De boca aberta

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Quando fico sem saber o que dizer, muito surpresa ou espantada, digo que estou boquiaberta. Brincamos muito sobre isso, Luiz Fernando e eu. Quando lhe conto um fato de abalar estruturas, ele abre a boca e arregala os olhos, e eu não posso deixar de rir. Se o assunto é sério, esse gesto atenua imediatamente o seu caráter sombrio. Um dia, quando o surpreendi mais do que o esperado, ele desenhou uma carinha boquiaberta para mim, e eu pendurei a folha de papel na parede, ao lado da minha cama. Era impossível não olhar para ela quando eu ia dormir, e ela, invariavelmente, me fazia sorrir. Exatamente porque isso sempre acontecia à noite, na hora de dormir, resolvi tirá-la dali e colá-la no espelho do banheiro, para que fosse uma das primeiras coisas que chamasse a minha atenção, depois de acordada pela água do chuveiro. Assim, minha primeira expressão do dia seria um sorriso. Não sei onde foi parar esse desenho.

Procura-se, desesperadamente, uma carinha marota, desenhada a lápis, com a boca bem aberta e os olhos redondinhos, muito espantados!

Não se assuste que este não é um prólogo de tragédia grega, mas se quiser se assustar, fique à vontade, porque na realidade, anda muito difícil sorrir. Há pessoas que dizem: são os tempos! Mas os tempos sempre foram os tempos, moldados por nós, seres humanos, viventes em cada uma das diferentes épocas. Conclusão, não são os tempos coisa nenhuma; somos nós. Você e eu, seus vizinhos de cima e os vizinhos de baixo, os do lado esquerdo e os do lado direito, os do outro lado da rua e os da rua de trás. São os motoristas agressivos e são os filhos que desrespeitam seus pais, como se isso fosse moda. São pré-adolescentes cuspindo palavrões de baixo-calão, a torto e a direito, dentro e fora de casa, indistintamente, sem terem a língua untada com uma boa pimenta. São cidadãos de baixa renda, sem condição de acesso à educação e à cultura, roubando, matando e seqüestrando. São cidadãos de alta renda, com toda a condição de acesso à educação e à cultura, roubando, matando e seqüestrando.

A solidão, por sua vez, nunca fez adoecer tanta gente, numa sociedade que tem cada vez mais gente e na qual é quase impossível ficar sozinho e ter um pingo de privacidade.

Continuo a acreditar que, antes de cuidar do outro, é importante que eu cuide de mim mesma. É o que chamo de egoísmo sadio. Se estiver bem, terei bem para oferecer ao outro, certo? De um saco de sal não sai açúcar, nem debaixo de reza-brava. E além de tudo, como não temos dúvida de que é horrível viver ao lado de alguém que está mal, imagine viver vinte e quatro horas do dia com você mesmo, quando não está bem. Se é que você vai precisar de algum esforço para imaginar.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

Quintanares: Vontade de escrever


A fotografia é de Liane Neves e você encontra no site em comemoração ao centenário de Mário Quintana

O desejo do poeta era expressar-se em uma coroa de sonetos. E Mário Quintana faz este exercício no texto que você ouve interpretado por Milton Ferretti Jung:

Quintanares aparece neste blog terças e sábados. É resultado de arquivo familiar de programa que foi ao ar, originalmente, na Rádio Guaíba de Porto Alegre.

Quintanares: Sonatina Lunar

Publicado em 1976, no livro “Apontamentos de história sobrenatural”, este poema tem o ritmo e a brincadeira com as palavras que sempre marcaram Mário Quintana. Ouça na voz de Milton Ferretti Jung:

Quintanares foi ao ar, originalmente, na Rádio Guaíba de Porto alegre. Aqui no blog você ouve novas publicações terças e sábados.

De stress e depressão

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Ontem assisti a uma palestra da minha prima Rosely Sola, sobre Stress e Tratamentos Naturais. Rosely é psicóloga, superdiplomada, colecionadora de títulos, e acaba de dar mais um passo à frente, no caminho da sua realização. Corajosamente, e apoiada pelo seu grande amor, tomou a difícil decisão de deixar para trás o mundo empresarial, aposentou terninho e saltos altos, colocou na maleta conhecimento, experiência e coragem, e partiu para a grande aventura pelo Espaço Holístico Transmutando.

Antes de contar para você o que ouvi ali, quero frisar que, quando ela fala de tratamentos naturais, se refere ao que está disponível na natureza do planeta e na nossa própria natureza, em contraposição a produtos sintéticos. Aromas, cores, flores, massagens, Reiki, Radiestesia, um ouvido atento e treinado para ouvir a verdade do outro, sem julgar e principalmente sem condenar, é o que ela oferece.

Lá no Espaço, no dia festivo da inauguração, a sala reservada para a palestra logo se encheu de gente silenciosa e atenta. Todos um pouco tímidos no início, apesar da indicação de que seriam bem-vindos, o diálogo e as intervenções. Poucos minutos depois de iniciada a palestra, já se podia ouvir o movimentar de corpos nas cadeiras. Ajeita uma perna aqui, acomoda um braço ali, uma olhada para o lado, para checar a reação do vizinho às informações recebidas, e o clima foi descontraindo e esquentando. O assunto tocava pontos nevrálgicos.

Rosely explicou que stress é uma reação, positiva e necessária à nossa sobrevivência, a todo tipo de excitação emocional. Disse que se formos confrontados por uma situação de perigo, por exemplo, e precisarmos fugir da ameaça, os neurônios se mobilizam e ordenam que as glândulas endócrinas produzam hormônios a fim de nos munir de força nos músculos, e sebo nas canelas. Acontece que hoje, quando o organismo agiliza todo o processo e a gente se apronta para sair em disparada, músculos turbinados e canelas ensebadas, precisa abortar a missão para não morrer com um tiro nas costas.

Sem contar o perigo, você já se deu conta de quantas emoções acionam suas glândulas endócrinas todos os dias e, dessas vezes, quantas pode permitir que o corpo responda a esses estímulos? Quantas vezes pode deixar sair pela boca tudo o que o seu coração gostaria de dizer? A verdade é que a gente acaba armazenando uma quantidade excessiva de hormônios, muito além do limite administrável. Abortamos gestos, palavras, e atitudes que poderiam encaroçar ainda mais o angu na nossa panela, já encaroçado que chega. Pois bem, toda vez que esse processo físico se frustra, a gente se frustra, e uma frustração somada a outra acaba transformando o stress benigno em inimigo devastador. Costumo dizer que emoção sem expressão é depressão na certa.

Finalizando a palestra, Rosely elencou sintomas que sinalizam a urgência de procurar auxílio, e minhas pálpebras começaram a bater em ritmo acelerado. Tirei, rápida e estrategicamente, a agenda da bolsa, comecei a fazer anotações e, quando olhei para o lado, vi que alguns vizinhos faziam o mesmo. Na minha escrevi, ligar para a médica. Antes do coquetel, passamos pela sala de exposição de produtos e saímos com sacolas cheias de essências naturais de laranja, jasmim e alecrim, sabonetes de canela, sprays para o ambiente, velas aromatizadas e incensos. Sentíamos urgência de viver, e de viver melhor cada minuto da vida, que é feita de tempo, não é?

Pense nisso, e até a semana que vem.

Quintanares: A canção da vida (em texto)

Quintanares: A canção da vida (em texto)

A vida é louca
a vida é uma sarabanda
é um corrupio…
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela
amor!
Entra em mim, como em uma tela
de Renoir
enquanto é primavera,
enquanto o mundo
não poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar
aí…
como um salso chorando
na beira do rio…
(Como a vida é bela! como a vida é louca!)

Problemas no editor de áudio me impedem de reproduzir poema de Mário Quintana interpretado por Milton Ferretti Jung como fazemos toda terça e sábado. Nenhuma tecnologia rebelde me impedirá de compartilhar com você o talento do poeta. Por isso, publico em texto o poema acima.

Quintanares: Canção do fundo do tempo



Foto de Liane Neves publicada no site em homenagem ao centenário do poeta

“Longe andava o meu olhar, longe andava …” começa, assim, o poema de Mário Quintana que você ouve nesta edição na voz de Milton Ferretti Jung, que por dez anos interpretou Quintanares:

Quintanares, programa que, originalmente, foi ao ar na Rádio Guaíba de Porto Alegre, é reproduzido terças e sábados neste blog para você apreciar Mário Quintana.

De segurança e da falta dela

Por Maria Lucia Solla

Olá,

No tempo de Adão e Eva, considerando-se que o casal tenha mesmo existido, o assunto segurança não constava da pauta a ser discutida no dia-a-dia, se é que tinham um idioma e que se comunicavam através dele. Como nunca ouvi dizer que tenham brigado e, muito menos, se separado, imagino que não tivessem. Mas, supondo que havia um vocabulário, segurança, certamente, não fazia parte dele.

Hoje, no entanto, segurança é palavra que transita, a torto e a direito, nos lábios de todos; letrados e iletrados, jovens e nem tão jovens, modernos e nem tanto. Buscamos alcançá-la, a tal da segurança, imaginando que só através dela poderemos conseguir a impalpável, intangível e indefinível felicidade. Me vem uma estranha sensação de que essa coisa toda foi inventada por aquele lá de baixo, o temido, o vermelhinho de garfo na mão. E porque teria ele se dado ao trabalho de inventar algo assim, que nos ocupa a mente, o coração e a alma, e nos faz tremer de medo? Elementar. Enquanto a gente fica ali, buscando proteção impossível, nos afastamos do real motivo pelo qual fomos colocados neste planeta, pelo lá de cima, o cheio de luz, o imparcial, aquele que, a despeito da opinião de muita gente, não julga. E ele nos colocou aqui, basicamente, para vivermos livres e bem, perseguindo objetivos possíveis.

Mas vamos definir a impossível segurança. É a condição do que está seguro, certo? É a condição do que está protegido, do que não corre risco. Agora, sejamos absolutamente honestos; isso existe? Existe algo assim no mundo real? Um mundo onde nada é permanente, uma vez que a marca registrada do Universo é a impermanência? Bertolucci aborda o tema, no filme O Pequeno Buda, que vale a pena rever.

Por que então essa mania de conservar tudo, de se agarrar a lembranças, a coisas e pessoas? A neurose de guardar, segurar, controlar, de nos atarmos pelas mãos e pelos pés; o medo de andar, correr, voar, tocar outras superfícies, e sermos tocados por elas, o medo de abrir portas que nos despertam a curiosidade, só paralisam a vida. Computadores e celulares não são seguros. Meu último celular se jogou na piscina num dia quente, e perdi toda a agenda telefônica. Meu notebook, como você sabe, precisou de um transplante de disco rígido e lá se foram documentos, lembranças, fotos, palestras, endereços e contatos. No primeiro momento cheguei a pensar em sofrer, mas logo decidi dar as boas-vindas à oportunidade de limpar também esse setor da minha vida, e começar de novo. Do quase zero. Tenho limpado armários e doado ou jogado fora tudo aquilo que não uso há pelo menos um ano, e tenho limpado também a minha própria memória. Talvez seja uma técnica para não sofrer com as perdas que chegam com as próprias pernas. Já me desapego, e pronto. Tomo a iniciativa, eu. A experiência tem sido interessante, e recomendo.

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

Quintanares: Depois do Fim

O nome de Mário Quintana foi lançado nacionalmente em 1966 com a publicação de Antologia Poética, organizada por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos. Dos poemas escolhidos havia este que você ouve na interpretação de Milton Ferretti Jung:

Quintanares é um programa que foi ao ar na rádio Guaíba de Porto Alegre, durante 10 anos. Os arquivos pessoais de Milton Ferretti Jung são reproduzidos aqui todas as terças e sábados.