Por que eu torço para o Brasil

 

 

Em sessão para testar a capacidade do cérebro, fui provocado a pensar em cenas positivas e emocionantes, enquanto eletrodos captavam sinais que eram registrados na tela de televisão à minha frente. Lembrei de situações familiares, reencontros, casamento e filhos recém-nascidos mas a maior parte das imagens recuperadas pela memória estava relacionada ao esporte, a experiências que vivi em quadra, nos anos em que joguei basquete, e nas arquibancadas (ou no sofá) como torcedor. É curiosa a capacidade que o esporte tem de me emocionar; sensação que, imagino, não seja privilégio apenas meu. Lembro de choros históricos como o de 1987 quando o basquete brasileiro venceu os Estados Unidos na final do Campeonato Pan-Americano, em Indianápolis (EUA). As meninas também me levaram às lágrimas, em 1996, quando, ao vencer a Ucrânia, garantiram a medalha de prata nas Olimpíadas de Atlanta (EUA). Em 2007, o mais dramático dos sofrimentos, assistindo ao jogo que ganhou o apelido de Batalha dos Aflitos e trouxe o meu Grêmio de volta à Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro.

 

A seleção brasileira de futebol também me proporcionou momentos de muita emoção nas Copas do Mundo em que venceu, especialmente a partir de 1994, pois das anteriores quase nada ficou na memória devido minha idade. Como gosto de torcer pelos amigos, vibrei muito ao ver o sucesso de Taffarel, no Mundial dos Estados Unidos, goleiro com quem compartilhei os primeiros anos de carreira no Internacional, clube do qual eu era repórter setorista, nos tempos da rádio Guaíba, em Porto Alegre. Coloquei a amizade acima da pátria, também, em 2002, no Japão e na Coreia, diante da seleção comanda por Luis Felipe Scolari, a quem sempre admirarei pela sinceridade de suas relações e conquistas alcançadas com o Grêmio. Curiosamente lembro pouco das frustrações de 1982 e 1986, edições em que o Brasil foi treinado por Telê Santana que terá meu eterno apreço.

 

A dois dias do início da Copa do Mundo no Brasil não tenho qualquer dúvida sobre minha torcida, vou vibrar como nunca a cada gol da nossa seleção e suarei as mãos enquanto o adversário estiver prestes a marcar. Vou reclamar passes errados e pedir precisão no desarme; pronunciarei palavras impronunciáveis nos chutes desperdiçados e nas defesas “indefensáveis”; sofrerei no sofá ou na arquibancada tanto quanto Felipão na beira do gramado. Diga o que quiser, me acuse do que bem entender, mas diante do espetáculo do futebol não consigo ficar impassível ou disfarçar sentimentos. Nenhum gestor nem a falta de gestão; nenhuma política nem mesmo os maus políticos; nenhuma obra inacabada ou dinheiro desviado vão me tirar o direito de ser feliz e me emocionar com o esporte.

 

Perdão se você não concorda comigo, mas quero ver este País explodir com a alegria do drible e a glória de um gol. O brasileiro que acorda cedo, madruga no ponto de ônibus, se esmaga na estação do metrô, carece de saúde e educação, se esforça como poucos para garantir-se no emprego ou construir seu próprio negócio, não precisa ser privado do prazer de ver seu capitão erguer a Copa. Ao contrário do que muitos dizem e pensam, somos muito mais avançados do que querem crer: sabemos separar Governo de Nação, governantes de seleção. Se dúvida, lembre-se de nossa história recente na qual o eleitor jamais votou como torcedor: se é verdade que, em 1994, fomos campeões e elegemos a situação (FHC), também o é que a reelegemos, em 1998, mesmo depois da frustração do vice contra a França; em 2002, o Penta não impediu que fossemos com a oposição (Lula), e mantivemos quem era Governo, em 2006 (Lula) e 2010 (Dilma), independentemente das derrotas em campo. A não ser que você seja adepto do quanto pior melhor, tire este franzido da testa, distorça o nariz, despache o mau humor para escanteio e entre comigo nesta torcida.

8 comentários sobre “Por que eu torço para o Brasil

  1. É isso mesmo. Maravilha de texto. No contexto, conexo e até poético. Grande abraço.
    Quem quiser ir contra,no meu ponto de vista, é preciso usar a ferramenta adequada. Para protesto, chega de manifestação egoísta de rua, ou pior, greve insana de metroviários bem arranjados , com salários acima da média do mundo privado, com garantia de emprego e bem pagos. A arma letal é o voto.

  2. Parabéns pelo texto Milton.

    Não com seu entusiasmo, também estarei assistindo aos jogos da seleção, afinal futebol é uma coisa e corrupção na política é outra. Como diz algum “pensador contemporâneo” por aí, é cada um no seu quadrado!

    O protesto contra a roubalheira deve ser feito nas urnas em 05 de outubro.

  3. Aeeeee milton…vai ter copa sim e tb vou torcer muito pela seleção…esporte é uma das poucas coisas que transformam positivamente uma escola, um bairro, uma cidade, um país….. Agora , todos juntos vamos: #vaibrasil

  4. Concordo com você Milton…
    Vamos torcer e acreditar na SELEÇÃO que venha o HEXA, e claro depois disso temos deixar de torcer e fazer um Brasil diferente. E isso se faz não somente torcendo e sim votando certo!!!
    Abraço

  5. Que belo texto. Percebo que agradou em cheio aos seus leitores. E a mim também. Tu e a tua turma em São Paulo,mas comungando do mesmo desejo,eu aqui,vamos torcer e esquecer da política e,principalmente,dos que pensam tirar proveito de uma vitória da nossa Seleção,porém,rezo para que estejam iludidos.

  6. Que belo texto,Mílton! Quem dera a Seleção Brasilera faça uma estreia capaz de nos safisfazer. Vocês torcendo por ela aí em São Paulo,Maria Helena,talvez a Jacque e eu,aqui.

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