Conte Sua História de São Paulo: orgulho de ter nascido, crescido e envelhecido na cidade

 

Por Sérgio Paulo Böemer

 

 

Em junho de 1963, uma jovem parturiente, moradora do longínquo bairro de Arthur Alvim, dá à luz a um menino do hospital conveniado com o antigo IAPETC – Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Empregados em Transportes e Cargas, localizado no Ipiranga, hoje Hospital Leão XIII. Nascia um dos maiores amantes da cidade de São Paulo.

 

Posteriormente, a família se mudou para o bairro do Brás, quase divisa com o da Mooca —- era na Mooca que ficava a escola estadual – a E.E.P.S.G. “Antonio Firmino de Proença”, até hoje em atividade – a qual frequentou do jardim da infância a sua formatura no colegial — ou seja, por mais de 14 anos.

 

Um detalhe: ao adentrar na adolescência, por força de mudança do emprego de seu pai, a família mudou-se para o bairro da Casa Verde, na zona Norte, ele continuou a estudar no colégio na Mooca, tendo que se utilizar de duas conduções para ir e duas para voltar à casa, pois naquela época não havia metrô em atividade — estava em construção. Ele e seu irmão eram os únicos alunos a morarem tão longe do colégio. Com a separação de seus pais, o garoto, o irmão e a mãe, retornaram a viver no Brás, para sua alegria.

 

Mais tarde, esse amante da cidade, frequentou as faculdades da Mooca, do Ipiranga, da Liberdade, da avenida Brigadeiro Luis Antônio, na Bela Vista … Forçado mais uma vez a se mudar, seu destino foi Sorocaba, no interior, mas tendo uma namorada nesta cidade, semanalmente, se encontrava feliz em sua amada São Paulo. Na primeira oportunidade, retornou ao Brás.

 

Por amar o centro velho dessa capital, sempre andava pelas ruas Senador Feijó, Barão de Paranapiacaba, Direita, Boa Vista, Líbero Badaró, Xavier de Toledo. Tem orgulho ao falar do Teatro Municipal, dos antigos prédios do Mappin, Light e Votorantin. Se vangloria ao citar as arquiteturas do Palácio da Justiça, na Praça Clóvis Bevilácqua, do Viaduto do Chá, do Minhocão –- hoje elevado Presidente João Goulart, que já foi Presidente Costa e Silva — da Pinacoteca e do Museu de Arte Sacra, ambos na avenida Tiradentes.

 

Tal amante da cidade, sempre que pode, exalta os padres Manuel de Nóbrega e José de Anchieta, que, em 25 de janeiro de 1554, fundaram um colégio para ser o centro de educação e formação dos indígenas para se adequarem ao modo de vida dos jesuítas portugueses. Eles jamais imaginariam que estariam fundando uma das maiores megalópoles do mundo.

 

Bem, pode haver muitos amantes de São Paulo, mas esse menino que tem Paulo no nome, e orgulho de ter nascido, crescido e envelhecido nesta cidade maravilhosa, crê que o lema lançado no brasão do Estado de São Paulo “pro brasilia fiant eximia” (‘pelo Brasil, faça-se o melhor’), sempre será empunhado, por primeiro, por esta cidade.

 

Sérgio Paulo Böemer é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também outros capítulos da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: a surpresa que tive em meu primeiro emprego

 

Por David Azevedo

 

 

Quando cheguei em São Paulo, trazia na bagagem poucas roupas, cansaço e um violão companheiro das viagens. Pensava em juntar um dinheiro e voltar para Salvador montar uma banda de rock, mas o destino preparou outra cosia muito boa!

 

Desci em Congonhas, atravessando a passarela, magro e cabisbaixo. Tinha apenas a esperança de mudar de vida. Peguei um ônibus, desci no terminal do Guarapiranga e outro para Piraporinha, em Santo Amaro. Fui para casa de uma amiga que me arrumou um quarto. Ela conhecia a dificuldade que tínhamos em Salvador e, por sua vez, conhecia quem, mesmo com as dificuldades, sempre trabalhou.

 

O primeiro teste foi uma entrevista agendada em uma fábrica de software. Estava muito frio — mas este era o menor dos problemas. Se tinha coisa que eu quase não tinha era experiência em desenvolvimento de software e em manutenção de sistemas e computadores. Claro, fui reprovado. Fiquei triste, decepcionado. E nessas condições, o frio aumenta. Para quem nunca havia enfrentado nada abaixo dos 21 graus, duas calças, três blusas e uma jaqueta eram pouco para suportar os 13 graus que apareciam no termômetro de rua.

 

Mesmo assim não desisti, afinal lembrava sempre que precisava ajudar a mãe , o pai e meus irmãos, lá em Salvador. Com apenas R$ 100, mais o dinheiro da passagem de volta, estava disposto a tentar novamente e novamente… até quando fosse preciso. Cheguei até pensar em ir para a construção civil, trabalhar de cobrador, qualquer coisa já seria melhor que a vida que tinha antes, pois, aqui tinha oportunidades.

 

Em uma segunda-feira, fui para o Google procurar vagas de emprego.

 

Na primeira página apareceu uma na CAST Informática. Mandei o currículo e em poucas horas uma moça do RH, Alessandra, conversou comigo e agendou uma entrevista. E não é que fui aprovado —- novamente no frio, mas com a felicidade que me aquecia. Para minha surpresa logo em seguida fiquei sabendo que a seleção não terminava ali. Havia outra etapa: fazer a entrevista no cliente. No caso um banco japonês.

 

Foi no dia três de outubro de 2008, duas e meia da tarde. A emoção de andar na paulista, entrar em um prédio de quase 100 andares — eu ficava contando as janelas – era sensacional.

 

Fui ao Banco Mitsui, minha prova de fogo, em São Paulo. Era um lugar onde as pessoas, em sua maioria, tinha os olhos puxados, coisa rara em Salvador. Mas me senti em casa. A entrevista foi com o senhor Vladimir, gerente da área, carioca, que gostava de conversar. Tivemos uma bom papo e ele ficou de retornar para a consultoria. Lembro que, no mesmo dia à tarde, tive retorno da consultoria e do cliente. Quanto me perguntaram a expectativa de salário, falei em R$ 1.600,00 — era mais do que o dobro do que já havia recebido em Salvador. Para minha surpresa, eles não só tinham aprovado minha contratação como o salário para a vaga era R$ 5.800,00 — inacreditável.

 

Agora, em uma nova etapa da vida, comecei a conhecer São Paulo e o que a cidade tem a oferecer. Completo dez anos na capital — com frio muita vezes, mas feliz pelo que encontrei aqui.

 


O Conte Sua História de São Paulo tem a sonorização do Cláudio Antonio e a interpretação de Mílton Jung. Envie o seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: ah, Cambuci, nunca me esquecerei

 

Por Eli Carmo

 

 

Ouço a chuva no fim de tarde — as pessoas reclamam da chuva, eu amo a chuva— lembra a minha infância. Nasci no século passado, início dos anos 1970, no Hospital Nove de Julho, mas vivo na zona Leste de São Paulo a vida inteira.

 

Quando criança, minha mãe sempre levava a gente para a casa dos parentes. Perdi minha mãe este ano, vítima de um AVC. Meu pai já não está conosco há 14 anos. Infarto. Os parentes moravam no bairro da Cambuci. Ah! Cambuci, nunca me esquecerei. Avenida Lins de Vasconcelos.

 

Lembro-me que pegávamos o ônibus, aquele antiguinho da CMTC, e íamos minha irmã do meio e eu — éramos três menininhas —  ajoelhadas no último banco, olhando a paisagem. Como eu gostava de passear na casa dos parentes.

 

Minha vovó, assim a chamávamos, também morava por ali e geralmente íamos em festinhas de aniversário ou para  passar o dia. Tio Toninho morava com ela — que saudades tio!

 

Minha mãe era muito nervosa, a gente não podia fazer nada de errado senão apanhava quando chegasse em casa. Mas minha mãe tinha também seus momentos de nostalgia, ela adorava levar a gente lá na praça da República para ver os patinhos nadando. Ah! Naquele tempo era tudo tão diferente, existia doçura nas coisas.

 

E quando inaugurou o metrô da Sé, em 1978? Eu tinha uns 12 anos e fomos todos, inclusive meu irmãozinho que na época já tinha quatro aninhos, e passeamos para lá e para cá gratuitamente. Nossa, que passeio maravilhoso!

 

Bom, jamais esquecerei também os passeios de escola Íamos no ônibus cantando aquele clássico “vejam essa maravilha de cenário”— Marinho da Vila — brincando com o motorista e com as pessoas na rua, é claro, mas não colocávamos a cabeça fora do ônibus não, a “fessora” chamava atenção.
Nesses passeios, conheci o Zoológico, o Museu do Ipiranga, o Playcenter e até a Teatro Municipal — fiquei encantada.

 

Onde pude levar meus filhos nesses passeios, eu levei. Hoje, já são adultos e trilham seus próprios caminhos.

 

Eli do Carmo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie a sua história da cidade para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: viaja dentro da cidade de olho no guia de ruas

 

Por Fabiana Luzio
Ouvinte da CBN

 

 

Eu nasci no bairro da Vila Guilherme e passei praticamente toda a minha infância e juventude estudando e trabalhando na zona Norte. Durante esse período, sair da região era um evento. Fazer compras no entorno da 25 de março ou do Brás, ir ao Museu, ao parque ou a algum shopping eram verdadeiras aventuras para mim.

 

Quando me formei em fisioterapia, distribui meu currículo pela cidade e fui contratada para trabalhar no bairro do Itaim Bibi. Fiquei tão empolgada com a novidade que nem me incomodei com a distância ou o tempo que perdia para chegar ao trabalho — quase duas horas de ônibus para ir e mais duas para voltar. Não me importei porque esse não era um tempo perdido, eu estava finalmente conhecendo a grandeza da minha cidade. O trajeto saindo da Avenida Voluntários da Pátria, passando pelo centro na Avenida Tiradentes, seguindo pela Avenida 9 de Julho e chegando a Avenida Faria Lima me deixava encantada, observando cada detalhe mínimo dessa cidade imensa.

 

Dois anos depois, passei a atender no serviço de homecare, dirigindo pelas ruas de São Paulo em uma época que ainda não contava com a facilidade do sistema de GPS. Tinha de olhar no guia de ruas e seguir as instruções para chegar até os pacientes. Não foi fácil, mas foi uma experiência gratificante.

 

Circular pela cidade, contornar a beleza do parque do Ibirapuera, pegar a Avenida Paulista de ponta a ponta,  admirar a imponência do Museu do Ipiranga e do Palácio do Governo, seguir pelas curvas da Vila Madalena com seus bares vibrantes, entender o vai e vem incessante das Marginais… enfim, eu pertencia à cidade.

 

É claro que também sofro com os problemas urbanos  como poluição,  trânsito,  insegurança,  falta de estrutura, mas eu prefiro ver a nossa São Paulo com um olhar de encantamento, de um lugar em constante movimento, onde os outdoors foram retirados, as ciclofaixas foram pintadas e os jardins verticais hoje emolduram grandes avenidas — esse lugar que é uma “metamorfose ambulante”, promovendo sempre surpresas aos seus moradores e visitantes. 

 

Hoje, moro no bairro da Aclimação, mas me sinto em casa em todos os lugares que frequento. Admito: amo essa cidade e não tem nenhum outro lugar que gostaria de chamar de lar.

 


Fabiana Luzio é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a narração é de Mílton Jung. Conte você a sua história de São Paulo, escreva para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a turma de amigos que se conheceu há 60 anos na cidade

 

Por Antonio Carlos Nogueira
Ouvinte da CBN

 

 

Sou paulista do interior, fiz o ginásio em Avaré e mudei para São Paulo, em julho de 1963, para trabalhar e estudar. Era um sonho morar na capital, essa cidade que sempre admirei. Adorava sair à noite nos fins de semana para apreciar os luminosos na Av. São João, Ipiranga e adjacências.

 

Éramos um grupo de 15 jovens todos de Avaré e mudamos quase ao mesmo tempo para São Paulo. Cada um foi morar em apartamentos e pensões separados mas todos no centro da cidade. Nos fins de semana nos encontrávamos na esquina da Ipiranga com a São João para bater papo e apreciar as garotas que circulavam por ali.

 

Sempre visitávamos os restaurantes Gato que Ri, do Papai, o Ponto Chic, o Bar Brahma, o Moraes, o Salada Paulista e o Café Vienense. Também adorávamos encontrar um bailinho de domingos à tarde e pegar um cineminha à noite.

 

Estudamos, concluímos a faculdade e fomos ganhar a vida. Todos constituíram família, cada um saiu um caminho, mas, acredite, essa amizade que dura pra lá de 60 anos está mais viva do que nunca. Estamos sempre em contato, agora pelo WhatsApp, e, em novembro de 2016, promovemos um encontro de dois dias em São Paulo já que apenas cinco de nós seguem por aqui, o restante mora fora — Rio de Janeiro, Brasília, Fortaleza, Bauru e Avaré.

 

Somos muito gratos e apaixonados por São Paulo que amamos de coração. Neste ano teremos o nosso segundo encontro em setembro, na cidade de Avaré, onde tudo começou. Estão todos confirmados e ao lado de suas esposas. Será o que já estamos chamando de um festa de arromba.

 

Em tempo, somos todos viciados em rádio e sempre que a data de aniversário de São Paulo se aproxima adoramos ouvir a comemoração desta data pela CBN.

 

Antonio Carlos Nogueira, o Toninho, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a interpretação de Mílton Jung. Envie seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: aqui aprendi como é o cheiro da poluição e o cheiro do mato

 

Por Marcos Bacarelli Rennar
Ouvinte da CBN

 

 

Sou paulistano e torcedor do Corinthians, com orgulho. Nasci aqui, fui criado aqui, saí muito pouco da cidade, morei algumas vezes nos arredores, mas nunca me afastei definitivamente. Fui criado na zona oeste, sempre perto da Lapa, Pompéia, Freguesia do Ó. Fui até para a Granja Vianna e acabei voltando. Aprendi a reconhecer o cheiro da poluição, do asfalto, da chuva sobre o concreto e diferencia-los do cheiro do mato. Um aprendizado.

 

Certa vez fui conhecer o Ceará, visitar um grande amigo que sofrera um acidente de carro numa estrada perto de Fortaleza. Fiquei apenas alguns dias hospedado na casa de amigos e percebi que as pessoas me olhavam como se eu fosse totalmente diferente por ser paulista: talvez um outro braço esquerdo, talvez uma orelha a mais, sempre com olhares arregalados de espanto.

 

São Paulo ainda é a locomotiva que puxa este país. Tenho o desejo de morar numa cidade quente costeira, na qual possa ver o sol no horizonte e caminhar na praia no fim de tarde. Contudo, em todos os lugares onde estive dentro deste país varonil há uma diferença brutal: é aqui que está a grana! Negócios, eventos, lançamentos — onde estão as sedes das empresas e onde são tomadas as decisões. É aqui que tudo acontece!

 

Eu vi pessoas ficarem ricas, vi pessoas e amigos perderem tudo, vi pessoas chegando de outros estados, voltando pra suas origens; gente de outros países aportando e aterrissando em Santos, Congonhas e Cumbica. Vi as estradas sendo construídas e duplicadas. Vi a Ceasa ficar colorida com milhares de frutas num entardecer de céu laranja, azul e amarelo. Somente ali naquele momento da minha memória (e de algumas fotos) tal luz celestial aconteceu!

 

Também vi o Movimento das Diretas Já na praça da Sé, a reurbanização de alguns pontos da cidade, as reformas dos monumentos, as reformas e os monumentos, as paralisadas linhas do metrô e a paralisia da educação. Também vi a construção da oitava maravilha do futebol brasileiro: a Arena Corinthians — onde a abertura da Copa do Mundo aconteceu.

 

Trabalhei com propaganda, gastronomia, eventos, fui professor universitário durante 20 anos, fiz dezenas de cursos, me qualifiquei de tal forma que hoje sou um especialista, quase um erudito, e somente aqui eu poderia ter alcançado tal status. Somente aqui este status poderia ter uma serventia: onde tudo acontece!

 

Meus ascendentes, tanto por parte de Pai quanto por parte de mãe, eram estrangeiros vindos da Europa e acabaram por se fixar em São Paulo. Meu avô paterno passou por Buenos Aires e Rio de Janeiro até se casar e formar família, vindo do norte da Hungria. Minha avó materna chegou de Minas Gerais viúva com sete filhos e criou todos na Pauliceia.

 

Desse milagre termodinâmico, nasci eu, meio húngaro, mezzo italiano, branco, loiro de olhos verdes, brasileiro — que adora ouvir Tom Jobim; paulistano da Lapa e orgulhoso por fazer parte desta história.

 

Marcos Bacarelli Rennar é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participar escrevendo sua história para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a clausura de universitárias, no Ipiranga

 

Por Martha Catalunha
Ouvinte da rádio CBN

 

 

Finalzinho da colorida e extravagante década de 1970, vivia eu num pensionato de freiras para moças universitárias, no belo bairro do Ipiranga, com seus suntuosos e remanescentes palacetes e mansões, inúmeros conventos e colégios religiosos, pertinho do Museu do Ipiranga – referência cívica nacional – com seus pomposos jardins inspirados no modelo francês de Versalhes.

 

Chamávamos carinhosamente de pensionato da “Irmã Stella”, a freira cuidadora daquele espaço, que trazia seus aposentos luzindo em limpeza e organização, e se dirigia a nós com austeridade, determinação e retidão.

 

Numa tarde de sábado, chegaram duas mocinhas interioranas, com suas malas e caras assustadas, indecisas, subindo vagarosamente as brilhantes e reluzentes escadas de mármore branco (orgulho de Ir. Stella), que conduziam à nossa “clausura de universitárias”, mirando cada santo, cada vitral, cada degrau… Era a Irene e a sua amiga Neli.

 

Olhei seus semblantes ainda inocentes, me aproximei e perguntei de onde vinham, onde viviam. Ali conversamos sobre nossos planos, nossos sonhos e seguimos eu e Irene até hoje, compartilhando nossas dores, realizações, frustrações, objetivos e sonhos.

 

Nos anos de 1990, tivemos a expansão das faculdades. A Universidade São Marcos anexou-se ao “pensionato da Ir. Stella”. As dependências de nossa clausura onde nos confidenciamos, selamos amizades, rimos, choramos, dividimos abraços, alegrias, entusiasmos, fizemos refeições com o ebulidor* e um rabo quente*, onde vivemos o alvorecer de nossas juventudes, tornaram-se salas de aula, bibliotecas e laboratórios.

 

A alvura e resplandecência da primorosa escada de mármore foi substituída pela amarelidez de tocos de cigarros impiedosamente nela jogados por displicentes jovens universitários.

 

Os santos de Irmã Stella que fincavam seus olhares altivos e severos nos amedrontando quando cometíamos alguma travessura, foram retirados deixando o vazio e a nostalgia preencherem seus lugares.

 

Me contaram que Irmã Stella e Irmã Dolores faleceram há muito tempo.

 

E nossa alvinitente juventude segue hoje em nossos corações, ora por escadas, ora por senderos, mas sempre aquecida pelas saudades de outrora.

 

*rabo quente = cabo de base elétrica, que, ligado na eletricidade coloca-se numa vasilha para aquecimento de água, leite, etc.
*ebulidor = espécie de cafeteira/leiteira elétrica com a mesma finalidade do anterior.

 

Martha Catalunha é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: a saudade que sentirei da cidade

 

Iêda Lima
Ouvinte da rádio CBN

 

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Iêda é autora de livro e nos visitou na CBN 

 

 

Pelos idos dos anos 1980, visitava São Paulo com frequência por razões profissionais. Um dia, de carona com um amigo do Metrô, disse que jamais moraria nesta “selva de pedras” — sem vida, poluída e engarrafada. Meu amigo, nascido carioca, porém paulistano até a alma, respondeu: “se eu fosse você não diria isto; um dia você poderá rever esse seu conceito, vir morar aqui e gostar.” Limitei-me a rir do seu comentário pelo absurdo que representava.

 

Passados 30 anos, após sair de Fortaleza e morar em Brasília e Campinas, o destino quis que eu me curvasse perante a realidade e viesse fixar residência nesta terra quatrocentona.

 

Pois bem, aqui eu descobri o Parque do Ibirapuera — que hoje chamo carinhosamente de meu Ibira —, conhecer o Horto Florestal, o Jardim Botânico, o Jardim do Museu do Ipiranga, o Parque Trianon, a Casa das Rosas, o Largo São Francisco, o Pateo do Colégio, o Largo do Arouche, o Parque Aclimação, o Parque Água Branca — e tantos outros lugares aconchegantes que provaram que eu estava errada ao apelidar a cidade de “selva de pedras”.

 

São Paulo foi conquistando um espaço no meu coração, competindo com minha terra natal, Campina Grande, na Paraíba. Fui ficando e, após oito anos, sinto-me tão paulistana quanto alguém que nasceu aqui.

 

Fiz amigos com quem nos encontramos regularmente para passeios ao ar livre ou para experimentar o melhor da gastronomia paulistana na companhia de bons vinhos, sob a condução do maior enófilo que já conheci.

 

Descobri espaços onde posso curtir o que há de melhor em arte cinematográfica no mundo, como a Reserva Cultural, os Espaços Itaú de Cinema e o Cinema Belas Artes. Fui apresentada à Casa do Bordado por uma amiga “japonesa”. Vez em quando, estou na Pinacoteca, no Museu da Língua Portuguesa, no Teatro Municipal, no MASP, no MIS, na Caixa Cultural e no CCBB.

 

Virei assinante da Orquestra Sinfônica de São Paulo — a OSESP, que me leva mensalmente, aos sábados à tarde, a apreciar a esplendorosa arquitetura da Estação da Luz e da Sala São Paulo, embalada pelos clássicos majestosamente interpretados por músicos que andam de ônibus.

 

Em dias de inverno com céu azul, saio por ai com minha câmera fotográfica, registrando os contrastes entre o novo e o velho da sua arquitetura e a diversidade que faz o povo paulistano.

 

No caminho para o Metrô — a minha principal opção de deslocamento pela qualidade do serviço —, aprecio as árvores, as flores e as pessoas que encontro no caminho, confirmando a profecia do meu amigo. São Paulo me fisgou!

 

Agora, que talvez tenha que retomar o caminho de volta, será que aguentarei a saudade!

 

Iêda Lima é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: o leão de bronze amigo da família

 

Por Isabel Rubio Vazquez Conde

 

 

Faço parte de uma família de imigrantes espanhóis e tenho muitas histórias para contar mas esta que conto agora acho especialmente interessante:

 

Viemos da Espanha, meu pai, minha mãe e eu, em julho de 1949 — eu com um ano e meio de idade. Inicialmente, ficamos em Rio Claro, interior de São Paulo, onde meu pai tinha uns primos. Alguns meses depois viemos para São Paulo, onde meu pai foi trabalhar na Cia. de Gás, na Rua do Gasômetro, no Brás. Fomo morar próximo da fábrica.

 

Lembro-me do meu pai me levar para brincar no Parque Dom Pedro II, onde tinha uma estátua de bronze de um leão —- era a reprodução de uma obra do artista francês Prospér Lecourtier, especialista em construir estátuas com imagens de animal. Como bom imigrante, tudo que meu pai registrava em foto, ele enviava para a família na Espanha. Era para acompanharem meu crescimento. Isso deve ter sido no início dos anos de 1950.

 

Com as mudanças no Parque Dom Pedro II, a estátua do leão foi transferida para o Parque do Ibirapuera, nos anos de 1960. E havia perdido o contato com ela. Eis qual foi minha surpresa, muitos anos depois, passeando com meu marido e meus filhos, dou de cara com o leão —- e foi aquela festa, contei a história da estátua para meus filhos, lembrei da minha infância …

 

Os anos se passaram e o leão continuou a me acompanhar. Em 2011, visitei a família na Espanha. Minha prima Isa pegou uma foto toda amassadinha na qual aparecia eu, com mais ou menos cinco anos, montada no leão de bronze. Isa me contou que quando recebeu a foto, tinha uns quatro anos e levava a imagem na escola para mostrar para as amiguinhas e contar que tinha um prima que morava no Brasil e montava em uma leão. Era a sensação das meninas. Achei aquilo incrível.

 

Dois anos depois, essa mesma prima esteve no Brasil. E eu não tive dúvida: levei-a ao Parque do Ibirapuera, sem dizer nada, e a apresentei, ao vivo, ao leão mais famoso da nossa infância. Tudo, como aprendi com meu pai, registrado em foto.

 


Isabel Rubio Vazquez Conde é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: as amoras das Perdizes viravam potes de geleia

 

Por Michael Roubicek
Ouvinte da CBN

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto do ouvinte da CBN Michael Roubicek:

 

 

Eu passei minha infância toda no bairro de Perdizes, zona oeste de São Paulo. O nome do bairro vem da existência de uma granja que vendia perdizes e galinhas no Largo Padre Péricles, no início do século 20. Os costuma dizer: “vou lá nas perdizes….”. Era um bairro bem diferente do que é hoje — não era periferia, mas era muito tranquilo.

 

Nós vivíamos ali na rua Ministro Godoy – pertinho do que viria ser a PUC de São Paulo. Lembro quando o prédio novo da universidade foi construído. Lá no fim da da década de 1960. Os tratores abriram um buraco no muro que dava para a rua e, meu irmão e eu, entrávamos para colher quilos de amoras das árvores que lá existiam. Amoras que minha mãe transformava em vidros e mais vidros de geléia.

 

Nós vivíamos na rua. O programa era voltar da escola, almoçar, fazer a lição de casa e correr para a rua encontrar os amigos da vizinhança. Jogávamos taco e futebol a tarde inteira. Os gols eram os portões das casas opostas, de cada lado da rua. De vez em quando tínhamos que interromper o jogo porque passava um carro — fato raro na época.

 

Às vezes, a bola descia a ladeira da Rua Caiubi e tínhamos que buscá-la lá embaixo, no mato em volta do córrego. Nem o córrego nem o mato existem mais, pois se transformaram no que é hoje a Avenida Sumaré.

 

De vez em quando, meu irmão e eu, mais a turminha da rua, dávamos voltas por locais mais distantes, sempre a pé. Um dia, decidimos por uma grande aventura: ir até o Canal 4, antiga Rede Tupi, lá na antena, no Sumaré, que dava para ver de casa.

 

Conseguimos chegar até lá, mas nos perdemos na volta e ficamos rodando pelas ruas. Fomos perguntando para as pessoas e já no início da noite chegamos de volta. E lá estavam todos os pais na calçada, mortos de preocupação com os meninos que desapareceram. Nessa noite fomos pra cama sem jantar, de castigo. Pelo menos escapamos das palmadas.

 

Michael Roubicek é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br.