Por Maria Lucia Solla
Olá,
O dia dos Namorados está chegando, e vou pegar carona na data para falar, não de namorados, mas de amor. Quero falar daquele amor que chega de mansinho e, sem tocar a campainha, usa chave mestra para entrar no coração da gente. Não chega como um raio, assustando, nos deixando de pernas trêmulas, garganta seca e coração pinoteando, ao primeiro olhar. Esse tipo de amor tende a acabar logo, e geralmente não acaba bem. O tipo de amor a que me refiro, chega devagar, e a gente custa a acreditar quando se dá conta de que já está totalmente tomado por ele. Vai se espraiando. Da raiz do coração ramifica para a mente, sem fazer estragos nem causar danos irreparáveis. E pouco a pouco vai tomando o corpo todo. Ele não dilacera; preenche. Não desequilibra, harmoniza. Não exige; oferta.
Em inglês existe uma expressão linda – to be in love – que quer dizer, literalmente, estar no amor. Essa expressão é traduzida como – estar apaixonado – mas não é isso. Nem de perto. Estar no amor quer dizer estar mergulhado nele, envolto por ele, entregue a ele sem reserva, sem condição, sem joguinhos dissimulados. É flutuar no seu interior. É uma das situações em que se está mais perto do divino. Por outro lado, estar apaixonado é estar incendiado de paixão. E fogo um dia apaga. O fogo, verdade seja dita, transmuta e purifica, mas no processo queima e deixa marcas doloridas por onde passa.
O tipo de amor a que me refiro é feito apenas de três ingredientes, admiração, respeito e atração. Nessa ordem. Simples assim. E se você admira e respeita alguém, não vai querer transformá-lo em alguém diferente, certo? O que vejo à minha volta, é uma porção de pessoas infelizes, frustradas, querendo mudar os hábitos, os modos, as amizades, a aparência do ser supostamente amado. Na realidade, o que se ama nesse caso é um ser idealizado. O que fazem é escolher o outro como uma massa de bolo que, depois de colocada numa determinada forma e assada, toma o seu aspecto. As mulheres escolhem homens redondos e pretendem transformá-los em quadrados, já que não encontraram um quadrado que lhe parecesse atraente. O resto todo mundo já sabe. A vida vira um inferno. Em reunião de amigos, é farpa pra cá, e farpa pra lá. Insuportável para todo mundo.
Este Dia dos Namorados vou passar sozinha, por razões óbvias. Não tenho namorado. Mesmo assim, vou passar mergulhada no amor, permitindo que ele penetre e alimente cada uma das minhas células, de todos os meus corpos, em todas as dimensões, além dos mundos paralelos.
Quero morrer de amor para renascer na vida. E você?
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.
Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro De bem com a vida mesmo que doa, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.



