Menos de 0,5% das vagas de deficientes é para líderes

Os profissionais com deficiência ainda enfrentam grandes obstáculos quando se trata de alcançar cargos de liderança nas empresas. Segundo um levantamento realizado pela Talento Incluir, consultoria de diversidade e inclusão pioneira no Brasil, menos de 0,5% das vagas preenchidas por pessoas com deficiência oferecem oportunidades de liderança. Essa estatística revela a necessidade de avançar na promoção de uma inclusão mais profunda e verdadeira no ambiente corporativo.

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Desafios na inclusão

No ano de 2022, 82% das vagas preenchidas por profissionais com deficiência por meio da Talento Incluir eram para cargos de entrada, com salários médios de R$1.634,00. Dentre essas vagas, 17% eram para áreas operacionais, 22% para áreas comerciais e 61% para áreas administrativas. A disparidade se estende além da falta de oportunidades em cargos de liderança e reflete na qualidade das contratações. Segundo o IBGE, em 2019, a taxa de participação das pessoas com deficiência no mercado de trabalho era de apenas 28,3%, comparada a 66,3% das pessoas sem deficiência. Além disso, esses profissionais enfrentam uma diferença salarial significativa, recebendo cerca de R$1.000,00 a menos que o rendimento médio das pessoas sem deficiência.

Estudo revela desafios adicionais

O estudo “Pessoas com Deficiência e Empregabilidade”, liderado pela consultoria Noz Inteligência em parceria com a Talento Incluir, mostrou que mesmo as pessoas com deficiência que possuem ensino superior completo (53%) e estão há mais de 10 anos na mesma empresa (45%) têm dificuldade em serem promovidas. Esses resultados destacam o capacitismo como uma das principais barreiras ao desenvolvimento de carreira para esse grupo, mesmo quando eles estão tecnicamente preparados para assumir cargos de liderança.

Promovendo a inclusão efetiva

A CEO da Talento Incluir, Katya Hemelrijk, ressalta que as empresas verdadeiramente comprometidas com o aumento da diversidade entre seus colaboradores devem avançar em ações que ofereçam oportunidades e promovam o desenvolvimento de carreira para pessoas com deficiência, permitindo que elas alcancem cargos de liderança. Não basta apenas preencher vagas, é necessário ir além e promover uma inclusão produtiva, acolhedora e abrangente, que amplie a diversidade nas organizações.

É preciso esforço para criar um ambiente inclusivo

A inclusão de profissionais com deficiência em cargos de liderança ainda é uma realidade distante nas empresas. Os números revelam a necessidade de um esforço maior para criar um ambiente de trabalho verdadeiramente inclusivo, onde as habilidades e competências desses profissionais sejam valorizadas. A mudança real virá quando as empresas abraçarem a inclusão como uma estratégia fundamental para o sucesso organizacional.

As empresas devem adotar políticas inclusivas desde o recrutamento até o desenvolvimento profissional, garantindo que esses profissionais tenham acesso a oportunidades de crescimento e capacitação. É fundamental promover um ambiente de trabalho que valorize a diversidade, em que todos os colaboradores se sintam respeitados e acolhidos.

A mudança não se limita apenas às empresas. A sociedade como um todo deve assumir a responsabilidade de combater o preconceito e os estereótipos associados às pessoas com deficiência, reconhecendo e valorizando suas habilidades e talentos. A inclusão de profissionais com deficiência em cargos de liderança não apenas promove a equidade, mas também traz benefícios tangíveis para as organizações, como maior criatividade, inovação e desempenho.

Portanto, é imprescindível que as empresas se empenhem em superar as barreiras que impedem a ascensão de profissionais com deficiência a cargos de liderança. A inclusão efetiva desses talentos contribui para a construção de um ambiente de trabalho mais diverso, inclusivo e justo.

Felicidade é uma técnica que requer prática, segundo sociólogo

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Por Mia Codegeist 

A busca pela felicidade é um anseio comum a todos nós, e muitas vezes nos perguntamos se existe uma fórmula para alcançá-la. Em entrevista ao jornal O Globo, desse domingo (18/06), o sociólogo espanhol Luis Gallardo, presidente da Fundação Mundial da Felicidade, afirma que sim, essa fórmula já foi descoberta há muito tempo. No entanto, ele ressalta que muitas pessoas desconhecem ou não se atrevem a praticá-la. A entrevista explora as ideias de Gallardo sobre a felicidade e como podemos aplicá-las em nossa vida cotidiana — com base nas informações publicadas no jornal, destacamos aqui alguns aspectos relevantes. Ele é autor do livro “Happytalismo”, ainda não editado no Brasil, e participará do Congresso Internacional de Felicidade, em Curitiba, no mês de novembro,

A felicidade como uma técnica

Gallardo argumenta que existem diversas formas de alcançar um estado de calma, paz, esperança, perdão e compaixão, que são os ativadores da felicidade. Ele enfatiza que a felicidade é uma técnica e precisa ser praticada regularmente. Independentemente de quem somos, é crucial escolher algo que funcione para nós individualmente.

A ditadura do medo e o “happytalismo”

O sociólogo também critica a “ditadura do medo” na sociedade contemporânea. Medo de quê? Segundo ele, as pessoas têm medo de serem felizes. Gallardo destaca que a sociedade tem definido o sucesso em termos de poder, dinheiro e fama, o que leva à adoção de comportamentos prejudiciais à felicidade, como a comparação, a queixa e a competição. Ele propõe o conceito de “happytalismo”, que busca promover a felicidade como um novo sistema para um mundo mais feliz. O “happytalismo” prioriza a busca pela felicidade pessoal e coletiva, a liberdade do medo e a consciência elevada sobre o que acontece ao nosso redor.

