De contribuição e retribuição

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Designers e artistas de todas as áreas, alonguem as asas da criatividade! Aliás, é hora do povo espreguiçar corpo e mente, e sair da inércia tropical e do papo valente e inconseqüente de fundo de quintal. Queremos colchões com compartimentos para guardar dinheiro e jóias. Pobres banqueiros ricos! Passaremos por calçadas opostas às suas, depois de fecharmos nossas minguadas contas. Jóias, para quê? Pela correntinha dourada, seu moço, corre-se o risco de perder o pescoço. E, atenção, se o seu relógio for roubado, mantenha-se calado, para não melindrar o meliante. Gastar seus reais para viajar? Nem pensar. O Grande Irmão, demagogo e populista, ameaça te enquadrar. Acordem, mentes brilhantes; é preciso ousar, atiçar, converter, subverter a fim de se proteger.

De estudar pode esquecer, que cultura aqui virou defeito. Vamos cruzar os braços, jogar baralho, descansar o esqueleto em redes esticadas nas árvores que sobrarem, do desmatamento que ninguém vê, encher a cara de cachaça, morar em agrupamentos e viver do Bolsa Família que é mais seguro e não cansa. Dane-se o país e o rio São Francisco, que o Grande Irmão vai mudar tudo mesmo, como nunca antes se fez! De empreender, nem cogite, pra não ser rotulado de elite.

O menino mimado e recalcado pela infância pobre, e que agora tem vida de rei, perdeu uma partida e ameaça levar a bola para casa para jogar com a camarilha. Estilistas, avante com lápis e tesouras! O povo precisa de cuecas e calcinhas funcionais, não para guardar dólares surrupiados, mas uns parcos reais suados.

Brasileiro sonega sim, você sabe tão bem quanto eu; mas sonega por quê?
Brasileiro sonega, não porque não concorde com justa distribuição de renda; sonega porque rechaça o assistencialismo obsceno, praticado pelo pacau de plantão. Brasileiro não deixa de pagar imposto por gosto, por não querer que o país seja como a Suíça, onde tudo funciona. Brasileiro não sonega porque abomina privilégio de primeiro mundo. Brasileiro deixa de pingar alguns reais nos cofres públicos para impedir que o fruto de seus esforços, honestos na grande maioria, termine nas mãos de vagabundos, ou em cuecas escusas de políticos deslavadamente sujos.

Brasileiro sonega sim, para pagar do próprio bolso a substituição de pneus estourados, em crateras aviltantes, nas estradas do país. Brasileiro paga 2/3 de imposto porque recebe zero de assistência à saúde e zero de segurança pública, 1/8 na área da educação, iluminação meia boca e 1/10 do que a dignidade humana, esfacelada constantemente, merece. Brasileiro sonega porque cansou de ver farra e lambança e de ouvir histórias pra criança. Cansou de ver homens e mulheres do planalto encherem as burras de dermatologistas, cirurgiões plásticos e estilistas da hora, e de sorriso zombeteiro na cara, pateticamente esticada, de político de meia tigela.

Se você movimenta, no banco, a fortuna de R$ 833,00 por mês, meu amigo, cuide-se e seja ágil, porque o leão quer mais pra comprar eleitor no próximo sufrágio. Acorda Brasil, é 2008!

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

De verso e reverso

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Sei que de incerto todo certo tem um pouco, e que confiança apresenta sutis pinceladas de desconfiança. Sei também, por experiência própria e não de ouvir dizer, que verdade vem temperada de inverdade, que há pitadas de inimizade batizando a amizade, e um bocado de impaciência em cada ato de paciência.

Há insônia nas porções de sono, dizem os estudiosos da área, e sabe-se que há muita injustiça nos pratos da justiça; o que deveria pôr abaixo a obscena empáfia de muitos magistrados.

Há, invariavelmente, doses variáveis de interesse nos gestos desinteressados e, infeliz e inevitavelmente, desamor, no amor. Há atrevimento no pudor, e há arrogância na insegurança de quem se acredita permanente, neste mundo impermanente; e eu, entremeada de desesperança, vou morrendo de tanto viver, sorvendo, gulosamente, cada instante de esperança.

Meus olhos, por vezes turvos, vêem poesia e amor, onde amor e poesia não há, e acabo escorregando no vice-versa dos versos em forma de prosa que transbordam e escorrem de mim, me abandonando vazia; truque matreiro dos desejos de menina em corpo de mulher.

Inesperadamente viro as costas e vou-me embora, quando desejo ficar. Emudeço em crises de silêncio, quando todo meu ser quer gritar, uma vez que a eloqüência não encontra saída, mesmo conduzida pela mão da senhora vivência. Ou então desando a falar, insensata, feito matraca desenfreada, quando o sensato seria calar.

Os desejos e sonhos chegam, inoportunos, quando há muito deveriam ter partido e, inconvenientes, manifestam-se nos momentos em que o rígido protocolo da conveniência deveria ser seguido à risca. Sinto que há fogo ardente camuflado nos montes de cinzas e, mesmo se certas presenças trazem consigo um sabor de ausência, percebo claramente a forte presença de certas ausências. Sigo confundindo tudo e, às vezes, quietinha no canto, contorço-me de dor.

Percebo um quê de melancolia em momentos de alegria e saboreio um tanto de recebimento em atos de oferecimento. Há riso no choro e vice-versa, e fim de conversa.

E você, o que percebe?

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

De Deuses e Demônios

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Deus é brasileiro, mas a paciência dele também tem limite. A terra, aqui por estas plagas, já começou a tremer sob sua ira, e os rios se enchem de espumas flutuantes que prenunciam a morte, como Castro Alves prenunciou a sua. Os governos estão desgovernados; nas prisões, drogas, armas, festinhas e celulares de última geração rolam soltos e, fora delas, a gente fica presa em casa, cercada de arames eletrificados, de seguranças que muitas vezes são traíras-assassinas travestidas de anjos da guarda, e de muros que nos protegem do vizinho que pode muito bem ser mais um traficante disfarçado de cidadão bem-sucedido. Parece que ele, Deus, se cansou da nossa adulação e das tentativas de distraí-lo com promessas, velas para seus assessores mais próximos, dinheiro a rodo para seus intérpretes sediados em Miami, orações, rituais e lavagem de escadarias. Estressou! Soltou, pelas ruas das cidades, demônios abomináveis e deu-lhes carta branca; criou vírus terríveis para ver se consegue exterminar a raça da qual não se orgulha de ter criado, para que invadam as vísceras de humanos e máquinas, desumanamente. E a gente se multiplica, mais pelo prazer fugaz e pela inconseqüência do ato do amor do que pelo sonho de construir, manter, e cuidar da família e dos filhos.

É véspera de Natal, e nós o que fazemos? Saímos em bandos ensandecidos e vamos às compras para presentear, por amor ou por pura obrigação social, adulando e distraindo os presenteados, da mesma forma que sempre fizemos com os deuses, buscando seus favores em forma de matéria ou de amor; tanto faz. Ainda não entendemos que a receita faliu. Sobram presentes e faltam carinho e compreensão. Sobram promessas e faltam abraços apertados. Passou da hora de acordarmos e nem sei, se nos apressarmos agora, se dá tempo de salvar o pouco que ainda resta.

E o que resta? É só olhar em volta. Resta trapaça em todos os níveis, de todas as sociedades. Resta traição e resta esperteza; aquela do Gerson que só quer vantagem em tudo. No começo dos tempos, temíamos os animais e a Natureza que, com sua força, nos punham em nosso devido lugar. Hoje, mantemos animais engaiolados e os vendemos mutilados. Hoje, é a Natureza que teme o homem e ruge, ferida, tentando resgatar o equilíbrio que lhe roubamos sem dó nem piedade. É a sociedade do eu-primeiro, da beleza artificial, da mulher construída por fora e destruída por dentro, dos papéis trocados, das crianças abandonadas, entregues a DVDs e a joguinhos eletrônicos. Crianças que sabem dizer download e que não têm idéia do valor do amor verdadeiro.

Quando vejo bueiros entupidos de lixo e garrafas plásticas sendo atiradas pelas janelas de BMWs pretos e de Brasílias amarelas, sinto vergonha da minha condição de ser humano. Não há mais como esperar que Deus nos ajude.

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

De graças e agradecimentos

Por Maria Lucia Solla

Olá,

O fim de ano chega e bate em todas as portas, indiscriminadamente; na porta dos bons e na porta dos não tão bons, dos amigos e dos não tão amigos assim. Dezembro vem trazendo um balaio de lembranças atreladas a emoções que fazem sorrir mais com os olhos do que com os lábios, e traz outras ainda que a gente gostaria de esquecer. Não há como fugir. É ir encarando e selecionando, acalentando e nutrindo as que têm um doce sabor e espantando e tentando evitar aquelas que atacam e viram do avesso o fígado e seus arredores. Presente de Natal, então, é fantasma que assombra gregos e troianos. É um sufoco escolher, porque vem com tarja de compulsório. Todo ano penso em organizar a escolha do presente certo para cada um, só que dezembro chega, me pega de surpresa e me passa uma rasteira certeira, sem dó nem piedade, e eu vou ao chão.

É nesse emaranhado de emoções, que procuro aquietar corpo e mente, e agradeço.

Agradeço ao Arquiteto dos Universos e a seus auxiliares que costumamos chamar de anjos. Agradeço aos mestres aprisionados em corpos mortais e aos que não posso ver com os olhos do corpo. Agradeço a meu pai e minha mãe, e a todos os seus antepassados, pela oportunidade de viver. Agradeço ao pai dos meus filhos e a seus pais e antepassados, pela vida dos meus tesouros mais preciosos. Agradeço aos amores que passaram pela minha vida e que me enriqueceram e me ensinaram a amar cada vez mais, quando eu achava que já sabia tudo sobre o amor, sobre respeito e admiração, sobre prazer e dor. Agradeço a meus companheiros de trabalho, superiores, pares e subordinados, que passaram e ainda passam pela minha vida, com quem aprendi e ainda aprendo muito. Agradeço aos anjos da guarda em forma de gente de carne e osso, como meus alunos/amigos que me impulsionam no caminho do aprendizado, e ao meu vizinho, que é um amigo precioso. Agradeço à minha tia Inês, querida demais, que é a minha família presente, cuidadosa e carinhosa em todos os momentos, com quem divido minhas alegrias, tristezas, vitórias e frustrações, e que me ouve com um amor que só ela sabe dar. Agradeço a todos aqueles que eram amigos e deixaram de ser, pelos mais diversos motivos. Enquanto tinham amor para dar, me inundaram com ele; quando ficaram secos, bateram em retirada, deixando lições que se eu souber aproveitar, cresço ainda mais. Agradeço a todos os professores, as descobertas fascinantes de um mundo sempre maior, desconhecido e fascinante.
Costumo dizer que se decidisse listar todas as minhas bênçãos, recebidas inesperadamente ou cultivadas com determinação, poderia preencher duas mil páginas com a maior facilidade; enquanto que se listasse as desventuras e frustrações, não conseguiria preencher uma única página.

Olho para mim, objetivamente, amarrando o meu ego arteiro e matreiro, bem amarradinho, e reconheço que ainda sei tão pouco da vida, que há tanto ainda para aprender, e é exatamente isso que me dá o impulso necessário para continuar vivendo. E você?

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

Da consciência

Maria Lucia Solla

Olá,

Todo dia recebo, por e-mail, um pequeno texto enviado pelo Centro Internacional de Cabala, na Califórnia. Gosto das mensagens; são curtas e claras. Delícia de ler no começo do dia, ao longo dele, antes de dormir, ou no dia seguinte. Faço a minha hora, já que as mensagens são atemporais. Falam de vida, de gente, de comportamento, e principalmente da capacidade de perceber que se está vivo e que não se vive à toa. São reflexões que ajudam a despertar a pobre da nocauteada consciência. Você se lembra da última vez que ouviu falar nela e o que foi que disseram? A gente só fala em consciência quando se refere ao outro, e aí diz, põe a mão na consciência, fulano, que ela deve estar pesada! Ou então, achamos que uns e outros nasceram desprovidos dela. Acredito que se você tem capacidade de ver, sentir, pensar e juntar lé com cré, então tem consciência.

O fato de ela viver dormindo ou de ser manipulada, sem dó nem piedade, é problema ou solução de cada um; mas fiquei curiosa e quis saber onde é que as pessoas acham que ela mora. Saí perguntando à queima-roupa, e vejam o resultado. Uma amiga afirmou, convicta, que ela tem um pé na mente e outro no coração. Se tivesse os dois na mente, seríamos duros demais, e se os dois estivessem plantados no coração, desastre! Outro amigo logo pensou na consciência política, – e eu que nem tinha pensado nisso – e disse que ela se divide entre estômago e fígado. Faz sentido; amargo, mas faz. Ouvi de outro que ela mora na alma e de outra ainda, que vagueia; ora aqui, ora ali, ao sabor dos ventos de nossos desejos. Mas achei ótima a resposta do Marco. Mora no mato, disse ele sem titubear. E ao ver minhas sobrancelhas quase pulando da testa, disse, é o Grilo Falante, lembra?

E assim, passei a semana falando e pensando na consciência, e cheguei à conclusão de que não faz diferença o lugar onde mora. Sei que não é negra, branca, amarela e nem vermelha. Não é pobre nem rica, chique nem brega. Na verdade ela nem tem direção, porque é a própria direção. Ela nos dá o norte e aponta o caminho. Vire aqui, ande mais um pouco, cuidado, contramão, e sinaliza quando chegamos a um destino. Ela é mapa, e precisa que lhe desenhem as fronteiras, ou mais modernamente um GPS, e precisa que lhe alimentem o programa. A consciência é responsável pela estratégia de cada opção, de cada ação, de cada um de nós de maneira diferente. Pouca coisa? No entanto, parece que a maioria não se dá conta disso, e nem ao menos reconhece a sua existência. Andamos pela vida sem leme, dando com a cabeça na parede e tropeçando, cheios de amarras, achando que ser feliz é pecado. Só nos lembramos dela quando a coisa aperta, e então ficamos quietinhos para não dar na vista. Percebo que consciência é amorfa, amoral e apolítica. Toma a forma que damos a ela. É ferramenta e não arma, e pode nos levar aos píncaros ou ao brejo. Só depende de nós.

Hoje, 5 de dezembro de 2007, instalou-se em mim uma certeza. Em Brasília é que ela não mora.

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

De vazio e reajuste

Por Maria Lucia Solla

Olá,

As idéias costumam se apinhar na minha cabeça, como as palavras faziam com meu filho Paulo. Sua boca ficava tão cheia delas que ele precisava abrir para elas saírem. Isso ele me disse aos sete anos, quando a professora reclamou de tagarelice na aula. Em mim, as idéias já chegam se acotovelando por uma promoção, mas se não conseguem a glória de virar ação, aceitam virar palavra, e eu escrevo.

Entre as idéias, a disputa é dura, porque se não forem promovidas podem adoecer de frustração. É melhor não esquecer que idéia é palavra do gênero muito feminino. É ultra-sensível, e se você não dá atenção ela adoece, vira as costas e vai embora ou, dependendo do nível da neurose de posse, fica do teu lado e vira inimiga. O melhor é procurar saber quem é essa tal de idéia, e eu descobri que elas habitam freqüências, e que vão ao ar através da sintonia que eu escolho. Como no rádio, onde você pode escolher notícia, música na medida certa para os seus ouvidos, ou a estação que toca fundo e arrebenta a última corda da tua paciência.

Tudo isso para dizer que as idéias não chegam aqui, desde ontem. Nenhuma na fila de espera, nem tentando arrombar a porta. É o vazio que se manifesta em mim – e que foi relacionado, por um dos meus amigos-mestres que dão mais vida à minha vida – ao vazio proposto pela próxima Bienal de São Paulo. O projeto do curador do evento é deixar um andar inteiro vazio; nenhuma obra ali. Interessante. Notícias dão conta de que um punhado de gente importante no mundo das artes plásticas, e em área afins, já anda debatendo o tema. Numa de suas declarações, o curador da mostra diz que tanto a Bienal quanto o MASP são instituições problemáticas, e eu me pergunto se não seria por estarem sempre tão cheias de si. Vai ver está mesmo na hora de esvaziar, selecionar e pôr as coisas em ordem, como se faz com gavetas e guarda-roupas.

Quando a gente diz, me deu um vazio, geralmente diz com cara de quem comeu e não gostou, e dá para entender o motivo. O vazio põe cada uma de nossas células a descoberto, e nem sempre se agüenta o confronto. A gente foge da raia e fala, fala, para não deixar nem um canto vazio, para não dar chance para o nada. Acontece que sem chegar ao vazio, fica difícil reconhecer a satisfação na medida certa, em cada canto da vida. O melhor é descartar o descartável e zerar os contadores periodicamente; não tem jeito. Depois, é repensar crenças, pensamentos, calibrar emoções e verificar se tudo está dentro do prazo de validade, ressetando, como se faz com as geringonças eletrônicas.

A gente carrega tanta mala cheia de ranço, de empáfia, de razão e de certeza, de medo e insegurança! Tudo velharia mofada, mal cheirosa e inútil. Trambolhos que bloqueiam a vida.

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

De silêncio e feriado

Por Maria Lucia Solla

Olá,

O feriadão fez jus ao nome; foi imenso, generoso, de-li-ci-o-so. Começou na quinta passada, exibindo comenda de feriado nacional, e termina hoje, terça da semana seguinte, com menor abrangência; em alguns estados da Federação. Dá o que pensar. Aliás, dá para passar uma vida pensando. Durante esse tempo todo, do feriadão, não da vida, trabalhei muito pouco e descansei e pensei muito, já que o cérebro não desiste e quer assumir o controle de tudo. Se deixar, vamos acabar virando um enorme cabeção, sem tronco nem membros.

Não dá para resistir à comparação entre corpo e sociedade, dá? E é começando pelo menor que se chega perto de entender o maior; sempre. Pode parecer conversa babaca de rebelde sobrevivente do movimento Hippie-Paz-e-Amor, ou de militante Muita-Luz-Irmão, da Nova Era. É que tem gente que só entende se rotular; parece que tem a cabeça virada ao contrário, só olhando para trás, e com maus olhos, de preferência. Tenha o nome que for, receba honras ou pedras, a verdade é que a nossa porção divina se manifesta cada vez com maior freqüência, queiramos ou não, e a gente passa a pensar também com o coração. Só então começa a entender o que está vivendo e o que se passa em volta. E é esse novo pensar que nos dá a rota para a melhor solução dos impasses, e de forma que todos possam ganhar, sempre. Meu pai dizia que um negócio é bom quando é bom para as duas partes. No tempo dele era assim, negócios eram fechados entre duas pessoas que representavam, na maioria das vezes, as suas famílias. Hoje percebo que os negócios são fechados entre muita gente, dos dois lados, e muitas vezes entre gente que nem existe.

Mas voltando ao cérebro, o perigo está na concentração de poder num único organismo ou sistema. Se um deles assume o controle, vai natural e gradativamente neutralizar os outros que, por falta de atividade acabam atrofiando, e eventualmente morrendo. Quando morrem os sistemas que o alimentavam, o usurpador do poder morre também porque não há mais nada que o alimente.

Quando medito, aquieto a mente e abro alas para que outros órgãos e sistemas se manifestem; se expressem em mim, para reorganizarem e harmonizarem os meus corpos. Manifestação e expressão são vitais, no micro e no macrocosmo, no corpo e na sociedade.

Eu pretendia falar de feriados; até pesquisei, mas já que falamos do corpo, ou melhor, dos corpos, sugiro que você, depois de torcer o nariz para mim, se sente confortavelmente, costas eretas, corpo relaxado, mantendo a dignidade da presença, e aquiete sua mente, por alguns minutos. Os pensamentos vão tentar você a entrar num diálogo animado com eles, mas o segredo é ouvir o que têm a dizer e não responder, não entrar no pensamento-diálogo. Assim, sua mente se aquieta e você tem uma pequena amostra do que é bem-estar, permitindo que seu corpo/sua vida/sua sociedade também fique melhor.

Se for verdade que o externo é projeção do interno, você não acha que vale a pena começar melhorando lá dentro, que é mais fácil e está ao alcance e ao preço de minutos de silêncio?

Pense nisso, e até a semana que vem

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

De educação e respeito

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Confesso que sou romântica incorrigível, irresgatável e irrecuperável, mas não me lamento nem me gabo. São características minhas; só isso. Também sou sonhadora, idealista, otimista, e mais alegre do que triste, a maior parte do tempo. Amo a vida, perdida e intensamente. Pura paixão. Mantenho-me viva graças a um instinto de sobrevivência danado de bom, e de uma intuição afiada e fiel, que não dorme nem de noite nem de dia.

