Por Maria Lucia Solla
Olá,
Imagine-se arrumando as malas para passar um mês num país distante. Calcule o tempo necessário, pense se começaria a separar o que pretende levar com antecedência, ou se faria tudo de véspera. Imagine, também, que você mora sozinho e é o único responsável pelos pagamentos de contas e tudo o que envolve a administração da casa. Não estou de brincadeira, não, faça isso por alguns minutos. Elenque, mentalmente, o que levaria consigo e como deixaria as coisas organizadas, para não ser surpreendido, na volta, pelo caos absoluto. Garanto que é um exercício que vale a pena. Sinta o que é que não daria para deixar para traz. Quais livros, roupas, jóias, o computador. Seus brinquedinhos. Analise sua personalidade, se é mais para o social ou esportivo. Da sua casa inteirinha, só dá para levar duas malas que precisam se encaixar nas medidas e no peso determinado pelas companhias aéreas, e é com isso que você vai viver, por um mês.
Eu já deixei minha casa para traz, mais de uma vez, para morar longe, e da última foi por um tempo bem longo. O interessante desses deslocamentos é o dar-se conta de como se precisa de pouco para viver e ser feliz. Sediados em casa, no que chamamos de minha casa, a gente tende a criar raízes e a achar que tudo em volta é nosso, e que não se pode viver sem nem um alfinete que seja. Engano agudo, se por sorte não for crônico. Dá para viver, sim, e muitíssimo bem. O fato de dispor de espaço limitado, e ter que escolher o que levar, leva a pensar, optar por isto em vez daquilo, e avaliar cuidadosamente as próprias necessidades. Cada um é diferente, e não há receita de tamanho único.
A única coisa da qual tenho certeza, e que poderia oferecer como receita, é que o melhor é viajar leve, nas viagens e na vida. Se carregar muita coisa, a gente se transforma em escravo delas, tendo que arrastar um peso enorme e cuidar para que ninguém nos tire o que chamamos de nosso, a nossa bagagem. Nas viagens e na vida.
Sempre que meus filhos viajam, repito o mesmo conselho, feito disco riscado. Digo, filho, abra bem os olhos do corpo e os olhos da alma. Fotografar faz parte da nossa cultura, mas muitas vezes, enquanto a gente se preocupa em enquadrar bem uma cena, está perdendo tudo o que está fora do quadro. Equilíbrio, como sempre, é fundamental, e as fotos não devem exceder, em número, as situações em que a gente se deixa embeber pelo momento. Aquele momento em que se agradece pai e mãe por estar vivo e poder vivenciar a beleza, o sabor e a alegria de cada nova experiência.
Quando viajo, começo a descarregar meus pesos, antes da partida. Levo comigo o mínimo possível e parto de mãos dadas com a curiosidade que é assim comigo. Unha e carne. Quero viver a vida do povo do lugar, comer suas comidas, entender sua maneira de pensar e de sentir, e principalmente falar a sua língua. Observar e aprender.
Levo muito mais o que tenho em mim, do que aquilo que considero meu. Levo pensamentos, sentimentos, e emoções. Levo muito pouca saudade dos que ficam, porque na realidade, aqueles que amo não ficam. Estão comigo, sempre, onde eu estiver.
Fez o exercício? Chegou a alguma conclusão? E então?
Pense nisso, e até a semana que vem.
Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro De bem com a vida mesmo que doa, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano