Conte Sua História de São Paulo: o autógrafo do Adoniran Barbosa

 


Jairo Marra
Ouvinte da CBN

 

 

No dia 24 de julho de 1978, fui ao antigo prédio do Estadão, na Rua Major Quedinho, ali na República, onde funcionava a Rádio Eldorado, para retirar o disco de chorinho do Carlos Poyares, gravado pelo Estúdio Eldorado, que funcionava no mesmo endereço. O LP ou o “long play” não estava ainda sendo comercializado nas lojas e era vendido diretamente pelo Estúdio, onde deveria ser retirado.

 

Pois bem, nesse feliz dia, encontrei o Adoniran —- sim, o Adoniran Barbosa —- sentado em uma poltrona na sala de espera que havia no estúdio. Bem vestido, usava gravata borboleta e segurava o seu inseparável chapéu — se não me falha memória.

 

Quando me entregaram o LP dentro de um envelope grande, branco, não tive dúvida e pedi o autógrafo do autor de Samba do Arnesto que guardo até hoje, com os dizeres: “

 

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Jairo Marra foi personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha contar mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: paraíso de muito amor!

 

Por Célio Conrado Rodrigues
Ouvinte CBN

Texto publicado no livro “O Poema que não escrevi”

 

 

 
Mais uma vez,
do jeito que eu sei,
quero só agradecer
pelo abraço sincero
que eu e milhões talvez,
na aurora de nossas vidas…
recebemos de você.

 

Mais uma vez,
tal como um filho adotivo,
trago mil motivos no peito,
para externar todo o meu respeito
a essa mãe tão linda
que um dia,
sem perguntar porque,
estendeu a sua mão
e nos fez feliz prá valer.

 

 
Obrigado, minha São Paulo,
tudo o que falo é pouco
para mostrar com palavras,
minha gratidão tão cara,
por tudo que temos,
por tudo que somos…
nesse paraíso de bem querer.

 

 
Obrigado, São Paulo…
você é mais, você é dez.
uma mistura tão bonita,
um coração tão forte,
o norte de nossas vidas
e no silêncio de sua bondade…
nos mostrou a realidade da vida.

 

 
Muitas vezes você sofre,
sujam e emporcalham as suas ruas,
suas águas, prédios e praças
e você acima do bem e do mal,
tal como a própria vida,
suporta tudo calada…
na esperança que o amanhã será melhor.

 

 
Obrigado, São Paulo…
por ontem, por hoje e sempre,
pela diversidade possível,
por tudo que sonhamos,
pelas tantas oportunidades,
pela sua eterna bondade…
nesse paraíso de muito amor!
 

 

 
Célio Conrado Rodrigues é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Venha contar mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br
 
 

Conte Sua História de São Paulo: na pensão da Dona Nair

 

Por João Fernando A. Palomo
Ouvinte da CBN

 

 

Vivi em São Paulo, em 1978. Estudava na Avenida Paulista, em um cursinho famoso da época e morava na Brigadeiro Luis Antonio, numa pensão para estudantes de uma senhora chamada Dona Nair. No fim daquele ano, passei na faculdade, em Campinas, e abandonei a capital. Formado voltei para Santa Cruz, minha cidade natal. Mas nunca esqueci de São Paulo

 

São Paulo consegue ser grande e mesmo assim nos permite encontrar coisas de cidade pequena. Ao lado da pensão onde morava tinha uma loja de velas, que achávamos que era para macumba.Um dia, eu e meus colegas, fomos conversar com a Dona Doraci e ficamos amigos dela. Conversávamos de tudo. Até de futebol ela passou a entender de tanto que eu deixava “A Gazeta Esportiva”no balcão da loja —- isso depois de passar por lá no fim da tarde, ler todo o jornal, bater um papo com ela e voltar para a pensão. Coisa de interior numa cidade grande!

 

O tempo se foi, eu casei, tive filhos e, depois que cursaram a faculdade em outra cidade do interior, não é que eles foram trabalhar em São Paulo? Primeiro a filha. Depois o filho. Claro que voltei a frequentar a cidade novamente. Ao menos uma vez por mês visitava os filhos e aproveita para viver um pouco da múltipla e agradável vida que São Paulo proporciona.

 

“Pai, durante a semana não é assim” — alertava meu filho que trabalha hoje próximo do Shopping Morumbi e mora na Berrini.

 

“Pai, o trânsito hoje tá bem tranquilo” — comentava a filha em pleno sábado querendo dizer que durante a semana era bem pior.

 

Mas voltariam para São João?

 

Não, claro que não, dizem os dois, ambos perfeitamente integrados no cotidiano de São Paulo. Minha filha casou-se com um paulistano e desde que foi para São Paulo sempre trabalhou, ainda que já trocado de empresa por duas vezes. Meu filho também trocou uma vez, mas igualmente nunca ficou desempregado.

 

São Paulo, que eu já amava tanto, me deu mais motivos para continuar apaixonado pela cidade: acolheu meus filhos. E como não gostar de quem recebe os filhos da gente de forma tão carinhosa?

 

João Fernando Alves Palomo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também mais um capítulo da nossa cidade e envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: o sobrado em cima da Chapelaria Paulista

 

Por Thereza Harfman Müller
Ouvinte da CBN

 

 

Eu, me chamo Thereza Harfman Müller, estou atualmente com 87 anos. Como sou ouvinte da CBN, resolvi também narrar fatos marcantes da minha vida que passei no Centro da Capital.

 

Minha mãe trabalhava como diarista da casa do Dr. Angelo Del Olio, italiano, médico com consultório na rua Quintino Bocaiuva, em cima da Chapelaria Paulista — um sobrado grande daqueles bem antigos. Como uma vez quase o assaltaram durante à noite, ele ofereceu para minha mãe e para meu pai para morarmos lá.

 

Na frente, ficava a sala de espera, a sala de consulta e um banheiro. Do outro lado do corredor, nos fundos, nós tínhamos um dormitório grande, uma saleta, cozinha, área de serviço e banheiro. Da janela da sala de espera, dava para ver a Praça da Sé, através da rua Barão Paranapiacaba. Ali vi muitos desfiles das escolas nos dia sete de setembro e 15 de novembro. Vi desfiles dos carros no Carnaval, na avenida São João, e as corridas de São Silvestre que eram à noite.

 

Na rua Direita, existia uma loja dos “Dois Mil Reis”, que depois da guerra ficou como Lojas Americanas. Tinha também a Camisaria Alemã, que depois por causa da guerra passou a chamar Casa Kosmos, que na compra de uma camisa ganhava um colarinho extra. Também por causa da guerra, Dr Angelo e os outros comerciantes estrangeiros foram obrigados a encerrar os seus negócios e se mudarem do centro.

 

Nos dois anos que vivi no centro, estudava na escola Alemã, na Vila Mariana, que depois passou a chamar-se Escola Osvaldo Cruza. Tomava o bonde Santo Amaro no Largo São Francisco. Tinha passe escolar que a minha mãe comprava na Light And Power, na Praça Ramos de Azevedo.

 

Eu, minha mãe e às vezes meu pai, íamos no cinema. Na Praça da Sé, tinha o Cine Santa Helena; o Cine Recreio era na praça onde atualmente começa o Viaduto Brigadeiro Luiz Antonio — nesse cinema, lembro quando a minha mãe deu dinheiro para comprar os bilhetes de entrada e o bilheteiro falou que não tinha troco, então ela poderia voltar na semana que vem. Outra cena pitoresca foi no Cine Art Palacio, na Av. São João. Estava passando a Marca do Zorro. Eu não tinha ainda 12 anos, era muito pequenininha. Então, minha mãe dobrou um casaco sobre a poltrona para que pudesse sentar e ficar uma pouco mais alta, até enxergar a tela do cinema.

 

Só fomos embora de São Paulo quando dois anos depois o Dr Angelo fechou o consultório dele. Foi quando mudamos para São Caetano do Sul.

 

Thereza Harfman Müller é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a primeira moradia na pensão da Alameda Nothmann

 

Por Clênio Falcão Lins Caldas
Ouvinte da CBN

 

 

Naquele início de tarde de 30 de março de 1954, uma terça-feira, chovia a cântaros na então “cidade que mais cresce no mundo”. O coletivo da empresa “Pássaro Marrom” chegou a capital paulista em meio ao trânsito caótico e congestionado, e se dirigiu à Avenida Rio Branco, ponto de partidas e chegadas de ônibus rodoviários. A cidade ainda não dispunha de uma estação rodoviária.

 

O garoto, que era eu, com seus sete anos, ainda estava atônito e cansado pela viagem iniciada às sete da manhã, na estação rodoviária do Rio de Janeiro, na Praça Mauá. Ao lado dos pais e dois irmãos, eu observava o burburinho de transeuntes ali na calçada, em frente ao escritório da empresa de ônibus. No reloginho de pulso marcavam 14 horas, em ponto.

 

Juntada a modesta bagagem, o pai procurava um carro de aluguel para nos levar a pensão da Dona Doralice, no bairro da Bela Vista, na Martimiano de Carvalho.

 

Todos acomodados no sedã Ford de cor preta, rumamos para o endereço anunciado Assim que chegamos, meu pai foi falar com a senhora proprietária da pensão, enquanto o aguardávamos ansiosos para descansar. Mas ele voltou desanimado. Não havia lugar para a família. Estava lotada.

 

Por indicação do chofer, partimos para os Campos Elísios onde provavelmente encontraríamos abrigo em outra pensão. Alameda Nothmann. Trânsito pesado de ônibus, carros e veículos de carga. Assim que o automóvel estacionou, lá foi meu pai mais uma vez falar com os donos da estalagem. Dessa vez, retornou feliz, pois Dona Aparecida aceitou nos receber. Era um modesto quarto que abrigou toda a família.

 

Eu não continha a emoção.

 

Não obstante o cansaço, corri para a grande janela que dava para a rua e, embevecido, debrucei-me encantado com o ruído do trânsito lá fora. Tudo era novo!

 

Quatro dias atrás residia no sossegado bairro de Madalena, no Recife, com passagem de 48 horas pela cidade do Rio de Janeiro — minha cidade natal. Agora integrava a população de alguns poucos milhões na metrópole considerada a maior do Brasil. Era muito para minha pouca idade e minha discreta experiência em viagens distantes de onde havia passado dias tranquilos da infância.

 

Ao mesmo tempo, era um desafio aproveitar aquela feliz oportunidade de chegar a majestosa capital que acabara de completar o seu quarto centenário. Tão importante, tão emocionante quão diferenciada que a partir daquela data tomei a decisão de recordar com a família e os conhecidos que povoariam sua existência o marco de 30 de março, inicio de um período de minha vida que jamais será olvidado.

 

E assim tem sido nestes 65 anos na vida deste garoto carioca, criado na capital pernambucana em sua primeira infância e agora celebrando sua terceira naturalidade como cidadão paulistano.

 

Clênio Falcão Lins Caldas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: o alvoroço com a chegada do circo do “peru que fala”

 

Por Wagner Nobrega Gimenez
Ouvinte da CBN

 

 

Nasci na capital de São Paulo no ano do IV Centenário, 1954 — ano em que o Corinthians ganhou o campeonato que ficou na letra do seu hino: “o campeão dos campeões”. Também nesse ano foi entregue à população o maior parque da cidade: o Ibirapuera.

 

Porém, as minhas recordações pessoais mais antigas são de quando eu tinha 6 anos. Lembro com carinho os passeios que fazia com minha irmã Cidinha na Loja Pirani, na Av. Celso Garcia, no bairro do Brás. Eu brincava no parque infantil da loja e comia salgadinhos. Era muito bom.

 

Recordo-me ainda de ir às Lojas Americanas, na rua Direita, no centro da cidade, com a minha irmã. Lá eu comia o delicioso Bauru Paulistano: pão americano, presunto, queijo e tomate, prensado e bem quente, acompanhado de suco de laranja.

 

Também no bairro do Brás, na rua Almirante Barroso, onde eu morava, aos domingos era armada a lona do circo do “Peru que Fala” — apelido do apresentador Sílvio Santos. Era um grande alvoroço quando aquela caravana, como se chamava, vinha na minha rua.

 

Por vezes, eu e a Cida pegávamos o bonde camarão que passava na Rua Bresser, perto da minha casa, e íamos até a Praça da República, o lugar que eu achava o mais lindo da cidade.

