Quintanares: Lunar

Capaz de enxergar a alma das coisas, o poeta não era tão complacente assim com o ser humano. Nesta contradição de sentimentos, Mário Quintana escreveu “Lunar” que você ouve na voz de Milton Ferretti Jung, que apresentou o programa Quintanares, na rádio Guaíba, de Porto Alegre, por 10 anos:

Quintanares você ouve aqui no blog terças e sábados.

De buzúkia e feijoada

Por Maria Lucia Solla

Da Grégia
Olá,

Definitivamente não sei visitar um país, correndo de lá pra cá, subindo e descendo escadas e elevadores de pontos turísticos, sacolejando e olhando pela janela de um ônibus, ou decorando meus pés com bolhas assassinas. Muito menos tenho energia para zanzar por lojas e mais lojas, para voltar para casa, carregada de quinquilharias inúteis que posso encontrar na 25 de março. É por isso que viajo muito menos, hoje; para poder ficar mais tempo no lugar escolhido.

Quando se entra na loucura de querer ver e fazer tudo em curto espaço de tempo, raramente encontra-se tempo para se acomodar num canto gostoso, carregado de memórias de vida e morte, de chegada e partida, de dor e alegria. Torna-se difícil, se não impossível, ouvir os sons, há muito camuflados, de riso e choro, de brigas e sussurros de amor, e do histórico galope nervoso de cavalos arfantes sob o peso de guerreiros armados até os dentes. Prefiro dar-me ao luxo de ficar quieta e me deixar levar pelas sensações mais sutis. Não posso ignorar todos os desejos do meu verdadeiro ser, que precisa de quietude para absorver o que pretende levar consigo, no dia da partida.

E assim, estou quieta em casa já há dois dias. Tenho estudado grego, muitas horas por dia, oh, que língua difícil, e me protejo do véu de frio que cobriu Atenas. De cortar! Ainda não tive coragem de me aventurar pelos pontos perigosamente mágicos. Na quinta-feira à noite, na ida para uma buzúkia, com direito a jantar e show, passei de carro, em frente à Acrópole, iluminada. Tremi! Passei pela minha praça favorita, a Praça Sintagma, a mais central e importante de Atenas e vi, de esguelha, um pedacinho de Plaka, o bairro boêmio da cidade, que há anos me arrebatou. Senti como se parte de mim despertasse de um sono letárgico. Ando fugindo das paixões, nos últimos anos, buscando um equilíbrio que nunca conheci, curiosa que sou, e temo me deixar fazer refém, novamente, da terra, do ar, das montanhas, da exuberância do povo e do dramalhão melódico que compõe a música grega. Minhas raízes italianas, espanholas e portuguesas, clamam por intensidade, e eu as tenho ignorado, não por covardia, penso, mas para buscar o tal do equilíbrio.

Já me aventuro pelo bairro de periferia, onde estou morando. Fui à feira, na semana passada e, acreditem, os feirantes daqui conseguem gritar mais do que os nossos. Comprei lírios brancos e enfeitei a sala, por sugestão do meu filho. De férias, posso sentar e olhar as flores!

Hoje à tarde o sol deu o ar de sua graça, depois de longa ausência, mas mesmo assim decidi continuar quieta em casa. Amanhã, preparo feijoada para oito pessoas, com direito a farofa e tudo, e a movimentação será grande! Os gregos não têm idéia do que seja o feijão preto, e ficam pasmos com a idéia, mas mesmo assim estão ansiosos para experimentar.

E assim vou levando. Terça-feira vou para o norte, para Thessaloniki e Edessa, onde o frio é ainda mais severo. É preciso preparo para as novas emoções, a maior riqueza que se pode levar desta vida tão curta. Você não acha?

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

De gregos e troianos

Por Maria Lucia Solla
Direto da Grécia

Olá,

A Grécia me recebeu de coração e braços abertos, e panelas no fogão. Gostaria de poder transmitir os detalhes de cada dia, como se meus olhos fossem lentes, através das quais você pudesse ver, ouvir e sentir tudo comigo, mas nem eu mesma consigo decodificar e digerir tanta informação. Muito menos tanta comida.

Tudo mudou muito, desde minha última visita. Esta terra era muito mais simples, e seu povo, gente de hábitos descomplicados e passos lentos. O que mudou nestes últimos anos? O país entrou para a União Européia, como um dos países mais pobres do grupo, com a cara e a coragem que só descendentes diretos dos deuses do Olimpo podem se dar ao luxo de ter. E então, a questão. O que fazer para desenvolver e construir a infra-estrutura básica esperada de um integrante de grupo tão seleto? Não precisaram, os gregos, sentar e queimar seus neurônios como o Pensador de Auguste Rodin. Continuaram a tomar café, frapê e freddo, relaxados e despreocupados, a qualquer hora do dia ou da noite, nem deixaram de freqüentar as buzúkias, onde se canta e dança, até o amanhecer, ao som de música ao vivo, fumando e bebendo vinho e uzo (a aguardente daqui). Tudo muito.

Então, quem teria cuidado dos assuntos sérios e desgastantes? Que varinha mágica foi acionada e me fez encontrar, aqui, um metrô de primeiro mundo? Que fada madrinha abriu caminho para que eu viajasse de carro para o Peloponeso, no fim de semana, deslizando feito dançarina russa, na auto estrada que cruza o país inteiro, de norte a sul e de leste a oeste? Nenhuma. Os parceiros ricos, do grupo, vivem queimando as pestanas em seus países e vêm relaxar aqui, no playground que lhes abre as portas para o oriente, onde encontram sol, praia, mistério, beleza e descontração, e o melhor azeite do mundo, diga-se de passagem. Assim, os alemães trouxeram euros da união européia, o material e o equipamento necessários, seus mais preparados especialistas, arregaçaram as mangas e construíram auto-estradas impecáveis, para seu deleite.

Disseram aos gregos, construiremos as melhores estradas, arcaremos com setenta por cento dos custos, e vocês, com trinta. Está bem? Imagina! Disseram os gregos; nem pensar! Não pagaremos nem um centavo. Final da história, os alemães construíram as estradas assim mesmo, com a condição de explorarem os pedágios durante dez anos.

Pelo que pude perceber, os gregos não só concordaram sem pestanejar, como teriam aceitado o acordo, se fosse prorrogado ad eternum. E, do mesmo modo, teriam continuado felizes se tivessem mantido suas estradas rudimentares até hoje, e para sempre. Os alemães construíram estradas para si e para os outros parceiros ricos, para poderem desfrutar do calor e das belezas da divina Grécia. Pagam, e pagam caro pelos seus favores.

Justíssimo, não acha? Muito mais justo do que o preço que pagamos, em forma de imposto temporário e permanente, para sustentarmos as peripécias consumistas, deslumbratistas e nova-riquistas da corja teúda e manteúda da atual nobreza federal. E haja cartão de crédito corporativo e despesa sigilosa!

Pense nisso, e até a semana que vem.

Quintanares: S.O.S Babilônia

O poema desta terça-feira foi publicado no livro “Apontamentos de história sobrenatural”, editado em 1976, no qual Mário Quintana descreve uma cidade que se foi. “Quintanares”, foi apresentado por 10 anos pelo jornalista Milton Ferretti Jung, na Rádio Guaíba de Porto Alegre, e você ouve neste blog toda a terça e sábado:

De viagem, vida e leveza

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Imagine-se arrumando as malas para passar um mês num país distante. Calcule o tempo necessário, pense se começaria a separar o que pretende levar com antecedência, ou se faria tudo de véspera. Imagine, também, que você mora sozinho e é o único responsável pelos pagamentos de contas e tudo o que envolve a administração da casa. Não estou de brincadeira, não, faça isso por alguns minutos. Elenque, mentalmente, o que levaria consigo e como deixaria as coisas organizadas, para não ser surpreendido, na volta, pelo caos absoluto. Garanto que é um exercício que vale a pena. Sinta o que é que não daria para deixar para traz. Quais livros, roupas, jóias, o computador. Seus brinquedinhos. Analise sua personalidade, se é mais para o social ou esportivo. Da sua casa inteirinha, só dá para levar duas malas que precisam se encaixar nas medidas e no peso determinado pelas companhias aéreas, e é com isso que você vai viver, por um mês.

Eu já deixei minha casa para traz, mais de uma vez, para morar longe, e da última foi por um tempo bem longo. O interessante desses deslocamentos é o dar-se conta de como se precisa de pouco para viver e ser feliz. Sediados em casa, no que chamamos de minha casa, a gente tende a criar raízes e a achar que tudo em volta é nosso, e que não se pode viver sem nem um alfinete que seja. Engano agudo, se por sorte não for crônico. Dá para viver, sim, e muitíssimo bem. O fato de dispor de espaço limitado, e ter que escolher o que levar, leva a pensar, optar por isto em vez daquilo, e avaliar cuidadosamente as próprias necessidades. Cada um é diferente, e não há receita de tamanho único.

A única coisa da qual tenho certeza, e que poderia oferecer como receita, é que o melhor é viajar leve, nas viagens e na vida. Se carregar muita coisa, a gente se transforma em escravo delas, tendo que arrastar um peso enorme e cuidar para que ninguém nos tire o que chamamos de nosso, a nossa bagagem. Nas viagens e na vida.

