Reminiscências juninas de Paraty

 

Por Julio Tannus

 

Quando eu era criança morava na cidade de Paraty.

As festas juninas, Santo Antonio (13 de junho), São João (24 de junho) e São Pedro (29 de junho), eram bastante celebradas pelas crianças.

 

As músicas

SONHO DE PAPEL

 

O balão vai subindo, vem caindo a garoa.
O céu é tão lindo e a noite é tão boa.
São João, São João!
Acende a fogueira no meu coração.
Sonho de papel a girar na escuridão
soltei em seu louvor no sonho multicor.
Oh! Meu São João.
Meu balão azul foi subindo devagar
O vento que soprou meu sonho carregou.
Nem vai mais voltar.

 

CAI, CAI, BALÃO

 

Cai, cai, balão.
Cai, cai, balão.
Aqui na minha mão.
Não vou lá, não vou lá, não vou lá.
T
Tenho medo de apanhar.

 

BALÃOZINHO

 

Venha cá, meu balãozinho.
Diga aonde você vai.
Vou subindo, vou pra longe, vou pra casa dos meus pais.
Ah, ah, ah, mas que bobagem.
Nunca vi balão ter pai.
Fique quieto neste canto, e daí você não sai.
Toda mata pega fogo.
Passarinhos vão morrer.
Se cair em nossas matas, o que pode acontecer.
Já estou arrependido.
Quanto mal faz um balão.
Ficarei bem quietinho, amarrado num cordão.

 

As comidas

E a minha saudade.

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier)

Histórias por trás da tela do cinema

 

Por Marília Taufic

 

 

Com apenas sete anos, os fins de semana do pequeno Noel Taufic, neto de libanês, já eram tempo de fazer negócios. Rodava quase 200 quilômetros com o pai, Kamel, da pacata Leme, no interior de São Paulo, até a capital, para voltar na bagagem com mercadoria valiosa. Era início da década de 1960 e, naquela época, eles precisavam ter um produto diferente para oferecer aos clientes em cada dia da semana. “Segunda era dia de comédia, terça podia rodar um drama, as quartas eram tradicionais dos namorados, sexta a galera curtia um bang bang, sábados e domingos passavam comédia, romance, tínhamos que pensar em sessões para toda a família”. Pai e filho viajavam juntos para tratar da diversão de tantas pessoas que se emocionavam no cinema da cidade.

 

As películas começaram a rodar no sangue dos dois quando Kamel ainda era adolescente. Herdeiro do prédio onde ficava o primeiro cinema de Leme, o Cine São José, Kamel não esperou atingir a maioridade para assumir os projetores. Ainda na juventude, subia com os equipamentos e as histórias em um caminhão e rodava as fazendas da região para iluminar muros ou um lençol com seus filmes. Em 1948, assumiu o São José e, claro, como um bom filho de libanês, os negócios iam bem e tinham que crescer. Onze anos depois, no dia do aniversário da cidade, em 29 de agosto de 1959, nascia o Cine Alvorada com 1.180 lugares para oferecer alegria a todos. O futuro parceiro de viagens de Kamel e com bom tino para programação da telona chegou pouco tempo antes, em abril de 1955, para nunca mais sair do cinema. “Virou um vício”, conta Noel, como se aquele espaço, as relações humanas e a emoção que ele proporciona, nunca mais pudessem sair de sua vida.

 

“O cinema é onde a pessoa conheceu a namorada, deu o primeiro beijo, riu com os amigos, foi um lugar legal na vida dela. Aqui você vende alegria, emoção, é um negócio muito gratificante”. E quem conhece o empresário de 58 anos com histórias para contar que parecem que foram por mais de 100 anos no comando de cinemas, sabe que ir a uma sala com a presença do Noel é prazer na certa. Ele está na bilheteria, na bomboniere, dá uma espiadinha para ver se a projeção, o som e o ar condicionado estão bons e se rolar algum problema é correria até a sala de projeção, dinâmica que aprendeu com o pai e com tantos outros companheiros de cinema.

 

 

Em meados do século passado, quem rodava pelas ruas do centro de São Paulo poderia ver um cinema por quarteirão. “Na Avenida Rio Branco eram quatro, só entre o Largo Paissandu e a Duque de Caxias. E só no Largo Paissandu eram outros quatro: Cine Olido, Art Palácio, Cine Paissandu e o Cine Ouro”, lembra Noel, que andava pela capital como se estivesse em uma sala de aula. Na época, o Brasil chegou a ter mais de cinco mil salas, número bem maior do que as pouco mais de três mil de hoje. “Tinha muito cinema na periferia, ao ar livre, auto cine, a maior sala de São Paulo era na zona leste, o Cine Mundo, com quase quatro mil lugares. E a família Ferrador era dona da maior rede, com um grande circuito: Cine Ipiranga, Majestic e tantos outros. Mas não existia uma marca. Os cinemas tinham nome”, fala Noel fazendo referência às atuais grandes redes.

 

Nesta época quem via um filme na telona, só poderia ter o bis na TV cinco anos depois, janela que diminuiu para dois anos no governo Collor e que foi diminuindo cada vez mais até culminar para um futuro, que é o que ocorre hoje, de muitas pessoas terem acesso ao filme antes mesmo dele ser lançado, por meio das cópias piratas e dos downloads na internet. Noel conta que, eventualmente, filmes de sucesso eram reprisados em meses diferentes. “Eu cheguei a exibir Uma Linda Mulher cinco vezes, Dio Come Ti Amo, exibi umas dez vezes. Também foi assim com Marcelino Pão e Vinho, os bang bangs italianos, como Django, o original (de 1966), claro”. Mas este hábito não era simples, porque ele causava um problema que quem já trabalhou em uma cabine de projeção conhece bem: as películas quebradas. “A cópia vinha meio estragada e tinha que arrumar. Às vezes as distribuidoras davam duas cópias diferentes para emendar”, lembra com gosto, como se isso também fosse normal para se divertir com os negócios. “Faz parte!”.

 

Mas ao mesmo tempo que o público tinha acesso a um filme diferente a cada dia da semana, os grandes lançamentos às vezes traçavam uma história diferente nos cinemas nacionais. As primeiras risadas das comédias de Mazzoropi, por exemplo, aconteciam, em sua maioria, no Cine Art Palácio. Toda semana do 25 de janeiro, data do aniversário de São Paulo, um novo filme do comediante era lançado no cinema do Largo Paissandu e lá ficava por mais de um mês para depois poder ser lançado em outros lugares. “Aqui no interior a gente preferia colocar na época da safra da cana-de-açúcar, em maio, quando o público do Mazzaropi estava com mais dinheiro”, explica Noel.

 

Aos 15 anos, o filho de empresário já fazia a programação dos cinemas do pai sozinho. Cinco filmes por semana, 20 por mês, cartazes e trailers escolhidos e depois de muita conversa, Noel voltava com o ônibus cheio de história para projetar. Apesar de jovem, ele já sabia atrair alguém para uma sala de cinema, contando sobre um filme, sem nem ao menos tê-lo visto. Não foi por pouco que na mesma época foi emancipado pelo pai para abrir seu primeiro cinema na cidade vizinha, Pirassununga, e por aí traçou sua própria história em muitas outras cidades: Araras, Porto Ferreira, Espírito Santo do Pinhal, Mogi Guaçu, Itu, Tietê, Tatuí, Patrocínio, Araxá, Itaúna, Divinópolis, Campinas, Peruíbe, Mongaguá, Itanhaém, Guarujá, Pedreira, Vinhedo e Santa Rita do Passa Quatro, tiveram cinemas em seu comando. Noel viu o auge e a decadência dos cinemas de rua.

 

“As pessoas dão vários motivos, mas para mim, os maiores culpados para a queda do cinema foram os próprios donos, porque as salas foram se tornando ruins, o público precisava de algo novo”. Para Noel, a rede Cinemark trouxe um novo conceito para o Brasil que deu certo. “O cinema stadium (o da plateia em degraus) agradou e os exibidores começaram a prestar atenção nesta mudança. Nos Estados Unidos já existia TV a cabo e o cinema andava e aqui não, precisava de algo diferente”, acredita ele.

 

Além da novidade estrutural, as novas salas também saíram das ruas para os shoppings, trazendo maior sensação de segurança e comodidade, com estacionamento, refeição e todo um complexo de compras e outros serviços. “A sociedade capitalista tem que consumir né?”, conclui ele.

 

 

Noel também não pôde investir o bastante para fazer todas essas mudanças que a sociedade desejava. Seus cinemas foram fechando e para construir o novo conceito, ele voltou para Leme. Na Avenida de entrada da cidade, está o Cine Avenida, com pouco mais de 180 lugares, stadium e som Dolby Digital. Segundo Noel, as pessoas procuram hoje o cinema para fazer festa, assistir a um show, um jogo de futebol e até a final da novela. “Hoje o cinema não é apenas um local para exibir filmes, é uma casa de espetáculo”. O último capítulo do sucesso global Avenida Brasil, lotou o cinema lemense e como um fiel e fanático corintiano, não poderia deixar de passar a final da Libertadores com o Timão. “Demos sorte!”, lembra orgulhoso. Tais oportunidades, explica ele, ficarão ainda melhor com a projeção digital. “As pessoas poderão assistir a eventos ao vivo pela telona, é um futuro diferente, porém fantástico”, fala o exibidor, que acredita que a magia está dentro do cinema, independentemente do que estiver acontecendo diante dos olhos dos espectadores.

 

O recomeço do exibidor já é um sucesso reconhecido inclusive entre estudantes de administração. No último dia 3 de junho, Noel recebeu, além de outros dois empresários, o prêmio “Empreendedor Nota 10”, realizado pelo Centro Universitário Anhanguera de Pirassununga, que teve como objetivo destacar os empresários que transformaram uma boa ideia, aliada a muito trabalho, em um negócio de sucesso com geração de emprego e renda na região. Para Noel, o prêmio representa uma história de ousadias. “Todos nós somos inteligentes, mas o empreendedorismo está no sangue daqueles que têm coragem de correr riscos. Já acertei muito e já errei, o importante é tentar”, ensina.

De quê?

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

E vou falar de quê; de esperança?

 

Ando lendo notícia demais e acho que, por isso, a esperança pulou mais alto para ser escolhida como tema. Pulou é fraqueza de expressão. Ela se apoderou de mim. Na verdade está agarrada ao meu pescoço. Não sozinha; ela e seu lado escuro, a desesperança. As duas. Inseparáveis. E eu de língua de fora. Preciso da primeira para me salvar do abismo da segunda, e da segunda para me salvar do falso pódio da primeira. Preciso que esperança e desesperança se calibrem, para não viver uma vida cor-de-rosa esperando que a vida me viva, ou desistindo dela. Na inércia e no medo.

 

Esperança rima com criança e é uma marca infantil porque não cresce naturalmente em nós. Na área da esperança, quando adultos, vivemos infantilmente, e ela continua de calças curtas e de fita no cabelo. Continua uma esperança pidona, ausente sempre do presente.

 

Esperança foi colocada no nosso pacote de viagem não para que sentássemos e esperássemos. Seu nome confunde Não veio no kit principal para que dependêssemos da benevolência de papai e mamãe que podem transformar esperança em realidade; numa bicicleta, na tenra idade, ou num carro, mais tarde. Esperança vem na medida de cada um e cresce na medida em que cada um cresce. Para o lado que cada um crescer. Esperança é impulso, e não razão para sentar e esperar.

 

E vou falar de desesperança? Falar dela é chover no molhado, é dar trela ao tinhoso, é cutucar o vespeiro, é surfar na onda da queixa. Me deixa! Todo mundo se queixa de tudo. Do governo e do desgoverno, do crime grande e do pequeno, do que tem e do que não tem. Um dia é porque eu quero que a vida seja assim, no dia seguinte porque quero assado.

 

Mas antes assim; foi melhor olhar de perto o pacote das des-esperanças e deixar de lado violência, tornado, seca, enchente, vandalismo, corrupção, filha que mata mãe, pai que mata filho, ser-humano que queima ser-humano, arrancando, uns dos outros, o osso do dia. Em todas as áreas e classes. Em toda a espécie humana. É pandêmico.

 

Pai, esvazio aos teus pés o meu cálice de des-Esperança, e Você me preenche de Fé. Combinado?

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Brasil perderia R$ 19,3 bi sem metrô de São Paulo

 

Viagem de Trem e Metrô

 

Chego muito cedo para trabalhar e estou distante da estação de Metrô, portanto o carro ainda é minha opção quando deixo minha casa de madrugada para apresentar o Jornal da CBN. Antes mesmo de chegar à redação, porém, já tenho informações sobre as estações de metrô da cidade – e da CPTM, também. Costuma ser das primeiras notícias que me chegam pelo Twitter: fatos contados por usuários muitas vezes revoltados devido a problemas técnicos e atraso dos trens. Há os que mandam imagens para provar o aperto que estão enfrentando nas primeiras horas do dia. Entendo perfeitamente a bronca dos ouvintes com o transporte sobre trilhos de São Paulo, são poucas linhas para a demanda que temos. São apenas 74 quilômetros e 64 estações, muito distante da infraestrutura ideal para atender os 4 milhões de passageiros que usam o sistema,

 

Por estar esmagado na estação de embarque ou pressionado dentro do vagão, o paulistano perde a perspectiva da importância deste transporte para nosso cotidiano. Ressalto, fato este plenamente justificável. A verdade, porém, é que sem Metrô e CPTM, nossas vidas seriam muito diferentes e as perdas inimagináveis. Perdão, imagináveis, ao menos a partir de agora. Estudo que será divulgado nesta sexta-feira (7/6), feito pelo professor Eduardo Haddad, da FEZ-USP, mostra que o Brasil perderia R$ 19,3 bilhões por ano ou 0,6% do PIB, caso não existissem os trilhos do metrô, na capital paulista.

 

Haddad e sua equipe se debruçaram sobre modelos econômicos de grande escala, mapearam como os trabalhadores se deslocam na cidade de São Paulo e região metropolitana, e consideraram a relação entre mobilidade, acessibilidade e produtividade do trabalho no sistema metropolitano incorporado à economia nacional. De acordo com dados divulgados no estudo, a cidade de São Paulo está diretamente envolvida em 14,1% de todos os fluxos de comércio do país. Portanto, se este fluxo para por aqui, a economia brasileira sofre como um todo.

 

Sem Metrô, a cidade de São Paulo deixaria de produzir R$ 6,15 bilhões, enquanto o restante da região metropolitana deixaria de contribuir com a economia em R$ 2,17 bilhões. Os demais municípios do Estado de São Paulo perderiam R$ 2,29 bilhões e o restante do Brasil sofreria um impacto econômico negativo de R$ 8,7 bi. “Quando você retira o metrô, o tempo de deslocamento aumenta e a produtividade cai. O PIB da cidade de São Paulo e de outras regiões do país é afetado. O Brasil perde competitividade, a arrecadação do governo é reduzida, as famílias têm menos renda e, portanto, consomem menos”, diz Eduardo Haddad.

 

Conclusão: ruim com o metrô, impossível sem ele.

O meu livro dos Porquês?

 

Por Julio Tannus

Por que na República do Brasil temos reeleição?

 

Por que não prolongar os mandatos de presidente, governadores e prefeitos, ao invés de propiciarmos que os eleitos se utilizem do poder para se perpetuarem nele?

 

Por que os motoqueiros não obedecem à legislação vigente, que proíbe os veículos automotores trafegarem na faixa que divide as pistas do leito carroçável?

 

Por que temos no Brasil uma carga tributária que pesa sobremaneira no bolso da população e não temos um retorno equivalente?

 

Por que não há representação proporcional a população dos Estados da União, no Congresso Nacional Brasileiro?

 

Por que para se ter uma empregada doméstica no Brasil é necessário pagar como se fosse uma empresa?

 

E assim por diante…

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada
Co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Empresa paga 14º salário para quem lê um livro por mês

 

 

Encontrei no blog “Acertos de Contas”, da Giane Guerra, no ClicRBS, este caso interessante de empresa que transforma em salário o prazer da leitura de seus funcionários. A rede de concessionárias Cometa, com sede em Cáceres, no Mato Grosso, paga 14º salário no ano para o colaborador que ler um livro por mês. A ideia é aprimorar o conhecimento e capacitar o profissional, o que resultará em benefício para a qualidade do serviço prestado e aumento de vendas. Muitas vezes a literatura é proposta pelos próprios gestores que priorizam temas que passam pela formação de liderança, gestão, relações interpessoais e publicações sobre a área de atuação do negócio. Para contar pontos e concorrer ao salário extra, o colaborador deve ler os livros da biblioteca da empresa, além de apresentar uma ficha de leitura sobre a obra.

