Conte Sua História de São Paulo: a saga de Seu Orlando e do caloteiro da padaria

 

Por Andrea Magri

 

 

Seu Orlando (Laurenti) como todos os dias estava de pé na porta de sua padaria… já bem conhecida em São Paulo, principalmente dos descendentes italianos, no coração do Bixiga. Na frente havia o estacionamentoa, naquela época, meados de 1968, isso era um luxo.

 

Assim, ele viu parar aquele Volkswagen cor vinho com rodas brancas, impecável, novo em folha. De de lá um jovem senhor, talvez uns 45 anos — naquela época, mais de 40 era quase idoso. Mais velho que seu Orlando, que só tinha 30, mas bem apessoado, de mangas de camisa, paletó e sapato nos trinques. Cara de bom cliente, pensou seu Orlando.

 

O cliente pegou tudo que havia de bom e dava sinais de ser bem nascido, já que era conhecedor de queijos e vinhos. Encheu uns quatro cestos e assim que chegou no caixa, colocou a mão em um bolso e em outro …

 

— “Puxa, a carteira deve ter ficado no carro”.

 

— “Sem problema”, respondeu seu Orlando, que logo providenciou um funcionário para levar as compras até o fusca. Deram cinco minutos e o funcionário voltou sem compras, sem cliente e sem dinheiro: —- “Foi embora e nem me deu caixinha”.

 

— “Minha nossa senhora da Achiropita! Não posso acreditar! Que prejuízo! Ele não pagou as compras”, gritou seu Orlando, desesperado.

 

Nem conseguiu pegar no sono naquela noite, só de pensar no golpe do bom cliente.

 

As noites mal dormidas e o prejuízo se dissolveram no tempo. Seu Orlando, empreendedor e trabalhador, fez sociedade com um a amigo em uma lanchonete. Já tinha duas filhas e as coisas não eram fáceis. Trabalhava de dia na padaria e à noite, ali na praça Carlos Gomes, em frente ao Cine Joia.

 

Em uma noite daquelas, um homem de cavanhaque e bem vestido chega na lanchonete e pede ao garçom 10 chesses-saladas, 5 porções de batata frita, 10 cachorros quentes e queria tudo para viagem. Seu Orlando estava na chapa e ficou curioso para saber quem havia feito aquele pedido todo. Foi quando saiu aos gritos:

 

— “Ei, você! Que está fazendo aí? Veio acertar comigo o que me roubou na padaria, é ?”

 

O safado saiu correndo, atravessou a praça e fugiu no seu fusca. Era o mesmo que havia aplicado o golpe na padaria, fazendo aquela história voltar a atormentar Seu Orlando.

 

Mais de um ano depois, em um domingo, Seu Orlando vai ao açougue da vizinhança. De repente, quem ele enxerga no caixa com sacolas de carne sendo levadas por um empregado até o carro.

 

— “Seu Jorge! Esse é ladrão, seu Jorge! Ele já pagou?

 

— “Que isso, o cliente vai pegar o dinheiro no carro”

 

— “Esse é ladrão! Me roubou na padaria! Do mesmo jeito! Chama a polícia, seu Jorge! Ele quer te roubar! Esse cara é um gatuno!”

 

E o cliente, sem jeito, disse que não precisava levar as encomendas no carro porque ele não era dessas coisas, não. Foi até lá, pegou a carteira, pagou as compras e resolveu sair por cima:

 

— “Você quer me difamar! Chama sim a polícia… Eu nem te conheço!

 

Foi, então, que a polícia chegou, o homem deu queixa contra o Seu Orlando, que estava desnorteado e acabou na delegacia para dar explicações do motivo da agressão verbal ao pobre cliente.

 

— “Vai ficar aqui até esfriar a cabeça”, ouviu do delegado, envergonhado e ultrajado.

 

Pois não é que o caminho dos dois se cruzou novamente, dias depois.

 

Eram mais de dez da noite e seu Orlando foi ao restaurante ao lado da padaria para tomar um copo de cerveja com o dono, o seu Antonio. Ao chegar depara com vários homens sentados em uma mesa, jantando. Entre eles, o infeliz. O sangue italiano ferveu e não o deixou sequer pensar!

 

— “É aqui seu próximo calote? Seu Antonio…muito cuidado! Esse é o homem que me roubou na padaria, quis me enganar na lanchonete e ia dar o golpe no açougue! Este é o gatuno que te contei!”

 

E claro, foi aquele fuzuê. O almofadinha, diante de amigos, desta vez se rendeu com tantos encontros inesperados:

 

— Fala aí, quando eu fiquei te devendo? Não aguento mais te encontrar. Você já está prejudicando a minha vida.

 

Sacou a carteira recheada de dinheiro, pagou a conta e foi embora. Assim como Seu Orlando, que viu justiça ser feita tantos anos depois. Hoje, ele tem 80 anos, três filhas — Andrea, Paula e Juliana —- e três netos — Luca, Matteo e Sofia. Dona Vilma, a esposa, já se foi. A padaria Basilicata, segue firme no mesmo endereço, há 102 anos, e ainda é da família.

