Conte Sua História de São Paulo: as brincadeiras com xiringa no Carnaval da Vila Bonilha

 

Helena Francisca de Oliveira
Ouvinte da CBN

 

 

Gosto de relembrar minha infância entre as décadas de 1960–1970. Morávamos num bairro da periferia, a Vila Bonilha, na rua então chamada “Dona Cecília”. Naquela época, como no romance, “éramos seis”: meus pais, dois irmãos, uma irmã, e esta que escreve — uma menininha magricela, cheia de alegria e imaginação. Nossa vida era simples, meus pais faziam o impossível para que não nos faltasse o essencial. E o essencial, tanto material quanto emocional, nunca nos faltou.

 

Lembro-me de quando nos sentávamos na cama da minha mãe, quatro pares de ouvidos atentos às histórias que ela nos contava enquanto esperávamos que meu pai chegasse do trabalho, no trem que se aproximava da “paradinha”. Na “paradinha”, hoje estação do Piqueri, nem todos os trens paravam. Não era uma estação de trem oficial, era uma Parada da companhia Estrada de Ferro Santos—Jundiaí. Sabíamos exatamente quando o trem havia parado ou não: acompanhávamos tudo pelo som! E quando ele parava, aumentava nossa alegre ansiedade, já que o pai bem podia ter chegado nele, e isso significava ganhar carinho, ouvir alguns “causos” e saborear as balinhas coloridas ou as deliciosas paçoquinhas que ele sempre nos trazia.

 

Lembro-me de datas especiais, como o Natal … como o Carnaval.

 

Brincávamos na rua de xeringa, cada um enchendo a sua com água e espirrando nos coleguinhas. Que farra! Íamos aos bailinhos da matinê no salão da subestação que ficava do outro lado da linha do trem. Minha mãe costurava alguma fantasia, nos abastecia com confetes e serpentinas e nos levava para a folia:

 

“ …menina, você é um doce de coco, tá me deixando louco, tá me deixando louco”…

 

Eu me lembro com clareza do tempo em que minha rua era de terra, depois recebeu um calçamento de paralelepípedos que a deixou ainda mais encantadora.

 

Brincávamos até tarde da noite: bicicleta, roda, boneca, pião, queimada, pega-pega … e o que mais nossa imaginação sugerisse. Ainda me recordo da noite em que as luzes de mercúrio se acenderam pela primeira vez na Rua Dona Cecília! Que festa fizemos! E, naturalmente, naquela noite a brincadeira terminou ainda mais tarde…

 

O tempo passou, a Dona Cecília, hoje com outro nome, continua lá, no mesmo lugar, mas há muito deixou de ser a rua da minha infância. Uma parte de nossos vizinhos teve que deixar suas casas, ainda na época da minha adolescência, por conta de uma tal avenida que passaria por ali – o que não aconteceu até hoje, quase trinta anos depois…

 

Minha rua encantada perdeu o encantamento, mas às vezes acontece, quando passo por ela, de eu vislumbrar um pedacinho de paralelepípedo meio descoberto por uma falha no asfalto e, então, é como se ela se reencantasse, me carregando de volta ao tempo em que, em sua simplicidade, era a rua mais linda que eu já vira. E nesse breve instante, envolvida pelas lembranças, consigo ouvir nossas vozes infantis em meio às brincadeiras, os risos e o alarido alegre… E, no fundo, lá longe, como num sonho… a voz de minha mãe me chamando de volta para casa.

 

Helena Francisca de Oliveira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história. Escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a saga e o castelo da família Bonincontro

 

Tania Bonincontro
Ouvinte da CBN

 

 

No começo do século 20, meus bisavós Antonio Bonincontro e Tereza Aiard, que viviam em Napoli, na Itália, vieram de navio para São Paulo. Com eles, desembarcaram dois dos filhos, João e Tereza. Foram morar em um cortiço no Bixiga. Dizem que eram muito, muito apaixonados. Ele alto e loiro. Ela com cabelos castanhos e olhos claros. Tiveram mais seis filhos.

 

Durante a Primeira Guerra Mundial, os dois foram internados, acometidos pela Gripe Espanhola. Antonio e Tereza sofreram muito, não queriam deixar um ao outro, não queriam deixar os filhos. Tereza definhou rapidamente. Antonio viu sua amada ir embora. Ele, ensandecido, desapareceu. Quando os filhos foram ao hospital souberam da morte da mãe e não conseguiram mais notícias do pai. Imaginaram que ele tivesse morrido e sido enterrado como indigente. O filho João, na época com 18 anos, continuo procurando pelo pai por muitos anos.

 

Ele e a irmã, com 16 anos, não tinham condições de cuidarem dos irmãos mais novos. Brasilina, Josefa, Antonio Vicente, Mário, Lourenço e Nicola, pequenos, famintos, pediam pelos pais. João voltou para a Itália para lutar na Guerra e juntar algum dinheiro para sustentar os irmãos, no Brasil. João estava na infantaria e viajou por toda a Itália e outros países da Europa. Escrevia cartas aos irmãos, contava de suas batalhas, que quando estava ferido ao mesmo podia ficar em paz na enfermaria. Contou até que havia passado por um castelo com o sobrenome da família, os Bonincontros.

 

Aqui no Brasil, Tereza nunca se casou, não queria que os irmãos se sentissem abandonados mais uma vez. Conseguiu alimentar a todos. Brasilina se casou e não teve filhos. Vicente virou sapateiro. Nicola, um andarilho, alcoolatra. Seguiu assim, mesmo com a volta de João da Guerra. Os irmãos decidiram interná-lo em um sanatório. Ao fazerem o registro, descobriram que havia outro Bonincontro internado por lá. Era o pai que estava desaparecido por anos. Os filhos, todos adultos, foram até ele que não os reconheceu: “não são os meus filhos, não, os meus morreram de fome”. Antonio Bonincontro morreu pouco tempo depois sem nunca aceitar a ideia de que aqueles eram seus filhos.

 

Eu sou neta de Antonio Vicente, o sapateiro. Que adorava ópera e, sem dinheiro, trocava o ingresso do teatro por aplausos. Ele era puxador de aplausos. Morou na Vila Maria e teve dois filhos. Um deles o meu pai, Ovidio Bonincontro.

 

Tania Bonincontro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: a boiada no caminho dos pais, em Pirituba

 

Eder Rodrigues da Silva
Ouvinte da CBN

 

 

Nasci em Fevereiro de 1957. Nasci e moro no mesmo lugar, no bairro de Pirituba. Vim ao mundo em casa, de parto natural, pois minha avó era parteira e então não houve necessidade de se recorrer a um hospital.

 

Pirituba —- em tupi significa “um pouco alagado”. Na época em que vim ao mundo, passavam até boiadas por aqui, trazidas pela antiga companhia ferroviária Santos/Jundiaí; esse gado se destinava ao frigorífico Armour. Meu pai me contou que ele e minha mãe saiam bem de manhãzinha para pegar o trem — aqui têm três estações, a de Pirituba, a da Vila Clarice e a do Piqueri —- e pelo caminho que eles faziam, entre a vegetação, havia uns pontos brancos. Ao chegar perto se via que eram os bois.

 

Quando andávamos de trem, gostávamos de percorrer rapidamente cada vagão, do começo ao fim. Pegava o do horário das 6h40, que tinha o ponto inicial aqui em Pirituba. Uma turma de amigos se formou andando naquele trem por muitos anos. Meu pai também o pegava até o dia em que se aposentou do trabalho na Cervejaria Antarctica, na Mooca.

 

A estação ferroviária foi criada na época em que se iniciou a expansão da produção do café no nosso estado. Perto dela foi fundado o Clube Nassau e a fábrica de pianos Fritz Dobbert.

 

O Clube Nassau, como o próprio nome indica; em homenagem ao príncipe Maurício de Nassau, foi criado por holandeses e tinha até um campo de golfe —hoje em dia a parte do terreno onde estava o campo é cortada pela Rodovia dos Bandeirantes. O que permanece como ponto turístico é uma construção imitando um moinho de vento, um dos símbolos da Holanda.

 

A “Pianofatura Paulista”, da marca Fritz Dobbert, se mudou daqui faz pouco tempo, e que eu saiba é a única brasileira, neste ramo especifico. Essa fábrica ficava vizinha do moderno terminal de ônibus e da estação de Pirituba. 

 

Alguns antigos colegas da “escola de tábua” ou do grupo escolar Ermano Marchetti ainda moram por aqui. Nos divertíamos com brincadeiras da época: pega-pega, barra-manteiga, mão na mula …. a minha preferida era pular pau ou salto em distância. Eu era bom nisso. Meu irmão caçula, conheceu um de meus colegas do passado que disse que meu apelido era Cavalo, por ser quem conseguia saltar a maior distância. A escola agora é uma praça bem arborizada. Felizmente, o colégio não foi extinto, apenas mudou de endereço.

 

Naquele tempo tão comum quanto os pais levarem os filhos no zoológico era levarem para ver os aviões no aeroporto de Congonhas — o avião sempre parecia maior do que se imaginava. Até hoje me espanto quando os vejo bem de perto. Aliás, o Pico do Jaraguá, aqui na zona Norte, é referencia para os pilotos que ao passar por cima dele e mantendo-se para o sul da cidade sabem que estão no rumo certo da pista de Congonhas.

 

Pirituba, como é bom viver aqui, um lugar que parece uma vila do interior, bem dentro de São Paulo!!!
 

 

Eder Rodrigues da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças e envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br.     

Conte Sua História de São Paulo: tentando desvendar-te em cada noite fria

 

 

Neide Lopes Ciarlariello
Ouvinte da CBN

 

 

 

 

No Conte Sua História de São Paulo vamos ouvir o soneto da ouvinte da CBN Neide Lopes Ciarlariello, paulista, filha de paulistanos e neta do cantor paulista Paraguassu. Neide está com 80 anos, é poeta, pertence a Academia Contemporânea de Letras de São Paulo e a Real Academia de Letras do Rio Grande do Sul:
 

 

Intrinsicamente ligadas, eu e tu amada minha
Tão bela! Sonho que percorro em cada via
Em cada esquina, em cada praça em cada vinha.
Te absorvo passo à passo, noite e dia
 

 

Na incansável busca do teu cerne
Tentando desvendar-te em cada noite fria
Eu não consigo, por mais que me aderne
No rastro prateado daquela estrela guia.
 

 

Pedantife de esmeraldas de Fernão
Cinzelada pela força do trabalho
És única nesse turbilhão, és joia rara
 

 

Emoldurada em ouro pelo sol
Minha São Paulo!
Minha terra!
Meu torrão!
 

 

Neide Lopes Ciarlariello é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie suas lembranças da cidade para contesuahistoria@cbn.com.br. 

Conte Sua História de São Paulo 466: os passeios de bar em bar na noite paulistana

 

Carlos Ferreira Lima
Ouvinte da CBN

 

 

São Paulo nunca foi uma cidade, digamos, muito tranquila. Sempre teve seus bandidos, alguns até famosos. Mas entre os anos de 1970 e 1980 dava para atravessar, por exemplo, sem medo, de madrugada, a Praça da Sé — ao menos era o que eu fazia, sem susto, sem sobressaltos.

 

Na Praça da Sé mesmo, do lado esquerdo de quem entra no imponente prédio de fachada de estilo jônico e granito negro da Caixa Econômica Federal, havia um bar minúsculo, desses que não suportariam três fregueses em pé, chamado Toca da Onça, que ficava aberto 24 horas. As sugestões de ‘comes e bebes’ eram poucas, e honestas: servia um sanduíche de linguiça do tipo Bragança, saboroso, feito na chapa. Podia-se até encomendar a compra da linguiça, a granel, por quilo. Depois que o bar fechou, o lugar virou loja de cartuchos, cujo letreiro até outro dia ainda estava estampado no toldo. Voltou a fechar.

 

Eu trabalhava no BCN — Banco de Crédito Nacional, que também não existe mais, na Rua Boa Vista. Algumas vezes, às sextas-feiras, após o expediente e quando não tinha aula, caminhava até o Bexiga que na época bombava como hoje ferve a Vila Madalena. Havia bares como o Café do Bexiga, o Persona e o Boca da Noite. Daqueles tempos, resistem o Café Piu Piu e o Café Aurora.

 

O Persona era de um artista plástico, todo decorado com espelho e velas. Nele jogava-se o Persona com um espelho, um par de velas e um disco do tamanho de um long play. Um casal, frente a frente, intercambiava imagens e brincava com isso por um bom tempo. Jazz e rock ao vivo eram as trilhas sonoras. O baixista Pete Woolley estava sempre tocando por lá.

 

Na volta do Bexiga, a pé, de madrugada, pela Santo Amaro, Maria Paula, Viaduto Dona Paulina, chegava a Praça da Sé. Uma parada para comer um sanduíche, beber, provavelmente, uma saideira, descer a General Carneiro e chegar Praça Ragueb Chohfi, no Parque Dom Pedro II. De lá seguia para casa, com um ônibus que circulava 24 horas — coisa rara naquele tempo. Esta linha que seguia para Ferraz de Vasconcelos, na Região Metropolitana, cortava a zona Leste — passava pelo Tatuapé, Carrão, Vila Formosa, Itaquera. Não existe mais, assim como muitos dos bares que frequentei. Assim como a tranqüilidade que me permitia caminhar de madrugada. O que persiste é São Paulo. A nossa São Paulo.

 

Carlos Ferreira Lima é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Conte você também as suas lembranças da cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 466: o primeiro emprego no estúdio dos jingles

 

Cláudio Moreira
Ouvinte da CBN

 

 

Nasci na Maternidade São Paulo. Hoje, tenho 73 anos. E me veio a mente as lembranças do meu primeiro emprego, em 1961. Fui trabalhar no centro da cidade que para mim era uma consagração, pois fui para a rua mais badalada de São Paulo daquela época, a Barão de Itapetininga. Número 255, Galeria Califórnia. Ali havia a Magson que depois virou Studio G. Martins, onde eram gravados os melhores jingles do rádio e da TV brasileiros.

 

Eu era office-boy e tinha contato direto com os grandes criadores: Gilberto Martins, Heitor Carillo, Carlos Henrique e o o maestro Hector, um argentino. Lá foram criados os jingles da ‘Grapette, quem toma repete’, ‘Tody dá mais energia’ e, entre outros tantos, o do Creme Rugol ….

 

Não segui esse caminho da criatividade. Fui para o mundo financeiro, que não deixa de ser criativo, vai? Agora, aposentado, ouço a CBN boa parte do dia e curto minha neta Duda, de cinco anos. Aprendi muito com aquele pessoal do primeiro emprego. Considero-me um cara alegre e criativo —- ao menos é o que Duda costuma dizer quando fala do vovô.

 

Claudio Moreira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva as suas lembranças da cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo 466: meu amor preso na jaula do Parque Shangai

 

Cesar Campos
Ouvinte da CBN

 

 

Hoje estou com 65 anos. Quando criança vi coisas incríveis em São Paulo.

 

Meus pais eram separados e eu vivia com minha mãe e irmãos. Esperava com ardor o dia de sábado, quando ele me levava a passear no Parque Dom Pedro II. Cheio de árvores, caminhos ladeados de flores e plantas tropicais. Tinha lagos, uma ilha artificial. Pequeninas pontes. Que o coronel Américo Fontenelli transformou em estacionamento de ônibus.

 

Ao lado do parque D Pedro, meu pai me levava ao Shangai, uma jóia então perene para os olhos de uma criança de seis ou sete anos. Foi lá que tive minha primeira paixão de que me recordo. Uma bela moça, que deveria ter 18 ou 19 anos, que se transfigurava, por um acidente genético ou maldição tribal, em um enorme gorila. Era a Monga, a Mulher-Macaco. Uma morena de maiô, lindas pernas, cabelos ondulados e longos, lábios carnudos. Quando, ao apagar das luzes, ela se transformava e ameaçava sair da jaula, as pessoas corriam e gritavam. Eu ficava firme, como um herói, esperando que ela voltasse a sua beleza natural na próxima sessão. Ou no sábado seguinte.

 

Com minha mãe, eu andava de bonde. Com seu cobrador heróico, que circulava pendurado na boleia com os dedos cheios de notas de dinheiro fazendo troco. Curtia a chuva de dentro do “bonde camarão”, aquele fechado, onde eu via a publicidade do Rum Creosotado.

 

Pegava o bonde na Avenida Celso Garcia, no Brás, onde morávamos, até a Praça Clóvis Bevilacqua; e na Praça da Sé embarcávamos em um segundo bonde que subia a Vergueiro até a Praça Santo Agostinho, onde morava minha madrinha Josefina, amiga de mamãe dos tempos de juventude em Ribeirão Preto. Eu ficava horas na varanda, olhando aquela pracinha com ares europeus, árvores miúdas e banquinhos, ladeada por muros de tijolinhos à vista da Igreja e vivendo, quem sabe, um “dèja-vu” de outras vidas no velho continente.

 

Hoje, invejo as antigas cidades europeias que mantém suas paisagens centenárias e permitem aos velhos caminharem sobre as mesmas calçadas e tocarem os muros que guardam memórias.

 

César Campos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também suas lembranças e envie e para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 466: as cadeiras na calçada do Bexiga

 

Armando Fragnan
Ouvinte da CBN

 

 

Antigo reduto da colônia italiana desde o início do século passado, hoje transformado em bairro boêmio, acompanhei a todas as modificações ocorridas no Bexiga. Assisti à desapropriação na década de 60 que desfigurou grande parte da região.

 

Nascido e criado na rua João Passalacqua, quase nada lembra o antigo bairro. Os italianos, alfaiates, sapateiros, barbeiros e marceneiros desapareceram do bairro, com exceção dos padeiros que conseguiram resistir ao tempo. Naquela época lembro-me que segunda-feira era feriado para tais profissionais.

 

Ao domingos era infalível a missa na capela do Colégio Passalacqua. A seguir, os alunos rumavam para a segunda missa, na igreja Nossa Senhora de Achiropita. Nos fins de semana, a moda era frequentar o cine Rex, que exibia dois filmes aos moradores do bairro. Na rua Rui Barbosa, os vizinhos retiravam as cadeiras de suas casas, levando-as às calçadas onde sentavam enfileirados lembrando os costumes calabreses, sicilianos e napolitanos.

 

Havia as partidas de futebol de salão que se realizavam na quadra do Boca Junio’r da Bela Vista, na rua Santo Antonio.

 

Nas enfermidade da família era obrigatória a visita domiciliar do doutor Mazza que, religiosamente, acompanhava a evolução do paciente em casa, constituindo o médico da família, figura quase extinta nos dias atuais.

 

Pelas ruas do bairro, por falta de lugar apropriado, aconteciam os ensaios da Escola de Samba Vai-Vai, na época Cordão Vai-Vai.

 

Os primeiros namoros e, posteriormente, os bailinhos da rua Major Diogo, na época da Jovem Guarda, existem hoje apenas em nossas lembranças.

 

Do antigo Bexiga, que originou a este novo Bexiga, resta apenas a saudade de quem teve o privilégio de vivê-lo.

 

Armando Fragnan é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças da cidade e envie o texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos de São Paulo, visite o meu blog miltonjung@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo 466: as tribos e índios que cercaram minha infância, no Planalto Paulista

 

Maria Ângela Silveira de Souza
Ouvinte da CBN

 

 

Tribos, índios e objetos indígenas cercaram minha infância. Não, não sou filhos de índios, mas o bairro onde morei dos três aos 11 anos, o Planalto Paulista, emprestou dos povos nativos diversos nomes para batizar suas ruas. Aratãs, Guainumbis, Itacira, Piassanguaba e Quinimuras são alguns dos que povoaram meu mundo. Meus vizinhos eram o Ibirapuera e Moema.

 

Minha taba … minha casa era cercada por ladeiras, que me viram passar e crescer entre os anos de 1950 e 1960. Quando mudei para lá, minha rua e outras como a Av Indianópolis eram de terra, e ela foi a matéria-prima para as minhas brincadeiras. Do barro, fazia as comidinhas para as bonecas. Na terra mais seca, caprichava nos buraquinhos feitos com tampinha de garrafa para jogar bolinha de gude. Empinar papagaio era minha alegria. Eu mesma construía meu pássaro com papel de seda, varetas, cola de farinha e linha de costura. Tudo comprado no armazém do bairro, que vendia também balas, maria-mole, arroz, óleo, caderno e um mundinho de coisas práticas.

 

Vi as ruas serem asfaltadas e logo ganhei minha primeira bicicleta. Uma Monark vermelha com cano para meninas. A sensação era de que havia ganhado o mundo. Pedalava ladeira abaixo, sozinha, feliz pela liberdade inocente e gostosa. às vezes exagerava. E o farmacêutico do bairro é que cuidava dos curativos.

 

Com o aeroporto de Congonhas, meu pai me levava para ver as aeronaves de perto e tomar um lanche. Me encantavam os passageiros muito bem vestidos e chiques. Em 1963, um avião caiu perto de casa. Dos 50 a bordo, 13 sobreviveram. Nunca mais esqueci o nome de um deles: Renato Consorte, conhecido comediante da época — que, hoje, é até nome de rua.

 

A avenida Paulista faz parte da minha vida —- quase uma extensão de casa. Vi o antigo Cine Astor, no Conjunto Nacional, se transformar na Livraria Cultura. Presenciei o incêndio no Center 3, em 1987. Em meados de 1990, mãe, frequentei o Parque Trianon com minha filha, e gostávamos de ver um bicho-preguiça que ficava na árvore. Nunca mais apareceu.

 

As mudanças na cidade eram visíveis e dava para acompanhar o que nascia e o que morria. Agora, a velocidade com que tudo acontece não dá tempo para expectativas e a mais paulista das avenidas mostra uma nova cara a cada dia. Deixou de lado a sisudez de terno, gravata e tailleurs e abriu os braços para todas as tribos
 

 


Maria Ângela Silveira de Souza é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 466: os apitos das fábricas agora são raros

 

Dalva Rodrigues
Ouvinte da CBN

 

 

Minha infância foi na Vila Liviero, divisa com São Bernardo. Nossa casa humilde, o quintal, a rua, seus moradores, comércio, quermesse, o circo e o parquinho de diversão. Da janela da frente de minha casa avistava o terreno que diziam ser da Ford. Mas acho que só uma parte era da montadora, onde havia o pátio de automóveis. O restante era uma enorme área verde. Era o que chamávamos de “Pastão da Ford” — um paraíso para brincar, empinar pipa … onde cavalos e bois pastavam, havia um ou outro casebre, algumas hortas, árvores, cercas de madeira e arame farpado querendo impor limite aos invasores.

 

Acordava cedinho com o apito das dezenas de fábricas nos arredores. Abria a janela e olhava a névoa que cobria o Pastão se dissipando aos poucos com a chegada da luz matutina, parecia cenário de filme. Quando o capim gordura estava alto, a tela que via da janela era outra: quase tudo se tingia de rosa avermelhado. Quando o capim estava baixo, virava parque de diversão.

 

Lembro quando com alguns amigos atravessamos a pinguela do córrego, estreita e perigosa. Mais de um quilômetro de caminhada. Fomos fazer um piquenique por lá. Toalha estendida embaixo da árvore mais frondosa, comida, brincadeiras, risadas. A infância se derramava alegremente. Depois o descanso. Deitada no chão observava a vida agitada dos insetos que zanzavam ao redor. Ao longe avistava minha rua, a janela pequenininha de onde olhava o pasto logo cedo. Foi quando o tempo fechou, as nuvens escureceram e raios e trovões anunciaram a tempestade de verão. Sem consciência do perigo ficamos embaixo da árvore gigante até a chuva passar. Fomos protegidos pela nossa inocência. Sorte de criança.

 

Os apitos das fábricas agora são raros. O nosso Pastão foi tomado por hipermercado, condomínios, muros altos que separam as casas do córrego mal cheiroso. Mesmo assim ainda hoje olho o Pastão de minha janelinha, a partir das memórias que não se apagaram totalmente.

 


O capim gordura no “meu pastão” é lindo de olhar.

 


Dalva Rodrigues é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva suas lembranças e envie para contesuahistoria@cbn.com.br