 

“Na área de vendas, é possível perceber a relação entre o nível de leitura e a quantidade de vendas. Já na área administrativa, é perceptível que os funcionários estão mais qualificados, no contato com os clientes”, disse o presidente do grupo Cometa, Cristinei Melo.

De tenho saudade de mim

 

Por Maria Lucia Solla

 

Detalhes

 

Nunca pensei que um dia eu diria isso. Na verdade acho que é a primeira vez que sinto saudade de mim, mas é o que estou sentindo agora. Agorinha. Vai ver até já faz tempo que essa saudade anda por aqui, e eu é que não percebia. Não distinguia.

 

É uma saudade inebriante que tira o chão, puxa rédeas que a gente imagina ter seguras nas mãos. Pois certamente não as temos, e se quiser saber, acho que nem existem, as tais rédeas. Nem as rédeas, e quem sabe, nem as mãos. Só barras imaginárias que retardam a caminhada. Às vezes se abre uma brecha e a gente passa, mas se não passa, o tempo passa.

 

Vou trazer essa saudade de mim, mais a admiração e a saudade que sinto dos meus filhos, confessando sempre minha gratidão pelo tanto que aprendo com eles, trazendo de volta meu segundo texto neste blog, em dezessete de junho de dois mil e sete.

 

“De música e família

 

Olá,

 

Fui passar o final de semana na casa do meu filho, no extremo sul de Minas Gerais. Ele mora com a família, no topo de uma montanha cercada de vales, de outras montanhas e da natureza toda, com a qual convivem respeitosa e agradecidamente.

 

Sempre aprendo, e aprendo muito lá.

 

No final da tarde de sexta-feira estava lendo, tranqüila na sala, quando comecei a ouvir meu filho no banheiro, administrando um de sete, um de cinco e uma de três, no banho. O resultado era um quarteto afinado, composto de uma só família de instrumentos que emitiam sons completamente diferentes.

 

Ouvi de gritos de Tarzan a choro, e risadas de quase perder o fôlego. Às vezes meu filho, o primeiro violino, conseguia um solo surpreendentemente calmo e equilibrado, mas era por pouco tempo porque os outros instrumentos se atiravam literalmente em cena. Os movimentos da peça eram inesperados e surpreendentes. Tinham começado hesitantes, na entrada do banheiro, num adagio ma non troppo, e crescido até chegarem ao allegro. Tudo indicava que haveria um segundo movimento, mas não demorou para que quebrassem todas as regras e ziguezagueassem entre extremos.

 

Sem aviso prévio nem sutil indicação, um ou outro instrumento se retirava do conjunto, por espaços de tempo descompassados, e o andamento continuava surpreendendo. Havia ais, havia uis, havia sai daí que agora é minha vez, e olha ele pai! E eu, de camarote, sorria, me deliciando. Lavou bem a orelha filho? Ai pai, meu olho! Enxuga bem no meio dos dedos. Deixa eu ver atrás da orelha. Ai!

 

Quando estavam todos vestidos e cheirosos, meu filho pediu para eu secar os cabelos da criançada, e plugou o secador na tomada ao lado do sofá onde eu tinha sentado para ler.

 

Terminada a tarefa, dei graças aos céus por serem só três cabecinhas molhadas. Era o meu limite. Os cabelos da pequena, além de longos, finos e loiros, são cacheados. Bastaria um deslize para que eu perdesse pontos preciosos da sua confiança.

 

Entrei no quarteto, no meio de nova execução, quando fui à saleta de televisão onde se acomodavam todos para ver um filme, mas não demorou para eu perceber que a melodia resultante era bem diferente da que eu ouvira antes, vinda do banheiro. Saí de cena para testar e percebi que a melodia recobrava a harmonia original.

 

Tomei então a decisão de conter meu instrumento. De hoje em diante vou tocar mais baixinho, acompanhando mais do que solando. Quem tem ensaiado junto todos os dias, ano após ano, tem maestria do conjunto. Eu não. Sei que toco bem, sem falsa modéstia, mas no conjunto, sem ensaio, faço apenas o que posso, de improviso, no momento da apresentação.

 

Nunca tinha olhado para nós mesmos, através dessa lente. Gostei. Não posso dizer que vejo mais, mas seguramente vejo melhor.

 

Quem disse que vovós e vovôs não ouvem e não veem bem?”

 

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Afim de um programa no feriado?

 

Por Dora Estevam

 

O feriado prolongado, como este de Corpus Christi, é grande oportunidade para se assistir àqueles shows que nunca temos tempo. E muita gente gosta de aproveitar esta folga para se atualizar com as diversas opções culturais da cidade: teatro, cinema, exposições e música para todos os públicos. Por isso, passei os olhos na agenda e destaco para você algumas das sugestões que mais me agradaram, em São Paulo.

 

 

Vamos começar com música erudita. Alondra de la Parra, maestrina mexicana, comanda a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo na execução da Sinfonia nº7 em lá maior, opus 92, do compositor alemão Ludwig van Beethoven e o poema sinfônico Paraísos Artificiais, do português Luís maria da Costa de Freitas Branco. É na Sala São Paulo, praça Julio Prestes, 16 – Luz, domingo, 11 horas, entrada franca.

 

 

Tem, também, muita música popular. Laércio Ilhabela, violonista, compositor, arranjador e intérprete, se apresenta no Memorial da América Latina. O show Violão ao pôr do sol mescla ritmos como bossa nova, choro, caipira, flamenco espanhol e a música clássica – representando a musica de vanguarda brasileira. O violonista vem acompanhado do Quinteto de Cordas e no repertório algumas pérolas de composições consagradas como João Pernambuco, Som de Carrilhões; Paulinho Nogueira, Bachianinha nº1. É no dia 31, quinta-feira, às 21 horas, entrada franca.

 

 

No cinema, além dos filmes em circuito nacional, há opções atraentes também em lugares bem legais como o MIS – Museu da Imagem e do Som, que traz a Caixa de Cinema, uma invenção inspirada no encontro das antigas jukebox musicais com as cabines de foto 3×4. A ideia é fazer o público relembrar ou conhecer uma grande cena de cinema. O espectador escolhe uma cena, entra na cabine e a assiste como se estivesse numa pequena sala de cinema, semelhante às antigas salas francesas. Na programação o visitante poderá assistir ao O Mágico de Óz; A bela da tarde; A Ciência dos Sonhos e a atuação do incrível David Bowie em Labirinto, de 1986. Tudo de graça. O MIS fica na Avenida Europa, 158

 

 

Na Pinacoteca do Estado de São Paulo, a atração fica por conta da mostra Santa Fabíola, reconhecida como protetora das mulheres com casamentos infelizes. O artista belga Francis Alÿs conta a história de uma mulher romana, canonizada no ano 547 em razão de seu trabalho de caridade aos doentes e pobres, tendo fundado em Roma o primeiro hospital cristão, público e gratuito em todo o Ocidente. A mostra apresenta uma série de imagens de uma mulher coberta por um véu vermelho, expostas parecem ser todas iguais, mas o público se surpreende ao chegar perto. Os trabalhos foram confeccionados com materiais bordados, esmaltes, sementes e grãos de feijão. A Pinacoteca está na Praça da Luz, 2. Vá lá conferir!

 

Desculpe-me se falei apenas de São Paulo, mas é por aqui que estarei neste feriado. Uma busca nas agendas culturais da sua cidade certamente oferecerá excelentes opções para o feriado.

 


Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida, no Blog do Mílton Jung.

Pais idosos

 

Por Julio Tannus

 

Cada vez mais a idade média da população aumenta. E surgem várias questões. Entre elas: os filhos tem obrigação de cuidar dos pais idosos?

 

Para responder a esta pergunta nada melhor do que o Estatuto do Idoso, em alguns artigos específicos:

 

Art. 1º. É instituído o Estatuto do Idoso, destinado a regular os direitos assegurados às pessoas com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos.
Art. 3º. É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária.
Art. 37º. O idoso tem direito a moradia digna, no seio da família natural ou substituta, ou desacompanhado de seus familiares, quando assim o desejar, ou, ainda, em instituição pública ou privada.
Art. 43º. As medidas de proteção ao idoso são aplicáveis sempre que os direitos reconhecidos nesta Lei forem ameaçados ou violados:
I – por ação ou omissão da sociedade ou do Estado;
II – por falta, omissão ou abuso da família, curador ou entidade de atendimento;
III – em razão de sua condição pessoal.
Art. 45º. Verificada qualquer das hipóteses previstas no art. 43, o Ministério Público ou o Poder Judiciário, a requerimento daquele, poderá determinar, dentre outras, as seguintes medidas:
I – encaminhamento à família ou curador, mediante termo de responsabilidade;
II – orientação, apoio e acompanhamento temporários;
III – requisição para tratamento de sua saúde, em regime ambulatorial, hospitalar ou domiciliar;
IV – inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a usuários dependentes de drogas lícitas ou ilícitas, ao próprio idoso ou à pessoa de sua convivência que lhe cause perturbação;
V – abrigo em entidade;
VI – abrigo temporário.

 

À medida que crescemos e que os nossos pais envelhecem, os papéis dentro da família acabam por se inverterem: os mais velhos tornam-se cada vez mais dependentes dos mais novos. Ainda assim, estima-se que 85% da população idosa quer continuar a viver na sua própria casa.

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Diretor da SPObras explica problemas em relógios de rua

 

Os novos relógios digitais de rua são bem mais bonitos do que os que tínhamos na cidade, até então. Porém, muitos ainda apresentam problemas nas informações da hora e da temperatura como registrou, nessa segunda-feira, a repórter Cátia Toffoletto. Na região pela qual passou, apenas dois dos sete relógios funcionavam corretamente. A ouvinte-internauta Isaura Maria Rocha também encontrou problemas nesses equipamentos, conforme se percebe nas fotos que ilustram este post. O relato da repórter e de ouvintes me levaram a lembrar Nelson Rodrigues e a peça “Bonitinha, mas Ordinária”, crítica que rendeu nota de resposta, assinada pelo diretor de Gestão Corporativa da SP Obras – São Paulo Obras, Sérgio Krichanã Rodrigues, que faço questão de reproduzir aqui no Blog:

 

Jornalista Milton Jung,

Sobre o comentário hoje, 27/5, pela manhã no Jornal CBN a respeito dos novos relógios digitais de rua, informamos que:

 

Os relógios, que estão nos números 335 e 336 da Av. Francisco Matarazzo, foram montados no dia 17 de maio e aguardam a ligação de energia, por isso continuam com a tela institucional, ou seja, ainda estão em processo de instalação.

 

Esse processo de instalação dos relógios não é simples, uma vez que exige uma instalação subterrânea de cabeamento por onde as informações serão passadas, além da ligação de energia. Essa instalação só pode ser feita à noite, após às 23 horas, horário permitido para a realização desses serviços no centro expandido.

 

Cabe aqui ressaltar o ótimo trabalho realizado pela ELETROPAULO, que, aliás, faz um serviço profissional que não encontra paralelo em nenhuma cidade onde se tem serviço semelhante, seja Yokohama, Paris, Rio ou Salvador, que tiveram seus relógios de rua funcionando três meses após sua instalação física ser disponibilizada para a concessionária de energia. Aqui em São Paulo a média de espera para a ligação de energia nos relógios à rede é de no máximo 72 horas.

 

A temperatura de cada relógio é medida no local e estará disponível quando da ligação à rede da ELETROPAULO. Esclarecemos também que a qualidade do ar é obtida em tempo real por um software fornecido em tempo real pela CETESB.

 

Acreditamos que a ausência dos relógios por longos três anos despertou a ansiedade de vê-los integrados rapidamente ao dia-a-dia da Cidade. E isso é muito bom.

 

Já a citação a Nelson Rodrigues seria mais inspirada e consentânea com a expectativa e a aceitação que os relógios vêm despertando se o saudoso dramaturgo houvesse cunhado a expressão após conhecer a silhueta esguia e o conteúdo generoso das informações de utilidade pública que os relógios, de concepção dos renomados arquitetos Carlos Bratke (modelo em implantação) e Ruy Ohtake (cujos relógios serão instalados em parques e áreas verdes), trazem à Cidade.

 

Um outro Rodrigues parece ter servido de inspiração, entretanto: o também e igualmente genial Lupicínio, que, além de tudo isso, tem algo em comum conosco: somos tricolores, gremistas, sofredores compulsivos, esperançosos de ver aqui em São Paulo uma cidade mais gentil, mais moderna, cujo desenho urbano venha a garantir sua permanência entre as mais importantes capitais cosmopolitas deste século.

 

Um grande abraço. Estamos à disposição.

 

Sérgio Krichanã Rodrigues (também Rodrigues, como podes ver, Che!)
Diretor de Gestão Coorporativa de São Paulo Obras – SPObras