 

Tinha também a quermesse da Igreja Santa Rita do Pari, bairro próximo do meu. Era no dia 22 de Maio, dia da santa.

 

Nos cinemas Roxy e Universo, ambos na Av. Celso Garcia, eu não podia entrar. Só via de fora. Ficava imaginando como seria lá dentro…

 

São essas as minhas queridas recordações da cidade de São Paulo daquele ano de 1960.

 

Wagner Nobrega Gimenez é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história. Envie o texto para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: Luz, Liberdade e Paraíso

 

Por Mario César Pereira
Ouvinte da CBN

 

 

Ah, São Paulo…

 

Minha relação com você é daquelas de amor e ódio.
Você apaixona, mas tem horas que não aguento mais você.

 

Trânsito caótico. Não tem mais horários de pico. Todo horário é horário de trânsito. Tem horas que você parece um grande estacionamento a céu aberto.

 

Poluição. Você olha para cima e vê aquela névoa cinzenta tomar conta do céu. Angustiante e preocupante.

 

Enchentes. Você certamente não combina com chuva. Porque com ela, vem semáforos desligados, rios transbordando, enchentes, árvores caindo e o caos completo.

 

Mas tenho que confessar: não tem como não gostar de você, São Paulo.

 

Você não para nunca. Você funciona 24 horas.
Você tem tudo.

 

Quer um barzinho mais simples? O tradicional boteco? Você tem.
Quer um barzinho um pouco mais enjoado? O tradicional botequim? Você tem.

 

Quer diversidade de pessoas?
De culturas?
De restaurantes e comidas?
De sons e shows?

 

Quer opções de teatros e peças? Você tem.
Quer comércio de roupas com preços acessíveis? Você tem.
Quer comércio de roupas de grife sem se importar com o preço? Tem, também.

 

Quer parques para correr, pedalar e relaxar?
Futebol, clubes tradicionais, estádios e arenas?

 

Quer carnaval com escolas de samba mas também com bloquinhos de rua? Você tem.

 

Você tem a Sé. Você tem o Brás. Você tem Belém. Você tem a Santa Ifigênia.
Tem a Mooca, o Ipiranga, o Cambuci e a Aclimação.
Você tem o Jabaquara. Vila Mariana. Parada Inglesa. Tem Santana. E tem o Tucuruvi.

 

Você tem Casa Verde. Vila Maria. E Jaçanã.
Tatuapé.Santa Cecília. Higienópolis. E Pacaembu.

 

Você tem a Berrini. Você tem a Vila Olímpia. Você tem o Morumbi.
Tem a Vila Madalena. A Consolação.E a Brigadeiro.
Você tem a Luz. A Liberdade.E o Paraíso.

 

Você tem, São Paulo!

Mario César Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: a vila cresceu

 

Por José Maria Pires
Ouvinte da CBN

 

 

Lá se vão tantos janeiros
Era uma pequena vila nos primeiros

 

 A vila cresceu
E, então uma grande cidade, nasceu.

 

 Com trabalho trouxe a riqueza
Tornando-se uma enorme fortaleza

 

 SÃO PAULO é assim
Tem cheiro de jasmim

 

Com tons de cinza na aquarela
De fato é uma cidade muito Bela.

 

 Terra da garoa
Terra de Gente Boa

 

Terra que não descansa
Terra de esperança

 

Terra de gente de Fé
Terra também do café

 

Terra da Independência
Terra com Jurisprudência
 

 

Terra de nações e suas crenças
Terra em paz com suas diferenças

 

 Terra das artes e das Ilusões
Terra de oportunidades mediante as ações
 

 

Terra que riqueza produz
Terra que a pureza conduz
 

 

Terra de muitos amores
Terra que espanta temores

 

Terra de vitórias mil
Um pedaço desse imenso país de nome BRASIL.

 

José Maria Pires é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br.

                                                                                                                                                                                                                                                     

Conte Sua História de São Paulo: os trólebus pioneiros da CMTC

 

Por Rubens Cano de Medeiros
Ouvinte da CBN

 

 

Quando o primeiro trólebus paulistano rodou – por sinal, pioneiro no Brasil – eu nem houvera sido convidado para a inauguração. Se tivesse sido, nada teria compreendido: tinha só um aninho e meio, quase. Inauguração que acompanhei atentamente, muitos anos depois, folheando antigos jornais, daquele 22/4/1949. De quando o então governador Adhemar de Barros, ele – ahn… – dirigiu por um trechinho o ônibus elétrico BUT — o motorista da CMTC estava bem ao lado

 

Moleque, anos 1950, lembro quase confiavelmente. Vezinha ou outra – manhãs de domingo ou feriado – meu pai me levava à cidade, o Centro Velho de hoje, admirar arranha-céus como o Martinelli, o Banco do Estado; logradouros; vitrines de trenzinhos elétricos (bem longe de nossos bolsos). Eu? Adorava!

 

Aquela primeira linha, de ônibus elétrico? Era a 16 – Praça João Mendes /Aclimação – até a redonda Praça General Polidoro – depois, esticada até a Machado de Assis, onde ficava a exclusiva garagem dos elétricos. Linha embrião da Cardoso de Almeida.

 

Quem sabe se nalgum dos passeiozinhos não tenhamos viajado num daqueles – lépidos quão silenciosos – belos ônibus importados que, por alavancas de contato, captavam eletricidade – não de um fio, caso dos bondes – mas de dois, sibilando, zzziiimmm… Eu? Adorei!

 

Pois foram jornais antigos, do Arquivo do Estado, isto nos anos 1990, no preto-e-branco de notícias e ilustrações, dos anos 1940, que me contaram sobre os trinta pioneiros trólebus importados para a CMTC, em 1947 – ano em que nasci.

 

Aqueles trinta protagonistas de 22 de abril? Ah… que peninha! Deles, não se guardou unzinho, de como vieram originalmente –- pobre memória do nosso transporte.

 

Coube ao jornal A Gazeta mostrar-me os quatro trólebus BUT, ingleses, já desembarcados no cais de Santos – no vermelhão da CMTC, zerinhos, prontinhos para rodar! O que fariam, como os demais, dois anos depois. Não obstante inglês da gema, os quatro BUT, montados para São Paulo, já traziam, claro, o volante do motorista do “nosso” lado – e não à direita,. E, curioso, janelas que alternavam: uma abria, outra não…

 

Um exemplar do Correio Paulistano foi muito legal para com minha pessoa! E mostrou-me os seis igualmente zerinhos e belos Pullman-Standard alinhadinhos no convés do naviozão — emblema da CMTC na lataria, Trólebus muito comuns de cidades americanas.

 

E algum outro noticioso antigo, da mesma hemeroteca, trouxe mais.

 

Inteiravam a frota de trinta, vinte outros elétricos – americanos, como os Pullman: tratava-se agora dos robustos Westram W 40. Curioso: em vez do comum dos ônibus – um letreiro – o Westram trazia DOIS, um ao lado do outro! Que indicavam, simultaneamente, os pontos extremos: Praça João Mendes e Aclimação. E na traseira – lembro de ter visto nas ruas, bem acima do protuberante parachoque, um alerta inscrito para motoristas distraídos: “Mantenha distância – Freios de ação rápida”… Não bastassem as luzes de freio, grandonas: STOP!

 

Lembro mais! Quando Prestes Maia substituiu Adhemar, na prefeitura, comecinho dos anos 1960, os briosos Westram (cuja pequena produção foi repartida por Cidade do México, Buenos Aires e…a CMTC) foram reaproveitados. Pois os Westram que, nos meus sete, oito anos, eu os via na Martins Fontes na segunda linha da CMTC – 51 – Jardim Europa – nos anos 1960 tinham os chassis revestidos de novas carrocerias, nas oficinas da Rua Santa Rita! E iriam rodar mais duas décadas…

 

Dos jornais antigos, nada, nenhum me mostrava, nem mesmo as Folhas da Manhã, da Tarde ou a da Noite, ninguém… Eu não encontrava uminha foto de um Westram, no porto de Santos — como os outros. Até que algum outro jornal elucidou. Eles tinham vindo completamente desmontados para ganhar vida nas mãos de operários brasileiros, nas oficinas da Companhia Studebaker de Automóveis – depois VEMAG – na então “Rua da Grota Funda”.

 

Um êxito! Trólebus americanos ineditamente montados na Vila Carioca! Portanto, agora, tão paulistanos quanto a própria CMTC!

 

E assim, com a ajuda dos velhos jornais, estava completado o time dos trolebus pioneiros no transporte de São Paulo.

 

Rubens Cano de Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Para conhecer esta história completa, visite agora o meu blog miltonjung.com.br A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto também para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: tocando o meu berrante no trânsito da cidade

 

Por Samuel de Leonardo

 

 

O trânsito caótico das grandes cidades é capaz de proporcionar fatos inusitados e porque não dizer surrealistas. Em São Paulo já não é mais possível fugir dos engarrafamentos, não tem como optar por trajetos para amenizar a situação, quer seja pela manhã quer seja à tarde.

 

Sofre aquele que usa o seu automóvel para se locomover, sofre quem se utiliza do transporte público. Padece o motociclista, padece o pedestre, se ferra o ciclista. Todos acabam punidos, todos. São muitos veículos para poucas vias de acesso.

 

No começo da noite, seguia pela Avenida Paulista na faixa central sentido Paraíso. Seguia é força de expressão: estava parado no trânsito e sem perspectiva de melhora. O semáforo abria, fechava, abria. Nada de sair do lugar.

 

Após minutos de espera conseguimos cruzar a Rua Augusta, eu e mais alguns carros apenas. Aí tudo se repete: anda um pouco, para, anda.

 

Confesso que eu não me estresso, aproveito o tempo e vou observando o comportamento de cada vizinho.

 

À minha frente dois veículos, nas faixas à minha esquerda e à minha direita também dois. Percebo que a que vai à minha frente, pelo balançar da cabeça, curtia um som. Pelo retrovisor observo um motorista com duas cabeças, indicando tratar-se de um casal apaixonado. O da minha esquerda cutuca o nariz, tira algo e faz bolinhas. Com um peteleco atira-a pela janela. O da direita acende um cigarro, dá uma longa tragada e com a cabeça para fora lança uma baforada que atinge o motoboy que teima em passar pelo estreito corredor. Uma motorista ao lado apresenta um espetáculo de malabarismo: na mesma mão, cigarro, celular e o dedo indicador apontado para o motoqueiro que acabara de esbarrar em seu retrovisor.

 

Abre-se o farol, não havia como prosseguir, mas o condutor do veículo à minha direita toca a buzina sem cessar insistindo para que os demais invadissem a faixa de pedestre. Ninguém se abalou. Verde, amarelo, vermelho, verde novamente e a situação permanece inalterada.

 

Uma vez mais o motorista do carro ao lado mostrando toda sua impaciência volta a acionar a bendita buzina insistentemente. Como da vez anterior, nenhum condutor dá a mínima.

 

Com um pouco de sorte conseguimos progresso. Cruzamos a Rua Peixoto Gomide — mais um quarteirão vencido. Outra rua está por vir e assim atingimos mais uma quadra.

 

A história já é sabida: espera, paciência e perseverança. Quando já nem lembrava mais das buzinadas, aquele sujeito regressa à cena, desta vez com mais vigor, dispara o som a toda, põem a cabeça para fora e grita feito um louco:

 

— Seus motoristas de merda, tartarugas, molengas.

 

Ao instante a porta do passageiro do automóvel à sua frente se abre, desce um sujeito de estatura alta, chapéu de caubói à cabeça, todo desengonçado, carregando em suas mãos um instrumento enorme feito de chifre de boi, se aproxima da janela do nervosinho e grita:

 

Neste trânsito errante, só mesmo tocando o meu berrante.

 

Com habilidade, assopra o instrumento emitindo um som alto que a todos contagia. Uma vez, outra vez mais. Como um boiadeiro que acalenta toda a manada.

 

O trânsito continuou na mesma toada, mas as pessoas o aplaudem e entre assobios e gritos, o nervosinho da buzina disfarça um sorriso cessando a sua fúria, tal e qual um animal xucro quando domado.

 

Samuel de Leonardo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu capítulo da nossa cidade e envie para contesuahistoria@cbn.com.br