Quintanares: O Espelho

O poeta sempre mirou o espelho para enxergar o que havia além da imagem. O objeto refletiu muitos dos pensamentos de Mário Quintana a ponto de lhe batizar um dos livros, O Espelho Mágico, lançado em 1951.

“O Espelho” também é o título da poesia reproduzida, nesta sábado, em Quintanares, coluna que leva mesmo nome do programa apresentado por Mílton Ferretti Jung durante 10 anos na Rádio Guaíba de Porto Alegre, reproduzido neste blog a partir de nosso arquivo familiar:

Quintanares: Adolescente

A vida é tão bela que chega a dar medo, diz Mário Quintana neste poema-recado aos adolescentes. A interpretação é de Milton Ferretti Jung que apresentou o programa Quintanares, na Rádio Guaíba de Porto Alegre, por 10 anos. Gravações do arquivo familiar são reproduzidas neste blog terças e sábados:

De chuva e sol

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Hoje é domingo, e chove. É quase o mesmo que usar camisa xadrez, casaco listrado e calça de bolinhas. Simplesmente não combina. Se fosse sábado ainda vá lá, que é dia regido pelo planeta Saturno, taciturno por natureza. Mas domingo é regido pelo Sol, e chuva definitivamente não combina. Especialmente essa que, feito visita inoportuna, não sabe a hora de ir embora. Quando a gente lê que a personagem do romance vestiu as roupas de domingo, nunca a imagina vestida com capa e galocha, lutando contra o vento que insiste em virar-lhe o guarda-chuva do avesso.

Quando o sol não dá o ar da graça, fico imaginando que foi se encontrar com a lua, e perdeu a hora. Sei que não é verdade, mas faz bem acreditar, assim como faz bem, às crianças, acreditar em Papai Noel. Quem é que não gostaria que a vida fosse certinha, como episódios de antigos enlatados norte-americanos, onde a família perfeita e feliz morava numa linda casa com jardim florido, mamãe vestida de mamãe e papai vestido de papai. Quem é que não gostaria que sempre fizesse sol aos domingos, que chovesse à noite, entre três e seis da manhã, enquanto a gente sonhasse sonhos que se tornariam realidade ao abrir dos olhos.

Fico pensando, como é que a gente escolhe o que vai entesourar na caixa de memórias e de sonhos. Quais as impressões que nos marcam de forma positiva e quais as que doem só de tentarem escapulir dali. O que é que nos faz românticos, mesmo tendo sido criados por uma família onde não havia espaço para o romantismo, nem de noite e nem de dia? Mistério. Românticos ou não, ignoramos o hoje e vivemos de nostalgia e de esperança, gêmeas siamesas ligadas pela coluna vertebral. Uma suspirando pelo que já foi e a outra pelo que virá.

E então, me espreguiço, depois de olhar a chuva cair e deixar a mente livre e solta. Retomo a leitura do jornal e encontro fotos das duas ex-reféns das FARC – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia -, que ficaram seis anos em poder do grupo facínora, narco-terrorista e fora-da-lei. Clara e Consuelo. Quem mais me comove é Clara, que teve um filho no cativeiro, em plena selva, levado pelos bandidos aos oito meses de idade, doente e com um bracinho quebrado no parto, e que nunca mais foi devolvido a ela. O menino já foi localizado, tem três anos e oito meses, e quero crer que se reunirão, e que a vida e o tempo vão se incumbir de colocar as peças de seu quebra-cabeça, nos seus devidos lugares. Entre outras atrocidades, Clara conta que muitos dos seqüestrados ficam desumanamente acorrentados uns aos outros, pelo pescoço, como punição por desobediência, ou por tentativa de fuga. Fico fascinada olhando as fotos. Clara e Consuelo sorriem porque parte do pesadelo terminou para elas. Foram libertadas numa manobra bem planejada, para beneficiar e fortalecer a imagem de um delinqüente, cúmplice dos bandidos, e muito amigo do presidente do nosso país. Calcula-se que hoje ainda haja mais de setecentas pessoas seqüestradas e mantidas em poder desses indivíduos. Marginais, seqüestradores e torturadores. E eu aqui choramingando a falta do sol!

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

Quintanares: Rua dos Cataventos III

Vamos aproveitar o sábado para mais um passeio na Rua dos Cataventos, de Mário Quintana, acompanhado pela interpretação de Milton Ferretti Jung:

Esta gravação integra arquivo pessoal no qual estão algumas das edições do programa Quintanares, apresentado por 10 anos, na Rádio Guaíba de Porto Alegre. Na nota “Mário Quintana: O Poeta da Família” você tem outras informações.

Quintanares: Rua dos Cataventos

A reunião de sonetos marcou a estréia do poeta Mário Quintana nos livros. Com Rua dos Cataventos, lançado em 1940, ironia, sarcasmo e melancolia se misturaram nos versos que descreviam lembranças da infância e de uma rua imaginaria, como esta que você percorre na interpretação de Milton Ferretti Jung, que por 10 anos apresentou o programa “Quintanares”, na Rádio Guaíba, de Porto Alegre:

Para saber um pouco mais sobre este novo quadro leia a nota “Quintanares, um registro histórico do poeta da família”, do dia 8 de janeiro, rolando a página para baixo.

De preguiça e decisão

Maria Lucia Solla

Olá,

Ai, que preguiça! Dei uma lida nas listas de resoluções e regras para o ano novo, em jornais e revistas, e cansei. Não é regra demais, não? Tudo o que é bom é ilegal, imoral ou engorda. Alguém já disse isso em letra de música, mas não me lembro quem foi, e nem vou procurar. Vou aproveitar meus últimos momentos de férias curtas, antes das férias longas, e atirar o corpo na espreguiçadeira do terraço. Vou ficar bem quietinha olhando as flores, ouvindo e flertando com os passarinhos que vêm tomar banho sem medo, na minha fonte com cara de leão, e que me olham como se eu fizesse parte da paisagem. E faço.

Ano passado trabalhei feito gente grande. Não bebo, e minha alimentação é saudável. Passei horas intermináveis na frente do computador e pouquíssimas na frente do espelho; li muito, estudei até envesgar, cultivei, reguei e cuidei das plantas do jardim e da minha plantação de amigos, e fui recompensada por elas e por eles, quase sempre na mesma medida. Ora mais, ora menos. Meditei bastante, porque ninguém é de ferro, e no final, apesar de ter sido uma boa menina, estressei e adoeci. Dois mil e sete foi ano ímpar. Pois bem, quem sabe devo trabalhar nos anos ímpares, dando corda na vida, e então, nos anos pares, esparramar meu corpo na poltrona mais próxima e ver a vida passar, e me cansar só de pensar.

Hoje em dia, faço menos questão de ter razão e certezas. Sei, por experiência vivida e sentida, que quanto mais a gente briga para ter razão, menos razão a gente acaba tendo. Ouvir mais do que falar, faz sentido; sonhar e amar sempre, e muito, mesmo sem ser amada e nem sonhada de volta, estar mais perto das pessoas que admiro e respeito e dar de ombros para as outras, nos momentos em que não puder escapar de engolir suas presenças, também faz.

Dois mil e oito nem sabe que é dois mil e oito. A gente começou resolvendo contar os sóis e as luas e aí endoidou de vez e criou essa divisão toda. E o sol e a lua, sempre fieis, continuam fazendo o que vieram ao mundo para fazer. Sem vacilar, nem questionar. Talvez a solução seja olhar mais para o céu, ir lá para o alto da montanha do meu filho, brincar com meus netos e, deitada na grama, contar estrelas com eles, ouvir suas histórias e contar outras tantas.

Uma coisa é certa, estressada ou não, cansada ou não, com medo ou sem medo, acuada ou acolhida, amo a vida. Já passou pela minha cabeça a questão de parar, descer desse trem e buscar o descanso eterno, mas acho que foi só para experimentar o pensamento. Sou curiosa, e quero sentir tudo. Nasci para viver. Nasci para cumprir a minha parte, assim como a lua e o sol nasceram para cumprir a sua.

Então, depois dessa reflexão, sem dúvida nenhuma, decidi levantar da espreguiçadeira e continuar dando corda na vida. E você?

Pense nisso, e até a semana que vem.


Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

Quintanares: Diante de uma janela

Os momentos mais simples se transformam em verso no olhar de Mário Quintana como nesta poesia que você vai ouvir na voz de Milton Ferretti Jung, que por 10 anos apresentou o programa Quintanares, na Rádio Guaíba de Porto Alegre. A partir desta semana, toda terça e sábado, o nosso blog compartilha com você trechos do programa que fazem parte do arquivo pessoal do jornalista:

Para saber um pouco mais sobre este novo quadro leia a nota “Quintanares, um registro histórico do poeta da família”, do dia 8 de janeiro, rolando a página para baixo.

Quintanares, um registro histórico do poeta da minha família

Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares.

Com estes versos Manuel Bandeira homenageou o poeta gaúcho Mário Quintana, em 1966, no salão da Academia Brasileira de Letras, que jamais iria aceitá-lo entre os imortais. Seu corpo franzino não combinaria mesmo com o fardão verde-escuro e o chapéu de veludo preto que vestem os membros da Academia. Acostumei-me a vê-lo de calça de tecido, camisa social de colarinho aberto e um paletó desajeitado, enquanto caminhava com ajuda de uma bengala nas proximidades da Praça da Alfândega, no centro de Porto Alegre. Era bem menino, ainda, mas lembro de o poeta ter dirigido a mim e a meu irmão algumas palavras, sempre seguidas de uma risada, quando o encontrávamos na redação do jornal Correio do Povo, nos plantões de fim de semana.

Naquela época vê-lo tão de perto era como enxergar a cara de um anjo que vinha do céu. Ao crescer descobri que era um anjo sapeca, divertido na forma, malicioso no conteúdo e melancólico, muitas vezes. Um anjo Malaquias, talvez.

Sempre me achei privilegiado por ter a oportunidade de ficar tão próximo do poeta. Sorte mesmo teve meu irmão, Christian, descrito por ele como personagem que havia escapado das histórias em quadrinhos. Estes dias soube que uma das minhas primas, a escritora Cláudia Tajes, que também fazia suas incursões carregada pelo pai, Tito Tajes, ao Correio do Povo, chegou a ganhar um poema de Quintana. Meu padrinho, o Tito, um jornalista de mão cheia, trabalhava no jornal próximo dele.

De todos nós, coube a meu pai, Milton Ferretti Jung, algumas regalias. Além de compartilhar tragadas de cigarro ao lado do poeta, sentado no balcão do Bar da Rádio (era como chamávamos o bar que servia os funcionários da Companhia Jornalística Caldas Júnior), foi convidado para interpretar as poesias de Mário Quintana em um programa na Rádio Guaíba de Porto Alegre batizado “Quintanares”. Durante dez anos, entre as décadas de 1980 e 1990, os ouvintes acompanharam, diariamente, os versos de um dos mais geniais poetas brasileiros na voz dele. A maneira como reproduziu a expressividade desses versos lhe rendeu elogio do próprio autor: “Você é a minha Berta Singerman” – referência a declamadora argentina que fez sucesso no Brasil interpretando textos de Carlos Drummond de Andrade e Mário de Andrade, entre outros modernistas.

Quase me atrevo a dizer que o poeta fazia parte da nossa família. Pensando bem, fazia mesmo. Aliás, faz. Está na memória. Na estante de livros. E, a partir de agora, no nosso blog, também.

Por sensibilidade do Christian, aquele das histórias em quadrinhos, algumas edições de “Quintanares” ficaram gravadas. O CD foi parar nas minhas mãos e, a partir de hoje, todas terças e sábados, algumas dessas poesias serão reproduzidas aqui, na voz de Milton Ferretti Jung, com o consentimento dele, é lógico.

Para a estréia deste quadro, você ouve “A Primeira Aventura”:

De contribuição e retribuição

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Designers e artistas de todas as áreas, alonguem as asas da criatividade! Aliás, é hora do povo espreguiçar corpo e mente, e sair da inércia tropical e do papo valente e inconseqüente de fundo de quintal. Queremos colchões com compartimentos para guardar dinheiro e jóias. Pobres banqueiros ricos! Passaremos por calçadas opostas às suas, depois de fecharmos nossas minguadas contas. Jóias, para quê? Pela correntinha dourada, seu moço, corre-se o risco de perder o pescoço. E, atenção, se o seu relógio for roubado, mantenha-se calado, para não melindrar o meliante. Gastar seus reais para viajar? Nem pensar. O Grande Irmão, demagogo e populista, ameaça te enquadrar. Acordem, mentes brilhantes; é preciso ousar, atiçar, converter, subverter a fim de se proteger.