Sempre que meus filhos viajam, repito o mesmo conselho, feito disco riscado. Digo, filho, abra bem os olhos do corpo e os olhos da alma. Fotografar faz parte da nossa cultura, mas muitas vezes, enquanto a gente se preocupa em enquadrar bem uma cena, está perdendo tudo o que está fora do quadro. Equilíbrio, como sempre, é fundamental, e as fotos não devem exceder, em número, as situações em que a gente se deixa embeber pelo momento. Aquele momento em que se agradece pai e mãe por estar vivo e poder vivenciar a beleza, o sabor e a alegria de cada nova experiência.

Quando viajo, começo a descarregar meus pesos, antes da partida. Levo comigo o mínimo possível e parto de mãos dadas com a curiosidade que é assim comigo. Unha e carne. Quero viver a vida do povo do lugar, comer suas comidas, entender sua maneira de pensar e de sentir, e principalmente falar a sua língua. Observar e aprender.

Levo muito mais o que tenho em mim, do que aquilo que considero meu. Levo pensamentos, sentimentos, e emoções. Levo muito pouca saudade dos que ficam, porque na realidade, aqueles que amo não ficam. Estão comigo, sempre, onde eu estiver.

Fez o exercício? Chegou a alguma conclusão? E então?

Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

Quintanares: Aula Inaugural

O otimismo do poeta raramente se expõe em sua criação e, por isso, ao ouvir “Aula Inaugural”, na qual parece ser Mário Quintana o mestre a ensinar sua poética, é justificável que se desconfie das intenções dele ao convidar o leitor a dançar diante dos desafios. Parece querer debochar das situações com as quais temos de nos deparar.

Tire suas próprias conclusões em mais este texto de Quintanares, programa apresentado por 10 anos na Rádio Guaíba, de Porto Alegre, que reproduzo neste blog com a apresentação de Milton Ferretti Jung:

Quintanares está neste blog toda terça e sábado.

De amigos e emoção

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Abençoados sejam os amigos. Aqueles de verdade. Amigos sempre presentes e, mesmo quando longe dos olhos, perto do coração. Quando se tem saudade, é só pegar carona no pensamento, que se chega perto, sentindo o perfume da confiança que emanam, sentindo o calor dos abraços e mergulhando na sua honestidade, quase sempre amorosa. Pena que eu não saiba fazer poesia. Apesar do prazer que sinto quando estou cercada de palavras, eu, viciada em letrinhas, não tenho vocação para poeta. Também não faço apologia por encomenda, nem tento agradar este ou aquele, esta ou aquela. O jornal O Registro há noventa e cinco semanas, e o blog do Milton Jung, há trinta e sete, permitem-me expressar a alma, sem estabelecer fronteiras. Quando escrevo, ofereço-me fatiada, na bandeja, e digo apenas o que passa pelo crivo atento da minha consciência. Sou movida pelo respeito ao outro, seja ele quem for, e pela coerência com a verdade das minhas emoções, que mudam de tom e de intensidade, na medida de mim mesma, e é isso.

Mas, voltando aos amigos, eles nem sempre são para sempre. Às vezes passam pelas nossas vidas, colhem o que encontram para colher, servem-se do que têm fome e sede, nos alimentam na sua e/ou na nossa medida, e se vão. Tão misteriosamente quanto quando chegaram. Às vezes, saem pela porta da frente e se despedem, e outras tentam sair, silenciosa e sorrateiramente, pela porta dos fundos, mas vão quebrando o que encontram pelo caminho. No entanto, há os que são sim, para sempre. Sua cumplicidade é tão sólida que dá para sentir-lhe a forma. Agüentam o baque da montanha-russa de nossos altos e baixos, e nos compreendem, muitas vezes, mais do que podemos compreender a nós mesmos. Aceitam. Estão no time.

E o que fez brotar tudo isso foi um e-mail da Maryur, amiga de sempre e para sempre, que é pássaro matinal, e logo cedo, no domingo, começava a cuidar de seu time de amigos. A mensagem trazia, anexa, uma apresentação com fotos e textos, alertando para o estado em que nos encontramos, e o estado em que se encontra, conseqüentemente, nosso planeta. Nossa casa. Ao final, fui impactada por uma frase de Martin Luther King, pastor e ativista político, e Prêmio Nobel da Paz, e fui navegar na internet, atrás de suas falas. Minha mente, alma, e coração, não resistiram e embarcaram na mesma nave, trazendo-me a reflexão sobre a amizade.

A frase original é assim, “Even if I knew that tomorrow the world would go to pieces, I would still plant my apple tree.”, e traduzida fica, “Mesmo se eu soubesse que amanhã o mundo seria reduzido a frangalhos, ainda assim plantaria minha macieira.”

Li a frase e pensei que mesmo se eu soubesse que, no dia seguinte, um amigo entraria na minha casa e reduziria nossa amizade a frangalhos, ainda assim manteria as portas abertas. E você?

Pense nisso, e até a semana que vem.


Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano