Da parte e do todo

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Quando digo minha vida, mergulho na ilusão de que seja exclusivamente minha, de que tudo depende de mim e de que sou o centro do mundo, ainda infantilmente dependente do próprio umbigo e olhando apenas e diretamente para ele.

Quando digo minha vida, mergulho na ilusão de ser independente e de não me deixar influenciar a torto e a direito. Penso que tomo minhas decisões, tenho minhas convicções e que ajo a partir da minha cabeça ou do meu coração.

Pois bem, sinto a urgência de pôr no papel o que percebo agora. Como sempre. Compartilhar com quem lê o que se escreve é uma das razões do ato da escrita, mas honestamente falando, a principal razão é que se não crio ou escrevo, corro o risco de implodir.

Percebo não apenas na mente, mas em cada célula, que não sou nunca só eu, e que nada é só meu. Percebo que compartilho minha existência, compulsoriamente é verdade, com toda a humanidade, com suas formas-pensamento e suas emoções. Sou influenciada por tudo que me cerca. Sou influenciada por tudo o que tem vida, e influencio tudo o que tem vida. Não é papo-nova-era, e nem falo da espiritualidade dissociada da matéria; até porque isso não existe. Falo do que carrego na pele, nos olhos, no ar dos pulmões, na lembrança ou na caixinha sonhadora do meu ser, onde quer que esteja. Não existe distância entre eu e você.

Pare de ler um pouco e se ponha em silêncio, de olhos fechados, por alguns instantes. Dá para perceber a multidão em você? Se tiver um pouco de paciência e disposição, vai perceber que está tudo aí. Não perto; literalmente em você. Vai ouvir nitidamente o som e as tonalidades das vozes que já ouviu ao vivo, e ver nitidamente os gestos de todos os que moram dentro de você.

Quando imagino, penso que imagino sozinha e que tenho direitos autorais da imagem que projeto, mas me dou conta de que minha imagem é composta também da imagem projetada pelo outro, pelo seu desejo, seu pensamento, sua mágoa, gratidão, raiva, julgamento e comportamento. Tudo. Absolutamente tudo é compartilhado neste planeta, e quantas vezes nos damos conta disso? Quantas vezes quebramos a barreira do ego? Percebo mais claramente hoje, e sinto como se aprendesse a ler uma nova escrita e já pudesse balbuciar algumas palavras.

Se você já estava careca de saber de tudo isso, agradeço pela paciência em me ouvir, mas se nunca tinha pensado, sinto que pode valer a pena.

Em todo caso…

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

De tempo e Ponto Zero

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Mais uma semana se vai ou, puxando para o dramalhão, se esvai. Tudo voa, nas malhas da controvérsia sobre a velocidade do tempo.

O geólogo americano Greg Braden vem dizendo, há tempo, que a Terra está desacelerando o movimento de rotação e aumentando sua freqüência vibratória, a chamada Ressonância de Schumann, e que isso faz o tempo passar cada vez mais depressa. Ele diz que num futuro bem próximo, a Terra vai parar o movimento de rotação, atingir o que ele chama de Ponto Zero, e girar do lado contrário. Dessa forma o sol vai nascer no Oeste e se pôr no Leste. Acrescenta que devemos nos preparar para essas mudanças, e que todos os nossos medos, então, serão totalmente dissolvidos. Gosto da idéia.

Acontece que Einstein disse que ele, o tempo, e na realidade tudo o mais, é relativo; e com isso quis dizer que se você está perto de quem ama, ele, o tempo, voa, mas se está na cadeira do dentista, boca aberta, com uma broca insistente detonando o seu dente, engatinha.

Carrego as duas informações, mas é a crença na relatividade que me faz perceber que é, em grande parte, nossa impressão de prazer e desprazer a responsável pela mudança na velocidade da passagem do tempo. Nosso prazer o acelera e nosso desprazer o paralisa. Que poder, hein? E olha que cada um de nós tem um cardápio próprio, pessoal e intransferível, do bom e do não-bom. Será que, mesmo assim, somos nós que aceleramos o tempo? Cada um empurrando a máquina com seus prazeres, mesmo mergulhados em diferenças e achando que está tudo sempre errado?

Esse é o mundo que criamos; o reflexo da soma de todos nós. Puro espelho. É o melhor que conseguimos fazer. Duro é chegar a essa conclusão, mas é hora de encarar a realidade nua, sem maquiagem e de cara lavada.

Vivemos manifestando vontade de mudar, mas na verdade estamos muito apegados ao tempo e ao mundo; cada dia mais, e daí nasce o desequilíbrio entre matéria e essência. O segredo para o equilíbrio? O meio do caminho, para onde convergem as duas pontas, encontrando-se no ponto zero da reta.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

Ouvinte vê debate na vitrine da rádio, em Porto Alegre



Discussão esportiva é atração no estúdio Cristal de rádio no RS

Na semana Gre-Nal, os debates esportivos ganham destaque no Rio Grande do Sul. O torcedor fica excitado com a possibilidade de vencer o adversário no domingo. E quer participar de todas as discussões. Ver, ao vivo, alguns dos mais famosos jornalistas falando sobre futebol é uma das atrações proporcionadas pela Rádio Guaíba de Porto Alegre.

