Fora da Área: Felipão joga com as palavras para motivar o Brasil

 

 

A coisa está do jeito que o diabo gosta. Sob pressão, necessitando do resultado a qualquer custo e sem espaço para favoritismo, Luis Felipe Scolari sabe como poucos motivar sua equipe, unir o grupo e tirar 110% de cada um de seus jogadores. Foi Renê Simões, que já treinou algumas equipes no Brasil e a seleção feminina, quem me chamou atenção, em entrevista ao Jornal da CBN: Felipão sabe bem atuar neste cenário. E nós que já torcemos pelos times treinados por ele sabemos mais ainda. Por tudo isso, arrisco dizer que o empate contra o México, semana passada, talvez tenha sido o ponto de partida para o Hexa, que muitos começaram a duvidar após as duas apresentações claudicantes do Brasil, pelo grupo A e, especialmente, pelos primeiros resultados de seleções como Alemanha, França e Holanda. O resultado colocou as coisas nos seus devidos lugares. Desde o título na Copa das Confederações havia um otimismo exagerado em torno da nossa seleção que vale muito mais pelo seu conjunto do que pela excelência individual, exceção a Neymar, único com capacidade de colocar a bola embaixo do braço (ou do pé) e desequilibrar sozinho a partida. O Brasil chegou com uma mão na taça, acreditavam muitos. Um tremendo risco de sairmos com as mãos vazias.

 

Desde o empate, Scolari tem comprado briga nas entrevistas coletivas. Criticou, em tom de ironia, logo após o jogo, de que estava proibido marcar pênalti a favor do Brasil. Nesse domingo, na última fala aos jornalistas antes de a partida decisiva com Camarões, Felipão disse que o técnico Louis van Gall é burro ou mal-intencionado. Foi seu contra-ataque após ouvir o holandês reclamar que o Brasil poderá escolher o adversário na próxima fase pois jogará depois de Holanda e Chile, que decidem primeiro e segundo lugares no grupo B, da Copa. Disse, repetiu e completou: “bem que o Rivaldo havia avisado”. Ou seja, não disse mas deu a entender: o mal de van Gall não é a inteligência, é o caráter. Além de conhecer muito de futebol, Scolari sabe que as palavras, em público e em grupo, são importantes. Podem influenciar o juiz, o adversário e a torcida. Principalmente, podem motivar os jogadores. Ronaldo, o Fenômeno, confidenciou a amigos que nenhum técnico em sua carreira fazia preleção de tanta qualidade e motivação quanto Scolari. Depois de ouvi-lo no vestiário, disse o atacante, os jogadores sobem para o gramado dispostos a matar ou morrer.

 

Nesta segunda-feira, Luis Felipe Scolari, além de repassar a estratégia tática e o posicionamento em campo, usará todos os artifícios para mobilizar novamente seus jogadores na busca pela classificação. Falará das críticas que o time tem recebido, da desconfiança que começa a gerar, da provocação dos adversários, de que todos querem tirar o Brasil da Copa e tudo mais que ele encontrar como motivo para mexer com os brios de nossos atletas. Vai escalar a mesma equipe que começou a Copa, informam os repórteres que acompanharam o último treino. Sua intenção é clara: sinalizar o quanto confia em cada um deles. Aposta que com confiança os volantes terão melhor desempenho, os alas chegarão mais na linha de fundo, o meio de campo articulará a bola com mais qualidade e nossos atacantes, especialmente Fred, deixarão sua marca. Com confiança e futebol, duas coisas que Felipão entende muito.

Fora da Área: quem diria, o Itaquerão virou Arena na Copa

 

 

Vestido para a Copa, a Arena Corinthians deixa de ser Itaquerão. É a primeira impressão que se tem com a proximidade do estádio que foi desenhado com arquitetura diferente da que estamos acostumados. Os velhos campos de futebol e as novas arenas têm, em sua maioria, linhas arredondadas com arquibancadas, cadeiras e camarotes sobrepostos em várias circunferências. À distância, desde o estacionamento onde o ônibus fretado nos deixou, a arena, que visito no dia em que Uruguai e Inglaterra se enfrentaram pela segunda rodada do grupo D do Mundial, lembra um ginásio poliesportivo muito grande. Há os que brincam dizendo que se parece com uma impressora caseira. A medida que nos aproximamos, entendemos melhor a estrutura entregue poucas semanas antes do início do Mundial e que causou tanta polêmica seja pela necessidade, seja pelo custo, seja pelas mortes (aliás, não encontrei nenhuma referência a estes que perderam a vida durante a obra). O material usado é de primeira linha e o telão na área externa, que dá as boas-vindas aos torcedores se destaca pela tecnologia. Os métodos e processos implantados são marcas da construção que quase não percebemos mas que que se tornam fundamentais para oferecer qualidade e modernidade ao ambiente. Já ouvi falar do ar condicionado que deixa a grama na temperatura ideal e a manterá em condições para não se errar um só passe – como brincou há algum tempo o ex-atacante Ronaldo. Disseram-me, ainda, que os vestiários são excepcionais com área suficiente para pequeno campo de treinamento, o que dará mais conforto e eficiência ao aquecimento pré-jogo.

 

Sob a direção da Fifa, impressiona mesmo a quantidade de funcionários e voluntários e a forma como se esforçam para melhor atender ao público. Talvez por ter cara de gringo ou devido ao vermelho britânico do casaco que vesti para enfrentar o frio da quinta-feira passada, em São Paulo, muitos arriscaram palavras em inglês enquanto outros preferiram a mímica em lugar do diálogo. Todos, porém, eram bastante solícitos e se não eram capazes de dar uma resposta logo procuravam alguém que resolveria a dúvida do visitante. Mesmo aqueles com cara de segurança sabiam ser simpático e talvez por isso são chamados internacionalmente de “steward” palavra que em inglês pode ser traduzida também como mordomo, o que de certa maneira mostra mudança de conceito em relação aos brutamontes de terno e gravata pretas que geram medo em lugar de respeito na maioria dos eventos. O sorriso no rosto não é suficiente, porém, para fazer as filas do banheiro e dos bares andarem mais rápido do que os ponteiros do meu relógio que mostravam faltar mais de 30 minutos para entrada das seleções no gramado quando encarei a primeira delas. Banheiro em estádio é quase tudo igual diante do comportamento dos torcedores mais entusiasmados que gritam, riem e dizem bobagens típicas de homens em bando. O da Arena Corinthians ao menos é bonito e, aparentemente, limpo. Espero que resista assim quando ocupado apenas pelas nossas torcidas. As atendentes da lanchonete, assim como a maioria dos funcionários, oferecem simpatia na falta da maioria dos produtos que aparece na tabela de preços. Cerveja, refrigerante e água têm de sobra. Tudo feito e tudo servido, nesta ordem, volto para minha cadeira já com a bola rolando. Entrada das seleções, hinos entoados e apito inicial ficam para a próxima.

 

Assistir ao jogo em estádios construídos com a concepção de arena é um privilégio que havia tido há quatro anos quando fui ao Green Point, na Cidade do Cabo, uma das cidades-sede da Copa do Mundo na África do Sul. A sensação foi muito parecida pois a arquitetura coloca o torcedor próximo do campo, independentemente do lugar que você sentar. “É imagem Full-HD”, brincou meu companheiro de torcida. Bem verdade que as arquibancadas provisórias, que serão retiradas assim que a Copa se encerrar, além de quebrar a harmonia visual, não parecem oferecer o mesmo conforto dos demais espaços. Ficaram muito altas, distantes e sem cobertura. Devia fazer frio demais lá em cima, porque próximo do gramado a temperatura já era suficientemente baixa. Os dois telões são muito úteis e consultados a qualquer lance pelos torcedores. É uma pena que para restringir a pressão sobre o árbitro os momentos mais polêmicos são censurados pela Fifa, diferentemente do que acontece na televisão. Já a imagem revelando os torcedores faz a festa de todos os presentes. Outro destaque na Arena da Copa é a mistura de brasileiros, uruguaios e ingleses que nos dá a ideia de civilidade, sempre ausente nos jogos locais. Havia setores dominados pelos azuis e dominados pelos vermelhos, mas o colorido das arquibancadas sinaliza que a convivência é possível na Copa. Temo que isto jamais se repita após o Mundial. A experiência se completou pelo acesso que tive ao centro de imprensa e ao salão das entrevistas coletivas, no qual desfilei por escadas e portas largas com piso de mármore. A acessibilidade me chamou atenção e a facilidade com que os torcedores entram e saem das arquibancadas, também. O estádio se esvazia rapidamente e com segurança. Demorado é o caminho de volta para casa, devido a enorme distância de Itaquera ao centro de São Paulo, sem falar de outros bairros nas zonas Sul e Oeste da capital paulista.

 

Assim que a Copa passar, o Corinthians retoma o local e boa parte da estrutura de atendimento será desfeita, tanto quanto as arquibancadas provisórias. Muitas obras precisarão ser concluídas, dentro e fora da Arena. Agora, com certeza, seus torcedores assistirão aos jogos com muito mais conforto e precisão e terão bons motivos para se orgulhar. Espero que as torcidas organizadas e o nosso futebol desorganizado não desperdicem esta oportunidade e permitam que o Itaquerão continue sendo a Arena Corinthians (ou a Arena de São Paulo, como batizou a Fifa).

Um empate em memória do amigo Salvador

 

Milton Ferretti Jung

 

Somos dois aqui em casa que acompanhamos a Copa do Mundo pela televisão:Maria Helena,minha mulher,e eu. Não faço a mínima questão de assistir a algum jogo na Arena Beira-Rio ou seja lá como estão chamando o reformado estádio do Inter. Não deixei de ver até agora nenhuma das já várias partidas disputadas. Somente sento à mesa da cozinha para tomar o café da manhã. Faço as restantes refeições diante da tevê do living. Já Maria Helena divide o interminável CityVille,que ela joga no computador,com os embates que rolam pela televisão. Não sei como ela consegue acompanhar a Copa e o seu jogo compartilhado por amigas de várias nacionalidades. Sei que Malena,como é chamada pelos íntimos,não gosta do futebol português e implica,especialmente,com o craque Cristiano Ronaldo. Nem preciso dizer para que seleção ela torceu no dia 16.

 

Ao contrário de Malena,eu fiquei com pena do Melhor Jogador do Mundo. Ele é vaidoso,mas vá lá. No jogo contra a Alemanha,Cristiano,além de estar enfrentando uma equipe que, em matéria de futebol pode ser vista como,no bom sentido,Deutschland über alles,não contou com o apoio dos seus companheiros. Deixaram-no abandonado. Não há quem não saiba que,em um esporte coletivo,embora alguns sejam protagonistas,os demais têm de exercer da melhor maneira possível as suas funções. E não foi isso que se viu em Alemanha 4 x 0 Portugal.

 

Assim como não gosta de Cristiano Ronaldo e,por tabela,da Seleção Portuguesa,Maria Helena cai de amores pelo México. Ocorre que,por seis anos,cultivamos forte amizade com um mexicano,odontólogo e professor universitário,com quem conversamos diariamente pela internet. Ele sabia tudo sobre computadores. Quando as nossas máquinas não funcionavam a contento,Ignacio Salvador Mendés Ordóñes as corrigia por controle remoto. Malena e eu tivemos nele um extraordinário professor de espanhol. Hoje,ela fala e escreve nessa língua com perfeição. Em troca,eu escrevia para ele em português,bancando professor. Salvador,de uma hora para outra,desapareceu. Creio que morreu,porque era uma pessoa com saúde frágil. Sentimos sua falta,mas ficamos apreciando o México e,por extensão,a sua Seleção,graças à nossa amizade com ele. Em homenagem a Salvador,torcemos por um empate no jogo dessa segunda-feira. Achamos que,com isso não estaríamos traindo a nossa Seleção.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Fora da Área: empate do Brasil é resultado do lugar comum

 

 

É jogo de Copa do Mundo.
São onze para cada lado.
Contra o México é sempre difícil.
Todo mundo quer jogar contra o Brasil.
Temos que respeitar o adversário.

 

Jogadores de futebol costumam ser bem mais criativos com a bola no pé do que com as palavras, por isso não me surpreende o desfile de lugar-comum nas declarações ao fim do jogo, como nesta terça-feira, em Fortaleza. Em raras oportunidades encontramos afirmações relevantes ou explicativas, quando muito tiramos algumas “aspas” para escrever a reportagem ou destacar em manchete (tirar aspas, no jornalismo, é reproduzir a frase ou expressão usada pelo entrevistado). Portanto, não me surpreenderam as entrevistas que assisti na televisão com jogadores brasileiros ainda ofegantes e suados, minutos após o empate em zero a zero com o México.

 

Esperava mais deles dentro de campo. Lá, sim, me parece, faltou criatividade para driblar o forte bloqueio mexicano e encontrar espaços que nos permitissem chegar ao gol da vitória. Às vezes, havia dois, três e até quatro jogadores marcando nossos principais talentos, em especial Neymar. Mesmo assim, o camisa 10, com seu topete esbranquiçado, foi responsável por dois dos principais lances de gol que tivemos nos 90 minutos. Na primeiro deles, surpreendeu-nos com um salto que o agigantou diante dos zagueiros mexicanos. A cabeçada foi bonita, a bola – apenas para usar um lugar comum dos locutores de futebol – tinha endereço certo, mas aí apareceu aquele camisa 13 deles para impedir o gol. Ochoa com sua cara de guri novo se esticou todo e conseguiu espalmar para fora. Fez naquele momento, fez depois com Paulinho, fez ainda com Tiago Silva, quando já havia feito, pouco antes e outra vez, com Neymar. Foram quatro defesas incríveis. Nem dava pra reclamar, afinal se os goleiros tem alguma função no futebol esta é a de estraga-prazer. E Ochoa a exerceu muito bem. Roubou o prazer de milhares de torcedores no Estádio do Castelão, em Fortaleza, e de milhões de brasileiros que esperávamos por mais uma vitória na Copa.

 

Há quem tenha ficado muito incomodado com o empate e a falta de solução para superar o adversário, contra quem, aliás, não temos tido muita sorte nas últimas décadas. A sensação se justifica pois estamos muito mal acostumados. Para nós é mais comum assistir ao Brasil vencer. Desde a Espanha’82, por exemplo, vínhamos ganhado as duas primeiras partidas do Mundial. Lá se vão 32 anos. Além disso, Luis Felipe Scolari havia vencido todos os jogos em que comandou a seleção em Copas da Confederação e do Mundo (a propósito, ainda não perdeu nenhum.) Seja com for, eu considerei o resultado de hoje a coisa mais comum do mundo, já que estávamos diante de uma seleção complicada de se passar, o empate nos deixa na liderança do grupo e muito próximo da classificação à próxima etapa. Além disso, prefiro identificar fragilidades agora, quando podemos nos dar ao luxo de sair de campo sem vitória, do que sermos surpreendidos nas etapas eliminatórias quando nos restará apenas chorar em caso de derrota.

Fora da Área: nona Helena veste a camisa porque hoje tem Brasil na Copa

 

Hoje tem Brasil na Copa. E lá vai a Nona Helena para o guarda-roupa tirar a camisa da seleção, guardada com carinho na gaveta a espera da partida seguinte. O uniforme é obrigatório para jogos do Brasil desde que se conhece por torcedora. Este ano, como a Copa é por aqui, caprichou na indumentária e, na loja perto de casa, comprou a corneta e a peruca verde e amarela. Aos 88 anos, espera pela seleção brasileira com a ansiedade de criança e não se cansa de se emocionar com o hino nacional. Provavelmente, legado dos tempos de aluna em que se perfilar no pátio da escola, antes da aula começar, era obrigação transformada em prazer. Sentada no sofá diante da televisão, porque ninguém é de ferro, põe a mão sobre o peito, acompanha a torcida reunida no estádio e não perde o ritmo quando levada a cantar à capela. Há quem jure que os olhos se enchem de lágrimas já nos primeiros acordes. Os netos acham divertido, os filhos tem orgulho e a Nona faz questão de espalhar na família que é apaixonada por jogo de Copa: “não perca um sequer!”. Quem vai jogar no lugar de Hulk, se é que Hulk não vai jorgar, ainda não sei, mas que ela vai estar a espera da seleção, não tenho dúvida.

 

A Copa tem dessas coisas. Provoca as mais estranhas reações em seus torcedores. E você deve ter visto muitas delas nas arquibancadas apesar de estar completando somente agora a primeira rodada de jogos. Existem torcedores enlouquecidos que vestem fantasias bem mais apropriadas a baile de Carnaval. Tem torcedores alucinados que saltam e cantam, e cantam e gritam, e continuam saltando, independentemente do que esteja acontecendo em campo. Tem os sofredores que fazem careta, roem unhas, esbravejam e choram o revés. Tem os críticos que parecem saber bem mais do que o técnico, gesticulam e orientam suas seleções mesmo que ninguém os ouça no gramado. Tem o torcedor do telão, que passa os 90 minutos pedindo para ser flagrado pelas câmeras de TV. Tem os religiosos, que agradecem aos céus cada graça alcançada nem que esta seja a desgraça do adversário.

 

Eu sofro muito mais quando o Grêmio está em campo do que a nossa seleção, o que não me tira a pressão. Ainda mais que, como já contei algumas vezes, torço por aqueles que admiro e o Brasil comandado por Luis Felipe Scolari merece minha admiração. Não vou vestir a camisa, encaixar a peruca ou cantar o hino (os ouvidos da família agradecem), mas esfragarei as mãos, massagearei as bochechas e pentearei o cabelo para trás com a ponta dos dedos quantas vezes forem necessárias. Ou até a seleção me convencer de que a vitória está garantida, o que costuma acontencer lá pelos 45 do segunto tempo.

 

Eu, assim como a Nona Helena, que não é minha nona mas a peguei emprestada para este texto, também sou apaixonado por jogo de Copa. E você? Vai torcer como? Porque hoje tem Brasil na Copa.

Fora da Área: a bola rola solta no centro de São Paulo

 

 

Eram apenas três garotos e uma bola, supervisionados pela bandeira do Brasil estendida na fachada do prédio que abriga a Secretaria Estadual de Justiça de São Paulo. O campo era de asfalto e delimitado pelo meio fio nas laterais e os carros estacionados fazendo às vezes de linha de fundo. Não havia goleiras demarcadas nem torcida organizada, menos ainda árbitro para impedir qualquer jogada violenta. Nem tinha necessidade para tanto rigor, já que o futebol jogado por eles não tinha adversário. Todos faziam parte do mesmo time, sem camisa ou patrocinador, e movidos por um só objetivo: a diversão. Flagrei essa cena ao lado do Pateo do Collegio, onde São Paulo foi fundada, no centro da cidade, que, nesse sábado à tarde, estava tomado de passantes e turistas – nenhum deles, porém, parecia interessado pelo acontecimento naquela praça, mesmo que o futebol fosse o motivo de muitos deles estarem por aqui. Ao contrário da maioria, fui logo conquistado pela espontaneidade dos gestos, as embaixadinhas desajeitadas e os gritos de gol. Parei, assisti ao jogo por alguns minutos, fotografei e fui embora. Não tinha o direito de estragar a naturalidade dos movimentos daqueles craques em formação.

 

É difícil encontrar garotos brincando de bola nas ruas da cidade, as calçadas quase não têm espaço e o meio da rua é arriscado. Nossos filhos saem pouco, os que gostam do futebol descem na quadra do prédio e os sem-prédio têm a opção dos campos dos clubes e escolinhas. Têm de marcar hora na portaria e adaptarem-se as burocracias locais. Nada tão natural como na época em que o dono da bola chamava a turma aos berros, atravessávamos para o outro lado da Saldanha Marinho, em Porto Alegre, e transformávamos o portão de grade do açougue do Seu Ernesto em goleira. O jogo rolava solto e somente se encerrava quando ao escurecer os pais davam o apito final. Às vezes, a partida era interrompida pelo próprio açougueiro que, avisado por vizinhos mal-humorados, saia da casa dele, há algumas quadras dali, e corria a tempo de salvar seu portão dos nossos chutões. Costumava ser tarde, os gols assinalados já haviam marcas eternas na grade.

 

Dentre tantas outras sensações, a Copa do Mundo nos faz crescer os instintos mais naturais do futebol, o desejo de tomarmos novamente as calçadas e jogarmos com as regras que nós mesmos determinamos, sem a interferência dos cartolas, a autoridade do juiz ou a ganância dos agentes. A alegria daqueles três meninos que tomaram o espaço público para si e o transformaram na sua Arena pode ser um dos muitos legados deste Mundial.

 

Vai lá, pega a bola escondida embaixo da cama e vamos às ruas!

Fora da Área: Brasil com amendoim, pipoca e sofrimento

 

Brasil 3 x 1 Croácia
Copa do Mundo – Arena Corinthians(SP)

 

 

Jogo do Brasil aqui em casa tem amendoim, pipoca, bolo doce e salgado. Tem vinho e guaraná, também. Tem família reunida, cunhado na poltrona, cunhada e sobrinha atiradas no sofá, filhos ao pé da TV e mulher para cá e para lá. Como parte da família é italiana, a torcida tem sotaques diferentes e divertidos. Menos mal que as vozes fazem coro. Só silenciaram para ouvir o hino nacional e compartilhar a emoção que estava no rosto dos jogadores brasileiros desde que se preparavam para entrar na Arena Corinthians. Desconfio até que os olhos mareados atrapalharam nossos craques naquele início de partida, impediram de ver a escapada do Croata pela esquerda, a bola que cruzou toda a área até bater nas pernas de Marcelo e o gol adversário. O primeiro gol da Copa do Brasil. Apesar de marcado por um brasileiro, contra.

 

Se jogo do Brasil tem amendoim, pipoca, bolo doce e salgado aqui em casa, tem de ter sofrimento, também. Foi sofrido sair perdendo, tanto quanto ver que a bola brasileira não rolava com precisão. Rolava truncada, mascada, às vezes desrespeitada. Ao menos estava rolando mais nos nossos pés do que no dos croatas, mas quando eles a dominavam o medo de mais um lance fortuito se transformar em gol soava à tragédia. O cunhado italiano parecia me consolar ao prever o empate, a virada e a vitória, o que não me impediu de ouvir perguntas difíceis de responder: por que o Brasil não joga bem? Por que não chuta a gol? Por que Fred não aparece? E o Paulinho, cadê? Por quê? Nem posso reclamar, pois teve gente graúda que ouviu coisa bem pior da torcida. Mas isto é outro assunto. O meu é o futebol. E a resposta veio depois do jogo, na voz do cabeludo David Luiz: temos de saber sofrer. Nisso somos especialistas, David. Em campo e fora dele.

 

Se jogo do Brasil tem de ter sofrimento, desta vez tinha Oscar jogando muito e Neymar decidindo, também. Nem que para isso tivesse de se aproveitar de uma daquelas bolas mascadas, que eu tanto reclamava, ou de um juiz ludibriado. Aliás, pobre Senhor Yuichi Nishimura, assim como aquela outra autoridade, ouviu coisas que eu não me atrevo a escrever por aqui. Os croatas até tinham razão de reclamar, no lugar deles eu não faria diferente. Mas ninguém havia contado para eles que a preferência de Fred é jogar deitado no gramado?

 

Bola para o alto porque semana que vem tem o México pela frente. E aqui em casa terá mais um punhado de amendoim, pipoca, bolo doce e salgado. Sofrimento, Oscar e Neymar, também.

Por que eu torço para o Brasil

 

 

Em sessão para testar a capacidade do cérebro, fui provocado a pensar em cenas positivas e emocionantes, enquanto eletrodos captavam sinais que eram registrados na tela de televisão à minha frente. Lembrei de situações familiares, reencontros, casamento e filhos recém-nascidos mas a maior parte das imagens recuperadas pela memória estava relacionada ao esporte, a experiências que vivi em quadra, nos anos em que joguei basquete, e nas arquibancadas (ou no sofá) como torcedor. É curiosa a capacidade que o esporte tem de me emocionar; sensação que, imagino, não seja privilégio apenas meu. Lembro de choros históricos como o de 1987 quando o basquete brasileiro venceu os Estados Unidos na final do Campeonato Pan-Americano, em Indianápolis (EUA). As meninas também me levaram às lágrimas, em 1996, quando, ao vencer a Ucrânia, garantiram a medalha de prata nas Olimpíadas de Atlanta (EUA). Em 2007, o mais dramático dos sofrimentos, assistindo ao jogo que ganhou o apelido de Batalha dos Aflitos e trouxe o meu Grêmio de volta à Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro.

 

A seleção brasileira de futebol também me proporcionou momentos de muita emoção nas Copas do Mundo em que venceu, especialmente a partir de 1994, pois das anteriores quase nada ficou na memória devido minha idade. Como gosto de torcer pelos amigos, vibrei muito ao ver o sucesso de Taffarel, no Mundial dos Estados Unidos, goleiro com quem compartilhei os primeiros anos de carreira no Internacional, clube do qual eu era repórter setorista, nos tempos da rádio Guaíba, em Porto Alegre. Coloquei a amizade acima da pátria, também, em 2002, no Japão e na Coreia, diante da seleção comanda por Luis Felipe Scolari, a quem sempre admirarei pela sinceridade de suas relações e conquistas alcançadas com o Grêmio. Curiosamente lembro pouco das frustrações de 1982 e 1986, edições em que o Brasil foi treinado por Telê Santana que terá meu eterno apreço.

 

A dois dias do início da Copa do Mundo no Brasil não tenho qualquer dúvida sobre minha torcida, vou vibrar como nunca a cada gol da nossa seleção e suarei as mãos enquanto o adversário estiver prestes a marcar. Vou reclamar passes errados e pedir precisão no desarme; pronunciarei palavras impronunciáveis nos chutes desperdiçados e nas defesas “indefensáveis”; sofrerei no sofá ou na arquibancada tanto quanto Felipão na beira do gramado. Diga o que quiser, me acuse do que bem entender, mas diante do espetáculo do futebol não consigo ficar impassível ou disfarçar sentimentos. Nenhum gestor nem a falta de gestão; nenhuma política nem mesmo os maus políticos; nenhuma obra inacabada ou dinheiro desviado vão me tirar o direito de ser feliz e me emocionar com o esporte.

 

Perdão se você não concorda comigo, mas quero ver este País explodir com a alegria do drible e a glória de um gol. O brasileiro que acorda cedo, madruga no ponto de ônibus, se esmaga na estação do metrô, carece de saúde e educação, se esforça como poucos para garantir-se no emprego ou construir seu próprio negócio, não precisa ser privado do prazer de ver seu capitão erguer a Copa. Ao contrário do que muitos dizem e pensam, somos muito mais avançados do que querem crer: sabemos separar Governo de Nação, governantes de seleção. Se dúvida, lembre-se de nossa história recente na qual o eleitor jamais votou como torcedor: se é verdade que, em 1994, fomos campeões e elegemos a situação (FHC), também o é que a reelegemos, em 1998, mesmo depois da frustração do vice contra a França; em 2002, o Penta não impediu que fossemos com a oposição (Lula), e mantivemos quem era Governo, em 2006 (Lula) e 2010 (Dilma), independentemente das derrotas em campo. A não ser que você seja adepto do quanto pior melhor, tire este franzido da testa, distorça o nariz, despache o mau humor para escanteio e entre comigo nesta torcida.

Avalanche Tricolor: Grêmio, até a volta!

 

Grêmio 0 x 0 Palmeiras
Brasileiro – Alfredo Jaconi/Caxias (RS)

 

 

Como você deve saber, caro e raro leitor deste Blog, esta nona rodada marca a interrupção do Campeonato Brasileiro para que todas as atenções se voltem à Copa do Mundo. Apesar do mau humor que se percebe em relação à competição que será sediada pelo Brasil, devido ao desperdício de dinheiro público e obras inacabadas, sabe-se que a medida que o Mundial se aproxima aumenta a expectativa dos torcedores da mesma forma que a programação de rádio e TV é tomada por programas especiais. Jornais e revistas também entram nesta onda, de olho no retorno publicitário que o evento pode trazer. Assistimos todos os dias à uma espécie de esquenta para o Mundial com documentários e reportagens destacando momentos marcantes, relembrando vitórias e derrotas, entrevistando jogadores do passado, técnicos que deixam saudades e torcedores que revelam suas loucuras em verde e amarelo. Não escapamos das tradicionais matérias com representantes das colônias dos países que disputarão a Copa por aqui, a maioria das quais o máximo que se aproveita é uma boa receita da culinária exótica. Como minhas habilidades na cozinha não vão além de um café no bule e do omelete pela manhã, me atento mais as histórias que destacam os valores humanos de personagens da bola. A série com os jogadores da seleção brasileira, que está no ar no Jornal Nacional, é especial. Tino Marcos tem contado curiosidades dos atletas que estão distante dos nossos olhos quando os vemos em campo, e que têm me oferecido cada vez mais subsídios para torcer pela equipe de Luis Felipe Scolari.

 

Hoje, no início da tarde, antes de a partida do Grêmio se iniciar, assisti na HBO Latin America ao documentário “Seleção Brasileira – Paixão De Um Povo”, que no episódio reproduzido neste domingo se dedicou a nossa derrota na final de 1998 para a França, após a polêmica sobre o mal-estar de Ronaldo. Em meio a depoimentos dos protagonistas daquele acontecimento, havia declarações de jornalistas, escritores e artistas sobre o Mundial no Brasil. Um dos produtores, o cineasta Luis Carlos Barreto, entrevistou o cantor Gilberto Gil que, a partir de uma retórica complexa, tentou mostrar os motivos de o Brasil ter aceitado receber a Copa do Mundo. Confesso que até entendi a lógica dele, mas não seria capaz de repeti-la nesse espaço, mesmo porque o que mais me interessou foi o trecho final de seu depoimento quando relacionou os times pelos quais torce no Brasil, lista da qual faz parte o nosso Grêmio. O curioso foi saber que o cantor baiano esteve no estádio Olímpico para assistir à final do Campeonato Gaúcho de 1977, quando encerramos uma série de sete anos sem conquistas. Ele lembrou que ao ser perguntado por jornalistas por que torcia para o Grêmio, olhou para o céu que ainda estava azul, viu a lua que já dava suas caras naquele início de noite e justificou: “o céu é azul, a luz é branca e eu sou preto, portanto sou tricolor do Grêmio”.

 

Neste domingo sem gols, no qual voltamos a desperdiçar as poucas oportunidades e os raros lances de criatividade, tivemos de agradecer ao árbitro por nos livrar de uma derrota, e encerramos esta etapa inicial fora da zona de classificação para a Libertadores, o prazer de ouvir Gilberto Gil descrevendo sua admiração pelo Grêmio foi, sem dúvida, o momento mais marcante para este gremista.

 

Grêmio, até a volta (e aproveite bem esta parada) !

Avalanche Tricolor: uma conversa com Barcos ao pé do ouvido

 

Sport 0 x 0 Grêmio
Brasileiro – Receife (PE)

 

 

Permita-me, caro e raro leitor deste blog, começar com os fatos do início da semana, pois o que assisti no meio dela, mais especificamente, na noite de quarta-feira, não me entusiasmou tanto assim a ponto de dedicar toda esta Avalanche. Na segunda-feira pela manhã, logo após o Jornal da CBN, fui à ESPN Brasil, no bairro do Sumaré, em São Paulo, a convite da produção do programa Bola da Vez que teria como entrevistado o atacante Barcos. O programa vai ao ar terças-feiras à noite, mas como nosso jogador teria compromissos com o Grêmio no Recife, ficou combinado que gravaríamos um dia antes, enquanto a delegação ainda estivesse em São Paulo. Apesar da distância não ser muito grande, contei com a astúcia do motorista da emissora para sair da rádio, no centro, e seguir até a zona oeste, driblando os congestionamentos matinais, o que me permitiu chegar confortavelmente até a redação da ESPN Brasil. Muitos anos de São Paulo me deixaram com trauma em relação ao horário, por isso faço todo o esforço para estar com antecedência nos meus compromisso, assim evito estresse e consigo atender melhor as pessoas dentro de suas necessidades. Nesse caso, meu bônus foi ficar, em uma sala, a espera do início da gravação, conversando com Barcos, ambos desarmados da tradicional postura de entrevistado e entrevistador.

 

Foi entre um cafezinho e outro que me apresentei como jornalista e, também, torcedor gremista, mesmo porque este foi o motivo que levou o pessoal do Bola da Vez a me convidar. Deixei claro para Barcos que, apesar de torcedor, minha postura é bem diferente daqueles que, nos últimos tempos, têm atacado o jogador pela ausência de gols. Quem acompanha esta Avalanche já percebeu que sempre busco preservar nossos jogadores e técnico, mesmo diante de situações constrangedoras como as que ocorreram recentemente, você-sabe-quando. Além disso, todo profissional, independentemente da função que exerce, mesmo que não consiga fazer seu trabalho com precisão, tem de ser respeitado e se tivermos alguma queixa que a façamos de maneira civilizada. Infelizmente, nem todos pensam assim e Barcos foi alvo de agressões verbais tanto pessoalmente como nas redes sociais. Alguns não o perdoam por ter perdido o pênalti na decisão da vaga às quartas-de-final da Liberadores e outros por ser o capitão da equipe derrotada no Campeonato Gaúcho.

 

Barcos, apesar de não ter o ensino médio completo, é um jogador inteligente e experiente, deixou a Argentina cedo e passou por vários clubes aqui e fora do continente. Desde jovem dava sinais de que havia nascido para liderar e mesmo em times onde recém havia chegado não se continha em ouvir, gostava de opinar. Foi assim no Estrela Vermelha, da Sérvia, quando quiseram cortar o prêmio por uma conquista alcançada e, apesar de estar há apenas três dias no clube, reclamou no vestiário. A conversa com ele é interessante, pois a primeira impressão que se tem é que o atacante é tímido, mas logo se percebe que a fala é que é direta. Não precisa de muitas palavras para dizer o que pensa, e não esconde o que pensa. Sobre a falta de gols, e eu nem precisei fazer qualquer pergunta para entrarmos no assunto, ele considera injusto que se faça avaliações isoladas que não levem em consideração a forma como o time joga, de que maneira a bola chega até ele e a quantidade de chances que surgem (no caso, poucas). “E quando marco dois gols, vem um jornalista e me cobra por causa da comemoração”, se queixou – referência aos questionamentos por ter recebido cartão amarelo contra o Chapecoense após o segundo gol. Barcos sabe que parte da cobrança se dá por algo que ele não tem culpa particularmente: a falta de títulos. Os torcedores estão impacientes, e com razão; o problema é que esta impaciência, segundo ele, atrapalha o time e prejudica ainda mais o desempenho de alguns jogadores. Deve ter gostado mesmo é da informação que ouviu do assessor de comunicação do Grêmio que o acompanhava: Barcos está a três gols do maior goleador estrangeiro que já vestiu nossa camisa, Oberti, que fez 35 gols entre 1972 e 1974. Antes de a conversa se encerrar, aproveitei a oportunidade para deixar o desejo de que ele alcançasse logo esta marca, já no próximo jogo, o que, como já sabemos, não aconteceu.