Novidades para quem gosta de cozinha contemporânea

Ailin Aleixo volta a visitar restaurantes com cozinha contemporânea e conta como foram estas experiências, no “Época SP na CBN”:

Boa Bistrô

Boa notícia para os fãs do Boa Bistrô: a chef Tatiana Szeles reduziu os preços de boa parte dos pratos do novo cardápio. A miniterrine de gorgonzola com calda de uva e figo iraniano, um dos pontos altos na lista de tapas, baixou de R$ 25,40 para R$ 16,50. Entre os principais, o taglarini negro com frutos do mar e molho de vinho branco com gengibre, que custava R$ 58,20, agora sai por R$ 53,80. Esse é só um dos motivos para bater ponto por lá e reencontrar Tatiana, que está de volta à cidade cheia de inspiração. O outro é o novo prato natalino que fica em cartaz até o dia 24 de dezembro, arroz de polvo a oriental – servido em panela esmaltada, dá para dois e custa R$ 72. E ainda tem a novíssima carta de sobremesas, com beiju de tapioca com goiabada e sorvete de requeijão; sopa de melão com pêssego, bolinhas de tapioca e sorvete de lavanda; e cheesecake de coco com calda de baba de moça. R. Padre João Manuel, 950, Jardins, 3082-5709/7320

Braverie

Nova mudança na casa, que há pouco tempo deixou de ser café para virar restaurante: sai a chef Kátia Santos, entra no lugar o ex-professor do Senac Marcelo Ozi. Após uma breve passagem pela equipe do espanhol Quique Dacosta, na cozinha do Sula, em Madri, Ozi desembarcou por aqui cheio de idéias. O novo cardápio tem pegada mais contemporânea, mas ainda guarda um quê de comidinha caseira brasileira, mistura que funciona muito bem. Vale a pena começar com os bolinhos sete grãos, versão moderninha do clássico bolinho de arroz, com direito a um delicioso molho de damasco. A picanha fatiada chega sobre leito de três tipos de tutu, feitos com feijão preto, carioquinha e branco pena que os três estavam frios no dia da visita… Acompanha arroz de coco (o uso de grãos para risoto, nesse caso, é até dispensável) e ótimos crocantes de banana. O namorado com molho pil pil, à base de gelatina de bacalhau, tinha textura excelente e acompanhamentos interessantes: purê de batata tartufo (na verdade é batata-roxa, não confundir com purê tartufado) e tempurá de pimenta-biquinho. Encerre com o confit de goiaba: a fruta, cozida em calda pouco doce, vem recheada com sorvete de creme com manjericão e alecrim. A chegada do novo chef não alterou o esquema de funcionamento.
R. Joaquim Antunes, 48, Jardins, 3082-6644

Árabes não tão conhecidos mas incrivelmente bons

São as dicas da Ailin Aleixo, no “Epoca SP na CBN”, para abrir a semana:

Carlinhos Restaurante

O Carlinhos em questão, que aos 63 anos ainda pilota a cozinha, se chama Missak Yaroussalian. Descendente de armênios, ele ganhou o segundo nome quando veio da Síria natal para o Brasil, lá se vão 60 anos. A casa, inaugurada em 71, já foi uma pequena lanchonete no Brás, onde permaneceu por quase três décadas. De lá, mudou-se para o Pari, onde dobrou de tamanho hoje, o salão ainda tem jeitão de lanchonete, mas com 130 lugares dos mais concorridos, mesmo abrindo apenas para almoço. O cardápio é engraçado: grande, atira para todos os lados. Tem picanha com farofa e filé mignon com fritas, tem risotos italianos e muitas massas. A lista de pratos armênios é curtinha, mas não se engane, é ali que ficam as pérolas da casa. Mal o cliente se senta, o garçom já oferece o arais, uma cria da casa que consiste em uma kafta assada em formato chatinho dentro de pão sírio. Para se ter uma idéia, saem mais ou menos 900 por dia. Outro pedido de sucesso é a kafta no vapor, que vai ao forno com rodelas de tomate dentro de uma embalagem de alumínio tipo marmitex a dita-cuja é aberta na mesa, pelo garçom, com pompa e circunstância. O chef também indica o basturma lã, carne bovina curada em temperos, cortada finamente e frita na manteiga, coberta com um ovo de gema mole. Grupos grandes, porém, devem se antecipar e encomendar (com pelo menos cinco dias de antecedência) o carneiro assado recheado com arroz de açafrão e amêndoas na manteiga. O bicho vem inteiro, acompanhado de brócolis ao alho e óleo e batatas coradas, e alimenta 12 comensais. Preço da extravagância: R$ 580 (o que dá R$ 48 por pessoa).

R. Rio Bonito, 1.641 – Pari – São Paulo – SP, 3315-9474

NUR

O pequeno restaurante recepciona a clientela em um delicioso pátio com sofás e apenas duas mesas, em um dos recantos mais agradáveis de Higienópolis. O proprietário é o marroquino Daniel Marciano, o mesmo do vizinho De La Paix. Só que, neste endereço, o foco é a culinária árabe – embora o cardápio tenha recebido alguns reforços mediterrâneos recentemente, inclusive com pratos kasher. No almoço, serve em sistema de bufê com opções mais clássicas, como tabule, cafta e quibe. Os pedidos à la carte são mais interessantes: o cuscuz marroquino com amêndoas e damascos é bem gostoso, assim como o steak au poivre e a porção de falafel, que chega à mesa bem sequinha

R. Tupi, 792 – Higienópolis – São Paulo – SP, 3666-4992

De antes, durante e depois

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Você ouve o ruído? Natal e Ano Novo chegam derrapando, e o burburinho não pára de crescer. As ruas ficam mais lentas para quem tem pressa, e mais cheias para quem não tem juízo e continua indo atrás do que não gosta. É sério; todo mundo conhece ao menos uma pessoa que todo ano reclama de ter que sair e se enfiar num lugar lotado, seja na vizinhança da 25 de Março, do Largo 13 ou de um centro de compras sofisticado. Puro condicionamento. Aprendeu que é assim, e pronto! Não muda nem que a vaca tussa. A gente parece que empaca sempre no pior lugar, e ainda se pergunta como é que caiu no buraco que ficou cavando. Tremenda incoerência. A gente vai aonde não quer, e reclama antes, durante e depois, para não quebrar o ciclo vicioso. Assim a vida vai ficando parecida com um disco riscado que a gente toca assim mesmo, repetidas vezes, acostumando pouco a pouco com o pior de tudo. Dói e a gente pergunta ao outro ou a Deus: por quê?!

É que mudar é complicado! Mais do que se imagina. Todo mundo se senta no mesmo lugar à mesa e vê a sala de um único ângulo, o tempo todo. A faxineira arrasta o aparelho de telefone um pouquinho mais para lá e a gente se sente insegura, tendo sido invadida na mesmice que é sua e ninguém tasca. Entalada na dolorosa zona de conforto. O pé começa a dormir e o cidadão não muda de posição e não dá dois passos, para não perder o lugar. E muita gente vive assim, feito os agarradinhos de pelúcia, lembra? Apegados à mesmice, sua velha conhecida, lendo script alheio, exalando tédio e cheirando a naftalina.

