De princípio da vibração

 

Por Maria Lucia Solla

 

Texto escrito originalmente em 20/11/2011

 

 

Ouça “De princípio da vibração” na voz e sonorizado pela autora

 

Ando preocupada comigo; será que estou caindo no buraco da depressão? Não tenho procurado amigos, e quando a gente não está nadando na alegria e nem em condições de entreter, o mundo se afasta de você. Ando muito mais quieta do que sempre fui, saio pouco, tenho me fechado. Basta o sol se esconder por meio dia, e eu murcho. Tudo bem que a vida anda difícil para todos os que têm que viver sozinhos e do próprio sustento. Tudo bem que os relacionamentos vão se equilibrando no tênue fio do ritmo da vida e do interesse de cada um. Tudo bem que o dia amanhece às vezes nos dando tranco sem aviso, sem preparo, e leva embora certezas que, teimosos, insistimos em manter, apegados que somos. Mas tá puxado!

 

Os estrangeiros que estudam a língua portuguesa se surpreendem com os dois verbos que traduzem o verbo to be e o verbo être. Temos ser e estar, que apontam, um para o permanente – ser, e o outro para o transitório – estar. Não sei você, mas sinto que sou cada vez menos e estou cada vez mais, o que é inevitável, me parece, pois pelo princípio da vibração nada está parado, tudo muda, tudo vibra. Além disso o filme da vida tem passado em velocidade assustadora, e tem dias que nem me lembro de mim. Tudo muda em mim o tempo todo. Muda o paladar, o ouvido musical, o modo de ver e de viver a vida, o modo de lembrar e o modo de sonhar, o modo de lembrar e de não ser lembrada. E como a memória traz sabor mais agradável que a solidão, me farto.

 

muda o tipo e a medida
do amor
da expectativa
da dor
muda tudo
sempre
dentro e fora

 

De novo, não sei você, mas às vezes me sinto um bicho acuado, e noutras uma leoa faminta. Quando a gente não toma antidepressivo – o que hoje em dia é como andar na montanha russa sem cinto de segurança – percebe a gente e o mundo, nus e crus. Como obturar um dente sem anestesia. Por outro lado há um quê de paz em mim que não existia antes. Algo como: então tá! e um quê de agressividade na medida para me defender antes de cair no buraco já que nunca falta quem tente puxar ou empurrar. Vai ver tudo isso é só uma veia criativa com tons de depressão, ou vice-versa, que tanto faz.

 

só percebo com clareza
que não caí na depressão
quando olho para a mesa de vidro
no lugar daquela de madeira
que morreu
e babo com a beleza das rosas brancas
que alçam voo do vaso
de vidro também
onde eu as arranjei

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Rosana Jatobá: “a Terra sobreviverá, mas nós estaremos vivos?”

 

Por Dora Estevam

 

A elegância não está apenas na roupa que veste ou nos gestos que marcam sua fala. Rosana Jatobá é refinada no conteúdo, também, que vai muito além daquele que a maior parte do Brasil ainda se lembra, e com saudade, quando apresentava a previsão do tempo no Jornal Nacional, na TV Globo, onde trabalhou por 12 anos. Dedica-se agora ao tema da sustentabilidade, sem dúvida resultado do mestrado em Gestão e Tecnologias Ambientais feito na USP, mas que também pode ser explicado pelo destino que o nome de família lhe proporcionou. Jatobá é a árvore que mais sequestra carbono do ar, espécie de faxineira do ar. E Rosana busca ajudar o planeta com o recurso que desenvolveu no jornalismo: a comunicação. Atualmente, apresenta o programa “Tempo Bom, Mundo Melhor” na Rádio Globo, está escrevendo as últimas páginas de um livro e se preparando para lançar o site “Universo Jatobá”. A unir todos os projetos, o desejo de viver em uma sociedade mais justa e sustentável, o que já revelava em crônicas escritas no Blog do Mílton Jung, em 2010 (leia os artigos aqui). E a certeza de que o exemplo começa em casa, como demonstra nesta entrevista que fiz com a ela:

 

Quais as ações de sustentabilidade que você pratica, atualmente?

 

– Coleta seletiva do lixo e destinação correta, levando os resíduos ao posto de coleta do Pão de Açucar; economia de água e de energia; aparelhos eletrônicos com selo de efeciência energética e desligados (fora da tomada) quando não utilizados; uso de bicicleta para pequenos percursos; uso de ecobags; horta doméstica e ioga.

 

Onde você busca inspiração para os seus projetos? Quais são as suas referências?

 

– Minha maior referência é a literatura. Procuro me inspirar em grandes escritores sobre o tema, como Tim Flannery, James Lovelock, Nicolas Stern, José Goldembreg, Washington Novaes, Leonardo Boff, Echart Tolle, etc… Gosto também de ressaltar atitudes sustentáveis de pessoas famosas, pois é um chamariz eficiente de convencimento. Os exemplos mais factuais eu pesquiso em sites como EcoD, Planeta Sustentável, Treehugger e os cadernos de Sustentabilidade do Valor Econômico e do Estadão. Fico de olho tambem em documentarios e podcasts.

 

O consumo, de maneira geral, é um vilão da economia de sustentabilidade?

 

– O consumo é benéfico. Traz conforto e é a mola propulsora da economia. O erro é o consumismo, a prática exagerada do consumo, que resulta em exploração demasiada dos recursos naturais e no descarte inadequado. Temos que migrar de uma sociedade descartável para uma sociedade de bens duráveis. E temos que aprender a nos contentar com uma vida mais frugal, ligada a natureza, a qualidade dos relacionamentos e a espiritualidade, evitando buscar recompensas psicológicas por meio do materialismo. A economia da consciência vai predominar neste século e as inovações da tecnologia vão nos permitir uso mais racional da energia e da matéria-prima.

 

Quais as maiores dúvidas das pessoas com relação as questões ambientais?

 

A duvida conceitual: o mito de que o planeta vai acabar em água ou em fogo! Mas a verdade é que a Terra, por mais explorada e aviltada, sobrevivera, como ocorreu em outras eras. O que temos que atentar é para a sobrevivência da espécie humana e de muitas outras que, como sabemos, estão interligadas neste equilibrio ambiental. A duvida prática: como posso ser sustentável sem abrir mão do conforto material?

 

Já podemos dizer que o Brasil tem um forte apego a sustentabilidade?

 

Podemos dizer que o Brasil tem uma forte vocação e um potencial magnífico para ser sustentável. Temos a matriz energética quase toda limpa, uma das maiores e mais ricas florestas do mundo em biodiversidade, água em abundância, embora com problemas de escassez e distribuição; e um povo que gosta de natureza e é receptivo às mudanças necessárias. Quando a educação for prioridade, daremos as ferramentas para nosso povo fazer as escolhas corretas e lutar por uma sociedade mais justa e ambientalmente correta.

 

Quem você gostaria de ver falando sobre este assunto com você?

 

A minha maior conquista profissional é poder dividir o palco com a nossa Ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira em diversos eventos relacionados ao tema. Os últimos foram o lançamento da “Rede de mulheres líderes pela sustentabilidade” e a premiação do ” Champions of the Earth, da ONU”. Sou parceira do Ministério. Um dos projetos é engajar pessoas famosas como atores e jornalistas, a fim de formar opinião voltada para a preservação ambinetal e a responsabilidade social. Agora, se juntar o Brad Pitt, o Leonardo de Caprio e o Al Gore….não reclamo, não! rsrsrsrs

 

Como convencer o consumidor a ter percepção forte sobre o consumo alternativo?

 

Acho que dar bronca, censurando atitudes, não dá certo. Ao contrário. Você passa a ser encarado como ecochato. Tem que tentar engajar pela emoção, mostrando que o futuro dos nossos filhos está comprometido. E evitar um discurso catastrófico. Mostrar o lado bom de mudar.

 

Quando anda nas ruas da cidade o que mais chama sua atenção e você gostaria de mudar?

 

O que me comove e constrange é a desigualdade social, embora o Brasil seja, pela primeira vez na história, um país de classe média. Mas o fato é que há muita disparidade e uma sociedade desigual gera muitos conflitos. Como convencer um cidadão a fazer separar o lixo, se na porta dele passa o esgoto e a família não tem acesso à água potável?

 


Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida, aos sábados, no Blog do Mílton Jung

A Viagem ( final)

 

Por Sérgio Mendes

 

Leia aqui o 1º capítulo de “A Viagem”

 

Leia aqui o 2º capítulo de “A Viagem”

Leia aqui o 3º capítulo de “A Viagem”

 

Naquela posição, ninguém ainda tinha percebido direito o que acabara de acontecer e a sensação de que meu pai daria outra vez a partida e continuaríamos, persistiu até que ele saiu do carro. Após submergir de nossas vistas na janela, emergiu com aquela cara de ‘hum, hum’ que eu nunca mais me esqueci. O eixo traseiro estava partido em dois, e as rodas dobraram se sobre ele fazendo a traseira do carro abrir as pernas fora do asfalto. Nós e o corcel amarelo em pleno Cerrado, frente e verso traspassados pela estrada a perder de vista dos dois lados. Então, saímos todos do carro e nos reunimos numa sessão do conselho diretor para discutir o que faríamos.A conclusão foi que um dos adultos seguiria de carona até a próxima cidade para buscar socorro, e os demais montariam guarda na estrada pra assegurar que o tal socorro tivesse a quem socorrer na chegada.

 

Assim se fez e assim aconteceu!

 

As horas a partir de então, foram uma sucessão de generosidade anônimas e o esvaziamento total das reservas familiares. Por causa disso, a viagem se completou com suas ultimas 24h a bordo da nave da mamãe.

 

O socorro chegou com o socorrista que depois de um exame minucioso na fratura exposta, igualmente emergiu a nossas vistas do outro lado do carro, com a cara de ‘hum, hum’ escondida detrás dos óculos de fundo de garrafa. Não conseguiu nos assustar por que a cara já tínhamos visto! Conversa vai, conversa vem, e nós em silêncio acompanhando o ping-pong. Hora olhando para um lado, hora para o outro.

 

Depois de muita exclamação e de cada um dos três partícipes naquela negociação dar umas duas ou três coçadinhas na própria cabeleira, chegaram a um acordo: o mecânico rebocaria o nosso corcel, providenciaria outro osso igualzinho e ainda faria o implante a troca de todos os centavos que nos restasse naquela altura do campeonato!

 

Demos o ping-pong por encerrado.

 

O socorrista, com ares de sabe-tudo e muito boa vontade, amarrou bem amarrado o eixo do nosso corcel e nos montou a todos, exceto o meu pai, na garoupa do seu próprio pangaré e fomos rebocados até o seu hospital de pangarés na entrada da cidade mais próxima. Meu pai ficara no nosso carro, apenas manobrando.

 

Ao chegar, apearam o paciente e entraram com ele para a mesa de operação. Do lado de fora da janela do CTI, quatro pares de olhos pequenos, arregalados, não perdiam uma só cena daquele capítulo final. Estávamos esticados e de pé, cada um esticado como era possível, é claro, obedecendo as curvas na coluna impostas pelos últimos dias.

 

Uma senhora que acompanhara nosso drama desde a chegada do comboio( pangaré partido e pangaré resgate) nos ofereceu sua casa para o pouso enquanto providenciavam outro eixo de outro pangaré partido em algum outro lugar. Dormiríamos aquela noite na casa dela.

 

No dia seguinte pela manhã, a peça chegou e o implante foi completado. Depois de um café com pão, leite e muito amor, estávamos de volta ao asfalto ou o que se pudesse chamar aquilo sob o carro, nas ultimas horas da nossa aventura. Prosseguimos nossa viagem pelo restante de estrada que faltava. A maior parte do tempo em silencio.

 

Nem mais a caixa do meu piano, nem as dores no corpo, nem as tensões pelo esgotamento quase completo de todo dinheiro disponível eram maiores que a vontade de chegar. À noite daquele último dia, passamos em um outro posto de combustível junto de uma porção de caminhões e seus caminhoneiros a quem meu pai contou a nossa história. Logo estávamos outra vez cercados do apoio de gente nossa, no meio de um mar de caminhões. Dormimos no carro.

 

Pela manhã, mais café com pão e estrada.
Então, já dentro do Mato Grosso.
Chegar em casa agora, era uma questão de horas.

 

Por volta das 16h, eu entre acordado e dormido e com meu pescoço curvado, por castigo sentado no meio do banco, avistei as luzes da nossa cidade. Lembro de tentar acordar minha tia e que ela me respondeu com um sopapo como se pensasse aquilo ser só mais uma brincadeira de mau gosto.

 

Me deixa dormir! Ela resmungou sem acreditar que a viagem chegara ao final. Mas logo as luzes invadiram o carro e todos os ainda dormidos despertaram. Como era boa aquela sensação!

 

As ruas que faltavam até o fim, eram bem conhecidas e mais um par de curvas, avistamos a praça da vila militar. Foi minha mãe quem abriu o portão e recolhemos o carro. Ninguém nem tocou e nada dentro dele. Só queríamos sair e reencontrar a casa.

 

Na manhã seguinte a nossa chegada, antes que os demais acordassem, fui eu quem me encarreguei de desmontar a cangalha. Não tive impulsos de dirigir o corcel e desmontei os fardos colocando as coisas no chão. Tudo tão indispensável que em uma noite, ninguém precisou de nada guardado dentro dele.

 

Pra que fique bem gravado na memória:

 

‘Nunca subestime nossa capacidade de acumular tranqueiras.’
Ao abri-lo, a fechadura respondeu bem e destravou a porta.

 

Soube depois que o corcel transplantado ainda carregou a família por mais algum tempo, antes de se estrelar num muro em uma balada etílica, a 50km/h, acordando um velhinho no meio da madrugada. Mas eu já não morava mais com meus pais. Naquele mesmo ano iria para um internato militar e igualmente não toquei mais no meu piano que até hoje segue embalado em sua caixa, em algum lugar de nossa casa. Não toquei nem quando retornava por alguns dias nas férias.

 

Isso aconteceu na ultima vez que viajamos todos juntos. Seis dias de carro, um corcel amarelo.

 

Ps: A fechadura colada com chicletes nunca foi descoberta. Nem depois que ele passou para outras mãos. Pelo menos não que eu tenha ficado sabendo.

