De cidadão e eleição

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Na quarta-feira eu dirigia tranqüila pela Marginal Pinheiros, com folga para a aula do meio-dia. Ouvia o rádio, mas mantinha sentidos e reflexos assanhados. Se você dirige ou já dirigiu nas marginais da cidade de São Paulo, sabe do que estou falando. Atenção multiplicada e nível de irritação dividido. Metade você descarrega ali mesmo, no fígado, e a outra metade despeja na família e nos amigos. Como? Contando como foi a tragédia, nos mínimos, venenosos e suculentos detalhes, por exemplo.

De repente, um misto de pocpoc pufpuf, e lá se foi a atenção para o engasgo do carro. Momento de tensão. Meu pé direito, coordenado e condicionado por anos de repetição, ainda apertou o pedal do acelerador, cheio de esperança; mas eis que o pocpuf voltou. Arregalei os olhos e aceitei o óbvio. Pane. Ainda deu tempo de esterçar a direção, aproveitar o embalo do carro e escorregar até a margem mais segura da pista da direita, sob a ponte João Dias. Respirei fundo, abri a bolsa e… O cartão do seguro do carro, que acabei de renovar, estava lá, no lugar onde deveria estar. O foco na organização mostra algum resultado, finalmente. E isso é bom.

Chamei a seguradora do carro que me atendeu prontamente, garantindo que o socorro estaria comigo no máximo em meia hora. Dois minutos depois, me enviou um torpedo informando o nome do socorrista a caminho. Em menos de quinze minutos, quase fui esmagada umas cinco vezes, e dois carros da CET desviaram de mim e passaram batidos, com cinco minutos de diferença um do outro. Exatos quinze minutos depois da minha chamada, chegou o socorrista Gilmar e resolveu tudo muito bem. Teve até lanchinho oferecido pela empresa. Hoje, quinta-feira, precisei acionar meu seguro saúde, e meu carro foi socorrido, novamente. Desta vez pelo socorrista Gilberto. Bons profissionais bem selecionados, e que gostam do que fazem.

Dou-me conta de que poder ser bem atendida por Gilmares, Gilbertos, enfermeiras Paulas e doutores José Jorges é um prazer que dá deixa para a reflexão. No dia em que tivermos serviços públicos decentes, esses serviços certamente serão ainda melhores do que os particulares de hoje. Do lado de lá, gente capaz e honesta. Do lado de cá, todos pagando menos.

Isso não temos, mas temos obras faraônicas, coisas que nunca ninguém viu, nem no primeiro mundo. Não sou contra o progresso e a busca pelo melhor, mas minha sogra, a dona Ruth, sempre nos descreve como uma sociedade que usa casaco de veludo e deixa a bunda de fora.

Pense na sábia frase dela, ou não, e até a semana que vem.

Ouça aqui o texto na voz da autora:

Maria Lucia Solla é terapueta, escritora e está todo domingo ao nosso lado aqui no blog. É a autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, publicado pela Libratrês.

Testículos de galo entre os melhores de Época

É uma das curiosidades da extensa lista de O Melhor de São Paulo, da Revista Época SP que será publicada, neste sábado. Os testículos em questão estão na relação das “Três esquisitices deliciosas” da capital paulista e são servidos à milanesa no Valladares. “Se você aprecia miúdos, vai achar uma delícia. Com uma casquinha crocante, eles casam muito bem com um chope gelado”, diz a reportagem.

Acompanham esta esquisitice, a sopa de vinagre do Hin Pin Shan e o milk shake de sagu da Bakery Itiriki.

Na sempre competitiva categoria melhores pizzas, a cobertura mais criativa foi a pizza de agrião com brie, castanha-do-pará e pimenta biquinho, da I Vitelloni

Se você ficou entusiasmado com as escolhas, a Ailin Aleixo, editora da Época SP e nossa comentarista gastronômica, me passou a lista de endereços:

Hi Pin Shan: Rua Dr. Ivo Define Frasca, 95, Itaim, Tel.: 3845-7167. Ter. a dom., 11h/15h e 18h/23h. Preço: R$ 20 (sopa de vinagre)

Aperitivos Valadares: Rua Faustolo, 463, Vila Romana, Tel.: 3862-6167. Preço: R$ 19,90 (porção de testículos de galo)

Bakery Itiriki: Rua dos Estudantes, 24 ,Liberdade, Tel.: 3277-4939. Preço: R$ 7,90 (Milk Shake de sagu)

I Vitelloni: R. Conde Sílvio Álvares Penteado, 31, Pinheiros, tel.: 3816-3071. Ter. a qui., 19h/0h; sex. a dom. 18h/0h. Preço: R$ 44.