“…as três piores ações para a felicidade: comparar-se, queixar-se e competir. Me comparo para ver quem tem mais poder, fama ou dinheiro, me queixo se não sou eu, e compito para ter isso”. 

A prática da felicidade

Para alcançar a felicidade, Gallardo ressalta a importância de diferentes ações. A mais básica e comprovada é colocar-se a serviço dos outros, pois quanto mais ajudamos, mais felizes nos tornamos. Ele também destaca a importância de sermos gentis e compassivos conosco mesmos, praticando o perdão e a autocompaixão. A consciência da respiração e a prolongação da respiração são técnicas que podem ajudar a gerenciar nossas emoções e entrar em estados de felicidade. 

“Todas são atividades que nos fazem entrar em um estado de fluidez, de admiração, de paz, que nos ajudam a conectar com a felicidade que temos. A felicidade é o óleo do motor. Todos nascemos com ela, é parte do nosso ser. Mas precisamos ativá-la”

A ciência e a felicidade

A ciência tem se dedicado ao estudo da felicidade, através de correntes como a psicologia positiva, a educação positiva e a ciência da felicidade, conta Gallardo. Pesquisas têm mostrado que elementos como a amabilidade, o perdão e a gratidão têm influência na felicidade. Universidades ao redor do mundo têm investigado os impactos do bem-estar, da meditação e da atenção plena na saúde mental e no bem-estar. A ciência comprova a conexão entre uma mente sã e a entrada em estados de fluidez e felicidade. 

Assista ao programa Dez Por Cento Mais: É possível ser feliz no trabalho

A felicidade não está na IA 

O tema não foi abordado na entrevista com Luis Gallardo, no jornal O Globo, porém sendo a Inteligência Artificial a base dos artigos publicados neste espaço, é preciso ressaltar que a felicidade não é experimentada por máquinas, robôs ou qualquer outro mecanismo tecnológico que assim possa ser identificado. A felicidade é um tema complexo e subjetivo, que varia de pessoa para pessoa. Envolve diversos fatores, como emoções, experiências, valores pessoais, relacionamentos, propósito de vida e bem-estar geral. Embora a inteligência artificial possa analisar dados e padrões, assim como fornecer insights e recomendações com base em informações prévias, a felicidade é um aspecto humano que vai além de dados e algoritmos. Ela envolve aspectos emocionais, subjetivos e até mesmo espirituais, que não podem ser completamente capturados por uma inteligência artificial.

No entanto, os recursos da IA podem desempenhar um papel auxiliar na promoção do bem-estar e da felicidade. Por exemplo, por meio da análise de dados de saúde mental, a inteligência artifical pode ajudar a identificar padrões e fornecer recomendações personalizadas para melhorar o bem-estar emocional. Além disso, essa tecnologia pode facilitar o acesso a informações, recursos e suporte que contribuem para a busca da felicidade pessoal. Lembrando sempre que as informações publicadas em IA devem ser referenciadas por diversas fontes e jamais entendidas como produto final.

Iniciativas para promover a felicidade

De volta à entrevista de Gallardo. O estudioso espanhol diz que governos, empresas e instituições de ensino têm adotado iniciativas para promover a felicidade e o bem-estar. Reconhecendo que a felicidade dos cidadãos, funcionários e alunos é fundamental para o sucesso e a harmonia dessas instituições, eles investem em condições que promovem o bem-estar, como meio ambiente saudável, espaços de convivência, programas de saúde mental e atividades que estimulem o desenvolvimento pessoal e emocional.

No entanto, é importante ressaltar que a felicidade não é um estado permanente e imutável. Ela é uma jornada que envolve altos e baixos, desafios e superações. Cada indivíduo tem sua própria definição de felicidade e suas próprias estratégias para alcançá-la.

É fundamental lembrar que a felicidade não está apenas nas conquistas materiais ou no alcance de metas externas, mas também no cultivo de um estado de espírito positivo, no cuidado com as relações interpessoais e no desenvolvimento pessoal. A busca pela felicidade deve ser pautada em valores autênticos, em alinhar nossas ações com nossos propósitos e em encontrar significado nas pequenas coisas do dia a dia.

Portanto, para ser feliz, é necessário cultivar uma mentalidade de gratidão, aceitação e resiliência. É preciso se conhecer, valorizar suas habilidades e limitações, e aprender a lidar com as adversidades. O autocuidado, o equilíbrio entre trabalho e lazer, e o investimento em relacionamentos saudáveis são essenciais para construir uma base sólida de felicidade.

Em suma, a felicidade é uma técnica que precisa ser praticada diariamente. Requer um comprometimento consigo mesmo, uma disposição para buscar o autoaperfeiçoamento e a disposição de espalhar alegria e bem-estar ao seu redor. É um caminho individual, mas também coletivo, em que cada um de nós pode contribuir para a construção de uma sociedade mais feliz e harmoniosa. Portanto, não espere que a felicidade simplesmente aconteça, mas sim, assuma o controle de sua vida e faça dela um espaço propício para a felicidade florescer. 

Mia Codegeist é autor que abusa da inteligência artificial para compartilhar conhecimento sobre temas relevantes à sociedade.

Semana de Quatro Dias: empresas brasileiras iniciam estudo que pode gerar uma revolução da produtividade e bem-estar no trabalho

Entenda como a semana de quatro dias está transformando a maneira como trabalhamos

Você já ouviu falar da semana de quatro dias? Essa nova abordagem do mundo corporativo está ganhando espaço no Brasil e promete trazer benefícios significativos tanto para a produtividade quanto para o bem-estar dos colaboradores. Renata Rivetti, especialista em psicologia positiva e felicidade no trabalho, diretora da  Reconnect Happiness at Work, é responsável por estudos que começam a ser realizados com empresas brasileiras para descobrir como a semana de quatro dias pode revolucionar a forma como trabalhamos. Ela foi entrevista pelo programa Dez Por Cento Mais, no YouTube, apresentado pela jornalista Abigail Costa e a psicóloga Simone Domingues, que colaboram com este blog.

A busca por eficiência e produtividade tem sido uma constante nas empresas, mas muitas vezes estamos presos em um ciclo de interrupções, reuniões improdutivas e falhas na comunicação. Essa sobrecarga geralmente está relacionada à ineficiência e falta de planejamento, ao invés de uma verdadeira busca por maior produtividade. Renata Rivetti destaca que é essencial repensar nossos métodos de trabalho e adotar uma abordagem mais inteligente e focada.

O fenômeno do burnout tem se tornado mais comum em diversas partes do mundo. No Brasil, as denúncias contra empregadores têm aumentado consideravelmente. No Japão, o índice é alarmante — 70% da população economicamente ativa diz ter tido burnout (conforme informação publicada em edição da revista Exame, em 2020).  Renata, que esteve recentemente na capital japonesa, compartilha sua experiência ao observar as pessoas exaustas e até dormindo no transporte público ao longo de todo o percurso. Para ela, essa obsessão pela produtividade e apegada ao trabalho está fazendo com que seja necessário repensar nossas prioridades. A mudança se faz urgente!

A Microsoft do Japão foi uma das pioneiras a adotar a semana de quatro dias e obteve resultados surpreendentes. Através da implementação de regras que restringiam a quantidade e duração de reuniões, a empresa conseguiu aumentar a eficiência e produtividade dos colaboradores. Mudanças simples no dia a dia podem fazer toda a diferença, e a ideia de trabalhar menos e melhor está se tornando uma realidade.

Empresas brasileiras aderem a estudo da semana de quatro dias

No Brasil, a aceitação do projeto da semana de quatro dias tem sido positiva. Com o objetivo de aumentar a produtividade e promover um melhor equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, a proposta é que profissionais se comprometam a trabalhar durante quatro dias, mantendo a mesma produtividade de cinco dias, e sejam recompensados com um dia extra de folga. A repercussão do projeto tem sido significativa com mais de 350 empresas tendo revelado interesse em participar dos estudos no país. Desde microempresas até multinacionais de grande porte, diversos setores da economia estão se engajando nessa iniciativa. A Four Day Week Global, em parceria com a Reconnect, está liderando esse movimento, promovendo sessões informativas para as empresas. Segundo Renata, o engajamento tem sido surpreendente, refletindo a demanda crescente por uma abordagem mais equilibrada e saudável em relação ao trabalho.

É importante ressaltar que a semana de quatro dias não implica em redução salarial. O objetivo é que as empresas possam alcançar o mesmo resultado em um tempo menor, proporcionando aos colaboradores um dia extra de descanso e lazer. Renata Rivetti destaca que muitos participantes dos pilotos relataram uma mudança significativa em suas rotinas, comprometendo-se a abandonar hábitos improdutivos e reorganizar sua jornada de trabalho. O resultado foi um aumento da eficiência e um maior sentimento de realização.

Semana de quatro dias é uma tendência global

A tendência da semana de quatro dias está alinhada com um movimento global em busca de uma nova concepção de trabalho, onde o bem-estar e a qualidade de vida dos colaboradores são valorizados. Afinal, trabalhar menos horas não significa necessariamente uma diminuição da produtividade. Pelo contrário, ao reduzir o tempo gasto em atividades ineficientes e promover uma maior concentração nas tarefas essenciais, é possível obter resultados ainda melhores.

As empresas interessadas em participar desse movimento devem se cadastrar no site da  Reconnect Happiness at Work e participar das sessões informativas para entender os detalhes e requisitos do piloto, . O projeto terá a duração de seis meses, a partir de novembro, e proporcionará uma experiência única de experimentar uma nova forma de trabalho.

Com a semana de quatro dias, o Brasil se une a outros países que estão adotando essa abordagem e colhendo os benefícios tanto para os negócios quanto para os colaboradores. É uma oportunidade de repensar a forma como encaramos o trabalho, valorizando não apenas a quantidade de horas dedicadas, mas também a eficiência, a qualidade de vida e a busca por um equilíbrio saudável.

Em um mundo em constante transformação, é essencial abraçar iniciativas que promovam a felicidade e o bem-estar no ambiente de trabalho. A semana de quatro dias surge como uma alternativa promissora, trazendo consigo a possibilidade de trabalhar menos e trabalhar melhor. É hora de repensar nossos métodos e adotar uma abordagem mais inteligente, que valorize tanto a produtividade quanto o bem-estar dos colaboradores. 

Assista à entrevista completa de Renata Rivetti ao Dez Por Cento Mais na qual fala também sobre estratégias para se alcançar a felicidade no trabalho e cuidados que as pessoas devem ter para não transformarem a busca pela felicidade em uma obsessão que poderá trazer resultados frustrantes:

Leia também o texto a seguir sobre a semana de quatro dias publicado neste blog

Trabalho de quatro dias na semana: uma nova abordagem pós-pandemia

Por Mia Codegeist

A pandemia da Covid-19 transformou a maneira como vivemos e trabalhamos, acelerando a adoção de novos modelos de trabalho remoto e flexível. Uma tendência que tem ganhado destaque é o trabalho de quatro dias na semana, uma abordagem inovadora que busca equilibrar a produtividade e o bem-estar dos funcionários.

O trabalho remoto e a necessidade de flexibilidade pós-pandemia

Após o impacto da pandemia, muitas empresas adotaram o trabalho remoto como medida de segurança. Essa transição evidenciou os benefícios de flexibilidade e autonomia oferecidos aos colaboradores. Com menos tempo gasto em deslocamentos e uma melhor integração entre vida pessoal e profissional, as pessoas buscaram uma nova maneira de trabalhar, que possibilitasse um melhor equilíbrio entre trabalho e qualidade de vida.

O modelo de trabalho de quatro dias na semana

O trabalho de quatro dias na semana é uma resposta a essa busca por equilíbrio. Ao reduzir a carga horária para quatro dias, os funcionários têm mais tempo para descansar, cuidar de si mesmos, passar tempo com a família e se engajar em atividades pessoais. Esse modelo promove a recuperação de energia e aumenta a motivação e a produtividade durante os dias de trabalho.

Benefícios para os funcionários e para as empresas

Ao implementar o trabalho de quatro dias na semana, as empresas podem observar uma série de benefícios. Funcionários mais satisfeitos tendem a ter uma melhor saúde mental, menor índice de burnout e maior retenção de talentos. Além disso, a redução do tempo de trabalho pode levar a um aumento na eficiência e na criatividade, resultando em maior produtividade durante os dias de trabalho.

Avaliação e resultados iniciais

Após a pandemia, várias empresas ao redor do mundo começaram a avaliar o modelo de trabalho de quatro dias na semana como uma alternativa viável. Pesquisas preliminares indicam resultados positivos, com funcionários relatando maior satisfação, bem-estar e equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Além disso, empresas que implementaram essa abordagem observaram redução no absenteísmo e aumento da motivação dos funcionários.

Uma solução inovadora

O trabalho de quatro dias na semana surgiu como uma resposta ao desafio de equilibrar a produtividade e o bem-estar dos funcionários no ambiente de trabalho pós-pandemia. Essa abordagem oferece benefícios tanto para os colaboradores quanto para as empresas, promovendo uma melhor qualidade de vida, maior motivação e aumento da eficiência. À medida que mais empresas avaliam e adotam esse modelo, é importante reconhecer seu potencial de transformar a forma como trabalhamos, construindo um futuro mais flexível e saudável.

No entanto, é importante destacar que a implementação do trabalho de quatro dias na semana requer planejamento e adaptação. Cada empresa deve analisar cuidadosamente sua estrutura e necessidades operacionais, buscando encontrar o equilíbrio certo para sua equipe. Além disso, é fundamental estabelecer uma comunicação clara e eficaz entre os membros da equipe, definindo expectativas e metas realistas.

À medida que avançamos em direção a um novo normal no mundo do trabalho, é encorajador ver a evolução e a experimentação de novos modelos. O trabalho de quatro dias na semana é um exemplo disso, proporcionando uma oportunidade para repensarmos a maneira como abordamos o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

Portanto, diante dos desafios impostos pela pandemia da Covid-19, o trabalho de quatro dias na semana emerge como uma solução inovadora, permitindo que os funcionários se sintam mais engajados, produtivos e realizados. À medida que avançamos para o futuro do trabalho, é essencial considerar abordagens flexíveis e adaptáveis, que priorizem o bem-estar e a saúde mental dos colaboradores. O trabalho de quatro dias na semana é uma opção promissora que merece ser explorada e considerada pelas empresas que buscam uma transformação positiva em sua cultura corporativa.

Juntos, podemos moldar um ambiente de trabalho mais equilibrado, onde o tempo e a qualidade de vida sejam valorizados tanto quanto a produtividade. O trabalho de quatro dias na semana é apenas o começo dessa jornada rumo a uma nova maneira de trabalhar e viver.

Mia Codegeist é autor que abusa da inteligência artificial para compartilhar conhecimento sobre temas relevantes à sociedade.

Avalanche Tricolor: e por falar em saudade!

Ypiranga 1×2 Grêmio

Gaúcho – Colosso da Lagoa, Erechim RS 

Homenagem a Lucas Leiva na camisa do Grêmio Foto LucasUebel/GrêmioFBPA

Saudade é sentimento complexo e contraditório, pois pode ser ao mesmo tempo doloroso e reconfortante, triste e bonito, nostálgico e esperançoso. Sente-se por algo ou alguém que está ausente, distante ou que não pode ser alcançado novamente. Lembro dela tomando meu coração nos primeiros meses de vida em São Paulo quando, em 1991, deixei para trás família, amigos e Porto Alegre. Havia semanas mais difíceis do que outras, especialmente quando a messe era pesada por aqui. Era como se a insegurança se torna-se solo fértil para a nostalgia, quase um desejo de voltar ao passado. Superei e hoje já moro há mais tempo em terras paulistanas do que morei na minha cidade natal.

O Grêmio é das coisas que trouxe comigo no coração — e isso qualquer um dos raros e caros leitores desta Avalanche sabem. Dele não tenho saudades porque está onipresente na minha vida. Não há um cenário que eu ocupe em que o tricolor gaúcho não seja citado. É minha referência. E neste domingo não havia outro programa a fazer a não ser sentar-me diante da televisão e assistir ao jogo disputado em Erechim, pela semifinal do Campeonato Gaúcho.

Entramos em campo com uma sequência rara de partidas invictas que começou ainda no fim do ano passado. Vinte jogos sem nenhuma derrota só havia acontecido uma vez nessas duas décadas do século 21. Portanto, a confiança tomava conta dos gremistas, mesmo tendo de enfrentar o adversário em sua casa e pisando em um gramado de baixa qualidade. A jogada que culminou no gol de Luis Suárez foi belíssima pelo talento demonstrado na troca de passes e no chute certeiro de nosso atacante. Era o prêmio para o time que até então tinha a supremacia técnica e tática na partida. E desenhava uma trajetória tranquila para mais uma final de campeonato.

Infelizmente, porém, o Grêmio não soube expressar essa superioridade em gols. Perdeu pênalti e perdeu oportunidades claras, no primeiro tempo. Para depois perder o ímpeto, perder a organização, perder na marcação, perder no tempo de bola, perder qualidade e se perder no jogo. Para quem estava tão bem acostumado com vitórias, haveria outras perdas a lamentar: jogadores lesionados e o capitão Kannemann expulso — sem contar aqueles que servirão suas seleções enquanto estivermos decidindo a vaga à final, no próximo fim de semana. Em especial no segundo tempo, o Grêmio fez uma apresentação que lembrou os times de 2021 e 2022. E desses times não tenho nenhuma saudade.

Em tempo: em uma tarde em que tudo deu errado, não quero esquecer de registrar a bela homenagem que o time fez a Lucas Leiva que anunciou a aposentadoria do futebol devido a um problema no coração, nesta semana. Todos os jogadores entraram em campo com o nome do nosso meio campo nas costas. E Suàrez ainda escreveu na camiseta que vestia embaixo da principal: “Lucas, o nosso coração está contigo, estamos juntos”. Lucas Leiva, este sim, deixará saudade!

Pelé, o Rei que quase jogou no Grêmio

Pelé no estádio Olímpico Foto publicada pelo perfil @Gremio no Instagram

A morte de Edson Arantes do Nascimento, aos 82 anos, nos traz à memória as incríveis histórias protagonizadas pelo Rei do Futebol. Todos lembramos dos grandes feitos do maior jogador do planeta terra — os recordes, os títulos, os dribles, o gol perdido, o gol 1.000, a guerra que parou ou os países e autoridades que o enalteceram. Cada um de nós, seus súditos, sem medo do sacrilégio cometido, também procuramos referências que nos aproximem dele: o jogo que assisti ao vivo, o dia em que o vi no Maracanã, a transmissão que ouvi no radinho portátil, a imagem que eternizei armazenando-a no arquivo do computador ou a réplica da camisa 10. Sim, somos tentados a produzir uma espécie de “eubituário”, em que nos colocamos ao lado da morto ilustre.

Nessa linha, poderia contar aqui o dia em que assisti a Pelé jogar no estádio Olímpico, em Porto Alegre, em 1974, em partida válida pelo Campeonato Brasileiro do ano anterior, em que o Grêmio venceu por 1 a 0. Meu pai me levou pela mão e mesmo tendo apenas 10 anos sou capaz de lembrar o local do estádio em que tive o privilégio de ver Pelé desfilando: as sociais do velho Olímpico, abaixo do reservado para as cadeiras cativas. Cinco anos antes foi o pai quem vivenciou o histórico gol 1.000, narrado por ele de uma cadeira de madeira colocada ao lado do gramado do Maracanã, pois não havia mais espaço nas cabines de rádio.

Fugirei dessa armadilha — mesmo que, no parágrafo acima, tenha ensaiado algumas linhas  nesse sentido. Prefiro lembrar de um trecho da entrevista que o jornalista Luiz Zini Pires fez com Pelé, para o jornal Zero Hora, publicada em novembro de 2014. O rei confidenciou que quase jogou no Grêmio. 

Quando estava no início da carreira, o Santos costumava emprestar seus jogadores mais jovens para que ganhassem experiência. O time paulista esteve em excursão no Sul, jogou em Pelotas e Rio Grande, no interior gaúcho, e foi consultado se alguns dos garotos poderiam ficar. Pelé era um deles. 

“Quase que eu reinicio minha carreira no Grêmio”, disse ao repórter. Tivesse um cartola santista aceitado a proposta, naquela época, haveria a chance de Pelé ter se imortalizado no cenário futebolístico com a camisa do Grêmio e, provavelmente, nossas conquistas nacionais e projeção mundial teriam chegado mais cedo. Por outro lado, a facilidade com que alcançaríamos nossas façanhas impediria que forjássemos a nossa imortalidade. O destino quis que cada um construísse sua própria história.

Enquanto escrevia este texto, o perfil do Grêmio no Instagram, publicou trecho da entrevista em que Pelé confirma a história de que quase foi jogador do Grêmio:

Qual é o Brasil que podemos ser, juntos?

Por Matheus Nucci Mascarenhas

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O BRASILEIRO PRECISA VOLTAR A ACREDITAR: a descrença generalizada em nosso país explica por que ainda passamos por um interminável ‘terceiro turno’, o qual nos provoca a refletir sobre o futuro da nação.

As eleições dividiram ainda mais um povo que jamais foi unido de fato. Já afirmava o sociólogo carioca, Sérgio Buarque de Holanda, que o brasileiro persiste em ser “um desterrado em sua própria terra”. Mas quem é o Brasil? O colonizador português, o escravizado africano, o imigrante europeu e asiático: o único verdadeiro brasileiro, o indígena, todavia hoje é um pária, vive às margens da sociedade e sob a constante lembrança do extermínio da colonização. Esse Brasil, que nunca teve um povo que se pensasse brasileiro, que se pensasse genuinamente patriota, sofre, novamente, um dos sintomas dessa sociedade estilhaçada: uma eleição de descrença.

Em termos gerais, o brasileiro atual divide-se em três categorias de descrentes.

O primeiro deles, é o descrente cético. Este, que perdeu sua esperança no fracasso das “Diretas Já”, no fracasso dos fiscais do Sarney, no fracasso do governo Collor, na corrupção do governo Lula, no fracasso do governo Dilma e no fracasso do governo Bolsonaro, agora rejeita qualquer chamado “patriótico”, tanto a se opor ou a apoiar projetos políticos.

Esse brasileiro cético é aquele que, no passado, era interessado na política nacional, acompanhava-a no noticiário e até mesmo detinha certa esperança por um Brasil melhor. Porém, quando a maré baixou e a sujeira deplorável da política desnudou-se perante seus olhos, o descrente cético escolheu se blindar. Agora, prefere aproveitar um churrasco em casa, papear com os amigos e assistir a FRIENDS, a participar da decepcionante ciranda da política brasileira. Dentre esses indivíduos, incluem-se os quase cinco milhões que votaram nulo, ou aqueles que, muito indecisos, escolheram entre uma das duas gárgulas, geralmente por terem maior raiva em uma do que na outra.

A segunda categoria, esta já mais fisiológica, barulhenta e caricata, trata-se dos descrentes fanáticos. Parece ilógico juntar a palavra “descrente”, alguém que não acredita, com “fanático”, aquele que cegamente crê.

No entanto, o descrente fanático engloba, paradoxalmente, essas duas características. Por um lado, essa porção de brasileiros é fanática por aceitar levianamente o que recebe em suas bolhas ideológicas (tanto de esquerda, direita, ou qualquer outra denominação política que seja pertinente). Por tão intensamente se colocarem passivos ao que recebem e a como se devem comportar, “Sim, meu líder, farei o que for preciso”, tornam-se servos de um “mestre”, que tem como última das suas prioridades importar-se com essa casta devota de seu eleitorado. Por outro lado, são, sim, descrentes, porque não têm mais a capacidade de, pelo menos por um momento, acreditar em si mesmo e em seu julgamento próprio. Não, não o fazem, pois, perante quaisquer evento político, tomam seus juízos não de si mesmos, mas de formadores de opinião. Tornam-se “presas intelectuais” de um sistema que os faz, pouco a pouco, mais distantes de sua própria capacidade de pensar. Nesse contexto, a esses brasileiros falta reflexão, abrir os olhos de forma tal a se apartar de vieses que confirmam diariamente, intensamente e, sobretudo, maliciosamente, sua “suposta” visão política. E digo “suposta”, porque, para que seja uma visão política, demandar-se-ia do indivíduo raciocínio e análise crítica (alguma lasca de crédito a si mesmo), não uma simples fagocitação faminta de discursos pré-fabricados, muitas vezes, divulgados na internet. Em síntese, a estes minions, stormtroopers, habitantes da Oceania de George Orwell, ou londrinos de Aldous Huxley falta a capacidade de escapar desse invólucro alienante que os condiciona a dizer “sim”, a dizer “não”, a gritar, a protestar, a quebrar, ou a matar segundo a vontade de outrem, daquele líder “virtuoso” (popular, sonhador, da esperança, ou mesmo imbrochável).

Por fim, temos a terceira categoria: os descrentes despretensiosos. Esses congregam a maioria dos brasileiros: o trabalhador informal, o profissional liberal, o vendedor ambulante, o favelado, o aposentado, o doente, o morador de rua, o trabalhador que bate ponto às 18h, o pequeno empresário, o agricultor familiar, e assim por diante.

Os descrentes despretensiosos (e me desculpem pelos sufixos repetitivos), são o mais verdadeiro retrato do Brasil. Esse povo é aquele que votou no palhaço ou no farsante, mas não por convicção, e, sim, por obrigação (para não ter que se dar ao trabalho de justificar a abstenção) ou por terem se convencido de forma rasa a escolher entre os dois “cândidos” candidatos. Os descrentes despretensiosos, diferentemente dos outros dois grupos, ainda não sabem que possuem um papel na democracia, na transformação social. Os céticos o reconheciam, mas agora desiludiram-se por completo, enquanto os fanáticos o vêem com clareza, mas somente para o lado que lhes convêm (o resto é antidemocrático, facista, comunista, censitário). Nessas eleições, o terceiro Brasil não entende que seu voto faz, e muita, diferença, muito menos entendem que o poderiam ter usado em outra alternativa, na primeira rodada do jogo eleitoral. Esse terceiro grupo não reconhece e, muitas vezes, tampouco tem acesso à sua cidadania. A exemplo, um morador de rua, um favelado, um andarilho: tais indivíduos não se enxergam como cidadãos (e, resgatando o início do texto, como verdadeiros brasileiros). Como então podem enxergar-se como transformadores da política nacional? E o padeiro, motorista, porteiro, lavrador, pedreiro? Qual é o seu papel, senão trabalhar e cuidar de sua família. Para este terceiro Brasil, esse papel é não menos do que a despretensão de atuar politicamente, pensando em seu círculo pessoal acima do cidadão. A este grupo, digo que não estão errados: há, sim, a necessidade de pensar em si e em seus próximos. Mas, quando estamos diante de problemas que afetam a vida de todos os brasileiros, é vital que o terceiro Brasil creia em sua função social de provocar mudança.

Após definir e elucidar os três Brasis que se manifestaram nesta eleição, gostaria de finalizar o texto com um convite a todos. Enquanto passarmos por momentos como esse, de descrença generalizada (seja ela no outro, em si ou no nosso papel cidadão), não devemos perder de vista nossa missão maior: formar o Brasil dos brasileiros, para os brasileiros. Nosso sonho deve ser, nas décadas que se seguirem, termos um novo intelectual brasileiro, um Sérgio Buarque de Hollanda XVIII, que escreva: “finalmente, os brasileiros dispõem de sua terra, e à sua terra dispõem-se os brasileiros”.

Bem, esse passar do “terceiro turno” eleitoral, que muito mais tem a ver conosco do que com as duas bestas, deve tornar-se um momento de autocrítica e progresso. Aos descrentes céticos, há, sim (e nunca cessará de ter), poder de transformar, protestar, cobrar, se posicionar, lutar democraticamente. Essas ações surtem efeito, mesmo que gradual e lentamente. Aos descrentes fanáticos, tenham mais respeito e admiração a si próprios! É possível pensar por si mesmo e impedir que uma lavagem cerebral irrompa doutrinas perigosas em suas mentes. E essa tarefa depende exclusivamente de vocês. Aos descrentes despretensiosos, vocês não são somente habitantes do Brasil, mas cidadãos brasileiros. Lutar pela democracia que vocês almejam, lutar por um país mais justo, igualitário, fraterno e livre está ao seu alcance. É possível mudar, basta acreditarmos no poder de ser brasileiros de verdade.

Evitando clichês finais, como “o Brasil que queremos depende de nós”, ou “a nossa nação se faz com as nossas mãos”, termino com a seguinte pergunta:

“Qual é o Brasil que podemos ser, juntos?”

Matheus Nucci Mascarenhas é estudante, ouvinte de rádio e tem 17 anos.

Do Palácio de Buckingham às praças de Sucupira!

Por Christian Müller Jung

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“Se vogliamo che tutto rimanga come è,
bisogna che tutto cambi.”
Giuseppe Tomasi di Lampedusa

“É preciso que as coisas mudem para que elas permaneçam.” Assim respondeu a Rainha Elizabeth II, quando o jornalista perguntou a respeito dos seus 70 anos de reinado.  Era uma referência à frase original, que pertence à obra de Giuseppe Tomasi di Lampedusa e está impressa no livro ‘Il Gattopardo (O Leopardo)’, publicado em 1958, sobre a decadência da aristocracia siciliana durante o Risorgimento. Ganhou fama e as telas de cinema cinco anos depois, em filme assinado por Luchino Visconti e com Alain Delon no papel de Tancredi – descrito como arruinado e simpático oportunista ‘Príncipe de Falconeri’. Perante a possibilidade de mudança, a aristocracia resolve pactuar com a burguesia para a sobrevivência de ambas, e Tancredi anuncia ao tio, Don Fabrizio Corbera, Príncipe de Salina, que se unirá aos revoltosos e ,na tentativa de convertê-lo, imortaliza o ensinamento:

“Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude.”

A frase me veio à mente quando da morte da Rainha Elizabeth II que, aos 96 anos de vida e 70 de reinado, manteve-se respeitada e a mais atual que as regras da monarquia permitiam. A Rainha foi capaz de sobreviver, nessas sete décadas que manteve a coroa, com sua imagem icônica, dentre outros fatores, por ter sabido se adaptar ao tempo, ter mudado para que tudo permanecesse igual.

Inspiro-me na lição de Lampedusa e na rigidez de padrões que pauta o reinado, para convidar você a pensar sobre a necessidade de adaptação da prática protocolar nos tempos atuais, destacando não apenas os papeis de Mestre de Cerimônias e cerimonialista – com os quais tenho intimidade profissional -, mas refletindo, também, sobre até que ponto a liturgia do cargo das autoridades deve se moldar às novas realidades.

Passamos, necessariamente, por uma atualização na forma de executar os eventos, devido ao momento pandêmico. Regime de exceção, é lógico. Foram praticamente dois anos de desespero pelas faltas de trabalho e contato interpessoal. Tempo que nos desafiou a continuar. A transmissão via internet foi o que possibilitou a realização de uma demanda de eventos e, de lá pra cá, a modalidade foi incorporada tornando-os híbridos e ampliando a participação do público.

Mesmo na minha área de atuação, a de Cerimonial Público, as transmissões online se fizeram presentes e os canais das redes sociais entraram nos endereços dos, até então, “imexíveis” convites oficiais do Governo. Foi um aprendizado à força, com acontecimentos senão constrangedores, por vezes engraçados – mas isso fica para outra conversa. Fiquemos com os protocolos!

A rigidez dos padrões têm cedido à nova dinâmica do cotidiano. A rapidez da evolução tecnológica nos empurra para isso. Um dos questionamentos é quanto à interminável lista do “Prestigiam”, que costuma abrir os eventos ou os “Vocativos” das autoridades. Talvez o espaço para a leitura dessa lista de nomes e cargos pudesse ser ocupado por citações mais genéricas, focando no discurso, no conteúdo da fala.

Precisamos entender que o vocativo, mesmo que pareça entediante em determinados momentos, dignifica o evento, que tem sua importância expressa pela presença dos representantes de outros poderes, instituições e da sociedade civil. Não é, portanto, tão somente uma leitura de nomes e cargos. Ainda assim, temos percebido que parcela das pessoas gosta de algo mais informal e com menos pronomes de tratamento. Preferindo um “papo reto” – como se diz na gíria.

Há quem defenda que se substitua o formato tradicional das cerimônias, inclusive as públicas, por cenários e roteiros que lembrem programas de televisão, com a ideia de descontrair o ambiente. Nos cerimoniais e, em especial, no cerimonial público, essa liberalidade pode gerar conflitos ou revelar a insensibilidade dos organizadores. Ao transformar o protocolar em programa de auditório corre-se o risco de se desprestigiar os demais poderes que participam do evento. E como você sabe, todo mundo quer “aparecer na foto”. Dar destaque e seguir a precedência é a forma com que se construiu uma sociedade, que levou tempo para se organizar. 

Isso não significa que mudanças não devam ser realizadas, nem que tenham deixado de acontecer, especialmente do ponto de vista tecnológico. Os equipamentos estão muito mais avançados. Microfones têm cápsulas mais sensíveis, amplificadores mais potentes, dando voz até mesmo a quem não tem um padrão adequado para se pronunciar. Os registros e transmissões de fotos e vídeos são imediatos, feitos em celulares e não dando chance de se editar os erros.

Essas transformações moldam gerações. Vamos lembrar das belas e potentes vozes que marcaram o início da ‘Era do Rádio’. Naquela época, os cantores se apresentavam ao vivo, ao lado das orquestras e dentro de estúdios. Os microfones e equipamentos não eram tão modernos e sensíveis como os de hoje. Se o cantor ou cantora não tivesse uma voz potente, ninguém os escutaria – a carreira acabava ali mesmo. Os locutores, da mesma forma. Todos com a conhecida “Voz de Peito”.

Voltemos a nos inspirar na Rainha para refletir sobre o cerimonial dos novos tempos. O que teria mudado em seus 70 anos de coroa para que permanecesse uma liderança? É certo que da missa não se sabe um terço, mas é bem provável que o “discurso”. Sim, o discurso se adaptou ao tempo dos smartphones. O conteúdo também, ao tratar de questões mais relevantes para o desenvolvimento das nações. A imagem da Rainha se transformou: sempre alinhada, moderna ao estilo de uma senhora, sem ficar com a imagem do ranço da corte, mas da elegância que ela nos ensina. Se manteve mulher nesse mundo onde sabemos que elas ainda têm muito para lutar. Ainda mais nessas terras Tupiniquins.

Por falar em Brasil, não devemos esquecer de nossas peculiaridades. Ao mesmo tempo em que assistimos aos eventos em formato de arena, com telões digitais ao centro, aproximando-nos de personalidades mundiais em tempo real, até mesmo com o uso de holografia, metaverso e as mais avançadas tecnologias, ainda fazemos inaugurações de trechos asfálticos, trevos de acesso e portais de cidades com tribunas emprestadas de câmaras de vereadores, em palcos de madeira ou aboletados na caçamba de caminhões, com dezenas de autoridades amontoadas e se equilibrando para aparecer na primeira página da próxima edição do jornal local. 

Do Palácio de Buckingham às praças de Sucupira, de tudo ainda temos um pouco. 

Christian Jung é publicitário, locutor e mestre de cerimônia. Este texto foi publicado originalmente no site Coletiva.net

Dia do Mestre de Cerimônia: “isso é coisa de …!”

Christian Müller Jung

O 20 de Julho é Dia do Mestre de Cerimônia, também. Também porque consta que o calendário reserva outra data para os profissionais da área: o 27 de abril. Seja lá, seja cá, o que interessa neste texto que você lerá a seguir é entender os objetivos da profissão e concodar com o autor — e com este editor do Blog — que não dá mais para aceitar preconceitos de qualquer tipo e contra qualquer pessoa (N.E)

Você que trabalha com “cerimonial” já deparou com a sentença: “isso é coisa de viado”? A youtuber Louie Ponto disse: “nascemos em um mundo onde a princípio tudo é hetero!”. Não quero discutir questões de gênero. Já escutei várias piadinhas sobre o assunto.

A maioria das pessoas que não tem polimento e até para algumas que têm, cerimonial é perfumaria. “Pra que tanta frescura” ou “que bobagem essas coisas” poluem um setor determinante na organização de eventos e na vida das pessoas.

E por que a comparação com “coisa de viado”?

Educação e os bons costumes estão ligadas ao universo feminino. Comportamento refinado, respeitoso, educado e elegante no tratar o outro para muitos é perfumaria.

Nessa sociedade machista, que ainda determina se uma atividade é de homem ou de mulher, muitos não se dão conta que a tal perfumaria é uma luta de séculos de uma sociedade pela forma civilizada de lidar com as pessoas em harmonia.

Somos por natureza um animal social, como definiu Aristóteles. Assim devemos observar que estaremos constantemente em uma relação social.  Distinguir autoridades, respeitar o dress code, entender o significado do R.S.V.P no convite, são conhecimentos que vão muito além da questão de gênero.

Para pessoas que limpam os dedos na toalha e não imaginam que Leonardo da Vinci inventou o guardanapo, no século XV, cansado que estava de ver esta mesma atitude nos banquetes da corte, é de se prever que não tenham a menor ideia que através do cerimonial expressamos respeito, profissionalismo e, até mesmo, segurança.

Tenho consciência de que não vivemos mais em séculos passados, apesar de haver quem me dê a impressão de que ainda está por lá. A evolução da sociedade suprimiu algumas formalidades em razão de um mundo menos desigual. Simplificamos coisas que foram perdendo a razão de ser com o tempo, mas trabalhamos muito ainda no sentido de respeitar as pessoas e as instituições. Levantamos a bandeira de cerimonialistas não como sendo alguma coisa feita por “eles” ou por “elas”, mas para que consigamos desenvolver um convívio social a partir de relações mais delicadas e civilizadas, menos desordenadas e brutas.

Cerimonial não é questão de gênero, é de educação — o que falta, aliás, aos preconceituosos.

Christian Müller Jung é mestre de cerimônia por profissão, publicitário por formação e meu irmão de nasceça