Conte Sua História de SP: dos tempos da Vila Medeiros

 

Por Odnides Pereira
Ouvinte-internauta da CBN

 

Ouça esta história que foi ao ar no CBN SP, sonorizada pelo Claudio Antonio

 

Minha história com São Paulo começou quando em 21 de abril de 1959, nasci na maternidade de Vila Maria, meus pais moravam em um cortiço no bairro de Vista Alegre, já tinha um irmão de dois anos. Depois eles comparam um terreno na Vila Medeiros na divisa com a Vila Sabrina (todos esses bairros estão na zona norte), onde construíram nossa casa existente até hoje. Naquela época parecia não haver tanto perigo, tanto que minha mãe percebendo que choveria pediu que eu levasse um guarda-chuva para meu irmão que estava na escola de madeira (Escola Estadual Enéas de Carvalho Aguiar) onde estudava o primeiro ano primário. Bati na porta, a professora abriu, em um primeiro momento não me viu, eu tinha cinco anos. Depois pediu para meu irmão avisar minha mãe para não repetir essa façanha, pois eu poderia me perder.

 

Minha infância foi jogar bola, brincar de “manda rua”, esconde-esconde, raqueta ou taco, estreação de nova cela, bolinha de gude, pega-pega, entre outras brincadeiras sempre na rua que não era asfaltada. Quando chovia muito, além de jogarmos bola na chuva, e dava enchente por não existir as galerias de água, meus amigos e eu, entrávamos na correnteza no início da rua e só parávamos no final dela.

 

Onde hoje é o Jardim Guançã era o nosso Varjão, existiam por volta de dez campos de futebol de várzea. Aos domingos, assistíamos aos jogos. Como os campos eram muito perto um dos outros muitas vezes a bola de um jogo caprichosamente caía no campo do outro, mas nada disso atrapalhava ninguém. No caminho para o Vajão, existiam lagoas, pescávamos os pequenos lambaris. Era muito divertido.

 

Estudei o primário na escola de mesmo nome que meu irmão estudou, e já era de tijolo recém-reconstruída. Tive que fazer o exame de admissão e fui estudar o ginásio no Primeiro Colégio Estadual de Vila Medeiros. Às vezes tinha que correr da gangue da Turma do Coqueiro. Fiz a primeira comunhão na Igreja Nossa Senhora do Loreto também na Vila Medeiros.

 

Tinham os “bailinhos na garagem” com muito samba-rock, regado por Jacson Five, Billy Paul, Barry White e até Pink Floyd. Dançávamos até tarde ou seja onze e meia da noite.

 

Fiz o curso técnico de eletrônica, na Oswaldo Cruz – Paes Lemes, que era o colégio técnico, onde se fazia o colegial, também. O curso superior de Marketing, foi na faculdade IBTA.

 

Casei-me tenho um filho e um neto, sou aposentado, tenho uma chácara em Itu, mas continuo a morar na zona norte agora no Bairro do Mandaqui. Já pensei em mudar para a chácara, mas minha esposa não quer sair dessa nossa capital, que apesar da correria, trânsito, entre outras coisas, não conseguimos nos afastas de tudo isso, impregnou no nosso sangue! Adoramos São Paulo.

 

Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Agende uma entrevista em áudio e vídeo no site do Museu da Pessoa ou mande um texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: a cidade das revistas

 

PorJúnia Lopez
Ouvinte-internauta da CBN

 

Ouça este texto que foi ao ar na CBN, sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

Quando era pequena, morava na região central do país. Lá naquelas terras longínquas onde muitos sulinos na ignorância acreditam ser terra de índios e feras. Naquela época os índios já haviam sido extintos e as feras quase totalmente.  Isso foi por volta dos anos 1980, quando ainda vivíamos às sombras da ditadura militar. Os meios de comunicação eram precários, nem todas casas tinham um televisor e mesmo assim sobressaíasse à censura.

 

Mas uma coisa  lembro-me com clareza. Semanalmente, a revista Veja chegava com as principais notícias do país e do mundo. Raramente uma matéria sobre as regiões menos povoadas como o estado de Goiás. Era a melhor revista que recebíamos. E  sempre trazia propagandas sobre lojas que não existiam por lá ou marcas que não vendiam em nosso comércio. Nossa cultura era outra e bem menos consumista.  Esta época não era de globalização.

 

Quase três décadas após,  uma história de amor trouxe-me  à capital paulista  e , meses depois,  a São Paulo das revistas tornou-se a minha rua, a minha casa, o meu bairro  Higienópolis. Tudo aquilo que parecia longe à minha imaginação infantil, está há poucas quadras, há poucas ruas ou há poucos “minutos”  como os paulistanos costumam dizer.

 

Quando saio nas ruas de meu bairro, começo  reviver cada imagem que na minha infância era apenas coisa de  revista.  E cada semana quando as revistas chegam,  ponho-me a analisar cada foto, cada reportagem e fico a pensar quantas pessoas conhecem a grande metrópole apenas pelas revistas.

 


Conte você também mais uma historia da nossa cidade. Agende uma entrevista, em audio e video, no Museu da Pessoa. Ou então, mande seu texto por escrito para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: o asfalto chegou à minha rua

 

Por Elene Ap. Franco

 

Ouça esta história contada na CBN com a sonorização do Cláudio Antônio

 

Nasci no ano de 1971 num bairro conhecido como Jardim Aidar. Hoje, ninguém mais conhece assim, apenas sabem do Jardim Danfer – zona leste de São Paulo. Morei neste bairro durante mais de 25 anos e não me afastei muito dali. Ainda moro próximo, mas alguns episódios marcaram bastante minha história em São Paulo, como o asfalto colocado na rua de casa. Na época eu tinha seis anos, porém estava com a perna quebrada por conta de um acidente doméstico. Era terrível ficar sentada ao lado do muro, olhando as crianças e jovens brincando no asfalto com seus carrinhos de rolimã e suas bicicletas. Mas também era maravilhoso ver o progresso chegando. Lembro que brincávamos muito na rua, só entrávamos quando era hora de meu pai chegar em casa. Ele não gostava de crianças na rua.

 

Todos os anos, meus irmãos, meu pai e eu viajamos para o Paraná (todos os parentes do meu pai são de lá), mas a viagem era fantástica porque era de trem.  Íamos de trem da Estação da Luz até Presidente Prudente, no interior de São Paulo, em média dez horas de viagem e de lá seguíamos de ônibus até nosso destino. Na chegada em Presidente Prudente, o sempre e tão esperado lanche, espetinho de frango, servido em uma lanchonete de chineses próximo a rodoviária de lá. Acho que viajamos mais pelo prazer da viagem e do lanche do que pelos parentes. Pelo menos nós crianças.

 

Tivemos uma vida difícil mas muito gratificante pois foi preenchida de amor, carinho, respeito e honestidade. Hoje sou mãe, minha filha tem três anos e, infelizmente, ela não pode brincar na rua, seja pela violência tão presente seja pela irresponsabilidade dos motoristas que passam onde moro como se estivessem em uma pista de corrida.

 

Apesar de alguns problemas causados pelo homem e pelo progresso, São Paulo é maravilhosa por seus edifícios grandiosos, suas ruas iluminadas, sua gente que na maioria é muito acolhedora.

 

Enfim, por tudo isso, não saio de São Paulo.

 

Conte Sua História de SP: as histórias que meu pai contava

 

Por Denise Domingues
Ouvinte-internauta do Jornal da CBN

 


Ouça aqui o texto que foi ao ar na CBN, sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

As histórias que meu pai contava…

 

 
Sou do ano de 1968, nascida no bairro do Brás e criada até a pré-adolescência no bairro do Tatuapé. Sou filha de mãe de origem caipira e de pai paulistano da gema, de origem típica da década de 1930, uma mistura de espanhol com italiano, do tipo que lembrava o Adoniran Barbosa quando falava.

 

Das muitas lembranças que trago da infância, uma me deixou marcas profundas: os passeios de carro com meu pai pelas ruas da cidade. Ele adorava dirigir, sempre teve carro – nunca novos – mas sempre os teve. Aos domingos, após o almoço tradicional italiano, servido à macarronada e frango, costumávamos fazer um programa que a mim sempre soou incrível: sair de carro sem rumo pela cidade de São Paulo.

 

Todos no carro, eu, papai, mamãe, saíamos com roteiros sempre diferentes a cada domingo. Obelisco do Ibirapuera, Avenida 23 de Maio, Estádio do Pacaembu, Praça Silvio Romero no Tatuapé, Avenida Paulista, Igreja do Rosário da Penha, Igreja da Sé. Era uma infinidade de lugares pelos quais passávamos, monumentos, avenidas. Bem que meu saudoso pai poderia ser guia turístico na cidade! A cada lugar visitado, em cada rua que passávamos, lá vinha ele com uma descrição ou história para contar. Aprendi muito. Falava dos lugares, contava suas aventuras de infância passada a braçadas no Rio Tietê e a corridas nas chácaras da zona leste. Contava como eram aqueles lugares no passado, enfim, uma história atrás da outra.

 

Dentre os passeios que fazíamos, o que eu mais adorava era ir até o Aeroporto de Congonhas. Sempre fui apaixonada pelos aviões e sabendo disso meu pai parava o carro em uma rua próxima ao aeroporto. Lá ficávamos sob os pássaros gigantes que passavam admirando sua grandeza. Eu sempre dizia ao meu pai que um dia eu viajaria de avião. E ele, com sua simplicidade: “avião é coisa pra rico, filha…”. Coisa que nós, definitivamente, não éramos.

 

Aos 44 anos, tenho a felicidade de dizer que meu sonho foi realizado, já cruzei o oceano de avião, e tenho mais horas de vôo dentro do Brasil do que muito co-piloto. Mas como aprendi com meu saudoso pai a admirar esta cidade, sempre volto. E pretendo ficar por aqui até o fim da minha vida.

Conte Sua História de SP: moradora e turista da nossa cidade

 

Por Adriana Yamamoto Christofolete
Ouvinte-internet da CBN

 

Sou uma paulistana que aprendeu a ver nossa Sampa com olhos de turista. Cresci na região Oeste de São Paulo, no bairro do Bonfiglioli. Vivi até os 21 anos nessa região, a vi crescer e passei grande parte da adolescência passeando no meu quintal: a USP. Naquela época era aberta ao público, andava de bicicleta pela FAU, perto do MAM, empinava pipa, fazia yoga e namorava comendo pipoca com queijo na Praça do Relógio. Fazia parte do Grupo Escoteiro Paineiras que tinha sua sede dentro do campus. Não tinha ideia de como era um privilégio estar nesses espaços!

 

Ouça este texto que foi ao ar no CBN SP e sonorizado pelo Cláudio Antônio.

 

Em 1991, quando entrei na psicologia do Mackenzie – apaixonei-me pelos prédios de tijolinho aparente. Adotei o campus do Mackenzie e seu entorno, onde conheci meus melhores amigos e meu marido, passei a frequentar e conhecer mais a região do centro e da Avenida Paulista. 

 

Em 1993, casei e passei a viver na Móoca, meu! Nunca tinha imaginado que o bairrismo fosse tão forte. Fui adotada pela Moóca e pelos mooquenses, com os quais  criei meus filhos passeando pelos Parques do Piqueri, Ibirapuera e do Carmo.

 

Contudo, em 2004, tivemos que ir embora para a cidade de Bertioga, litoral de São Paulo. E, além das saudades de todos e dos lugares cotidianos, passamos a sentir falta de algo que é tão óbvio para quem nasceu e vive em São Paulo desde sempre: ter de tudo à mão, desde um simples café expresso a qualquer hora até a enorme diversidade cultural. É quase absurda, mas até a visão do traçado de luzes dos carros, à noite, na Marginal, faz falta! Sem falar no acolhimento dos prédios por toda a cidade. E o pôr de sol nas tarde de outono? Devido à poluição é um vermelhão lindo! Fazer o quê nem tudo é perfeito!

 

A angústia do afastamento, nos fez, nos últimos anos, passear mais em São Paulo. Sempre que podemos, visitamos nossos amigos e familiares. Aproveitamos a variedade gastronômica para todos os bolsos (pastel de feira, coxinha na padaria, jantar na Rua da Consolação, almoçar em Cantina na Moóca, comida mineira, japonesa ou árabe no shopping, ou comida chinesa delivery. Fizemos quase todos os roteiros do TurisMetrô, só se paga o bilhete da passagem e somos guiados por pontos turísticos e históricos de nossa cidade, inclusive parques e museus; frequentamos o da Língua Portuguesa, o do Futebol, o da Imagem, o MASP, o MAM, o MAC, a Pinacoteca, o Centro Cultural do Banco do Brasil, a Sala São Paulo junto à Estação Julio Prestes, o Pátio do Colégio,o Mosteiro São Bento, o prédio do Banespa, os teatros FAAP, Tuca, entre tantos outros. Sou associada ao SESC e curtimos suas instalações e maravilhosos shows e peças teatrais a preços acessíveis. Ou, simplesmente, viemos caminhar pelas avenidas Paulista e São João para tomar um sorvete, café, comer quebra queixo ou pamonha numa tarde de domingo!

 

Atualmente, moro e trabalho em Bertioga e São Paulo, mas não abro mão de passar os fins de semana por aqui. Definitivamente, minha alma é paulistana!

 


Você pode participar do Conte Sua História de São Paulo enviando um texto para milton@cbn.com.br ou marcando uma entrevista, em áudio e vídeo, no site Museu da Pessoa.

Conte Sua História de SP: caminhando, descobri a cidade

 

Por Sérgio Mendes
Ouvinte-internauta da CBN

 


Ouça o texto que foi ao ar no CBN SP sonorizado pelo Cláudio Antônio

 

Não tenho como não dizer a quem quer que me pergunte sobre esta cidade, que o centro é a parte mais bonita daqui. Foi nele a minha primeira parada. Cheguei em Junho de 1998 e além dos muitos sonhos, não tinha de minha posse mais nada. Fui morar numa kitinete na Rua Abolição, bem pertinho da CMSP.
Pra quem caminha por aquelas ruas sem pressa de chegar a lugar nenhum, ele se revela outro, muito diferente da visão que se possa ter de dentro de algum veículo, por detrás de janelas.

 

E foi por causa de longas caminhadas que descobri o que vou contar.
Daquela época para agora, nem dá pra dizer que muita coisa mudou. O centro vive sendo maquiado para agradar quem passa por ele de carro.

 

Eu tinha que caminhar a distância entre ele e a Avenida Brás Leme em Santana, e o que fiz foi aproveitar pra olhar os detalhes que todos os dias se repetiam.

 

A jornada começava atravessando o Viaduto 9 de Julho e depois dele à direita em direção ao Anhangabaú pela lateral da estação de Metrô. Uma vez no vale, dava início a maratona de verdade com a visão das duas pontes que circunscrevem o caminho através dele; o viaduto do Chá e mais a frente o Viaduto Santa Efigenia, que visto debaixo, é olhada de tirar o fôlego.

 

Pertinho do viaduto do Chá, os jardins do Teatro Municipal e mais acima ele próprio , são outra vista que sozinha vale um passeio mais frouxo. Seguindo à frente, uma disputa para os olhos; à esquerda o largo do Paiçandu e na esquina o prédio dos correios enfeitado com esfinges na sua magnífica fachada. À direita, dois outros marcos paulistanos que são os prédios do Banespa e o edifício Martinelli.

 

Na minha visão fantasiosa vejo o Anhangabaú como uma área de cafés, teatros, cinemas, bares, vida noturna ao ar livre, aproveitando também a estonteante Galeria Prestes Maia.

 

Na Tiradentes, onde outra vez encontram-se mais ícones da cidade como a Estação e o Parque da Luz, sem falar da Pinacoteca e mais adiante o Museu de arte Sacra. Na época ainda não existia a Sala São Paulo ou o Museu da Língua Portuguesa e o Memorial da Resistência, mas hoje eles também já estão lá.
Seguia até a Avenida Santos Dumont, quando numa parada, o Rio Tietê convida a uma olhada e reflexão profunda sobre o que realmente queremos da nossa cidade a partir do que fazemos com ela.

 

Nas águas sujas que já serviram a banhistas e lugar das regatas de um clube de mesmo nome do saudoso rio, as marcas do nosso descaso com a cidade. Lembranças de um tempo, quando outros paulistanos a aproveitavam melhor.
Adiante ainda pela Santos Dumont, uma Praça, homenagem como o nome da avenida a este brasileiro que é pai da aviação!

 

Depois, o Campo de Marte e finalmente a Avenida Brás Leme onde terminava a minha caminhada.

 

É certo que não somente estas partes do centro são belas. Ele não é o que é pelos edifícios ou monumentos. O centro é emblemático por conter a cidade inteira dentro dele. É também a referencia que se possa ter de qualquer lugar e São Paulo não é exceção.

 

Para dizer que pensamos esta cidade, é preciso que seu centro e toda a História que contém, estejam restaurados e reluzam a importância de tudo nele.
Hoje não moro mais lá, mas sempre que sinto falta de estar de verdade em São Paulo, arranjo uma desculpa qualquer na minha agenda, e me dou de presente uma tarde caminhando por aquelas ruas do meu melhor lugar pra se fazer História nesta cidade.

Conte Sua História de SP: infância paulistana

 

Por Adriana Cavalcanti
Ouvinte-internauta

 

Ouça este texto sonorizado pelo Cláudio Antônio

 

Quando volto no tempo e penso em meus pais criando cinco filhos, sinto o maior orgulho de pertencer a esta família e a esta cidade tão linda chamada São Paulo. Uma das fases mais marcantes foi a minha infância. Imagine educar e ao mesmo tempo entreter cinco filhos na década de 1960.

 

Meus pais fizeram isso com maestria. Lembro como se fosse hoje de nossos piqueniques no Museu do Ipiranga e no Zoológico. Dentro de uma DKW Vemaguete Rio, de cor marrom, lá íamos nós – meu irmão e eu, os menores, no colo de minhas irmãs. No porta malas uma cesta com guloseimas e uma grande lata térmica na cor vermelha. Uma espécie de “cooler” à moda antiga. Inesquecível.

 

E foi também inesquecível nossa mudança do bairro do Ipiranga para o Jardim da Saúde. Foi em 1966 e eu tinha três anos, a menor da turma. Morávamos na Rua Loreto. Acho que na época havia cerca de quatro casas na rua, que ainda era de terra, assim como todo o bairro. Um lugar e uma época propícios para brincar sem se preocupar com os carros e a violência.

 

Um das brincadeiras era empinar pipa. Nos fins de semana, a família inteira empinava as pipas feitas por nós mesmos. Havia uma coleção delas pendurada na garagem de casa. Era uma delícia. Acho que meus pais se divertiam muito mais do que a gente.

 

Cresci naquele bairro. Meus irmãos e eu saíamos de casa cedo e só voltávamos na hora das refeições, geralmente acompanhados de alguns amigos. Brincávamos o dia inteiro nos fins de semana e durante as férias. O portão e a porta de casa ficavam sempre abertos.

 

As primeiras pedaladas também foram lá. Ganhei minha primeira bicicleta com seis ou sete anos. Era uma vermelha com rodinhas, que rapidamente foram retiradas pelo meu pai assim que aprendi a pedalar.

 

Um tempo que guardo bem na memória.

 

Hoje, tenho uma filha de 14 anos. Infelizmente, ela não sabe o que é brincar na rua. Mas com certeza aprendeu como aproveitar o que a cidade de São Paulo nos oferece. Ainda frequentamos o Museu do Ipiranga, o Zoológico e outros locais bacanas na cidade. Mas acabamos elegendo o Parque do Ibirapuera como o quintal de nossa casa. É lá que pratico as minhas corridas pela manhã e aproveito para assistir a São Paulo amanhecendo. É um momento único, encantador. É lá, no parque, que minha filha, desde pequena, e eu nos aventuramos pelas alamedas, brincamos, andamos de bicicleta e de patins. É lá também, no Ibirapuera, que conhecemos algumas pessoas maravilhosas que fizeram diferença em nossas vidas.

 

São Paulo é isso. Uma imensa cidade cheia de lugares especiais, para todos os gostos. Mas para aproveitá-la é preciso seguir o que aprendi com meus pais: viver intensamente ao lado de quem se ama.

 

Adriana Cavalcanti é personagem do Conte Sua História de São Paulo.Marque uma entrevista no Museu da Pessoa. Ou mande seu texto para Milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: futebol na Sé antes da televisão

 

Por Nivaldo Cândido de Oliveira Júnior
Ouvinte-internauta do Jornal da CBN

 

 
Ouça o texto que foi ao ar na CBN, sonorizado pelo Cláudio Antônio

 

1958. Junho. Copa do Mundo na Suécia.

 

Na época, com dez anos, iria fazer o “vestibular” para o Ginásio tendo aulas de reforço de Português e Matemática (acho que eram as matérias solicitadas). Aluno do Caetano de Campos, escola estadual, então na Praça da República (sem a fama que depois lhe foi imposta), saia duas vezes por semana em direção à Praça da Sé, onde teria as aulas.

 

Como tínhamos tempo, no gramado do prédio dos Matarazzo, onde hoje é a sede da Prefeitura, marcávamos o gol com nossas mochilas (de couro e sempre muito pesadas), a bola de meia e, sem medo de nenhuma violência externa, a não ser as discussões próprias do jogo, fazíamos nossas peladas. Eu joguei bola nos jardins da prefeitura.

 

 
Ah, sim, por oportuno, convém lembrar que na praça da Sé, havia um grande telão (atenção, não tínhamos transmissão de TV, evidentemente), com o campo desenhado e, conforme o locutor transmitia o jogo, com imã a bolinha era deslocada (se não me engano pelo Atílio Ricó) e nós víamos o jogo da Copa.
É mole?

 

Nivaldo Cândido de Oliveira Júnior é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade, escreva para milton@cbn.com.br e comemore os 459 anos de São Paulo.
 

 

Conte Sua História de SP: nasci no aniversário de São Paulo

 


Por Décio Blucher
Ouvinte-internauta do Jornal da CBN

 

 
Ouça o texto que foi ao ar na CBN, sonorizado pelo Cláudio Antônio

 

Meus pais se casaram no início de 1960 e passaram a lua de mel em um cruzeiro que partiu de Santos com destino a Buenos Aires. Na mesa do jovem casal outro par de “pombinhos” recém-casados foi instalado: Helena Maria e Giusti. Ambos os casais permanecem saudáveis e muito amigos, 53 anos após o primeiro encontro. Mas a nossa história se passa no dia 24 de Janeiro de 1962.

 

Meus pais, Diva e Edgard Blucher, compartilham, novamente, a mesa do Restaurante Le Casserole, com os amigos Helena Maria e Giusti. Meus pais já tinham uma filha, Thais, primeira neta dos dois lados e ganhadora do prêmio de bebê Johnson ao completar um ano. Já era o orgulho da família. Diz a lenda familiar que as duas avós Clara e Fanny esgotaram a tiragem da revista O Cruzeiro.

 

Retornando a fatídica noite de 24 de janeiro de 1962. Meus pais jantaram com seus amigos. Minha mãe novamente grávida de nove meses. Ao fim do encontro, os casais se despediram em frente a banca de Flores no então glamouroso centro da cidade. Após alguns momentos a procura de um taxi que os levaria ao bairro do Bom Retiro, meus pais decidiram iniciar a jornada a pé. As estatísticas mudam conforme a versão, mas após percorrerem aproximadamente metade da distância encontraram um taxi que os levou a residência.

 

Na primeira hora do dia 25, minha mãe comunicou ao meu pai que a bolsa havia rompido. Bem, nós três nos dirigimos à Maternidade Pro Matre. Às seis horas da manha, eu nasci. No dia da fundação da cidade, aniversário de minha mãe, a meia quadra da mais Paulista das avenidas.

 

Para manter a tradição, todo dia 24 de Janeiro, retorno com minha esposa Patrícia, meus pais, irmão, irmã, cunhada, cunhado e alguns de nossos seis filhos ao Le Casserole para comemorar esta data marcante.

 

Há alguns anos, meu pai sugeriu que talvez fosse o momento de repensar o restaurante devido à deterioração do velho centro, mas esta data mágica é uma combinação do encontro da família com o local. Nenhum dos dois teria significado sem o outro. A caminho dos 51 anos de nosso primeiro jantar, eu, mamãe e papai receberemos os demais membros da família no próximo dia 24, sempre no Le Casserole.

 

Décio Blucher é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Conte mais um capítulo da nossa cidade, escreva para milton@cbn.com.br e comemore os 459 anos de São Paulo.
 

Conte Sua História de SP: meus passeios antes do Minhocão

 

Por Ivson Miranda
Ouvinte-intenrauta do Jornal da CBN

 

Ouça o texto que foi ao ar na CBN, sonorizado pelo Cláudio Antônio

 

Vista do Minhocão

 

Quem passa pela região de Santa Cecília e arredores e vê o estado de degradação, não tem ideia que lá já foi um local sofisticado, antes de o Governador Paulo Maluf cometer um atentado urbanístico, o pior que a cidade sofreu, no século 20: o Elevado Costa e Silva, vulgo Minhocão.

 

Durante um período da minha infância, morei na Barra Funda e meu pai trabalhava na Rua Rosa e Silva, travessa da Av. General Olímpio da Silveira. Ele nos levava nos fins de semana para passear naquela região.

 

Começávamos o passeio na loja Clipper, o primeiro magazine a ter escadas rolantes no Brasil, do lado da Igreja de Santa Cecília. Íamos cortar o cabelo, sentados em pequenos jeeps vermelhos. Corte curto dos lados e topete saliente, que ficava duro com um produto que era passado com ajuda do pente. Depois, o lanche, com direito a um delicioso misto quente e sorvete. Satisfeitos, saíamos caminhando pelas ruas arborizadas onde senhoras elegantes traziam no colo cachorros pequines, a raça da moda na época.

 

Na Praça Júlio de Mesquita, eu gostava de ficar procurando detalhes na Fonte Monumental, que funcionava, e ainda tinha as lagostas de bronze. Em dias de sol, os jatos d’água transformavam-se em múltiplos arco-íris. Perto dali, havia o Cine Metro, diversão era garantida nas manhãs de domingo com desenhos animados de Tom e Jerry. Confesso que mais de uma vez fiquei torcendo para que o gato finalmente pegasse o rato. De lá, visitávamos a feira de numismática e filatelia da Praça da República.

 

Passeávamos também pelos Campos Elíseos. Eu ficava admirado com os casarões, construções cheias de detalhes, de um tempo em que um mestre de obras tinha que ser um artista. Numa dessas casas havia várias camélias plantadas rente ao muro, exalando aroma muito diferente do cheiro permanente de dejetos humanos que agora persiste. E não havia uma multidão de zumbis sem controle vagando pelas ruas.

 

Fico imaginando se a minha cidade não tivesse sido profanada por aquela serpente de concreto e asfalto, se desde aquela época a opção fosse o transporte coletivo. Seria uma metrópole melhor e mais humana.

 

Ivson Miranda é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br e comemore os 459 anos de São Paulo.