Avalanche Tricolor: Gol, Ravens!

Inter 2 x 1 Grêmio
Gaúcho – Erechim (RS)

 

 

Desculpe, aí! Mas nesta Avalanche, o futebol virou secundário. O brasileiro, claro. Por que o americano é destaque. Explico por quê? Segundo meu amigo de Hora de Expediente Luis Gustavo Medina, o Teco, no SuperBowl, o grande show que é a final da NFL, em Nova Orleans, dos dois times que se capacitaram para a disputa, o Ravens, de Baltimore, é o time mais parecido com o Grêmio. Nem tanto pela cor quase azul no símbolo e detalhes na camisa predominantemente branca, mas pela forma de jogar e potencial em, com raça, superar todos os demais talentos (perceba a habilidade do nosso “volante” na foto acima). E não é que os “azuis” de Baltimore venceram por 34 a 31 o San Francisco 49ers, em uma partida emocionante e com direito a apagão? Neste período de entressafra, na qual os titulares gremistas estão centrados na Libertadores e o Campeonato Gaúcho está na mão de uma gurizada, o espírito da Imortalidade resolveu aterrisar em Nova Orleans e contaminar o ânimo dos gremistas do Ravens. E eu, que estive longe tanto do futebol brasileiro como do americano, nesse fim de semana, só tenho a comemorar: Gol, Ravens!

Avalanche Tricolor: obrigado por me dar o direito de sorrir

 

Grêmio 1 (5) x 0 (4) LDU
Libertadores – Arena Tricolor

 

 

A bola rolava no gramado, jogadores lutavam contra um adversário duro e um árbitro mole e os torcedores empurravam o time à frente. Mas havia uma tristeza intrínseca iludida pelas emoções que o futebol nos provoca. Uma tristeza representada na tarja preta na manga das camisas tricolores e em faixas carregadas pela torcida. Sinais que lembravam a morte dos mais de 230 jovens em Santa Maria ainda muito presentes na memória do povo brasileiro, e gaúcho em especial. Qualquer cosquista, por maior satisfação que nos oferecesse, não seria suficiente para mudar a realidade do dia seguinte, quando a tensão do jogo se esvairia e perceberíamos como é fugaz a alegria diante da dimensão da tragédia ocorrida no interior do Rio Grande do Sul. Quis o destino, porém, nos dar o direito de sorrir por alguns instantes nesta noite. Um sorriso sofrido por tudo que envolvia o jogo e pela forma como a vitória chegou. E um sorriso particular pela conquista individual de Marcelo Grohe ao defender a última bola do jogo e calar os críticos incapazes de enxergar o ser humano acima de suas vaidades pessoais.

 

Obrigado, Grêmio, por me dar um só motivo para sorrir nesta semana.

 

Avalanche Tricolor: quem se importa !?

 

Grêmio 1 x 2 Canoas
Gaúcho – Olímpico Monumental

 

A garotada gremista teve a oportunidade de voltar a jogar no estádio Olímpico Monumental, do qual nos despedimos oficialmente ano passado, na última partida do Campeonato Brasileiro. Alguns poucos torcedores que estiveram por lá, neste início de noite, aproveitaram para guardar lembranças em suas máquinas de fotografia. Pareciam mais interessados em curtir cada cena que o estádio nos proporciona do que assistir ao jogo, pois, convenhamos, não dá para nos importarmos com estes compromissos enquanto temos o time principal envolvido em sua primeira decisão na temporada. Aliás, chega a ser difícil de entender como o Grêmio que esteve em campo, ontem, em Quito, no Equador, para disputar a Libertadores, hoje já estava pronto para uma partida pelo Gaúcho, em Porto Alegre. Sei que já fomos expostos a situações ainda mais incríveis como em 1994 quanto tivemos de jogar três vezes no mesmo dia, façanha que cumprimos de maneira invicta e colocou nosso nome no Guiness Book – o livro dos recordes. Mas é impossível querer o mesmo empenho, a mesma determinação, por mais que os meninos que têm nos representado nos compromissos estaduais se esforcem. Apesar da derrota, voltamos a perceber que há valores importantes que podem, em breve, brilhar na equipe principal, basta que saibamos trabalhar com estes novos talentos, sem nos precipitarmos. E sem nos influenciarmos por quem esteja apenas querendo criar polêmica onde não existe, como alguns colegas que se dedicam a questionar a reabertura do Olímpico, depois de todas as festividades de encerramento. Esquecem ou fazem de conta que esquecem que esta é uma decisão exclusiva da diretoria do Grêmio e de mais ninguém, afinal nenhum outro clube tem o privilégio de ter à disposição dois estádio de futebol. Por que se importam tanto?

