Conte Sua História de São Paulo: no sonho da Cinderela

 

Por Sirlene Auxiliadora Lemos

 

Somos mineiros. Viemos para São Paulo com papai, mamãe e nove irmãos. Era 1964. Assim que chegamos, fomos morar na Rua Rio Grande, na Vila Mariana. Passava na porta o ônibus Praça da Árvore com ponto final no Anhangabaú, defronte ao prédio central dos Correios. Eu dava aulas no bairro de Santa Terezinha, no Colégio Madre Mazzarello. Minha irmã trabalha no Hospital das Clínicas e no Hospital São Paulo.

 

Nós duas andávamos de ônibus, como a maioria da população. Todos os motoristas nos conheciam. Ao passar na porta de nossa casa, diminuíam a velocidade para que minha irmã pegasse o lanche que mamãe lhe entregava para comer quando ia do Hospital São Paulo para o das Clínicas.

 

Se dormíamos durante o percurso, com era o meu caso, o motorista ou o trocador nos acordavam:

 

– tá chegando o ponto!

 

Ouça o texto de Sirlene Lemos sonorizado por Claudio Antonio

 

Aprendemos a amar São Paulo pela facilidade para estudar, pelas oportunidades de emprego, pela fartura das feiras e mercado, pelo atendimento gratuito à saúde, pelo acesso generoso à diversão. Íamos de graça a eventos por mais de dois meses todos os dias sem repetir apresentação. Os restaurantes, aquela variedade. As sorveterias, meu Deus. A da Casa Whisky, na Marechal Deodoro, e tinha ainda a da Alaska!

 

E os cinemas? Afundávamos em tapetes e poltronas. Era uma experiência de Cinderela, a cada ida aos cinemas: Marrocos, Metro, Barão, Windsor, Astor, Ipiranga e Metrópole. Lembro-me de ter visto a Noviça Rebelde bem ali no Cine Olido (ou era o Ritz?). A rua Barão de Itapetininga, maior chique.

 

E as casas de chá, com música ao vivo. Um sonho de fim de tarde! Os concertos matinais do Municipal, o planetário e o Museu do Ipiranga. As compras no Mappin, na Sloper, na Mesbla e na Sears.

 

Gente, e as padarias? Existe pão mais gostoso do que o de São Paulo? E o pastel de feira?

 

Ainda escuto o roncar dos carros dos Fittipladi passando pela rua Rio Grande., antes do sucesso nas pistas.

 

Daquele tempo para cá, fomos nos integrando ainda mais à cidade com os casamentos na família, com o nascimento dos sobrinhos e, principalmente, com a nossa participação nas atividades da comunidade. Esta cidade nos fez saber que somos há mais tempo paulistanos do que mineiros.

 

Este texto faz parte do livro Conte Sua História de São Paulo, lançado pela Editora Globo, em 2004.

Meus 18 anos

 

Por Suely Schraner

 

Era um tempo em que o Cruzeiro transformava-se em Cruzeiro Novo (NCR$) e eu trabalhava no Hospital 9 de Julho, em São Paulo. No fim do dia, pegava o ônibus no túnel 9 de julho. Apeava na praça Dona Benta, para cursar o 2º ano Clássico, no Instituto de Educação Prof. Alberto Conte, em Santo Amaro.

 

 

O Brasil integrava o mundo via satélite (Embratel) e eu nem assistia ao Jornal Nacional. Levantava-me num dia e dormia só no outro. Em casa o pessoal assistia ao Beto Rockfeller. No Largo 13, o bonde ainda circulava. O metrô chegava em São Paulo. A indústria vivia novo “boom” e bombas explodiam no centro da cidade. Eu, medrosa que era, sempre em sobressaltos. Coração na goela.

 

 

O Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadiu teatro e acabou com Roda Viva, o espetáculo do Chico Buarque. Artistas foram espancados. Eu assistia ao O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. Macaca de auditório, ia aos programas da TV Excelsior e Record. A Tropicália, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, debochava de tudo.

 

 

O governo autorizou mais água no leite com preço mais caro: NCr$ 0,40. Leite que era deixado em vidros nas portas das casas.

 

No ano 1968, o Brasil recebeu grandes empréstimos. Eu, eu mais dura do que aquilo do tarado. Os líderes estudantis da UNE, comandavam passeatas. Vladimir Palmeira discursava no anfiteatro do Alberto Conte. Eu ouvia. Queria participar das passeatas, mas tinha que trabalhar. Sem tempo de ser comunista, nem isto nem aquilo. Alienada circunstancial. Num dia de comício, o Diretor chamou a polícia. Eram apenas 20 guardas, postos para correr a pedradas e pauladas. Os jovens, maioria e, muito, muito atrevidos. Mudar o mundo, nosso sonho mais azul. Era um curso noturno e quem se atrasava não podia entrar. Nossa classe ficava numa sala no fundo do terreno. Era a última turma antes de virar Ensino Médio. Quase sempre atrasada (tudo parado na av. 9 de Julho) pulava o muro para entrar. Visão que despertava aplausos de quem passava. Chegava ralada e com a meia calça furada. Pulava também para sair mais cedo e tomar caipirinha no Bekinho ou um cuba libre no Bar 13 dos Amigos ou um Hi-Fi no Amigo Fritz, na praça Floriano . Eu não regulava bem.

 

Decretado o Ato Institucional nº 5, temia-se qualquer aluno novo. Era comum aparecer agente do DOPS na classe, disfarçado de colega. Tudo era censurado e brincávamos falando: susseios ao invés de suspeito, vaganádegas ao invés de vagabunda. O presidente Costa e Silva cassou o mandato dos deputados, fechou o congresso, censurou a imprensa e as artes. Expediu portaria que determinava a proibição da Frente Ampla e a apreensão de livros, jornais e outras publicações. Eu já tinha lido Sexus, Plexus e Nexus, de Henry Miller e Quarup de Antonio Callado. Curtia os filósofos existencialistas e discutia a aldeia global de Marshall MacLuhan.

 

Capital estrangeiro investiu aqui US$ 541 milhões e o Banco Mundial emprestou US$ 1 bilhão para projetos de desenvolvimento e eu sem um puto de um tostão. Era um país que ia pra frente. No fim da aula, se eu tivesse algumas moedinhas, parava na pastelaria do Largo 13 e comia um pastel gosmento de carne (pouca carne moída misturada com muito arroz quirera).

 

Nesse mesmo ano, Martin Luther King foi assassinado. O candidato a presidente, senador Robert Kennedy também. A viúva do presidente John (irmão de Robert), Jacqueline casava-se com o armador grego Onassis.  Nós, no Brasil, no maior enrosco. Muitas prisões sem explicação. Manifestações de rua eram proibidas. Mais que três conversando já era conspiração. Diziam que a nova esquerda nasceu da pélvis ondulante de Elvis Presley. Minha contestação maior era tomar um rebite para ficar sem dormir e estudar mais.

 

Em outubro, 1.240 estudantes foram presos em Ibiúna (SP) ao realizarem, clandestinamente, o 30º Congresso da UNE. Neste mês eu completava 18 anos e já tinha assistido a filmes e peças proibidos, com minha carteirinha falsificada. Eu usava mini saia e tinha um cabelão. Maiô era de duas peças com a parte de cima com bojo. Pintava os olhos com rímel, como os da Cleópatra.

 

 

Em novembro, a Rainha Elizabeth, da Inglaterra, chegava ao Brasil. Eu era rainha do Esporte Clube Estrela do Jardim Malha. Tinha uma coroa de strass e uma faixa verde, bordada com purpurina. Na caçamba do caminhão, junto com os jogadores rumo a represa de Guarapiranga. Prestigiar o futebol deles. Definitivamente eu não regulava bem.

 

Em 1968 parecia que tudo ia explodir. Pensando bem acho que os Maias erraram o calendário. Em 1968 eu completei 18 anos e parecia que tinha 100. A sensação era de estar numa turbulência prestes a aterrissar com o trem de pouso avariado.

 

Suely Schrnaer é ouvinte-internauta da CBN e a mais assídua participante do quadro Conte Sua História de São Paulo

Conte Sua História de SP: Um café para o motorista de ônibus

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, Ana Maria de Magalhães Correa fala de suas brincadeiras de criança e lembra, com saudade, do cafezinho que a empregada da casa servia ao motorista do ônibus, que passava pela rua. Ana Maria nasceu em 1947, é filha de mineiros e foi criada no bairro de Pinheiros, na zona Oeste da capital.

 

 

Ouça aqui o depoimento de Ana Maria de Magalhães Correa, sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

 

Os depoimentos ao Conte Sua História de São Paulo foram gravados pelo Museu da Pessoa e editados pela Juliana Paiva. Para contar a sua história, escreva para o meu e-mail milton@cbn.com.br ou agende uma entrevista, em aúdio e vídeo, no site do Museu da Pessoa.

Conte Sua História de São Paulo: mobilidade na ponta da bengala

 

 

Por Suely A. Schraner
Ouvinte-internauta da CBN
(escrito em 2012)

 

 

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Ouça o texto de Suely Schraner que foi ao ar no Conte Sua História de São Paulo, sonorizado por Cláudio Antonio

 

 

Era um dia nublado quando chegamos para a primeira reunião na Fundação Dorina Nowill para Cegos. O sonho da mobilidade e maior autonomia, na ponta da bengala.

 

 

Bengala branca. Esta bengala é um recurso fundamental para garantir a mobilidade do deficiente visual. Mantém a postura ereta. É como uma extensão do braço. Adepta da geometria. Com sua ponta ela toca linhas retas, linhas curvas e suas subdivisões. E toca também o lixo, pernas distraídas, entulho na calçada. Encaixa copos descartáveis jogados no chão. ..

 

 

A bengala, muitas vezes, é rejeitada e dá medo. Remete ao preconceito. Sinônimo de velhice. Haja vista o logotipo no bilhete do idoso, aquele, simbolizado pelo bonequinho curvado, segurando uma bengala e simulando dor nos quadris. Ai, ai…

 

 

Sensibilizar os espaços. Desafiar inseguranças, vencer o medo. Compartilhar vias públicas e multiplicar respeito, um desafio permanente.

 

 

Na sala de reuniões, um grupo ávido por mais autonomia para finalmente poder circular por aí.

 

 

Um disse que a mobilidade está dentro da gente. Outro sonha ter três bengalas: uma para direcionar, outra para apoiar, e uma terceira para buzinar. Ideal de outro com as vistas avariadas: nunca fazer sinal para o caminhão do lixo parar pensando que era o ônibus.

 

 

Aprendi que, na Atividade Vida Diária (AVD), a terapeuta ocupacional, dá condições ao deficiente visual para fazer o quer, com mais segurança. Por exemplo, fritar um ovo sem se queimar.

 

 

Na Fisioterapia, o objetivo é fortalecer os músculos e desenvolver um bom padrão de marcha, ou seja, pisar primeiro o calcanhar e em seguida a planta do pé. Além disso, trabalhar a lateralidade: esquerda e direita.

 

 

No Programa de Orientação e Mobilidade, a importância da auto-segurança. Enfim, todas as áreas estão interligadas.

 

 

Neste compartilhar, um olhar mais apurado pela região da Vila Clementino. Uma legião aflui para aquele quadrilátero hospitalar: ruas Borges Lagoa, Pedro de Toledo, Marselhesa, Napoleão de Barros, Botucatu e Diogo de Faria.

 

 

Brigando com postes, saídas de garagem, reformas e calçadas esburacadas. Superando preconceitos. Construindo dias melhores.

 

 

Na condição de Guia Vidente. Aprendo a verbalizar a lateralidade: ao invés de dizer de dizer “tem um lugar aqui”, falar: “tem um lugar à sua frente, à direita”. Que a pessoa com deficiência visual, deve segurar na altura do cotovelo do guia vidente, no pulso ou ombro, dependendo da diferença de altura entre ambos. Facilitar a acessibilidade.

 

 

Eu e ela atravessamos as mesmas ruas, percorremos estes caminhos. A geografia do cego é um mundo visto pelos ouvidos, vozes, cheiros e toques.

 

 

Não é um cajado de Moisés ou um cetro de Reis. É a sua bengala branca que a conduz. Segue compartilhando a via pública, os pisos táteis. Tateando vida afora, multiplicando respeito. Driblando preconceito e a falta de respeito de alguns. Ser incluída é poder circular pelo mundo com desenvoltura.

 

 

Outro dia, pedi a uma jovem no ônibus para dar o lugar para ela. A moça recusou dizendo que o banco para cegos era o outro, mais atrás. No fim, uma senhora que estava lá, levantou-se espontaneamente e cedeu o lugar. Percebi depois, que além de idosa ela estava indo para uma quimioterapia, no Hospital São Paulo.

 

 

Dias destes, ouvi de uma deficiente visual:  “tenho a preferencial, mas, se não me cuidar, me derrubam no chão”. Há néscios dos direitos e da solidariedade .Há também os que multiplicam respeito. Menos mal.

 

 

No quadro da recepção da Fundação há uma inscrição que diz mais ou menos isso: a melhor maneira de agradecermos por enxergar é ajudar quem não vê. Uma maneira inefável de levar a vida. Na guerra contra o preconceito, compartilhando a via pública e multiplicando respeito.

 

 

Nota:  “Uma em cada cinco vítimas de quedas atendidas no Hospital das Clínicas, (em agosto de 2012), se acidentou nas calçadas de São Paulo.”FSP 05.11.2012

 

Conte Sua História de São Paulo: meu coração batia mais forte nos Twin-Coaches da época

 

Por Rubens Cano de Medeiros

 

 

Sou paulistano faz 68 anos. Contemporâneos, eu e a CMTC. Ela, de julho; eu, dezembro. Ela, “já era”, enquanto eu, afortunadamente, estou aqui. Surgi na Maternidade São Paulo que, como a CMTC, virou pó…

 

Anos 50, molequinho, encantam-me os vermelhões da CMTC, bondes e ônibus (até os elétricos), assim como os outros ônibus, concorrentes da CMTC, os das “empresas particulares”, dizia-se. Estes, cores vistosas, belas pinturas, os ônibus particulares, ostentavam acima das janelas (aliás, menores que as atuais) o nome
daquela operadora. Sim, lembro, caprichosamente pintado em “letra de mão”: Viação Cometa, Expresso Brasileiro, Alto da Mooca, Guarulhos, Vila Esperança…
Vim a saber mais tarde: aqueles nomes eram o trabalho manual – e artesanal – de funcionários pintores “letristas”, que belo! Cada passeio, o moleque descobre uma pintura nova!

 

Naquele 1947, em que nascemos – eu e a CMTC – meu pai é operário das oficinas do Cambuci, da Light. E o foi por 35 anos. Sabemos, os bondes, naquele ano, migraram da Light para a CMTC. Menos os 75 belos Gilda, americanos, comprados diretamente da Broadway. Bondes que sempre foram
imorredouros – até que a obsolescência os convertesse em pó, durante os anos 60.

 

Só que, ônibus daquele meu tempo, o que fazia meu coração arregalar os olhos – ah! – era um, “aquele”! Um no qual eu viajava vez ou outra – 33 – Quarta Parada; 109 – Lins de Vasconcelos. Ou Estações 5 e 6. Um ônibus de suave balanço – o molejo, explicavam. Ele era lindão, hein!

 

Motor, um silêncio, um zumbido, lembro. Ficava sob o piso, me falava alguém. Americano, pintura vermelho-luzidio. Para-brisa incomum: saliente, seis partes de vidro na armação “tetraédrica” – e sob ele a indefectível grade daquele modelo, tal qual a “asa” sobre a porta dianteira, de saída, àquele tempo distante… Destacava-se na paisagem.

 

Ah! Luzes de freio – e eu lá sabia? – acendendo em Inglês: STOP! Interiormente, acima das duas janelas do fundão, a plaquetinha – que eu, nos meus 6 anos, sequer entendia – “Fageol Twin-Coach; Kent, Ohio”! Eu: que troço, será?

 

O tempo me elucidou. Ônibus do suave balanço, molejo que o fazia gingar – de leve – até quando nele entrávamos ou descíamos, ele parado. Era o mesmo em que algumas vezes eu ia a Santos, no azul-e-creme da Cometa! Saudadizinha inesquecível, daquela São Paulo mais bela, magia do IV Centenário – tempo dos Twin-Coaches – marca desta fábrica criada pelos irmãos Fageol, no estado americano de Ohio

 

Ê, São Paulo… Ê, São Paulo! Da garoa, São Paulo, que terra boa!

 


Rubens Cano de Medeiros é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Para contar sua história da nossa cidade, escreva para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: os ambulantes da minha travessa

 

Por Walter W. Harris
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

O fim da Avenida Paulista, antes da descida para o Pacaembu, é completamente diferente da aparência que tinha no começo dos anos 50. Não havia viadutos e várias ruas que afluíam para a avenida, já não existem mais. Lembro-me perfeitamente bem do ponto de táxi na esquina da Rua Minas Gerais com a Paulista. Quando ia passear com meu pai, gostava de parar lá para admirar aqueles automóveis Ford, Buick, Chevrolet … que eram tão usados como carros de praça.

 

Bem naquela região e conservada até hoje, porém com outro nome, está a rua sem saída — chamada de travessa — onde morávamos na época. Era uma vila bastante reservada, no sentido de que poucas pessoas costumavam entrar ali. Não obstante, foi lá que travei conhecimento com os primeiros ambulantes de minha vida.

 

Todas as manhãs eu era acordado pelo som de cascos nos paralelepípedos e descia correndo as escadas para, junto com minha mãe, comprar pão (e principalmente pão doce) do padeiro, que trazia seus produtos numa carrocinha fechada. O engraçado é que eu não dava a mínima atenção para seu cavalo, um interesse infantil comum; tudo que queria mesmo era que o padeiro abrisse a porta na parte de trás da carrocinha, para que pudesse inalar o delicioso aroma de pão fresco. O pão doce era comido ali mesmo.

 

Frequentemente, minhas atividades infantis eram interrompidas por um sujeito que andava por toda a travessa, entoando caracteristicamente: “Roupa velha! Roupa velha!”. Passavam-se menos de 30 segundos e ouvia-se novamente o mesmo adágio: “Roupa velha! Roupa velha!”. Sua aparição foi uma constante nos anos em que vivemos naquela rua e, em nenhuma ocasião vi alguém vendendo-lhe qualquer peça de vestuário. Era um judeu baixinho, de nariz adunco, que estava sempre de terno e chapéu, meio puídos, e ainda carregando outro paletó dobrado no braço esquerdo.

 

Outro personagem que invade minhas recordações daqueles tempos também me distraía de meus afazeres. Este, no entanto, parecia fazer negócios melhores com os moradores da vila do que o comprador de roupa velha. Ele entrava na travessa, fazendo sua presença sentida ao cantar: “Jornal, revista, garrafeiro! Jornal, revista, garrafeiro!”. Puxava um carrinho que, normalmente, encontrava-se apinhado com suas aquisições. Este ambulante vinha regularmente, e minha mãe sempre tinha alguma coisa para lhe vender. Foi a primeira vez que vi um dinamômetro, que o cidadão utilizava para pesar os jornais. Pagava uma ninharia por eles, porém era um trabalho digno e honesto.

 

Esses três ambulantes ficaram marcados em minha memória, talvez porque fossem habitués de nossa travessa onde, como crianças, passávamos grande parte do dia brincando em relativa segurança, pelo isolamento daquela ruela sem saída.

 

Todavia, seria injusto deixar de pelo menos mencionar aqui, outros ambulantes que presenciei naquela época, alguns dos quais existem até hoje: o realejo, com seu periquito e os bilhetes da sorte; o fotógrafo da Praça da República, mais conhecido como “lambe-lambe”; e o doceiro na porta da escola, com seu famoso “quebra-queixo”, e a “raspadinha”.

 

Walter W. Harris é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Venha contar mais um capitulo da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: a galinha preta da rua do Zé Saqueiro

 

Por João Batista de Paula

 

 

Nossa rua tinha suas atrações. Era a Mário de Castro, no Itaim Bibi. Quando meninos e meninas chegavam da escola  já estava combinado: meninas de um lado com suas bonecas e casinhas imitando as mães, sempre em frente a casa de número 3 ou número 7; meninos com brincadeiras mais rústicas como jogar futebol. em frente a casa de número 40, só para chatear os moradores que implicavam com a molecada. Às vezes, escapávamos para as lagoas para nadar sem roupa, em um grande descampado habitado só pelos pássaros que eram nossas testemunhas.

 

A cada dez ou quinze dias, a alegria era redobrada: era quando o caminhãozinho vinha buscar a carga de sacos na casa do seu Zé Saqueiro. Era uma atração à parte, a “furreca”, como nós a chamávamos, ficava no portão da casa 40 por mais de uma hora para receber a carga de sacos de linhagem e estopa. A molecada ficava todo o tempo em volta da furreca, o chofer era um homem bem alto e gordo com uma calça de um pano riscadinho na altura das canelas, uma botina ringideira e um boné de bico de pano. Era uma figura estranha. Já o seu Zé Saqueiro era baixinho e barbudo. Eles formavam uma dupla no mínimo engraçada.

 

A furreca com suas molas em feixes, a lataria bem gasta e com ferrugem aqui e ali. A pintura gasta ficava com várias cores. Quando a carga estava pronta é que tudo virava uma farra para a molecada. O chofer sentava no assento do volante também bem gasto , e nesse momento o seu Zé introduzia uma manivela no motor, e dava maniveladas até ficar exausto. A furreca tremia, mas não pegava, a molecada ria e o seu Zé xingava em espanhol, com sotaque portunhol. Pouco se entendia. De repente, eles trocavam de lugar, lá ia o chofer dar as maniveladas, e o seu Zé que pouco ou nada entendia de carros ficava gritando como agir com a molecada que só atazanava o trabalho. Os dois cansados e nervosos e nada da furreca pegar, até que uma manivelada mais certeira o caminhazinho tremia mais forte e pegava. O chofer corria para o volante. Seu Zé esbravejava novamente em português e em espanhol.

 

Lá ia a furreca em nossa rua toda esburacada, rangendo suas molas, sua lataria acompanhava o rangido do molejo, a molecada acompanhava com alegria que só os meninos possuem.

 

Um refrão dos moleques que era cantado quando os caminhões carregados de areia subiam a Rua Heloisa e encalhavam. Era assim:

 

“Galinha preta, galinha preta, galinha preta” …

isso repetido em coro era sinônimo de azar.

 

Hoje fico pensando, a alegria dos meninos era motivo de raiva desses dois personagens. Não sei porque eu tenho a impressão que o seu Zé também se divertia com toda essa bagunça, será?

 

O seu Zé foi embora não sei para onde, o tempo passou, os meninos cresceram foram se distanciando, a cada ano mais longe. Ficam as distâncias e as lembranças, assim como na canção de Moacir Franco que diz:

 

Porque é que esta lágrima corre tão fria
E o inverno já foi?
Porque é que esta noite os meninos da rua
Não vejo brincar?

 

João Batista de Paula é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. 

Conte Sua História de São Paulo: a elegância dos passeios no Centro com carrões americanos, terno e chapéu

 

Por Douglas de Paula e Silva

 

 

Nasci em 1955 na Lapa, na Rua Faustolo. A casa era pequena, existe até hoje, e ficava em frente a uma mercearia, tão comum naquela época. Lá só existia o comércio de rua e alguns poucos magazines, no centro. Morávamos próximo da Praça Cornélia, onde fica a Igreja de São João Vianei, onde meus pais se casaram. Minha avó materna morava na mesma praça. A família de meu pai, de origem italiana, calabresa, morava na Av. Celso Garcia, no Brás.

 

São Paulo era meio europeia. Isso ficava claro quando íamos ao Centro, normalmente de lotação, naqueles carrões pretos americanos da década de 1940, ultra-espaçosos, em que cabiam seis a oito pessoas facilmente.

 

Todos se vestiam muito bem. As mulheres com vestidos rodados, casacos, salto alto; os homens, preferencialmente de paletó e chapéu. A grande maioria, homens e mulheres, fumava muito, independentemente de onde estivessem. A cidade era ordeira, bonita.

 

As minhas lembranças do corte de cabelo na Clipper, loja de departamentos que ficava no Largo Santa Cecília, do Bazar Lord e do Mappin são ainda muito claras.

 

Já tínhamos televisão, algo raro e caro naquela época.

 

Meu pai trabalhava no Aeroclube de São Paulo e tinha como amigo um piloto que ia rotineiramente para os Estados Unidos. Num belo dia, ele apareceu com uma TV usada, que tinha uma tela pequena, num móvel de madeira enorme, onde assistíamos à TV Tupi e à Record. Havia um ponto de ônibus em frente de casa e as pessoas ficavam olhando para dentro da nossa sala maravilhadas.

 

No inicio dos anos 60 meus pais começaram a construir uma casa num bairro distante chamado Planalto Paulista, na Avenida Ceci. Quando íamos para lá, acompanhar a obra, era uma aventura já que a maioria das ruas ainda era de terra, excetuando algumas principais como a Avenida Indianópolis, que ligava o Parque do Ibirapuera à Avenida Jabaquara, onde estava a Igreja de São Judas. O bairro era próximo do Aeroporto de Congonhas e da TV Record, que ficava na Avenida Moreira Guimarães. O caminho natural da zona Oeste para a Sul era pela “Estrada das Boiadas”, atual Avenida Diógenes Ribeiro de Lima ou pela Av.enida Brasil, Henrique Schaumann, Heitor Penteado e Aurélia.

 

Quando mudamos para lá havia poucas casas ainda. Eu, acostumado com um bairro urbano como a Lapa, de repente me vi num lugar que tinha poucas opções. Tínhamos como vizinhos um vila humilde, com casas pequenas, todas juntas num único corredor estreito. Fiz amizade com aquelas crianças que se divertiam muito nas brincadeiras de rua. Algumas delas, com sete, oito anos, já fumavam e meu pai, também fumante inveterado, ficava muito preocupado. Me chamavam de “menino rico” e, apesar da distância social, convivíamos muito bem. Numa das vezes, fui almoçar na casa de um dos meninos da vila e comi torresmo pela primeira vez na minha vida. Era realmente muito bom.

 

Ficamos muito pouco tempo naquela casa. Depois de um temporal nossa casa, que ficava na parte baixa da rua, ficou com dois palmos de água com lama e só me lembro da minha mãe e as vizinhas removendo aquela lama toda. Meu pai ficou desgostoso e vendeu a casa. Nos mudamos para um conjunto de sobradinhos, na Alameda dos Uapés, a duas quadras da onde estávamos, onde minha mãe com 91 anos mora até hoje.

 

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Conte Sua História de São Paulo: comprava meia bengala na padaria do Aricanduva

 

Por Carlos Humberto Biagolini
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Ouvia o programa na CBN e escutei a história de um ouvinte que comprava meia bengala. Pois bem, eu também sou dessa época. A padaria onde minha mãe comprava pão ficava no Jardim Aricanduva, na avenida Rio das Pedras, na zona leste. Além da meia bengala, lá comprávamos, também, meio litro de leite. Você levava a garrafa de vidro e o balconista tirava uma tampinha feita em alumínio, e despejava meio litro de leite na sua garrafa. Tudo no olho, colocava uma garrafa ao lado da outra e dividia o leite.

 

Outra lembrança que tenho daquela época: onde temos o piscinão do Aricanduva havia uma linda lagoa. Linda mas perigosa pois a garotada da época, inclusive eu, gostava de dar uns mergulhos por lá. E o risco era grande: infelizmente, lembro de alguns que morreram afogado.

 

No córrego Aricanduva, nos anos de 1960 e começo de 1970, havia pequenos peixes que pegávamos com uso de peneiras. Todo o lado ali da Avenida Aricanduva, onde está o shopping, era uma enorme área verde. O bairro desenvolveu primeiro o lado oposto ao shopping. Então, nesta área verde tinham muitas espécies de aves. Passarinhos lindos eram vistos por lá. Depois com o crescimento do bairro, essa reserva verde foi se acabando até chegar no que é hoje.

 

Sem dúvida, muita coisa mudou por lá. Até o rio Aricanduva. Acredite: ele corria exatamente onde é a pista sentido São Mateus e foi refeito ao lado para permitir a construção da avenida.

 

Se até o rio muda, porque eu não mudaria, também.

 

Carlos Humberto Biagolini é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história: escreva para milton@cbn.com.br. sg

Conte Sua História de São Paulo: o gorila que gostava de gravata

 

Por José Carneiro de laia

 

 

Chegando a São Paulo, em dezembro de 1969, vindo de Belo Horizonte, não via a hora de chegar junho de 1970, quando completaria 18 anos e poderia conseguir o meu primeiro emprego formal, nesta que para nós era a terra das oportunidades. Só com o ginasial completo, precisando trabalhar para ajudar meus pais, e continuar estudando à noite para concluir na época o chamado colegial – claro que teria que ser à noite.

 

Sem muita exigência ou seleção, consegui o meu primeiro emprego com registro em carteira profissional: cobrador de ônibus na Empresa de Auto Ônibus Alto do Pari. Mas um senhor cobrador, que na época tinha uma indumentária toda especial e característica; um boné, gravata, camisa e calça, na cor cinza claro, com sapatos pretos, impecáveis e bem engraxados, nada de tênis.

 

Diferentes de nós eram os cobradores da extinta CMTC, que também usavam os uniformes, mas na cor azul claro. Os motoristas também acompanhavam o mesmo uso, e para todos nós, cobradores e motoristas, era motivo de orgulho e responsabilidade trabalhar no transporte público de uma já grande cidade, embora não chegasse ainda a 5 milhões de pessoas.

 

Por três meses, trabalhei na linha Nº 81, que circulava entre o Correio central e Vila Maria Baixa, fazendo o seu ponto final ao lado de um pequenino zoológico que existia por ali. Nas paradas de alguns minutos para irmos ao sanitário ou tomar um cafezinho, um dos cobradores, como muitos outros faziam, entrou rapidamente no minizoológico, e parou em frente a jaula de um pequeno gorila, que era a atração principal. Mas por uma aproximação e distração, não recomendadaS, o animal lançou os seus longos braços e agarrou a gravata do cobrador. Passou a puxar fortemente, quase enforcando o colega que só foi salvo por outras pessoas que o puxaram de volta para trás. Foi um enorme susto para ele e uma boa advertência para mim.

 

Visitar um zoológico, por menor que seja, de gravata, seja social, ou de trabalho, é bom não se aproximar de nenhum animal, principalmente quando eles são quase do nosso tamanho.

 

Felizmente, fiquei por poucos meses neste meu primeiro emprego em São Paulo, mas a lembrança do gorila que não gostava de gravata, sempre ficou gravada em minha mente, ao longo desses 64 anos, 48 deles, morando nesta capital…

 

José Carneiro de Laia é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Conte você outros capítulos da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br