Mais gostosuras paulistas, nesta sexta, na edição especial da Época SP.

Restaurantes que resistem a modismos

As duas dicas deste terça-feira são de grandes restaurantes que continuam incríveis de acordo com o sabor de Ailin Aleixo, do Época SP na CBN

Cantaloup

O chef Renato Carioni, que já passou por restaurantes na França e na Itália, é a razão para a casa estar sempre repleta, mesmo pertencendo a categoria dos restaurantes caros de São Paulo. O público- empresários, políticos e famílias tradicionais- espalha-se pelo salão amplo, com mesas afastadas umas das outras, o que garante boa privacidade. Entre das delícias do cardápio, o Ovo ”molet” com ragout de aspargos e cogumelos ao molho de parmesão destaca-se como entrada. Nas ótimas opções de pratos principais– que contemplam massas, risotos, carnes e peixes– a lasanha de pato foi um acerto completo. A carne desfiada e finamente temperada vem entremeada por levíssima massa com espinafre que, em sua última camada, ganha foie grass selado. A Avestruz com purê de cará ao molho de jabuticaba é tenra e adocicada na dose correta. Entre as sobremesas, destaque para o crocantíssimo canoli de com pedacinhos de goiaba caramelizada acopanhado de sorvetes de queijo e goiaba.

R. Manuel Guedes, 474 – Itaim-Bibi – São Paulo – SP 3078-3445, acessibilidade

Carlota

No almoço de sábado, a casa estava tranqüila e o atendimento, atencioso. As duas entradas pedidas– crostinis de polenta grelhada (com bacalhau desfiado, brie derretido e cogumelos) e maciíssimo bolinho de mandioca com camarão cremoso– estavam impecáveis. Entre os pratos principais, o risoto de brie com camarão que acompanha o calamari grelhado estava ligeiramente salgado, mas o molusco perfeito e no ponto. O mesmo se pode dizer do alto e tenro filé mignon com crosta crocante, molho blue cheese e gateau de batata. Não saia do Carlota sem provar o que o cardápio tem de mais saboroso: as sobremesas. O bolinho quente e cremoso de banana com sorvete de canela

R. Sergipe, 753 – Higienópolis – São Paulo – SP 3661-8670, acessibilidade

A história do ônibus na emoção de Seu Duda

Duda do ônibus

Aos 74 anos, Seu Duda se emociona ao ver a coleção de miniaturas do nosso colega Adamo Bazani. E Adamo Bazani garante que o olho de Seu Duda se encheu d’água quando reconheceu no livro veículo que usou durante os anos de trabalho, em Santo André. Apesar da diferença de idade

Apesar da diferença de idade dos dois, uma paixão os une: os ônibus. Se Adamo sempre curtiu ser passageiro, Duda se orgulha de ter trabalhado neles. Foi funcionário da pioneira EAOSA – Empresa Auto Ônibus de Santo André -, fundada em 1931 e uma das primeiras a ligar a Região Metropolitana de São Paulo à capital.

A conversa dos dois, semana passada, foi transcrita por e-mail pelo próprio Adamo e entre uma confissão e outra ficou muito claro que para nosso repórter ouvir as histórias do seu Duda era como estar diante de um ídolo.

José Eduardo – Duda – da Costa tinha apenas 13 anos quando foi trabalhar no pátio da EAOSA como auxiliar de oficina. Havia ele e os amigos Paulo, Antuil e Aurélio exercendo profissão perigosa para qualquer profissional, principalmente sendo estes crianças ainda.

