Por Maria Lucia Solla

Ouça “De pressão” na voz e sonorizado pela autora
Depois de anos de surpresa nos olhares que vinham na minha direção, e da pressão das amigas, comprei uma panela de pressão. Às vezes nem eu acredito; vou até a cozinha, abro o armário debaixo da pia e espio. Ela está lá, feia, desafiadora, perigosa, alta, cilíndrica, e brilhante, diferente das panelas que moram no meu fogão – de ferro, de pedra e de barro -, e que, fiéis, me acompanham na alquimia da cozinha, há tempo; campeãs do cozimento lento. Um bom feijão preto, feito na panela de ferro, não tem rival.
Gosto da comida feita devagar, de ver o processo do cozimento acontecendo. Tenho uma panela elétrica que trouxe de fora, há muito tempo, que cozinha os alimentos por até oito horas e mantém todos os humores de todos os ingredientes, lá dentro. Tem uma tampa de vidro e vivo passando por perto só para ver a transformação dos tomates, do pimentão, da coloração dos caldos que vão se misturando, na mágica da culinária.
Quando casei, me dei conta de como estava crua para a empreitada, porque só sabia fazer prato de festa, coisa de dia especial; firulas da alimentação. O dia-a-dia nunca tinha passado na minha cabeça. Fui criada para estudar, e isso quer dizer que afazeres da casa não faziam parte do meu aprendizado. Não julgo. Foi assim e pronto. Casada e querendo, muito mais do que devendo, cuidar e brincar de casinha, comprei um livro de receitas e era assim que eu me preparava, dia sim e outro também. Acontece que além de me casar despreparada para as lides da cozinha, ainda fui morar em outro estado, que usava uma linguagem diferente da do meu estado de origem. A Rede Globo ainda não tinha alongado os seus tentáculos pelo território todo, e a linguagem era diferente, de verdade, em cada estado na Nação.
A primeira vez que fui ao açougue, em romaria por quitandas e verdureiros, com a lista dos ingredientes copiada da receita escolhida para o dia, caí do cavalo. Pedi lagarto e, como o meu sotaque era diferente, além das minhas roupas, atraí olhares de clientes e atendentes do local. La-gar-to? disse o açougueiro que me atendia, e eu repeti, encolhida e envergonhada: lagarto. Tu pode explicar melhor? Corei, que é o que acontece com a gente quando sente vergonha, e confessei: na verdade não sei explicar, mas se o senhor me mostrar alguns cortes de carne, eu digo qual é. Me dei conta do bizarro nome do corte de carne lá do meu estado, ouvia risos, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Tentei me manter firme, em cima dos saltos, apesar de sentir que não era justa a situação. Finalmente o açougueiro me mostrou um corte de carne que tinha o mesmo formato do lagarto, com perdão da palavra, assado, que era servido na casa que antes era minha e agora era só dos meus pais e do meu irmão. Me entusiasmei: é esse! é esse! O açougueiro olhou para os lados, virando ligeiramente os olhos, e disse em tom de vitória: tu quer dizer tatu!
Hoje eu teria olhado para ele, e para todos os sorridentes em volta, erguido as duas sobrancelhas e dito dãhr! e teria saído de lá rindo do absurdo da situação, mas eu era só uma menina solitária, em terra estrangeira.
Aprendi a cozinhar, ao longo do tempo, por amor à cozinha, à comida, aos diferentes paladares e hábitos alimentares e hoje, mesmo sem lista de ingredientes, consigo fazer bonito com o que encontrar na geladeira ou na despensa. Uma coisa não sei; se vou manter a panela de pressão no plantel. Nunca vi, nos países do Mediterrâneo, que é de onde viemos, a maioria de nós, uma panela de pressão.
Vou estudar o caso e aceito informação e sugestão.
Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung