Conte Sua História de São Paulo: refaço meus caminhos na cidade

Por Emília Gonçalves
Ouvinte da CBN

 

“Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e Av. São João […]

 

Foi com o poema do Caetano na cabeça que eu comecei a conhecer a minha São Paulo querida. Eu morava em Guarulhos e fazia estágio no Hospital das Clínicas, na década de 1980. E foi amor à primeira vista. Não só por seus arranha-céus, as grandes avenidas, o ir e vir das pessoas apressadas para o trabalho ou estudo. São Paulo sempre teve algo especial que contradiz a crença de que as pessoas são frias e só se importam com o trabalho.

 

Existe o trabalho que move a cidade, existe a correria, e existe a gentileza de quem desacelera o passo para lhe dar uma informação com um sorriso no rosto. Existe um músico na esquina, uma avó com sua neta, um beijo roubado e uma estudante, como eu, a espreitar a vida pulsante dessa linda cidade. São Paulo é o encontro do antigo, do moderno, do contemporâneo e, quiçá, do pós-contemporâneo. São Paulo é uma cidadã do mundo, uma cosmopolita que abraça todos, que acolhe…

 

Como toda grande cidade em que se espera tudo dela, São Paulo também tem suas mazelas que nos chocam e nos confundem, e também a solidariedade de quem oferece um pão, um abrigo, uma palavra.

 

Eu hoje vivo na Bahia, mas nunca perdi esse amor.

 

Agora vou a São Paulo todo ano e refaço meus caminhos. Faço novos trajetos, descubro a nova cidade. Vivo o presente que a cidade é, ponho o pé no passado e a cabeça no futuro.

 

” […] Aprende depressa a chamar-te de realidade/ Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso […]”.

 

A Profª Maria Emília dos S. Gonçalves é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças e envie para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a minha cidade maravilhosa

 

Sonia Couri
Ouvinte da CBN

 

 

Ao chegar em São Paulo, em 1969, aos 20 anos de idade, até então vividos com todo o glamour que o Rio de Janeiro me proporcionou, ainda com a visão magnífica da praia de Copacabana, do baile de debutantes no Copacabana Palace e das janelas do Colégio São Paulo, admirando diariamente as águas do Arpoador, o susto foi enorme.

 

Mesmo sendo casada recentemente com um industrial paulista, e com uma condição privilegiada de vida, aquela mudança radical de hábitos e costumes, me fez pensar em largar tudo e voltar correndo para minha terra.

 

Os anos se passaram, meus três filhos nasceram, cresceram, estudaram, se formaram, se casaram.

 

Fiquei viúva após trágico incidente que me fez sair da “boca do luxo” para um ramo, na época ,fechado às mulheres. Eu, que nunca havia trabalhado fora do meu ninho familiar, cuidando da casa e dos filhos, me atirei com unhas e garras no mercado de automóveis, deixado por meu marido. Com a ajuda de meu filho mais velho, na época com 17 anos, começamos com a cara e a coragem a virar noites para aprendermos o caminho da sobrevivência.

 

E é aí que entra a minha gratidão eterna por esta cidade de São Paulo, onde resolvi ficar, desprezando a chance de voltar ao Rio, e onde depositei minha crença de que aqui seria a salvação para a criação de meus filhos. Acertei em cheio, fiz os 13 pontos da loteria da vida. Formei todos os filhos, assisti à chegada de sete netos e, hoje, após 50 anos, agradeço a Deus por ter ficado nesta terra que não mais é da garoa e, sim, de um céu de brigadeiro, apaixonada por cada canto deste país que São Paulo se tornou. Uma terra que abriu suas portas para árabes e judeus, japoneses e chineses, espanhóis, portugueses e italianos, para toda gama de imigrantes, vindo de todos os cantos da terra, que ajudaram a construir a cidade, para mim a verdadeira cidade maravilhosa, que dá a quem procura, a dignidade de morar  e trabalhar, para sustento dos seus. Graças a Deus, estou paulista!

 

Sonia Couri é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha participar também: envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: o sabor do cachorro quente e outros prazeres do estádio de beisebol da cidade

 

Por Jun Yano
Ouvinte da CBN

 

 

Passei grande parte dos meus domingos no estádio de beisebol Mie Nishi , no Bom Retiro. Foi inaugurado em comemoração ao cinquentenário da imigração japonesa, em 1958, com a presença da família imperial do Japão.