“Uma das suas primeiras funções era “dopar” os motores a diesel das jardineiras, com éter puro, embebido num pano, que era passado na bomba de combustão, enquanto outro garoto dava partida no ônibus e acelerava. O cheiro era terrível. OUTRO PERIGO era que os adolescentes trabalhadores tinham de preparar uma solução para as baterias da parte elétrica dos ônibus em tonéis de água e ácido sulfúrico puro. Havia um tonel de ácido, onde a bateria era colocada por um pequeno tempo. Em seguida, ela ficava uma semana num tonel de água para fazer a solução. Tudo isso, segundo Duda, tanto o contato com o ácido como com o éter, era feito sem luvas, máscaras, óculos ou qualquer tipo de proteção” – escreveu Adamo.

Foi um forte jato de água jorrado contra o corpo de Duda que impediu um acidente grave resultado de queimadura por ácido mal-manipulado por um dos garotos. O uniforme dele se esfarelou, mas graças a ação rápida de um colega experiente o menino escapou ileso.

Além de “brincar” com as miniaturas que Adamo mantém na prateleira de casa, Duda teve a curiosidade atiçada pela biblioteca mantida pelo jornalista. E foi ao folhear um dos livros com a história de ônibus que o funcionário aposentado da EAOSA reencontrou-se com o Coaches GM, modelo americano que revolucionou o transporte urbano de passageiros, hidramático, hidráulico, sensores para impedir que a porta surpreendesse um passageiro, com pisca-pisca elétrico (ensina-me Adamo que os modelos que haviam no mercado no fim dos anos 40 tinham seta de madeira para indicar para que lado iriam virar:

“Hoje em dia, mesmo com o desenvolvimento da indústria automobilística, não se vê ônibus urbano que se equipare ao conforto dos Coaches. Hoje se economiza peças e muitos ônibus saem novos, caros e desconfortáveis das linhas de produção” – opinou Duda.

Na garagem e ainda menino, Duda aprendeu a dirigir os ônibus. Precisava ficar em pé para alcançar os pedais. Quando foi promovido a cobrador, mais “velho”, continuou em pé, pois não havia roleta nem banco para sentar. Nas viagens entre Santo André e São Paulo chegava a ficar mais de uma hora caminhando dentro do ônibus para cobrar a passagem que era paga por seção.

“Na linha, por exemplo, havia 5 seções entre Santo André – São Caetano e São Paulo. Eram elas: 1ª Praça do Ipiranguinha, em Santo André até Estação de trem Santo André / 2º Estação de Santo André até os limites entre os municípios de Santo André e São Caetano / 3º Limite de Municípios até a Estação de trem de São Caetano / 4º Estação de São Caetano até o Sacomã, na Capital Paulista, perto do subidão da Rua Bom Pastor / 5º entre o Sacomã até o Parque Dom Pedro II.
Duda conta que não eram raras as vezes que passageiros que pagavam a seção mais barata, fingiam dormir para passar do ponto e ir mais além. Havia até brigas dentro dos ônibus, mas Duda disse que sempre procurou ser educado com os passageiros, mesmo sabendo que alguns faziam de propósito”- escreveu Adamo.

Duda não fez toda sua vida na empresa, saiu de lá ainda nos anos 50. Mas deixo nas palavras de Adamo o fim desta conversa:

“Duda recorda com carinho uma época dura e feliz. Dura pelo trabalho, feliz, pela simplicidade. Rotineira, mas desafiadora. Rotineira, pois o serviço era o mesmo todos os dias. Desafiadora, pois os ônibus tinham de enfrentar ruas de terra, lama e também porque, no início, ninguém acreditava que a empresa onde Duda trabalhou sobreviveria sequer alguns anos, por causa da ligação bem mais antiga por trens entre o ABC e São Paulo.

Diz a música de Geraldo Vandré, que o “mundo foi rodando nas patas do meu cavalo”. Duda que é fã de música de várias épocas, diz que “São Paulo foi mudando nas rodas de veículos com mais de 200 cavalos”. Ele conta que pela janela do ônibus viu estradinhas de terra no ABC e na Capital se tornarem ruas de paralelepípedos, asfalto, grandes avenidas. Viu fábricas crescendo, vilas se formando. Viu o matagal que separava uma parte do ABC e São Paulo se transformar em bairros, centros industriais, até não se notar a diferença entre os limites de municípios. Viu pequenos comerciantes se tornarem empresários, operários, comprarem suas casas. Viu do verde das grande chácaras do ABC ao cinza das indústrias da região. Pelas janelas dos Coaches da EAOSA, viu o bairro do Ipiranga, por exemplo, se tornar um dos mais importantes industrialmente na Capital.

E de que o velho cobrador tem saudade ? Da simplicidade das pessoas da época. Ah sim, e do ronco do motor dos Coaches.

Hoje a empresa, que possui linhas de Mauá a Capital Paulista é considerada uma das grandes do setor, mas ela não chegaria a esse posto, sem os Dudas e tantos outros que sujaram as mãos de graxa, cheiravam óleo diesel e outros produtos químicos e dedicaram suas vidas e juventude a um trabalho pesado”.

Cantinas, quase tão paulistanas quanto italianas

Acompanhe as sugestões de Ailin Aleixo, do Época Sp na CBN:

Il sognodi anarello

De terno e gravata, Giovanni Bruno transita entre o salão e a cozinha com a desenvoltura de um garoto e a paixão de quem está apenas começando a realizar um sonho. E pensar que a sua trajetória aqui no Brasil teve início na década de 50. Hoje, com 73 anos, 58 de profissão, Giovanni é uma das figuras mais folclóricas e carismáticas da gastronomia paulistana. Tanto que recebeu até nome de rua em sua homenagem, a Il Sogno di Anarello, onde está instalada a cantina. É um lugar despudoradamente típico, com inúmeras fotos nas paredes, garrafas de vinho no teto e o bom e velho pão italiano sobre a mesa. Na hora de comer, não espere muito cuidado no preparo e refinamento na apresentação. Aqui fala mais alto a fartura e o clima de festa – com salão cheio nas noites de segunda a sexta. O espaguete à carbonara chegou com molho à base de ovos parecendo uma omelete. Já o cabrito ao forno desossado tinha tempero rico, com vinho e alecrim. Para encerrar, café de coador de pano com uma lasquinha de limão na xícara. Bom avisar que a casa não abre aos sábados e domingos e que as férias de Giovanni estão chegando.
R. II Sogno di Anarello, 58 – Vila Mariana, tel.:5575-4266- acessibilidade

LOsteria do PIero

Parece uma cantina de cinema, com todos os estereótipos que se espera desse tipo de restaurante: camisas de futebol penduradas no teto, várias televisões ligadas (sem volume, felizmente) e garçons que jogam as bandejas no chão, com o simples intuito de fazer barulho, sempre que um cliente está aniversariando. Para quem gosta do clima, é um prato cheio. O cardápio é gigante, como se espera, com porções enormes que dão com folga para dois – só para se ter uma idéia, há mais de cem pratos de massas à escolha. Prefira as artesanais, fabricadas lá, como o fettuccine, as lasanhas e o talharini. Entre as carnes, o clássico polpetone é uma boa opção. Antes de pedir a conta, não dispense a ótima musse caseira de chocolate.
Al. Franca, 1.509 – Cerqueira César, tel.:3085-1082- acessibilidade

Totó

Alfredo Martins, sócio da casa, adora uma caipirinha e manda bem no balcão. Antes de pedir os pratos, experimente uma delas – a caipirosca de mexerica com limão-cravo está entre as melhores. A cozinha mescla a culinária do norte da Itália com a mediterrânea e o resultado são pratos como o tortelli de coelho ao molho de azeitonas-verdes e tomates e o tagliolini com abobrinhas grelhadas e camarões ao vinho branco. O risoto de mascarpone com presunto cru foi servido meio durinho no dia da visita. Nas massas de fabricação própria estão os maiores acertos. Para a sobremesa, experimente o torrone di trento.
R. Doutor Sodré, 77 – Vila Olímpia, tel.: 3841-9067

De ser feliz

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Estava pensando, aqui com os meus botões, no que é ser feliz, e então comecei a enumerar os caminhos que o mundo moderno indica para chegarmos à tal da felicidade.

Diariamente somos bombardeados com a idéia da juventude eterna e do belo absoluto, e entendemos que só seremos felizes se tivermos a aparência do momento, da moda, do gosto atual, que muda mais rapidamente do que é humanamente possível acompanhar. Num dia, belo quer dizer cabelos crespos e curtos, e quadris delicados e levemente arredondados. No outro, belo quer dizer cabelos lisos e longos, e quadris largos e fartos. Do delicado bumbum feminino passou a ser exigido um tônus muscular excepcional. Dos lábios finos e delicados da mulher exige-se mudança radical. Devem crescer e engrossar; todos! As mulheres excluídas do rol das consideradas belas correm aos consultórios legais e/ou ilegais em busca de qualquer tipo de substância que as ajude a entrar no clube das beiçudas.

Peeling, para que não haja sombra de manchas, é preciso; silicone nos seios para deixá-los maiores e duros; Botox para que não haja vestígio de ruga, é preciso. Cremes de colágeno e vitamina C, entre tantos outros, são indispensáveis; e se não temos meios financeiros, tempo ou estômago para uma ou duas plásticas por ano, estamos irremediavelmente excluídas do time das belas.

É preciso malhar, é preciso ser magro, magérrimo de preferência. É preciso ter o carro do ano, o considerado de elite. Você gosta de certo modelo, de certa linha? Jamais! Está fora de moda e não dá status.

Os homens que antes viviam contentes consigo precisam malhar e aumentar os hoje famosos bíceps e tríceps. Isso era linguagem de médico, quando eu era adolescente, e hoje está na boca dos meninos e meninas, quando aprendem a falar. Precisam ter barriga de tanquinho, aquele que saiu de moda na área de serviço e entrou na moda na anatomia. Falhar na hora do sexo traz condenação irreversível. Viagra, é preciso; cremes, visitas à dermatologista e plásticas, são indispensáveis. E o homem já não sabe muito bem quem é.

As meninas não comem, e morrem. Nem chegam a crescer para experimentarem todas as possibilidades oferecidas para serem mais belas e felizes. Os meninos tomam bola tentando fazer sair dos seus próprios padrões, músculos que deveriam ser fortes para sustentar o esqueleto. E morrem mais cedo.

É preciso que nossos filhos sejam doutores, empresários ou famosos, magros e bonitos, para que sejam felizes e para que possamos ser felizes através deles. E somos? Não. Sofremos. Jamais conseguiremos ser o que não somos. Jamais conseguiremos seguir o ritmo da moda, que muda num padrão tão diferente do nosso. A pele abundante já não cabe mais em nossas formas, mas deve encolher, na contramão da vida. Nossas rugas surgem, mas devem desaparecer, na contramão do tempo. Vivemos na contramão, perigosa e tristemente.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Ouça o texto na voz da autora:

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora, e escreveu o livro “De Bem Com a Vida Mesmo Que Doa”, publicado pela Libratrês .

PF de boteco, uma tradição paulistana a ser reverenciada!

Com a palavra a nosso botequeira Ailin Aleixo, na “Época SP na CBN”:

São Pedro São Paulo

Os PFs surpreendem pela qualidade. O Picadinho com farofa, ovo frito ou pochê, arroz, banana frita e milho, R$ 34, vem no ponto, super bem temperado, com arroz soltinho, a banana sequinha e a farofa bem saborosa. O filé também estava perfeito: alhos perfeitamente dourados, filé cozido no ponto exato pedido pelo freguês e fritas sequinhas. Uma bela lembrança. Há uma fórmula com um prato principal por dia + saladinha + doce caseiro com queijo ou fruta da estação custando R$ 31. Nestes, os pratos também ganham uma sofisticação a mais, como pato ao molho de casis.

Rua Doutor Renato Paes de Barros, 127
Itaim Bibi – Zona Sul – 3079-4028

Bar Leblon

O bar na Bela Cintra é uma homenagem ao bairro do Leblon no Rio. Na parede há um mapa desenhado, com as ruas do bairro. É do tipo bar chique e no quesito pratos há somente um picadinho, mas que picadinho com farofa, tutu, ovo, arroz e couve verdinha! É bem servido e delicioso.

Rua Bela Cintra, 483
Consolação – Centro – (11) 3237-0151

Filial

O Prato de mãe (bife, arroz, feijão, ovo e fritas), R$ 21,50, vem montado no prato, com o feijão numa tijelinha à parte. Tem gostinho de comida de infância: arroz soltinho, ovo frito no ponto, feijão bem temperado…O clima descontraido do bar e a simpatia dos garçons arrematam o programa. Na categoria PRATO DE MÃE há ainda duas outras opções: arroz, feijão, filé ou frango à milanesa, tomate e cebola

Rua Fidalga, 254 – Vila Madalena – 3813-9226

De pobreza

Por Maria Lucia Solla

Olá

Estou, faz dois dias, mergulhada na palavra pobreza, porque sei que palavras são idéias, e que idéias são fonte inesgotável de energia. Comprovadamente, por experimento científico. Assim, é possível mergulhar no ambiente que elas criam, experimentar seu conceito e avaliar a idéia que fazemos dele, e o uso que fazemos delas. Então, além do cérebro, é possível usar o corpo todo para perceber os conceitos. Depois, dependendo de cada um, também é possível torcê-lo para o ajustarmos à nossa conveniência. E o incrível é que nunca perdemos o direito de usá-las.

Pobreza provocou-me a sensação que muitas palavras provocam logo na chegada. Oposição –não contradição- e completude. Ela é cheia e vazia na mesma medida. Cheia de nada e vazia de tudo.

As palavras se prestam ao nosso contorcionismo social e nos emprestam seus sentidos. Nós finamos; e elas, flexíveis, sobrevivem. Como a palavra fim, por exemplo.

Mas voltando a ela, pobre da palavra pobreza. Hoje, tudo o que é horrível, é pobreza. Se o lugar é feio, é uma pobreza, se a carne está dura, é uma pobreza. O lugar é sujo, mas a gente vai lá e diz que é uma pobreza. Virou gíria curinga, mas foi levada, a pobre. Caiu na boca do povo, de pobres e ricos, indiscriminadamente. Hoje freqüenta rodas dos que se consideram suas únicas vítimas, e daqueles que se consideram imunes a ela. E ela dobra daqui, estica dali, e se entrega a cada um e a todos.

Quando eu era pequena, pobre era o homem que carregava um saco nas costas, a quem a gente se referia como o homem do saco. E os pais, sabendo que a gente morria de medo, ameaçavam que ele viria pegar se a gente não obedecesse. Um crime. Ele tocava a campainha para pedir um prato de comida, e eu tremia. Minha mãe preparava um prato imenso, enquanto recitava o mantra, meu Deus, que pobreza! Minha bisavó portuguesa batia os tamancos no chão e dizia, menina, você não viu nada. Vocês não sabem o que é pobreza. E eu acreditava que pobreza era sujeira, mau cheiro, cara feia e sacos apavorantes. Disso eu queria me livrar.

Quanto a outras sensações do meu mergulho, vou guardar. Portanto, só me resta desejar que sejamos cada vez mais pobres de doença, de ignorância, de egoísmo, inimizade, prepotência e ganância, e que sejamos cada dia mais ricos de curiosidade, criatividade, perdão e compaixão.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é cronista dominical do blog, mas provocada pelo Blog Action Day comparece nesta quarta-feira, também.

Novidades germano-asiáticas em São Paulo

A eclética Ailin Aleixo traz boas novas aos paulistanos e turistas no “Época SP na CBN”:

Hitam

Em sânscrito, Hitam significa bem-estar. O nome não poderia ser mais propício. O lugar é uma delícia, intimista, decorado de maneira simples, porém charmosa. Para completar, há som de cítara ao vivo nas noites de sábado – espetáculo raro na cidade. O cardápio passeia pelos sabores asiáticos sem tirar os pés do Brasil. São receitas preparadas com parcimônia no uso da pimenta e outras com viés bem tupiniquim, como o badejo ao molho de moqueca. Ótimo começo é o trio de cestinhas crocantes, moldadas em massa filo e recheadas de camarão com abóbora, palmito pupunha e shiitake com alho-poró (a melhor delas). O camarão picante faz jus ao nome – e é muito gostoso. Os crustáceos foram servidos com ótimo ponto de cozimento, acompanhados de ervilhas-tortas tenras e tomatinhos. Outra boa pedida é o lombo agridoce com chutney de manga e legumes. Embora não anunciado no menu, os pratos chegam à mesa repletos de pimenta-biquinho. O chef de cozinha, Léo Bahiense, conta que é para enfeitar, mas fica o gosto meio azedinho da danada. De sobremesa, a compota de cuscuz marroquino com limão é, no mínimo, exótica. Experimente. Para encerrar, há uma pequena e instigante carta de chás nacionais e importados.

Rua Áurea, 333 – Vila Mariana, 5082-4589, não tem acessibilidade para cadeira de rodas

Lukullus

É um misto de panificadora e restaurante. Mas não espere algo nos moldes tradicionais. O salão térreo tem jeito de bar, com varanda aberta para a rua. O melhor fica no piso de cima, espaço superagradável com mesas ao ar livre e uma área coberta bem arrumadinha. A cozinha é alemã, mas foge da fórmula convencional dos joelhos e bistecas de porco. O chef Tassilo Henning Drosdek, nascido na região de Stuttgart, prefere mostrar o lado mais leve dessa culinária. Até o goulash, ensopado de carne com páprica e batatas, chegou à mesa ralinho. Típico da região da Suábia há ragu de lentilhas levemente azedo (a receita leva vinagre) com spätzle (massinha artesanal) e salsicha Viena. A trouxinha de acelga recheada de legumes com linguado à dorê, e a salada com batata rösti ao molho de dill, acompanhada de salmão defumado e raiz-forte, são boas opções para quem torce o nariz para os embutidos, comuns da especialidade. De sobremesa, o strudel de maçã chega à mesa com a fruta bem pedaçuda, acrescida de uva passa e amêndoas.

R. Alexandre Dumas, 1541 – Chácara Santo Antonio, 5181-169, não tem acessibilidade para cadeira de rodas

As delícias, cheias de azeite bom, da cozinha mediterrânea

Prá começar a semana bem azeitado (êta trocadilho infâme !), acompanhe as sugestões da Ailin Aleixo no “Epoca SP na CBN”. A partir desta semana, sempre teremos informações sobre a acessibilidade.

La Table & Co

Para chegar ao agradável jardim, onde ficam as melhores mesas, o cliente passa por uma prova de resistência: a boutique de azeites e produtos gourmet. Sim, você pode experimentar alguns, mas cuidado para não comprometer o apetite. Elaborado pela uruguaia Clo Dimet, o cardápio passeia por massas de fabricação própria, carnes e peixes. Em praticamente todas as receitas, incluindo algumas sobremesas, a chef busca explorar as qualidades dos azeites da loja. De entrada, a lula recheada com marmelada de cebola ao vinho tinto perdeu com um recheio de gosto forte e extremamente doce. Melhores os pinchos de frango com tomate confit, limão-siciliano e sálvia. Entre os pratos principais, minicapelete de abóbora com mascarpone e ervas, e dourado grelhado, servido com purê de batata doce e manteiga noisette. Nos fins de semana, monta um farto bufê de café-da-manhã (R$ 22 por pessoa), que inclui pãezinhos artesanais à base de azeite.
R. Bela Cintra, 2.023, Jardim Paulistano, 3063-4433, acessibillidade a cadeira de rodas

Oliva

Frescas receitas mediterrâneas da Espanha, Itália, França, Grécia, Marrocos e Líbano são a especialidade deste simpático restaurante, inaugurado em 2004, que fica em uma rua tranqüila a poucos passos da Berrini. A casa é das mais simpáticas, com paredes de tijolinhos à vista e um agradável jardim interno. No almoço, concorridíssimo, há um menu executivo renovado toda quarta-feira, que dá direito até ao couvert (a focaccia é imperdível). Há também ótimos pedidos à la carte. O espeto mediterrâneo traz cubos de filé e peito de frango aromatizados com azeite, limão siciliano e louro, acompanhado de arroz pilaf de frutas secas e especiarias, uma delícia. À noite, entram em cena uma série de petiscos e outros pratos mais elaborados, caso do pernil de cordeiro cozido em panela de barro, com arroz de la huerta azafranado trocando em miúdos, é um arroz ao açafrão com legumes do mediterrâneo e coalhada seca feita na casa. A melhor sobremesa do cardápio, porém, é brasileiríssima: pudim de tapioca com baba de moça. Não deixe de provar.
Av. Nova Independência, 98, Brooklin, 5505-4755, acessibillidade a cadeira de rodas