Não sou uma pomba, mas sou da paz

Texto publicado, originalmente, no Blog Adote São Paulo, da revista Época São Paulo

Bom dia, Revista Època,

Sr. Milton Jung será que o senhor não tinha nada mais útil à sociedade para escrever do que relatar essa sua perseguição as pombas???? Será mesmo que o problema são elas, ou você que em seu texto transborda ódio e raiva dos animais????? Sinceramente se elas o perseguem por toda parte, o senhor deve ter feito alguma coisa para tal reação da vida contra o senhor. De fato os animais podem causar doenças, mas garanto que usar cola para espantar o bando não é a atitude mais digna de um ser racional. Com certeza elas, sim, sim o símbolo da PAZ, talvez bem mais que sua atitude egoísta de escrever numa revista uma situação particular, ao invés de se preocupar com assuntos bem mais importantes, que com certeza a cidade de São Paulo tem. Boa sorte ao SENHOR, espero que como jornalista dê o exemplo às pessoas para que trate os animais bem , pois já vivemos num clima de violência incomensurável, bons exemplos sempre são bem vindos. Use seu espaço para tentar ajudar mais seu próximo,sua cidade,etc. garanto que a vida lhe será mais grata, até os pombos te libertaram de tal perseguição.

Sônia Pirrongelli

 

Minha coluna na Época São Paulo, de novembro, quando dediquei a última página da edição aos problemas que os pombos me causam – e à cidade, também -, provocou protestos da cara leitora Sônia Pirrongelli, a quem agradeço pela mensagem eletrônica enviada a sessão de cartas da revista (perdoe-me, inicialmente, por chamar assim este espaço dedicado aos leitores que há muito, imagino, não perdem tempo escrevendo missivas às redações quando podem, facilmente, enviar um e-mail). A bronca da leitora a este “perseguidor de pombas” me permite, no mínimo, retomar o assunto que se estendeu ao programa que apresento na rádio CBN. Os ouvintes-internautas, aliás, foram muito mais solidários a minha causa, o que, por si só, já desmonta o argumento de que o tema não tem importância para os cidadãos paulistanos. Imagine que no Centro de Zoonose existe um departamento especializado em combater as tais aves. Calma lá, combater não é a melhor palavra. Vamos dizer que os funcionários públicos têm o desafio de conter a proliferação de pombos.

 

O problema não se restringe a minha casa ou a cidade onde moro. Do Rio, soube que a prefeitura demonstrou preocupação com a superpopulação de pombos, enquanto do Paraná chegou alerta para a necessidade de aplicar com estas aves os mesmos conceitos de combate a pragas na agricultura. Algumas cidades do interior do Brasil lançaram campanha para que os moradores não deem comida aos pombos e espalham pílulas anticoncepcionais para as mocinhas de asa na esperança de que os estragos a prédios públicos e à saúde da população diminuam. Aproveito para informar que de nada adiantará o senhor ou a senhora que me lê comprar uma cartela na farmácia e espalhar pílulas pelo telhado ou pátio da casa. Para a prática dar resultado seria necessário que as pombas ingerissem uma quantidade inimaginável de anticoncepcional e durante um tempo muito longo.

 

Aliás, não me faltaram sugestões para espantar as pombas que me cercam. Falaram em um apito que causaria incômodo, sugeriram a contratação de gaviões e até mesmo que me mudasse de casa – o que está fora de cogitação. Não a abandonei nem quando foi ocupada por bandidos, imagine se me renderei aos invasores alados. A dica mais bem humorada enviada por um dos ouvintes, ao qual peço desculpas por não ter registrado o nome, foi pintar o telhado de verde. Como? A pomba vai pensar que é do Palmeiras e abandonar o lugar com medo de cair junto – disse ele.

 

Para Dona Sônia, autora da revoltada carta enviada à revista, quero dizer que apesar de não gostar das pombas nunca aceitei que fizessem maldade com elas. A tal cola citada no meu artigo na Época SP, é, na realidade, um gel que não causa qualquer dano, apenas deixa desconfortável o local ocupado. Tem mais ou menos o mesmo o efeito da rede de proteção que coloquei em parte do meu telhado (e que ainda não deu resultado). Um amigo que apareceu com arma de pressão foi mandado embora. O veneno recomendado, sequer levei em consideração. Não sou uma pomba, mas sou da paz.

 

Qualquer dúvida sobre como trato os animais, pergunte ao Eros, ao Ramazzotti e ao Boccelli – o labrador, o shitzu e o persa que moram na minha casa há uns bons anos. Pensando bem, é melhor deixar o Ramazzotti fora dessa, pois ontem, por recomendação médica, tive de castrar o baixinho, e creio que a opinião dele sobre minha pessoa, neste momento, não deve ser das melhores.

Quando nem Freud explica, tente a poesia!

 

Por Julio Tannus

 

Ao procurar um livro na minha biblioteca desarrumada, reencontrei a poesia. Compartilho aqui algumas delas:

 

Sigmund Freud: “Seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim”.

 

Bertolt Brecht: “Fôssemos infinitos / Tudo mudaria / Como somos finitos / Muito permanece”

 

Raimundo Gadelha: “E a tristeza maior é a certeza: nas multidões de todas as estatísticas eu, tão só, não estou só”.

 

Patativa do Assaré: Povão Sofrido

 


“Sou o sertanejo que cansa
De votá, com esperança
Do Brasí fica mió;
Mas o Brasí continua
Na cantiga da perua:
Que é: – pió, pió, pió…”

 

Mário Quintana: Da Sabedoria dos Livros

“Não penses compreender a vida nos autores.
Nenhum disto é capaz.
Mas, à medida que vivendo fores,
Melhor os compreenderás.”

 

Mário Quintana: Da Condição Humana

 

Custa o rico a entrar no Céu
(afirma o povo e não erra)
Porém muito mais difícil
É um pobre ficar na terra…

 

Nicolino Limongi: O Livro

 

“Fechado, é como um sol em potencial,
relicário de amor e de saber;
aberto, é verdadeiro manancial
de inspiração, de luz e de prazer.
Mestre amigo, incansável e cordial,
sempre pronto a servir e a esclarecer,
não protesta, não fala, não diz mal
daqueles que o não sabem compreender.
Se acaso jaz perdido, abandonado
sobre um móvel qualquer, velho empoeirado,
guarda em silêncio o bem que armazenou.
Se o espírito que o fere vem, sedento,
ao seio farto haurir conhecimento, ei-lo servindo à mão que o desdenhou.”

 

Olavo Bilac: Língua Portuguesa

 

“Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma”.

 

T.S. Eliot: Poesia

 

Ninguém nos deu emprego
Com as mãos nos bolsos
E o rosto cabisbaixo
De pé no descampado estamos
A tremer de frio em quartos obscuros.
Somente o vento ainda se move
Nos campos desolados, improfícuos
Onde o arado jaz inerte, em ângulo
Com os sulcos. Nesta terra
Um cigarro haverá para dois homens,
Para duas mulheres apenas um quartilho
De cerveja amarga. Nesta terra
Ninguém nos deu emprego.
Nossa vida é inoportuna, nossa morte,
Jamais anunciada pelo “Times”.

 

Arthur Rimbaud: Uma Temporada no Inferno

 

“Sim, a hora nova é a menos severa.

 

Pois posso dizer que a vitória está garantida: o ranger de dentes, as labaredas de fogo, os suspiros enfermos se moderam. Todas as lembranças sujas se apagam. Meus últimos remorsos se retiram, – invejas pelos mendigos, os facínoras, os amigos da morte, os retardados de toda espécie. – Condenados, se eu me vingasse!

 

É preciso ser absolutamente moderno.

 


Julio Tannus é consultor em estudos e pesquisa aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Vai encarar !

 

Não sei se foi a crônica na Época SP, os comentários no Jornal da CBN ou minhas tentativas frustradas de afastar os pombos dos arredores da minha casa. O que provocou não sei, mas pela cara do moço, aí embaixo, o melhor é não arriscar. Quem sabe um armistício?

 

De sangue, xixi e cocô

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Semana passada fiquei boa parte da tarde num dia, e boa parte da tarde dois dias depois, num laboratório de análises clínicas, desses que têm equipamento para ver do avesso e de frente para trás, passando por um processador de gente que me fez esperar por mais de hora e meia, atendida por meias-indicações enquanto pedem para que o paciente – e haja paciência – chegue com meia hora de antecedência ao local, em jejum, etc e etc. Tortura também foi preencher um questionário minucioso e esperar, esperar, esperar, depois de efetuar o pagamento, é claro. Por pagar também fui penalizada. Tive que subir dois lances de escada porque as máquinas para pagamento com cartão ficam bem acomodadas dois lances de escada acima, e é o paciente quem tem que se mexer. Dois dias e mais um grave aborrecimento e meio depois, voltei para retirar o resultado de uma ressonância magnética. Antes de mais nada era necessário que eu ao menos reportasse comportamento anti-ético, agressivo e desrespeitoso de uma das atendentes técnicas. Foi quando fiquei sabendo que, para isso, deveria me dirigir à sala vip do laboratório, para conversar com a responsável pelo setor. Sala vip? Nem sabia que existia uma aqui. Sim, era uma sala enorme e triste que estava às moscas. Rica e vazia. Gelada, como toda sala vip, e impessoal. Uma sala reservada a pacientes pagantes, independentes ou carentes de plano de saúde. Indiscriminadamente, daí para frente.Você é pagante? Então não pega senha e não espera na fila. É só pagar sem acionar o plano de saúde. Na sala vip do Diners você é premiado por ter um cartão. Ali, por não ter. Enigmas da vida.

 

Agora, vamos combinar que quem chega a um lugar como esse, onde você vai ter o braço furado, onde vão literalmente tirar teu sangue, examinar teu xixi e teu cocô, tem maior probabilidade de estar sofrendo do que de estar feliz. Para cada anúncio da chegada de um nenê desejado, quanto fígado, quanto pulmão, quanto cérebro, hormônio e osso e músculo e sangue e rim e pele em desequilíbrio, botando em risco não a ida a uma festa, a compra de um vestido ou uma unha quebrada, mas ameaçando a continuidade da vida. Para cada anúncio de está tudo bem, quanta notícia de desesperança, de dor e de solidão. Não é uma sala onde abunda energia de alegria. O ambiente é pesado e, por falar nisso, toda a decoração, cor, iluminação, é tudo triste e te convida a sair dali o mais depressa possível.

 

E foi o que fiz. Saí dali o mais rapidamente que consegui, mas já me sentindo tão desesperançada, tão triste que nem sei dizer. Aquele é um lugar que só existe porque tem gente doente que precisa de ajuda, de acolhimento de atenção, de compaixão, sem falar em respeito e consideração, qualidades que são fáceis de reconhecer no primeiro olhar, no sorriso da chegada, não só no cabelo uniformizadamente puxado para trás e as unhas feitas. É preciso nos refazermos. Todos.

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

José Marton, o arquiteto da moda brasileira

 

Por Dora Estevam

 

 

José Marton é arquiteto, designer e cenógrafo brasileiro, renomado no mundo das artes. Você já deve ter visto obras e ambientes deste artista inconfundível. Na arquitetura de varejo, fez projetos para as lojas da Luiggi Bertolli, Cori, Barbara Strauss, Lool, VR, Eudora, entre tantas outras. Informação que o fará lembrar dele, sempre que for a um shopping. Na cenografia já executou cenários para o Fantástico, SPFW e Instituto Italiano, apenas para lembrar alguns dos muitos trabalhos. Em moda, tem suas ideias desfilando em passarelas para marcas conhecidas como Animale, Cantão, Cris Barros, Blue Man, Colcci, Fórum e Alexandre Herchcovitch. Além de todas estas atividades, Marton também é um colecionador de obras de arte incrível. Neste bate papo, ele nos conta como enfrentar os desafios de cada cliente, entre outras curiosidades da profissão.

 

Como tudo começou?

 

O escritório foi fundado em 2004 e de uma forma muito tímida. A partir daí, fui buscando conhecimento no desenvolvimento do negócio e de profissionais – mesclo arquitetos que tenham experiência em varejo, designers, artistas, light designers. Hoje nosso foco é a arquitetura de varejo. Um diferencial da Marton + Marton é a forma com a qual apresentamos o projeto para o cliente, fazemos maquetes artísticas muito próximas do projeto real e conseguimos encantá-los.

 

Como surgiu a ideia de ser arquiteto?

 

Eu acredito que nascemos arquitetos. Passei minha infância arquitetando coisas. Eu criava meus brinquedos e entrava em casas em construção para saber como funcionava uma obra desde o alicerce até o acabamento, sempre subvertendo a ordem para encontrar a arte.

 

Com relação aos projetos executados mudaria alguma coisa neles?

 

Parte dos projetos a gente sempre atualiza. Mas um bom briefing e uma boa pesquisa é muito importante antes de fazer ou mudar algum deles.

 

De todos os seus projetos existe algum que é uma paixão, que mereça um mérito especial?

 

Tenho 3 cases de sucesso, cada um com um objetivo diferente. Um projeto que foi bastante desafiador e que me fez aprender muito foi o da Luigi Bertolli. Foi nessa loja que consegui entender como um projeto precisa ser flexível e ao mesmo tempo passar a identidade da marca. Um bastante assertivo foi o da Barbara Stauss. Trabalhamos o reposicionamento da marca por meio de uma extensa pesquisa atrelada ao planejamento estratégico. E tem também a Eudora, no qual exercitamos criar uma marca do zero.

 

 

São muitas lojas criadas por você, como funciona o processo de identificação da marca com o designer?

 

Quando criamos um projeto o que buscamos é a identidade da marca, ou seja a Marton+Marton é uma ferramenta para a marca atingir o objetivo. A minha essência que permeia todas as lojas, é apenas um toque de brasilidade, que pode estar aparente ou de uma maneira mais subjetiva.

 

Como você trabalha a sustentabilidade no processo de criação?

 

Sustentabilidade virou um jargão, muito se fala e pouco se faz. Buscamos fazer projetos mais duradouros, que sejam flexíveis, fazendo com que não sejam necessários muitos descartes e reformas a cada estação do ano. Há uma preocupação em minimizar impactos da construção civil, nos apropriando de matérias-primas que tenham vida longa. Outra coisa bastante importante é a iluminação, por isso procuro mesclar lâmpadas frias com lâmpadas quentes, para que no decorrer do ano haja uma economia de eletricidade.

 

Nas viagens você busca inspiração, o que mais lhe atrai?

Eu procuro observar como as marcas se comportam em cada país, já que são povos e culturas diferentes. Busco me inspirar na essência de cada marca para criar algo completamente novo aqui.

 

Quais são suas principais fontes de referência?

 

Londres pela liberdade e pela singularidade, e Nova Iorque pela agilidade. Os americanos são especialistas em varejo, tanto que as grandes pesquisas sobre o tema surgiram lá. Às vezes, andando pelas ruas dessas duas cidades, vejo a ingenuidade de pequenas lojinhas, que em seus projetos trazem soluções incríveis, que uma empresa grande não se permite ousar.

 

A moda busca referências nas décadas passadas, funciona assim também na Marton?

 

Não buscamos o passado, mas sim um ponto no presente e o olhar no futuro. A loja precisa expressar a identidade da marca e, se estiver de acordo com o projeto, ter algumas referências de décadas passadas, sem cair no erro de nascer datada.

 

Nos cenários de moda, quais as principais preocupações na hora do desenvolvimento?

 

Sempre me baseio em algumas premissas. O tema – passar a essência do desfile. O comportamento do cenário com o público, nas fotos e nos vídeos – é importante que o cenógrafo consiga passar nesses poucos minutos a essência do desfile e deixe registrado boas imagens para que a grife consiga trabalhar nos próximos seis meses. E a iluminação que é importante e determinante

 

O que é moda na arte hoje?

 

Existe uma modinha na arte, que é a da “gambiarra”, da coisa mal feita, mal acabada … Esse é um modismo que me incomoda.

Para conhecer um pouco mais do trabalho de José Marton visite o site da Marton+Marton

 

Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida, no Blog do Mílton Jung, aos sábados.

A viagem

 


Por Sérgio Mendes

 

Quando entramos no carro para o teste, este também já era o início da aventura. Percebemos a obviedade que não caberíamos todos ali dentro, não comodamente. O espaço que naturalmente já seria apertado sem a caixa na traseira, ficou ainda menor com ela. Por sorte, a atmosfera lá dentro estava bem espessa com toda a comoção da despedida. E isso junto do pequeno bico de minha mãe, brigada com o meu pai, dava cabo de qualquer ameaça aos meus planos. À exceção da minha irmã mais nova, Zangada, permanecemos todos sem perceber a caixa ou se alguém percebeu, foi só um pouquinho!

 

Ao encostarmos no banco, os ombros pegavam-se de maneira tal que bastava pensar em mover o braço e o outro o levantava o seu. As cabeças das duas pobres criaturas do meio, Zangada e Meio-zangada, inclinadas. Enquanto Helenita e eu nos dois extremos até podíamos nos encostar, mas caber de verdade não cabia.

 

Conversando com a minha irmã do meio que agora tem ela própria dois filhos com pouco menos idade que tínhamos nós naquele tempo, chegamos a entender aproximadamente a quantidade de coisas que deveriam passar pela cabeça dos nossos pais cientes do tamanho da jornada que iniciavam com quatro crianças e um carro velho, sob os cuidados unicamente dos dois.

 

O bairro inteiro era de terra batida, e as primeiras ruas que venceríamos antes de chegar no asfalto eram as que mais conhecíamos em nossa curta existência. Da frente da casa de vovó, em linha reta passando pelo grupo escolar onde a minha mãe trabalhou, até a esquina da rua da minha tia, e depois pela frente da casa dela. Naquele ponto acenamos para os parentes que nos assistiam passar da varanda no segundo andar.

 

O carro seguia devagar, até porque mais rápido e não daria tempo de enxergarmos ninguém. Sacolejava suavemente como se estivesse dançando uma música do toca-fitas que não tínhamos.
Os parentes foram ficando ao fundo, e nós no banco detrás de ombros grudados e com os olhos vidrados na aventura. A mesma que devia fervilhar a cabeça dos meus pais, mas do nada, o quase silêncio foi interrompido por um estouro forte.

 

Pow !

 

Correu um frio pela minha espinha! O barulho foi feio mas o carro seguiu sua marcha lenta e nos embalava qual molejo de colchão como se não tivesse sido com ele.

 

Era o primeiro susto pra todos os demais, e o segundo pra mim, que de olhos vidrados, agora pareciam querer trincar.

 

Mais alguns metros e chegaríamos ao nosso primeiro obstáculo. A pista asfaltada da rodovia que cortava a cidade, e que era também a saída do bairro, ficava em desnível, e o carro teria que subi-la. Olhei pela primeira vez os rostos de todo mundo ali dentro e não percebi preocupação. O único parecia ser só eu mesmo.

 

Meu pai engatou a marcha mais forte e zaz! O carro subiu sem maiores dificuldades, mas não sem um outro estouro um pouco menor que o primeiro. Paramos logo em seguida.

 

Os olhos vidrados das meninas e os meus rachados um pouco mais pela segunda flatulência do pobre carro, se desmancharam qual musica de vitrola quando o disco diminui a rotação até silenciar por completo, mas a parada não foi por nada mais grave. Foi o desapontamento da minha mãe com o meu pai que se manifestou. Ela o fizera parar e desceu pra que trocássemos nós dois de lugar. Assumi o seu posto de co-piloto no banco da frente e ela foi para onde eu estava, o que apertou ainda mais as meninas.

 

Folgado como fiquei, me ative a um livro qualquer que me propus a ler. Costumava ser fiel aos meus propósitos, lembram? Mas a leitura não rendia com tanta coisa acontecendo. Todo aquele mato ao lado e não raro na própria rodovia…

 

Vezes só o barulho do motor, vezes alguma conversa, vezes um rebuliço da excitação de informar minha tia da cidade nova e vezes a minha leitura que teimava em não render. Prosseguimos nossa marcha e rodamos por mais de três horas ininterruptas, absolutamente excitantes, e portanto as atenções foram desviadas dos incômodos que sentíamos.

