Conte a sua história de São Paulo

 

 

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Escrevi sobre escrever cartas, recentemente. O texto está logo aí embaixo no Blog e me rendeu boa conversa com os ouvintes no Jornal. E o foco era escrever cartas à mão, tema que também inspirou reportagem em O Estadão nesse primeiro do ano na qual soube que há pessoas caprichando na letra para fazer arte em diversos espaços. Volto ao assunto para convidar você a escrever, não necessariamente uma carta, mas uma história.

  

 

O mês de Janeiro é marcado pelo aniversário da cidade de São Paulo e, desde 2006, tenho tido oportunidade de comemorar a data lendo histórias contadas pelos ouvintes da CBN. Foi quando criamos o quadro Conte Sua História de São Paulo, que nasceu diário, virou livro e se transformou em semanal. Hoje, vai ao ar aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no programa CBN SP.

  

 

As experiências vivenciadas na capital paulista são as mais variadas, começam na maternidade, vão parar dentro da casa dos seus autores, seguem passeando pela infância e adolescência, se encaminham para a vida adulta, o trabalho, os amores, os temores … Tem histórias reais e ficcionais. Que chegam não por carta mas por e-mail e são armazenadas de forma carinhosa a espera de um espaço para serem compartilhadas com os ouvintes.

  

 

Quando vão ao ar, são resultado da emoção de quem protagonizou as cenas descritas, da interpretação de quem tenta se projetar naquele momento – e este é o meu maior desafio – e da sonorização que está sob responsabilidade do colega Cláudio Antonio. Ele é mágico ao dar vida sonora ao texto escrito. E você pode testemunhar o que digo visitando os arquivos que estão disponíveis aqui no Blog.

  

 

Como ocorre tradicionalmente – algo que se iniciou há 12 anos e se mantém no ar pode ser considerado tradição, certo? -, em Janeiro o programa ganha versão especial. Neste ano, a partir do dia 15, segunda-feira, até a data do aniversário, 25, vamos levar ao ar o “Conte Sua História de São Paulo – 464 anos”, todos os dias, dentro do Jornal da CBN. E para isso, convido você, caro e raro leitor, a escrever a sua história vivida em São Paulo.

  

 

Os textos devem ser enviados ao e-mail milton@cbn.com.br. E a medida que forem selecionados, o autor será avisado antecipadamente para curtir sua história no ar, na CBN. Aquelas histórias que não forem ao ar, nesta edição especial, podem ser escolhidas para ilustrar o quadro ao longo do ano. Portanto, aproveite o momento, exercite a memória, lembre-se de situações emocionantes, interessantes, cotidianas, divertidas … e coloque no papel. Perdão, é a força do hábito.
 

 

 
Vamos juntos contar a história de São Paulo!

Conte Sua História de São Paulo: o orgulho de entregar cartas com o quepe e o uniforme dos Correios

 

Por Paulo Queiroz Neto
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Nasci em uma vila na Avenida Celso Garcia, bem próximo da esquina com a Avenida Antônio de Barros, na zona Leste. Era uma noite de setembro de 1942. O mundo estava em plena guerra e São Paulo estava no escuro. Era um blecaute de guerra, daqueles muitos simulados que ocorriam. Talvez por isso, sempre gostei e valorizei as luzes das noites de São Paulo.

 

Em pleno racionamento de petróleo, os veículos circulavam com gasogênio da queima de carvão, mas a economia retomava o crescimento, uma daquelas idas e vindas econômicas brasileira. Eu também crescia e com 15 anos, comecei a trabalhar entregando mensagens como funcionário dos Correios, saía do centro , dentro do garboso uniforme e com o respeitável quepe com o símbolo da República, do Ministério da Viação e Obras Públicas. Me sentia tão grande quanto São Paulo.

 

Usava os bondes para percorrer os diversos bairros da nossa cidade, que aos poucos conhecia como o quintal da minha vila. Mas era o Penha-Lapa da CMTC (208) o meu caminho da Roça e o Anhangabaú, meu destino principal. Meu coração sempre pulsa mais forte quando chego naquele lugar

 

Foi no Estadual da Penha (E.E. Nossa Senhora da Penha) que conheci minha cara metade; alunos regular daquele amado colégio, logo constituímos família e nos casamos na Igreja da Penha, em 1962.

