Conte Sua História de São Paulo: o alvoroço com a chegada do circo do “peru que fala”

 

Por Wagner Nobrega Gimenez
Ouvinte da CBN

 

 

Nasci na capital de São Paulo no ano do IV Centenário, 1954 — ano em que o Corinthians ganhou o campeonato que ficou na letra do seu hino: “o campeão dos campeões”. Também nesse ano foi entregue à população o maior parque da cidade: o Ibirapuera.

 

Porém, as minhas recordações pessoais mais antigas são de quando eu tinha 6 anos. Lembro com carinho os passeios que fazia com minha irmã Cidinha na Loja Pirani, na Av. Celso Garcia, no bairro do Brás. Eu brincava no parque infantil da loja e comia salgadinhos. Era muito bom.

 

Recordo-me ainda de ir às Lojas Americanas, na rua Direita, no centro da cidade, com a minha irmã. Lá eu comia o delicioso Bauru Paulistano: pão americano, presunto, queijo e tomate, prensado e bem quente, acompanhado de suco de laranja.

 

Também no bairro do Brás, na rua Almirante Barroso, onde eu morava, aos domingos era armada a lona do circo do “Peru que Fala” — apelido do apresentador Sílvio Santos. Era um grande alvoroço quando aquela caravana, como se chamava, vinha na minha rua.

 

Por vezes, eu e a Cida pegávamos o bonde camarão que passava na Rua Bresser, perto da minha casa, e íamos até a Praça da República, o lugar que eu achava o mais lindo da cidade.

 

Tinha também a quermesse da Igreja Santa Rita do Pari, bairro próximo do meu. Era no dia 22 de Maio, dia da santa.

 

Nos cinemas Roxy e Universo, ambos na Av. Celso Garcia, eu não podia entrar. Só via de fora. Ficava imaginando como seria lá dentro…

 

São essas as minhas queridas recordações da cidade de São Paulo daquele ano de 1960.

 

Wagner Nobrega Gimenez é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história. Envie o texto para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: Luz, Liberdade e Paraíso

 

Por Mario César Pereira
Ouvinte da CBN

 

 

Ah, São Paulo…

 

Minha relação com você é daquelas de amor e ódio.
Você apaixona, mas tem horas que não aguento mais você.

 

Trânsito caótico. Não tem mais horários de pico. Todo horário é horário de trânsito. Tem horas que você parece um grande estacionamento a céu aberto.

 

Poluição. Você olha para cima e vê aquela névoa cinzenta tomar conta do céu. Angustiante e preocupante.

 

Enchentes. Você certamente não combina com chuva. Porque com ela, vem semáforos desligados, rios transbordando, enchentes, árvores caindo e o caos completo.

 

Mas tenho que confessar: não tem como não gostar de você, São Paulo.

 

Você não para nunca. Você funciona 24 horas.
Você tem tudo.

 

Quer um barzinho mais simples? O tradicional boteco? Você tem.
Quer um barzinho um pouco mais enjoado? O tradicional botequim? Você tem.

 

Quer diversidade de pessoas?
De culturas?
De restaurantes e comidas?
De sons e shows?

 

Quer opções de teatros e peças? Você tem.
Quer comércio de roupas com preços acessíveis? Você tem.
Quer comércio de roupas de grife sem se importar com o preço? Tem, também.

 

Quer parques para correr, pedalar e relaxar?
Futebol, clubes tradicionais, estádios e arenas?

 

Quer carnaval com escolas de samba mas também com bloquinhos de rua? Você tem.

 

Você tem a Sé. Você tem o Brás. Você tem Belém. Você tem a Santa Ifigênia.
Tem a Mooca, o Ipiranga, o Cambuci e a Aclimação.
Você tem o Jabaquara. Vila Mariana. Parada Inglesa. Tem Santana. E tem o Tucuruvi.

 

Você tem Casa Verde. Vila Maria. E Jaçanã.
Tatuapé.Santa Cecília. Higienópolis. E Pacaembu.

 

Você tem a Berrini. Você tem a Vila Olímpia. Você tem o Morumbi.
Tem a Vila Madalena. A Consolação.E a Brigadeiro.
Você tem a Luz. A Liberdade.E o Paraíso.

 

Você tem, São Paulo!

Mario César Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: a vila cresceu

 

Por José Maria Pires
Ouvinte da CBN

 

 

Lá se vão tantos janeiros
Era uma pequena vila nos primeiros

 

 A vila cresceu
E, então uma grande cidade, nasceu.

 

 Com trabalho trouxe a riqueza
Tornando-se uma enorme fortaleza

 

 SÃO PAULO é assim
Tem cheiro de jasmim

 

Com tons de cinza na aquarela
De fato é uma cidade muito Bela.

 

 Terra da garoa
Terra de Gente Boa

 

Terra que não descansa
Terra de esperança

 

Terra de gente de Fé
Terra também do café

 

Terra da Independência
Terra com Jurisprudência
 

 

Terra de nações e suas crenças
Terra em paz com suas diferenças

 

 Terra das artes e das Ilusões
Terra de oportunidades mediante as ações
 

 

Terra que riqueza produz
Terra que a pureza conduz
 

 

Terra de muitos amores
Terra que espanta temores

 

Terra de vitórias mil
Um pedaço desse imenso país de nome BRASIL.

 

José Maria Pires é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br.

                                                                                                                                                                                                                                                     

Conte Sua História de São Paulo: os trólebus pioneiros da CMTC

 

Por Rubens Cano de Medeiros
Ouvinte da CBN

 

 

Quando o primeiro trólebus paulistano rodou – por sinal, pioneiro no Brasil – eu nem houvera sido convidado para a inauguração. Se tivesse sido, nada teria compreendido: tinha só um aninho e meio, quase. Inauguração que acompanhei atentamente, muitos anos depois, folheando antigos jornais, daquele 22/4/1949. De quando o então governador Adhemar de Barros, ele – ahn… – dirigiu por um trechinho o ônibus elétrico BUT — o motorista da CMTC estava bem ao lado

 

Moleque, anos 1950, lembro quase confiavelmente. Vezinha ou outra – manhãs de domingo ou feriado – meu pai me levava à cidade, o Centro Velho de hoje, admirar arranha-céus como o Martinelli, o Banco do Estado; logradouros; vitrines de trenzinhos elétricos (bem longe de nossos bolsos). Eu? Adorava!

 

Aquela primeira linha, de ônibus elétrico? Era a 16 – Praça João Mendes /Aclimação – até a redonda Praça General Polidoro – depois, esticada até a Machado de Assis, onde ficava a exclusiva garagem dos elétricos. Linha embrião da Cardoso de Almeida.

 

Quem sabe se nalgum dos passeiozinhos não tenhamos viajado num daqueles – lépidos quão silenciosos – belos ônibus importados que, por alavancas de contato, captavam eletricidade – não de um fio, caso dos bondes – mas de dois, sibilando, zzziiimmm… Eu? Adorei!

 

Pois foram jornais antigos, do Arquivo do Estado, isto nos anos 1990, no preto-e-branco de notícias e ilustrações, dos anos 1940, que me contaram sobre os trinta pioneiros trólebus importados para a CMTC, em 1947 – ano em que nasci.

 

Aqueles trinta protagonistas de 22 de abril? Ah… que peninha! Deles, não se guardou unzinho, de como vieram originalmente –- pobre memória do nosso transporte.

 

Coube ao jornal A Gazeta mostrar-me os quatro trólebus BUT, ingleses, já desembarcados no cais de Santos – no vermelhão da CMTC, zerinhos, prontinhos para rodar! O que fariam, como os demais, dois anos depois. Não obstante inglês da gema, os quatro BUT, montados para São Paulo, já traziam, claro, o volante do motorista do “nosso” lado – e não à direita,. E, curioso, janelas que alternavam: uma abria, outra não…

 

Um exemplar do Correio Paulistano foi muito legal para com minha pessoa! E mostrou-me os seis igualmente zerinhos e belos Pullman-Standard alinhadinhos no convés do naviozão — emblema da CMTC na lataria, Trólebus muito comuns de cidades americanas.

 

E algum outro noticioso antigo, da mesma hemeroteca, trouxe mais.

 

Inteiravam a frota de trinta, vinte outros elétricos – americanos, como os Pullman: tratava-se agora dos robustos Westram W 40. Curioso: em vez do comum dos ônibus – um letreiro – o Westram trazia DOIS, um ao lado do outro! Que indicavam, simultaneamente, os pontos extremos: Praça João Mendes e Aclimação. E na traseira – lembro de ter visto nas ruas, bem acima do protuberante parachoque, um alerta inscrito para motoristas distraídos: “Mantenha distância – Freios de ação rápida”… Não bastassem as luzes de freio, grandonas: STOP!

