Conte Sua História de São Paulo: a fuga de tico-tico pelas ruas da Vila Ema

Marcelo Ferro Cerqueira
Ouvinte da CBN

Foto de Esther Salguero on Pexels.com

Tico, tico, tico.

Meu triciclo segue pela rua Santa Elisa, no bairro de Vila Ema, zona leste. A rua me parece enorme; as pessoas, também. O portão da casa dos meus avós estava aberto, e por ali eu passei.

Meu bisavô Eugênio comprou aquele terreno com o suor do seu rosto e levantou aquelas paredes ao custo de alguns dedos perdidos no maquinário das antigas Indústrias Nadir Figueiredo, no bairro do Cambuci.

Sssssss… o vento bate no meu rosto. Sigo em direção à avenida que dá nome ao bairro. Tico, tico, tico. A mesma avenida pela qual meu avô José caminha todos os dias para trabalhar em outra indústria, uma metalúrgica. Uma polida aqui (tico, tico, tico). Outra polida acolá (tico, tico, tico lá). E as torneiras ficavam tão reluzentes quanto o sorriso do meu avô, uma das pessoas mais doces que já conheci.

Sigo no meu passeio de menino levado. Não tinha dois anos ainda, mas aparentemente queria ampliar meus horizontes. Ti-co, ti-co, ti-co. Diminuo a velocidade.

Tiiiico. Paro por um instante.

Do outro lado da avenida, havia uns homens de chapéu. Era início dos anos 1970, e aquelas pessoas me lembravam o vô José. Pareciam felizes. Talvez me ensinassem a fazer um novo aviãozinho de papel. Parecia promissor.

Ti… ti… ti… hesito. Carros de um lado e de outro da avenida.
Meu bisavô não está aqui. Nem meu avô. Nem meus pais. Talvez fosse melhor voltar. Mas, para isso, eu teria de enfrentar uma subida.

Não sinto vontade de chorar. Mas sei que, quando eu for encontrado, levarei umas palmadas. Vejo um trator na avenida e uma fila de carros atrás dele. O trânsito é interrompido nos dois sentidos. Reflexões de criança pequena…

Tico, tico, tico, tico. Ti, ti, ti… Co, co, co… Tiiicooo. Desço do triciclo e subo no meio-fio, do outro lado da rua. Completo a travessia. Logo vou falar com o homem que lembra meu avô. Ele me oferece uma bala Juquinha, e todos ali se perguntam onde estariam os pais daquele menino.

Minha permanência não é longa. Mas minutos são uma eternidade para uma criança. De repente, a vó Maria aparece, desmilinguida. Estou salvo, pensa ela. Estou encrencado, concluo eu.

Sou levado de volta entre as lágrimas da minha avó, o júbilo das pessoas que me acolheram e os meus pensamentos, que tentavam processar o que havia se passado. Tudo me parecia estranho. Eu provavelmente não esperava ter causado tanta comoção.

Essa é uma aventura que se passou com uma criança que aprendia a viver, sem se dar conta do esforço de seus pais, avós e bisavós para manter a família — o que se confunde com a história de tantos outros paulistanos.

Hoje, substituo o tico, tico, tico pelo vrum.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Marcelo F. Cerqueira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Conte você também a sua história: envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Deixe um comentário