Avalanche Tricolor: nada está decidido

 

LDU 1 x 0 Grêmio
Libertadores – Quito (EQ)

 

Os anos de luta nos deixam calejado, ensinam a entender os fatos por uma perspectiva mais ampla, nos afastam da frustração comum nos resultados negativos tanto quanto da ilusão provocada pelo sucesso fugaz. Por isso, independentemente do placar e do desempenho desta noite a 2,8 mil metros acima do nível do mar – o que deveria impedir jogos de futebol por se transformar em uma espécie de doping sem droga -, saímos de campo com a consciência de que nada se decide agora e se sonhamos seguir em frente na Libertadores temos que saber superar nossas carências e nosso adversário dentro da Arena, que, esperamos, se transforme em novo templo de conquista.

 

Quis os descuidos de 2012 que começássemos esta temporada sob o signo da decisão, nos obrigando a superação desde o primeiro momento, seja pelos dez dias afastados de casa, na tentativa de se adaptar a altitude, seja pelo esforço extra de correr por 90 minutos com menos gás à disposição, seja pelo risco de jogarmos fora todos os investimentos do ano ainda quando para alguns o ano sequer começou. A diretoria trouxe os jogadores que o técnico pediu, os jogadores ganharam tempo para se preparar, mesmo com o calendário apertado, e o time, claro, ainda precisa se conhecer. Vargas nem foi apresentado a todos seus companheiros, por exemplo.

 

Nosso próximo compromisso será dia 30 de janeiro, em Porto Alegre, na partida de volta com a LDU. E estaremos em campo tentando não ser influenciado, nem para o bem nem para o mal, pelo resultado dessa noite. Temos de ter os pés no chão, a cabeça no lugar e o coração na ponta da chuteira, não importando quantos gols precisamos fazer, quantas dificuldades ainda teremos de encarar, por que o Grêmio sempre tem de jogar desta maneira. Faz parte da nossa alma tricolor.

Avalanche Tricolor: começo encorajador e rejuvenescedor, no Gaúcho

 

Esportivo 0 x 2 Grêmio
Gaúcho – Bento Gonçalves (RS)

 

 

O Grêmio foi a Montanha dos Vinhedos – estádio com nome mais pomposo do que sua estrutura – com um time muito jovem, garotos que até ontem tinham a ambição de conquistar a Copa São Paulo de futebol júnior; havia outros que acabaram de chegar ao clube, talvez ainda sem acreditar na rara oportunidade de sair de uma equipe da quarta divisão do campeonato brasileiro para integrar um elenco disposto a ganhar a América. A esses juntaram-se dois ou três nomes um pouco mais conhecidos do torcedor. E todos foram entregues ao comando de um técnico, Mabília, que sequer havia tido a chance de treinar os profissionais ainda. Um cenário que se construiu graças ao encavalado calendário do futebol brasileiro que, como costuma dizer minha mãe, precisa colocar Porto Alegre dentro de Canoas. Aos que leem esta Avalanche distante do Rio Grande do Sul cabe a explicação: Canoas é cidade metalúrgica ao lado da capital gaúcha que tem pouco mais de 320 mil habitantes, enquanto Porto Alegre, abriga cerca de 1,4 milhão.

 

Se a tarefa de encaixar as competições estaduais, nacionais e sul-americanas no período de um ano é praticamente impossível, nós sabemos bem que para o Grêmio tudo é pode acontecer. Por isso, mesmo com a equipe principal treinando em Quito, no Equador, há uma semana, para iniciar a disputa da Libertadores, o espírito tricolor se fez presente em Bento Gonçalves. Pequenos e grandes guerreiros apareceram com a camisa do Grêmio, demonstrando talento, garra e precisão, apesar de desentrosados. Dos baixinhos, Gustavo Xuxa foi o maior, tendo sido caçado boa parte do jogo por seus marcadores. Dentre os grandes, Lucas Coelho foi o melhor, revelando personalidade ao partir para cima da defesa, força para driblar os zagueiros e um pé certeiro no chute. Fez o primeiro gol e permitiu, com um desvio de cabeça, que o segundo fosse marcado por Paulinho, este da lista dos recém-chegados.

 

Claro que esta é a primeira partida oficial do ano e pouco pode significar para o restante da temporada. Nossas atenções estão todas voltadas para quarta-feira quando teremos o primeiro dos muitos desafios da Libertadores. Mas para um campeonato que começa quando ainda estamos nos espreguiçando das férias e sem o mesmo glamour do passado, o que vimos no fim da tarde deste domingo foi encorajador. Diria mais: rejuvenescedor.

O Corinthians é bi e o Mundo não vai acabar

 

 

Assistir ao Corinthians bi campeão mundial à distância torna a tarefa mais fácil, pois não somos provocados pelos amigos nem incomodados com vizinhos fogueteiros, além de nos oferecer a dimensão exata do feito. O mundo não para para ver a final nem o mundo acaba, como ironizou o site do diário Daily Mail, refletindo a frustração e surpresa dos britânicos com a derrota do Chelsea. Nesta pequena e rica cidade de Ridgefield, no estado americano de Connecticut, onde aproveito as férias, ninguém acordou as cinco e meia da manhã como eu, encarou a madrugada com frio próximo de zero, prenunciando uma semana com neve, para ver uma partida de futebol, por mais importante que esta seja no calendário esportivo. O noticiário por aqui está ocupado pelo trágico ataque às crianças de uma escola a duas cidades de distância. Amanhã, quando os jornais da região circularem, provavelmente, darão nota em roda pé para o resultado da final, se tanto.

 

Se o isolamento do sofá que encontrei para ver o jogo no único canal que transmitia a partida diminui o impacto da conquista alcançada pelo Corinthians, também ficamos menos propenso a secar o concorrente do futebol brasileiro, exercício comum e saudável entre nós torcedores. E talvez este tenha sido um dos motivos que me levaram a admirar a vitória corintiana muito mais do que admiraria a oportunidade de brincar com a cara de derrota dos meus amigos. No jogo jogado, o Corinthians mereceu a vitória, mesmo que para isto tenha se destacado o goleiro Cássio, aquele guri que fazia suas defesas lá na Azenha, antes de ganhar o mundo. O desempenho dele serviu para ressaltar a força do adversário que os brasileiros enfrentavam. E não me venham com este papo de que os ingleses desdenhavam a competição, basta ver a cara de alguns de seus jogadores após a derrota. Eles não tiveram é capacidade de superar a marcação e conter as investidas do Corinthians, que reproduziu em campo muito do que sua direção e comando técnico fizeram durante estes últimos anos.