Na esquina da Rua da Praia com a Caldas Júnior, centro da cidade, local de intensa movimentação, principalmente na hora do almoço, os ouvintes param para ver o programa apresentado no Estúdio Cristal, que fica no andar térreo da emissora. É uma vitrine na qual a atração é a turma do esporte batendo boca. O público que ouve o som da rádio a partir de caixas penduradas do lado de fora participa com vaia ou aplausos dependendo a opinião do comentarista e o time para o qual ele torce, é lógico.

Nesta terça-feira, passei por lá para registrar as imagens que você vê aqui no blog ou acessa no nosso álbum do Blog do Milton Jung, no Flickr. Vi dois velhos amigos com quem tive oportunidade de trabalhar: Luis Carlos Reck, o primeiro da direita para a esquerda, e Edgar Schmidt, na outra ponta.

A emissora está ligada a minha história profissional e pessoal. É lá que meu pai trabalha há 50 anos. E foi lá que trabalhei no início de minha carreira, nos anos de 1980. No livro Jornalismo de Rádio, que lancei pela Editora Contexto, cito a emissora em capítulo no qual falo sobre a influência da internet no rádio. E aqui no blog reproduzo terças e sábados gravações do programa Quintanares que, originalmente, foram ao ar na Guaíba, por dez anos.

Clique na imagem lá em cima e veja o álbum do Blog do Milton Jung, no Flickr

Quintanares: Acordarás



O autor da imagem é Itamar Aguiar e está publicada no site em homenagem ao Centenário de Mário Quintana

Ouça mais um capítulo de Quintanares, programa que foi ao ar, originalmente, na Rádio Guaíba de Porto Alegre, apresentado por Milton Ferretti Jung:

Quintanares: Mundos



Imagem de autoria de Liane Neves reproduzida do site em homenagem ao centenário do poeta

Acompanhe a poesia de Mário Quintana na voz de Milton Ferretti Jung que apresentou o programa “Quintanares” na Rádio Guaíba, de Porto Alegre, por dez anos. Este arquivo se deve, exclusivamente, pelo cuidado da família em preservar bons momentos do rádio:

A ausência de “Quintanares” nas duas últimas semanas deveu-se a problemas técnicos enfrentados por este jornalista que transferiu sua operação de um PowerBook G4 para um AirBook da Apple e até agora não entendeu porque ao “traduzir” os arquivos para MP3 este serviço de blog – leia-se Globolog – não entendeu a coisa direito. Em tempo: voltei a postar “Quintanares” pois retornei ao PowerBook G4, momentaneamente.

De amor e amor

Por Maria Lucia Solla

Olá,

O dia dos Namorados está chegando, e vou pegar carona na data para falar, não de namorados, mas de amor. Quero falar daquele amor que chega de mansinho e, sem tocar a campainha, usa chave mestra para entrar no coração da gente. Não chega como um raio, assustando, nos deixando de pernas trêmulas, garganta seca e coração pinoteando, ao primeiro olhar. Esse tipo de amor tende a acabar logo, e geralmente não acaba bem. O tipo de amor a que me refiro, chega devagar, e a gente custa a acreditar quando se dá conta de que já está totalmente tomado por ele. Vai se espraiando. Da raiz do coração ramifica para a mente, sem fazer estragos nem causar danos irreparáveis. E pouco a pouco vai tomando o corpo todo. Ele não dilacera; preenche. Não desequilibra, harmoniza. Não exige; oferta.

Em inglês existe uma expressão linda – to be in love – que quer dizer, literalmente, estar no amor. Essa expressão é traduzida como – estar apaixonado – mas não é isso. Nem de perto. Estar no amor quer dizer estar mergulhado nele, envolto por ele, entregue a ele sem reserva, sem condição, sem joguinhos dissimulados. É flutuar no seu interior. É uma das situações em que se está mais perto do divino. Por outro lado, estar apaixonado é estar incendiado de paixão. E fogo um dia apaga. O fogo, verdade seja dita, transmuta e purifica, mas no processo queima e deixa marcas doloridas por onde passa.

O tipo de amor a que me refiro é feito apenas de três ingredientes, admiração, respeito e atração. Nessa ordem. Simples assim. E se você admira e respeita alguém, não vai querer transformá-lo em alguém diferente, certo? O que vejo à minha volta, é uma porção de pessoas infelizes, frustradas, querendo mudar os hábitos, os modos, as amizades, a aparência do ser supostamente amado. Na realidade, o que se ama nesse caso é um ser idealizado. O que fazem é escolher o outro como uma massa de bolo que, depois de colocada numa determinada forma e assada, toma o seu aspecto. As mulheres escolhem homens redondos e pretendem transformá-los em quadrados, já que não encontraram um quadrado que lhe parecesse atraente. O resto todo mundo já sabe. A vida vira um inferno. Em reunião de amigos, é farpa pra cá, e farpa pra lá. Insuportável para todo mundo.

Este Dia dos Namorados vou passar sozinha, por razões óbvias. Não tenho namorado. Mesmo assim, vou passar mergulhada no amor, permitindo que ele penetre e alimente cada uma das minhas células, de todos os meus corpos, em todas as dimensões, além dos mundos paralelos.

Quero morrer de amor para renascer na vida. E você?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.