Essa exposição toda tem uma razão, já que as características acima fazem parte da minha receita, e eu me pergunto se não seria essa mistura que me impede de tolerar falta de educação e falta de respeito. É possível que não sinta o mesmo, a pessoa que tenha ingredientes diferentes dos meus. Como sentem os que têm os pés bem firmes plantados no chão e os que são mais pessimistas ou menos efusivos do que eu? E me pergunto como sentem os que detêm o poder e vivem para reger a orquestra, e aqueles que nem têm idéia de que haja, em algum lugar, uma orquestra. No meu caso, seja o que for que eu faça, fico encantada com a vida, contenho a respiração e mantenho olhos e ouvidos bem abertos, para não perder o mínimo detalhe. E você, qual é o seu estilo de viver?

Quem me conhece me ouve dizer que na receita do amor, de qualquer tipo de amor, são necessários, entre outros, dois ingredientes básicos e insubstituíveis; respeito e admiração. Agora me diga, é possível respeitar e admirar o mal-educado? É possível admirar e respeitar o grosso, o deselegante – de atitudes, não de guarda-roupa?

Anjos, Arcanjos, e todos os emissários do Criador que me perdoem a pequenez, mas é a tarefa mais simples e ao mesmo tempo mais complicada, a que se exige de nós, seres humanos. Não dá. Amar certos semelhantes que andam desembestados por aí, esfregando na nossa cara um ego espaçoso e mal-acabado, corcoveando porque não enxergam nada além do próprio umbigo saliente? É pedir demais! Se essa for matéria eliminatória para entrar no reino dos céus, aceitem, os obedientes às Leis de Deus, as minhas despedidas, porque certamente não nos veremos na eternidade. Deve ter havido algum engano na tradução do Santo Livro. Como é possível amar o Fernandinho Beira-Mar? Como é possível respeitar mensaleiros e admirar conselhos de ética sem ética, juízes injustos, corruptos de todo tipo e feitio, presidentes fanfarrões, prepotentes e arrogantes? Fica difícil, muito difícil!

Aí vem um presidente grandalhão, metido a besta, e sem a mínima noção do que possa ser educação e respeito, e obriga um rei a lhe passar um pito, na frente das visitas. Do outro lado, com uma ponta de continente dividindo os eventos, cria-se controvérsia porque um jornalista, funcionário do Tribunal, chamou um superior, no caso o Ministro do Supremo Tribunal Federal com um sonoro psiu! , e este iniciou um procedimento administrativo disciplinar contra o moleque malcriado. Agora me diga, educação saiu de moda?

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano. Este artigo foi publicado excepcionalmente no sábado devido ao feriado desta semana.

De carta aberta

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Ley, minha prima querida, nem acredito que já tenha passado um ano inteiro desde o seu último aniversário. Você estava viajando, e não nos falamos naquele dia. Não é que agora o tempo voa de verdade? Voar deixou de ser prerrogativa de passarinho, avião e pensamento, e deixou a categoria de licença poética. As distâncias também assumiram velocidade e textura completamente diferentes, só que mesmo sendo capazes de domar e de quase neutralizar tempo e distância com uma tecnologia nova a cada dia, inimaginável há não muito tempo, ainda não encontramos substituto à altura da pele, do beijo, e do abraço. Não têm similar virtual.

O dia do aniversário é um dia muito importante, e eu fico pensando nas nossas histórias e no significado e influência que você sempre teve, na minha. A gente precisa ter consciência do quanto se imprime e se entrelaça nas histórias de quem faz parte da nossa, porque é desse jeito que se vai tecendo a vida, não é?

Na minha, a tua tessitura tem sido linda. Você me levou ao cinema pela primeira vez, no dia do meu aniversário, para ver um desenho de Walt Disney. Da história e do nome do filme eu não me lembro, mas me lembro da alegria, da aventura, de tanta cor e som, e da sensação de liberdade. Lembro de me sentir importante e segura, pela tua mão, caminhando pelo centro da cidade. Teu gesto amoroso encontrou terreno fértil; continuo amando o cinema e sentindo a mesma magia da primeira vez. Que presente eu um dia poderia lhe dar, que fizesse você se sentir tão especial como o seu me fez sentir?

E você também me ensinou a dar os primeiros passos na cozinha. Arroz branco e soltinho, com milho, no apartamento da Praça Roosevelt, e as vitaminas de frutas, no liquidificador que você lavava batendo água com detergente e o Lúcio, acostumado com as gostosuras que você fazia, passou pela cozinha e serviu um copão. Só não me lembro se você chegou a tempo de impedir o primeiro gole.

Você foi a ponte firme entre meu mundo de menina e o mundo dos meus pais, incompreensível e hermético demais para mim, e me levou aonde meus pés não iriam sozinhos.

Você também foi madrinha no meu casamento, e estava linda. Você, não eu. Olhe as fotos, eu era menina de tudo, despreparada, confusa, mas você já era mulher. Linda, independente, inovadora, culta, exemplo para quem estivesse por perto; e eu estava. Aprendi com você a olhar para frente sem perder a perspectiva do que ficou para trás, e se hoje, mesmo buscando novos caminhos, cultivo os não tão novos, devo muito a você.

Espero que todo mundo tenha ao menos uma pessoa especial de quem possa lembrar coisas boas, com carinho e gratidão.

Dá um beijo meu na Cleusa, viu?
Amo você.

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

De luz e sombra

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Em mim habitam, sob o mesmo teto, humano e divino; e me fazem híbrida. Sou movida a mente e a coração, que por vezes se tornam cúmplices e por outras se enfrentam fratricidamente. Dual, posso ser o mais forte e implacável dos guerreiros, ou a mais frágil e indefesa das donzelas, mas em momentos de loucura e libertação, sou os dois. Posso ser o gigante destemido, mas também baixo o olhar e aprisiono o coração, feito menina descalça e faminta.

Em mim habitam erro e acerto. Erro a torto e a direito, mas sei pedir desculpas e escorrego num pé e levanto no outro. Acerto também, mas nada digno de observação. Ainda dividem o espaço em mim, ingenuidade e malícia. Há vezes em que levo tempo para ver o que está bem ali, debaixo do nariz, e outras em que vejo claro, tanto longe quanto dentro. Então trilho os caminhos que me fascinam e evito os que me apavoram. Nas passadas mais importantes do trajeto, sinto frio na barriga e me formiga o coração, mas não hesito em me fazer refém de flores, pássaros, olhares, gestos, sorrisos, lágrimas e idéias, num piscar de olhos. Num abraço.

Reconheço em mim generosidade e tirania, e é assim, de forma generosa e tirânica que sempre dei corda para que meus filhos pudessem sorver cada gota da sua porção de vida, com meus dedos roxos e doloridos de segurar a ponta dela. Fazem ainda parte do conjunto, contestação e conformismo; a primeira à custa da mente, e o segundo à custa de fígado, baço, pâncreas, e seus parceiros.

Reconheço em mim a aceitação e a birra que me faz espernear quando a vida não me dá o que eu quero. Mas deixe estar, que já dei um chega pra lá na segunda. Abri as porta da teimosia que me mantinha prisioneira, espiei pela fresta e o que vi lá fora me fascinou de tal forma que decidi correr atrás.

Em mim, habitam entendimento e confusão. O entendimento tem me mostrado, entre outras coisas, que a criminalidade se divorciou da pobreza, após longo casamento, e que confusa, foi seduzida e se atirou de corpo e alma em relação promíscua e perigosa com poderes que sobem rampas e ocupam gabinetes, onde bandido é chamado de doutor.

Reconheço também em mim a perfeição e o seu oposto; uma administrando o ideal e a outra o real.

Acolho portanto, em mim, vida e morte, mas mesmo optando pela primeira, reservo à segunda um momento de clímax e protagonismo, a tempo e hora.

Assim vou levando, dia sim e outro também. Aprendendo novos ritmos e sons, vou me acostumando e me adaptando a essa turma toda que mora aqui, e vou afinando o meu viver, a meu modo. E você?

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano. Em virtude do feriado, este artigo foi postado nesta sexta-feira.