 

Independentemente de qualquer avaliação mais invejosa que você possa fazer sobre o título mundial do Corinthians, impossível não enxergar que o clube está bem mais organizado que a maioria dos seus adversários no Brasil. Houve investimento na infraestrutura – o primeiro estádio está em construção – e planejamento de longo prazo. Apostou no equilíbrio do elenco, no qual estão jovens talentos e experientes jogadores, e reuniu gente de toque de bola apurada e atletas de muita determinação para conquistar o título. Soube capitalizar a força de seus torcedores tanto quanto soube conter a pressão desses mesmos que, há pouco mais de um ano, queriam a saída de Tite logo após a desclassificação contra o Tolima, na Libertadores. E sobre o técnico uma menção especial: é criativo e inteligente, e usa estas habilidades com a mesma coragem que demonstra desde que foi campeão da Copa do Brasil, em 2001, a frente do meu Grêmio contra o Corinthians, no estádio Morumbi.

 

O título mundial é importante também para os demais clubes brasileiros, pois reduz, ao menos temporariamente, a sensação de inferioridade que muitos temos em relação a Europa – sentimento curioso para quem mais conquistou títulos mundiais de seleção e tem espalhado craques por todos os cantos onde se jogue bola. Ratifica a ideia de que administração bem organizada forja campeões tanto quanto futebol não é apenas emoção. E, como o mundo não vai acabar mesmo, levará torcedores a cobrar mais competência dos cartolas de seus times.

 

De minha parte, sigo as férias e aproveito o intenso frio para tomar um chimarrão, saudar o Corinthians e lembrar os “gremistas” que fizeram parte desta conquista.

Avalanche Tricolor: tenho orgulho de ser gremista

 

Grêmio 2 x 1 Hamburgo (ALE)
Inauguração da Arena Grêmio

 

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Tenho orgulho de ser gremista. A inauguração do novo estádio colocou o Brasil no primeiro mundo das Arenas multiuso, escreveu em letras garrafais o jornal O Estado de São Paulo, na edição que li na manhã de sábado. A manchete que abriu reportagem de duas páginas do diário paulista, reconhecido por seu jornalismo crítico e independente, descrevia bem o significado daquele momento que viveríamos à noite, no bairro de Humaitá, zona norte de Porto Alegre. O Grêmio, mais uma vez, seria protagonista da história do futebol. Desta vez, da própria história do Brasil.

 

Tenho orgulho de ser gremista. A cerimônia de inaguração trouxe de volta parte das emoções que havia sentido uma semana antes na despedida do Olímpico. Foi além, pois abriu as portas para o futuro relembrando a construção da sua própria história, com imagens que destacavam o heroísmo dos primeiros anos e as conquistas que elevaram o nome do Grêmio, das quais muitas comemorei com os demais torcedores na arquibancada. De todos os craques que vestiram nossa camisa, o mais emocionante foi ver Milton Kuelle, aos 79 anos, único jogador vivo que desfilou talento no pioneiro estádio da Baixada e no Olímpico Para Sempre Monumental. Talento, na frase anterior, não é exagero da retórica. Kuelle, que viria a ser meu dentista quando morei em Porto Alegre, jogava futebol moderno para os anos de 1950 e 1960, ao se destacar por excelente preparo físico e domínio de bola que o permitiam atacar, marcar e se descolar com maestria. Ele também estava emocionado no novo palco.

 

Tenho orgulho de ser gremista. O acordeon de Renato Borgetti se agigantou como sempre ocorre quando este artista da música regional passa a dedilhar seu instrumento. No meio da Arena, tocou o Hino Rio-Grandense vestindo a camisa 7 de Renato Gaúcho e brincou com a banda marcial que fazia performance no palco.  Era mais uma lembrança dos meus tempos de guri na escola em Porto Alegre, onde fomos colegas de sala.  Antes dele, a imagem de Lupicinio Rodrigues, autor do hino que embala os gremistas, já havia surgido para provar que nossos talentos não estão apenas dentro de campo.

 

Tenho orgulho de ser gremista. O destino quis que um dos jogadores mais identificados com o torcedor, André Lima, marcasse o primeiro gol na Arena do Grêmio. Poderia ter sido outro,  pois muitos mereceriam esta marca histórica. Poderia ter sido, até mesmo, o adversário. Afinal se a festa pode ser programada  – e o foi com genialidade e sensibilidade – não haveria como interferir no resultado da partida. Na noite desse sábado, porém, nem mesmo o imponderável seria capaz de nos surpreender. Marcamos primeiro, como na final do Mundial contra o Hamburgo; sofremos o empate, da mesma forma que no Japão; e se não vencemos na prorrogação, pois não haveria esta possibilidade, deixamos para fazer o gol da vitória praticamente no fim da partida, com Marcelo Moreno.  Alguém, sabe se lá de onde, decidiu que o roteiro deste jogo teria de relembrar o feito de 1983. Talvez para fazer justiça com um clube que ergueu, por conta própria, sua Arena e pensando apenas na sua torcida e na sua história.

 

É por tudo isso que tenho orgulho de ser gremista.

A Avalanche definitiva

 

 

Voltei para casa. Mesmo morando há 21 anos em São Paulo, lá ainda é a minha casa. Minha infância, minha adolescência e o início da vida adulta foram vividos por lá. Fui brincar no pátio como fazia quando criança. Vi o campinho de futebol, encostado na rua Dr Aurélio Py, onde joguei bola muitos anos, nos tempos em que, como zagueiro e lateral esquerdo, exercitava a arte de chutar canelas. Havia muitos carros estacionados sobre ele, mas o areião, no qual rasguei joelhos e cotovelos, ainda se destaca em toda sua extensão. Do outro lado, vi a quadra na qual joguei basquete, passei frio e escorreguei na água da chuva que ultrapassava o telhado que despencou durante um vendaval. No meio do caminho enxerguei a sacada, onde meus craques apareciam de vez em quando, abanavam e, com o polegar, davam sinais de confiança. Foi meu pai quem lembrou das piscinas que ladeavam a avenida Carlos Barbosa, as quais frequentava carregado pelas mãos da minha mãe, no verão gaúcho. Os guris com quem fiz amizade não encontrei. Devo ter passado por eles, mas a idade escondeu seus traços de criança e não os reconheci. Havia outros ao meu lado. O Christian, meu irmão, o Fernando, meu sobrinho, e o Lorenzo, meu filho mais novo, que não escondia a alegria de estar compartilhando comigo as brincadeiras de criança naquele imenso pátio que se transformou o Olímpico Monumental.

 

No último dia de vivência no estádio, cenário de parte da minha vida, chorei de forma contida, não pela despedida, mas ao ouvir, mais uma vez, o radinho de pilha transmitir a voz de meu pai que, Milton Ferretti Jung, que por 15 longos minutos, narrou os lances do Gre-Nal. Antes do jogo, havia sido tocante ouvir as declarações dos craques do passado que desfilaram no gramado do Olímpico. Gente como Gaspar, Jardel, Danrley, Mazaropi, Iura e Loivo, meu eterno Coração de Leão. Nada se comparou, porém, a transmissão feita pelo meu craque da locução esportiva. Perfeccionista, jura que os óculos impróprios para a distância atrapalharam e preferia ter dado ritmo mais acelerado ao jogo. Só ele tinha esta preocupação. O que nós, seus fãs e ouvintes, queríamos era relembrar, agradecer por todas as emoções narradas. Tirar foto ao lado dele, assim como dezenas fizeram questão na caminhada até a cabine da rádio Guaíba. Voltar no tempo.

 

O Gre-Nal desse domingo, que só descrevo ao fim desta segunda-feira pela necessidade de retomar o fôlego, sufocado pelas sensações que vivi, era coadjuvante num cenário tão grandioso. A falta do futebol bem jogado, a carência de habilidade para furar bloqueios defensivos, a predominância da violência, o descontrole dos comandantes e a incompetência do árbitro pouco nos importaram. Esperávamos o fim da partida ansiosos para dar adeus ao velho estádio. E o fizemos com uma Avalanche definitiva, que extrapolou os limites da Geral, torcida que trouxe este movimento sincronizado para as arquibancadas. Era a última vez, oficialmente, que comemoraríamos nossos feitos, ao lado de filhos, sobrinhos, irmãos, pais e amigos no pátio da minha casa. No Olímpico Monumental.

E o menino descobriu um templo

 

Por Silvio Bressan
Jornalista e gremista

 

 

Havia muita cor e barulho naquela noite de dezembro de 1971, quando o menino assustado entrou pela primeira vez no Estádio Olímpico. Grêmio e Coritiba disputavam um jogo do Campeonato Brasileiro, mas para uma criança que só via futebol pela TV, em preto e branco, o que mais chamava a atenção era a imensidão daquele espaço, o verde da grama, o colorido dos uniformes e os sons da torcida. Os dois gols do ponteiro-direito Flecha me iniciaram na profissão de fé pela camisa 7, a mesma que já havia sido honrada por Tesourinha e Babá e ainda seria consagrada por Tarciso e Renato. Graças ao Olímpico, futebol para mim tornava-se uma coisa real, palpável, com cor, cheiro, barulho e a minha saga de gremista ganhava um palco, um verdadeiro templo para celebrar algumas de minhas maiores decepções e alegrias até hoje.

 

E já lá se vão mais de 40 anos de emoções variadas, mas sempre intensas… Logo no segundo jogo (Grêmio 1 x 1 Cruzeiro, em 1972), o espanto pelo soco de Everaldo no juiz José Faville Neto. Depois, a reverência de ver, pela primeira e última vez, o gênio Pelé naquele histórico gramado (Grêmio 1 x 0 Santos, em 1974). Na mesma época, um inusitado 0 x 3 contra um desconhecido time de Encantado virar 3 x 3 para o delírio da multidão (por outro lado, nos anos 80, também houve um 4 x 1 conta o Santo André que virou 4 x 4 para a frustração geral).

 

Eram tempos difíceis, anos de chumbo para a democracia e a torcida gremista, com derrotas em Gre-Nais e um jejum de oito anos sem títulos. O adolescente tímido, porém, como toda a nação tricolor, não desistia. Mesmo quando a bravura de um Chamaco, Cacau, Tarciso e Iúra não era suficiente para vencer o tradicional rival, lá estava ele na geral, almofada numa mão e rádio na outra, acreditando que um dia a sorte mudaria. E mudou tão de repente que quase ninguém acreditou. Na verdade, levou apenas 14 segundos até que Iúra, agora melhor acompanhado, abrisse o placar naquele Gre-Nal de agosto de 1977. O Grêmio deu a saída de bola e, sem que o adversário tocasse na bola, já estava vencendo.

 

Tínhamos, enfim, um time confiável, onde a bravura de Tarciso e Iúra agora era lapidada pela categoria de Tadeu Ricci, André e Éder. Naquele ano foram sete Gre-Nais e o Grêmio venceu cinco, três deles no Olímpico, com direito à duas goleadas. E chegamos ao dia mais importante, até então, para a história daquele adolescente no Estádio Olímpico. O Gre-Nal de 25 de setembro teve de tudo: pênalti perdido por Tarciso, gol do André, contusão do mesmo André na comemoração e um final tumultuado pela invasão da torcida e briga no gramado. O mais importante, porém, para aquele rapaz, era que finalmente seu time era campeão, em cima do seu principal adversário, e no seu grande palco. Não havia nada mais a desejar. Como reza uma de nossas mais famosas faixas, “Nada pode ser maior”.

 

Saindo da adolescência, ainda vieram o título de 1979, também no Olímpico, e a escalada nacional e mundial, a partir de 1981, com a conquista do campeonato brasileiro, até o título da Libertadores, em 1983, o maior feito da história do Olímpico. Na década de 80, aliás, fomos brindados por uma seqüência memoráveis de vitórias em Gre-Nais e títulos no nosso maior templo: de 85 a 90 quase todas as decisões foram clássicos vencidos pelo Grêmio no Olímpico. Em 89, já na vida adulta, pude testemunhar o título da primeira Copa do Brasil, em 1989, um sábado à tarde, em cima do Sport. Um ano depois, já morando em São Paulo, tive a felicidade de assistir a um 4 x 0 no Gre-Nal decisivo do campeonato. Não sabia porque pretendia voltar, mas aquele foi meu último título no Olímpico.

 

De lá para cá, como morador de São Paulo, voltei esporadicamente ao velho templo, com vitórias e derrota. A cada viagem à cidade natal, mesmo quando não havia jogo, o compromisso obrigatório era dar uma passada no Olímpico, visitar a loja e sentar nas arquibancadas, mirando o gramado. Queria aproveitar cada instante naquele velho concreto oval e rememorar as cenas mais marcantes dessas quatro décadas: as brigas e o “senta e levanta” dos Gre-Nais; a enorme buzina que ficava no meio da geral e nos ensurdecia cada vez que era acionada; ao lado do alarme sonoro, a tradicional faixa “Com o Grêmio onde o Grêmio estiver”, sempre estendida e guarnecida por fiéis escudeiros; os corneteiros da social, sempre mais exigentes e pouco pacientes com o time; o pânico que se instalava na torcida quando o limitado Vilson ajeitava a bola na intermediária e todos gritavam “Não chuta, Vilson, não chuta!”; as imprecações contra o indefectível cotovelo do zagueiro Figueroa; o cheiro misturado de cigarro e cerveja; no verão, o picolé que já chegava líquido; no inverno, o café quente demais e o amendoim que era só casca e farelo; no final, os jornais queimados pela arquibancada e a volta a pé pela Azenha entupida de gente, rádio colado no ouvido e o passo apressado para não perder o último ônibus, lá na Avenida Ipiranga. No retorno à São Paulo, ficava sempre uma ponta de nostalgia até o próximo encontro com o Olímpico, que era sempre eletrônico. Numa volta à minha infância, antes do primeiro jogo, o Olímpico passou a ser uma imagem constante na minha TV.

 

Em outubro deste ano, resolvi me despedi do glorioso casarão. Convidei meus irmãos, residentes ainda em Porto Alegre, e alguns amigos daquelas jornadas, que hoje moram em Santa Catarina, para reviver parte da nossa adolescência e juventude. E lá fomos para a última aventura no templo azul. Como mascote da turma, um menino de 13 anos, filho de um amigo, com a camisa tricolor e a uma alegria incontida. Era seu segundo jogo no Olímpico e fiquei imaginando se sua empolgação era a mesma daquele menino no início da década de 70. Fomos para trás do gol do ginásio, à esquerda das cabines de rádio, ali exatamente onde estávamos há 35 anos, vendo André Catimba vencer Benitez e fazer história. Dali também vibramos com o gol do zagueiro Werley, no empate de 1 x 1 com o Santos. Não havia mais Pelé e Neymar não brilhou, até foi expulso. Mas tudo isso foi muito menos importante do que ver a emoção do menino, que, como outras gerações desde 1954, era renovada a cada quarta e domingo naquele verdadeiro santuário.

 

Tenho orgulho de ter vivido, no Olímpico, 20 de seus quase 60 anos de história memorável. Foi ali que o menino, adolescente e adulto forjou sua identidade de gremista, temperada nas vitórias e derrotas, como toda a grande paixão. É esse sentimento que levarei para a Arena e essa é a maior homenagem que posso prestar ao antigo estádio e legar às novas gerações que surgirão no moderno templo. Ainda que o antigo casarão não esteja mais lá, a alma e o coração de todos os gremistas das últimas seis décadas lá estarão. Imortal mesmo é a lembrança que não se apaga e o velho Olímpico de tantas cores, barulhos, frustrações e glórias continuará com sua chama acesa na memória de milhões de torcedores.