Por Maria Lucia Solla
Olá,
Abro a porta de casa, e encontro um silêncio com sabor e aroma de doces boas-vindas. Respiro fundo e me faço permeável. Preciso tanto dele… Falei com meus filhos, por telefone, e acabamos dando boas risadas. Riso nervoso, talvez. Moram longe, sabe como é, achei melhor que soubessem por mim, e não através deste texto, após sua publicação no jornal e postagem no blog.
Aconteceu num salão de beleza, próximo ao Portal do Morumbi, lugar que freqüento muito raramente. Corto e cuido, eu mesma, do meu cabelo. Fui sem pressa, indulgente comigo. É sábado. Deixei minha agenda livre e curti uma coisa de cada vez, sem hora para terminar. Zen.
Por volta das sete da noite, com a porção esquerda do cabelo seco e a porção direita presa em cômicos chumaços que aguardavam a vez na boca do secador, o terremoto eclodiu. O bando entrou de armas na mão, imitando filme americano. Pernas e braços abertos. Todo mundo quieto! Vão passando tudo! Queriam principalmente celulares e dinheiro. Pedi que não levassem meus documentos. A gente qué dinheiro, dona! Num olha pra mim! Num olha pra mim! Disse ele, olhando para mim. Jogou de volta meus documentos dentro da bolsa, deixando ir com eles meus cartões de crédito. Mãe, mãe, tô com medo! Fica pertinho de mim, filha. Fica quietinha. Eu também estou com medo, mas não vai acontecer nada.
Além do que estava acontecendo?
Surpreendi o olhar de um dos homens, três entre as vítimas contra oito na versão tupiniquim urbana das Farc, se dirigindo para a arma de um bandido que estava mesmo fácil de pegar. Segurei o olhar dele no meu o quanto pude, e fiz que não com a cabeça. Ele engoliu a amarga sensação de impotência e se aquietou, avaliando melhor a situação.
Fomos encurralados numa única sala. Todo mundo junto! Ninguém se mexe! A gente qué o nosso! Vão entregando o celular! Olha que um vai morrer aqui!
Uma das meninas conseguiu entrar no banheiro e ligar para o pai, que chamou a polícia. A mãe ficou furiosa quando soube, e o pai de um bebê de dois meses que acabara de ser amamentado e dormia profundamente no colo da mãe, decidiu que o confronto entre policiais e bandidos poderia ser ainda mais desastroso. Alertou o bando dizendo que ouvira alguém na rua anunciar a chegada da polícia. Nervosos, ameaçaram nos matar, mas tinham pressa de levar o que tinham conseguido e, furar uns poucos levaria tempo e o barulho chamaria mais atenção.
A polícia chegou nos calcanhares deles e fechou a rua. Saíram em caçada e recuperaram um carro que havia sido levado e abandonado por perto, ainda ligado. O resto, o vento levou.
Estou em paz; feliz de estar viva. Felizmente decidi, na última hora, não levar meu novo livro de poesias de Menotti del Picchia. Por outro lado, penso que não se interessariam por ele. Tudo isso é muito triste e confuso.
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.
PS: Aviso meus amigos que levaram minha agenda eletrônica. Fiquem atentos, por precaução!
Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro De bem com a vida mesmo que doa, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.





