Conte Sua História de SP: o sanduíche de queijo e presunto da Americanas

 

Por Ismael de Oliveira

 

 

Morar em São Paulo era uma experiência bem diferente, lá pelos distantes anos 1970. Outra cidade, outro mundo. O velho CMTC era equipado com bancos laterais, um de cada lado, na frente, e atrás, próximos das portas, um de frente para o outro. Os passageiros não tardaram a colocar apelidos:banco dos réus, banco dos bobos, banco dos trouxas.

 

De acordo com a velocidade do ônibus era fatal a operação “limpa banco”: quando deixava a Avenida Rangel Pestana fazendo a curva para chegar ao Parque Dom Pedro, o tombo era quase uma certeza. Vi isso acontecer várias vezes, inclusive com meus irmãos e minha avó, era um desespero, até saber que ninguém havia se machucado.

 

Minha avó materna, Maria Francisca de Oliveira, nasceu em Pindamonhagaba, no Vale do Paraíba no ano de 1900. Veio para São Paulo quando casou-se com meu avô nos anos 30. Ele, Manoel Benedito de Oliveiram era segundo sargento do Exército e membro do Primeiro Grupamento Negro dessa Instituição. Desde o dia que meu avô morreu, em 50, até quando ela faleceu, em 2.000, só usou roupa preta, costume herdado de seus ancestrais portugueses.

 

A vida tinha seus rituais naqueles dias: todo mês a vó ia receber sua pensão no Banco do Brasil no início da avenida São João. Ônibus até o Parque Dom Pedro, subia pela Rangel Pestana, passando pela antiga Praça Clovis Bevilacqua, Praça da Sé, Rua Direita, Praça do Patriarca, Líbero Badaró, Praça do Correio e, enfim, a São João. Na volta, ela comprava sanduíches de queijo e presunto na única casa que havia na época das Lojas Americanas. Não havia no mundo gosto igual aquele, era o gosto do passeio, da companhia, do cuidado.

 

Tudo era um aprendizado. Havia uma cidade a ser descoberta: a igreja de São Francisco, o mosteiro de São Bento, a Ladeira Porto Geral, a Catedral da Sé, o Pátio do Colégio.

 

Meu pai sempre dizia: – se estiver no Centro e se perder, olhe pro alto e verá uma igreja, taí seu ponto de referecia.

 

Eu morava na Penha com minha mãe Margarida, meu pai Benedito, minha avó e tia Maria Rosa, que me levou para andar de metrô pela primeira vez. Ela trabalhava numa casa de família em Mirandópolis onde ficou por 30 anos.

 

Na Semana Santa, minha vó reunia todos pra fazer paçoca de amendoim, costume que veio com ela do Vale do Paraíba. Uns torravam o amendoim, outros tiravam a casca; depois misturava-se farinha, sal, açúcar … e pronto.

 

Nas conversas os adultos nos ensinavam a ser íntegros, a ter fé, a não ter medo, e assim era por todos os meses e anos que se sucederam.

 

Assim seguiu a vida e sempre que posso refaço aqueles caminhos no centro imaginando minha vó ao meu lado espantando-se como eu com o que fizeram e fizemos de nossa cidade – para o mal e para o bem.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar logo após às 10h30, aos sábados, no CBN SP. Tem sonorização do Cláudio Antonio.

4 comentários sobre “Conte Sua História de SP: o sanduíche de queijo e presunto da Americanas

  1. Nós é que agradecemos pela gentileza de ter compartilhado com os ouvintes da rádio e leitores deste blog suas lembranças de São Paulo. Aguardamos novas participações em breve. Grande abraço,

  2. Belíssimo texto tio Ismael, meu pai gostou muito de poder lembrar de um tempo tão bom que deixou muita saudade. Na época do papai o passeio incluía a coxinha do Gula Gula, na Avenida Ipiranga. Grande abraço.

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