 

Lembro mais! Quando Prestes Maia substituiu Adhemar, na prefeitura, comecinho dos anos 1960, os briosos Westram (cuja pequena produção foi repartida por Cidade do México, Buenos Aires e…a CMTC) foram reaproveitados. Pois os Westram que, nos meus sete, oito anos, eu os via na Martins Fontes na segunda linha da CMTC – 51 – Jardim Europa – nos anos 1960 tinham os chassis revestidos de novas carrocerias, nas oficinas da Rua Santa Rita! E iriam rodar mais duas décadas…

 

Dos jornais antigos, nada, nenhum me mostrava, nem mesmo as Folhas da Manhã, da Tarde ou a da Noite, ninguém… Eu não encontrava uminha foto de um Westram, no porto de Santos — como os outros. Até que algum outro jornal elucidou. Eles tinham vindo completamente desmontados para ganhar vida nas mãos de operários brasileiros, nas oficinas da Companhia Studebaker de Automóveis – depois VEMAG – na então “Rua da Grota Funda”.

 

Um êxito! Trólebus americanos ineditamente montados na Vila Carioca! Portanto, agora, tão paulistanos quanto a própria CMTC!

 

E assim, com a ajuda dos velhos jornais, estava completado o time dos trolebus pioneiros no transporte de São Paulo.

 

Rubens Cano de Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Para conhecer esta história completa, visite agora o meu blog miltonjung.com.br A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto também para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: tocando o meu berrante no trânsito da cidade

 

Por Samuel de Leonardo

 

 

O trânsito caótico das grandes cidades é capaz de proporcionar fatos inusitados e porque não dizer surrealistas. Em São Paulo já não é mais possível fugir dos engarrafamentos, não tem como optar por trajetos para amenizar a situação, quer seja pela manhã quer seja à tarde.

 

Sofre aquele que usa o seu automóvel para se locomover, sofre quem se utiliza do transporte público. Padece o motociclista, padece o pedestre, se ferra o ciclista. Todos acabam punidos, todos. São muitos veículos para poucas vias de acesso.

 

No começo da noite, seguia pela Avenida Paulista na faixa central sentido Paraíso. Seguia é força de expressão: estava parado no trânsito e sem perspectiva de melhora. O semáforo abria, fechava, abria. Nada de sair do lugar.

 

Após minutos de espera conseguimos cruzar a Rua Augusta, eu e mais alguns carros apenas. Aí tudo se repete: anda um pouco, para, anda.

 

Confesso que eu não me estresso, aproveito o tempo e vou observando o comportamento de cada vizinho.

 

À minha frente dois veículos, nas faixas à minha esquerda e à minha direita também dois. Percebo que a que vai à minha frente, pelo balançar da cabeça, curtia um som. Pelo retrovisor observo um motorista com duas cabeças, indicando tratar-se de um casal apaixonado. O da minha esquerda cutuca o nariz, tira algo e faz bolinhas. Com um peteleco atira-a pela janela. O da direita acende um cigarro, dá uma longa tragada e com a cabeça para fora lança uma baforada que atinge o motoboy que teima em passar pelo estreito corredor. Uma motorista ao lado apresenta um espetáculo de malabarismo: na mesma mão, cigarro, celular e o dedo indicador apontado para o motoqueiro que acabara de esbarrar em seu retrovisor.

 

Abre-se o farol, não havia como prosseguir, mas o condutor do veículo à minha direita toca a buzina sem cessar insistindo para que os demais invadissem a faixa de pedestre. Ninguém se abalou. Verde, amarelo, vermelho, verde novamente e a situação permanece inalterada.

 

Uma vez mais o motorista do carro ao lado mostrando toda sua impaciência volta a acionar a bendita buzina insistentemente. Como da vez anterior, nenhum condutor dá a mínima.

 

Com um pouco de sorte conseguimos progresso. Cruzamos a Rua Peixoto Gomide — mais um quarteirão vencido. Outra rua está por vir e assim atingimos mais uma quadra.

 

A história já é sabida: espera, paciência e perseverança. Quando já nem lembrava mais das buzinadas, aquele sujeito regressa à cena, desta vez com mais vigor, dispara o som a toda, põem a cabeça para fora e grita feito um louco:

 

— Seus motoristas de merda, tartarugas, molengas.

 

Ao instante a porta do passageiro do automóvel à sua frente se abre, desce um sujeito de estatura alta, chapéu de caubói à cabeça, todo desengonçado, carregando em suas mãos um instrumento enorme feito de chifre de boi, se aproxima da janela do nervosinho e grita:

 

Neste trânsito errante, só mesmo tocando o meu berrante.

 

Com habilidade, assopra o instrumento emitindo um som alto que a todos contagia. Uma vez, outra vez mais. Como um boiadeiro que acalenta toda a manada.

 

O trânsito continuou na mesma toada, mas as pessoas o aplaudem e entre assobios e gritos, o nervosinho da buzina disfarça um sorriso cessando a sua fúria, tal e qual um animal xucro quando domado.

 

Samuel de Leonardo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu capítulo da nossa cidade e envie para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a saga de Seu Orlando e do caloteiro da padaria

 

Por Andrea Magri

 

 

Seu Orlando (Laurenti) como todos os dias estava de pé na porta de sua padaria… já bem conhecida em São Paulo, principalmente dos descendentes italianos, no coração do Bixiga. Na frente havia o estacionamento, naquela época, meados de 1968, isso era um luxo.

 

Assim, ele viu parar aquele Volkswagen cor vinho com rodas brancas, impecável, novo em folha. De de lá um jovem senhor, talvez uns 45 anos — naquela época, mais de 40 era quase idoso. Mais velho que seu Orlando, que só tinha 30, mas bem apessoado, de mangas de camisa, paletó e sapato nos trinques. Cara de bom cliente, pensou seu Orlando.

 

O cliente pegou tudo que havia de bom e dava sinais de ser bem nascido, já que era conhecedor de queijos e vinhos. Encheu uns quatro cestos e assim que chegou no caixa, colocou a mão em um bolso e em outro …

 

— “Puxa, a carteira deve ter ficado no carro”.

 

— “Sem problema”, respondeu seu Orlando, que logo providenciou um funcionário para levar as compras até o fusca. Deram cinco minutos e o funcionário voltou sem compras, sem cliente e sem dinheiro:

 

—- “Foi embora e nem me deu caixinha”.

 

— “Minha nossa senhora da Achiropita! Não posso acreditar! Que prejuízo! Ele não pagou as compras”, gritou seu Orlando, desesperado.

 

Nem conseguiu pegar no sono naquela noite, só de pensar no golpe do bom cliente.

 

As noites mal dormidas e o prejuízo se dissolveram no tempo. Seu Orlando, empreendedor e trabalhador, fez sociedade com um amigo em uma lanchonete. Já tinha duas filhas e as coisas não eram fáceis. Trabalhava de dia na padaria e à noite, ali na praça Carlos Gomes, em frente ao Cine Joia.

 

Em uma noite daquelas, um homem de cavanhaque e bem vestido chega na lanchonete e pede ao garçom 10 chess-saladas, 5 porções de batata frita, 10 cachorros quentes e queria tudo para viagem. Seu Orlando estava na chapa e ficou curioso para saber quem havia feito aquele pedido todo. Foi quando saiu aos gritos:

 

— “Ei, você! Que está fazendo aí? Veio acertar comigo o que me roubou na padaria, é ?”

 

O safado saiu correndo, atravessou a praça e fugiu no seu fusca. Era o mesmo que havia aplicado o golpe na padaria, fazendo aquela história voltar a atormentar Seu Orlando.

 

Mais de um ano depois, em um domingo, Seu Orlando vai ao açougue da vizinhança. De repente, quem ele enxerga no caixa com sacolas de carne sendo levadas por um empregado até o carro.

 

— “Seu Jorge! Esse é ladrão, seu Jorge! Ele já pagou?

 

— “Que isso, o cliente vai pegar o dinheiro no carro”

 

— “Esse é ladrão! Me roubou na padaria! Do mesmo jeito! Chama a polícia, seu Jorge! Ele quer te roubar! Esse cara é um gatuno!”

 

E o cliente, sem jeito, disse que não precisava levar as encomendas no carro porque ele não era dessas coisas, não. Foi até lá, pegou a carteira, pagou as compras e resolveu sair por cima:

 

— “Você quer me difamar! Chama, sim, a polícia… Eu nem te conheço!

 

Foi, então, que a polícia chegou, o homem deu queixa contra o Seu Orlando, que estava desnorteado e acabou na delegacia para dar explicações do motivo da agressão verbal ao pobre cliente.

 

— “Vai ficar aqui até esfriar a cabeça”, ouviu do delegado, envergonhado e ultrajado.

 

Pois não é que o caminho dos dois cruzou novamente, dias depois.

 

Eram mais de dez da noite e seu Orlando foi ao restaurante ao lado da padaria para tomar um copo de cerveja com o dono, o seu Antonio. Ao chegar, depara com vários homens sentados em uma mesa, jantando. Entre eles, o infeliz. O sangue italiano ferveu e não o deixou sequer pensar!

 

— “É aqui seu próximo calote? Seu Antonio…muito cuidado! Esse é o homem que me roubou na padaria, quis me enganar na lanchonete e ia dar o golpe no açougue! Este é o gatuno que te contei!”

 

E, claro, foi aquele fuzuê. O almofadinha, diante de amigos, desta vez se rendeu com tantos encontros inesperados:

 

— Fala aí, quanto eu fiquei te devendo? Não aguento mais te encontrar. Você já está prejudicando a minha vida.

 

Sacou a carteira recheada de dinheiro, pagou a conta e foi embora. Assim como Seu Orlando, que viu justiça ser feita tantos anos depois. Hoje, ele tem 80 anos, três filhas — Andrea, Paula e Juliana —- e três netos — Luca, Matteo e Sofia. Dona Vilma, a esposa, já se foi. A padaria Basilicata, segue firme no mesmo endereço, há 102 anos, e ainda é da família.

 

Orlando Laurenti é o personagens do Conte Sua História de São Paulo, escrito pela filha, Andrea Magri. A sonorização é do Cláudio Antonio.Escreva o seu texto também e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: cheguei cego e menino na cidade que me acolheu

 

Por Geraldo Pinheiro da Fonseca Filho
Ouvinte da CBN

 

 

O dia 2 de março de 1965, uma terça-feira, constituiu-se num marco definitivo em minha vida, pois naquela manhã um tanto assustadora desembarquei juntamente com meu saudoso pai, na antiga rodoviária de São Paulo, no bairro da Luz, procedente de minha cidade de origem no Estado do Paraná, a cidade de Maringá, visando iniciar meu ciclo de formação escolar fundamental no instituto de cegos Padre Chico, no bairro do Ipiranga.

 

Inicialmente, para mim que contava então com a idade de seis anos, considerando ainda que jamais deixara minha cidade a não ser para tratamento médico, abria-se um mundo sombrio e totalmente desconhecido onde a profusão de sons que se misturavam em uma sinfonia severa, num primeiro momento muito mais assustavam e constrangiam do que arrebatavam.

 

Logo ao desembarcar, o ruído quase uníssono e o odor que entorpecia de dezenas de veículos da marca DKW Vemago, que naquela época eram utilizados como táxis, iam aos poucos absorvendo minha percepção, demonstrando de forma avassaladora a austeridade e o domínio implacável da cidade-gigante que me recebia.

 

E foi assim sob este misto de temor e expectativa que chegamos ao instituto Padre Chico, a escola que eu tanto aguardava, porém nos moldes da rotina de minha irmã mais velha, na escola que ela já frequentava há algum tempo lá em minha longínqua cidadezinha e que me despertara para aquela ansiosa expectativa da escola; porém, quando meu pai me deixou no internato em um ambiente inovador mas totalmente estranho, ao cair na realidade da distância e da falta da família, sobretudo de minha mãe, passei por um período de difícil adaptação, mas gradativamente fui desvendando, através da dinâmica eloquente das atividades desenvolvidas no Instituto, os enigmas e a magia da cidade que me acolhera, convertendo mais e mais todo aquele temor inicial em conquistas que iam sedimentando meu apreço e admiração por seus valores, sons que me conquistavam, sua história e sua potencialidade predominante de proporcionar inovações, mutações e conquistas diante de desafios inimagináveis para uma criança cega como o meu caso e também para minha família.

 

Embora as atividades da dinâmica escolar absorvessem parte substanciosa de minha vida como aluno interno do Instituto, paralelamente fui sendo cada vez mais inserido no âmbito das novidades peculiares à cidade de São Paulo, ensejando assim cada vez maior enquadramento e uma crescente afeição aos seus valores, que me envolviam em uma verdadeira magia de sons que, se inicialmente assustavam e até constrangiam, iam consubstanciando em meus sentimentos um apreço cada vez mais vinculante e também fascinante em face a esta cidade que me acolhera, e ia definindo um futuro moldado por aspirações e expectativas.

 

Um dos primeiros sons que me encantou por sua característica estridente e o tilintar do seu sinalizador sonoro de alarme foi o inesquecível bonde, que ligava o Ipiranga à praça João Mendes; muitas vezes aos finais de semana, aos sábados eu era retirado do Instituto para passar o domingo com uma família de amigos de meu pai que residira em Maringá no passado, quando então tomávamos o bonde cujo ponto inicial era em frente à portaria do Instituto, descíamos na praça João Mendes, seguíamos pela rua Direita, atravessávamos o viaduto do Chá e seguíamos para a praça Ramos de Azevedo, lá tomávamos o ônibus para a vila Leopoldina onde residiam. A vila Leopoldina era provinciana, parecia mesmo uma cidadezinha do interior; ali me encantava com o ruído emitido pelos subúrbios da antiga Sorocabana, a sineta de sinalização da cancela da estaçãozinha por onde transitavam os trens.

 

O Museu do Ipiranga também tornou-se reduto de visitas frequentes dos alunos internos do Instituto, percorríamos aos domingos, seus extensos jardins adornados por vastos gramados, ouvindo os sons inconfundíveis dos realejos e a nostalgia de suas melodias, sempre repetitivas e no mesmo ritmo como a acalentar nossas imaginações sonhadoras de criança.

 

Ainda envolto pelas recordações singelas daquele período inicial, o parque Xangai, na baixada do Glicério, com seus brinquedos exóticos e muitas vezes temerosos para mim em razão da confusão dos sons estridentes que emitiam, tornou-se um dos nossos ambientes preferidos de diversão, conquanto me intimidassem até que superasse a barreira severa da primeira experiência.
No rádio da época a Jovem Guarda ousava confrontar a explosão dos Beatles, da onda avassaladora das canções italianas e norte-americanas, proporcionando neste devaneio sonoro a nova característica da música jovem brasileira.

 

O rádio fazia fluir por pontos diversos da cidade os toques soturnos e melancólicos do carrilhão do mosteiro de São Bento, irradiados hora a hora pela extinta rádio Piratininga, uma espécie de clamor do coração paulistano que até hoje e creio que para sempre, persistirá latente em minhas recordações mais sutis desta cidade-gigante que jamais perderá sua magia de encantar.

 

Todos os anos no mês de outubro, na semana da criança, visitávamos o inesquecível salão da criança que era instalado no Ibirapuera, que nos acolhia em um recanto de singelas imaginações e sonhos acalentadores e sublimes.

 

A biblioteca infantil Monteiro Lobato na vila Buarque era frequentada pelos alunos do Instituto todas as quintas-feiras. Naquele ambiente saudoso e inesquecível, tínhamos acesso a um acervo de livros em Braille, discoteca com um diversificado repertório de canções e histórias infantis, sala de jogos e brinquedos pedagógicos, teatrinho de fantoches e até academia infanto-juvenil de letras fazendo-me já naqueles tempos imemoriais, usufruir das nuances culturais de São Paulo, cujos preceitos e riquezas prevalecentes prosseguem emoldurando minha vida com intensidade e nobreza.

 

E foi assim, envolto por esta trajetória evolutiva da cidade que me acolheu, me encaminhou e me formou que fui transpondo todas essas etapas precedentes, deixei o Instituto após ter concluído o primeiro grau, prossegui meus estudos no ensino médio ainda no bairro do Ipiranga, ingressando por fim no curso de direito da PUC-SP, onde me formei em 1984.

 

Como se pode depreender desta singela síntese histórica, não mais me afastei desta cidade, que um dia foi até designada por alguém que não me lembro quem como (selva de pedra) mas que para mim foi e sempre será o símbolo da nobreza, da cultura, da conquista da inclusão e do sucesso decorrente da valorização profissional.

 

São Paulo em minha opinião é mais mãe do que pai, pois tal qual um coração de dimensões imensuráveis, sabe acolher, confortar e amar, sem abdicar da prerrogativa de exigir e valorizar seus filhos, sejam naturais ou adotivos, todos na mesma amplitude de amor maternal, por isso São Paulo, quero exprimir meu amor filial delineado neste abraço supremo e eterno.

 

Geraldo Pinheiro da Fonseca Filho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Envie a sua história, também: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a milagre de Fátima na Vila Jaguara

 

Por Osnir G. Santa Rosa
Ouvinte da CBN

 

 

 
Em 1952, minha família estava morando numa casa alugada, enfiada no seio da Mata Atlântica, no bucólico bairro do Tremembé. Para as crianças, como eu, ali era o paraíso uma vez que tinha muitos pés de jaboticaba e outras frutas como pinhão, goiaba .. Achamos, certa vez, um enorme pé de pera willians que alguém havia plantado uns 40 anos atrás. Vivíamos, também, junto a passarinhos, galinhas, patos, cachorros e porcos. Assim, mesmo pobres, não faltava o que fazer para se divertir.

 

Meu pai era chofer de praça. Uma noite ao chegar em casa ele contou para minha mãe que havia servido o grande ídolo do Palmeiras, Caieiras. E que ele estava sofrendo muito com seu filho acometido de forte mal que hoje sabemos ser alergia, mas, naquele tempo, não se ouvia essa palavra. Minha mãe era muito religiosa, um tanto mística, devota fervorosa de Nossa Senhora Aparecida. Imediatamente, disse para meu pai: — Por você não disse pra ele pedir um milagre para Nossa Senhora Aparecida? Meu pai: — Puxa, é mesmo. Ele mora no caminho que eu faço todos os dias. Vou tentar dizer isso pra ele.

 

Alguns dias depois, ao chegar em casa, meu pai deu a notícia para minha mãe de que havia sugerido para o Caieiras aquela ideia de ele fazer uma promessa; e que ele gostou tanto que decidiu contratar os serviços de táxi para levar sua mulher e o garoto para Aparecida. Mamãe, sempre esperta, falou, então: — Olha, Lindo, como vai sobrar uma vaga no carro será que ele me deixaria ir também. Gostaria tanto de ver de perto Nossa Senhora Aparecida.

 

Claro que Caieiras não se opôs e foram todos visitar a Padroeira do Brasil. Chegando lá, conta minha mãe, que ao ver tanta gente pedindo milagres que decidiu, ela também, pedir o seu. E qual era o seu? Ter uma casa própria.

 

Passadas duas semanas, apareceu uma pessoa de origem nordestina no ponto de táxi do meu pai oferecendo um terreno com uma casinha em Vila Jaguara, extremo oeste da capital. Era tão longe que nem os motoristas de táxi sabiam dessa vila. Contando para minha mãe esse fato ela imediatamente viu ali a mão da Virgem. E disse, vamos lá conhecer. Se tiver luz, água e escola para os meninos vamos fazer o máximo de esforços pra comprar. E assim, em 1953, deixamos o Tremembé, depois de darem uma ajeitada na casinha em que chovia mais dentro do que fora. E é de onde escrevo este texto. Onde sofremos muito, e muito rimos e brincamos. Alto de Vila Jaguara, junto ao quilômetro 12 da rodovia que mal acabara de ser inaugurada, a Anhanguera.

 

Em tempo: meu pai chegou ver o filho de Caieiras já moço, mas não ficou sabendo se houve ou não o milagre.
 

 

Osnir Geraldo Santa Rosa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: morei ao lado dos galinheiros da 25 de Março

 

Por Eduardo Britto
Ouvinte da CBN

 

 

Tenho 53 anos, nasci no Hospital do Servidor Público Estadual, mas como no dia seguinte minha mãe já estava em casa, na rua 25 de Março, considero que nasci bem no centro da cidade, entre o Parque Dom Pedro II e o Pátio do Colégio.

 

Naquele tempo, segunda metade da década de 1960, a rua 25 de Março já tinha um comércio forte. Nada parecido com o volume e a ebulição do comércio atual. Na verdade, o quarteirão em que eu morava, os primeiros 200 metros dessa rua tradicional, até hoje tem um movimento bem diferente do resto da rua. Naquela época alternava comércio de tecidos e galinheiros — isso mesmo, havia um grande comércio de galináceos naquele trecho. Bem, as aves foram embora, algumas lojas de tecidos estão lá até hoje, mas é um trecho, digamos, bem parado e decadente.

 

Tive a chance de conhecer o Parque Dom Pedro ainda com flores e jardins. Em volta do Palácio das Indústrias havia um tanque e chafariz com peixinhos vermelhos! Isso mudou quando começaram as obras do metrô nas praças Clóvis Beviláqua e Sé, e os ônibus que faziam ponto final lá mudaram para o novo terminal no Parque Dom Pedro II, que perdeu o verde, ganhou asfalto e cimento, nunca mais foi o mesmo.

 

Joguei muita bola na praça Fernando Costa, no encontro da 25 de Março com a rua General Carneiro, onde havia um grande gramado e árvores, uma praça que parecia do interior. Hoje ela está soterrada por barracas de comércio ambulante…

 

Em 1972, eu tinha nove anos, mudamos para o Bixiga. Mudamos só no meio daquele ano, e como eu tinha que começar o ano letivo já na escola nova, passei a tomar um ônibus, linha Previdência da CMTC, às 6h30 da manhã, no Parque Dom Pedro II — o ônibus que me deixava na rua da Consolação, na Escola Estadual Marina Cintra. O grande desafio era conseguir descer naquela altura da Consolação, pois o ônibus era hiper-lotado, e algumas vezes eu estava antes da catraca —-naquela época entrávamos pela porta de trás — e só conseguia descer quando o ônibus desovava a maioria dos passageiros, no Hospital das Clínicas.

 

Numa das vezes, lembro muito bem, eu desci lá nas Clínicas e, tendo perdido a hora, e querendo economizar o dinheiro da volta, desci a pé a Consolação, passei na frente da escola e continuei descendo, atravessei o Viaduto do Chá a rua Direita, a rua General Carneiro. Fui até a minha casa. Quantos quilômetros a pé e com apenas nove anos. Os pais naquela época não se preocupavam com os filhos andando na rua; e realmente não tinham razão para se preocupar.

 

Fiz o ginásio no Marina Cintra. Já o colegial me permitiu ter um dos maiores orgulhos de minha vida acadêmica: através de um “vestibulinho” consegui entrar no Colégio Caetano de Campos, coisa que a minha mãe sempre tentou no passado e não conseguiu, porque era uma escola estadual das elites. Em 1977, fiz o 1º ano do colegial naquele prédio suntuoso do Caetano de Campos, e já no ano seguinte, 1978, o prédio deixou de ser usado como escola para as obras da linha vermelha do metrô. Então, uma parte dos alunos foi para o novo e moderno prédio do Caetano, na Pires da Mota, na Aclimação, e um grupo, eu incluso, foi para a unidade do Caetano que ocupou o belo casarão da antiga escola alemã, o Colégio Porto Seguro, na praça Roosevelt.

 

Era uma época em que eu e toda minha geração tivemos a oportunidade de conhecer uma escola pública de muita qualidade, em São Paulo.

 

Eduardo Britto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: és imensidão espraiando diante dos meus olhos!

 

Por Vera Carreiro
Ouvinte da CBN

 

 

São Paulo, cidade gigante em todos os sentidos: no tamanho, nas oportunidades, na emoção, no coração! São Paulo, a cidade que palpita, estertora, estrebucha, não para, não dorme!

 

São Paulo da miscelânea cultural, dos imigrantes, dos migrantes, dos poetas, dos cantores, dos artistas.

 

São Paulo dos contrastes, dos mendigos, vagabundos, trabalhadores, adultos, crianças, jovens e anciãos, ricos, pobres, arrogantes, humildes, mansa, embrutecida, alegre, triste, evoluída, estagnada, muito bela, muito feia!

 

São Paulo de todos os matizes, de todas as misturas, de todos os superlativos, de todos os diminutivos, de todos os problemas e todas as soluções. Se fosse escrever sobre todos os teus atributos, precisaria de um livro imenso, do teu tamanho, por isso, simplesmente me aterei à impressão, causada em mim, ante teus pés: Nossa! Como és Grande! És o mundo dentro de uma cidade!

 

És imensidão espraiando diante dos meus olhos! Sinto que minha visão é pobre e diminuta perto do teu tamanho. Cidade a perder de vista, com teus arranha-céus, praças onde cantam bem-te-vis e sabiás, ruas estreitas, avenidas largas e modernas, a maior frota de carros e veículos já vista, pessoas de todos os tipos e lugares se misturando, um formigueiro sem tamanho! O bonito e o feio se confundem em ti.

 

És hospitaleira, recebendo a todos com enormes braços abertos, oferecendo teu abrigo, teu sustento, tuas facilidades, teus horizontes, tuas oportunidades infinitas e, ainda, teus viadutos e marquises aos desabrigados.

 

E, por seres assim, tão mãezona, é que abrigas também o lado menos bonito da cidade. É porque teus tutelados menos nobres não te honram com trabalho, disciplina, boas ações, bons sentimentos e versam para o crime, a desordem, a ociosidade, a delinquência, o estelionato, etc.

 

És concomitantemente rica e pobre. Proporcionas, a cada um, o que procura ou faz por merecer: ao rico de ideais, de vontade e trabalho, a riqueza; ao pobre de ideais e de vontade, a pobreza.

 

Ofereces a oportunidade reivindicada a qualquer pessoa, sem distinção, nem discriminação, como um imenso coração de “mãe”!

 

Vera Carreiro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Para participar desta série, envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br