 

Orlando Laurenti é o personagens do Conte Sua História de São Paulo, escrito pela filha, Andrea Magri. A sonorização é do Cláudio Antonio.Escreva o seu texto também e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: cheguei cego e menino na cidade que me acolheu

 

Por Geraldo Pinheiro da Fonseca Filho
Ouvinte da CBN

 

 

O dia 2 de março de 1965, uma terça-feira, constituiu-se num marco definitivo em minha vida, pois naquela manhã um tanto assustadora desembarquei juntamente com meu saudoso pai, na antiga rodoviária de São Paulo, no bairro da Luz, procedente de minha cidade de origem no Estado do Paraná, a cidade de Maringá, visando iniciar meu ciclo de formação escolar fundamental no instituto de cegos Padre Chico, no bairro do Ipiranga.

 

Inicialmente, para mim que contava então com a idade de seis anos, considerando ainda que jamais deixara minha cidade a não ser para tratamento médico, abria-se um mundo sombrio e totalmente desconhecido onde a profusão de sons que se misturavam em uma sinfonia severa, num primeiro momento muito mais assustavam e constrangiam do que arrebatavam.

 

Logo ao desembarcar, o ruído quase uníssono e o odor que entorpecia de dezenas de veículos da marca DKW Vemago, que naquela época eram utilizados como táxis, iam aos poucos absorvendo minha percepção, demonstrando de forma avassaladora a austeridade e o domínio implacável da cidade-gigante que me recebia.

 

E foi assim sob este misto de temor e expectativa que chegamos ao instituto Padre Chico, a escola que eu tanto aguardava, porém nos moldes da rotina de minha irmã mais velha, na escola que ela já frequentava há algum tempo lá em minha longínqua cidadezinha e que me despertara para aquela ansiosa expectativa da escola; porém, quando meu pai me deixou no internato em um ambiente inovador mas totalmente estranho, ao cair na realidade da distância e da falta da família, sobretudo de minha mãe, passei por um período de difícil adaptação, mas gradativamente fui desvendando, através da dinâmica eloquente das atividades desenvolvidas no Instituto, os enigmas e a magia da cidade que me acolhera, convertendo mais e mais todo aquele temor inicial em conquistas que iam sedimentando meu apreço e admiração por seus valores, sons que me conquistavam, sua história e sua potencialidade predominante de proporcionar inovações, mutações e conquistas diante de desafios inimagináveis para uma criança cega como o meu caso e também para minha família.

 

Embora as atividades da dinâmica escolar absorvessem parte substanciosa de minha vida como aluno interno do Instituto, paralelamente fui sendo cada vez mais inserido no âmbito das novidades peculiares à cidade de São Paulo, ensejando assim cada vez maior enquadramento e uma crescente afeição aos seus valores, que me envolviam em uma verdadeira magia de sons que, se inicialmente assustavam e até constrangiam, iam consubstanciando em meus sentimentos um apreço cada vez mais vinculante e também fascinante em face a esta cidade que me acolhera, e ia definindo um futuro moldado por aspirações e expectativas.

 

Um dos primeiros sons que me encantou por sua característica estridente e o tilintar do seu sinalizador sonoro de alarme foi o inesquecível bonde, que ligava o Ipiranga à praça João Mendes; muitas vezes aos finais de semana, aos sábados eu era retirado do Instituto para passar o domingo com uma família de amigos de meu pai que residira em Maringá no passado, quando então tomávamos o bonde cujo ponto inicial era em frente à portaria do Instituto, descíamos na praça João Mendes, seguíamos pela rua Direita, atravessávamos o viaduto do Chá e seguíamos para a praça Ramos de Azevedo, lá tomávamos o ônibus para a vila Leopoldina onde residiam. A vila Leopoldina era provinciana, parecia mesmo uma cidadezinha do interior; ali me encantava com o ruído emitido pelos subúrbios da antiga Sorocabana, a sineta de sinalização da cancela da estaçãozinha por onde transitavam os trens.

 

O Museu do Ipiranga também tornou-se reduto de visitas frequentes dos alunos internos do Instituto, percorríamos aos domingos, seus extensos jardins adornados por vastos gramados, ouvindo os sons inconfundíveis dos realejos e a nostalgia de suas melodias, sempre repetitivas e no mesmo ritmo como a acalentar nossas imaginações sonhadoras de criança.

 

Ainda envolto pelas recordações singelas daquele período inicial, o parque Xangai, na baixada do Glicério, com seus brinquedos exóticos e muitas vezes temerosos para mim em razão da confusão dos sons estridentes que emitiam, tornou-se um dos nossos ambientes preferidos de diversão, conquanto me intimidassem até que superasse a barreira severa da primeira experiência.
No rádio da época a Jovem Guarda ousava confrontar a explosão dos Beatles, da onda avassaladora das canções italianas e norte-americanas, proporcionando neste devaneio sonoro a nova característica da música jovem brasileira.

 

O rádio fazia fluir por pontos diversos da cidade os toques soturnos e melancólicos do carrilhão do mosteiro de São Bento, irradiados hora a hora pela extinta rádio Piratininga, uma espécie de clamor do coração paulistano que até hoje e creio que para sempre, persistirá latente em minhas recordações mais sutis desta cidade-gigante que jamais perderá sua magia de encantar.

 

Todos os anos no mês de outubro, na semana da criança, visitávamos o inesquecível salão da criança que era instalado no Ibirapuera, que nos acolhia em um recanto de singelas imaginações e sonhos acalentadores e sublimes.

 

A biblioteca infantil Monteiro Lobato na vila Buarque era frequentada pelos alunos do Instituto todas as quintas-feiras. Naquele ambiente saudoso e inesquecível, tínhamos acesso a um acervo de livros em Braille, discoteca com um diversificado repertório de canções e histórias infantis, sala de jogos e brinquedos pedagógicos, teatrinho de fantoches e até academia infanto-juvenil de letras fazendo-me já naqueles tempos imemoriais, usufruir das nuances culturais de São Paulo, cujos preceitos e riquezas prevalecentes prosseguem emoldurando minha vida com intensidade e nobreza.

 

E foi assim, envolto por esta trajetória evolutiva da cidade que me acolheu, me encaminhou e me formou que fui transpondo todas essas etapas precedentes, deixei o Instituto após ter concluído o primeiro grau, prossegui meus estudos no ensino médio ainda no bairro do Ipiranga, ingressando por fim no curso de direito da PUC-SP, onde me formei em 1984.

 

Como se pode depreender desta singela síntese histórica, não mais me afastei desta cidade, que um dia foi até designada por alguém que não me lembro quem como (selva de pedra) mas que para mim foi e sempre será o símbolo da nobreza, da cultura, da conquista da inclusão e do sucesso decorrente da valorização profissional.

 

São Paulo em minha opinião é mais mãe do que pai, pois tal qual um coração de dimensões imensuráveis, sabe acolher, confortar e amar, sem abdicar da prerrogativa de exigir e valorizar seus filhos, sejam naturais ou adotivos, todos na mesma amplitude de amor maternal, por isso São Paulo, quero exprimir meu amor filial delineado neste abraço supremo e eterno.

 

Geraldo Pinheiro da Fonseca Filho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Envie a sua história, também: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a milagre de Fátima na Vila Jaguara

 

Por Osnir G. Santa Rosa
Ouvinte da CBN

 

 

 
Em 1952, minha família estava morando numa casa alugada, enfiada no seio da Mata Atlântica, no bucólico bairro do Tremembé. Para as crianças, como eu, ali era o paraíso uma vez que tinha muitos pés de jaboticaba e outras frutas como pinhão, goiaba .. Achamos, certa vez, um enorme pé de pera willians que alguém havia plantado uns 40 anos atrás. Vivíamos, também, junto a passarinhos, galinhas, patos, cachorros e porcos. Assim, mesmo pobres, não faltava o que fazer para se divertir.

 

Meu pai era chofer de praça. Uma noite ao chegar em casa ele contou para minha mãe que havia servido o grande ídolo do Palmeiras, Caieiras. E que ele estava sofrendo muito com seu filho acometido de forte mal que hoje sabemos ser alergia, mas, naquele tempo, não se ouvia essa palavra. Minha mãe era muito religiosa, um tanto mística, devota fervorosa de Nossa Senhora Aparecida. Imediatamente, disse para meu pai: — Por você não disse pra ele pedir um milagre para Nossa Senhora Aparecida? Meu pai: — Puxa, é mesmo. Ele mora no caminho que eu faço todos os dias. Vou tentar dizer isso pra ele.

 

Alguns dias depois, ao chegar em casa, meu pai deu a notícia para minha mãe de que havia sugerido para o Caieiras aquela ideia de ele fazer uma promessa; e que ele gostou tanto que decidiu contratar os serviços de táxi para levar sua mulher e o garoto para Aparecida. Mamãe, sempre esperta, falou, então: — Olha, Lindo, como vai sobrar uma vaga no carro será que ele me deixaria ir também. Gostaria tanto de ver de perto Nossa Senhora Aparecida.

 

Claro que Caieiras não se opôs e foram todos visitar a Padroeira do Brasil. Chegando lá, conta minha mãe, que ao ver tanta gente pedindo milagres que decidiu, ela também, pedir o seu. E qual era o seu? Ter uma casa própria.

 

Passadas duas semanas, apareceu uma pessoa de origem nordestina no ponto de táxi do meu pai oferecendo um terreno com uma casinha em Vila Jaguara, extremo oeste da capital. Era tão longe que nem os motoristas de táxi sabiam dessa vila. Contando para minha mãe esse fato ela imediatamente viu ali a mão da Virgem. E disse, vamos lá conhecer. Se tiver luz, água e escola para os meninos vamos fazer o máximo de esforços pra comprar. E assim, em 1953, deixamos o Tremembé, depois de darem uma ajeitada na casinha em que chovia mais dentro do que fora. E é de onde escrevo este texto. Onde sofremos muito, e muito rimos e brincamos. Alto de Vila Jaguara, junto ao quilômetro 12 da rodovia que mal acabara de ser inaugurada, a Anhanguera.

 

Em tempo: meu pai chegou ver o filho de Caieiras já moço, mas não ficou sabendo se houve ou não o milagre.
 

 

Osnir Geraldo Santa Rosa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: morei ao lado dos galinheiros da 25 de Março

 

Por Eduardo Britto
Ouvinte da CBN

 

 

Tenho 53 anos, nasci no Hospital do Servidor Público Estadual, mas como no dia seguinte minha mãe já estava em casa, na rua 25 de Março, considero que nasci bem no centro da cidade, entre o Parque Dom Pedro II e o Pátio do Colégio.

 

Naquele tempo, segunda metade da década de 1960, a rua 25 de Março já tinha um comércio forte. Nada parecido com o volume e a ebulição do comércio atual. Na verdade, o quarteirão em que eu morava, os primeiros 200 metros dessa rua tradicional, até hoje tem um movimento bem diferente do resto da rua. Naquela época alternava comércio de tecidos e galinheiros — isso mesmo, havia um grande comércio de galináceos naquele trecho. Bem, as aves foram embora, algumas lojas de tecidos estão lá até hoje, mas é um trecho, digamos, bem parado e decadente.

 

Tive a chance de conhecer o Parque Dom Pedro ainda com flores e jardins. Em volta do Palácio das Indústrias havia um tanque e chafariz com peixinhos vermelhos! Isso mudou quando começaram as obras do metrô nas praças Clóvis Beviláqua e Sé, e os ônibus que faziam ponto final lá mudaram para o novo terminal no Parque Dom Pedro II, que perdeu o verde, ganhou asfalto e cimento, nunca mais foi o mesmo.

 

Joguei muita bola na praça Fernando Costa, no encontro da 25 de Março com a rua General Carneiro, onde havia um grande gramado e árvores, uma praça que parecia do interior. Hoje ela está soterrada por barracas de comércio ambulante…

 

Em 1972, eu tinha nove anos, mudamos para o Bixiga. Mudamos só no meio daquele ano, e como eu tinha que começar o ano letivo já na escola nova, passei a tomar um ônibus, linha Previdência da CMTC, às 6h30 da manhã, no Parque Dom Pedro II — o ônibus que me deixava na rua da Consolação, na Escola Estadual Marina Cintra. O grande desafio era conseguir descer naquela altura da Consolação, pois o ônibus era hiper-lotado, e algumas vezes eu estava antes da catraca —-naquela época entrávamos pela porta de trás — e só conseguia descer quando o ônibus desovava a maioria dos passageiros, no Hospital das Clínicas.

 

Numa das vezes, lembro muito bem, eu desci lá nas Clínicas e, tendo perdido a hora, e querendo economizar o dinheiro da volta, desci a pé a Consolação, passei na frente da escola e continuei descendo, atravessei o Viaduto do Chá a rua Direita, a rua General Carneiro. Fui até a minha casa. Quantos quilômetros a pé e com apenas nove anos. Os pais naquela época não se preocupavam com os filhos andando na rua; e realmente não tinham razão para se preocupar.

 

Fiz o ginásio no Marina Cintra. Já o colegial me permitiu ter um dos maiores orgulhos de minha vida acadêmica: através de um “vestibulinho” consegui entrar no Colégio Caetano de Campos, coisa que a minha mãe sempre tentou no passado e não conseguiu, porque era uma escola estadual das elites. Em 1977, fiz o 1º ano do colegial naquele prédio suntuoso do Caetano de Campos, e já no ano seguinte, 1978, o prédio deixou de ser usado como escola para as obras da linha vermelha do metrô. Então, uma parte dos alunos foi para o novo e moderno prédio do Caetano, na Pires da Mota, na Aclimação, e um grupo, eu incluso, foi para a unidade do Caetano que ocupou o belo casarão da antiga escola alemã, o Colégio Porto Seguro, na praça Roosevelt.

 

Era uma época em que eu e toda minha geração tivemos a oportunidade de conhecer uma escola pública de muita qualidade, em São Paulo.

 

Eduardo Britto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: és imensidão espraiando diante dos meus olhos!

 

Por Vera Carreiro
Ouvinte da CBN

 

 

São Paulo, cidade gigante em todos os sentidos: no tamanho, nas oportunidades, na emoção, no coração! São Paulo, a cidade que palpita, estertora, estrebucha, não para, não dorme!

 

São Paulo da miscelânea cultural, dos imigrantes, dos migrantes, dos poetas, dos cantores, dos artistas.

 

São Paulo dos contrastes, dos mendigos, vagabundos, trabalhadores, adultos, crianças, jovens e anciãos, ricos, pobres, arrogantes, humildes, mansa, embrutecida, alegre, triste, evoluída, estagnada, muito bela, muito feia!

 

São Paulo de todos os matizes, de todas as misturas, de todos os superlativos, de todos os diminutivos, de todos os problemas e todas as soluções. Se fosse escrever sobre todos os teus atributos, precisaria de um livro imenso, do teu tamanho, por isso, simplesmente me aterei à impressão, causada em mim, ante teus pés: Nossa! Como és Grande! És o mundo dentro de uma cidade!

 

És imensidão espraiando diante dos meus olhos! Sinto que minha visão é pobre e diminuta perto do teu tamanho. Cidade a perder de vista, com teus arranha-céus, praças onde cantam bem-te-vis e sabiás, ruas estreitas, avenidas largas e modernas, a maior frota de carros e veículos já vista, pessoas de todos os tipos e lugares se misturando, um formigueiro sem tamanho! O bonito e o feio se confundem em ti.

 

És hospitaleira, recebendo a todos com enormes braços abertos, oferecendo teu abrigo, teu sustento, tuas facilidades, teus horizontes, tuas oportunidades infinitas e, ainda, teus viadutos e marquises aos desabrigados.

 

E, por seres assim, tão mãezona, é que abrigas também o lado menos bonito da cidade. É porque teus tutelados menos nobres não te honram com trabalho, disciplina, boas ações, bons sentimentos e versam para o crime, a desordem, a ociosidade, a delinquência, o estelionato, etc.

 

És concomitantemente rica e pobre. Proporcionas, a cada um, o que procura ou faz por merecer: ao rico de ideais, de vontade e trabalho, a riqueza; ao pobre de ideais e de vontade, a pobreza.

 

Ofereces a oportunidade reivindicada a qualquer pessoa, sem distinção, nem discriminação, como um imenso coração de “mãe”!

 

Vera Carreiro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Para participar desta série, envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

 

Conte Sua História de São Paulo: quando escutei a primeira música dos Beatles

 

Por Reinaldo Carmo Milito

 

 

Quando nasci em maio de 1952, minha família morava no Bom Retiro, na rua José Paulino, 752. É de lá que tenho as minhas lembranças mais remotas –- uma espingardinha de rolha, presente de Natal; minha bisavó Angela; e os meus primeiros heróis, Maurício e o irmão dele de quem eu não lembro o nome — dois garotos judeus que eram nossos vizinhos.

 

Lá por 1955, mudamos para a Casa Verde, numa casa próxima à ponte sobre o Rio Tietê. Ainda não existia a Avenida Braz Leme e no local ficava o nosso campo de futebol e uma enorme área que era nosso cenário imaginário para as inúmeras batalhas com espadas de madeira, inspirados por Ivanhoé, ou de tiroteios com falsos rifles e revólveres a la Bat Masterson, Daniel Boone, ou pelo falso Zorro, que na verdade era o Cavaleiro Solitário e seu amigo Tonto!

 

Em 1962, fomos morar no centro – esquina da Avenida Rio Branco com Ipiranga. Morávamos no 12º andar do Edifício Agulhas Negras e a vista me fascinava porque até então eu só tinha visto a cidade no plano do chão!

 

Levei comigo as empolgações das brincadeiras de rua; e a lateral da banca do Adão, um ex-boxeador, era o nosso gol. É lógico que o jogo sempre terminava no 1 X 0. A primeira bolada na banca, o Adão, um negro sarado com mais de 1,80 de altura e um físico avantajado, botava medo em qualquer um, imediatamente apitava o final do jogo!

 

Meu parceiro de artes era o Edson, filho do Sr Francisco que era o zelador do prédio. Curtíamos também subir no terraço que ficava no 22º andar e de lá soltar aviõezinhos de papel para disputar qual o que chegava mais longe!

 

Fazia parte do meu mundo maravilhoso, a garagem de onde saíam as lotações para Santos – Expresso Zefir – que ficava na Avenida Ipiranga. Eu era maluco pelo Simca Chambord e era ali que eu me realizava, pois a frota era formada por Simcas e Aero Willys.

 

Um pouco mais adiante, quase na famosa esquina cantada pelo Caetano em Sampa, tinha uma loja de disco e foi onde escutei a primeira música dos Beatles. Posso dizer sem sombra de dúvidas que a minha vida mudou depois daquele dia! Todo dia eu passava lá e pedia para o rapaz: — “por favor, coloque aquela música”. A música era “I Wanna Hold Your Hand”!

 

As matinês de domingo do Cine Metro, com Festival de Tom e Jerry, o cachorro quente da Salada Record, o pudim de leite do Bar Cinelândia na esquina da São João com a Dom José de Barros, o mate gelado, o pão francês da Padaria Irradiação, os doces da Dulca e os pastéis com caldo de cana das pastelarias que ficavam em frente ao prédio onde eu morava são inesquecíveis. Sem falar da pizza brotinho da Casa Italiana, na Rua Antonio de Godoy, em frente ao Cine Boulevard.

 

Ainda não existia a Galeria do Rock porque ele, o rock, estava gatinhando! Ela era a Grande Galeria, ao lado do Cine Art Palácio. Conheci cada pedaço do centro de São Paulo e meu local preferido era a Galeria Prestes Maia por causa das escadas rolantes! O Anhangabaú era o palco para os desfiles de fanfarras e militares, nas datas comemorativas à Independência, Proclamação da República, e outros eventos cívicos. Era ali que se viam os “papa filas” e onde ficava o famoso “buraco do Ademar”.

 

Tudo me fascinava no centro. O som da sirene da Gazeta, que informava o meio-dia, o presépio do Largo Paiçandu, nos dezembros, as lojas Mesbla e Mappin e a quantidade de cinemas que existiam num raio de 200 metros da minha casa. Conheci quase todos os porteiros dos cinemas porque eu os perturbava para me deixarem entrar sem pagar o ingresso!

 

Minha família mantinha uma pequena indústria na Casa Verde e o colégio que eu estudava também ficava lá. Todo dia eu ia e voltava de bonde. Ficava eufórico quando eu vinha no bonde do “bailarino”, apelido do motorneiro mais simpático e conhecido de São Paulo. Eu vinha ao lado dele prestando atenção em tudo e perturbando-o para me deixar pisar no pino localizado no assoalho que era a buzina do bonde – “délém, délém, délém…”

 

Durante os dois anos que morei no centro tive a oportunidade de ver de perto o desfile do time campeão da Copa de 62, a passagem do presidente francês Charles De Gaulle e o movimento que levou à Revolução de 1964, dentre tantos outros eventos. Vi a São Silvestre com partida e chegada na Cásper Líbero, na virada do ano, e a construção do Monumento ao Duque de Caxias, na Praça Princesa Izabel, desde o seu início até a inauguração.

 

Uma experiência ímpar vivida, dando uma ideia de certa inocência popular naquela época, eu vivi na Praça da Sé. A praça toda tomada de gente, assistindo ao jogo da seleção brasileira contra a Tchecoslováquia, pela Copa de 62, num telão enorme que simulava um campo de futebol. Ouvia-se a narração pelos alto falantes espalhados nos postes da praça e o telão mostrava a suposta localização da bola através de uma luz acesa. Aquilo era o máximo. Nunca vou esquecer o momento do gol do Brasil!

 

Enfim, eu trago vivas essas lembranças com uma felicidade imensa e ao mesmo tempo muita tristeza por ver no que se transformou o centro de São Paulo, a cidade que eu amo de paixão!

 

Apesar de ter morado só os primeiros três anos no Bom Retiro, foi lá que eu passei os melhores momentos da minha adolescência e foi durante um fórum entre amigos, ex-alunos do Colégio Alarico Silveira, que, embalado pelas lembranças que cada um trouxe, me inspirei a escrever esse poema:

AS NOSSAS “PENNY LANES”

As ruas do Bom Retiro são as nossas “Penny Lanes”,
Cada uma com seu cheiro cada uma com seu jeito
Infelizmente nada mais está como antes,
Lá nas bandas da Bandeirantes.

 

Por onde ando e para onde olho não canso de ver desgraça
Até o Luso Brasileiro foi demolido na Rua da Graça.
Muita saudade do Jardim da Luz, do bonde e da Salada Record.

 

Hoje vejo o olhar sofrido estampado em rosto latino
Dos muitos que trabalham na José Paulino.
Judeu virou coreano, grego virou chinês,
italiano virou boliviano só o pãozinho ainda é francês
apesar do português ter virado nordestino,
pois agora é do Evanilson a padaria que era do Jacinto, lá na Rua Silva Pinto.

 

Já não tem mais Cine Paris, nem a fábrica de canetas Sheaffer
Muito menos a da Ford e tampouco o Radar Tantã.
Nem a Casa Walter funciona mais ali, na Barra do Tibagi.

 

O Marechal ainda resiste ao tempo, assim como a Igreja Santo Eduardo.
A barbearia do Oswaldo ainda existe só que agora é o Belizário que faz barbas e cabelos de velhos e novos freqüentadores do bairro, ao lado do bar do “Pinga”.

 

A padaria ainda está lá na esquina só que a turma não vai mais lá
Ah, ainda é a mesma, a feira da Rua Jaraguá.
Ainda tem “Antonio Coruja”, “Javaés” e “Newton Prado”,
“Guarani”, “3 Rios” e “Mamoré”,
“General Flores”, “Anhaia e “Solon”
E também “Ribeiro de Lima”, “Prates” e “Julio Conceição”,

 

Mas se um dia a Rua dos Italianos virar Rua dos Coreanos
Juro que morro do coração!

Reinaldo Milito é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: o colono que superou um encontro vocálico

 

Por Vera Lucia Crepaldi Selma
Ouvinte da CBN

 

 

Bisneto de imigrantes italianos, Luiz nasceu na cidade de Ibitinga., interior de São Paulo. Filho mais velho de Guerino Crepaldi e Domingas Buchi, tinha um irmão, José. A família trabalhava como colonos numa fazenda na região de Marília — colonos era a denominação que se dava ao trabalhador que cuidava da lavoura para o dono da fazenda, morando ali mesmo, numa casa oferecida pelo proprietário.

 

“Não tinha dinheiro, mas comida nunca faltava” — era o que Luiz sempre falava. Verduras, frutas, legumes e aquela carne de porco que ficava envolta na banha, uma vez que não havia refrigeração. Era uma fartura. Ele e o irmão tocavam e cantavam. Luiz tocava gaita e cavaquinho. José tocava violão. Juntos tocavam e divertiam os amigos em Ibitinga.

 

Mas, aos 16 anos, uma grave doença acometeu o pai Guerino e a família veio para São Paulo na busca de uma cura. Apesar da via sacra para tentar salvar o pai, os esforços foram em vão e, em pouco tempo, o Seu Guerino morreu.

 

Sem estudo — Luiz nunca havia frequentado uma sala de aula —, sem trabalho e morando num cortiço na Vila Maria, com a mãe e o irmão, a vida se apresentou bastante dura para esse jovem recém-chegado. Até o banheiro era compartilhado com várias famílias. Apesar de nunca ter frequentado uma escola, ele sabia ler, sim. Aprendeu na fazenda mesmo.

 

Luiz foi corajoso e audacioso e se matriculou num curso técnico em Contabilidade. Arrumou um emprego de auxiliar em uma loja e à noite passou a frequentar as aulas Muitas vezes sem comer, enfrentava todas as dificuldades de quem nunca tinha entrado numa sala de aula. A vontade de desistir o acometeu, principalmente quando era a bola da vez na “chamada oral”.

 

Inesquecível a sua narrativa sobre o dia em que o professor de português pediu para que ele se levantasse e respondesse:

 

— Luiz, o que é um encontro vocálico ? Ele nunca tinha ouvido falar.
— Bem, professor, um encontro vocálico é um encontro vocálico.

 

Diante das risadas dos colegas e da expressão atônita do professor, que ainda emendou um “estão vendo? Nunca se esqueçam dessa brilhante definição!”, aquele foi mais um dia em que Luiz pegou suas coisas, saiu da sala e jurou que nunca mais voltaria. Entretanto, foi convencido por outro professor que o interpelou por perceber a sua fisionomia transtornada.

 

Luiz resolveu tentar mais uma vez depois da promessa do professor, que se tornou inesquecível para ele, de que conversaria com alguns colegas para que o auxiliassem com as dificuldades que ele tivesse na escola. E assim foi… aos trancos e barrancos, Luiz conseguiu o seu diploma de Técnico em Contabilidade, que garantiu a sua sobrevivência e de toda a família.

 

Luiz casou, reformou a casa da sua sogra para que pudesse nela morar junto com sua esposa e ainda construiu uma casa para sua mãe e outras duas que lhe garantiram uma renda extra pelo resto de sua vida. Teve três filhos.

 

Apesar de nunca ter estudado o primeiro grau, formou os três filhos. Meu irmão engenheiro, formado pela USP de São Carlos, hoje trabalhando e vivendo nos Estados Unidos. Eu, arquiteta, formada pela FAU/USP, hoje aposentada e trabalhando na empresa de meu marido. Minha irmã caçula cirurgiã dentista, formada pela Camilo/Castelo Branco

 

Essa é a minha história de São Paulo. A história do meu pai, que morreu em 2004, aos 79 anos; que veio de Ibitinga e foi acolhido pela cidade; que mudou a sua vida, uma vida que lhe deu todos esses presentes, como ele mesmo dizia.

 

Vera Lucia Crepaldi Selma é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br

Mundo Corporativo: Luciano Salamacha diz que as pessoas subestimam o que podem fazer

 

 

“Muitas vezes as pessoas passam a acreditar menos em si mesma diante de uma situação que elas mesmas criam e que quando acordam, quando ressignificam, quando dão um outro significado para aquela mesma situação percebem que estavam se boicotando, que estavam muitas vezes subestimando o que podem fazer” —- Luciano Salamacha, consultor de empresa

As pessoas são seduzidas por problemas a todo instante no ambiente de trabalho, mas a intensidade desses problemas pode ser reduzida consideravelmente desde que o profissional atue de forma planejada e mantenha um nível mental otimista. A constatação é do consultor de empresas Luciano Salamacha, professor da FGV e fundador da Escola do Pensar na ESIC, instituição focada em comportamento humano e gestão.

 

Em entrevista ao jornalista Mílton Jung, no programa Mundo Corporativo, da CBN, Salamacha falou fez recomendação às pessoas dispostas a empreender:

“O empreendedor sempre terá o direito e até mesmo o dever de ir contra a regra vigente. Um plano de negócio é uma tentativa de diminuir a margem de erro ou potencializar a margem de acerto, mas vai ter sempre aquela expressão lá do intimo da pessoa em dizer eu vou encarar, porque risco é subjetivo”

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, no Twitter (@CBNoficial) e na página da CBN no Facebook. O programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Colaboram com o Mundo Corporativo Guilherme Dogo, Ricardo Gouveia, Débora Gonçalves e Izabela Ares.

Conte Sua História de São Paulo: o pão doce do meu lanche, na Mooca

 

Por Marlene Ayres Bicudo
Ouvinte da CBN

 

 

Nossa família é aquela chamada quarto centenária paulistana, família de professores. Castilho Amaral é o sobrenome por parte de mãe. Ela contava que eram em 17 irmãos, mas com o tempo as fotos contavam com apenas oito: Joaquim, João Miguel, Nelson, Olavo e as mulheres Noemia, Cida, Benedita e Roquellina. Aos três anos, mudamos para o bairro da Mooca, onde vivi por 17 anos. Nossa casa na rua Cassandoca, travessa da Taquari, ficava em meio a outras casas e diversas fábricas de tecelagem, pastifícios, metalúrgicas e indústria Matarazzo. Eu tinha bronquite e o passeio de toda semana era ir ao gasômetro, pois diziam que aquele cheiro de gás fazia muito bem aos problemas respiratórios.

 

As casas eram térreas, com terrenos compridos que tinham quintais de cimento e terra, e quase todas tinham porões. Na parte de terra dos quintais haviam árvores frutíferas, hortas e galinhas. Os porões tinham muitas histórias; além de moradia, tinham espaço para brincadeiras e a parte sombria, parte irregular na altura do porão, desabitada, que para nós era bastante assustadora

 

Na continuação da nossa rua estava o antigo hipódromo que virou o lindo parque da Mooca. Ali frequentei o parquinho — assim era chamada a creche. Com nossos uniformes de calção vermelho, conguinha branco, camisa branca, boné e mochila de tecido vermelho. Tenho boas lembranças, principalmente da hora do lanche. Canecas para cima para tomar leite com café, canequinhas viradas para baixo para quem fosse esperar o Toddy gelado, meu preferido. O lanchinho era quase sempre pão com manteiga, pão com goiabada e pão com banana.

 

Minha mãe ficou viúva quando eu fiz um ano de idade, então logo começou a trabalhar, nada muito comum naqueles anos 1960. Era maravilhoso quando ela deixava um pão doce para o meu lanche, deixado quando passava em frente ao parque a caminho do trabalho. Era uma surpresa deliciosa.

 

O parque da Mooca fez parte da minha vida, ali frequentei a escola modelo primária Dr .Fabio da Silva Prado. Era a única escola que cada sala de aula tinha um espaço individual de recreio. Os alunos não compartilhavam o recreio comum, que era reservado aos mais velhos. Era lindo porque ao redor das salas tinha o bosque. Antes de entrarmos na escola, em seu pátio externo de entrada era estendida a bandeira e todos cantávamos o hino nacional.

 

Foi no parque da Mooca que aprendi a nadar. Tinha uma enorme piscina, com uma boa parte rasa e outra funda, além do espaço com trampolim. A piscina era dividida com uma faixa azul, pois havia o lado feminino e o lado masculino, não podiam se misturar. O vestiário era bastante controlado; nada de biquíni; chuveirada antes de acessar a piscina; e os dedos dos pés eram vistoriados e rigorosamente examinados; todos tinham que abrir os dedos para não esconder nenhuma micose. A incumbência de levar-me à piscina ficava a cargo dos meus irmãos mais velhos, Luis, cinco anos mais velho que eu, e Carlos, cinco anos mais velho que o Luis. E como fazer para tomar conta da irmãzinha sem poder se misturar? Ficávamos lado a lado na faixa separadora. Aprendi a nadar rápido , pois meus irmãos paqueravam as meninas e pediam para elas me ensinarem a nadar e tomar conta de mim.

 

Não lembro de bondes, já estavam no fim de circulação. Nosso passeios eram as visitas aos parentes e eles visitarem nossa casa, era a farra dos primos. Não havia tédio, principalmente na Mooca, em meio a tantos imigrantes italianos, portugueses e tantas outras pessoas maravilhosas que se ajudavam mutuamente tornando a vida mais tranquila e segura.

 

Muitas pessoas gostariam de viver em lugares mais tranquilos, mas confesso que ao retornar de qualquer viagem, sempre digo que adoro esta São Paulo, esse agito, esse movimento que dificilmente você se sente sozinha. Pode passear na Paulista, tem lindos parques, museus, teatros, lojas, igrejas e tudo de montão. Acho o máximo. Aqui tem de tudo, pessoas gentis e educadas que prezam a limpeza, a urbanidade e digo que os paulistanos são generosos.

 

Como paulistana parabenizo minha cidade e convido a todos a amá-la muito mais, preservando e participando de sua zeladoria.

 

Marlene Ayres Bicudo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: minha paixão pelo bairro de Campos Elíseos

 

 

Por Nelmar Rocha

 

 

 

 

Há sete anos moro no bairro de Campos Elíseos, centro de São Paulo, ladeado pelos bairros de Santa Cecília, Santa Ifigênia, Bom Retiro e Barra Funda. Me mudei para o centro para ficar mais próxima do trabalho e das muitas opções de lazer que São Paulo oferece. Até então, morava em São Caetano do Sul, no ABC Paulista, onde nasci, estudei, cresci, mas nunca trabalhei.

 

 

Desde os meus 17 anos, ia para o trabalho em São Paulo e voltava pra casa Cansada de perder uma hora e meia, duas no congestionamento, resolvi mudar.

 

 

A escolha pelo bairro não foi, inicialmente, por gostar da região. Na verdade, foi amor à primeira vista pelo meu futuro lar: um apartamento antigo, amplo, arejado, com grandes janelões, onde é possível observar as ruas e o movimento local. Da janela da sala, sabe-se quando há espetáculo na Sala São Paulo, pois suas luzes são acesas logo no início da noite — uma paisagem que não canso de olhar.

 

 

Passei a explorar o Campos Elíseos e aí não teve jeito, me apaixonei por suas ruas largas e arborizadas, por seus casarões quatrocentões cheios de histórias e por seu comércio, onde encontro supermercados, padarias, farmácias, feiras e lojinhas — que eu, aliás, adoro entrar e bisbilhotar! Tem de tudo um pouco, desde um alfinete até a própria máquina de costura.

 

 

O bairro tem também várias opções de lazer, como a Sala Funarte, o Sesc Bom Retiro e o Teatro e o Centro Cultural Porto Seguro. Além disso, vários outros negócios estão chegando: galerias de artes, espaços culturais, restaurantes, botecos temáticos .… E para todos esses lugares, vou a pé.

 

 

Ao caminhar pelo bairro, me encanto com o boteco minúsculo — com cadeiras e mesas nas calçadas, onde as pessoas conversam enquanto saciam sua sede e fome — e com as frutas coloridas expostas nas carrocinhas de madeiras, estacionadas nas esquinas.

 

 

Os moradores de hoje são bem diferentes daqueles que outrora habitaram o lugar, e as residências são bem mais modestas que as do final do século 19 e início do século 20 — isso porque Campos Elíseos foi o primeiro bairro planejado da cidade, para onde vieram os abastados Barões do Café, que saíam do interior para fixar residência na região, devido a proximidade da Estação Sorocabana, atual Estação Júlio Prestes, e da Estação da Luz. Para receber tão ilustres fazendeiros, foram construídas mansões enormes, com pé direito altíssimo. Verdadeiros palácios.

 

 

O bairro também foi sede do Governo do Estado, o Palácio dos Campos Elíseos, na antiga Alameda dos Bambus, hoje Avenida Rio Branco. Depois de sofrer um incêndio, a sede foi transferida para o Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi. O Palácio dos Campos Elíseos abriga hoje uma secretaria de estado. Outros antigos casarões são agora escolas e sede de empresas, o que ajuda a revitalizar o local.

 

 

No bairro, ainda tem muito a se fazer, mas a boa vontade de seus moradores e comerciantes, por meio da associação de bairro, e o desejo de se viver num local agradável fazem dos Campos Elíseos um lugar onde é possível trabalhar por um futuro melhor, sem esquecer um passado que ajudou a construir a cidade de São Paulo.

 

 

Nelmar Rocha é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br.