De estudar pode esquecer, que cultura aqui virou defeito. Vamos cruzar os braços, jogar baralho, descansar o esqueleto em redes esticadas nas árvores que sobrarem, do desmatamento que ninguém vê, encher a cara de cachaça, morar em agrupamentos e viver do Bolsa Família que é mais seguro e não cansa. Dane-se o país e o rio São Francisco, que o Grande Irmão vai mudar tudo mesmo, como nunca antes se fez! De empreender, nem cogite, pra não ser rotulado de elite.

O menino mimado e recalcado pela infância pobre, e que agora tem vida de rei, perdeu uma partida e ameaça levar a bola para casa para jogar com a camarilha. Estilistas, avante com lápis e tesouras! O povo precisa de cuecas e calcinhas funcionais, não para guardar dólares surrupiados, mas uns parcos reais suados.

Brasileiro sonega sim, você sabe tão bem quanto eu; mas sonega por quê?
Brasileiro sonega, não porque não concorde com justa distribuição de renda; sonega porque rechaça o assistencialismo obsceno, praticado pelo pacau de plantão. Brasileiro não deixa de pagar imposto por gosto, por não querer que o país seja como a Suíça, onde tudo funciona. Brasileiro não sonega porque abomina privilégio de primeiro mundo. Brasileiro deixa de pingar alguns reais nos cofres públicos para impedir que o fruto de seus esforços, honestos na grande maioria, termine nas mãos de vagabundos, ou em cuecas escusas de políticos deslavadamente sujos.

Brasileiro sonega sim, para pagar do próprio bolso a substituição de pneus estourados, em crateras aviltantes, nas estradas do país. Brasileiro paga 2/3 de imposto porque recebe zero de assistência à saúde e zero de segurança pública, 1/8 na área da educação, iluminação meia boca e 1/10 do que a dignidade humana, esfacelada constantemente, merece. Brasileiro sonega porque cansou de ver farra e lambança e de ouvir histórias pra criança. Cansou de ver homens e mulheres do planalto encherem as burras de dermatologistas, cirurgiões plásticos e estilistas da hora, e de sorriso zombeteiro na cara, pateticamente esticada, de político de meia tigela.

Se você movimenta, no banco, a fortuna de R$ 833,00 por mês, meu amigo, cuide-se e seja ágil, porque o leão quer mais pra comprar eleitor no próximo sufrágio. Acorda Brasil, é 2008!

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

De verso e reverso

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Sei que de incerto todo certo tem um pouco, e que confiança apresenta sutis pinceladas de desconfiança. Sei também, por experiência própria e não de ouvir dizer, que verdade vem temperada de inverdade, que há pitadas de inimizade batizando a amizade, e um bocado de impaciência em cada ato de paciência.

Há insônia nas porções de sono, dizem os estudiosos da área, e sabe-se que há muita injustiça nos pratos da justiça; o que deveria pôr abaixo a obscena empáfia de muitos magistrados.

Há, invariavelmente, doses variáveis de interesse nos gestos desinteressados e, infeliz e inevitavelmente, desamor, no amor. Há atrevimento no pudor, e há arrogância na insegurança de quem se acredita permanente, neste mundo impermanente; e eu, entremeada de desesperança, vou morrendo de tanto viver, sorvendo, gulosamente, cada instante de esperança.

Meus olhos, por vezes turvos, vêem poesia e amor, onde amor e poesia não há, e acabo escorregando no vice-versa dos versos em forma de prosa que transbordam e escorrem de mim, me abandonando vazia; truque matreiro dos desejos de menina em corpo de mulher.

Inesperadamente viro as costas e vou-me embora, quando desejo ficar. Emudeço em crises de silêncio, quando todo meu ser quer gritar, uma vez que a eloqüência não encontra saída, mesmo conduzida pela mão da senhora vivência. Ou então desando a falar, insensata, feito matraca desenfreada, quando o sensato seria calar.

Os desejos e sonhos chegam, inoportunos, quando há muito deveriam ter partido e, inconvenientes, manifestam-se nos momentos em que o rígido protocolo da conveniência deveria ser seguido à risca. Sinto que há fogo ardente camuflado nos montes de cinzas e, mesmo se certas presenças trazem consigo um sabor de ausência, percebo claramente a forte presença de certas ausências. Sigo confundindo tudo e, às vezes, quietinha no canto, contorço-me de dor.

Percebo um quê de melancolia em momentos de alegria e saboreio um tanto de recebimento em atos de oferecimento. Há riso no choro e vice-versa, e fim de conversa.

E você, o que percebe?

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano