Conte Sua História de São Paulo: minhas aventuras com a turma da praça da alegria

 

Por José Maria Pires

 

 

Nasci no ano de 1956, em Parelheiros, extremo sul de São Paulo, e foi onde passei os momentos mais incríveis de minha existência. Entretanto, devido a uma ótima oferta de emprego a meu pai, mudamos para o bairro de São Judas Tadeu, em 1963, e ficamos lá até 1971.

 

Em São Judas, comecei a estudar na Escola Estadual Almirante Barroso, que fica bem próximo à Igreja. O curso primário foi muito tranquilo, tirei de letra. Lembro-me que naquela época para ingressar no ginásio, tínhamos que fazer uma espécie de estágio, era o 5º ano — qual fiz ali perto numa escolinha na Rua Nereu Ramos, bem em frente à casa onde morava o Sr. Manoel da Nóbrega, que era o protagonista principal do programa de humor “A Praça Da Alegria”, transmitido pela TV nos anos de 1960 / 1970.

 

Nas tardes, quando o Sr. Manoel não estava gravando, ele se aconchegava numa cadeira de balanço na varanda de sua casa e ficava brincando com seus cães, que eram parecidos com a cadela Lassie — um seriado que passava na TV. Nesse instante, nossa professora, Dna. Maria Barbosa,  nos chamava até a janela — pois a sala de aula ficava no andar superior da escola. Nós acenávamos para o Sr. Manoel, que com um grande sorriso e simpatia nos retribuía. Era como se estivéssemos na “Praça” com ele.

 

Lembro-me também que havia uma garota, acho que era neta do Sr. Manoel, muito bonita, e quando ela estava na casa dele, e nós a víamos, na saída da escolinha, ficávamos mexendo com ela. Numa dessas, o Carlos Alberto de Nóbrega, filho do Sr. Manoel, saiu correndo atrás de nós. Consegui me esconder no interior de um empório, mas ele me achou e queria de todo jeito saber onde eu morava pra ir falar com meu pai. Eu em prantos dizia que nunca havia mexido com a garota, e ela vendo meu desespero, acho que sentiu pena de mim, disse ao tio, que eu não estava com os meninos. Só então o Carlos Alberto me deixou ir.
Dessa eu me safei.

 

Bem, ali em São Judas, como em todos os lugares até hoje, existem aquelas turmas formadas pelos garotos da rua de cima, outros da rua de baixo e assim vai. Eu era da turma da Ceci, — a Avenida Ceci, onde morei —, outros eram da Nereu — a Nereu Ramos —, outros da turma da igreja e por aí afora. As brincadeiras nessa época eram: futebol de rua, bater figurinhas, rodar pião …

 

Na Alameda dos Ubiatans, próximo a caixa d’água da Av. Ceci, era onde disputávamos o futebol de rua, e numa dessas disputas, de repente, apareceu um fusca de cor verde. Parou atrás de um dos gols e dele desceu Ronald Golias, daquele jeito brincalhão, pega a bola vai de um lado para outro driblando todo mundo, e em seguida, coloca a bola no centro do campo, entra no fusca e vai embora. Foi muito engraçado. Até então não tínhamos presenciado tanto movimento de pessoas naquela rua, que era sempre muito tranquila.

 

Bem, ao ser aprovado no curso primário, começo então o ginasial, indo estudar na Escola Estadual Cidade Vargas, hoje Cacilda Becker, em frente a estação final do metrô Jabaquara. Lá, fiz muitas amizades, e entre elas, com um garoto bom de bola, o Garrinchinha, um outro que atendia pelo apelido de Cebion, que participava de um comercial de TV, nos anos de 1970, por isso o apelido,  e também uma garota com traços orientais, de nome Jandira Tamiko, que tinha um jeito engraçado de se expressar — no primeiro momento, nos tornamos muito amigos. Mas, por faltar muito às aulas e ser muito bagunceiro, no ano de 1969 a escola enviou um bilhete a meu pai, pedindo seu comparecimento na secretaria, para tratar de minha transferência para outra escola, em Vila Fachini na Rua Godofredo Braga.

 

Lá cheguei com fama de encrenqueiro e brigão, mas estava só, a turma da Cidade Vargas já não mais existia. Foram tantas às vezes que corri, pra não levar uma coça dos garotos da nova escola. E, foi numa dessas escapadas que conheci Verinha e suas irmãs, Ana e Sonia, que moravam no final da Rua Fachini, e tornaram-se minhas cúmplices e amigas, nos momentos que me sentia desprotegido.

 

José Maria Pires é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série e envie seu texto  para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: uma chance a mais para Antônio, preso e drogado

 

Por Roberto Livianu
Ouvinte da CBN

 

 

 

Crônica originalmente escrita para o livro “50 tons de vida”:

 

 

Antônio era o filho mais novo de oito irmãos. Nascido em Nova Lima, região metropolitana de BH, teve infância humilde mas nunca faltou afeto nem alimento na mesa.

 
 

 

Sua mãe, Maria Antonieta era costureira e dava um duro danado para nada faltar aos filhos, para que todos estudassem, para que se sentissem amados, protegidos e amparados.

 
 

 

Flávio, o pai, morreu prematuramente em acidente do trabalho, na obra em que trabalhava como peão, na construção civil. Um andaime tragicamente desabou sobre ele.

 
 

 

Aos dezoito anos, Antônio resolveu tentar a vida em São Paulo, onde vivia Pedrinho, um primo seu, que trabalhava como garçom. Mas logo percebeu que não seria nada fácil vencer ali sem dinheiro, sem amigos poderosos, sem caminhos. Especialmente após ter feito amizade com Carlinhos, moleque do bairro que não trabalhava, usava crack e levaria Antônio para este labirinto.

 
 

 

Sem emprego e já viciado, saiu desesperado em busca de dinheiro para comprar a pedra. No seu trajeto, um salão de beleza. Entrou, colocou a mão sob a camisa e exigiu cinquenta reais. Estava cometendo seu primeiro assalto. Não foi convincente, não obteve o dinheiro e na saída foi preso em flagrante pela PM.

 
 

 

Dois meses depois foi solto num habeas corpus pedido pela Defensoria Pública, conseguindo responder ao processo em liberdade.

 
 

 

Passados dois anos, era um homem diferente. Trabalhava como servente de pedreiro e estava muito arrependido. Tornou–se evangélico e conseguiu libertar-se do crack. Chega o dia da audiência no fórum e a vítima pede para depor sem ele presente.

 
 

 

Surpreendentemente, o promotor vai até ele na sala em que estava e pergunta se estaria disposto a se explicar para a vítima e de pedir perdão a ela. A felicidade toma conta apesar de tudo e ele responde que é o que mais gostaria que acontecesse.

 
 

 

O promotor convence a vítima a rever sua posição e ela aceita estar presente e se encontrar com Antônio, para ouvi-lo. O mineirinho emociona-se, explica o que se passou em sua vida, pede perdão à vítima e as lágrimas correm em seu rosto copiosamente.

 
 

 

Suas palavras são sinceras. Ele e a vítima, Dona Letícia, abraçam-se e a cena emociona a todos na sala. A juíza, o promotor, a defensora, escrevente, estagiários.

 
 

 

O trauma sofrido pela vítima em virtude do assalto parece ter-se restaurado em grande medida. A prática se inspira na justiça restaurativa, que é instituto ainda embrionário no Brasil, mas muito utilizado na Nova Zelândia, no Canadá, África do Sul e em muitos outros países, onde se busca a aproximação de agressor e agredido por facilitadores da sociedade nos círculos restaurativos, funcionando o juiz como homologador.

 
 

 

A pena foi aplicada e o processo foi julgado, tendo ele recebido o benefício do regime prisional aberto e a sensação do promotor naquele dia foi muito especial, de dever cumprido. Sentiu-se leve, feliz e em paz. Sentiu ter feito justiça.

 

 

Roberto Livianu, promotor de Justiça, é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também sua história da cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. 

Conte Sua História de São Paulo: os engravatados que serviam lanche na Casa Califórnia

 

Patricia Rivarola
Ouvinte da CBN

 

 

Uso óculos desde muito pequena, o meu problema com o estrabismo e miopia foi detectado logo na pré-escola. O primeiro médico que me atendeu foi na Escola Municipal de 1º Grau Dr. Antonio Carlos de Abreu Sodré, na zona sul de São Paulo – Vila Sabará, na época em que algumas escolas públicas prestavam serviços médicos aos alunos, como dentista e oculista. E os meus primeiros óculos também foram fornecidos pela escola, gratuitamente, uma enorme de uma armação preta!
Minha mãe foi empregada doméstica por muitos anos e quando tinha folga me levava aos médicos, inclusive ao oculista — era uma grande aventura. Eu morava na zona sul e com minha mãe pegava o ônibus até o centro da cidade, cruzava a Praça do Patriarca, chegava na Liberdade e tinha a minha consulta.

 

Agora, o mais divertido e gostoso era depois da consulta: a hora do lanche.
Sabe onde? Na Casa Califórnia. Da Liberdade voltávamos ao centro: Rua Direita, 15 de Novembro até chegar a São Bento. Era um pequeno espaço com aquele piso preto e branco. Havia alguns bancos altos, uns três ou quatro; e era um milagre conseguir sentar em um deles. Logo na entrada tinha a máquina onde ficava rolando a linguiça. Do outro lado, havia um balcão onde as pessoas compravam para levar para casa a famosa “linguiça calabresa de Bragança”. No fundo da loja, um imenso balcão.

 

O atendimento era uma história à parte. Era feito por dois senhores engravatados! Eu achava aquela cena o máximo. Naquela correria da lanchonete, onde não havia nenhum conforto nem uma mesinha com cadeiras, as pessoas comiam em pé. O atendimento era rápido porque havia muitos fregueses. Esses dois senhores, vestidos em camisa de mangas compridas, calça social, sapato lustrado, bigode bem aparado, cabelos no gel e gravata. Eles ficavam no caixa, aquela máquina registradora verde, gigante. Minha mãe fazia o nosso pedido: um sanduíche para cada uma e um suco de limão. Recebíamos uma ficha de metal verde e outra preta para cada item.

 

Depois de receber as fichas, ao lado do caixa, já entregava uma delas para um senhor meio marrento, mas ligeiro, que preparava o suco em uma máquina de metal. Depois, o sanduíche. Vinha um rapaz que tinha uma fisionomia de ser do nordeste. Para mim, só ele saberia preparar meu sanduíche: espetava a linguiça com a faca, colocava no pão e incrementava com o vinagrete. Que delícia!

 

Quando adulta, voltei à Casa Califórnia, já havia mudado de lugar antes de retornar ao ponto de origem. Mas nunca mais foi a mesma Califórnia da minha época.

 

Patrícia Rivarola é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. 

Conte Sua História de São Paulo: o menino carioca que adorava as férias na Vila Nova Uberabinha

 

Dr Luis Fernando Correia
Do Saúde Em Foco e ouvinte da CBN

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto do ouvinte Luis Fernando Correia — sim, ele mesmo, o nosso Dr Luis Fernando Correira, do Saúde em Foco:

 

Nos anos 1970 eu era um carioca atípico. Passava férias em São Paulo. Deixe-me explicar, antes que me achem louco. Tenho família em São Paulo e naquela época, com 15 anos, tendo vivido sempre em apartamentos no Rio de Janeiro, quando vim visitar a família, dei de cara com uma turma de mais 20 da mesma idade, brincando na rua.

 

Minha tia morava em Vila Nova Uberabinha, a região fica ao lado da Avenida Santo Amaro — é aquela área que foi englobada ao bairro de Moema, onde as ruas tem nome de pássaros.

 

No Rio, morava em lugar plano, bicicleta à vontade. Ali havia ladeiras para se andar de skate.

 

Algumas vezes jogávamos tênis no Clube Pinheiros. Para chegar lá tinha de atravessar a Santo Amaro e logo depois havia um córrego, que hoje está canalizado. Cruzávamos uma pinguela —- um pequena ponte improvisada de madeira — que nos levava à região da rua Clodomiro Amazonas. Dali se chegava ao Pinheiros.

 

Uma curiosidade da época de adolescente em São Paulo: a chegada de uma rede de lojas de sanduíches servidos em caixinhas — o Jack in the Box. A inauguração foi no shopping Ibirapuera, que também tinha muito perto a sorveteria Brunella.

 

Era uma época em que se podia ficar na rua até muito tarde, sempre que as mães deixavam — ou não. Eram os anos de 1970, em São Paulo, vistos pelos olhos de um carioca adolescente.

 

Luis Fernando Correia é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte também você mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: o dia em que os nossos cientistas foram recebidos como heróis na cidade

 

Mayana Zatz
Ouvinte da CBN

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto da ouvinte Mayana Zatz:

 

Sou geneticista e dirijo o Centro de Pesquisas em Genoma Humano e células-tronco na Universidade de São Paulo. A história sobre São Paulo que vou relatar não é tão antiga mas acho que vale a pena ser contada.

 

Ela teve início há cerca de 20 anos, quando a FAPESP — Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de S. Paulo reuniu vários líderes de pesquisas para discutir um assunto muito preocupante. Enquanto os países do primeiro mundo avançavam rapidamente no domínio da tecnologia do sequenciamento do DNA — isto é, como analisar as informações contidas no DNA — no Brasil poucos laboratórios dominavam essa tecnologia. Como reverter essa situação, como capacitar mais laboratórios e cientistas na tecnologia de sequenciamento de DNA? .

 

Depois de muitas discussões, decidiu-se formar uma rede de 30 laboratórios, que iriam ser treinados nessa tecnologia de ponta. Era um projeto totalmente inovador. Nosso laboratório, no Centro de Pesquisas do Genoma Humano iria ser um dos 30. Decidiu-se sequenciar um organismo com um DNA pequeno, que não levasse anos para ser sequenciado. Lembrando que hoje você consegue sequenciar um genoma humano em algumas horas mas naquela época ainda estava em curso o projeto genoma humano que levou 13 anos para sequenciar o primeiro genoma de um ser humano — a um custo de 3 bilhões de dólare). Também teria que ser um organismo que tivesse algum interesse comercial. Depois de muitas discussões, decidiu-se pela bactéria Xylella que é um patógeno que ataca os laranjais causando grandes prejuízos à citricultura.

 

Cada laboratório recebeu da FAPESP um sequenciador — um equipamento para sequenciar — e os reagentes necessários para sequenciar um trecho do  DNA da bactéria. A ideia era que depois iriam se juntar os pedaços sequenciados por cada laboratório como se fosse um quebra-cabeças. O objetivo era terminar em dois anos. E aí começou a corrida, com trocas de informações pela internet entre os 30 laboratórios.

 

Em 2.000, conseguiu-se terminar o sequenciamento da Xyllela e foi um sucesso acima de qualquer expectativa. O que pretendia ser principalmente um treinamento de tecnologia gerou uma publicação científica que foi capa da revista Nature, uma das revistas científicas mais prestigiosas que existe. O Brasil não era mais notícia por causa do futebol e do carnaval mas também pelos seus feitos científicos. Era a primeira vez que se sequenciava no mundo o DNA de uma bactéria que era um patógeno de uma planta.

 

O governador de São Paulo na época era o Mário Covas e ele decidiu fazer uma homenagem na sala São Paulo para todos os cientistas que tinham participado do projeto. Mas foi muito mais do que uma homenagem. No caminho inteiro havia faixas dizendo: São Paulo tem orgulho dos seus cientistas. Foi uma emoção indescritível. Inesquecível. Uma homenagem aos cientistas? Isso nunca havia acontecido antes.

 

Cheguei a Sala São Paulo com os olhos marejados de lágrimas. Brinco sempre que eu me senti como um jogador de futebol voltando de uma copa internacional vitoriosa.

 

Será que teremos investimentos que permitam que a ciência brasileira volte a ter esse prestígio e reconhecimento?

 

Dra Mayana Zatz é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Venha contar mais um capítulo da sua cidade, na CBN. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br Se quiser conhecer outras histórias, visite agora o meu blog miltonjung.com.br

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: a turminha do córrego do Sapateiro

 


Por João Batista de Paula
Ouvinte da CBN

 

 

No Itaim Bibi nos tempos da zagaia.
 

 

O tempo de todos nós, meninos e meninas do bairro do Itaim Bibi, dos anos 1940 a 1950. Era a nossa infância e parte de nossa juventude — saudades desse tempo que ainda não tínhamos saudades. Não sei nada, mas sei que quando o encanto é para ser, será; e não há quem possa separar.
 

 

Nos tempo das ruas de terra batida — quando chovia o barro com o sol virava  torrão, o torrão virava pó, o pó virava lama, com as águas, o córrego do Sapateiro se agigantava, a ponte balançava, as árvores tremiam e se batiam com os ventos fortes; a molecada corria e brincava de guerra de barro. As casas eram conhecidas, os portões abertos sem chaves e sem grades, os cães ladravam e vigiavam tudo,
 

 

As brincadeiras mudavam quando chovia e fazia frio: agora era de pega-pega, a vareta foi Boca de Forno; com o frio as meninas quase não apareciam na rua; os meninos tinham seus cavalos de cabo de vassoura, trotavam aos gritos em alta velocidade brandindo suas espadas contra inimigos imaginários. Quando o tempo melhorava as meninas brincavam de passa anel ou de barra manteiga e pular corda. Outras se imaginavam donas de casa, montavam suas casinhas nas calçadas de terra e ali sonhavam e formavam suas famílias. Os mais pequenos eram os filhos, o marido era sempre os mais calmos ou imaginário, o diálogo e os afazeres elas aprendiam com as mães.

 

As ruas não eram iluminadas nas noites mais escuras e os meninos tinham lanternas a lenha: era uma lata de óleo com uma abertura na parte baixa em forma de pirâmide e uma alça de arame de meio metro, pouco mais ou pouco menos. Colocávamos lenha e fogo e girávamos com a alça, era bacana quando cinco ou seis lanternas estavam em ação na rua escura, nas noites escuras.
 

 

Nossa turminha vivia em torno do córrego do Sapateiro. Entre a Rua Mário de Castro, hoje Fernandes de Abreu, rua 17, atual Ramos Batista, Rua Piqueta, Rua Heloísa — a mesma onde os caminhões que carregavam areia das descobertas subiam e encalhavam nos buracos, e derrapavam no tijuco preto, para a alegria da molecada que tinham um refrão, que era repetido sempre. Era assim: “galinha preta, galinha preta”ou “catiça-catiça-catiça” — isso repetido continuadamente era a fúria dos choferes e barqueiros que vinham em socorro dos caminhões encalhados. Hoje, ali é a famosa e fabulosa Av. Juscelino Kubistchek de Oliveira. 
 

 

Nesse pequeno apanhado, contei mentalmente mais de 40 meninos e meninas. Não sei por onde andam todos, fomos crescendo mudando de bairro, casando e nos distanciando um dos outros. Da minha parte posso afirmar que todos vocês estão em minha mente, no mesmo lugar de sempre, na rua brincando de tudo. Se notarem algum erro fica por conta dos meus 85 anos.

 

João Batista de Paula é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: o dia em que andei de ônibus com o criador da estátua de Borba Gato

 

Por Durval Pedroso da Silva Jr
Ouvinte da CBN

 

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A estátua de Borba Gato, em Santo Amaro, em foto do site da ALESP

 

 

Nasci no Bairro do Bexiga, próximo da Avenida Paulista, em janeiro de 1951. Morei nela por quase 40 anos, o que por si só daria para contar  muitas histórias. Resolvi, porém, relatar uma que reputo interessante.

 

Estava eu em companhia de meu pai, no inicio de fevereiro de 1963 — eu com apenas 12 anos — abordo de um ônibus da Viação Bola Branca, que saiu do Largo de Pinheiros com destino a Santo Amaro, onde morava a maioria de nossos parentes.

 

Quando entramos pela Avenida Santo Amaro, perto da Vila Nova Conceição, subiu ao ônibus, que estava bem lotado, um velho amigo do meu pai: o escultor Julio Guerra. Meu pai apresentou o seu amigo a mim, com toda a pompa e circunstância, explicando suas habilidades como pintor e escultor. Em contra partida, o Julio falou maravilhas das habilidades esportivas de meu pai, mas como estas eu já conhecia sobejamente, tratei de fazer o maior número de perguntas, ao primeiro pintor e escultor que conheci na minha vida — ao ponto de meu pai me dar um beliscão bem dado, para eu parar de metralhar seu amigo com perguntas.

 

Quando estávamos passando no Alto da Boa Vista, demos de cara com a enorme estátua do Bandeirante Borba Gato, que tinha sido inaugurada há alguns dias. Eu maravilhado com aquela grandeza toda, ouvi bem baixinho no meu ouvido: — “esta é uma das minhas obras”, disse Julio. Mas a esta altura já tínhamos ouvido muitos comentários dos passageiros. Uns, inclusive, não muito elogiosos com relação à obra. Antes que eu abrisse a boca para falar em alto e bom som que estávamos com o autor daquele monumento dentro do nosso ônibus, meu pai que conhecia a tagarelice do filho, tampou levemente a minha boca. Mas o grande momento veio a seguir. O Julio vira-se para mim, num tom bem baixo, e diz: — “esta é a razão maior de uma obra de arte, provocar sensações e comentários”.

 

Mais um ensinamento que aprendi nesta nossa maravilhosa cidade.

 

Durval Pedroso da Silva Jr. é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade: escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: o fotógrafo que prefere falar da cidade através de suas imagens

 

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Os ângulos de São Paulo ficam ainda mais interessantes quando captados pelas lentes do fotógrafo e editor Luiz Cersosimo. Talvez porque ele seja paulistano — e o interesse em revelar a cidade em que nasceu torna seu trabalho ainda mais apaixonante –, mas, certamente, boa parte do resultado das imagens que registra tem a ver com seu olhar que é especial e sensível para as coisas o mundo (e das cidades).

 

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Às vésperas do aniversário de 465 anos da cidade, recebi dois dos livros publicados pelo fotógrafo, São Paulo:Centro e Urbanidade, que me permitiram entender melhor tudo que ele me falou um dia quando nos encontramos, por acaso, em um café de shopping da cidade. Ele referiu-se ao Conte Sua História de São Paulo — já que admirava o programa que tradicionalmente vai ao ar aos sábados e, nesta semana, está em edição especial no Jornal da CBN.

 

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Confesso que esperei receber um texto assinado por ele. Peço perdão por minha expectativa errada. Cersosimo conta a história de São Paulo em imagens, algumas das quais compartilhadas neste post.

 

Lá no site da Editora do Olhar, lançada pelo fotógrafo com a intenção de criar, produzir e distribuir conteúdo visual por meio de publicações impressas e digitais, encontre o texto abaixo, um flash do que ele pensa sobre seu trabalho fotográfico:

 

O olho abraça a beleza do mundo inteiro
O olhar desvela o que observa e constrói mundos e narrativas
A fotografia não é tão somente o espelhamento do real, mas a extensão poética do que nossos olhos enxergam
O que vemos na imagem são as causas e os efeitos dela própria em nosso olhar
O olhar é o mais espiritual de todos os sentidos
Ver é olhar para tomar conhecimento
A única coisa que existe é o que sentimos.

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: muito frio, pouca roupa e uma tremenda vontade de ser alguém na vida

 


Por Edileide Koller
Ouvinte da CBN

 

 

Tenho um orgulho danado de ser umbuzeirense. Nasci em uma casa bem grande, onde da metade para trás pertencia a Pernambuco e da metade para frente, a Paraíba. De Umbuzeiro, minha família e eu, com 4 anos, fomos morar em Orobó, cidade mais próxima e totalmente pernambucana, para que meus irmãos mais velhos pudessem estudar no ginásio. Quando eu tinha 9 anos, fomos morar em Recife — novamente por conta dos estudos dos meus irmãos que deveriam fazer faculdade para “ser alguém na vida”.

 

A partir daí, segue essa história que sempre me faz derramar um líquido salgado pelo rosto. Um típico exemplo de desigualdade no Brasil, pelo tanto de força e determinação que eu tinha para “vencer na vida”. Na época não entendia bem isso. Como é bom às vezes não entender bem o que se passa a nossa volta. Eu só tinha a certeza de que tudo dependia de mim, que se eu me esforçasse bastante, muito mesmo, eu conseguiria. Infelizmente, não é bem assim. Precisamos de oportunidade também. Faltou! Chorei agora. Literalmente chorei muito.

 

Pois bem, foi no Recife que comecei faculdade de Economia na UNICAP – Universidade Católica de Pernambuco e, no 3º ano, decidi morar em São Paulo a convite do meu querido irmão Walmir, que lá morava. Cheguei em 1987, com 22 anos.

 

São Paulo do frio, da garoa, do consolo. Cidade grande, linda, cheia de cinemas, teatros e parques. Cada dia mais a cidade me encantava e me seduzia. São Paulo sempre foi palco de grandes movimentos, sede de multinacionais e renomadas universidades. Me empolguei.

 

Sabe aquela guerreira nordestina, que sabia o que queria? Vencer na vida! Consegui uma transferência da faculdade para a PUC, de manhã. Não tinha como pagar. Consegui uma transferência para a FMU, à noite.

 

Comecei a trabalhar na primeira chance de emprego. Recepção.

 

Mas estava em São Paulo. Quantos queriam estar…

 

Um dia, em plena Avenida Paulista, voltando da faculdade para casa, o termômetro marcava 10 graus. Muito frio, pouca roupa. Muita fome, pouco dinheiro. E eu me perguntei se não era melhor estar no calor da casinha da minha mãe, tomando sopa de feijão e com a barriga cheia, lá no Recife. Realmente um dilema, porque só vivendo isso para saber.

 

Mas estava em São Paulo. Quantos queriam…

 

Somente em São Paulo, percebi o quanto era limitada, o quanto não sabia das coisas, o quanto tinha que correr contra o tempo para conquistar meus objetivos. O quanto tinha que ler, estudar, acordar cedo, dormir tarde e me privar de fazer lanches no meio da manhã e no meio da tarde. Mas as oportunidades eram maiores. Mesmo relativizando porque os salários em São Paulo são maiores, mas o custo de vida também. Tem mais empregos, mas a demanda por emprego é maior.

 

E eis que, no meio disso tudo conheci Celso. 1989.

 

Ufa!!! Um namorado. Pelas nossas diferenças, não sei como ficamos juntos. Devo ter conquistado aquele coração alemão pelo tanto de amor que tinha para dar e faltava a quem. E enchi o homem de amor. Até hoje, quase 30 anos.

 

E em São Paulo posso dizer que vivi os melhores momentos da minha vida. Me formei, trabalhei, casei, construí uma família linda, ganhei minhas duas meninas, Beatriz e Letícia. Conquistei coisas importantes da vida.

 

Pois bem, essa é a resumidíssima história sobre minha chegada a São Paulo. O tempo muda nossas perspectivas, nossos pensamentos e hoje não somos o que éramos há um ano, quanto mais há 30 anos. Mas mantive um pensamento que tenho desde pequena, desde sempre. O conhecimento é a principal riqueza. Através dele você faz conquistas e as mantêm. Durante todo esse percurso que acabei de contar, tentei aprender o máximo que pude, dentro das minhas possibilidades. E aprendi que nunca é tarde para isso. Eu não paro.

 

Ah, São Paulo! Quantos queriam…

 

Edileide Koeller é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial de aniversário: envie seu texto agora par contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo 465 anos: a catarina que adora ser paulistana

 

Por Brigitte Ramos
Ouvinte da CBN

 

 

Taió, Santa Catarina, 29 de janeiro de 1957. Nasce a filha do padeiro da cidade, e recebe o nome de Brigitte, mesmo nome da filha do pastor recém-chegado da Alemanha. Naquela época muitos pais escolhiam esse nome devido à Brigitte Bardot. Essa pequena, típica alemãzinha, sempre de tranças, contra a vontade, lógico, desde que se conhece por gente adorava cidade grande, praças, igrejas, muitas ruas iluminadas e andar em ruas de paralelepípedo. A maior cidade que tinha acesso até os sete anos era Rio do Sul.

 

Alguns anos depois, mudamos para Blumenau, e de lá um dia na minha adolescência tive a oportunidade de vir para São Paulo, com minha mãe, de ônibus, para o casamento de um tio. Foi apaixonante conhecer a cidade. Disseram que era terra da garoa e era, não tivemos nenhum dia de sol. Me levaram ao Museu do Ipiranga. O casamento foi numa igreja na Avenida Rio Branco, no centro da cidade, e a festa num grande buffet.

 

Até a sinalização das obras com luzes dentro de baldes vermelhos e a iluminação dos carros parados no trânsito eram belas. Pequenos detalhes me deixavam muito felizes, como andar de elevador e admirar a Avenida Paulista do oitavo andar de um prédio, próximo ao MASP. Lá morava uma tia e de lá eu podia ver pessoas trabalhando nos outros prédios e ficava imaginando, como seria bom trabalhar num lugar destes. Nessa viagem plantei uma semente de esperança para realizar meu sonho.

 

Quando tinha entre 18 e 19 anos, o sonho se realizou. No inicio morei com meus tios, aqueles para cujo casamento eu vim na adolescência. Era no Itaim. Mas eu  queria independência e fui morar numa casa em que se alugavam quartos, na Rua Conselheiro Ramalho. A dona da pensão sempre pedia para o filho me acompanhar de manhã quando saía para o trabalho e à noite quando eu voltava da escola de ônibus. Eram só três quarteirões da Brigadeiro Luis Antonio. Só mais tarde fiquei sabendo o quanto não era seguro morar ali, próximo a uma tal de Madame Satã.

 

Por pressão de meus parentes fui morar num apartamento com outras moças do interior de São Paulo e uma de Minas, um pouco mais próximo da Avenida Paulista, saindo assim da zona de perigo. Foi em uma discoteca na Faria Lima, a Papagaios, que conheci meu marido. Era a balada da época com luz negra e um decoração bem diferente dos bailinhos da minha cidade.

 

Conheci a cidade andando de ônibus e, às vezes, até de trem, atrás de um emprego, escolhido em algum anúncio de jornal ou por indicação de uma agência da Rua Barão de Itapetininga, próximo ao Mappin —- que era a loja de departamentos onde todo paulista fazia compras. Trabalhei em algumas empresas alemãs. Atualmente trabalho numa em São Bernardo do Campo.

 

Uma sensação gostosa é pousar em Congonhas, ver a cidade lá de cima  e saber que tem um cantinho lá em baixo que é meu. Outro prazer é fazer ginástica e caminhadas no Parque do Povo — sinto-me no Central Park de Nova York. No entorno do sossego do parque, aviões no céu de minuto em minuto, luzes na Marginal, bicicletas nas ciclovias, pessoas caminhando, trens passando ao lado do Rio Pinheiros e os arranha-céus antigos e novos, cercando o parque, iluminados. De vez em quando você pode até acompanhar o pouso de um helicóptero no topo de um deles.

 

Apesar de ser uma grande cidade estamos muito próximos uns dos outros graças aos avanços da tecnologia e da comunicação. Lá nos meus sonhos de criança e adolescência, nunca pensei que um dia estaria ao volante de um carro indo trabalhar e ouvindo uma amiga de colégio da minha filha narrando o trânsito da cidade de São Paulo do alto de um helicóptero.

 

Brigitte Ramos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.