Conte Sua História de SP: da longa jornada a bordo do América-maru à minha nova cidade

 

Atsushi Asano
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Faz mais de meio século, desde que abordo do América-maru, atracado no porto  da cidade de Santos, coloquei meus pequeninos pés no chão da minha nova nação.

 

Acompanhado da minha irmã mais velha e do mais novo, e, claro, com os meus pais, em busca das promessas, riquezas, da ideia de que existe esperança de mudança de vida com o trabalho nas terras paulistanas.

 

Como criança em viagem pelos mares e oceanos atravessando a longa jornada, nada lembro do navio, após estudar e trabalhar mais de 40 anos.

 

Há dez anos, sou taxista da cidade de São Paulo. Conheço muitos lugares que são ricos, pobres, mansões, favelas, modernos, antigos, arborizados, abandonados … porém as lembranças desta cidade chamada São Paulo são aquelas que provocam nostalgia e boas recordações. As ruins ficam de lado.

 

Meus pais levavam-me ao Cine Joia, Niterói e Nippon para assistir aos filmes japoneses da época. Foi quando conheci Toshiro Mifune, Akira Kurosawa .…

 

Uma cena que lembro bem ao andar pelo bairro da Liberdade: era muito divertido passar por cima das grades de ventilação dos prédios. Aos olhos de uma criança,  inocência e curiosidade.

 

O Conte Sua História de São Paulo tem sonorização do Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung. O programa vai ao ar aos sábados, no CBN SP.

Conte Sua História de SP: o poeta que casou com a cidade

 

Por Alceu S. Costa

 

 

Meu Tributo à Cidade de São Paulo.

 

De olhos fechados eu não sonhara.
Talvez, cerrados de fato não os tivera.
Então, se acordado, tudo aquilo era verdade,
Uma piscada, um flerte…o futuro conluio,
Que virou namoro, noivado…
Foi assim que me casei com esta Cidade.

 

25 de outubro de 1965.Tarde primaveril.
De costas para o passado, nova realidade.
A busca pelo sustento sem conhecer o relento,
A mão do amigo, a simplicidade do abrigo,
A distância do perigo…
Serena viagem nas asas do tempo.

 

De olhos abertos, construí o meu sonho.
Apesar da idade, a Cidade não perde o viço,
A nossa relação amadureceu, meu desvairado vício.
Não nego, estou tentado pelos acenos da outra,
Jovem, atraente, sedutora …ah!
-Trair, jamais!, descarta peremptória minh’alma sonhadora.

 

O Conte Sua História de São Paulo tem a sonorização do Cláudio Antonio, narração de Mílton Jung e  vai ao ar aos sábados, no CBN SP. Para participar, envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP:”chocar” no bonde era a minha diversão, na Penha

 

Por André D’Elia Neto
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Na Penha de antigamente, o modo mais barato de se chegar era de bonde. Tinha o bonde aberto e o bonde camarão (todo fechado).

 

Meus avós moravam na rua Comendador Cantinho que, para chegar no Largo da Penha, tinha um forte aclive e uma curva.

 

Na época, por volta de 1954, eu tinha 11 anos e minha distração preferida quando ia visitar meus avós era ficar no inicio da curva, quando a velocidade era reduzir para “chocar” – isto é, pegar o  bonde andando e ir até o Largo da Penha.

 

Como você vê, não tínhamos noção dos perigos que nos causar. Mas era muito gostoso e rendeu esta história para contar.

 

Saudade dos bondes!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, no CBN SP, tem a sonorização do Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung

Conte Sua História de SP: o cineminha no refeitório da escola e o achocolatado de graça

 

Por Clênio Caldas

 

 

Minha história se passa nos anos de 1950, na rua Dona Júlia, na Vila Mariana, onde se localizava o então Grupo Escolar Marechal Floriano. Ali, estudávamos no curso primário sob a orientação das professoras Maria da Glória, Ana e Júlia. Foram nossas dedicadas mestras, como também educadoras conscientes e responsáveis com os garotos para as quais nossos pais nos entregavam. A classe era somente de meninos. As meninas ficavam em outra ala do prédio.

 

Foram anos tranquilos e proveitosos, prova do alto grau de conceito das escolas estaduais e do quilate dos professores que nos ensinavam com zelo e carinho.

 

Cenas pitorescas, todavia, não deixavam de ocorrer.

 

Houve o garoto que comprou o pirulito e, sem ao menos saboreá-lo, quebrou-o no pátio da escola para ver se a haste estava premiada. Foi advertido pelo rigoroso inspetor Trivino devido o desperdício cometido.

 

Lembro de alunos em pranto ao fim da aula por não notarem a presença dos pais que, atrasados, demoravam a aparecer.

 

Tinha o medo generalizado da molecada nos dias em que todos passávamos pela “revisão dentária” na temida e apavorante cadeira do dentista, em uma das salas da diretoria separada especialmente para isto.

 

Havia dias festivos e felizes, também, especialmente quando eram suspensas as aulas para que todos aproveitassem o “cineminha” no refeitório, apinhado de meninos e meninas, ávidos por assistirem às trapalhadas de “O Gordo e o Magro”. E mais: com direito a amostra grátis do achocolatado Vic Maltema, com o jingle cantado a plenos pulmões por uma gurizada alucinada de felicidade!

 

Ao deixarmos a escola, encontrávamos o Sr. Osvaldo, o guarda civil que com um sorriso singelo e terno, exalando simpatia e confiança, nos conduzia em segurança para atravessarmos a já movimentada Domingos de Morais. Lá do outro lado, pegamos o ônibus ou embarcáramos no bonde que nos levava para casa.

 

Lembrança de uma São Paulo ainda pacata mas em pleno desenvolvimento, com seus momentos singelos e deliciosos, marcados na memória, que permanecerão para sempre em um cantinho especial de muita saudade!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às 10h30, no programa CBN SP, da rádio CBN. A sonorização é do Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung

Conte Sua História de São Paulo: o bonde passava na rua da Glória

 

 

Por Elza de Oliveira Reis

 

Último veículo da era dos românticos, o bonde, além de deixar descendentes importantes – o trolebus e o metrô – deixou também muita saudade.

 

Pela rua onde eu morava, lá vinha ele, com seus passageiros, na Pauliceia desvairada do poeta, com destino ao Cambuci, Vila Prudente e Ipiranga. E a Rua da Glória se enchia do ruído de suas rodas de aço sobre trilho e o som de sua buzina – o bater de um sino – a lembrar ao pedestre distraído – o perigo.

 

Eu, criança ainda, gostava de vê-los da janela de minha casa. Eles passavam com destino à Praça João Mendes ou se dirigiam aos bairros com a calma que a nossa cidade de então podia propiciar. Iam e vinham, com seus ilustres passageiros, belos tipos faceiros, salvos ou por salvar de bronquites, pelo Rhum Creosotado como apregoava o anúncio:

 

“Veja ilustre passageiro
O belo tipo faceiro
Que o senhor tem a seu lado.
No entanto, acredite, quase morreu de bronquite.
Salvou-o o Rhun Creosotado”

 

Era ainda o tempo do cavalheirismo: às mulheres, a primazia dos acentos nos bancos de madeira; aos homens, na falta de lugares para todos, a coragem de viajar de pé no estribo,de onde podiam saltar, quando havia lentidão na marcha do veículo. O cobrador passava por eles exercendo o seu ofício: cobrava e registrava o recebimento da passagem, utilizando dispositivo especial para esse fim. Ouvia-se, então, o dim-dim, dim-dim, acusando o recebimento da tarifa.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10h30, no CBN SP. A interpretação é de Mílton Jung e a sonorização é de Cláudio Antonio.

Outlet, o sexto elemento

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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O varejo, atento às vantagens do canal total (omni-channel), também está inserido no formato de Outlet, que vem crescendo acentuadamente.

 

Os brasileiros que já estiveram nos Estados Unidos sabem bem das vantagens dos Outlets, embora talvez não saibam por que não há aqui as mesmas condições.

 

Lá, os Outlets, que correspondem apenas a 1% da área disponível do varejo, recebem 10,9% do público consumidor. Essa relação positiva remete a uma produtividade invejável, expressa pelos US$ 45 bilhões alcançados em 2015, transformando a venda de seis anos antes em irrisórios US$ 19 bilhões.

 

Globalmente, embora concentrado em poucos países, os Outlets passaram em curto período de 435 unidades para 540, com ABL (área bruta locável) de 12,5 milhões para 16,3 milhões.

 

O Brasil, que inaugurou o primeiro Outlet em 2009, com o Premium da Senpar Empreendedores, somente agora começa a acompanhar o ritmo. Dos 10 existentes hoje, em três anos estaremos com 20 unidades.

 

Estamos pagando a imaturidade do varejo, quando ainda anunciamos liquidações de 70% e colocamos a palavra “até” em minúsculas, além de apresentar dentro da loja raras peças com descontos máximos.

 

Estamos pagando também pelos pequenos descontos que algumas marcas ainda insistem em oferecer em lojas de Outlet.

 

Soma-se a isso a inadequação de empreendedores que apresentam custos de ocupação inadequados a operação de Outlet, que exige custos mínimos para que os produtos tenham máximas vantagens.

 

André Costa, um dos executivos responsáveis pela implantação do primeiro Outlet do Brasil, hoje é proprietário da ABOUT – Agência Brasileira de Outlets, empresa gestora de implantação, execução e administração de Outlets, que responde pela gestão de seis empreendimentos na área, relata:

 

“Está havendo uma evolução, tanto no aspecto dos descontos reais, quanto na operação, havendo marcas que estão produzindo exclusivamente para Outlets, como se faz nos Estados Unidos”.

 

“Quanto ao custo de ocupação, há uma falta de adaptação por parte de alguns SHOPPEIROS, isto é, empreendedores de Shoppings convencionais, que insistem em modelos similares e não conseguem reduzir condomínios e alugueis de acordo com as necessidades de lojas com alto custo benefício”.

 

André estima que ainda vamos precisar de pelo menos mais cinco anos para chegar ao nível ideal de um Outlet. Com ofertas que façam jus ao quilômetros  necessários ao acesso.

 

Ps: quais são os seis elementos?: 1.Loja própria 2.Revenda, porta a porta 3. Loja multimarca 4.Loja franqueada 5.E-commerce 6.Outlet

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

 

Fontes:

 

André Costa é autor do libro “Outlets made in Brazil, a história por detrás dos bastidores”, editado pela Amazon
ICSC International Council of Shopping Centers – fonte
VRN Value Retail News – fonte

Conte Sua História de SP: do sobradinho geminado às margens do Pinheiros

 

Por Alice Ribas Cabete

 

 

Nasci em Santos.

 

Em 1935, com o falecimento de meu pai, minha mãe veio morar em São Paulo, alugamos um sobradinho geminado na Rua Rússia esquina da Av. Europa, final da linha do bonde Jardim Europa, até pouco tempo os sobradinhos ainda estavam lá.

 

O bairro Jardim Europa estava começando a surgir. Depois do final do ponto do bonde, a Av. Europa continuava até a Marginal do Rio Pinheiros com poucas casas e muita árvore. A maioria dos moradores era alemã. Foi na casa de uma família alemã que vi pela primeira vez uma árvore de natal.

 

Aos domingos, eu e algumas meninas da vizinhança caminhávamos entre as árvores até o Clube Germania, hoje Clube Pinheiros, que se estendia até as Margens do Rio Pinheiros, onde os sócios do clube costumavam remar e nadar.

 

No caminho, havia uma igrejinha isolada no meio das árvores, acredito ser hoje a Igreja de São José.

 

Algumas vezes pegávamos o bonde e íamos ao cinema, na Rua Augusta.

 

No Carnaval, alugávamos um carro aberto para fazer o corso na Av. Paulista.

 

Sinto muitas saudades de São Paulo daquela época e sou feliz por participar da história de São Paulo.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às 10h30, no CBN SP, com sonorização de Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung

Conte Sua História de SP: a saga deste povo soteropaulistano

 

Por José Dilson Cavalcanti

 

 

Viemos de longe, somos Pernambucanos, Paraibanos, Cearenses, Alagoanos, somos todos Nordestinos. Mas, em São Paulo, somos Baianos.

 

Lá , na terra natal, muitas vezes e a maioria das vezes, nem conhecemos nossa Capital, por isso, adotamos essa cidade como símbolo de adoração e respeito. E a tratamos como Capital do Nordeste, pois ela serve para todo mundo que nasceu lá.

 

Para trás, deixamos famílias, amores, sonhos perdidos e parte da alma natal.
Viemos buscar, nessa serra pelada de concreto e automóveis, a chance que ficou no caminho, por causa da falta d’água e do trabalho.

 

Buscamos, no final desse arco-íris, o pote de ouro prometido.

 

Viemos para ajudar nesse desenvolvimento, construindo estradas, escolas, casas, prédios, metrô, pontes e criar avenidas. Foi isso que nos coube quando chegamos, pouco estudo, vontade de trabalhar, essa mão-de-obra rápida e barata, e ajudar os que ficaram lá. Ainda assim, tínhamos que agradecer, pois tirávamos o sustento.

 

Ajudamos a construir essa cidade, inquieta, exigente, transformadora e moderna.
Trouxemos a comida, os costumes, as crenças e a musicalidade, que são a energia necessária para misturar à cultura paulista e dar sentido à nossa vida nessa cidade, que tem potencial de País.

 

Somos todos lutando por uma única causa, a causa maior e mais justa das causas, a Felicidade. Esta cidade nos acolheu, do jeito que deu, não podemos dizer que foi fácil, deu oportunidade e certa dignidade.

 

Tivemos que ser bravos e perseverantes, para podermos educar os filhos e alimentá-los. No total não dá para se queixar, caso contrário, não estaríamos aqui a viver, se emocionar, a amar.

 

Não pensamos em agradecimento, em nenhum momento, pensamos somente em sermos lembrados, uma espécie de crédito por produção.

 

Fizemos dessa Terra Prometida nossa Canaã, outra espécie de nação de alma e coração, pois foi construída com sangue, suor, determinação e amor dos nossos irmãos.

 

Somos os carpinteiros, pedreiros, serventes, peões, cozinheiras, empregadas domésticas, jogadores de futebol, músicos, atores, pessoas comuns etc…

 

Só temos a agradecer por essa cidade existir e existirmos juntos, nessa cidade.
Somos filhos dos filhos.
Somos filhos dos Baianos.
Somos todos “soteropaulistanos”

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10h30, no CBN SP. Tem sonorização do Claudio Antonio e narração de Mílton Jung

Conte Sua História de SP – CBN 25 anos: o rádio transforma a vida das pessoas

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, que comemora os 25 anos da rádio CBN, você ouve o depoimento do ouvinte-internauta Antonio Arivaldo, que fotografava vendas da cidade enquanto trabalhava de cobrador de ônibus. Descoberto pela CBN teve sua história contada no ar e sua vida mudou radicalmente: teve direito a exposição de arte, motivou-se a voltar a estudar e hoje é formado em pedagogia.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às 10h30, no CBN SP. Tem a sonorização do Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung

Conte Sua História de SP: o primeiro dia de aula, no Rio Pequeno

 

Por Samuel de Leonardo

 

 

“II Grupo Escolar do Bairro do Rio Pequeno”

 

“São Paulo, 11 de fevereiro de 1963”

 

Após nos posicionarmos em fila e ter entoado o Hino Nacional defronte ao prédio localizado na antiga Estrada Quatro ainda sem asfalto, atual Avenida José Joaquim Seabra, no Bairro do Rio Pequeno – Butantã, adentramos a sala de aula. Com o giz branco Dona Lurdinha (Maria de Lurdes Reis da Costa – nunca esqueci o seu nome) desenhara essas letras no quadro negro. Assim, numa tarde de verão, teve início o meu primeiro dia de aula naquela escola. Na verdade até então não sabia ler, mas a dedicada mestra explicou em detalhes às crianças o que traçara no quadro negro.

 

Ainda assustado com a novidade, trajando camisa branca, calça curta azul-marinho e calçando o novo Conga azul chegara a minha vez e, todo nervoso e sem jeito, apresentei-me balbuciando meu nome, confundindo-me com o Tute, apelido dado pelos meus avós paternos e o meu legitimo nome, Samuel.

 

A estrutura do prédio era todo de madeira. Dois galpões em tom azul desbotado pelo tempo, sobrepostos em pequenas colunas de tijolos à vista que comportavam duas salas de aula. O teto não tinha forro e podiam-se notar as robustas vigas cruzadas sustentando o telhado de amianto e as janelas enormes apresentavam algumas vidraças quebradas, talvez por pedradas.

 

Dispostas em fileiras carteiras duplas de madeira já desgastadas pelo tempo acomodavam a todos. À frente uma pequena mesa e uma cadeira destinada à professora, ao fundo dois armários que um dia foram envernizados completavam o mobiliário. Nota-se que o desmazelo das autoridades com a educação já se fazia presente.

 

Naquele dia nossa primeira atividade foi desenhar pequenos círculos até completar a folha. Caderno aberto sobre a carteira, lápis na mão e as “bolinhas” irregulares iam se distribuindo sobre as linhas. Então com toda a paciência do mundo nossa professorinha passou pelas carteiras elogiando a arte de cada um.

 

De repente ouve-se o tilintar da sineta tocada pelas mãos da servente, assim era denominada aquela que ainda não chegara a bedel. Hora do recreio, algazarra em profusão no enorme terreiro empoeirado a céu aberto que circundava o imóvel. Não havia muros para delimitar onde terminava a escola e começava o imenso matagal morro acima. Uns corriam para os banheiros situados nos fundos da escola, outros devoravam a lancheira. Para os que não trouxeram merenda era só descer até a pequena cozinha, única edificação de alvenaria posicionada à entrada daquela construção rústica, e apanhar um kit.

 

Enquanto os meninos corriam de um lado a outro no pega-pega, as meninas brincavam de roda ou pulavam amarelinha.

 

Novamente o tilintar da sineta, hora da segunda parte.As crianças voltaram ofegantes, suados e descabelados, alguns com os uniformes manchados por algum alimento. Eu não poderia ficar para trás, sujara a camisa branca de terra e com certeza seria repreendido pela minha mãe.

 

Agora na outra folha do caderno Dona Lurdinha pedira que desenhássemos um sol, depois uma árvore e uma casinha. Barbada, desenhar era comigo mesmo.

 

Antes que tocasse pela última vez a sineta daquele dia, ela escreveu na lousa “lição de casa”. Os meninos deveriam trazer uma folha de alguma planta qualquer, enquanto que as meninas uma flor de acordo com a preferência de cada uma.

 

Anos mais tarde após os dois galpões serem criminosamente incendiados, naquele lugar o governo construiu um belo complexo educacional com classes modernas, uma quadra e um ginásio poliesportivo coberto. Durante o dia fora batizado de Escola Estadual Daniel Paulo Verano Pontes.À noite funcionava o Ginásio Estadual Ministro Américo Marco Antônio, onde conclui o antigo ginasial.

 

Da “lição de casa” e daquela primeira vez eu nunca me esqueci, pena que aquele dia passou como um bólido, assim como rápidos foram as semanas, os meses, os anos.