Se o mais vivido sente-lhes o aroma nauseabundo, imagine o jovem. Chega cheio de energia, curiosidade, ansiedade e medo, querendo testar limites para ver até onde pode chegar. O jovem quer encontrar, no ambiente onde foi gerado, o que o próprio ambiente lhe promete. A modernidade da Era Digital, da rapidez, do funcional, do virtual que se confunde com o material. Feito o desejo. E o que encontra? Na educação, pelo que temos visto e ouvido, encontra no máximo a Era Paleolítica, o Teorema de Pitágoras e o Quadrado da Hipotenusa. No virtual, percebe o mundo tão rápido quanto seu pensamento, mas no real, e “na real”, encontram em casa um vazio impossível de preencher e na escola uma pasmaceira de dar dó. Aí dá no que deu e no que tem dado sempre. Revolta e violência. Tem como reverter esse processo? Ah, tem. Só que sair do gabinete para encarar o que ontem era a criança e hoje é o monstro inimigo, nem pensar. Dá trabalho e leva tempo. Há que ter disponibilidade e oferecer generosidade, e isso é coisa que o dinheiro não compra. E então, você sabe tanto quanto eu, o que é que tem acontecido. Alunos surram professores, ameaçam-nos de morte, destroem escolas, curram colegas, andam armados, consomem drogas nas dependências de ensino e o que é que se faz? O mesmo que se faz nas cadeias. Decide-se reconstruir o destruído -porque isso sim o dinheiro compra. Que vergonha! O educador foge do educando porque nem sabe como chegar nele. Finge que nada aconteceu e volta a roncar sua matéria, esperando por um sinal libertador. Reclama antes, durante e depois. Valha-nos Deus!

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Ouça aqui este texto na voz da autora”:


Maria Lucia Solla
é terapeuta e professora de inglês e tira os domingos para escrever aqui no blog e nos perguntar “por quê ?!”

Brasileiríssimos!

Ailin Aleixo fecha a semana com pratos verde-amarelos nas mesas paulistanas:

Cordel

Fazer uma cozinha pernambucana de pegada contemporânea é a proposta bem sucedida deste simpático restaurante. É lugar para se fazer uma refeição comprida, de várias etapas, sem olho no relógio. Comece pelos petiscos: o caldinho de gerimum (ou abóbora, se preferir) não tem dia certo para aparecer e vai muito bem na combinação ele ela, ou seja, com uma dose de cachaça junto. Mas fique de olho peça uma pinga artesanal, pois a escolhida pela casa, sabe-se lá por que, é uma marca bacana, só que industrializada. Agora vamos às entradas. Tem baião de dois, escondidinho de charque, arrumadinho (charque com feijão de corda)… sim, essas são apenas as entradas. Na lista dos principais, a conversa fica ainda mais séria. A picanha de sol na chapa, acompanhada de macaxeira (frita ou cozida), farofa, feijão de corda e vinagrete, alimenta duas pessoas e deixa gosto de quero mais. Encerre o repasto com uma sobremesa famosa em todo território pernambucano, mas difícil de encontrar por aqui. Trata-se do capote, composto de uma grossa fatia de queijo de manteiga, bem amarelo e torradinho na chapa, sobre doce de banana, tudo salpicado de açúcar e canela..
R. Aspicuelta, 471, Vila Madalena, 3375-0471

Sobaria

Engana-se quem imagina que sobá é apenas coisa de cardápio de japonês. A receita trazida pelos imigrantes de Okinawa também virou comida típica de Campo Grande. Naquelas bandas, se come sobá em barraquinhas de rua e nas casas especializadas, as sobarias. Inspirado nos sabores da sua terra, o campo-grandense Jean Rodrigo Haddad abriu esse restaurante de comida sul-mato-grossense. Para garantir a autenticidade, todos os ingredientes vêm daquele estado: a massa, as carnes, os peixes e a lingüiça de maracaju, um embutido de picanha, fraldinha, filé mignon, suco de laranja azedíssima, alho e cebola, servida com mandioca amarela cozida, shoyu e vinagrete. Outra pedida obrigatória é a sopa paraguaia, na verdade um bolo de milho com queijo e cebola. Estava um pouco sequinho, porém saboroso. E o sobá? O prato feito com macarrão artesanal de trigo sarraceno, omelete e cebolinha ganha quatro versões: lombo bovino, filé mignon, cogumelos e camarão de água doce. Acrescente shoyu e gengibre, para dar um gostinho ainda melhor ao caldo. Não perca a chance de provar o tererê, bebida gelada de erva-mate com gotas de limão, servida na guampa – recipiente fabricado com parte do chifre bovino. Fecha nos dias 24, 25, 31 e 1º.
R. Áurea, 343, Vila Mariana, 5084-8014
SP

Restaurantes de carne com novidades

Prá agradar o gaúcho do programa, Ailin Aleixo traz boas notícias das churrascarias no “ÉpocaSP na CBN”:

Montana Grill

A casa está novinha em folha. Passou por uma reforma, ficou mais bonita e ganhou um ar elegante com cores sóbrias. O bar é classudo e, não fossem algumas fotos de famosos que estampam a parede de entrada, daria para esquecer que a churrascaria pertence à dupla sertaneja Chitãozinho & Xororó, em sociedade com o gaúcho Ari Nedeff (da rede Novilho de Prata). Antes de atacar o bufê, enxuto se comparado aos rodízios de ponta da cidade, experimente os pasteizinhos de carne. Eles são ótimos, sequinhos e fartos em recheio. No passa-passa de espetos, a variedade é grande, mas o melhor da festa é a costeleta de cordeiro seguida do bife ancho – nesse caso, peça sem medo um pedaço generoso do corte. Você não vai se arrepender. Carta de vinhos com ótima relação custo-benefício.

Av. Presidente Juscelino Kubitschek, 816 – Vila Olímpia, 3078-0999

Fazenda MC

Apesar de especializado em carnes da raça red angus, a churrascaria está em plena temporada do king crab, o raro caranguejo gigante que vem do Alasca. Preparado apenas no vapor, com molho suave de manteiga e ervas finas, o crustáceo sai por R$ 250 o quilo – detalhe, o bicho pode chegar a 12 quilos. O festival também oferece outros pratos à base de frutos do mar, esses com preços menos salgados. Tem salada de polvo, ravióli de camarão e siri, lagosta ao vapor e a farta sinfonia de frutos do mar, para duas pessoas: por R$ 160, inclui camarões, lulas, mexilhões, vieiras, casquinhas de siri, vôngoles, robalo e quatro diferentes caldinhos. Todos esses pratos estão em cartaz apenas no jantar e nos almoços de domingo.

R. Henrique Schaumann, 251 – Jardim Europa, 3775-5001

Os melhores vegetarianos da cidade

Depois das coxinhas, Ailin Aleixo oferece um cardápio mais leve com pratos vegetarianos na cidade de São Paulo:

Moinho de Pedra

Se existe alta gastronomia no mundo vegetariano, aqui está um bom representante. A chef Tatiana Cardoso também não fez por menos. Partiu para Nova York, estudou na Gourmet Cookery School, estagiou em casas como o Greens (restaurante que segue a linha budista), em San Francisco, e trabalhou com o português Vítor Sobral, em Lisboa. Experiências hoje refletidas em pratos com sotaques de diversas culinárias do mundo: árabe, indiana, italiana. As receitas não se repetem. Há ótimas saladas e pratos quentes, como o feijão-preto com bardana, nirá e coco ralado de R$ 20 a R$ 25, o cozido de grão-de-bico com tahine e o risoto de arroz integral com quinoa orgânica e vegetais. É uma cozinha sem radicalismos nem bandeiras, com foco no que é saudável. Rechaça o uso de produtos químicos, como adoçantes, e oferece um prato vegan (para quem não come proteína animal) e outro sem glúten. Tudo muito bem-feito, com o apuro de quem entende do negócio e o acompanhamento de uma nutricionista. Em compasso com a qualidade da cozinha, o lugar esbanja charme com a decoração bem feminina, o salão em estilo provençal e a varanda rodeada de pés de romã. R. Francisco de Morais, 227, Chácara Santo Antônio, tel.: 5181-0581. Seg. a sáb., 12h/15h30.

Finalistas

Bio Alternativa
R. Maranhão, 812,Higienópolis, tel.: 3825-8499. Seg. a sex., 12h/15h; sáb. e dom., 12h/16h. Bufê: R$ 20 (seg. a sex.) e R$ 23 (fim de semana).

Gaia
R. Cônego Eugênio Leite, 1152, Pinheiros, tel.: 3031-0680. Seg. a sex., 12h/15h; sáb. e dom., 12h/16h. Menu executivo: R$ 19 (seg. a sex.) e R$ 22 (fim de semana).

Bairro de Eloá era castigo para motoristas desde os anos 1980


Américo Cavagloni, 63, lembra os tempos de cobrador na Viação Padroeira

Uma das coisas que provocam mais fascínio ao estudar a história dos transportes coletivos pela visão dos motoristas e cobradores é descobrir diversas realidades através do tempo. Se os profissionais, nos anos 20, relembram a epopéia do crescimento dos bairros; se os motoristas e cobradores dos anos 40, lembram dos desafios de encarar veículos com difícil dirigibilidade; os dos anos 60 e 70 viram o desenvolvimento da indústria automobilística. Para aqueles que trabalharam a partir dos anos 80 restou outro tipo de história a contar: a da violência urbana.

As lembranças do cobrador aposentado Américo Cavagloni, de 63 anos, que trabalhou de 1989 a 2003 na extinta Viação Padroeira do Brasil, mostram como as cidades passaram de românticas, onde pessoas se encontravam e até namoravam nos ônibus, a lugares perigosos. A Viação Padroeira do Brasil tinha linhas que ligavam Santo André a capital paulista por Rudge Ramos, em São Bernardo do Campo. Hoje, são operadas pela Empresa Urbana. Além disso, a Padroeira mantinha linhas municipais que interligavam bairros de Santo André.

A mais temida da região era a B-47, Terminal Vila Luzita-Vila Palmares, antigamente, Jardim Santo André–Vila Palmares. Do lado da Vila Palmares, um cadeião; do lado do Jardim Santo André, núcleos habitacionais desprovidos de segurança, tráfico de drogas e muitos assaltos. O ponto final era  próximo dos prédios onde morava a adolescente Eloá, assassinada pelo namorado, recentemente, numa história que comoveu o País.

“Aquela região já era considerada perigosa. Ninguém da empresa gostava de trabalhar lá. Os assaltos são diários e se os motoristas e cobradores não colaborarem com traficantes e marginais, corriam o risco de serem mortos” – conta o cobrador, natural da cidade de Planalto, no interior Paulista.

A linha do Jardim Santo André, a B-47, tinha, na época da Padroeira, sua escala normal que ganhava o reforço dos funcionários que cometiam algum erro nas áreas nobres, como o Jardim Estela, Bairro Paraíso e Vila Assunção. “Era uma forma de castigo”.

Américo começou em 1989 na Viação Padroeira como cobrador reserva. Depois foi efetivado, passou um ano e meio na B-47. “Além do estresse normal da profissão, como trânsito, condições nem sempre favoráveis dos veículos, desentendimentos com passageiros por causa de atrasos e troco, trabalhar numa linha violenta desgasta até a saúde da gente” – diz o cobrador lembrando que teve de aprender a lidar com a marginalidade.

“Os assaltantes, traficantes chegavam prá gente dentro do ônibus ou no ponto final e falavam o seguinte: Você sabe como funciona o esquema aqui. Dá uma força pros mano (aviõzinhos – garotos entregadores de drogas), pros baladeiro, etc ,viajar de graça, que nada acontece. ‘Nois’ até te ajuda se precisar de algo”.

O cobrador respondia “na educação” que não havia problemas, mas que não precisaria de nenhum favor deles. “Cada um ficava na sua, mas a tensão, ver crimes das janelas do ônibus, moia a gente”.

Apesar do traquejo para se relacionar com criminosos, os incidentes, assaltos e mortes dentro dos ônibus eram inevitáveis. “No pouco tempo que fiquei nessa linha perigosa, fui assaltado duas vezes, em menos de doze dias, por dois adolescentes de cerca de 14 anos. Nos dois casos que ocorreram quase na seqüência, os assaltantes eram os mesmos garotos”.

A primeira vez com estes adolescentes foi em 16 de fevereiro de 2.000. Era Carnaval e a  primeira viagem do dia de Américo com o motorista Cirineu. O Carnaval de rua em Santo André era comemorado próximo ao trajeto dessa linha. Naquele horário, tinha levado mais de 100 passageiros. A maioria foliões, muitos embriagados ou sob o efeito de drogas. Apesar da alta demanda de passageiros, a féria foi pouca. Era um festival de gente pulando catraca ou chutando a porta para descer sem pagar. Mesmo assim, Américo percebeu que dois garotos ficavam olhando demais para o posto do cobrador. Eles também desceram sem pagar. O veículo foi até o fim da linha, na época, no bloco 10 dos prédios do Jardim Santo André. O motorista nem parou, virou o itinerário e fez o caminho de volta. Alguns pontos depois, um senhor deu o sinal e subitamente apareceram aqueles mesmos dois adolescentes. Eles falaram que viram que o ônibus havia faturado e que queriam todo o dinheiro.

“Os dois moleques eram um pouco maiores que a altura da caixa de dinheiro da catraca. Mas um deles estava armado. Não deu pra fazer nada. Foi meu primeiro assalto. Me traumatizou muito” Doze dias depois, outro assalto. Praticado pela mesma dupla. “Era primeira viagem, mesmo assim, não tinha quase dinheiro nenhum no ônibus, mas não teve jeito” – conta Américo.

Na época, uma das donas da empresa era Assunta Romano, Dona Nenê. Ela não exigia ressarcimento do dinheiro roubado, prática comum em algumas viações para evitar fraudes dos funcionários. “Dona Nenê conhecia a linha do Jardim Santo André”.


Nosso repórter Ádamo tietando seu Américo, em Santo André

Para o cobrador aposentado trabalhar em transporte público foi maravilhoso. O clima na garagem era muito bom, segundo ele. Muitas amizades foram feitas com colegas e passageiros. O estresse urbano e a violência, contudo, levam Américo a confessar que, se tivesse de recomeçar, não faria tudo aquilo novamente.

Na rua, em linhas violentas, a gente vê e sabe de cada coisa. Um caso que o marcou, no início dos anos 2.000 foi o assassinato de uma das primeiras motoristas de ônibus de Santo André, num assalto, perto de um terminal. Outra lembrança: a demissão de mais de 100 colegas de profissão ao longo do tempo, com empresas colocando microônibus ou micrões (ônibus convencionais com os chassis cortados) nas linhas. Nestes veículos, os motoristas assumem a função de motorista e cobrador.

Américo se aposentou na própria Viação Padroeira do Brasil. Mas foi premiado em terminar sua carreira na linha 106 (Jardim Bom Pastor–Utinga) e 151 (bairro Paraíso-Santo André/São Paulo – perto da Anchieta).

Os problemas de violência, é claro, não ocorrem só na B 47, nem só em Santo André e em São Paulo.

O relato de Américo demonstra que a principal linha que os ônibus fazem é a “linha do tempo”. As histórias de pioneirismo, de luta, de crescimento, dão cada vez mais lugar às histórias de medo de demissões e, o pior, da violência, invadindo os luxuosos carros importados, que são, forçosamente, blindados pelo medo de seus donos, assim como os corredores dos ônibus e as estações de trem.

O romantismo, as paixões de uma vida simples deram lugar ao medo. Medo até mesmo de trabalhar.

Ádamo Bazani é repórter da CBN e busólogo. Toda terça-feira nos convida a viajar pelas linhas de ônibus do Brasil com textos publicados aqui no blog

As melhores coxinhas de sp

Ailin Aleixo abre a semana com a popular coxinha e a escolha do jurí O Melhor de São Paulo, da Época SP:

Veloso

Quando a porção de seis delícias coradas R$ 13,20 chega à mesa, a alegria é geral. As coxinhas do Veloso – assim como as caipirinhas do mestre barman Deusdete Souza – são uma das grandes razões do imenso sucesso do pequeno bar. E com toda a razão. Elas têm casquinha superfina, crocante, que envolve uma massa tão macia que mais parece um purê. E o recheio – peito de frango bem desfiadinho e picado, refogado com salsinha e temperos – vai da ponta à base do salgadinho. R. Conceição Veloso, 56, Vila Mariana, tel.: 5572-0254. Ter. a sex., 17h30/0h30; sáb., 13h/1h; dom., 16h30/23h.

Finalistas

Frutaria Santo Eduardo
Pça. Santo Eduardo, 104, Vila Maria, tel.: 2954-4608. 24 horas. Preço: R$ 2,50.

Frangó
Largo da Matriz de Nossa Senhora do Ó, 168, Freguesia do Ó, tel.: 3932-4818. Ter. a qui., 12h/0h; sex. e sáb, 11h30/2h; dom., 11h/23h. Preço: R$ 4.

Podcast de Maria Lucia é destaque na mídia

A possibilidade de você ler e ouvir os artigos de Maria Lucia Solla aqui no blog ganhou destaque no jornal O Registro, da cidade mineira de Extrema. O semanário publica crônica de Maria Lucia nossa colega de primeira hora. A reportagem destaca, ainda, o fato de que ela, além deste trabalho dominical, também já publicou gravações de vídeo e imagens no blog.

Multimídia, essa moça, não ?!

De evolução e dinheiro

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Já nos demos conta de que o dinheiro ultrapassou todas as fronteiras e de que a idéia dele se instalou na boca e no pensamento de todos; de A a Z, de baixo para cima e de um lado ao outro do planeta. Se o pensamento já ocupava um espaço precioso do nosso interesse, agora dominou. Em todas as línguas, unificou vocabulário e expressão facial. Pôs rugas onde rugas não havia, levou uns trocados de alguns e dilapidou o patrimônio de outros. Os mais atingidos chegaram a perder amores, amizades, empregos e sonhos. Houve os que perderam a esperança, mas o certo é que a maioria ganhou um pensamento fixo, que tomou o planeta e veio para ficar por um bom tempo. E já era mesmo tempo de vir para ser olhado de frente e reavaliado. Nossa relação com ele chegou ao ponto de o trairmos com simples papéis. Quem souber aproveitar vai sair ganhando em todos os sentidos. Para isso serve a crise.

Vale lembrar que há muitos séculos, as moedas eram feitas de metais nobres e refletiam seu valor, no peso. Dinheiro era bom e ninguém tinha vergonha de possuí-lo. Imagine como devia ser lindo ver algumas moedas de ouro, sobre uma mesa de madeira maciça, brilhando ao toque do sol. Pura magia! Naquele tempo, os sacerdotes, sábios astrólogos, indicaram o ouro e a prata, para a confecção das peças pela ligação do ouro com o sol e da prata com a lua. A idéia era manter a associação de tudo que se relacionasse ao homem, com o Todo. Com a natureza e com o fluir da vida. O ouro e o sol, representando a energia Yang e a prata e a lua, a energia Yin.

Acontece que, com o passar do tempo, a cotação da nossa sofisticação externa subiu, enquanto a da compreensão da vida e do que pretendemos fazer com ela, baixou. E nossa relação com o dinheiro e com a idéia dele foi se transformando, foi evoluindo (!), e virou amor bandido. Proibido. Escondido.

Dinheiro é pecado! (Na mão do outro)
Dinheiro é sujo. (De papel! Como poderia ser diferente?)
Dinheiro corrompe. (E o que não corrompe?)
Dinheiro traz culpa e não felicidade. (Chocolate é muito melhor porque traz os dois)
Dinheiro tranca a entrada no Céu. (Me dá o seu que eu mando abrir as portas para você. Sou assim com Deus!)

A relação do homem com o dinheiro ficou tão deteriorada que acabou em crise. Agora, o resultado disso tudo, nem espere que venha de fora. Ele depende de nós e da reavaliação que fizermos de valores, pesos e medidas. Não depende de novos presidentes de cores e culturas variadas. Eles são apenas réplicas de mim e de você. Não depende de cúpulas disto ou daquilo. Depende de mim e depende de você, para que os valores saiam ilesos, mas sacudidos e postos em ordem social mais do que pessoal. Para que os pesos sejam os mesmos para mim e para você e as medidas, de tamanho único.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Ouça este texto na voz da autora:

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de inglês, autora do livro “De Bem Com a Vida Mesmo Que Doa”, publicado pela Libratrês, e escreve todo domingo neste blog.