De volta ao Senado

Por Carlos Magno Gibrail

288 bilhões de reais é motivo suficiente para voltar ao tema. É vultoso em valor absoluto ou relativo, convertido em dólar ou libra, em euro ou yen.  Principalmente se considerarmos que este montante, equivalente a mais de 22 programas Bolsa-Família, poderá ser debitado a todos os brasileiros e creditado a uns poucos.

“Por uma manobra articulada pelo próprio governo, a Câmara adiou, ontem, a votação da medida provisória (MP) 460, que reduz impostos do programa “Minha Casa, Minha Vida”. O motivo do impasse é o artigo, incluído pelo Senado, que garante o direito de as empresas aproveitarem créditos do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre as exportações até 2002, o chamado “crédito-prêmio de IPI”. O governo não quer a aprovação e avisou que vetará a proposta se ela for aprovada pelos deputados. Até a semana passada, o Ministério da Fazenda confiava na derrubada do texto na Casa, onde a base é maioria”. Cristiane Jungblut e Eliane Oliveira, O GLOBO, 15 de julho.

A  MP 460 é a reedição da MP 449 no que diz respeito ao Crédito Prêmio do IPI. Suas Excelências tentaram introduzir na MP 449 o Refis 3 e os créditos acumulados no caso do IPI que montam a R$ 280 bilhões.

Não deu certo, porque na última hora o relator, senador Francisco Dornelles PP percebeu que o Tesouro teria um rombo bilionário, e retirou a emenda. Agora, as senadoras Ideli Salvatti PT e Lúcia Vânia PSDB  conseguiram contrabandear a mesma emenda para a MP 460, por força do lobby da FIESP e CNI, oferecendo esse brinde de R$ 280 bilhões para empresas como Sadia , Grupo Gerdau, Vale, CSN e outras grandes exportadoras brasileiras.

É importante observar que 80% das exportações brasileiras são feitas por menos de 50 empresas.

No domingo agora, Élio Gaspari, sob o título Bolsa IPI, chamou a atenção pelo fato da oposição no Senado estar apoiando os exportadores:

“A MP onde enfiaram contrabando quase foi aprovada antes do recesso da Câmara. A oposição (repetindo, oposição) fez força para isso, mas a base do governo atrapalhou o jogo. Como os interessados disseram que negociaram a ciranda com o Ministério da Fazenda e viram-se desmentidos numa nota oficial, é provável que o governo se empenhe para derrubar a emenda contrabandeada. Os interessados na Bolsa IPI têm até o dia 13 de agosto para concluir as negociações na Câmara. Depois disso o truque vira pó”.

Na nota, o Ministério da Fazenda diz que o reconhecimento do crédito-prêmio do IPI até 2002 terá como consequência uma corrida aos tribunais por aqueles que não se beneficiaram da medida. A estimativa dos técnicos é que 40% dos exportadores de manufaturados estão nessa situação.

A Fazenda também diz que o projeto viola as regras internacionais,  já que o benefício pode ser interpretado como subsídio. Por isso, é passível de contestação na Organização Mundial do Comércio.

Além disso, a aprovação da MP com a emenda do Senado representa para o governo federal uma confissão de que o benefício não teria sido extinto em 1983 (tese da União) ou em 1990 (tese do Supremo Tribunal Federal): “o que traduzirá em prejuízo evidente para a defesa do Estado perante o Supremo Tribunal Federal”.



Segundo a Receita Federal, a medida representa um risco potencial de R$ 288 bilhões. O ministro Guido Mantega rebateu a declaração do diretor do Departamento de Relações Internacionais e de Comércio Exterior da FIESP, Roberto Giannetti da Fonseca, de que teria havido acordo para a inclusão da emenda no Senado, pela relatora Lúcia Vânia (PSDB). O acerto teria como objetivo amenizar o rombo para a União. Ela (a emenda) não resolve o problema e é lesiva aos interesses da União. “Esse problema só será resolvido com julgamento pelo Supremo Tribunal Federal”, diz Mantega na nota, sendo contrário à proposta.

E cabe registrar que nesta mesma MP que cuida do programa Minha Casa Minha Vida e do caso do IPI, temos também a questão dos preços diferentes para pagamento com cartão de crédito.

É o reflexo do Senado de hoje, onde a coerência está na incoerência. Para não falar na decência, que ausente, pode dar lugar a indecência.

(Leia, também: O Senado não é mais aquele)

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda, às quartas escreve no Blog do Mílton Jung e todo dia está de olho neles

Demanda reprimida e esquecida, em São Paulo

Por Carlos Magno Gibrail

Cidadãos urbanos atentos, observamos nas grandes cidades como São Paulo – 11 milhões de habitantes, 6 milhões de automóveis, 6 milhões de passageiros transportados diariamente – obras civis pontuais serem executadas, como pontes , viadutos e ampliações de avenidas, sem trazer resultados esperados. Ou seja, a fluidez buscada não acontece.

Aparentemente é uma questão de geografia ou geometria, quando se percebe apenas um deslocamento de gargalos. Exatamente isto, quantias substanciais investidas e o resultado é apenas uma transferência de gargalos no trânsito de veículos.

E em alguns casos parece que o congestionamento aumenta. O que acontece é a questão da demanda reprimida, que, represada, não surgia antes das novas obras.

Depois de construídas, pontes, viadutos e avenidas, passam a ser utilizadas por pessoas que começam a usá-las ocupando espaços que antes não ocupavam.

É o que os economistas chamam de “Demanda Reprimida”.

“Em economia, Demanda ou Procura é a quantidade de um bem ou serviço que os consumidores desejam adquirir por um preço definido em um dado mercado, durante uma unidade de tempo”.Wikipédia

É parte da lei da oferta e procura, que pode estar inserida num mercado de concorrência perfeita, imperfeita, oligopolista ou monopolista.

Cuja demanda, perfeita, elástica ou inelástica, pode estar reprimida por procura ou oferta.

A identificação da demanda reprimida é recomendável em todos os setores, públicos ou privados, bens ou serviços, antes que apareça de surpresa. O plano cruzado foi um dos momentos em que a demanda reprimida liberada não encontrou a oferta necessária de bens e serviços.

O contemporâneo Twitter que dá quase 3 milhões de seguidores para Britney Spears e quase 2 milhões para Obama , certamente represa quantidade significativa de usuários brasileiros por falta de procura com capacidade financeira.

Para as obras públicas na capital paulistana certamente não estão incluindo nos estudos a demanda reprimida potencial.

Na Marginal Tietê será construída uma nova pista com 23 km de extensão e três faixas de cada lado da marginal, além de quatro pontes e três viadutos ao longo da via. O investimento será de R$ 1,3 bilhão.

O governo acredita que, haverá uma redução no tempo gasto em congestionamentos na marginal em 35%. Segundo cálculos apresentados no projeto, a Marginal Tietê apresenta filas de 30 km, em média, nos horários de pico, 25% do total na cidade. O desperdício de tempo é de 1,7 milhões de horas/ano e o de combustível, 1,5 milhões de litros/ano.

A Prefeitura de São Paulo, no dia 5, declarou de utilidade pública duas áreas na região do Butantã, para atender ao projeto de ampliação do Túnel Jânio Quadros.

Uma das áreas tem 2.546 metros quadrados e a outra, 1.420 metros quadrados. A obra prevê a construção de uma interligação da Avenida Lineu de Paula Machado por intermédio de um túnel que se unirá ao Túnel Sebastião Camargo, antes da travessia do Rio Pinheiros.

Uma boa comparação com o represamento de água pode elucidar a crucial questão do trânsito em SP Cap.

Para esgotarmos a água numa represa cheia abrindo orifícios e fazendo canais, sempre teremos estes canais cheios d’água. É o que acontece com as vias acrescidas através de obras como as do Tietê ou do Túnel Jânio Quadros. Os veículos “represados” ocuparão todos os espaços novos.

Alguma dúvida que isso irá acontecer?

Ou os 35% de melhoria que Serra e Kassab, economistas renomados acreditam?

Acreditam?

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e às quartas escreve no Blog do Milton Jung, sempre disposto a congestionar este espaço de boas ideias.

Voto na rede

Por Carlos Magno Gibrail

Enquanto o número de brasileiros que usam a internet é estimado em 65 milhões, dados da comScore, suas previsões apontam para 100 milhões em 2010, ano de eleições.

Nos 54 milhões de pessoas que acessaram a internet até três meses antes da realização da pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br)  em 2008, 25,8 milhões usaram lanhouses; 22,8 milhões acessaram em seus domicílios; 11,3 milhões no trabalho; 11,8 milhões em casa de amigos; 7,8 milhões na escola; 1,9 milhão em telecentros e 149 mil em outro lugar.

O Congresso Nacional está em vias de referendar reforma eleitoral, já aprovada no plenário da Câmara, que disponibiliza a internet para propaganda e arrecadação política e eleitoral.

Tudo indica que teremos mudanças radicais no processo eleitoral. Podemos estar diante de rupturas na estrutura de poder da Nação a partir da introdução da rede eletrônica como divulgação e interação dos candidatos.

O presidente do TSE, Carlos Ayres Britto disse ontem à Folha que o projeto  fragiliza a transparência das eleições.

O relator da reforma eleitoral, deputado Flávio Dino discorda “Ao contrário. Na medida em que houve franqueamento da internet para partidos, candidatos e eleitores é um mecanismo de transparência”

A proposta restringirá a compra de publicidade online, mas permitirá que candidatos divulguem informações sobre suas campanhas além do próprio site oficial, “Blogs, Twitter, Facebook, MSN Messenger, torpedo, vale tudo”, afirmou Dino. A liberação significa que candidatos poderão criar perfis no Twitter, promover encontros de correligionários em redes sociais como o Orkut ou Facebook, informar eleitores por mensagens de SMS e promover blogs próprios.

As doações online também serão permitidas, restritas a 10% da renda pessoal do eleitor. O valor foi alterado por Dino após o texto original da reforma eleitoral ser criticado por permitir doações máximas de mil reais.

A medida difere da legislação norte-americana, que permitiu, por exemplo, que o então candidato Barack Obama, comprasse links patrocinados atrelados a buscas sobre o boato de ser mulçumano. A estratégia foi usada para oferecer links a conteúdos que esclareciam a religião e a história pessoal do candidato.

Conseguiu 750 000 voluntários e arrecadou US$ 1,2 bilhões.

Os jornalistas profissionais nem bem adaptados a nova regulamentação da profissão, estão diante de uma nova época da comunicação eleitoral.

Da não exigência do diploma de graduação – tão mal comparada à profissão de cozinheiro pelo Ministro, tão bem comparada à profissão do administrador pelo colunista Marx Gehringer, – à era da eleição interativa.

Não obstante a competição com outros profissionais não jornalistas, entra agora o próprio leitor como interlocutor e autor.

Muda a mídia, muda o conteúdo?
Adapta-se ? Cria-se um novo?
Ou o conteúdo é o mesmo, muda-se apenas o meio ?

Era de se esperar que num mercado  de segmentação, de nichos e de customização , o jornalista também tivesse que enfrentar a diversidade da evolução dos conteúdos e da proliferação das mídias , tratando-as com pertinência.

As Escolas de Jornalismo rápidas e inteligentemente preparam-se para uma valorização e atualização dos cursos. Focam na diversidade da mídia e apostam na contemporaneidade dos currículos. “Curso de Jornalismo se torna mais multimídia” Fuvest, ontem.

McLuhan deve estar assessorando-as, pois “O meio é a mensagem”.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas, no Blog do Milton Jung

Kassab contra Fretados & Kassab contra Moto-táxis

Por Carlos Magno Gibrail

Alô, tem Moto-Táxi ? Tem, mas não pode !

Kassab administra uma cidade com mais de 12 milhões de habitantes, 11 milhões de turistas anuais, 50 milhões de passageiros nos aeroportos e terminais rodoviários em 2008 e seis milhões de usuários de transporte  por dia. Para circular tal contingente dispõe de 55 estações de metrô, 83 km de linha, 200 heliportos, 32 mil táxis e 15 mil ônibus.

Não estão nesta conta 650 + 650 ônibus fretados e X + Y motos. Ou seja, transporte rodoviário particular que se origina de bairros distantes ou cidades próximas do centro expandido. 650 de manhã + 650 de tarde. E “X” motos clandestinas como táxis + “Y” motos a espera da regulamentação das motos-táxis, em tramitação no Senado.

A partir de 27 de julho, os 1.300 fretados estarão proibidos de circular no centro expandido e, segundo Kassab, apenas 50 mil pessoas deverão ser afetadas.

Nos próximos dias, o Senado deverá regulamentar os motoboys com permissão para as motos-táxis. Sucesso em Paris e uma série de outras capitais. Em São Paulo ainda em regime clandestino como no resto do país, alcançando a estimativa de 500 mil motos-táxis.

Kassab é contra e seu Secretário de Transportes antevê uma carnificina.

Numa cidade em que pedágio urbano é palavrão, fretado é congestionamento, moto-táxi é carnificina, qual a solução?

E se a solução for o pedágio urbano, o fretado e a moto-táxi?

Estaremos, portanto, diante de uma possível inversão. E, certamente, já contamos com uma visível incongruência.

É o que analisa Luiz Nassif:

“Enquanto se ataca a União pelo que se considera aumento da estatização, a prefeitura de São Paulo estende a mão regulatória sobre os ônibus fretados – elementos essenciais na redução da circulação de veículos na capital. Por seu custo, o ônibus fretado é específico para substituir automóveis. Qual o seu problema? Não é regulado pela Prefeitura, não precisa de concessão, não precisa beijar a mão do prefeito”.

Mais perguntas e respostas:

“O que propõe Kassab, então? Primeiro, tirar os fretados do centro e colocá-los nas imediações, sob a falsa alegação de que a medida melhorará o congestionamento do trânsito. Depois, criar sete novas linhas expressas e semi-expressas. Quem vai criar as linhas e selecionar os concessionários? Obviamente, a prefeitura. É a pesada mão do Estado avançando sobre um setor que funciona corretamente, de acordo com as leis de mercado”. Complementa Nassif.

Outra incoerência é evitar a “punição” ao usuário com o pedágio urbano e aplicá-la aos consumidores do transporte fretado.   Kassab não concorda: “As pessoas vão se adaptar e acabarão avaliando o custo”.
E acrescenta: “Não estamos tomando medidas contra o transporte fretado, estamos tentando organizar os fretados”.

Da seguinte forma (leia se estiver a fim ou pule para o parágrafo seguinte):

A proibição vale de segunda a sexta-feira, das 5h às 21h, e deve incluir 650 fretados de manhã e outros 650 no fim do dia. Os usuários desses ônibus terão que desembarcar em pontos específicos fora da zona de restrição para fazerem integração com outros meios de transporte – ônibus públicos, metrô, trens e linhas especiais. No total, 17 vias, que somam cerca de 70 km, compõem a zona de restrição: Marginal Pinheiros, as avenidas Bandeirantes, Ricardo Jafet, Professor Abraão de Moraes, Afonso d’Escragnolle Taunay, Vereador José Diniz, Roque Petroni Júnior, Professor Frederico Hermman Júnior, Sumaré, Auro Soares de Moura Andrade, Marquês de São Vicente, Do Estado, Tereza Cristina e Pedroso de Morais, e as ruas Cardeal Arcoverde, Norma Gianotti e Sérgio Tomás.Para receber os passageiros, a Prefeitura criou 13 pontos de embarque e desembarque. Nas linhas do metrô, eles ficam nas estações Imigrantes e Sumaré (linha verde); Nas linhas de trem da CPTM foram reservados espaços nas estações Morumbi, Berrini, Cidade Jardim, Hebraica/Rebouças, Pinheiros e Cidade Universitária – todas na linha que percorre a Marginal Pinheiros. Haverá também uma conexão no terminal Sacomã (zona sul da cidade) do Expresso Tiradentes. A Prefeitura criou sete linhas de ônibus para atender regiões em que não há conexão direta com os destinos mais procurados pelos usuários dos fretados. São elas: Gasômetro-Paulista (via Alameda Santos), Paulista Gasômetro (via São Carlos do Pinhal), metrô Belém-Berrini, metrô Imigrantes-Chácara Santo Antônio, metro Imigrantes-Faria Lima, metrô Jabaquara-Berrini e metrô Vila Madalena-Berrini. Todas estarão em funcionamento entre 5h e 9h e entre 16h30 e 21h. Para estabelecer os limites para os fretados, a prefeitura utilizou como referência a zona de restrição à circulação de caminhões, que abriga aproximadamente 100 km de vias. Haverá exceções para transporte escolar, ônibus de turismo e que realizam transporte para seminários (feiras, simpósios, exposições, entre outros), hotéis e eventos religiosos e culturais. As empresas que prestam esse serviço terão que fazer credenciamento especial junto à prefeitura.

Como se vê, o mercado natural de fretados regido por oferta e procura foi substituído por um ordenamento estatal, que complexo visa ainda revitalizar o sistema de transportes, comandado por Kassab, sem reajuste de tarifa para que o prefeito cumpra sua promessa de campanha.

Quanto as motos-táxis, próximo inimigo das empresas de ônibus, será melhor tirá-las da clandestinidade  em vez de ignorá-las.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas no Blog do Milton Jung.

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Aposentadoria ou morte!

Por Carlos Magno Gibrail

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Do 26,5 milhões de brasileiros aposentados 8,5 milhões ganham acima de um salário mínimo. Não possuem mais força competitiva no mercado de trabalho, que os rejeita. Não recebem reajustes compatíveis na pensão devida pelo Estado, que os discrimina. E são taxados no valor que recebem de aposentadoria pelo Sistema Tributário, que os assalta.

Ainda assim são acusados de ameaçar o INSS, como se fossem os responsáveis pela incapacidade atuarial de Governos passados e pela frieza contábil do Governo presente.

Desde 1998 o benefício dos aposentados vem perdendo espaço na equiparação com o salário mínimo nacional que em relação a esse está defasado em mais de 75%.

Luiz Nassif analisa: “Há dois pontos opostos em relação à Previdência Social. O primeiro, o da manipulação dos números, jogando em cima do Regime Geral da Previdência despesas que não lhe dizem respeito, como forma de reduzir os benefícios. O segundo, os dados, sem manipulação, que indicam problemas pela frente.

Previdência Social é obra de longo prazo, que exige ajustes periódicos para se manter financiável. Esses ajustes decorrem principalmente de mudanças demográficas, do envelhecimento da população, do aumento da longevidade, da redução do tamanho das famílias”.

E conclui: “Pela matriz demográfica de 2004, em 2050 o país deveria ter 259 milhões de habitantes. Com os novos dados, terá apenas 215 milhões, uma redução de 44 milhões de pessoas, alterando o planejamento de todos os organismos estatais, do IPEA, FGV, Previdência etc. Em 2004 se previa para 2050 146 milhões de pessoas na faixa de 16 a 59 anos – idade produtiva. Agora, a previsão caiu para 120 milhões. Essas são as razões que levarão, em breve, a uma nova rodada de discussão sobre os rumos da Previdência”.

Diante de perdas crescentes os aposentados começam a pressionar através das várias entidades que os representam.
Antonio Graffi da Confederação Brasileira de Aposentados e Pensionistas obteve de Michel Temer o compromisso de colocar o tema em pauta na Câmara.

João Batista Inocentini do Sindicato Nacional dos Aposentados Pensionistas e Idosos da Força Sindical anuncia que os aposentados pretendem reunir um milhão de ações na Justiça contra o fator previdenciário e pela criação de uma política nacional de recuperação do poder de compra do benefício. Diz ainda que as primeiras dez mil ações devem ser ajuizadas agora em São Paulo.

A Federação dos Aposentados e Pensionistas de Minas Gerais demonstra que o pensionista que se aposentou em 1998 com dez salários mínimos, deveria receber R$ 4.650 hoje, mas com as correções diferentes, o benefício atual é de R$ 2.635,06, uma perda de 76,47%.

Inocentini da Força afirma ainda que a ideia não é vincular a correção do benefício ao mínimo, e sim criar um indicador próprio para reajustar as aposentadorias.

Esse índice deve ser baseado nos custos de vida do aposentado.

De acordo com Inocentini, foi elaborada uma lista com cem itens que vão desde os gastos com a casa (luz, água, telefone, gás) até itens de saúde (plano de saúde, medicamento de uso contínuo, óculos, dentista).

“Não tem como o aposentado fugir desses gastos. E todos eles sobem mais que o INPC”,diz.

O INPC é normalmente usado para basear os reajustes dos benefícios.

A campanha do Sindicato já foi lançada em outras cidades, principalmente as do Sul e Sudeste, regiões que concentram 85% dos aposentados e pensionistas que recebem mais que um salário minimo. A ideia é que os aposentados procurem os sindicatos da categoria em cada cidade para ajuizar ações individuais, mas que serão encaminhadas coletivamente à Justiça. “Um milhão de processos até dezembro é uma forma de pressionar o governo a negociar”,afirma.

Pode ser que haja mudanças. O presidente do Senado, José Sarney marcou para o dia 8 de julho a votação, em sessão do
Congresso, do veto do presidente Lula à proposta aprovada pelos parlamentares que reajustou todas as aposentadorias em 2006 com o mesmo índice de correção do salário mínimo, 16,67%.O Governo deu apenas 5% para os benefícios acima de um salário mínimo.

“Quero pedir também ao presidente Sarney e aos líderes que o voto não seja secreto durante a sessão do Congresso que decidirá sobre esse veto. Sei que a Constituição exige votação secreta no caso de vetos, mas gostaria que, como em outras oportunidades, cada deputado ou senador pudesse anunciar nos microfones o seu voto”, disse Paulo Paim autor do Projeto.

Ontem, entretanto além da pressão sobre Sarney e talvez por essa causa a votação dos nomes dos novos integrantes do Conselho Nacional do Ministério Público terminou em confusão. Os dois candidatos foram rejeitados. O vice-presidente da Casa, Marconi Perillo , que comandava a sessão, fechou a votação mesmo com parlamentares presentes. Os senadores que não votaram alegaram desatenção e começaram o bate-boca no plenário. “Quantos integrantes do MP serão maculados por conta da crise do Senado?”, questionou Demóstenes Torres.

Enquanto isso, José Sarney, reuniu de noite em sua casa alguns aliados para avaliar o impacto dos pedidos para que ele se afaste da Presidência da Casa. Ele aguarda reunião da bancada do PT para decidir se permanece no cargo.

Resta saber se pela pauta do dia 8 os aposentados devem ou não torcer pela “aposentadoria” do velho Sarney.

Aposentadoria ou morte!

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e às quartas escreve no Blog do Milton Jung

SPFW: Preconceito na passarela

Por Carlos Magno Gibrail

Recorte de O Estadão mostra Paulo Borges, criador da SPFW, e o filho

A questão racial foi bater na porta de Paulo Borges, personagem ilustre do setor de Moda, tão caro e importante para a Economia brasileira.

Criador e dirigente do SPFW, maior evento da Moda no país, adotou uma criança negra. Era a prova definitiva que não havia preconceito da direção do espetáculo.

A Folha, provavelmente quando publicou em janeiro do ano passado reportagem que originou inquérito do Ministério Público, desconhecia a adoção ou a desconsiderou. Como também não levou em conta que a Direção do SPFW não interfere na escolha das modelos.

O ponto de partida era que em 2008, apenas 8 modelos negros desfilaram contra 344 brancos, 2,3% .

Deborah Kelly Affonso, promotora do grupo de atuação especial de inclusão do Ministério Público e autora da proposição, talvez empolgada com o TAC (Termo de ajustamento de conduta) sobre anorexia e idade mínima de 2007, diz: “O percentual de modelos negros no evento [em torno de 3%] é bem menor que o de brancos. O objetivo da Promotoria é fazer um acordo de inclusão social. Estabelecer um número mínimo de modelos negros a desfilar”. Foi procurar Paulo Borges e resumiu: “Ele disse que não tem controle sobre quem vai desfilar”.

“Em 2007, por causa de problemas de modelos com anorexia, assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com a Promotoria da Saúde Pública e da Juventude se comprometendo a cumprir uma série de exigências, inclusive em relação à idade mínima das modelos [16]. Isso passou a figurar em uma espécie de “manual das grifes” da SPFW. Agora, ele [Borges] diz que não é possível consignar no manual a exigência da cota. No que é diferente das outras?” E, continua citando Paulo Borges : “Há algum tempo ouvi uma entrevista onde ele dizia: Moda não é arte. Moda é serviço, é dinheiro. É um negócio.’ Nesse ponto”, conclui ela, “a gente está de acordo”.

Da Saúde Pública e Juventude ao Preconceito sem discernimento não há equivalência. A não ser a quem negue a Moda como arte. Ou se confunda com questão de ordem de Borges. Arte, serviço, dinheiro, negócio não podem ser vítimas de preconceito. Nem que seja para atacar preconceito.

A estilista Glória Coelho é da opinião que “a cota pode interferir na obra do estilista”. “Nosso trabalho é arte, algo que tem de dar emoção para o nosso grupo, para as pessoas que se identificam com a gente”.

Alexandre Herchcovitch não se opõe. “Pra mim, isso (cota) não é problema. Nunca excluí modelo por causa de cor”. Ele não acha que a cota pode interferir na obra do estilista

O baiano Helder Dias Araújo, proprietário da HDA Models, agência paulista que trabalha exclusivamente com modelos negros. “Claro que existe [preconceito]. É mais social do que racial. Se fosse um Pelé, um Barack Obama, ninguém iria ignorar.”

Ainda assim, Hélder é contra a cota. “O Brasil tem é de tomar vergonha e ver que não é um lugar de raça pura”.

Anderson Santos modelo da HDA :“Nem nas provas de roupas os estilistas querem modelos negros. Eles são claros – não mandem negros. As modelos negras encontram uma abertura maior fora do país. No Brasil, o mercado publicitário é mais flexível que o da moda”. Segundo o último censo do IBGE (de 2007), 49,7 % da população brasileira é composta por negros e pardos. “Nosso país é miscigenado, uma mistura de diversas etnias e todas devem estar representadas. Por que os modelos negros não são convocados?”.

Pelo TAC assinado agora a direção do SPFW orientou as empresas participantes a procurar desfilar com 10% de modelos negras no prazo de 2 anos.

O resultado reflete que o sugerido foi atendido, pois 148 modelos negros desfilaram num total de 1149 modelos, dando um percentual de 12,8%.

A Educafro – Educação e Cidadania de Afro descendentes e Carentes – que realizou manifestação na SPFW deu os parabéns e o frei David falou : “A organização demonstrou sensibilidade com o povo afro-brasileiro”.

Resta posicionar e enfatizar que a Moda, quer arte ou negócio, não pode receber interferência de maiorias ou minorias. É uma atividade de mercado.

À Folha, à Promotoria e ao Frei: Por que não a isonomia? Se a preocupação é levar a proporcionalidade da amostra populacional brasileira para todas as atividades, mãos a obra. Começando pela Folha, pelo Ministério Público e pela Educafro, ou pela Igreja?

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda, escreve às quartas no Blog do Mílton Jung e sempre defendeu a ideia de que o preconceito deve estar sempre fora de moda.

Dinheiro na mão é solução…

Por Carlos Magno Girbail

Imagem do álbum de Andyzeo, no Flickr

Há três décadas o cartão de crédito veio de meio dígito de participação no comércio de bens e serviços para mais de 70% nos dias de hoje. Tal expansão em um mercado livre deveria ter gerado aumento de empresas do setor. A reação foi inversamente proporcional: extraordinário crescimento da demanda e redução das empresas fornecedoras.

Fenômeno mundial encontrou no Brasil solo fértil e propício para anomalias econômicas. Cartéis, oligopólios e monopólios já existentes devem ter inspirado Visanet e Redecard a deter 92% do mercado no segmento de crédito e 95% no débito.

Paulo Sant’Ana,  gaúcho  e jornalista , dentro de um oligopólio da comunicação, já em 1993 denunciava :“País do cartel. Tudo está cartelizado, o leite, o pão, o cigarro, a cerveja, o remédio, ai de quem ferir os preços uniformes quando os produtores são múltiplos; quando não o são, pobres dos que se sentem impotentes para enfrentar os monopólios. E os agentes desta verdadeira exploração que são os preços únicos só falam em liberdade mas só pensam em dinheiro…. Que economia de mercado é esta? Que país é este? Mas será que não estão vendo que isto tudo vai ter que explodir?”

O cartel do cimento já tem décadas. Investigação do Ministério da Justiça (Secretaria de Direito Econômico, Advogacia-Geral da União e Polícia Federal) demonstrou tentáculos do acordo entre Votorantin, Camargo Corrêa, Cimpor, Lafarge, Holcim, Itabira, Soelcom, Itambé, etc. www.crimesdocolarinhobranco.adv.br/livro

O mercado para os cartões de crédito ficou tão grande e a oferta tão concentrada que o governo vai fazer uma ofensiva para desmontar o oligopólio existente, detectado por amplo diagnóstico do setor, feito pelo Banco Central (BC), Secretaria de Direito Econômico (SDE) e Secretaria de Acompanhamento Econômico (SEAE).

“Com lucratividade muito acima da média praticada na economia brasileira, o ganho do setor de cartões de crédito supera o do sistema financeiro. Em sua ofensiva contra o que considera oligopólio no mercado de cartões de crédito, o governo tentará convencer os acionistas de Visanet e Redecard a que eles próprios tomem a iniciativa de se desfazer de dois dos três negócios que controlam no mercado. Se a estratégia não funcionar, a Secretaria de Direito Econômico deverá denunciar, por prática monopolista, os contratos de exclusividade. Visanet e Redecard são credenciadores exclusivos no país das bandeiras Visa e Mastercard, respectivamente. Hoje, as empresas de cartão de crédito controlam todo o processo: credenciamento, fornecimento de terminais de pagamento, captura e processamento de transações, encaminhamento de pedido de autorização e compensação e liquidação”. Valor Econômico.

O senador Adelmir Santana autor de projetos na área de meios de pagamento e também analista de mercado acredita que o executivo vai encampar a tarefa de regulamentar a área. “O setor precisa sofrer uma intervenção do Estado. O mercado de cartões sempre foi auto-regulado, o que favoreceu a existência de taxas excessivas e práticas monopolistas, cuja conta, em última instância, quem paga é o consumidor. Por isso, está carecendo de um marco regulatório que abranja as relações dos cartões com consumidores e empresas comerciais”.

Ganhos exorbitantes ou controles totais do mercado são menos gritantes do que a estratégia que privilegia a maximização em detrimento da otimização. Ou, para falar a linguagem de Porter, dos clusters da Vantagem Competitiva, ignorar incrementos de produtividade, aportes de inovação e estímulo a criação de novas empresas, é no mínimo operar com metas apenas de curto prazo.

O monopólio a longo prazo evidencia menos estímulo ao crescimento do mercado e pode jogar contra o próprio monopolista. No caso brasileiro certamente  míope diante de tanto lucro fácil.

Estamos identificando um crescer de estabelecimentos que oferecem apenas um cartão, o que mesmo convergindo com o cartão do consumidor pode deixá-lo insatisfeito na medida em que prefira usar outro que tenha melhor data de pagamento.

Além disso, operações maiores como Shoppings Centers aderiram ao cartão monopolista, que obriga a posse de dinheiro caso não se possua aquele cartão.

São situações que começam a irritar o consumidor e gerar uma antipatia colocando as operadoras de cartão de crédito iguais aos demais serviços oligopolizados do país.

Dinheiro na mão é solução…    ou vendaval.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda, não sai mais de casa sem dinheiro no bolso e escreve às quartas-feiras no Blog do Milton Jung

Abertura da Copa: Futebol & Política

Por Carlos Magno Gibrail

“Não falo sobre hipótese”, Ricardo Teixeira semana passada em Nassau, ao responder sobre a possibilidade de entrar uma das cidades não incluídas, caso alguma das escolhidas não cumprisse as obrigações.

“Quem não cumprir os prazos será substituído”, Ricardo Teixeira no Rio, alguns dias depois, ameaçando as cidades escolhidas.

Diante de tal incerteza proveniente da autoridade que definirá tudo a respeito da COPA, o melhor é enveredar pela certeza dos números.
Inclusive para se afastar também das ultimas notícias, sem fonte, supostamente oriundas da FIFA e ditas à CBF, tentando desqualificar São Paulo como cidade da Abertura.

São Paulo responde a partir do seu brasão histórico: “Pro Brasília fiant eximia”. “Pelo Brasil façamos o melhor”, e neste contexto os dados devem ser levantados.

A cidade, com orçamento de 31 bilhões de reais, com 15% do PIB do Brasil, 6% da população e, portanto, disparada em primeiro lugar quanto às possibilidades econômicas financeiras, tão importantes para uma COPA, reflete em infindável relação de quesitos esta posição.

É a primeira cidade turística, tendo recebido em 2008 mais de 11 milhões de visitantes. Seus 401 hotéis possuem 42.000 unidades habitacionais enquanto o Rio 26.000, Brasília 20.000 e BH – segundo Juca Kfouri forte concorrente se Aécio for indicado para Presidente –  8.000 .
E os hotéis de São Paulo comemoraram em 2008 uma taxa de ocupação de 68,5%, com um valor médio de 109 reais por unidade habitacional. Os 90.000 eventos realizados certamente contribuíram.

12.500 Restaurantes, 15.000 bares, 3.200 padarias oferecem como opção 52 tipos de cozinhas diferentes.    77 Shoppings, 59 ruas comerciais, 51 segmentos, 240.000 lojas, comercializam produtos do mundo todo.

Para a cultura, 110 museus, 160 teatros, 260 cinemas, 90 bibliotecas, 40 centros culturais, 105 faculdades e 28 universidades.

No transporte, o aeroporto de Cumbica recebeu 20 milhões de passageiros em 2008, Congonhas 14 milhões e os três terminais rodoviários 16 milhões. São 89 estações de trem, 55 estações de metrô e 83 km de linha, 200 heliportos. 32.000 taxis, 15.000 ônibus. E o porto de Santos fica a 70 km de São Paulo.

Na política, Estado e Município estão integrados na execução da COPA na cidade. Para Caio Luiz de Carvalho, Presidente da SP Turismo, São Paulo não terá problemas para absorver tantos visitantes. “Em hotelaria e entretenimento, somos imbatíveis. Na rede hospitalar, 17 centros com certificação internacional garantirão o atendimento dos visitantes – dois deles Albert Einstein e São Luiz  – a cinco minutos do Estádio do Morumbi”.

São Paulo vai investir cerca de R$ 33 bilhões em obras que pretendem ordenar o trânsito da cidade. “O grande legado de um evento da grandeza de uma Copa não está em equipamentos esportivos – até porque, muitas vezes, eles viram elefantes brancos. O importante é aquilo que fica para o cidadão ao fim do evento”, diz Caio coordenador do projeto paulista. Tanto que o Estádio do Morumbi, que pertence ao São Paulo e deve ser reformado, é a aposta paulistana para o Mundial.

“O governador José Serra vai terminar a Linha Amarela do Metrô, fazer a Linha Laranja (da Freguesia até o Pacaembu), mais o Expresso Aeroporto que sairá do terminal 3 de Guarulhos para a Estação da Luz, mais o Expresso Jabaquara, com trens de superfície, para ligar aquele terminal a Congonhas, mais a recuperação de 274 km de malha férrea da CPTM, mais a Perimetral e o término do Rodoanel”, diz Caio.

“A prefeitura vai fazer a ampliação do túnel Lineu de Paula Machado, sob o Rio Pinheiros, que é caminho para o Estádio do Morumbi, obras na Chucri Zaidan, a ligação da avenida Roberto Marinho com a Imigrantes; obras no complexo viário Sena Madureira com Domingos de Moraes,  para melhorar no fluxo que vem de Santos e do ABC. É importante pensar na ligação com Santos, pois haverá muitos navios hotéis ancorados lá, com gente de fora que vem para os jogos”.

E, o apoio parece que vem também do Governo Federal:

“Observamos aspectos da mobilidade urbana e do estádio como um todo e acredito que o Morumbi pode não apenas ser sede da Copa do Mundo, como receber a abertura da Copa, principalmente, porque a direção do São Paulo está aberta para atender todas as exigências da FIFA”, afirmou o ministro Orlando Silva. Mas se São Paulo e o Morumbi estão absolutamente engajados, inclusive na separação capitalista ideal, distinguindo o público do privado, por que tantas críticas ?

Del Nero, pós-punição, pode estar sonhando com a construção de um novo estádio, Ricardo Teixeira esperando uma definição do quadro sucessório presidencial. Ambos precisam ver que pelos dados a cidade estará preparada.

O risco de se contrapor a tanta consistência não é pequeno.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda, escreve às quartas no Blog do Milton Jung e quer ir a pé assistir à abertura da Copa de 2014.

De Marx ao BNDES a chance de socializar o capitalismo

Por Carlos Magno Gibrail

Karl Marx (1813-1883)Do Capital de Marx, que denunciava a “mais valia” –   a posse do capital ou dos bens de capital que possibilita usufruir do rendimento do trabalho alheio –  até hoje, fica ainda a procura por um sistema que produza riqueza e a distribua.

É o que se propõe o BNDES: “A missão do BNDES é promover o desenvolvimento sustentável e competitivo da economia brasileira, com geração de emprego e redução das desigualdades sociais e regionais”

Com 216 bilhões em carteira, com 40% do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) que corresponde a 100 bilhões de reais em estoque e 204 mil operações em 2008 parece que tem força para encarar o desafio proposto em sua Missão.

Isto sem falar que com os 92,2 bilhões de reais em desembolso é o dobro do BID e do BIRD juntos. Sim, Banco Interamericano de Desenvolvimento e Banco Mundial, que tanto espaço ocupam  diariamente na mídia econômica internacional, somados, são a metade do BNDES.

Mas o recém formado, o empreendedor nato, o comerciante a espera de pequeno capital para abrir uma lojinha, ou comprar uma pedra no CEAGESP, ou ainda uma barraca de feira, provavelmente nunca ouviram falar do dinheiro do BNDES. Ou, quem sabe, um executivo recém desempregado a procura de capital para adquirir uma franquia com segurança, talvez mais próximo ao mercado financeiro, já tenha conhecimento das possibilidades oferecidas.

Elas existem, embora não tão fáceis e nem tão atraentes como ao dinheiro oferecido ao grande capital, mas ainda assim é o recurso mais barato para estas pessoas físicas e micro, pequenas e médias empresas.

Embora das 204 mil operações 175 mil fossem dirigidas para as pessoas físicas e micro, pequenas e médias empresas, o Cartão BNDES tenha atingido o expressivo número crescente de 100 mil,  o seu prazo de pagamento estendido de 36 para 48 meses, o seu teto aumentado de 250 mil reais para 500 mil reais e juros de 1% ao mês, 76% dos recursos desembolsados foram para o grande capital e 24% para o pequeno.

O Banco do Brasil, a Caixa e o Bradesco, operadores para os financiamentos abaixo de 10 milhões, ficam responsáveis pelas garantias e se remuneram com parte do 1%. Portanto seus produtos são mais lucrativos que este. E administram como tal.

Nas linhas de crédito especiais tipo Revitalize, que contempla setores específicos é preciso acompanhar de perto para saber da existência e para obter o financiamento.

No Cartão BNDES é verificar a lista de produtos disponíveis, incluídos dentro de critérios de nacionalização e sustentabilidade, e ter crédito no repassador.

Para capital de giro o PEC Programa Especial de Crédito os juros anuais são de 10,25% mais “spread”, 12 meses de carência e prazo de 36 meses.

Podemos aferir que os 24% destinados aos pequenos cumprem a premissa da socialização, entretanto é preciso comparar alguns investimentos efetivados aos grandes.

O economista Nelson Barrizzelli, lembra o caso da Ford em Camaçari, quando foram criados 2000 empregos com investimento de 800 milhões de dólares.

Especialista também na área supermercadista, Barrizzelli sugere: “Se fosse investido 50 mil dólares em 16 mil pequenos supermercados é de supor que pelo menos seria criado 1 emprego para cada uma das 16 mil unidades.Para quem recebe recursos do Fundo de Amparo aos Trabalhadores investir em grandes empreendimentos que normalmente não são intensos de mão de obra, é no mínimo tão desconcertante quanto a distância de 2000 para 16000 empregos”.

Que Marx descanse em paz, pois um dia ainda chegamos lá.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feiras no Blog do Milton Jung mostrando o caminho das pedras. Ou do capital.

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Consumidores-autores, do Oiapoque ao Chuí

Por Carlos Magno Gibrail

Procura-se: Consum-AuthorsDe norte a sul, do Pará ao Rio Grande do Sul.

O sociólogo italiano Francesco Morace, do Future Concept Lab de Milão, que há uma semana apresentou sua tese e livro em São Paulo, certamente não se surpreendeu com fatos ocorridos em sequência.

Consumo Autoral é o titulo da pesquisa realizada por Francesco que, seguindo a linha dos que advertem que as marcas não mais pertencem às empresas e sim as pessoas que as consomem, decreta que vale a grife de quem compra, não de quem vende.

Nasce um novo consumidor – “Uma pessoa que não é passiva, que compreende as qualidades dos produtos, a estética, o design, e decide melhor por causa das tecnologias que permitem compartilhar conhecimento com outras pessoas”.

No dia seguinte ao evento do Consumo-Autoral, Sergio Abranches relatou que em Paragominas, Pará, presenciou uma cena inusitada. Autoridades locais e pecuaristas, tradicionais desmatadores, estavam tentando impedir a execução de uma licença legal para desmatamento, pois isto impediria a certificação da carne produzida na região. (ouça aqui). O autor da façanha era o cliente da carne que deixou de comprar até que se eliminasse o desmatamento.

Três dias depois, surge o movimento para mostrar a incidência dos impostos no país. Ou seja, se você paga imposto, pode ficar contente, pois hoje, quarta-feira, é o terceiro dia de trabalho do ano em que começa efetivamente a receber a sua remuneração. Até segunda-feira, 25.05, você trabalhou para os municípios, estado e federação. Sim, 40% do que você produz que equivale a 400 bilhões de reais considerando a renda da sociedade brasileira é para pagar impostos.

E o Dia da Liberdade de Impostos, idealizado e realizado por entidades representativas de contribuintes-autores, percorreu o Brasil. Ofertaram-se produtos que foram comprados sem os impostos, embora recolhidos.

O tão decantado tratamento ao consumidor, tipo agradar, encantar, surpreender, vai dar lugar efetivamente ao reinado do cliente. Não porque está sendo concedido pelas empresas ou pelo Estado, mas porque é o consumidor que está se apropriando das ofertas, dos produtos e serviços através da escolha pessoal. Ou autoral conforme preconiza o italiano Morace.

Às empresas é preciso preparação para esta nova classe de consumidores. A começar pelas livrarias. O “Consumo Autoral” que teve extensa reportagem na Folha de sábado passado, até hoje só é encontrado em uma loja de uma das cadeias de MEGA LIVRARIAS. Só o consumidor-autor focado em internet encontra para compra imediata. E, em nenhuma das 6 lojas visitadas havia vestígio da existência do livro e muito menos da reportagem de 66% de página no jornal de maior tiragem do país. Mais, numa das MEGAS ao perguntar para a segunda vendedora fui informado que não adiantava, pois toda a equipe estava no primeiro dia de trabalho.

Aos governos e políticos é necessária a visão do contribuinte-autor passando antes pela do eleitor-autor. Não dá para lidar com compradores-autores obrigados a comprar produtos sem saber o valor total dos impostos. Também não é possível aos eleitores-autores votar obrigatoriamente.  Afinal, estamos ou não numa democracia?

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e às quartas traz sempre uma visão contemporânea ao Blog do Milton Jung