Conte Sua História de SP: o leite na porta de casa e o padeiro na sala, na Alameda Franca

 

Por Cristina Khouri

 

 

Sou neta de imigrantes sírios que chegaram no Brasil ainda na adolescência. Meus Avós eram irmãos e aqui construíram seus negócios e fizeram família. Meu pai, Manoel Francisco, se estabeleceu na região da 25 de Março vendendo tecidos na famosa LOJA 73 na antiga Rua Santo André.

 

Ele me contava sempre sobre as histórias da cidade, como a construção do Mercado Municipal da Cantareira e da dificuldade de fazer a fundação pelo fato do solo não ser firme, dos lampiões de gás que eram acesos com uma vareta longa nos fins de tarde e apagados no começo da manhā. Sempre lembro desse detalhe quando passo todos os dias pela Praça da Sė a caminho do trabalho e vejo aqueles postes imponentes enfeitando a Praça. Imagino a magia desta cena! Pena que nāo estāo cuidados!

 

Falava-me sempre sobre a Revoluçāo de 32 e por que as iniciais MMDC no Obelisco do Ibirapuera.

 

Na época do carnaval, ele nos levava para acompanhar o Corso, um desfile de carro, e íamos felizes, sentados no porta malas aberto da perua Dodge, participando das brincadeiras de rua, jogando confetes e serpentinas nos foliões.

 

Passeava com minha māe, Dona Emília, na rua Direita, numa casa de lanche onde ela se encontrava com amigas para um chá. Aliás, também para compras, pois o comércio se concentrava no centro da cidade.

 

Lembro-me bem da nossa casa na Alameda Franca em cuja porta o leiteiro deixava as garrafas de vidro cheias de manhā e minha mãe retornava as vazias no dia seguinte quando ele trazia o leite novamente. O padeiro, o senhor Vilarinho, trazendo na sua camionete uma variedade enorme de pães, que ele colocava numa cesta oval de vime e entrava nas casas para as pessoas escolherem. Esse ritual acontecia no café da manhã e na hora do almoço. Enquanto eu almoçava, escolhia o pāo doce que iria levar para o lanche da escola.

 

 
Que emoçāo andar naquele bonde aberto na Avenida Paulista! Era um passeio divertido! E quando saíamos de carro, eu pedia pro meu pai sempre andar nos trilhos .

 

Assim como ir no Parque Shangai, no circo do Arrelia ou no Horto Florestal! As brincadeiras de rua, onde a meninada batia figurinha, jogava bolinha de gude ou andava de carrinho rolemā! Costumávamos ir até a Igreja da Penha pois meu pai era devoto.

 

Foram tempos marcantes na minha vida e de meus irmāos. Eu amo esta cidade, ela nos acolheu e ofereceu tudo que tem de melhor.

 

Cristina Khouri é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode enviar seu texto para miltonjung@cbn.com.br e ler outras história da nossa cidade aqui no Blog.

Conte Sua História de SP: chegamos em um caminhãozinho só com caixotes para sentar

 

Por Inês Scarpa Carneiro

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto da ouvinte-internauta Inês Scarpa Carneiro:

 

Sou a décima terceira filha de Dona Ana, somos em sete homens e seis mulheres. Minha mãe Ana chegou viúva com seus 13 filhos aqui em São Paulo, em 1959. Quando aqui chegou ficou tão encantada que gritou: isso é o paraíso!

 

Paraíso porque saímos de uma cidadezinha do interior chamada Echaporã – um chinês falava é sapo e o outro japones dizia é rã, então, ficou Echaporã.

 

Fomos morar em Vila Formosa. Chegamos em um caminhãozinho só com caixotes para sentar. Logo, ela colocou meus 5 irmãos a trabalharem no Moinho Santista e tudo melhorou. Os outros foram morar no comércio, na feira … Não deu  para nenhum fazer faculdade, mas todos vivem bem aqui em São Paulo.

 

Eu senti muito pois não conheci meu pai, morreu com 51 anos com complicações de uma mordida de escorpião que estava dentro do saco de arroz.

 

Aprendi a amar São Paulo como minha mãe amou, fiz um curso técnico agropecuário e  hoje sou produtora rural do Sítio da Felicidade e vendo meus produtos dentro de um galpão no parque da Água Branca. Tenho ovos verdes, coloridos, de “galinhas felizes”. Soltas, alegres, botam ovos quando querem, namoram o dia inteiro porque tem vários companheiros galos.

 

Esse foi meu grande sonho realizado aqui na cidade, pois eu pegava esses ovinhos coloridos lá em Echaporã para minha mãe quando tinha meus três aninhos…

 

Obrigado, São Paulo por nos acolher. Você sempre vai estar em meu coração. Cada vez que viajo não vejo a hora de voltar.

 

Inês Scarpa Carneiro é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Você pode contar mais um capítulo da nossa cidade: mande seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: a encomenda do japonês

 

Por Marco Antonio Alcantara Fernandes

 

 

Entre os anos de 2001 e 2003, eu já fazia transporte executivo. Tinha um Omega azul marinho, placa DEP3333. Eu de terno, óculos escuros, num  bom estilo.

 

Estava voltando do Aeroporto de Guarulhos pela Avenida Tiradentes quando um amigo, que também faz esse serviço, me liga perguntando se poderia ir até Guarulhos na casa de um cliente dele que esquecera uma encomenda e não poderia embarcar por Congonhas sem ela.

 

Era um japonês, Dei meia volta e fui correndo à casa dele. Uma japonesa já me aguardava na porta com um pacote retangular e me entregou em mãos. O que tinha no pacote? Pelo estilo, parecia dinheiro, dólar ou similar.

 

O VIP me ligava a todo instante e o trânsito não auxiliava. E com muita pressão, tomei uma decisão: comecei a parar as motos no corredor da Tiradentes para ver se o motociclista aceitava trocar comigo.

 

Após algumas tentativas e parecendo um doído com minha proposta – ele me emprestava a moto e levava meu carro até Congonhas por um R$50,00 – eis que surge um filho de Deus. O rapaz ainda tentou me explicar as manhas da moto, mas a adrenalina estava forte para concentrar naquele assunto. Troquei números de celular e estava saindo quando, 50 metros à frente, vi que havia esquecido o dito pacote em cima do banco  do carro. Voltei ainda no contra fluxo, peguei o pacote e ele voltou insistir, queria me instruir sobre freio, marcha e outras coisa.

 

A moto era muito pequena. As rodas não estavam alinhadas. Uma mais à esquerda, outra mais à direita. O capacete não entrava todo na cabeça. Mesmo assim, lá fui eu: 1 metro e 89 de altura, 120 quilos, terno e gravata, no comando daquela pequena e abençoada moto.

 

Foi difícil. Mas cheguei e entreguei a encomenda. O VIP nem percebeu o movimento, me deu um cheque de R$ 100 chorado … e eu fiquei mais uns 45 minutos aguardando a chegada do abençoado motoqueiro. Dei-lhe R$50,00 e seguimos nossos caminhos.

 

Marco Antônio Alcantara Fernandes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar mais um capítulo da nossa cidade: mande seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: a primeira menina de algum lugar

 

Por Rosangela Mascarenhas de Mendonça

 

 

Considero-me a típica paulistana que nasceu no fim dos anos 60 bem próxima da mais paulista das avenidas, no Hospital Matarazzo. Trabalho desde os 16 anos e mesmo criança já sabia o que queria. Minha história é sobre este querer: lembro de estar em uma sala imensa com um grande espelho na minha frente, eu vestia macacão rosa, sainha e sapatilhas da mesma cor, além do coque na cabeça – como toda menina que faz ballet. Do alto de meus 8 anos, chorava copiosamente: “Quero lutar, não quero dançar”,dizia aos prantos. O seriado da moda era Kung Fu, do David Carradine, e os meus desenhos animados eram Sawamu, Super Dínamo, Ultramen …

 

Minha mãe, que já faleceu, atônita, acabou desistindo de me levar para a atividade praticada por 99% das meninas. Porém, ela falava que luta era para meninos. Eu ouvia aquilo e pensava: serei uma lutadora, nem que seja a primeira menina de algum lugar.

 

Com as sincronicidades da vida, poucos anos após minha saída do ballet, estava eu descendo do ônibus azul da CMTC, Avenida Circular 508-J, feliz da vida, ao lado de meu amigo Marcinho, indo em direção a Rua Vitorino Carmilo, na Barra Funda, onde está a primeira sede da Sino Brasileira de Kung Fu. Que sensação maravilhosa e eterna me invadiu, eu estava no lugar dos meus sonhos, uma sala grande rodeada por aquelas armas que povoavam os meus filmes e desenhos preferidos.

 

Meu encontro com Chan Kowk Wai, o Mestre, que começou a treinar com 4 anos foi inesquecível. Ele me recebeu com muita gentileza e atenção, falou que eu poderia começar a treinar assim que meus pais aprovassem. Minha mãe aprovou na hora minha entrada no mundo das artes marciais, pois o Mestre enfatizou que arte marcial era para todos que quisessem levar uma vida saudável, disciplinada e pacífica. A vida deste imigrante chinês é coerente com o que ele prega: dá aulas diárias para centenas de alunos até às 11 da noite e está com mais de 80 anos.

 

Naquela época poucas meninas treinavam na Academia, eu fui muito bem acolhida por todos e alguns treinam comigo até hoje; de 1980 até 2015.Costumamos dizer que somos a família Chan.

 

Sou professora formada pelo Mestre Chan, também sou formada em Tae Kwon Do, pela Academia Liberdade. Lembra do começo desta história quando pensei que nem se fosse a primeira, pois fui a primeira mulher 2º Dan de TKD do Brasil; o dan é graduação de faixa preta.

 

Hoje, treino somente Kung Fu, apesar de ter amigos e respeitar todas as artes marciais que pregam a não violência. o controle da mente e o caminho da paz.

 

O Circular Avenidas saiu de linha; a Sino Brasileira está em outro endereço, minha mãe cuidadosa mora no meu coração e um marido amoroso me acompanha nos eventos e na vida. Continuam iguais o encantamento, o entusiasmo e a alegria. Os mesmos que povoavam o coração daquela menina que batalhou por sua vocação e por uma vida com sentido e produtiva.

 

Terminando esta história: tenho uma imensa felicidade de ter gravado entrevista que minha mãe, emocionada, deu para a TV, na época em que eu era penta campeã brasileira e conhecida como a Loira do Tae Kwon Do. Ela disse e me emociono ao lembrar: “tenho um orgulho imenso da minha filha”

 

Rosangela Mascarenhas de Mendonça é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade, envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: no cortiço, os melhores dias da minha infância

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto de Mariza Christina, de 60 anos, moradora da Água Funda, que preferiu escrever uma carta à mão em lugar de nos enviar um e-mail, pois assim se sente mais próxima das pessoas:

 

 

Em 1961, eu estava com 7 anos e minha irmã, 5. Meus pais passavam por dificuldades financeiras, não podiam pagar mais o aluguel da casa onde morávamos, no bairro da Ponte Rasa, onde nasci, por isso decidiram que iríamos morar com a minha avó materna até a situação melhorar. Ela morava na Rua da Glória, entre a Rua Conselheiro Furtado e a Rua Lava-pés, bem no centro de São Paulo. Era um terreno longo e estreito com vários quartos. Imagine seis pessoas num quarto 6×3, mais ou menos, era um aperto danado, bem diferente da casa grande e confortável que vivíamos, mas para mim e minha irmã era novidade e nos divertíamos muito.

 

Naquela época era comum quartos como aquele por serem baratos e fáceis de alugar, eram popularmente chamados de ‘cortiços’. E foi nesse quarto tão simples e apertado que passei os melhores dias da minha infância. Moramos lá um ano, mas o suficiente para deixar muitas lembranças.

 

Fiquei encanada quando vi pela primeira vez o bonde, aquele carro grande que andava sobre trilhos carregando pessoas, e fiquei intrigada como elas não se molhavam quando chovia, pois não tinham portas! Será que elas abriram o guarda-chuvas?! Corri para contar à minha avó, tão curiosa e ofegante que mal podia falar. Assim que pude, a enchi de perguntas. Quanto ela me disse que os bondes iriam acabar, pois estavam sendo substituídos por ônibus, fiquei muito triste: eles eram tão bonitos! Às vezes, ficava horas no portão só para vê-lo passar, queria gravar aquela imagem na memória.

 

Todos os dias, as duas horas da tarde, saía uma fornada de pão da padaria que havia em frente a nossa casa, o cheiro era inebriante e tão delicioso que até hoje quando me lembro posso sentir aquele cheirinho maravilhoso. É inesquecível!

 

O Carnaval estava próximo. A ansiedade era grande, eu nunca tinha assistido a um desfile. Ao lado da nossa casa tinha uma lojinha que vendia de tudo; fantasias, plumas, máscaras, adereços, etc … O movimento na loja era enorme, pessoas que entravam e saíam alegres com fantasias que iriam vestir. Meus olhos brilhavam com tantas coisas bonitas e coloridas. Meus pais também iam desfilar e deixaram que eu ajudasse a escolher suas fantasias. Compraram ainda confetes, serpentinas e bisnagas de água, para mim e minha irmã.

 

Ainda não existiam blocos ou escolas de samba, eram cordões. As fantasias simples, sem luxo, porém, muito bonitas e criativas. Os cordões se concentravam na Rua Lava-pés e de lá saíam cantando marchinhas que até hoje são lembradas, subiam a rua da Glória e outras ruas do bairro. Quem não desfilava acompanhava jogando confetes e serpentinas. No ar, exalava um perfume delicioso de lança-perfume. Ao fim do desfile ia-se atrás do cordão preferido.

 

Apesar das dificuldades foram os dias mais felizes das nossas vidas e, com certeza, deixou muitas saudades em todos nós.

 

Mariza Christina é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. Ou mande um carta como fez dona Mariza.

Conte Sua História de SP: pássaros, cheiros e sabores da cidade

 

Por Elisabeth Cury

 

 

Nasci em São Paulo e aqui estou até hoje. São anos e anos!

 

Vou puxar pela memória, buscar acontecimentos. Mas não vou puxar muito, não. Drummond dizia que o que for preciso de esforço para lembrar é que não foi importante.

 

Sei de uma coisa: desde muito cedo me deixei impressionar pelos sentidos. Foi meu jeito de captar o mundo, a vida, esta cidade. Então vai ser fácil.

 

Eu morava na periferia, quando ainda havia trechos de mata – a Atlântica – no caminho para o centro, para a “cidade” como se dizia.. Procurava ver, ouvir, sorver os aromas, saborear, pegar, vendo tudo que podia com minhas próprias mãos. – sentir.

 

Que céu! O ar transparente: de dia, quando havia sol, nuvens espetaculares, sobre azul, com formatos que eu queria sempre associar a bichos, gente, coisas, como fazem as crianças. À noite, estrelas no azul-marinho. Nessa hora, meu pai, que fora pescador marítimo em sua terra, me dava aula de céu – o que era estrela, o que era planeta, constelações e o nosso Cruzeiro do Sul.

 

O cheiro da terra molhada, quando chovia. Delícia! Natureza. Nas trovoadas, minha mãe punha-nos, a mim e a meu irmão, debaixo de uma mesa, embrulhava a tesoura que usava nas costuras em um pano, toda a casa ficava fechada. Ninguém podia fazer nada, até que o mau tempo passasse. Então podíamos sair. Era hora de ver a enxurrada em ruas e terrenos de bairro que principiava.. Era pôr o pé na água, sem ninguém falar às crianças que podia dar leptospirose. Era muito divertido molhar os pés, soltar barquinhos de papel.

 

Revoada de pardais no amanhecer e no entardecer. É que nos fundos do meu quintal havia um riozinho, ainda limpo naquele tempo, e, na beirada, uma touceira de bambu, opulenta. Era dormitório de um sem número de pardais. O dia acordava com uma cantoria inesquecível. À tardinha, eles iam chegando. O movimento deles nessa hora era curioso: não chegavam e iam quietinhos para o abrigo noturno. Não. Em bandos incontáveis, pousavam e logo saíam em revoada, descreviam um círculo e voltavam. Outro bando partia. Assim ia até ir escurecendo e eles se aquietando em seus lugarezinhos.

 

Os parentes que iam em casa – nesse tempo usava-se receber e fazer visitas – desfrutavam desse acontecimento. Era até uma atração turística da minha casa. Além dos pardais, os bem-te-vis, os sabiás, as rolinhas e o arrulho dos pombos da comadre, vizinha, que mantinha um pombal.
Perfumes. Principalmente o de gardênia, que minha mãe chamava de jasmim-do-cabo e que ela conservou em nosso jardim por muito tempo, quase sempre.

 

Sabores: de uva, azedíssima e de mexerica, já que havia nove pés no quintal. Eu só tinha uma pena: eu queria que elas dessem no verão, que eu ia aproveitar mais. Elas ficavam prontas no outono, quando já estava frio.

 

Era a São Paulo da garoa, muitos meses do ano em cinza. Que frio!… Acho que é por isso que eu estou sempre pronta para o inverno, foi meu princípio, foi como conheci o meu lugar no mundo.

 

Saudades dessa São Paulo!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar outros capítulos da nossa cidade, escrevendo seu texto e enviando para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: serei parte desse teu chão

Por Valdeni da Silva
Ouvinte da rádio CBN

 

 

Minha história inicia-se nos anos sessenta em um patrimônio chamado Aricanduva que pertence ao município de Arapongas que se localiza no norte no Estado do Paraná.

 

Cresci livre correndo entre as matas e cafezais, nadando nos límpidos riachos e se alimentando com carne fresca de porco e galinha e de frutas e legumes fresquinhos colhidos na horta e nos pomares que havia em todas as propriedades rurais, a minha infância foi de intensa felicidade, pois não conhecia o mal nem a malícia e a perversidade que assediam as crianças de hoje.
Cresci ouvindo a voz do Brasil e ouvindo falar na tal ditadura que papai nos explicou que era proibido falar mal do governo e só havia dois partidos o MDB que era dos pobres e a Arena que era do governo e dos patrões. Papai era o MDB, mas a gente não podia dizer isso na escola, nos dias de eleições no Ginásio Júlio Junqueira em Aricanduva a gente via o medo estampado no rosto das pessoas e os eleitores não ousavam nem cochichar pois eram vigiados o tempo todo e ao final das eleições que foram regulamentadas pelo AI 15 – este ato institucional impôs a data das eleições nos municípios para 15 de novembro de 1970 -quem vencia era sempre o candidato do governo.

 

Ditadura à parte, a vida continuava ótima na roça, os porcenteiros e sitiantes festejavam um ano de safra recorde de café até que chegou o fatídico ano de 1975. Talvez a melhor maneira de descrever este fato seja narrando-o do ponto de vista pessoal. Para os que viveram no Norte do Paraná naquela época, aquele inverno significou uma tragédia ao mesmo tempo coletiva e particular, algo que o Brasil praticamente não percebeu o verde dos campos foi substituído por um cinza funesto e os incêndios se alastraram pelo estado que teve a cafeicultura e hortaliças dizimadas pelo gelo. Foi essa geada de 1975 que quebrou a hegemonia do Estado do Paraná na produção brasileira de café, cedendo essa posição para Minas Gerais.

 

A exemplo de muitos, esperanças congeladas, lavradores frustrados, papai resolveu que viríamos para São Paulo, o Eldorado dos aventureiros, terra onde se ganha dinheiro e sucesso, aqui compramos casa em Vila Curuçá, encontramos emprego e com muita garra e luta nos estabilizamos. Fui Office boy, entregador, carteiro, metalúrgico e hoje sou um educador, profissão que amo de paixão, funcionário público com muito orgulho.

 

Se perguntarem se fui feliz na infância e adolescência digo que sim, pois tive o prazer de lutar pelas Diretas Já, fui ao Anhangabaú onde havia mais de dois milhões de pessoas reivindicando por um país democrático e eleições.

 

Sou hoje paulistano por adoção e amo São Paulo que tanto contribuiu para minha emancipação financeira e deu a minha amada querida esposa – também Educadora -, filhos e neto, enfim São Paulo é de todos, de negros, de brancos, de crentes, de católicos, de sulistas, nordestinos, estrangeiros… Se eu fosse ficar falando bem de São Paulo essa história quase não teria fim.

 

Ah São Paulo tão amada, cultuada e cantada em versos e prosa, símbolo da América do Sul, locomotiva que puxa o país, como eu te amo. Chão abençoado que como imã atrai os povos de todos os lugares.

 

Quando meu corpo tombar serei parte desse teu chão e meu corpo em teu corpo se tornará um só corpo e seremos sempre felizes.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, no CBN SP, logo após às 10 e meia da manhã. A sonorização é do Cláudio Antonio.

Conte Sua História de SP: aqui fui apresentada ao rádio

 

Por Dina Gaspar

 

 

Não, não, não, gritava eu… não quero entrar… tenho medo, tenho medo … tem muito barulho … tem gente brigando aí dentro, tem muita gente brigando …. E mais me agarrava fortemente com as pernas ao corpo e com os braços ao pescoço de minha prima Ercília. E a empurrava para trás para não me levar para dentro de sua casa… Era fim de tarde, noitinha …

 

Apesar de seus 16 anos completados naquele dia, Ercília era muito maior e muito mais forte, que o dobro da diferença de nossa idade, naquele ano. Eu era muito pequena e mal tinha completado oito anos de idade, no dia 20 de janeiro de 1953, num navio argentino chamado Corrientes, do qual desembarcamos, minha mãe e minha irmã dois anos mais velha, em Santos, no dia 26 de janeiro.

 

No colo de minha prima, ainda que desconhecida até aquele dia, mais a proximidade de meu pai – que reencontrávamos depois de um ano -, minha mãe e minha irmã, não foram suficientes para me dar confiança e coragem de enfrentar aquelas vozes. Vozes que eu não sabia de onde vinham, não as reconhecia e, mais, não falavam a minha língua… Soavam apenas como perigo iminente!

 

Fui assim apresentada ao rádio!

 

De onde eu vinha, uma pequena e pobre aldeia chamada Avelãs da Ribeira, na Beira Alta, meu mundo era outro. Foi como sair da Idade Média diretamente para um mundo totalmente desconhecido e séculos à frente: a modernidade do Brasil, da grande cidade de São Paulo. E, também para o populoso e operário bairro de Vila Maria, onde morava uma grande colônia de portugueses e, no meu caso, a família de minha mãe.
Mal podia acreditar que dentro daquela caixa de madeira escura de uns 60cm x 40cm, sobre o guarda-louça, estivessem todas aquelas vozes… E que lá coubessem tantas pessoas! Aé então para mim tudo era concreto, racional e lógico… e distante das modernidades do mundo! Acreditava que se a estátua de um menino na Igreja de minha aldeia, que segurava um globo numa das mãos, caísse e se quebrasse, o mundo acabaria.

 

Além de poucas pessoas, todas familiares, só conhecia a natureza e com ela tinha toda intimidade. Conhecia todos os recantos de minha pequena aldeia e todas as demais onde meus parentes moravam. Andava pelos campos sem medo nem desconfiança. Explorava a floresta com a certeza de que apenas os homens e os animais e os insetos por ali andavam, ou viviam…

 

E na natureza, vozes não identificadas causavam medo e precisavam de explicação e comprovação visual. Sempre! Ou pertenciam às histórias que os adultos, à beira da fogueira, contavam, as quais enchiam as crianças de medo. Eram os fenômenos ou acontecimentos que o aldeão não conseguia explicar. Já faziam parte de sua cultura.

 

No mundo infantil não existiam apenas vozes, sem corpo!

 

E despertei, em São Paulo, para o mundo complexo e onde tudo era novidade. Não foi fácil adaptar-se à cidade grande que para mim era o próprio Brasil, inteirinho na cidade de São Paulo. Ou melhor, ao redor de minha casa na Vila Maria.

 

No ano seguinte, no dia 25 de janeiro de 1954, da casa comunitária que dividíamos com mais duas famílias, na Rua Mére Amedea, já na direção da Vila Maria Alta, São Paulo continuava me surpreendendo com suas inúmeras e cotidianas novidades. E, naquela noite, olhando ao longe e do alto para o perfil dos grandes prédios do centro de São Paulo, destacado pelo maior arranha céu da época, hoje, Banco do Estado de São Paulo, vi uma chuva prateada ou dourada cair em comemoração do Centenário da Cidade de São Paulo. O céu brilhava! Não eram estrelas verdadeiras que caíam. Porém, no meu mundo infantil, eram ainda mais bonitas, brilhantes e misteriosas…

 

Nesse dia em que a cidade de São Paulo completava 400 anos de fundação, eu, com apenas nove de vida, ainda não sabia, mas, teríamos pela frente muitos anos juntas e de intensa vivência … Veríamos o progresso mútuo, acompanharíamos uma à outra em nosso cotidiano e faríamos parte das novidades do mundo … E que, dessa intensa e intrincada vivência, os 70 anos seguintes nos mudaria a ambas: a mim e a São Paulo!

 

E para muito melhor! Seria o resultado dos milhares de estrelas cadentes daquela noite de aniversário de São Paulo ?

 


Dina Gaspar é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: licença para ser paulistano

 

Por Silvio Afonso Almeida

 

 

Minha paixão pela cidade de São Paulo começou bem cedo e cada vez aumenta mais. Cheguei de Minas Gerais aos três anos de idade e minha família foi morar em Diadema e depois em São Bernardo do Campo no ABC paulista.

 

Na minha adolescência tinha o sonho de ir a São Paulo para comprar roupas, pois era comum ouvir as pessoas contarem o quanto era legal fazer compras na “cidade”. Na primeira vez me assustei, mas a sensação foi inesquecível: subir a General Carneiro entupida de gente foi uma visão incrível. No entanto, era difícil fazer aquilo sempre. Aos 19 anos vim morar na zona Leste de São Paulo sem ter outra opção, já que minha família encontrava-se numa tremenda crise e eu já era seu arrimo. O bairro não era exatamente o panorama de meus sonhos dessa maravilhosa cidade e foi difícil me acostumar. Mas com o tempo meu coração foi encontrando seu lugar aqui. Me recordo do dia em que passando em frente a Bolsa de Valores, vi um homem muito bem vestido falando em um aparelho móvel colado ao ouvido eu não acreditei no que via, era um celular, embora não tivesse noção exata disso. Tudo ao meu redor me provocava encantamento e fui me apaixonando.

 

O apogeu dessa minha paixão foi no dia em que tive a oportunidade de fazer um voo panorâmico pela cidade. Era uma promoção de um fornecedor da empresa em que eu trabalhava. Foi arrebatador! Decolamos do Campo de Marte e logo o horizonte infinito de São Paulo foi se desdobrando diante de minha vista. Como era imensa! Linda! Todas aquelas sensações iam como que consolidando dentro mim a minha ligação com essa cidade. O medo do aparelho voador ficou em último plano. Sobrevoamos o Ibirapuera, depois tive a impressão de estarmos sendo engolidos pelos telhados até pararmos bem encima da maravilhosa Avenida Paulista. Ciente do quanto eu gostava da cidade, o comandante fez questão de girar a aeronave em 360° e eu quase perdi o fôlego diante daquele espetáculo. Em seguida, nos dirigimos ao edifício Itália para onde iríamos mais tarde para um jantar. Dalí, fomos para Perdizes e pairamos sobre o Parque Antártica onde eu costumava assistir o verdão jogar. Infelizmente era um dezembro escuro do ano de 2001 e estávamos em plena crise de energia elétrica e o racionamento apagou as luzes do natal.

 

Do alto do Terraço Itália, saboreando uma trança de salmão com um legítimo vinho italiano, contemplávamos a cidade e eu tinha uma certeza: São Paulo é realmente a minha cidade e tive licença de me considerar um paulistano.

 

Silvio Afonso Almeida é personagem co Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você participar com história enviadas, em texto, para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: aquela família que a gente forma por opção

 

Por Laura Hokama
Ouvinte da rádio CBN

 

 

São Paulo em que nasci, vivo profundamente todo o caos urbano e agradeço aos meus avós que vindo se aventurar de Okinawa- Japão, passaram por outras cidades e… pararam em São Paulo!!! Ê…Ê…Ê…Ê… São Paulo … Ê ….. São Paulo, São Paulo da garoa, São Paulo da terra boa!

 

Nos meus 50 e tralala…. morei no Tatuapé cuja referência é a rua Jacirendi, travessa da avenida Celso Garcia…. rua em frente ao prédio do Banco do Brasil, este construído com pastilhas brancas e azuis que na época era super Chic!

 

Na lembrança os vizinhos: dona Mercedes que morava num casarão chic e tinha telefone na casa dela! Ah! A dona Higínia também tinha sua casa muito chic e telefone! Esta por gostar muito da minha mãe, oferecia, quando se fosse por necessidade, o uso de seu telefone, mas a dona Guida, minha mãe, educadamente, sempre agradecia e quando precisávamos corríamos na farmácia do Megale para telefonar e não incomodar a dona Higínia!

 

A dona Léa, também com seu acolhimento humanamente amoroso, abria a sessão de sua super TV para os amigos de seu filho, o qual era o meu amigo rico!! As lembranças das tardes que chegávamos em sua casa, tirávamos os chinelos no quintal e entrávamos na sua cheirosa casa, íamos para a sala e assistíamos a TV, não lembro a marca, mas era linda, ficava embutida num armário com duas portas que se abriam para ser ligada e nos entretíamos por horas!

 

Tinha o barzinho do “ seu Zé” que, vez ou outra com os trocadinhos que guardávamos, íamos lá para escolher os doces de sua vitrine. Eu adorava o suspiro cor de rosa! São muitas as lembranças desta rua que ainda residem em minha memória!

 

Crescida, morei em outros bairros, fui morar em outras cidades do interior, e, agraciada, voltei para São Paulo!

 

Hoje, resido na Água Branca! Aqui era uma região com muitas fábricas e casas. Infelizmente ou felizmente, estão chegando os prédios, um deles onde moro. No prédio, vão chegando os novos vizinhos, todos se conhecendo e, passado um ano de convivência, formamos uma família! É, aquela família que a gente forma por opção! Afinidades por pensamentos, crenças e atitudes! Alguns, às vezes, se estranham, mas arrumam um jeitinho para conviver.

 

Percebo que estamos fazendo parte da mudança da região, fábricas saindo e chegando as moradias residenciais. Sabe, já está previsto uma linha do metrô, que ficará a poucos metros do prédio.

 

É a nossa São Paulo se modificando, crescendo e se expandindo para acolher os filhos da Terra!

 

Laura Hokama é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie a sua história para milton@cbn.com.br