Fora da Área: quem diria, o Itaquerão virou Arena na Copa

 

 

Vestido para a Copa, a Arena Corinthians deixa de ser Itaquerão. É a primeira impressão que se tem com a proximidade do estádio que foi desenhado com arquitetura diferente da que estamos acostumados. Os velhos campos de futebol e as novas arenas têm, em sua maioria, linhas arredondadas com arquibancadas, cadeiras e camarotes sobrepostos em várias circunferências. À distância, desde o estacionamento onde o ônibus fretado nos deixou, a arena, que visito no dia em que Uruguai e Inglaterra se enfrentaram pela segunda rodada do grupo D do Mundial, lembra um ginásio poliesportivo muito grande. Há os que brincam dizendo que se parece com uma impressora caseira. A medida que nos aproximamos, entendemos melhor a estrutura entregue poucas semanas antes do início do Mundial e que causou tanta polêmica seja pela necessidade, seja pelo custo, seja pelas mortes (aliás, não encontrei nenhuma referência a estes que perderam a vida durante a obra). O material usado é de primeira linha e o telão na área externa, que dá as boas-vindas aos torcedores se destaca pela tecnologia. Os métodos e processos implantados são marcas da construção que quase não percebemos mas que que se tornam fundamentais para oferecer qualidade e modernidade ao ambiente. Já ouvi falar do ar condicionado que deixa a grama na temperatura ideal e a manterá em condições para não se errar um só passe – como brincou há algum tempo o ex-atacante Ronaldo. Disseram-me, ainda, que os vestiários são excepcionais com área suficiente para pequeno campo de treinamento, o que dará mais conforto e eficiência ao aquecimento pré-jogo.

 

Sob a direção da Fifa, impressiona mesmo a quantidade de funcionários e voluntários e a forma como se esforçam para melhor atender ao público. Talvez por ter cara de gringo ou devido ao vermelho britânico do casaco que vesti para enfrentar o frio da quinta-feira passada, em São Paulo, muitos arriscaram palavras em inglês enquanto outros preferiram a mímica em lugar do diálogo. Todos, porém, eram bastante solícitos e se não eram capazes de dar uma resposta logo procuravam alguém que resolveria a dúvida do visitante. Mesmo aqueles com cara de segurança sabiam ser simpático e talvez por isso são chamados internacionalmente de “steward” palavra que em inglês pode ser traduzida também como mordomo, o que de certa maneira mostra mudança de conceito em relação aos brutamontes de terno e gravata pretas que geram medo em lugar de respeito na maioria dos eventos. O sorriso no rosto não é suficiente, porém, para fazer as filas do banheiro e dos bares andarem mais rápido do que os ponteiros do meu relógio que mostravam faltar mais de 30 minutos para entrada das seleções no gramado quando encarei a primeira delas. Banheiro em estádio é quase tudo igual diante do comportamento dos torcedores mais entusiasmados que gritam, riem e dizem bobagens típicas de homens em bando. O da Arena Corinthians ao menos é bonito e, aparentemente, limpo. Espero que resista assim quando ocupado apenas pelas nossas torcidas. As atendentes da lanchonete, assim como a maioria dos funcionários, oferecem simpatia na falta da maioria dos produtos que aparece na tabela de preços. Cerveja, refrigerante e água têm de sobra. Tudo feito e tudo servido, nesta ordem, volto para minha cadeira já com a bola rolando. Entrada das seleções, hinos entoados e apito inicial ficam para a próxima.

 

Assistir ao jogo em estádios construídos com a concepção de arena é um privilégio que havia tido há quatro anos quando fui ao Green Point, na Cidade do Cabo, uma das cidades-sede da Copa do Mundo na África do Sul. A sensação foi muito parecida pois a arquitetura coloca o torcedor próximo do campo, independentemente do lugar que você sentar. “É imagem Full-HD”, brincou meu companheiro de torcida. Bem verdade que as arquibancadas provisórias, que serão retiradas assim que a Copa se encerrar, além de quebrar a harmonia visual, não parecem oferecer o mesmo conforto dos demais espaços. Ficaram muito altas, distantes e sem cobertura. Devia fazer frio demais lá em cima, porque próximo do gramado a temperatura já era suficientemente baixa. Os dois telões são muito úteis e consultados a qualquer lance pelos torcedores. É uma pena que para restringir a pressão sobre o árbitro os momentos mais polêmicos são censurados pela Fifa, diferentemente do que acontece na televisão. Já a imagem revelando os torcedores faz a festa de todos os presentes. Outro destaque na Arena da Copa é a mistura de brasileiros, uruguaios e ingleses que nos dá a ideia de civilidade, sempre ausente nos jogos locais. Havia setores dominados pelos azuis e dominados pelos vermelhos, mas o colorido das arquibancadas sinaliza que a convivência é possível na Copa. Temo que isto jamais se repita após o Mundial. A experiência se completou pelo acesso que tive ao centro de imprensa e ao salão das entrevistas coletivas, no qual desfilei por escadas e portas largas com piso de mármore. A acessibilidade me chamou atenção e a facilidade com que os torcedores entram e saem das arquibancadas, também. O estádio se esvazia rapidamente e com segurança. Demorado é o caminho de volta para casa, devido a enorme distância de Itaquera ao centro de São Paulo, sem falar de outros bairros nas zonas Sul e Oeste da capital paulista.

 

Assim que a Copa passar, o Corinthians retoma o local e boa parte da estrutura de atendimento será desfeita, tanto quanto as arquibancadas provisórias. Muitas obras precisarão ser concluídas, dentro e fora da Arena. Agora, com certeza, seus torcedores assistirão aos jogos com muito mais conforto e precisão e terão bons motivos para se orgulhar. Espero que as torcidas organizadas e o nosso futebol desorganizado não desperdicem esta oportunidade e permitam que o Itaquerão continue sendo a Arena Corinthians (ou a Arena de São Paulo, como batizou a Fifa).

Um comentário sobre “Fora da Área: quem diria, o Itaquerão virou Arena na Copa

  1. Milton, eis aí um comentário confiável, que somado aos demais aspectos da operação COPA, vem desmentir o “IMAGINA NA COPA”, entoado por quase a totalidade do brasileiros. Inclusive eu.
    Até o incontrolável está atuando a favor, pois a qualidade das partidas supera as COPAS anteriores.
    Acho que apenas o Ronaldo está devendo. Pouco antes do início vimos o”nosso ídolo” ao lado de Aécio, declarando-se envergonhado pela COPA, mesmo sendo do COL. Quando começou a perceber que o imponderável iria positivar a COPA, disse que estava orgulhoso de ter participado da sua organização.
    Com isso a lista de interrogações ao ídolo que já tinha o episódio da final na França, do casamento no castelo, do travesti do Rio, tem agora esse vira-casaca com o COL.
    Não vou nem falar do Klose , pois neste caso não há críticas, apenas aplausos pelo que Ronaldo realmente teve de bom.

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