 

Na hora do primeiro almoço na estrada, ainda pudemos saborear a comidinha de vovó. Ela nos entregou embalada em uma lata para comermos ali mesmo no carro. Paramos num posto de beira de estrada para comer e esticar as pernas com tão somente algumas horas de toada a bordo do corcel amarelo. Cada um se deliciou com o cheiro e sabor da farofa e do arroz de viagem.

 

Enchemos o buxo e lambemos os beiços! Ainda tivemos tempo de nos lavarmos enquanto meu pai abastecia o carro e trocava alguma conversa com um dos frentistas. Parecia que o bico da minha mãe tinha diminuído um pouco, e ela até ensaiava alguns comentários com as meninas e comigo.
Pressenti que o meu posto folgado de co-piloto igualmente estava a beira de acabar, mas ele ainda durou por toda aquela tarde.

 

À noite paramos para descansar conforme nossos planos e dormimos em uma pensão.

 

As horas correram, as cidades e os estados também. Os dias anteriores foram mais ou menos da mesma maneira, comigo de volta ao banco detrás e meus pais outra vez reconciliados.
Três deles depois e já corríamos por mais de 1500Km desde a partida e portanto a Bahía também já ficara para trás. Até alí o carro comportara-se bem, exceto se a velocidade ultrapassasse os 80Km. Era como se o pobre nos alertasse que todo o conjunto daquela obra era instável demais. Ele entrava em um frenesi de tremores, nos chacoalhando a todos. E tão somente com isso, apesar de estendermos os dias e as curvas obrigadas nos nossos corpos, prosseguíamos nos aproximando de casa.

 

Foi só em algum lugar de Goiás que a minha irmã ‘Zangada’, irritada pelos dias de pescoço e ombros para frente, decidiu soltar a sua fúria sobre mim e sobre aquela caixa! Instantaneamente meu livro escorregou das minhas mãos e as pestanas derriçaram-se sobre os meus olhos no sono mais profundo e mais providencial que já tivera na vida.

 

Ela berrava o que todo mundo queria dizer de tanto incomodo e aperto. Queria parar, queria parar!
Ninguém, exceto a minha mãe, costumava dar muita bola para os reclamos dela naquele tom já muito comuns a pessoa zangada como ela. Mas desta vez a pobre estava acompanhada inclusive por D. Fátima que provara por alguns quilômetros daquela sensação de ter a cabeça pendurada para frente como peça de alcatra. Iniciou-se um motim a bordo do muar! Todos falavam ao mesmo tempo, exceto eu que fingia dormir, farsante como só. De nada adiantou.

 

Então esta era a hora da vírgula. A hora da vírgula! Eu pensei fingindo mesmo que sonhava, com balãozinho de nuvem e tudo.

 

Aline reclamava a dor nas costas. Helenita uma outra dor qualquer, minha mãe me falava apontando pra minha caixinha de nada, coitada, e o meu pai fechava o senho de maneira que eu interpretei ficaríamos a caixa e eu na estrada.

 

A hora da virgula, do entrevero, do acerto de contas, chegara.
Eu desesperado, mas de olhos semi-cerrados só apontava pro meu balãozinho de nuvem sinalizando que dormia…
Mas óbvio, junto com balão, ninguém acreditava!
Era tanto o barulho que o pobre carro não conseguiu se fazer ouvido no seu lamento.
Tremeu, tremeu e estrebuchou!
Neste instante, o do estrebucho, ouviu-se o único som mais forte que aquela humanidade ouvira desde antes de entrarmos no asfalto.

 

Bum!

 

E uma enorme língua de faíscas de metal cinzelando se viu no nosso rastro.
Quando olhei pra trás o tempo parou tudo dentro do carro e só voltou em quadros. Um por um.
Fez-se um silêncio ensurdecedor. Ninguém entendeu muito bem o que estava acontecendo. Muito menos eu, que até pouco antes daquele instante, sustentava a minha farsa.

 

Quando o tempo voltou a correr, o carro já estava parado por completo, e então ouvimos a minha mãe:

 

Todos estão bem? Perguntou assustada.
Sim, sim, sim, sim. E eu, com o meu balão de nuvens nas mãos disse por último, sim.
Estava acabada a farsa. A parte detrás do carro inclinara-se no asfalto e víamos os meus pais de baixo para cima num angulo esquisito. Mas estávamos de verdade todos bem.

 

O balão com meu sonho de gibi escorregou das minhas mãos e murchou no assoalho, por sobre o meu livro, bem no vão dos meus pés.

 


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Foto-ouvinte: o tempo parou em São Paulo

Relógio parado

 

Os relógios e termômetros de rua estão abandonados há muito tempo, na cidade de São Paulo. Sem que a prefeitura resolva o problema – a licitação para decidir as empresas que vão explorar o serviço saiu recentemente -, manifestante anônimos decidiram protestar colando cartazes com os dizeres “Aqui o tempo parou”. A foto foi feita pelo ouvinte-internauta Anderson Santos e enviada pelo Twitter @pedroaugutoli