 

Para suportar as novas necessidades, consegui um segundo trabalho, na administração e cobrança do nosso glorioso Sport Club Corinthians Paulista. Foi um tempo maravilhoso, meus sonhos cresciam verticalmente, como crescia a nossa São Paulo.

 

Nasceram meus dois filhos, e terminavam os anos de 1960. Começava a galgar cargos dentro dos Correios.  Naquela época, dizíamos entre os colegas que tínhamos contraído “ECTITE”, uma paixão pelo trabalho nos Correios. Até hoje não sarei.

 

São Paulo se transformava. Já nos anos 1970, nascia o Elevado Costa e Silva, o Minhocão e vimos uma década de transformações na paisagem, culminando, para nós, com a mudança da sede de nossos Correios do charmoso Palácio dos Correios, no Anhangabaú, para o avançado e tecnológico prédio na Vila Leopoldina.

 

Hoje, aposentado, perdi uma vista por causa de um câncer de pele, não tinha o costume de usar protetor solar nas andanças pela cidade; mas com um olho bom, ainda sinto alegria em olhar pela varanda do meu apartamento as luzes da amada São Paulo, com uma janela voltada para a querida zona Leste.

 

Paulo Queiroz Filho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: a boneca de Natal que mamãe nos deu de presente

 


Por Edithe Martha Peukert
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Em 1927, minha mãe Melida, com 14 anos, veio com a família dela da cidade de Lodz, na Polônia, a bordo do navio Belle Isle. Desceram em Santos e vieram para capital. Meu avô tinha a carta do filho mais velho, Edmundo, que havia chegado há algum tempo. O endereço na carta era do jornal Alemão, na Liberto Badaró. Como era domingo, chegaram lá e encontraram tudo fechado. Meu avô e minha avó conversavam em alemão sem saber o que fazer quando um homem, que também falava alemão, parou, perguntou o que acontecia e disse que os ajudaria : levaria todos para uma casa, no bairro do Cambuci, e depois sairia para descobrir onde encontrar Edmundo, o filho do meu avô que trabalhava em um restaurante da cidade.

 

Incrível, mas após alguma andança pela cidade, encontraram Edmundo. Lógico que todos ficaram muito felizes. Meu tio arrumou um emprego de babá para a minha mãe, na avenida Paulista, e para minha tia, na Alameda Casa Branca, de onde só podiam sair duas vezes por semana.

 

Meu avô, minha avó e meu outro tio, Paulo, foram para Cananéia tentar a vida. Acabaram todos voltando para a capital, onde meu avô comprou um terreno na Vicente Leporace, antiga rua Santa Rita, no Campo Belo. O quartinho de tijolo assentado em barro que construíram, conta minha mãe, tinham paredes que balançavam com o vento. Meus avós rezavam e seguravam as paredes para não caírem. Naquela época o bairro pertencia a Santo Amaro que era um município independente e depois foi anexado a Capital que praticamente terminava na Vila Mariana. E o terreno do meu avó, pela distância, era considerado fim do mundo.

 

Minha mãe se casou, em 1939 com meu pai Alfred Uebele.

 

Meu pai era lustrador de móveis finos e trabalhou na Fábrica de Móveis Foltas, na Oscar Freire, que depois mudou para o bairro do Morumbi. Ao se aposentar continuou trabalhando para um vizinho que também tinha uma pequena fábrica de móveis.

 

Minha mãe trabalhou como costureira na Rua Prates, próximo a Praça da Luz, até a gravidez da minha irmã. Quando éramos pequenos trabalhou em casa como costureira, costurando 36 camisas sociais para homens, por dia, em uma máquina Singer que ela comprou em prestações quando tinha 18 anos. Depois trabalhou com grampos de cabelo, costurando blusas de lã, sempre ajudando meu pai que lhe entregava todo o dinheiro, pois ele sempre dizia que ela sabia como administrá-lo bem.

 

Hoje tenho ótimas lembranças da vida que passamos juntos.

 

Os Natais foram inesquecíveis, sempre com árvores em cipreste natural, mais ou menos dois metros e meio de altura, cheia de bolinhas de cristal coloridas, que na época eram importadas da Alemanha. Tinham velinhas acesas. Tudo muito lindo e festivo. Não havia presentes caros e todos eram recebidos com muita alegria.

 

Houve uma época que eu e minha irmã pedimos uma “noiva”, um tipo de boneca, mas eles não tinham como comprar. Então, minha mãe, pegou as nossa bonecas de pano com cabeça de bebê de “biscuit” e as escondeu. Quando perguntávamos onde estavam nossas bonecas, ela respondia que a culpa era nossa, pois não sabíamos guardar nossos brinquedos: “não sabem onde colocam suas bonecas, depois ficam aí procurando, perdidas!”.

 

Naquele Natal, para nossa surpresa, veio o Papai Noel e ganhamos as nossas bonecas noivas. Minha mãe que era uma ótima costureira fez vestidos lindos para as nossas bonecas, aquelas com cabeça de bebê que ela havia escondido.

 

Ainda éramos crianças, quando meu tio Paulo deu de presente uma só bicicleta para mim e para minha irmã. Não tinha dinheiro para duas bicicletas. Aí decidimos: uma anda de manhã, a outra de tarde. Até minha mãe pedalou naquela bicicleta.

 

Meus pais sempre gostaram de viver no Brasil e em especial em São Paulo, sempre disseram que esta terra é abençoada. Se fizéssemos alguma crítica, eles lembravam a dificuldade que passaram durante e depois da 1ª guerra na Europa. Nunca falaram em voltar para a Polônia.

 


Edithe Martha Peukert é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Conte mais uma capítulo da nossa cidade, escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: a “Cinderela” da Vila Madalena

 

Por Samuel de Leonardo

 

 

Um dos primeiros empregos da minha vida foi numa loja de calçados na Rua Teodoro Sampaio dentro da Galeria Cidade de Pinheiros. Era apenas um menino, adolescente ainda. Além de eventualmente bancar o vendedor, fazia de tudo um pouco, serviços de banco, cobranças, entregas. Lembro-me de ter atendido um casal de cliente o qual deduzira ser namorado ou noivo, tal era a forma de carinhos trocados durante todo o tempo que permaneceram na loja:

 

“Querido daqui, benzinho e amor dali”.

 

Uma melação que só vendo. O apaixonado presenteou a moça com três pares de calçados, cada um mais caro que o outro. Como de praxe, solicitei os dados para cadastro de cliente que prontamente foi preenchido. O homem pagou a despesa à vista, sem pechinchar. Venda normal e corriqueira, sem maiores detalhes, não fosse o fato de que no dia seguinte a bela mulher voltou sozinha para devolver um dos pares para a troca, pois apresentava um pequeno defeito.

 

Como não tinha nem a numeração nem o modelo em estoque combinamos que ela retornasse em dois dias que a troca seria efetuada. Passaram-se semanas e não apareceu ninguém para retirar o calçado. Como manda o bom senso, busquei os dados na ficha cadastral do cliente para comunicar a substituição. Na ficha constava somente o nome e o endereço, não tinha o número do telefone. No mesmo dia segui em direção ao local mencionado para entregar a encomenda, lá pelos lados da Vila Madalena.

 

Com os calçados em mãos, sentia-me como o príncipe consorte em busca da Cinderela. Após longa caminhada encontrei a rua e o número da residência, um local agradável, casa padrão classe média, muros com pintura nova, portões automáticos.

 

Acionei o interfone:

 

– Bom dia, é aqui que mora o Senhor Paulo? Trouxe os sapatos que a mulher dele pediu para trocar.

 

Fui atendido por uma jovem senhora que abriu o portão, uma aparência meio que escangalhada que pensara ser a empregada, tava mais para Gata Borralheira do que para uma princesa.

 

– Ele é o seu patrão?

 

De forma ríspida ela responde:

 

-Patrão coisa nenhuma, sou a esposa dele.

 

Sem saber mais o que falar permaneci em silêncio por alguns instantes. Percebi o constrangimento que causara àquela mulher. Respirei fundo e tentando consertar a situação soltei:

 

– Acho que errei o endereço, peço-lhe desculpas.

 

Antes que pudesse desvencilhar-me daquela situação, ela bruscamente tomou o pacote das minhas mãos:

 

– Deixe-me ver esses calçados – abriu o embrulho, arrancou suas sandálias e tentou calçá-los, mas não lhes serviram, ficaram pequenos.

 

Ironicamente ela me diz:

 

– Olhe aqui garoto, vou ficar com eles para mostrar ao meu marido.

 

Sem ao menos pedir licença e sem cerimônias, ela fecha o portão na minha cara. Poucos dias depois ela apareceu na loja muito bem vestida e com os sapatos na sacola. Sem muita conversa pediu para trocá-los por uma numeração maior. Experimentou-os, pegou o pacote e foi embora sem nada dizer. Ainda hoje pergunto a mim mesmo, teria sido um conto de fadas ou do vigário. Seria mesmo ela a esposa do cliente ou a empregada aplicando um golpe. Seria a esposa do cliente que foi a loja pela primeira vez ou …

 

Samuel de Leonardo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: os livros que comprei no Largo São Bento

 

Por Lilian Contreira
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Morava no bairro do Aeroporto, em Congonhas. Meu avô me levava, aos domingos, para ver os aviões decolarem. Era incrível! O saguão de Congonhas era inesquecível. Bons tempos em que uma criança ficava maravilhada apenas com o levantar e o pousar de um avião – nem percebíamos que naquela época o Brasil vivia sob uma ditadura. O que só fui entender tempos mais tarde quando trabalhei com o professor Paulo Freire já aos 20 e poucos anos.

 

Nós brincávamos na rua, sem violência, sem medo. As casas não tinham muros nem portões. Os vizinhos eram amigos. Faziam bolo e traziam um pedaço para nós. Minha avó fazia pão e levava um pedaço para eles. A minha rua não tinha saída, terminava em uma descida, na Avenida dos Bandeirantes. Os meninos faziam carrinhos de rolimã e, às vezes, um trenzinho de rolimã, era o auge da alegria…

 

Meu avô era barbeiro, de Sevilha. José Maria, de quem herdei o nome Contreira, era imigrante espanhol e chegou com o único bem que possuía: as próprias botas. Tinha uma barbearia no Largo São Bento. Minha avó, de Granada, pessoa mais doce não havia nesse mundo. Tiveram seis filhos, doze netos, muitos bisnetos… da minha avó herdei o gosto pela Espanha: a cultura, a língua – hoje sou professora de espanhol – e pela cozinha. 

 

Lembro-me que o cúmulo da felicidade para mim era quando a escola pedia um livro e o meu avó – cresci com meus avós paternos – me levava para comprá-lo na Saraiva do Largo São Bento. Era para mim – que sempre gostei de ler – o máximo de alegria que alguém poderia ter. Além de comprar os livros pedidos pela escola, ele me permitia escolher um outro por puro gosto. Eu ficava exultante, como em Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector, andava aos saltos pelas ruas do Centro. E antes de voltar para casa, ainda saboreava um café com pastel no Café Girondino na companhia do meu avô.

 

 
Lilian Contreira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: a minha casa da vovó, no Tatuapé

 

Por Vitor Monteiro

 

 

Vivi praticamente todos meus 31 anos no calmo bairro do Tatuapé. Boa parte da minha memória afetiva da infância está na casa da minha avó Ruth em uma rua estreita, a rua E do conjunto de cinco pequenas ruelas conhecidas como Conjunto Acrópole, que unem as ruas Emílio Marengo e Itapeti. Ruas estritamente residenciais, de pouquíssimo movimento, moradores de longa data, em suas casas com portões baixos, vizinhos conversando no meio fio, crianças correndo nas ruas, chutando bola ou brincando de esconde-esconde.

 

O futebol na rua era minha brincadeira predileta. Eu sempre fui goleiro e constantemente voltava ralado para os braços da minha avó, que corria para me ajudar a limpar os machucados dos joelhos e cotovelos no tanque nos fundos da casa. Aquele asfalto quente nos pés descalços, a bola batendo nos portões gerava certa animosidade na vizinhança calma, mas éramos crianças e a maioria relevava. Menos a Dona Ana do 86. Essa botava medo na gente depois de ter furado duas bolas nossas que acidentalmente caíram em seu quintal. Acho que ela não gostava de crianças e tinha a impressão que sua casa era parecida com a da Bruxa do 71, personagem do Chaves.

 

O café era o meu momento predileto com minha avó. Todas as tardes a casa era perfumada com o aroma da bebida que ela fazia. A partir dos meus 10 anos, eu o preparava e sempre recebia o elogio de fazer o melhor café. Era o momento de ver televisão e filmes juntos, conversar, comer um bolo, um queijo ou o doce de batata doce que ela tanto amava. Ali fui feliz, era compreendido, mesmo quando o silêncio imperava. O ambiente era de lar, repleto de carinho e amor. E continua sendo. A casa, no bairro que cresci, na rua que vivi, que aprendi a respeitar e entender. A cidade que amo, que vivo mesmo que seja dentro da cozinha da casa da vovó.

 

Infelizmente Dona Ruth faleceu e a casa passou por alterações, mas sua alma está lá. A rua também mudou, os portões estão todos altos, não há mais festa. Verdade que sinto que os vizinhos querem reviver aqueles momentos. E sinto que um dia vamos conseguir que a rua deixe de ser uma via de cortar o farol vermelho e volte a ser habitada pelas crianças, pelas festas, pela confraternização. A minha avó não está mais fisicamente lá, mas nossa raiz ainda está naquela casa aprazível na qual vivo hoje com minha amada esposa e querido filho. Que ele possa um dia invadir a rua, retomá-la, vivê-la como eu vivi.

 

Vitor Monteiro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: o telefone do “bar” que me garantia as noitadas livres

 

Por Miguel Chammas
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Anos de 1960, a boemia fazia parte da minha existência. Eu tinha fôlego de sobra e sono de menos. A música de uma forma geral corria por todas as minhas veias. Era na realidade um pé-de-valsa, dançava se preciso fosse de segunda a domingo.
A rotina era marcante. De segunda à segunda, eu freqüentava os night-clubs da “boca do lixo” , desde a Avenida Duque de Caxias até as imediações da Avenida Ipiranga e da Rua da Consolação. Ali, todas as noites, encontrava com meus camaradas para os altos papos que precediam as noitadas dançantes.

 

Na Rua Marques de Itu, entre as Rego Freitas e Bento Freitas, dois inferninhos tradicionais: de um lado o Quitandinha Night Club e do outro lado o Havana Night Club. Era na porta do segundo que nos reuníamos: eu, o Nino (baterista e boêmio), o João (porteiro da casa), e ainda, o Sr Jair Rodrigues.

 

Naquela época, Jair Rodriguez lançava o primeiro 45 RPM, tendo do lado A o samba “Deixa que digam…” e do lado B o “Feio não é bonito”. Esse disco havia sido gravado sob os auspícios de uma famosa dupla formada por Venâncio e Corumba que muito ajudou o Jair nas suas primeiras investidas musicais. Eu, na minha humilde condição de amigo da noitada, ajudei o Jair a “caitituar” seu disco em muitas boates da época.

 

Mas as lembranças chegando a borbotões me fizeram alterar o rumo da prosa, voltemos ao roteiro principal.

 

Aos sábados, o programa era diferente. Os Duques de Piu-Piu, depois de devidamente infatiotados e devidamente jantados, se dirigiam até a Praça das Bandeiras, canteiro central, onde embarcavam no ônibus especial que os levava até os salões do “Recreio das Carpas”, na Cidade Adhemar. Foi ali que conheci a Ana, uma morena linda e elegante, que trabalhava no Laboratório Lily (um dia ainda conto como nos conhecemos).

 

O relacionamento com essa moça foi muito forte e se eu não fosse o pilantra que era poderia ter atravessado muitos anos da nossa existência. Mas eu era partidário da liberdade e, então, não querendo perder a tal liberdade ou a “mina” deixava as coisas flutuando.

 

Eu nunca disse a ela onde morava para não ficar pegando no meu pé. Mas se quisesse falar comigo era só ligar para o 34-40-11 que eu disse ser do dono de um bar em frente a minha casa. Mentira. Era o meu próprio telefone. Quando o aparelho chamava, meu irmão atendia:

 

-Alô… 34-40-11, o Miguel? Um instante que eu vou mandar chamar.

 

Eu dava um tempo, atendia a ligação e batia os maiores papos. Ela realmente nunca desconfiou de nada. E eu mantive o romance sem precisar me prender por ninguém.

 

O amor mais uma vez provava que era cego, surdo e mudo!

 

Miguel Chammas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte voce também mais um capitulo da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: amigos há mais de sessenta anos

 


Por Ivani Dantas
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 


 

 

Nasci em 1951, no bairro de Santa Terezinha, no alto de Santana. Cresci ralando os joelhos e cotovelos nas corridas de pega-pega, de estátua, lenço atrás, pulando corda, em meio a outras brincadeiras de rua e de quintal.

 

Aos amigos de infância se juntaram os amigos do colégio, depois os namorados – hoje maridos. Até o colegial, alguns de nós estudávamos no CEDOM, escola estadual, de referência na época. Um privilégio, uma grande conquista. Tínhamos o melhor ambiente que se poderia desejar, e  para nós, Colégio era sinônimo de diversão.

 

A vida foi passando e a nossa TURMA, sempre unida, se divertia indo ao cinema, teatro, a shows dos maiores nomes da MPB – que frequentávamos sob o clima tenso da ditadura militar. Nós meninas, costumávamos andar abraçadas, cantando paródias de músicas religiosas, marchinhas e outras bobagens. Trocávamos cartas que, vistas anos depois, não tinham lá muito conteúdo, mas falavam da importância que tínhamos umas para as outras – e outros também. Falávamos de nossas fossas, das vivências, do quanto estávamos tristes, felizes, frustrados, inseguros, igualmente; tentando nos conhecer e também ao mundo que se abria à nossa frente. Enfim, aprendendo a crescer.

 

Namoros, paixões, alegrias e tristezas permearam os tempos. Casamentos, filhos, apertos, apelos… e chegamos aos dias de hoje, com um número bem grande de agregados e derivados.

 

Filhos crescidos, até netos crescidos e continuamos amigos, juntos, ainda que por circunstâncias sejam menos freqüentes  os encontros, mas quando ocorrem, têm sempre a intensidade dos velhos tempos. O sabor das festinhas, das viagens que fizemos juntos, das risadas, até hoje nos trazem muitas alegrias.

 

Amigos, compadres, padrinhos de casamento, nos bons e nos outros não tão bons momentos, temos a certeza de que somos um “case”, quase inacreditável de amizade, que começou há mais de sessenta anos e seguiu vida afora, paralelamente. Não temos dúvida de que a nossa TURMA já se tornou uma “instituição”, um mito, uma lenda feita de sílabas: Má, Rô, Su, Rê, Li, Zê, Sé, Lu, Sô, Gu, Cri, e eu, a “Ivan”, Vanzinha ou Vazóca, como cada um, do seu jeito, carinhosamente me chama.

 

Nossas histórias – hilárias – formam um belo exemplar de livro da vida. Se não no papel, com certeza em nossos corações.

 

Ivani Dantas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: a contadora de filme

 

Por Susana Menda
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Fui a São Paulo pela primeira vez em julho de 1954 para as comemorações
do 4o. Centenário. Na verdade, detestei e disse que nunca moraria nessa
cidade: “isto e um formigueiro de gente, comparado com a minha outrora
calma Porto Alegre”.

 

Paguei pela boca.

 

Aí há um hiato de muitos anos. Fiquei adulta, namorei um paranaense, até que um dia ele me disse: “vou embora para São Paulo, fui transferido”. Levei um baque, gostava muito dele , mas não sou de me afogar num copo d’agua, tratei de arrumar uma transferência no meu trabalho e tocar para Sampa.

 

Comprei um apartamento numa ruazinha pequena bem próxima a Av. Paulista e … cheguei eu. Telefonei para o trabalho do namorado e escutei a seguinte frase: “foi transferido para o Paraná”. Respirei fundo. Ele se foi, mas eu fico. Fiz todos os programas de um recém-chegado: Vila Madalena, Butantã, Teatro Municipal, Rua Augusta, Pinheiros, Masp, Mooca e o escambau.

 

Nesse ínterim minha irmã, o marido e a filha vêm para São Paulo. Por quê? Minha irmã, jornalista, veio para trabalhar na rádio CBN, dai minha ligação com a rádio .

 

Dia 21 de março de 1981, fui ao Cine Copan ver o “Touro Indomável”, com Robert de Niro. Lá me seguiu um nissei (o outro namorado também era) que me fez um pedido inusitado: “conte o filme para mim, acabo de chegar”. Anos depois, ele emendou: “eu estava no cinema a horas te vi chegar e te segui”.

 

Faz 35 anos que estamos contando filmes um para o outro e os responsáveis são o ex-namorado, aquele que foi para o Paraná, o Cine Copan, e, claro, São Paulo.

 

Susana Menda é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história, escreva seu texto para milton@cbn.com.br.