mas tem o objetivo de alertar as pessoas para que reflitam antes de escrever. Hoje, desperdiçamos muito tempo gerenciando a quantidade gigantesca de mensagens que navegam pelas mais diversas ferramentas de comunicação. Assim, sugiro: vamos escrever o estritamente necessário e ajudarmos a combater um fenômeno que tem causado sérios problemas de saúde mental: a infoxicação —- resultado do volume de informação que intoxica nosso cérebro, dificulta o entendimento dos fatos, e causa estresse e ansiedade.

Falo desses fatos em uma coluna destinada a comemorar (ou lamentar) resultados em campo porque graças a uma missão que assumi desde que Diego Souza foi contratado — por indicação de Renato, lembra?!? — meu WhatsApp está movimentado.

contei em Avalanches passadas que, ao saber que o filho querido do meu amigo Luiz Gustavo Medina é fã do atacante gremista —- vista qual camiseta estiver vestindo —-, decidi enviar uma foto de Diego comemorando cada gol marcado pelo Grêmio. Confesso que começou como uma tentativa, sem sucesso, de cooptar o menino, são paulino por influência do pai, para o nosso Imortal e hoje virou um ritual. 

Diego marca, saco o celular, registro a comemoração na tela da TV e envio para o WhatsApp do Teco. Pra ter ideia, só neste domingo, foram duas imagens transmitidas. Uma ainda no primeiro tempo, quando nosso goleador aproveitou uma bola desviada pelo zagueiro adversário e em um chute cruzado colocou o Grêmio à frente no placar. A outra foi na cobrança de pênalti no segundo tempo, quando parecia que não encontraríamos mais espaço na defesa que se postava diante da área para segurar o empate alcançado ainda antes do intervalo — a propósito, uma curiosidade: sabia que o Grêmio não desperdiçou nenhum pênalti neste ano?

Com os dois gols que deixaram o Grêmio em vantagem na semifinal e — se confirmarmos a classificação — levarão a decisão do Campeonato Gaúcho para a Arena, Diego Souza chegou a melhor marca dele em um início de temporada —- e duvido que outros tenham conseguido algo semelhante, neste ano: em nove partidas disputadas marcou 11 gols. Sim, mais de um gol por partida. Aos 36 anos, o artilheiro combina força, precisão e experiência para estar bem colocado, saber vencer a disputa pesada dentro da área e encontrar o momento certo para o chute. 

Graças a Diego Souza, meu WhatsApp tá bombando! 

Avalanche Tricolor: dois gols de um Grêmio que já conhecemos



Lanus 1×2 Grêmio

Sul-Americana — estádio La Fortaleza, em Lanús (ARG)

Festa de Ferreirinha no segundo gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Há quem já enxergue o redesenho do futebol do Grêmio, que está sob nova direção há pouco mais de uma semana. E veja nos dois gols marcados no freguês argentino, na noite dessa quinta-feira, as mudanças impostas pelo técnico Thiago Nunes. Longe de mim querer tirar o mérito do treinador ao escrever esta Avalanche, na manhã de sexta-feira, após ler parte da crônica esportiva e especializada do Rio Grande do Sul. A despeito de a chegada dele provocar o efeito ‘chefe novo’ que influencia o desempenho tanto de acomodados quanto de  desmotivados, tem potencial para tornar o time ainda mais forte, pelo que já mostrou na carreira que construiu até aqui. Porém, por mais que confie —- e eu sempre irei confiar —-, é preciso parcimônia na análise e um refresco na memória. 

Em 2017, o Grêmio enfrentou o mesmo Lanús em competição mais nobre e fase mais decisiva. Disputamos o título da Libertadores e vencemos a primeira partida no mesmo estádio de ontem —- La Fortaleza —- e com o mesmo placar de ontem. Coincidências, é lógico. Pois nem Grêmio nem Lanús conseguiram na temporada anterior alcançar a mesma performance da época em que se candidataram ao maior título sul-americano. Haja vista que hoje temos de nos contentar com a Sul-Americana.

Resgato o primeiro jogo daquela decisão porque basta um Google —- veja no vídeo a seguir —- para lembrar que os dois gols que nos abriram caminho para o título surgiram de jogadas semelhantes a que nos permitiram chegar aos gols de ontem: pelas pontas, com velocidade e talento.

Em 2017, o Grêmio saiu na frente no placar após a cobrança de escanteio do adversário. A defesa despachou a bola da área e foi parar nos pés de Fernandinho. Nosso atacante disparou contra os marcadores em altíssima velocidade até chegar na cara do gol e marcar. 

O segundo gol começou em outra arrancada de trás, com jogada  pelo lado esquerdo, em alta velocidade. A bola caiu nos pés do iluminado Luan e  nosso 7 usou de seu talento, driblou quem podia, deixou os zagueiros para trás e de cavadinha encobriu o goleiro para marcar aquele que foi o gol mais bonito da Libertadores.

A vitória de ontem começou a ser construída após a defesa tirar uma bola da área, o meio de campo brigar pela disputa dela e encontrar Ferreirinha inspirado na ponta esquerda. O guri, atrevido, fez um giro sobre o marcador e correu em direção ao gol para servir Leo Pereira, que também vinha em velocidade. 

Depois de levarmos o empate, reagimos novamente pelas pontas. Luis Fernando — aquele que fazia alguns arrancar os cabelos quando Renato mandava aquecer ao lado do gramado — arrancou pela direita, deixou o marcador para trás e serviu a quem estivesse chegando na área. Era Tiago Santos que estava a espera da bola quase na pequena área. Sim, aquele “volantão”, “perna de pau” e “velho”, que ao ser contratado foi motivo de críticas e pedidos de demissão de Renato, estava, aos 41 minutos do segundo tempo, lá no ataque para dar assistência à Ferreirinha que, mais uma vez, usou de talento para fazer a bola chegar nas redes.

A esta altura, você, caro e raro leitor desta Avalanche, deve estar pensando: o Mílton parece viúva do Renato. Que pareça!

A minha admiração e respeito por ele sempre será enaltecida neste espaço, mesmo com todas as ressalvas que já fiz e registrei em Avalanches passadas. Mais do que isso, porém, é que faço questão de dar crédito a quem merece, sem desmerecer os demais. 

Assim que Renato chegou ao comando do Grêmio, em setembro de 2016, muitos passaram a elogiar a maneira como o time estava se apresentando em campo —- como se aquela performance tivesse sido inventada naquele momento. Esquecíamos de que a lógica do jogo havia sido montada por Roger,  que mudou a maneira do Grêmio se comportar em campo, valorizando a bola no pé, o toque rápido e o deslocamento em velocidade. Renato aprimorou a marcação e soube aproveitar muito bem a estrutura deixada por seu antecessor. Fez o nosso futebol evoluir e se tornar campeão.

Com Tiago Nunes nossa expectativa é a mesma. O treinador vai implantar o que pensa ser o futebol moderno, a partir de um modelo de jogo que já conhecemos há algum tempo e se transformou em uma de nossas marcas. Ele não vai reinventar o Grêmio. Vai evoluir com o Grêmio. E nos fazer campeão, mais uma vez! É a minha esperança.