Conte Sua História de SP: no banco do Pateo do Collegio

 

Mônica Ortiz
Ouvinte da Rádio CBN

 

 

Eu trabalhava na Associação Comercial de São Paulo, próximo ao Pateo do Collegio.

 

Era apaixonada por um funcionário da área de marketing. Ele era lindo.

 

Acontece que após alguns meses almoçamos juntos e fomos passear na região.

 

Sentamos em um banco dentro do Pateo do Collegio, ali onde São Paulo foi criada.

 

Naquele cenário histórico, ele me beijou.

 

Eu fiquei em êxtase, não lembrava de nada, não via mais nada, não sentia mais nada, além daquele beijo.

 

Foi, então, que uma mão cutucou meu ombro. Era o coroinha a mando do Padre que eu sequer sabia que vivia ali.

 

Mandou a gente circular para a minha total vergonha.

 

Fiquei super vermelha, constrangida ….

 

Mas quer saber: foi um momento único.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, no CBN SP, tem sonorização do Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung

Conte Sua História de SP: apesar dos nocivos predadores

 

 

Por Alceu Sebastião Costa
Ouvinte da CBN

 

Apesar dos nocivos predadores,
Dos contumazes agressores,
Dos impunes malfeitores,
Dos passivos moradores,
Dos narcisos sonhadores,
Dos chacais aproveitadores,
Sampa não perde o encanto,
Sua alegria supera o pranto.

 

Solidária e hospitaleira,
Postura de metrópole altaneira,
Dignificada pelo Amor da maioria,
Sedutora no compasso da magia,
Seu viço, sua história, sua verdade,
São Paulo, minha acolhedora Cidade,
Meu grito no infinito não é solitário,
Parabéns por mais este aniversário!

 

462 anos entre a paz e a turbulência,
Saldo positivo no filtro da indulgência.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, no CBN SP, aos sábados, logo após às 10h30 da manhã, tem narração de Mílton Jung e sonorização de Cláudio Antonio

 

Conte Sua História de SP: os beijos de despedida na estação Vila Mariana

 

Por Dalva Rodrigues 
Ouvinte da Rádio CBN

 

 

Meu amor por São Paulo é caso antigo, desde que nasci, no bairro do Ipiranga, pertinho do museu, no comecinho dos anos 60. Minha rua , a Aracatu, na Vila Liviero, era de terra, vizinhança pequena, muitos terrenos vazios, campinhos e matas para as crianças explorarem com as mais diversas brincadeiras.

 

Como era gostoso conversar nas noites de céu limpo e estrelado…Histórias de ETs e papos que não acabavam mais (até uma das mães gritar que já passara muito da hora de entrar).

 

Nas noites frias de inverno, mal enxergávamos quem estava ao lado, de tão intenso era o nevoeiro. Voltar da casa da vizinha que tinha televisão, depois de assistir ao cine mistério – aos filmes de terror – era um ato de coragem: rapidíssimo, pernas para que te quero!

 

E no dia seguinte acordava com os galos cantando, o apito das fábricas chamando os operários que sumiam na rua, envoltos em neblina e garoa.

 

Meu primeiro amor de infância era irmão de meu amigo. Numa noite quente, na brincadeira ‘beijo, abraço ou aperto de mão’ ele escolheu: ‘beijo’, mas quando abriu os olhos e me viu, só quis mesmo me dar a mão… Bem me quer, mal me quer…Minha primeira desilusão. Um dia a família se mudou, perdi o amigo e o amor que ainda viveria muito tempo, só em meu coração.

 

Já moça, meus pais separados, fui morar em Vila Mariana, depois passei uns tempos no interior com meu pai, gostei da cidade, mas minha maior alegria era quando, chegando em São Paulo, subindo as escadas rolantes da estação República do Metrô, via minha cidade surgindo, linda, imponente…Como é bom voltar para casa, para nossa cidade!

 

Vivi um grande amor nesses tempos, amor que mais uma vez, mesmo sendo correspondido, não era meu. Um dia nos despedimos na véspera de Natal, na esquina da São João, em frente ao Largo do Paissandú. Foi o beijo mais romântico de minha vida…e o mais triste… Eu ali parada … ele atravessava a avenida. E enquanto as lágrimas desciam, soube que era próximo o fim. Até hoje sempre que passo por lá me lembro da cena.

 

Tempos depois me apaixonei novamente. Como eram bons os beijos de despedida na estação Vila Mariana,  quase todo dia. A suntuosa sala de espera do Cine Ipiranga foi palco de uma cena hilária quando quase saí no “braço” com uma menina que vendia balas, que ousadamente me ignorou e pegava no braço do meu noivo insistindo na venda… Esse episódio quase rendeu o fim do romance, mas superamos e nos casamos.

 

Hoje, moro na zona leste e os amores se foram…Acho que meu tempo já passou, tenho boas memórias, mas o amor por São Paulo…Esse não passa nunca!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, no CBN SP, logo após às 10h30 da manhã. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você participa escrevendo sua história para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: o passeio com meu filho ao centro da cidade

 

Por Mario de Salles Oliveira Malta Junior
Ouvinte da Rádio CBN

 

 

Na semana passada, meu filho João Pedro me pediu para tirar o título de eleitor, uma vez que completou 16 anos recentemente. Ao invés de simplesmente orientá-lo em direção ao Centro da cidade, decidi acompanhá-lo. Talvez por intuição de minha parte, senti que poderia ser um revival de meus 4, 8 ou 16 anos de idade, rumo retroativo a 1955 em diante.

 

O ônibus articulado nos deixou atrás da Catedral, onde antes eu descia do CMTC da Linha 16, que ia da Rua Machado de Assis à Rua Cardoso de Almeida. Dependendo da direção que seguia, o trolebus assim se chamava. Quando eu o tomava, descia justamente na Praça João Mendes ou no Instituto de Educação Caetano de Campos, situado mais adiante na Praça da República. Mas essas são histórias para outras oportunidades…!

 

Contei ao João que as lojas de artigos para umbanda e, acima delas, o Bilhar do Seu Martins, sempre chamaram minha atenção, me impressionavam. Se fisicamente não mais estão ali na esquina com a Quintino Bocaiúva, ao menos na minha memória permanecem. Como também estão registrados os odores sentidos por milhares de transeuntes que iam e vinham por ali. Do Bilhar, os odores eram de frituras, pedidas pelos frequentadores. Imagino: será que “Carne Frita” veio desse local? Com Rui Chapéu, foi um dos maiores.

 

Nossa caminhada nos levou ao Largo da Misericórdia, que leva consigo minhas mais profundas recordações. Ali, no 12o. andar de um prédio ainda muito estiloso, acompanhava o bisavô e o avô do João Pedro ao trabalho. Aliás, ouvia deles a frase “…vamos trabalhar…” e assim me julgava fazendo durante toda a manhã quando lá ficava. Tenho aqui em casa a máquina de escrever, o furador de papéis, grampeador da época. Para mim, verdadeiras relíquias.

 

Decidi dar uma parada mais longa ao redor da Praça do Patriarca. Contei ao João rápidas passagens sobre a Casa São Nicolau, que era o point do Natal e mostrava na vitrine brinquedos inconquistáveis para a maioria. Bastava vê-los e imaginá-los em casa…!

 

Também lhe mostrei que, nessa ou naquela janela, funcionava o consultório do Dr. Dácio, meu pediatra. Profissional competente e simpático, que uma vez me diagnosticou com anemia e me mandou para Poços de Caldas, alimentado basicamente com fígado na chapa e no liquidificador!

 

Fui então com o João ali quase na esquina com a São Bento: e a Casa Califórnia, como não mostrá-la a ele? Ainda está lá, desde 1920 ou ao redor disso. E os lanches, muitos são basicamente iguais. Dei a saída nos pedidos: sanduíche de calabresa com suco de laranja, pois era isto que sempre peço por lá desde 1954. E o João, para não contrariar a mim nem ao bisavô nem ao avô, adivinhem o que pediu???

 

Enfim, fomos em direção ao que viemos. Atendimento excelente no posto do TRE, rápido e cortês. Mais incrível para mim, o João Pedro gostou das histórias, disse querer voltar ao Centro com mais calma, levando o irmão mais novo conosco. Também me pergunto: será pelas histórias de São Paulo ou pelo sabor dos sanduíches?

 

Quero crer que seja pelos 2 motivos!!!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, no CBN SP. Os ouvintes podem enviar seus textos para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a poesia da Terra da Garoa

 

Lúcia Edwiges Narbot Ermetice (Lu Narbot)
Ouvinte-internauta da Rádio CBN

 

 

A menina que eu fui
passeava às margens do Ipiranga
e imaginava o grito de D. Pedro I:
“Independência ou Morte!”

 

A menina que eu fui
brincava nas ruas sem asfalto e sem perigo,
e amava e se orgulhava de sua cidade,
a que mais crescia no mundo!

 

A menina que eu fui
ouvia a mãe falar dos antigos carnavais da Paulista,
desfile de carros enfeitados e gente chic,
o Corso, palavra reveladora das origens italianas.

 

Ah! A menina que eu fui!

 

O Ipiranga continua lá,
ecoando o grito de D. Pedro I,
mas as ruas em que eu brincava
hoje estão asfaltadas e perigosas.

 

No Carnaval da Paulista já não há mais Corso
e outros imigrantes somaram-se aos italianos
para fazer a cidade crescer.
E ela cresceu tanto, mas tanto, que virou um caos.

 

A menina que eu fui
e que hoje habita este corpo maduro
ainda assim ama e se orgulha
da cidade em que nasceu,
a sua Terra da Garoa!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às 10h30, no programa CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio e a interpretação de Mílton Jung

 

Conte Sua História de SP:encontrei minha namorada platônica

 

Por José Geraldo Barbosa Duarte Junior

 

 

Eu morava em Moema e estudava em Santo Amaro, na escola estadual Alberto Conte. Onde hoje está a Avenida Ibirapuera e a Vereador José Diniz havia uma linha de bonde. Era de bonde que seguia para a escola.

 

Tinha uns 14 anos e estava apaixonado pela colega de ginásio, mas não tinha coragem de revelar isso a ela. Era muito tímido. Ela virou minha namorada platônica. Morava no Brooklin e preferia o ônibus para ir a escola. Apenas algumas vezes, pegava o bonde.

 

Amigas em comum, que sabiam da minha paixão pela menina, resolveram agir como cupido. Quando a minha namorada platônica entrou no bonde, que naquele dia estava vazio, todas elas se afastaram de nós, deixando-nos sozinhos para conversar. Fiquei atônito.Não consegui nem cumprimentá-la. Sumiram todas as palavras da minha boca.

 

Talvez por não entender o que acontecia, a menina ficou na dela. Eu fiquei mudo até Santo Amaro. e minhas amigas ficaram desapontadas comigo.

 

O fato é que naqueles tempos nunca tive coragem de me aproximar dela e revelar minha paixão.

 

Os tempos passaram e essa coisa mal resolvida estava guardada em minha lembrança.

 

Hoje estou casado, com filhos e netos.

 

Não para viver um momento que nunca tive, mas como curiosidade, sei lá, queria encontrar aquela minha namorada platônica e saber como foi a vida dela.  Queria contar a ela a minha paixão.

 

E foi graças ao advento do Facebook que a encontrei.

 

Ela não se lembrava da minha existência, mas aquiesceu a amizade.

 

Foi quando, então, pude revelar aquela paixão juvenil. Mas não fique pensando outra coisa, não: hoje, somos apenas amigos e eu me senti liberto da paixão que me remoía.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, no CBN SP, logo após às 10h30. O quadro é sonorizado por Claudio Antonio e tem narração de Mílton Jung.

Conte Sua História de SP: no tempo em que não existia Minhocão no Bixiga

 

Por Walter Marques de Deus

 

 

Foi no ano de 1966 que nos mudamos para a Rua Maria José, na Bela Vista (mas pode chamar de Bixiga). Para quem não conheceu o Bixiga daquela época, não consegue imaginar como era legal viver ali. Não existia o Minhocão!  Existiam casas do século 19 bem no lugar do Minhocão…

 

Fomos morar num cortiço, onde éramos 13 famílias convivendo no mesmo quintal com as várias portas dos quartinhos alugados. Na maioria, eram ótimas pessoas.  A nossa rua era bastante estratificada, onde vizinhos se davam muito bem apesar das diferenças sociais. E acho que todo bairro era assim…

 

Casas com pessoas ricas e casas com pessoas pobres, que eram cortiços. A maioria não tinha garagem. Nem mesmo a dos ricos. Também, nem precisava.  Era só deixar o carro na rua, sem problemas.

 

Lembro bem dos ensaios da Vai Vai semanas antes do carnaval, onde os sambistas e foliões saíam pelas ruas, talvez para aquecer. Foram naqueles momentos,  nos meus cinco anos que comecei a conhecer o preconceito… É que os lojistas fechavam as portas para evitar contato com o pessoal da Vai Vai, na maioria negros.

 

Na nossa rua tinha uma feira, que existe até hoje!  A feira era um dia de festa pra mim! Por não existirem supermercados, as feiras eram mais agitadas, com todo tipo de pessoas. As relações eram bem mais próximas… De vez em quando vou comer pastéis nesta feira da Rua Maria José.

 

Em 1968, comecei estudar nas Escolas Agrupadas da Bela Vista, na rua Santo Amaro. Veja que o nome dado não fazia jus a uma escola com apenas três salas de aula. Mas eu adorava!  Jamais esqueci do nome da minha primeira professora, Dona. Gemma. Estudei ali, até a quarta série.

 

No Bixiga, existiam dois cinemas: o Rex e o Arlequim.  A primeira vez que fui num cinema, assisti a Peter Pan, no Cine Arlequim.  Quanta emoção!  É difícil explicar o que representava o ambiente de cinema para um garoto com mais ou menos sete anos de idade. Era algo realmente delirante!  Principalmente porque não tínhamos TV.

 

Mais tarde, graças a minha tia “Deusinha” que ficou nossa vizinha e comprou uma televisão, pudemos assistir aos jogos da Copa de 1970. Sim, pude ver a grande façanha da nossa seleção do sonhos.

 

Dias depois da conquista, senti o quanto era privilegiado em morar naquela rua pacata, uma simples travessa da Brigadeiro Luiz Antonio. Dali mesmo, pude ver a seleção do Tri em cima de um caminhão de bombeiros, descendo a Brigadeiro. Eu estava lá, do lado da requintada padaria Java! Que infelizmente não existe mais.

 

Conte Sua História de SP: o apito dos afiadores de faca

 

 

Por Wagner Nobrega Gimenez

 

Nasci no bairro do Brás, na Almirante Barroso, 838, em junho de 1954 – ano do IV Centenário de São Paulo. Essa casa não existe mais. Pertence a uma igreja evangélica. Naquela época se fazia partos em casa, como o meu. Dona Cândida, a parteira portuguesa, assistiu minha mãe, dona Luzia, em sete partos, um infelizmente de um natimorto, dois anos após o meu nascimento. Eu, filho temporão, o caçulinha,  brincava só com os moleques na rua: era jogo de bola, figurinha, cowboy, pega-pega, taco – brincadeirinhas que não acontecem mais.

 

Fiz o primário no Grupo Escolar Eduardo Prado, acho que ainda está lá; o ginásio no Colégio São João (que foi demolido; é sede de outra igreja evangélica). Cursei o Senai e me formei Técnico Têxtil em fiação, profissão e indústrias quase em extinção no Brasil.

 

Minhas recordações do centro de São Paulo, quando pequeno e jovem, incluem, entre outras, o Mappin, as Lojas Americanas – que bauru gostoso se fazia ali, será que ainda tem hoje? – a Pirani, na Av. Celso Garcia, onde no terraço havia um parquinho de diversões no qual eu brincava quando pequeno, levado pela Cida, minha irmã.

 

As recordações desses locais hoje inexistentes fazem às vezes eu me sentir como se tudo aquilo tivesse se passado em outro século, que de verdade foi, não é mesmo.

 

Se não vejamos:  tempo em que a TV era em branco e preto e existia o televizinho; que a vitrola, nos bailinhos aos sábados, tocava músicas gravadas em LPs; que existia namoro, noivado e casamento; que a minissaia e o biquíni eram novidades; que o Brasil tinha o melhor futebol do mundo, tinha o rei Pelé. Tempo em que passavam homens pelas ruas vendendo bijous e afiadores de facas e tesouras – ambos faziam barulhos para chamar a atenção dos moradores: os primeiros com uma matraca;os outros com um apito característico. Lembram desse som?

 

Poderia ficar recordando outras tantas cenas desta cidade, mas, não se engane, não sou saudosista. Emociono-me toda vez que recorda daqueles velhos tempos, mas sou muito feliz vivendo na São Paulo atual.

 

Para participar do Conte Sua História de São Pauo, envie seu texto para milton@cbn.com.br. O quadro vai ao ar aos sábados, logo após às 10h30, no CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio.

Conte Sua História de SP: o sanduíche de queijo e presunto da Americanas

 

Por Ismael de Oliveira

 

 

Morar em São Paulo era uma experiência bem diferente, lá pelos distantes anos 1970. Outra cidade, outro mundo. O velho CMTC era equipado com bancos laterais, um de cada lado, na frente, e atrás, próximos das portas, um de frente para o outro. Os passageiros não tardaram a colocar apelidos:banco dos réus, banco dos bobos, banco dos trouxas.

 

De acordo com a velocidade do ônibus era fatal a operação “limpa banco”: quando deixava a Avenida Rangel Pestana fazendo a curva para chegar ao Parque Dom Pedro, o tombo era quase uma certeza. Vi isso acontecer várias vezes, inclusive com meus irmãos e minha avó, era um desespero, até saber que ninguém havia se machucado.

 

Minha avó materna, Maria Francisca de Oliveira, nasceu em Pindamonhagaba, no Vale do Paraíba no ano de 1900. Veio para São Paulo quando casou-se com meu avô nos anos 30. Ele, Manoel Benedito de Oliveiram era segundo sargento do Exército e membro do Primeiro Grupamento Negro dessa Instituição. Desde o dia que meu avô morreu, em 50, até quando ela faleceu, em 2.000, só usou roupa preta, costume herdado de seus ancestrais portugueses.

 

A vida tinha seus rituais naqueles dias: todo mês a vó ia receber sua pensão no Banco do Brasil no início da avenida São João. Ônibus até o Parque Dom Pedro, subia pela Rangel Pestana, passando pela antiga Praça Clovis Bevilacqua, Praça da Sé, Rua Direita, Praça do Patriarca, Líbero Badaró, Praça do Correio e, enfim, a São João. Na volta, ela comprava sanduíches de queijo e presunto na única casa que havia na época das Lojas Americanas. Não havia no mundo gosto igual aquele, era o gosto do passeio, da companhia, do cuidado.

 

Tudo era um aprendizado. Havia uma cidade a ser descoberta: a igreja de São Francisco, o mosteiro de São Bento, a Ladeira Porto Geral, a Catedral da Sé, o Pátio do Colégio.

 

Meu pai sempre dizia: – se estiver no Centro e se perder, olhe pro alto e verá uma igreja, taí seu ponto de referecia.

 

Eu morava na Penha com minha mãe Margarida, meu pai Benedito, minha avó e tia Maria Rosa, que me levou para andar de metrô pela primeira vez. Ela trabalhava numa casa de família em Mirandópolis onde ficou por 30 anos.

 

Na Semana Santa, minha vó reunia todos pra fazer paçoca de amendoim, costume que veio com ela do Vale do Paraíba. Uns torravam o amendoim, outros tiravam a casca; depois misturava-se farinha, sal, açúcar … e pronto.

 

Nas conversas os adultos nos ensinavam a ser íntegros, a ter fé, a não ter medo, e assim era por todos os meses e anos que se sucederam.

 

Assim seguiu a vida e sempre que posso refaço aqueles caminhos no centro imaginando minha vó ao meu lado espantando-se como eu com o que fizeram e fizemos de nossa cidade – para o mal e para o bem.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar logo após às 10h30, aos sábados, no CBN SP. Tem sonorização do Cláudio Antonio.

Conte Sua História de SP: nasci no apito do trem e fui morar no Jaçanã

 

Por Misael Soares Silva
Ouvinte da CBN

 

 

Nasci em 1944, no extremo sul da cidade de São Paulo, no bucólico distrito de Engenheiro Marcilac, quando fui saudado pelo apito estridente de uma Maria Fumaça.d

 

Por volta de meus quatro anos, fomos – eu e minha família – morar em Santo Amaro, bem ao lado do Condomínio da Chácara Flora que tinha 12 portões por onde se adentrava livremente em um mundo encantador, de onde resgato doces lembranças de minha infância.

 

Com um espírito movido por muita curiosidade, sempre quis saber como funcionavam meus brinquedos que, via de regra, acabavam quebrados; isso me fazia criar meus próprios brinquedos, como um trenzinho de latas de sardinha ou um jogo de botões feito com tampas de remédio.

 

Meus projetos se realizavam garimpando o que precisava nos lixos da própria “Chácra” (como a chamávamos) onde também encontrava brinquedos quebrados que muitas vezes eram recuperados.

 

Lá também funcionava o Instituto Metodista, que reunia as crianças da região para que as alunas aplicassem seus aprendizados em atividades lúdicas, como brincadeiras, teatros, corais entre outras.

 

O tempo se foi e, há poucos dias, passando por lá vi uma placa. Onde funcionou o Instituto estava escrito: VENDE-SE; que tristeza. Menos de um mês já havia outra: VENDIDO. A tristeza transformou-se em dor, pois senti que uma página da minha infância fora rasgada.

 

Hoje, moro no extremo norte da Pauliceia Desvairada, em Jaçanã, imortalizado por Adoniran Barbosa.

 

Lembro que em 1991, quando a Central Brasileira de Notícias nascia, comemorei minha bodas de prata; hoje, quando a CBN está se preparando para comemorar os seus 25 anos, também estou preparando-me para comemorar, coincidentemente no mesmo mês de outubro, meus 50 anos de casado.

 

De minha infância ainda me lembro de meu saudoso pai ensinando-me Meus Oito Anos, de Casimiro de Abreu, que agora canto baixinho:

 

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às 10h30, no programa CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode enviar seu texto para milton@cbn.com.br