 

Comecei a praticar beisebol nesse estádio quando tinha sete anos. Pegava ônibus na Vila Mariana até a praça João Mendes, fazíamos baldeação e íamos para o bairro do Bom Retiro. Meus irmãos me levavam e eu como era pequeno passava por debaixo da catraca para sobrar dinheiro para o sorvete.

 

Gostava de assistir às partidas dos campeonatos de dentro do campo, como gandula e sonhava um dia jogar no estádio principal —- sonho alcançado anos depois. Os jogadores pareciam enormes e fortes como super-heróis. Imitávamos suas chuteiras de travas de metal amassando com nossos kichutes as latinhas de cerveja.

 

Nossos treinadores eram voluntários que amavam o beisebol Sou muito grato a paciência que tinham. Além de treinar, brincávamos nos intervalos jogando futebol, pula sela, polícia e ladrão,… Enfrentávamos o trote dos veteranos e até hoje perduram alguns apelidos de personagens cômicos com os quais fomos batizados.

 

Tinha também o cachorro quente da dona Maria: pão, salsicha, molho e purê de batata. O sanduíche mais gostoso que comi. E o sorveteiro que chamávamos de Sorvelino. Ele conhecia todos pelo nome.

 

O estádio foi palco do Panamericano de 1963; lá jogaram equipes de faculdades japonesas, times semi-profissionais do Japão e a seleção campeã olímpica de Cuba. Hoje, é o ponto de encontro de meus amigos em campeonatos de veteranos, momento em que lembramos com saudade as histórias que passamos juntos, no estádio municipal de beisebol Mie Nishi.

 

Jun Yano é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças da nossa cidade e envie o texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: as novidades musicais chegavam na Hi-Fi

 

Por Douglas de Paula e Silva
Ouvinte da CBN

 

 

 

Nasci na Lapa, em 1955, na Rua Faustolo. A casa existe até hoje. Meus pais, Antonia e Rubens, sempre foram muito musicais: cantando, dançando, tocando piano. Ele com sua voz de tenor, cantava árias de óperas sem nunca ter estudado música, tocava piano de ouvido e dançava muito bem. Papai era da Aeronáutica, tinha muito contato com pilotos americanos, que traziam discos de jazz, blues, música clássica. Mesmo criança já ouvia Glenn Miller, Dave Brubeck, Miles Davis. Adorava “Take Five” do Brubeck.

 

Quando nos mudamos para o Planalto Paulista, em 1960, um lugar bem isolado naquela época, minha mãe logo me colocou para aprender a tocar piano com a Dna. Maria Expedito, perto de casa. Fiz seis anos de piano meio que por obrigação. Gostava mesmo era de bateria. Minha mãe, disse que aquilo só fazia barulho.

 

Tudo mudou quando, com oito anos, em 1964, minha tia me levou para assistir ao “Os Reis do Ié Ié Ié”, o primeiro filme dos Beatles. Fomos no Cine Nacional, na Rua Clélia, um dos maiores cinemas do Brasil. Quando vi os Beatles tocando, aqueles jovens gritando, dançando no corredor do cinema, percebi que o rock era a minha música.

 

Rádios FM eram raras bem como os aparelhos para ouvi-las. Ouvia as músicas no AM. Por falta de dinheiro, comprava apenas os discos compactos. Os LPs eram caros e demoravam para chegar por aqui. Costumava pegar emprestado os LPs de amigos mais abonados da escola.

 

As novidades chegavam primeiro na loja da “HI-FI” da Rua Augusta, trazidas diretamente dos Estados Unidos pelo dono Hélcio Serrano. Na visita à loja, além das novidades, você encontrava Rita Lee, Raul Seixas, Caetano … Em uma época em que tudo era proibido, as embalagens da HI-FI eram bem ousadas. Lembro de uma delas onde o Serrano aparecia nu com uma capa de disco tapando o que não poderia ser mostrado.

 

Os shows de rock não vinham para o Brasil. O mais famoso a se aventurar por aqui foi Alice Cooper num show caótico no Anhembi, em 1974. Em 1977, veio o Genesis, com Phil Collins no vocal. Um show maravilhoso no ibirapuera. Épico foi o do Queen no Morumbi, com Freddie Mercury comandando mais de 100 mil pessoas no “Love of my life”…

 

No rádio, duas emissoras se destacavam tocando rock: a Difusora e a Excelsior. Vasculhando o dial, descobri na madrugada, o programa Kaleidoscópio, que tocava rock progressivo e discutia temas como drogas, liberdade, teatro … e tocava discos na íntegra.

 

Vieram os CDs, em 1985. E com eles novos grupos como The Police e Nirvana.

 

Tive oportunidade de assistir a muitos shows de grupos que gostava desde a juventude.

 

Há quatro anos fui ver o cover do Led Zeppelin e fiquei impressionado com o baterista, que lembrava em tudo John Bonham. Conversei com ele e desde então, eu e meu filho de 15 anos, Daniel, estamos tendo aulas de bateria. Até nos apresentamos juntos. Foi inesquecível.

 

Falei para minha mãe, agora com 94 anos. E ela, ao contrário do meu tempo de criança, gostou muito. Felizmente!

 

Douglas de Paula e Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br

Conte Sua História de São Paulo: o dono da doceria do Brás era a cara do Tenente Rip Masters

 

Por Celia Corbett
Ouvinte da CBN

 

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A Rua Caetano Pinto na altura do Laboratório Fontoura, no Brás Foto: ouvinte CBN

 

 

Eu tinha quatro anos, em 1958, e morava com a família na Rua Caetano Pinto, uma travessa da Avenida Rangel Pestana, no coração do Brás. Meu pai Hélio, era escrevente de cartório; minha mãe Ottilia, dona de casa; e mais três filhos: Márcia, Carlos e eu… a Celinha.

 

Morávamos em um prédio, com quatro andares, que para a arquitetura que dominava as construções da região era muito moderno. Tinha um elevador que subia e descia ao meu bel prazer (e quando o Sr Quirino, o zelador, não via, né?).

 

Na Caetano Pinto, eu me lembro de que à esquerda era o Laboratório Fontoura, do famoso biotônico. A loja do Sr. Regis, que vendia porcelanas. E quase na frente do terraço do meu prédio uma doceria. O dono era a cara do Tenente Rip Masters, da série de TV Rim Tim Tim.

 

Meus irmãos me diziam que o Tenente fechava a doceria e corria para TV. Eu ficava na janela à espreita. Assim que o Tenente fechava a loja, eu ligava o aparelho de TV, que na época demorava a sintonizar —- tempo suficiente para Rip Masters aparecer no Forte Apache.

 

Santa inocência!

 

Seguindo, à direita eu tinha a IRFM – Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo. E lá trabalhava o meu nonno, Francisco Ferrari, Chefe de Almoxarifado. Eu ouvia o sonoro apito da fábrica todos os dias, que norteava o horário de muitos moradores do bairro.

 

Como esquecer a Paróquia de Nossa Senhora de Casaluce, que os napolitanos fundaram. Até hoje só existem duas no mundo dedicadas a ela: a de Nápoles e a de São Paulo. A festa da paróquia era incrível e o que mais me fascinava, além da comilança, era o “pau de sebo”.

 

Nos domingos, atravessávamos a Avenida Rangel Pestana e lá estava a casa dos meus nonnos na Maria Domitila, ao lado do Parque Dom Pedro II, do Gasômetro e da Assembleia, no Palácio 9 de Julho, palco de grandes atividades políticas.

 

Um pouco mais adiante perto das Avenidas do Estado e Mercúrio tinha o Mercado Municipal de São Paulo, que segundo contava meu nonno, sua primeira função foi a de armazém de pólvora e munições. Acredita?

 

Lindo mesmo era o Parque Dom Pedro II cortado pelo Rio Tamanduateí que nas suas margens tinham os “chorões” com seus galhos caindo para o leito do rio. Lá, também, tinha o delicioso Parque Shangai, um dos parques de diversões mais movimentados no Brasil, durante muitos anos.

 

Foi no Parque Dom Pedro II que o nonno Francisco, me ensinou a andar de bicicleta —- aprendi, mas claro que no dia em que retiramos as rodinha de suporte, levei um tombo que rendeu muitas lágrimas.

 

Em 1960, nós mudamos para Vila Mariana, em uma casa própria, e colocamos na nossa mala de recordações as lembranças daquela comunidade italiana, o sonoro apito da fábrica dos Matarazzo, as festas de Casaluce e o domingo no Parque Dom Pedro II.

 

Célia Corbett é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade.

Conte Sua História de São Paulo: minha paixão começou na sala de cinema

 

Durval Pedroso da Silva Junior
Ouvinte da CBN

 

 

Nascer paulistano foi uma decisão de meus pais. Apaixonar-me por São Paulo, foi decisão minha quando tinha de seis para sete anos. Prestes a completar 70 anos, não lembro exatamente o momento que essa paixão aconteceu. Foi em um dia de julho, uma segunda-feira —- isso eu lembro. Peguei com meu pai, o bonde dos botinas amarelas, ao lado da igreja da Matriz de Santo Amaro e fomos até o fim na Praça Clóvis Beviláqua no centro.

 

Já fiquei deslumbrado quando pegamos a atual avenida Adolfo Pinheiro e a seguir passamos pelo Esporte Clube Banespa, na hoje Avenida Vereador José Diniz. Aquelas paisagens bucólicas não sairiam jamais da minha mente. Se não fosse pelas enérgicas mãos de meu pai, certamente eu teria passado o tempo todo de um lado para o outro do bonde para não perder nenhum detalhe

 

Da Praça Clóvis fomos em direção ao centro novo, onde eu assistiria à minha primeira sessão de cinema. Ao passar pela Catedral da Sé, foi um choque cultural ao ver a grandiosidade daquela obra. O pai não era católico fervoroso mas cedeu a minha insistência para entrar. Extasiado pelo momento, não esqueci de fazer três pedidos ao Bom Deus —- como minha mãe havia me ensinado.

 

Seguimos caminho. Havia uma multidão na rua Direita, gente bem vestida, de paletó e gravata. Apesar de meu pai me puxar pela mão para não atrasarmos, dei uma empacada no Viaduto do Chá, pela beleza da obra e pela visão do Vale do Anhangabaú.

 

Ainda iria me deslumbrar com o Teatro Municipal e o Cine Marrocos, peças de arquitetura nunca antes vista por mim —- na hora fiquei com desejo de ser engenheiro ou arquiteto. Papai não deixou eu me aproximar do Marrocos porque disse que lá só passava filmes de adulto —- seja lá o que isso pudesse significar.

 

Antes de entrar no Cine Art Palácio, na avenida São João, ainda fizemos um lanche, bem ali ao lado. E na minha primeira sessão de cinema assisti a ‘Marcelino Pão e Vinho’. Antes mesmo de o filme terminar, minha paixão por São Paulo já havia se iniciado.

 

Durval Pedroso da Silva Junior é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: o relógio-cuco que marcou as horas da minha vida

 

Por Luiz carlos Silva
Ouvinte da CBN

 

Existem alguns objetos da nossa casa que marcam profundamente nossa vida. Lembro-me quando papai ganhou um relógio cuco. Todo final de semana, ele e o Sr. Heitor jogavam baralho, um jogo chamado Presidente. O jogo era silencioso e para quebrar a monotonia começavam acirrada discussão sobre política.

 

Após o término de uma partida, o Sr .Heitor levantou-se da poltrona irritado, pois tinha perdido, caminhou até a cozinha e trouxe uma caixa de papelão que foi colocada sobre a mesa. Quando viu que era um relógio cuco, papai marejou os olhos e deu um forte abraço no Sr.Heitor.

 

O relógio era de madeira maciça, envernizado, tinha vários entalhes artísticos; o pêndulo, a corrente e o peso eram cromados; os números eram em algarismo romano com um pequeno cristal colocado sobre cada um deles; os ponteiros eram dourados e brilhantes. Tinha sido fabricado na Inglaterra. Fomos advertidos por papai que jamais deveríamos dar corda no relógio, pois ele ficaria encarregado desta tarefa —- precavendo-se das nossas mãozinhas destruidoras.

 

Após ouvir as orientações de papai, sentamos no chão, embaixo do relógio e ficamos aguardando pacientemente o passarinho aparecer. O tic-tac constante enchia toda a sala e a nossa ansiedade aumentava a cada movimento do ponteiro, o silêncio era total, até o instante em que se abriu uma portinha e saiu um lindo passarinho de madeira com penas multicoloridas cobrindo o corpo e se pôs a cantar. A portinha fechou-se e saudamos o mais novo amiguinho do nosso lar com palmas e gritos.

 

Era o cuco que avisava mamãe quando tinha que nos dar algumas colheradas de um fortificante chamado “Emulsão Scoth” —- nessa hora, eu odiava o relógio e cheguei mesmo a praguejar o inocente passarinho. O agradável aroma de café sendo coado coincidia com os seis cucos emitidos pelo passarinho —- era a hora que o papai levantava-se para ir ao trabalho.

 

Os cucos acompanharam-me desde as primeiras letras aprendidas na cartilha Caminho Suave, na  Admissão, no ginásio e parte do primeiro ano do colegial. Era o relógio que controlava meu tempo de estudos. Foi o cuco que me acordou no primeiro dia de trabalho como office-boy numa Cia. de Seguros da cidade, assinalou o horário para encontrar com a minha primeira namorada e denunciava-me quando chegava atrasado em casa.

 

Saí de casa aos 17 anos para estudar no interior, ao regressar meses depois não encontrei mais o relógio. Disseram-me que havia quebrado e tinham doado para um carroceiro que passava constantemente na rua onde morávamos, em São Paulo. Olhei para a parede e restava apenas a marca com seu formato. Abaixei a cabeça com tristeza e ouvi alguns tic-tacs na minha imaginação.

 

Luiz Carlos Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. 

Conte Sua História de São Paulo: o primeiro congestionamento antes mesmo de nascer

 

Thalita Pires
Ouvinte da CBN

 

 

Minha mãe, Vera Lucia, estava em trabalho parto para ter meu irmão mais novo, em 26 de abril de 1989. Eram seis horas da manhã. Ela estava em posição pélvica e a indicação era uma cesariana. O drama é que os partos da mamãe eram relâmpago. Eu nasci em duas horas, desde o momento em que ela sentiu a bolsa estourar.

 

Nós morávamos no Campo Limpo, na zona Sul. E o hospital era o São Luiz, do Itaim. Meu pai a colocou no carro e partiu. Imagine o trânsito. Minha mãe em trabalho de parto, apavorada e com o risco de meu irmão nascer dentro do carro em um posição que poucos obstetras aceitam fazer em parto normal. Os dois parados no congestionamento da periferia de São Paulo.

 

Não havia corredor de ônibus para cortar os outros carros. Papai cortou o que pode de caminho pelas quebradas entre o Campo Limpo e o Morumbi. Quando chegou a ponte do Morumbi para atravessar a Marginal Pinheiros: fechada. Havia se iniciado uma obra há pouco tempo para a construção da nova ponte. Na época as pontes João Dias e do Morumbi tinham duas faixas para ir e duas para voltar.

 

A opção de papai foi seguir até a João Dias ou a Bandeirantes, mas estava claro que não haveria tempo. De repente, ele viu o portão do canteiro de obras abrir para a passagem de um caminhão. Acelerou e invadiu o canteiro, pondo a correr um grupo de engenheiros e funcionários que estavam com plantas de papel na mão. Para abrir caminho minha mãe gritava: “meu filho está nascendo”. Acho que eles não entenderam porque responderam com uma sequência de nomes impublicáveis.

 

Após essa manobra ousada, eles chegaram a maternidade e foram recebidos pela obstetra que ainda teve tempo de fazer uma gracinha: “olha a bundinha do bebê aqui” …. E assim nasceu meu irmão mais novo, o Thomas.

 

Thalita Pires é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: burros e cavalos ajudavam na coleta do lixo

 

 

Reinaldo Serrano
Ouvinte da CBN

 

 

Morava na rua Mariús, na Vila Paulina, zona leste de São Paulo. Era rua de terra. Difícil de acessar. Era 1969. E nos bairros afastados do centro, como o meu, os lixeiros usavam carroças puxadas a burro ou a cavalo. O lixo era recolhidos das latas deixadas do lado de fora da casa.

 

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Somente quando o asfalto chegou, caminhões da Ford passaram a ser usados na coleta. Se não me engano, tinham um caçamba com porta deslizante em cima e em forma de arco.

 

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Nos anos de 1970 mudaram o modelo de caminhão da coleta. A carroceria passou ser uma espécie de liquidificador grande e deitado para triturar o lixo. Eram caminhões Mercedes Benz. Lembro que perguntei ao meu pai a razão de haver cordas nas laterais do caminhão segurando maços de papelão. Ele disse que os garis separavam o papelão para vender ao ferro-velho — foi a primeira vez que ouvi aquela expressão: ferro-velho.

 

Começaram então a aparecerem os caminhões com prensa que compactavam o lixo. Eram Dodge e Ford de pequeno porte. Tinham alguns FNMs, também.

 

Quando estava com 15 anos, me admirei com um comboio que desfilava pela Marginal Tietê, formado de FNMS, já com a marca da Fiat estampada, e aqueles liquidificadores enormes na caçamba. Era novos e, imagino, seriam entregues à prefeitura. Foram os últimos modelos antes da terceirização da coleta.

 

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Antes, em 1972, outro fato que faz parte da história do lixo. Logo que entrei no primário, apareceu o Sujismundo, personagem que fazia tudo errado em termos de lixo e higiene pessoal. Foi uma campanha de conscientização que marcou a infância de muitos de nós.

 

Mais adiante, vieram os caminhões da Vega Sopave, considerados mais modernos. Não separavam papelões. Tudo era jogado na caçamba deixando-se de aproveitar os recicláveis.

 

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Curioso como a instalação de uma empresa que lida com lixo pode ser incentivadora da ocupação de um bairro. Foi o que ocorreu com a Vega Sopave, em Brasilândia, que ofereceu moradia a seus empregados e levou considerável número de famílias para a região.

 

Minha família morou na Mooca e na região da Vila Prudente. Atrás do cemitério da Quarta Parada, onde hoje passa a avenida Salim Farah Maluf, havia um lixão a céu aberto. Quando ia a algum enterro, era possível ver aquele mundo de lixo perdido. Hoje, exportamos o lixo de uma cidade a outra, fazendo com que esse material que tratamos como resto transite cerca de 50 quilômetros para seu destino final.

 

Eu sou um lixólogo —- graças a observação dos caminhos do lixo em uma cidade como São Paulo, onde tudo é exponencialmente impactante, em todos os seus aspectos: humano, social, ambiental e econômico. Impactos que podem ser positivo ou negativos, que vão depender da maneira como lidamos com o lixo.

 

Reinaldo Serrano é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. As imagens que ilustram essa história fazem parte da coleção do autor.

Conte Sua História de São Paulo: cantei e me apaixonei por Dóris Monteiro

 

Ricardo Luiz R. S. Porto
Ouvinte CBN

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto do ouvinte da CBN Ricardo Luiz Porto:
 

 

Dóris Monteiro era linda, absolutamente deslumbrante, pelo menos para aquele menino de mais ou menos 8 ou 9 anos, que a mãe levava para assistir às “chanchadas” da Atlântica, sempre um grande sucesso nos anos 1950 e até o início dos anos de 1960. Filmes dirigidos por Carlos Manga e estrelados por artistas como Oscarito,  Grande Otelo, o galã Cyl Farney, a “mocinha” Eliane Lage, Zé Trindade, Walter D’Avila, Zezé Macedo e tantos outros. Uma alegria para o menino.

 

E foi num destes filmes que de repente, surge na tela uma mulher linda, morena, vestida de branco e de luz ,que acompanhada só por um piano começa a cantar:

 

“… a noite está tão fria, chove lá fora…”

 

O menino ficou hipnotizado, paralisado, extasiado com a suavidade da voz e a beleza daquela mulher diante dos seus olhos. Uma Deusa! Esta imagem ficou de tal forma marcada em seu coração e mente que, ainda hoje, mais de 60 anos passados, o menino ainda se emociona.

 

Curiosamente, algumas décadas depois, já em São Paulo, o menino foi assistir a uma apresentação da Dóris Monteiro na boate do Hotel Maksoud. Assim que a Deusa entra, o menino sente um frio na barriga, o piano inicia as primeiríssimas notas de uma música muito familiar, e o menino não se contém e começa a cantar:

 

“… a noite está tão fria…”

 

A Deusa para, olha para o menino, sorri e o chama até o palco, que não era palco. Ele se levanta da mesa, pernas bambas e trêmulas e vai até ela com o coração descontrolado, mas pronto para ser entregue à sua legítima dona! Dóris sorri de novo, segura a mão do menino, fala alguma coisa que ele não ouve e nem escuta e começa a cantar:

 

“… a noite está tão fria…”.

 

Ao final o menino não foi capaz de falar uma palavra sequer, mas não era preciso seus olhos diziam tudo aquilo que só as Deusas podem entender!!

 

Ricardo Luiz Porto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças e envia para contesuahistoria@cbn.com.br.