Por Maria Lucia Solla
Olá,
Foi no Uruguai, a primeira vez que fui a um cassino. Joguei uma ficha só, no vermelho 27 e ganhei 36 delas. Então, segurei meu tesouro até o momento de ir embora e, na saída, troquei todas elas por dinheiro de verdade, para usar do jeito que eu quisesse.
Pensei que jamais me deixariam entrar, mas Maria Elisa escolheu minhas roupas a dedo, me produziu, e maquiou. Um pouco de batom, um quê de blush, prendeu meus cabelos, e até eu acreditei que já tivesse chegado aos 18, como num passe de mágica do cinema. Sentia-me rainha, entrando no castelo, daquela ilha de fantasia. Mas mesmo o olhar inexperiente de menina-quase-moça, ou de moça-ainda-menina percebeu que o cassino era sombrio, apesar dos candelabros.
Eu tinha 14 e fazia uma viagem de carro, convidada por um casal de amigos dos meus pais. Maria Elisa brasileira, delicada, e muito feminina. Bernardo, uruguaio, forte, pele sardenta e cabelos puxando para o vermelho claro. Uma fogueira. Agora transforme a imagem que você faz de uma fogueira em outra, delicada, acolhedora, divertida e amorosa. Incapaz de queimar você. Assim era ele. E assim foi nossa viagem.
Foi, na verdade, minha primeira grande aventura. Papai concordou, nem sei como, e pela primeira vez eu saía da redoma da minha casa e da casa dos amigos, para me expor a uma realidade diferente e, ainda por cima, móvel. Meu lado cigano não sabia o que era melhor. Eu vivia um conto de fadas. Se bem que teve um dia no norte do Paraná, onde a terra era tão vermelha, que as casas brancas eram salpicadas de vermelho na metade superior, e acabavam vermelhas, salpicadas de branco, na metade inferior. Foi ali que meus sapatos favoritos, da primeira leva dos saltinhos, ficaram irremediavelmente manchados. Mas nem isso teve muita importância, tamanha a magia de tudo. Íamos a restaurantes todos os dia, tomávamos café da manhã nos hotéis, e eu não perdia um detalhe. Tudo mudava a cada minuto e a cada curva e sempre conseguia me surpreender. Sempre.
Anos mais tarde entrei, sem probabilidade de ser barrada, noutros cassinos, e cada vez gostava menos deles, até que percebi que não precisava entrar. Podia fazer o que me desse na telha. Mas vi muita gente apostar mais alto do que podia e afundar, arrastando junto o que sobrou da família. Vi gente encolhida num canto, girando o anel no dedo, olhando fixamente para ele, num dramático e dolorido ritual de despedida, antes de ir ao guichê para trocá-lo por fichas. Provocava em mim uma enorme tristeza. As cenas e seus prováveis motivos, se você é sensível, eram explícitas demais. Eu não jogava, portanto não ganhava nem perdia. Nunca dei muita importância para a sorte do primeiro dia
Assim aprendi, já na adolescência, que no cassino você entra, joga, e ganha ou perde. A responsabilidade pelo seu jogo e pelo destino que você dá ao seu dinheiro é sempre sua. Hoje, no entanto, me pergunto por que é que, aqui fora, no mundo da realidade comum, onde o cassino é proibido, como se nele morasse todo o mal do mundo, só uns poucos jogam deslavadamente, trapaceiam, enganam, roubam, corrompem, quebram a banca e a gente é que paga a conta.
Não entendo, e não vou entender. Portanto nem adianta tentar me explicar.
Mas…
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.
Esta gravação foi uma gentileza de Luis Eduardo Pacheco e Suiang Guerreiro. A música é Olhar de Mulher, de Ricardo Leão e Abel Silva por Caçulinha com participação especial de Ricardo Leão ao piano.
Maria Lucia Solla é terapeuta e professora, autora do livro De Bem Com a Vida Mesmo Que Doa, publicado pela Libratrês, e todo domingo escreve aqui no blog para a nossa sorte.