Foto-ouvinte: semáforos resistem a furacão nos EUA

 

 

O semáforo de pedestre insiste em funcionar mesmo depois de ser destroçado pela super-tempestade Sandy, semana passada, em Nova Iorque. O que o ouvinte-internauta Leandro Iwai, autor da foto, não entende é porque, no Brasil, os sinais de trânsito não resistem a mudança de temperatura. Qualquer intempérie é suficiente para tirá-los do ar causanto ainda mais problemas no tráfego das grandes cidades. Brinca-se por aqui que os semáforos são feitos de papel. A melhor explicação está no fato de que nos Estados Unidos a fiação elétrica é subterrânea e, portanto, protegida do mau tempo, enquanto nas cidades brasileiras temos um emaranhado de fios pendurados em postes e atravessando árvores que tornam o sistema frágil.

Apesar de tudo…

 

Por Julio Tannus

 

 

Adoro a cidade de São Paulo. Foi aqui que cresci, me eduquei, me formei, constitui família e hoje desfruto da cidade com todos os seus lugares, praças, shoppings, restaurantes, cinemas, teatros, livrarias, exposições e sua vida incessante. E desfruto também dos amigos, amigas, colegas e vizinhos. Assim que cheguei de Paraty, no fim dos anos 40, fui morar na Rua São Lázaro, travessa da Rua São Caetano, hoje chamada de “Rua das Noivas”, mas até então uma rua movimentadíssima, com todo tipo de comércio, além, é claro, do Cine São Caetano. Minha primeira escola, aos cinco anos de idade, foi o Recanto Infantil Jardim da Luz, do Departamento de Cultura, no Parque da Luz próximo a Estação da Luz.

 

A primeira surpresa: após alguns dias de chegada à cidade, fui com minha mãe e meu irmão caminhando pela Rua São Caetano em direção ao Parque da Luz. Ao chegar na Av.Tiradentes, em frente ao antigo Liceu de Artes e Ofícios, hoje Pinacoteca do Estado, me deparei com o monumento a Ramos de Azevedo (Ramos de Azevedo foi o centro em torno do qual gravitou o renascimento arquitetônico da cidade de São Paulo), hoje transferido para a Cidade Universitária; e exclamei em alto e bom som, nos meus cinco anos de idade: “Olha mamãe, uma mulher de peito de fora!”. Foi uma gargalhada geral. E minha mãe retrucou: “Fica quieto menino!”.

 

 

A primeira raiva: íamos – eu, pai, mãe e irmão – passear no Viaduto do Chá, aos domingos pela manhã. Era o passeio dos paulistanos. Entre os meses de abril e maio, eu e meu irmão temos a mesma idade, pois a diferença entre nós é de apenas 11 meses. E minha mãe nos vestia igualzinho, com o mesmo terno de calça curta e gravata. Então as pessoas passavam por nós e sempre ouvíamos comentários do tipo “que gracinha”, “são lindinhos”. Até que alguém nos perguntava “são gêmeos?”. E respondíamos categoricamente “não somos gêmeos”. E logo vinha outra pergunta “que idade você tem?”, eu respondia “cinco anos”. E você, dirigindo-se ao meu irmão “quantos anos você tem?”. “Cinco anos”. E aí vinha a resposta terrível “Ah! mentirosos hein?” Ficávamos possessos de raiva.

 

 

O primeiro choque: aos domingos íamos ao Cine São Caetano assistir à sessão da tarde. Até que, em um domingo de muita chuva, meu pai decidiu ficar em casa e não nos levar. Ficamos frustrados por pouco tempo, pois nos demos conta que ambos, pai e mãe, estavam compenetrados em suas leituras. Sorrateiramente, descemos as escadas e logo estávamos caminhando apressadamente em direção ao cinema. Ao chegar, o porteiro indagou o que queríamos. Respondemos: “viemos encontrar nossos pais que estão no cinema”. De imediato propiciou nossa entrada. Após algum tempo de fascínio pelo que se passava na tela, fui surpreendido e sobressaltado por uma mão forte que repentinamente me levantou da cadeira. Era meu pai, com uma expressão de angústia e raiva. Fomos levados de imediato para casa, com uma promessa de castigo por causar tanto desespero aos pais.

 

O primeiro time: flamenguista por herança de pai e de tanto ouvir “uma vez Flamengo, Flamengo até morrer” me sentia desajustado diante de tantos palmeirenses, são-paulinos, santistas, e assim por diante. Até que na celebração do IV Centenário da cidade, no dia 6 de fevereiro de 1955, o Corinthians se tornou campeão e meu time paulista do coração.

 

 

E, de 9 a 11 de julho de 1954, com a imensa participação de toda a população, que invadiram as ruas de nossa cidade, ocorreram festas maravilhosas. Entre elas me recordo nitidamente da Chuva de Prata, que Randal Juliano, pela Rádio Record, dizia: “O sentimento do paulista faz com que a cidade se locomova até o viaduto do chá. E aqui a multidão ergue os olhos para o céu, de onde caem lâminas metalizadas… Lâminas coloridas metalizadas sobre o viaduto do chá. Iluminadas por holofotes do exército, com o esplendor e luminosidade bonita. Traduzindo a alegria do povo paulista neste nove de julho, que comemorava uma derrota… Talvez tenha sido o único povo a comemorar uma derrota.” E recordo aqui o Hino do IV Centenário:

 

São Paulo, terra amada
Cidade imensa
De grandezas mil!
És tu, terra dourada,
Progresso e glória
Do meu Brasil!
Ó terra bandeirante
De quem se orgulha nossa nação,
Deste Brasil gigante
Tu és a alma e o coração!
Salve o grito do Ipiranga
Que a história consagrou
Foi em ti, ó meu São Paulo,
Que o Brasil se libertou!
O teu quarto centenário
Festejamos com amor!
Teu trabalho fecundo
Mostra ao mundo inteiro
O teu valor!
Ó linda terra de Anchieta,
Do bandeirante destemido.
Um mundo de arte e de grandeza
Em ti tem sido construído!
Tens tu as noites adornadas
Pela garoa em denso véu,
Sobre seus edifícios
Que mais parece chegarem aos céus!

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e Co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

De prosa

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Já disseram tudo. Sóis e luas em forma humana. Drummond avisou que No meio do caminho tinha uma pedra. E sempre tem. Todo grande amor só é bem grande se for triste, ameaçou Vinícius, e depois ouvi o que tinham para dizer, Cora Coralina e Cecília Meireles. Um pouco de tudo. Muito de tão poucos. Acabou que não me importa mais se o mundo está acabando, se está mudando ou só começando.

 

Hoje de manhã falei com a tia Inês, no telefone. Fazia tempo que a gente não se falava, e isso não é normal. Mas o que é normal? Deus me livre do normal. Do uniforme. De uniforme eu gostava na escola. Me vestia de estudante, era vista na rua como estudante. Era uma honra, o uniforme! Mas voltando ao papo com a minha tia, a gente falava de vida, eu da minha, e ela da dela. Falamos, falamos, filosofamos. Quando eu choro ela me afaga de longe. Minha tia não chora. Vibramos com a alegria uma da outra. Falamos menos para informar a outra do que está acontecendo, do que para nos ouvirmos traduzindo cada uma o próprio coração, às vezes nos aventurando a traduzir o da outra, que é assim que a gente fala com quem se ama. Ultimamente andamos em descompasso no ritmo das nossas vidas, ela e eu, mas nunca nos afastamos. Esteja ela numa fase macia, e eu numa rugosa, ou o contrário, nos falamos. Hoje falamos de fases muito difíceis e muito longas. Até rimos quando nos demos conta de que quando a situação está ruim ainda pode ficar muito pior, dia após dia, sem intervalo entre os atos; sem tempo para trocar os costumes. Cenas pesadas se arrastam; as leves voam. Faz sentido! vamos descobrindo ao longo do papo.

 

Agora sei que a dor não é o fim. A dor é o começo. Caiu a ficha. É poção reparadora, transformadora, necessária, como todo o resto. É o espinafre no prato do menino carnívoro, talvez. Crescer dói, todo mundo sabe, mas desta vez devemos de verdade estar crescendo muito, porque a dor tem campeado desenfreada. A resistência e ela, de mãos dadas.

 

Quanto a mim, vou continuar não pedindo nada nas minhas orações. Agradeço e ponto. De manhã, de noite e milhares de vezes durante o dia, mas de hoje em diante, só no começo, até incorporar, vou agradecer também pela dor. Assim mesmo, com ênfase na gratidão por ela.

 

não vai ser fácil
mas vou repetir
de coração
só até acostumar
ou a dor terminar
de cumprir o seu dever

 

com tudo isso me dei conta
de que fui atrás de poetas
buscando o prosaico
na poesia
e acabei encontrando poesia
no prosaico

 

Obrigada, tia!

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Marcos Proença: cabelos lisos e em várias versões são a tendência

 

Por Dora Estevam

 

 

Quem assistiu ao Domingão do Faustão, domingo passado, viu a atriz Adriana Esteves com cabelos cortados e ao seu lado o responsável pelo belo trabalho, Marcos Proença, consagrado cabeleireiro das atrizes, socialites e tops nacionais e internacionais. Na última semana, Proença também foi responsável por pelo menos 30 cabelos de mulheres que passaram pelo salão dele para se arrumar para o casamento da it blogueira Lalá Rudge. Um dos desafios foi não repetir um só corte ou penteado. Saiu do salão super tarde e mesmo assim ainda foi prestigiar o casamento da amiga, no qual, com a permissão dela, fez várias fotos dos convidados deste que foi um dos casamentos mais chiques da cidade. Para ter uma ideia de como foi a badalação no dia, veja as imagens deste vídeo feitas pela blogueira e amiga de Proença, Mica Rocha.

 

 

Esta semana, considerada fashion em SP, por conta dos eventos que aproveitaram o SPFW para fazerem lançamentos na mesma data, o salão de Proença recebeu várias visitas. Estiveram lá, por exemplo, as tops blogueiras Chiara Ferragni do The Blond e Jessica Stein, do @Tuulavintage.

 

Eu, que não sou famosa, morrendo de curiosidade, tive o prazer de ser atendida pessoalmente por ele. O que eu posso dizer é que Proença é extremamente profissional e er humano incrível, fiquei apaixonada. Ele conquista pelas tesouras e pelas palavras, voz baixa e eternamente agradecido, consegue aliar doçura e profissionalismo. Chamou-me atenção a religiosidade. Com frequência, agradece a Deus por todas as conquistas.

 

No salão cheio, Proença consegue fazer as cabeças, andar de um lado para o outro, visitar cada cliente em suas bancadas, dar beijinhos nas clientes de passagens, sem cair na tentação de bater papo furado. É simples assim. E a cada momento de reencontro as perguntas são voltadas aos serviços do salão: “Ficou lindo, quem fez”? supervisionando os trabalhos sutilmente.

 

 

Marcos Proença montou o salão dos sonhos, totalmente ambientado em uma casa no Jardim Paulistano, com arquitetura e decoração de Ester Giobbi, um projeto eco-friendly, totalmente desenvolvido para economizar água e energia. Com seis mil clientes ativas, pode imaginar a despesa.

 

Com tudo isso, ele ainda atendeu ao meu pedido e respondeu algumas perguntas com relação ao futuro da beleza, já que acabamos de ver as tendências para o inverno 2013, apresentadas esta semana no SPFW.

 

Quais são as tendências para o outono-inverno 2013?

 

Proença: O que podemos observar nos desfiles internacionais e mais recentemente na semana de moda de São Paulo, são os cabelos lisos, chapados. Ele pode aparecer em várias versões, com volume, rabo de cavalo, composto com trança, mas sempre muito liso.

 

Os estilistas determinam como vai ser a aparência das mulheres em cada temporada?


 

Proença: Acho que tudo é uma junção, o que se vê na passarela, o que acontece no mundo atual, tudo é uma mescla de tendências da moda, beleza, rua…

 


Quanto tempo pode durar um estilo de penteado?

 

Proença: Geralmente eles duram por toda uma temporada, no decorrer dos meses eles sofrem alterações e às vezes ganham estilos diferentes.

 

Quais são os produtos que não podem faltar para a preparação de um cabelo?

 

Proença: Gosto sempre de usar o Volumax da Paul Mitchel.

 

Como você se reinventa e qual foi o momento mais importante da sua carreira?


 

Proença: Procuro estar sempre atualizado de tudo que acontece no mundo. Acho que é uma forma de sempre se reinventar, de estar atento a tudo. Todos os momentos são muito importantes na minha carreira, desde o inicio, quando fiz meu primeiro make na minha tia inspirado na novela Locomotiva, até o momento que abri meu próprio salão, um sonho realizado.

 

Há um estilo que deva ser seguido?


 

Proença: Acho que toda mulher tem que sempre apostar no estilo que fica bem para ela. Acompanhar as tendências é importante, mas deve aplicá-las em sua vida de acordo com a sua personalidade.

 


Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda no Blog do Mílton Jung, aos sábados

A viagem (arrumando o bagageiro)

 

Por Sérgio Mendes

 

Estava tudo certo e nem faltava mais descobrir o caminho. Ele se formava na nossa frente com as estradas abertas décadas atrás. Não sei muito bem como se fazia naquele tempo sem um GPS, mas o meu pai não parecia preocupado com caminhos e se ele não se preocupava, não nos preocuparíamos nós! Chegaríamos em quatro dias porque ele seria o único a dirigir na estrada, e decidimos que pararíamos todas as noites para dormir, seguindo a viagem somente com a luz do dia.

 

Este era o plano.

 

Por que será que a prática sempre teima em não ler os planos que a gente faz? 
Eu já nem pensava mais naquela fechadura, meu café fez efeito e ao que parece era só nivelar a glicose para a completa recuperação dos neurônios e eles venceriam a batalha. Venceram!?!
O que não significava que ela não estivesse lá, e mal grudada na porta da nossa máquina de chegar em casa. Significava apenas que algum lugar do meu cérebro resolveu não pensar mais nela. De quieto que estava permaneci e não comentei sobre o acontecido com ninguém. Nunca fui mesmo dado a boatos e não seria justo naquele dia que começaria!

 

Vejam que nem deu o tempo de um café com pão e a sensatez já tinha rumado para longe de mim outra vez.
Quando voltei pra nossa casa o cenário era outro. Todos já estavam de pé lavando o rosto ou procurando o que não queriam esquecer de levar. O meu pai entre uma coisa e outra me pediu que ajudasse a minha mãe a arrumar as malas no bagageiro. Partiríamos logo depois que os demais tivessem tomado café.
Imaginei o trailer de um filme comigo acomodando-as uma a uma bem juntinhas, como se elas e porta-malas tivessem sido feitos um a silhueta das outras. Hum!

 

Helenita, a irmã mais nova de minha mãe chegou logo em seguida, trazendo seu pequeno farnel de roupas. Ela também era uma dos mosqueteiros e iria com a gente morar no Mato Grosso. Já sabíamos disso, mas eu não entendia o motivo. Ela sempre foi muito chegada a nós, até pela diferença de idade que a separava de suas irmãs. Nós estudamos juntos na quarta série e com Raimundo, o mais novo de todos e terceiro mosqueteiro, éramos como se fossemos irmãos ou primos.

 

Ela vir conosco não tinha uma explicação que soubéssemos, mas tinha a anuência de todos nós os pequenos que simplesmente delirávamos com ela perto outra vez.

 

Depois dela, uma a uma as malas foram aparecendo e logo eu estava cercado por um mar de sem rodinhas, mais sacolas e outras quinquilharias. Cada uma embrulhada por uma recomendação de seu proprietário.
Seguido ao falatório, mal acabavam de me entregar e partiam rumo à cozinha de vovó.

 

Recado dado, me vi o único naquela casa e com todas aquelas trouxas percebi que não ajudaria ninguém, seria ninguém quem me ajudaria.

 

Nunca subestime a capacidade que temos de acumular tranqueiras.
Restava então levá-las até o carro parado lá fora.

 

Nem precisei de muito tempo pra perceber que lá não caberiam todas. O povo superestimou o espaço na cangalha do pangaré e afora as roupas, sapatos e demais adereços pessoais que facilmente caberiam em duas malas generosas, inventaram de levar uma infinidade de sacos e outras coisas que eu nem desconfiava de onde pululavam, mas entendi que o recado era que pretendiam que todas chegassem no Mato Grosso. E o portador, o carro amarelo ali na frente. 

 

Completa falta de cabimento!

 

Um verdadeiro despropósito, mas por que eu tinha feito outros planos para ocupar boa parte do espaço no porta-malas com coisa muito mais importante do que aquele monte de sacos cheios até a boca do que eu não fazia a menor idéia! E como eu era o único que já tomara café e a incumbência das malas ficou mesmo foi por minha conta e risco, resolvi que a conta delas era grande demais e o risco só de quem as entregou a mim. Eu estava ali sozinho e agora era o rei daqueles pacotes.

 

Por meus planos muito mais importantes, desconfiei que alguns deles não iriam. Seguramente ninguém daria por falta e uma meia dúzia foi parar nos fundos da casa onde nunca foram encontrados. Pelo menos não que eu tenha ficado sabendo.

 

Creiam, não fazia isso pensando no conforto de nós viajantes montados no burro fugido. Muito menos imaginei em aliviar o peso que o pobre carregaria.
Não, não! A minha conta era outra.

 

Desde que cheguei para aqueles dias de férias, tinha o firme propósito de que meu teclado viria conosco e eu costumava ser fiel aos meus propósitos. Ainda que parecesse que eu teria que deixa-lo e que estivesse disposto a comprar briga pra que ele fosse, ele não caberia no porta-malas.
Mas adivinhem?!?

 

Ele foi.  E o entrevero realmente aconteceu mais tarde, pois nem desafiando as leis da física aquilo caberia dentro do bagageiro. Como eu disse, ali não tinha cabimento suficiente.
Dito e feito. E a briga foi das boas! Mas foi brigada quando já não dava mais pra se desfazer dele como veremos mais adiante.

 

Bem, do devaneio e adivinhações à ação. Logo eu estava socando pacotes e malas que não pude esconder no fundo do quintal. A cada uma que eu conseguia acomodar no bagageiro, as chances para o meu teclado diminuíam e no fim a única maneira de ele ir seria dentro da cabina junto conosco, onde já não entraria mais nem um pensamento.

 

Aperta daqui e de lá, sobre o banco ou no vão das pernas? Em nenhum lugar aquele lindo trambolho parecia se encaixar. Não sem que dois de nós seguisse sem as pernas ou sem a cabeça.

 

Foi então que usando a minha sempre precisa régua imaginária calculei que entre amputar dos viajantes uma parte ou outra, havia uma brecha e foi essa mesma que aproveitei. É que apesar de pequenos, nós que viajaríamos atrás já não nos acomodaríamos bem sem aquela caixa que sozinha tomava quase dois terços do banco. Então coloquei a régua para funcionar e consegui a proeza de um cálculo que possibilitou o piano de foles viajar bem perto de nós. Mas não sem um quê a mais de desconforto, claro.

 

Que ideia tosca a de acomodar-se bem!

 

Definitivamente cabeças rolariam. Só de leve é certo, mas teriam que rolar. 
Não importa! Coloquei-a ali mesmo. E com isso de uma vez, eu o rei decretei que dois de nós poderia manter a cabeça na viagem, mas ela deveria inclinar-se levemente para frente e o meu pai perderia a visão do espelho retrovisor. E tenho dito! 

 

Total, acomodar-se já era coisa que não aconteceria naqueles dias.
Antes de todo mundo fui eu quem tive o vislumbre dos acontecimentos nos próximos capítulos, naquela primeira sensação de dentes mastigando chicletes quando abri a porta, que de verdade tinha se transformado na resignação do que estava por vir.

 

Fazer o quê? A vida é assim mesmo, não é?
E ademais, ficar olhando para trás nem é tão bom. Eu tinha que garantir o futuro de um grande músico para o Brasil, com o meu teclado que precisava antes disso conhecê-lo junto comigo, mesmo à custa de uns poucos dias de desconforto divididos por todos nós.

 

Mas apesar de todo cálculo e aritmética de bagageiros que eu aprendi em algum filme, ali também o trambolho resultou apertado e como disse, de certa forma tirava a visão do retrovisor. Só que eu estava decidido, tinha um propósito e não o abandonaria como era de meu costume. Mesmo que as minhas irmãs protestassem aquele seria o lugar dele e ponto final! (vírgula só se fosse o meu pai quem objetasse).

 

Estava terminada a novela das malas! Eu o rei, decretei.

 

O momento depois delas propiciava o registro das caras e reações, ainda que a excitação nos turvasse a todos o juízo sempre escasso a aventureiros diante de dias como os que se formavam bem na nossa frente.
Recordo-me pouco e na verdade o que tenho são recortes de rostos e algumas reações características mais comuns de cada um.

 

Meus pais estavam brigados. Não lembro bem por que, mas devia ser pelo mesmo motivo de sempre. Helenita apreensiva com a saída de casa, mas da reação dela a aquela novidade eu também me recordo muito pouco. Acredito que no fundo ela estava contente em vir conosco. Certamente nós estávamos.
Não demorou muito e um por um, voltaram abastecidos e rebustecidos da casa de vovó sem desconfiar que parte das encomendas que me encarregaram foram para detrás, mas detrás da casa. Eu costumava mesmo ter sorte naquele tempo!

 

 Parece que voltaram só para se despedir do nosso canto e sem olhar para o carro e para aquela coisa enorme no console traseiro, faziam o mesmo caminho de volta  para despedirem-se dos nossos avós.
Tamanha a emoção, ninguém se deu conta da caixa. 

 

Cercaram os dois velhinhos em pé frente ao portão, enquanto eles distribuíam as bênçãos e palavras de carinho. Eu tinha outra vez ficado por último, encarregado de conduzir o carro de onde ele estava até lá. Todos já se abraçavam e riam disfarçando a comoção da partida.

 

Dali de dentro e aplicando conhecimento de manobrar aprendido com meus tios, pude ver a turma toda e esta é uma imagem congelada que guardo daquele dia. Fiz jus à lição aprendida. Engatei o carro sem tirar o pé da embreagem e sem mudar da primeira marcha fui chegando perto da pequena multidão devagar e sem assustar ninguém.

 

Outra vez o carro assumiu ares de F1.

 

Saí e fui como todos abraçar meus queridos avós que me olhavam como se soubessem de tudo. A despedida era um roteiro escrito pra mim!

 

Cheguei até eles enquanto o restante dos aventureiros se posicionava, cada um no seu lugar. Minha mãe e meu pai na frente, e as meninas perfiladas no banco de trás por primeira vez esbarravam os cocurutos na caixa ali no alto. Me fiz de desentendido e nem lhes dei atenção, mas preocupado não me lembro mais do que disseram meus dois queridos anciãos ao me abraçar. E o único recordo deles naquele dia é o que fotografei na memória, lá dentro do carro ainda antes de provar minha habilidade na direção.

 

Eu nem desconfiei que aquela seria a última vez que os veria.
Com as cabeças inclinadas e sem dar um piu, nós detrás nos pegamos apertados, unidos como nunca estivemos. O clima denso no carro só foi quebrado pelo resmungar da minha irmã mais nova irritada com o desconforto.

 

Sem dar muita bola pra ela que era dada a resmungar de tudo, continuamos todos unidos e contritos.
Fecharam-se as portas e partimos.

 

Ps: A fechadura até aqui comportava-se como se nosso encontro não tivesse passado de um devaneio de fome. Ela ainda cedeu a abrir e fechar-se duas vezes para outros sem que se ouvisse palavra. Mas eu sentia um cheiro de menta no ar.

Leia o texto “O corcel” de Sérgio Mendes publicado no Blog do Mílton Jung

Onde Estamos?

 

Por Julio Tannus

 

Um novo conceito de consumo

 

 
Deixou de ser “um modo passivo de absorção e de apropriação de bens e serviços, com a finalidade de preencher necessidades” para se constituir numa “atividade sistemática na qual se funda todo o sistema cultural contemporâneo”.

 

Uma nova ordem foi estabelecida: a precedência do consumo sobre a acumulação. Um sintoma dessa precedência: muitas vezes compra-se primeiro para depois resgatar o compromisso pelo trabalho.

 

Mudanças mais significativas na oferta:

 

Novos produtos e serviços
Conceito de “serviço” na venda de produtos
Novos meios de comunicação
Novos mercados a partir de novas tecnologias
Globalização – abertura e diversificação
Redução do papel dos Estados na economia
Incremento nos níveis de competitividade entre produtos e serviços
Surgimento dos Mercados Comuns

 

Um novo consumidor

 

As mudanças mais significativas no consumidor:
Maior consciência do poder de compra
Maior consciência de seus direitos
Maior nível de exigência e redução dos limites de tolerância
Maior nível de informação sobre o mercado de oferta
Maior individualidade – mercados cada vez mais segmentados
Surgimento de novos mercados (terceira idade, baixa renda)
Incorporação do conceito de “serviço” na compra de produtos
Preocupação crescente com a relação preço-valor
Preocupação ecológica
Redução do tempo disponível
Consumo compulsivo

 

O sistema de consumo atual

 

E não poderia deixar de citar o filósofo Jean Baudrillard em seu livro O Sistema dos Objetos:

Não há limites ao consumo. Se fosse ele aquilo que consideramos ingenuamente: uma absorção, uma devoração, deveria se chegar a uma saturação. Se dissesse respeito à ordem das necessidades, deveria se encaminhar a uma satisfação. Ora, sabemos que não é nada disso: deseja-se consumir cada vez mais. Esta compulsão de consumo não se deve a alguma fatalidade psicológica (o que o berço dá, a tumba leva, etc.) nem a uma simples coerção de prestígio. Se o consumo parece irreprimível, é justamente porque constitui uma prática idealista total que nada mais tem a ver (além de um certo limiar) nem com a satisfação de necessidades nem com o princípio de realidade. É que ela se acha dinamizada pelo projeto sempre frustrado e subentendido no objeto. O projeto imediatizado no signo transfere sua dinâmica existencial para a posse sistemática e indefinida de objetos/signos de consumo. Esta doravante somente pode ultrapassar-se ou reiterar-se continuamente para permanecer aquilo que é: uma razão de viver… Finalmente, é porque se funda sobre uma “ausência” que o consumo vem a ser irreprimível.

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada, co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier) e escreve no Blog do Mílton Jung às terças-feiras.

De imereceres

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Tem vezes que me encanto
com a vida e seus encantos
noutras choro a cada hora
me derreto em cada canto

 

nada é como a gente quer
um dia isto noutro aquilo
e vice-versa se você quiser

 

pego a direita hoje
a esquerda na parte da manhã
provo daqui
me queimo ali
tem dia que me sinto homem
tem outro que sou plena mulher
porque nada é de um jeito só
ou do jeito que a gente quer

 

há mundos há fundos
na mente que mente
no coração que sente

 

ele torce
ela distorce
ou vice-versa
se é assim que você quer
um pega o garfo
quando o outro se serve da colher

 

cada um tem o que merece
repito o que sempre disse meu pai
mas não sei não se acredito
nesse tal de merecer
de crime e castigo duvido
vivo dentro e fora
corro atrás de mim

 

deixo o não-dito pelo dito
seja ele bem dito ou mal
afinal sou eu a leiga
mas quem é que é erudito
?
pinto e bordo
aprendo na boa ou não
mas agradeço pelo assim e pelo assado também
que se não se tem tudo o que se quer

 

um dia chega
um dia passa
tanto já passou e passará
sempre
como
se
e quando der

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

SPFW aquece a semana em SP

 

Por Dora Estevam

 

Tudo pronto para dar início aos desfiles das coleções de inverno para o próximo ano, 2013.
Assim como os estilistas estão correndo para dar o retoque final nas coleções as agências de modelos também estão na loucura confirmando as tops que vão desfilar nesta edição. Algumas das muitas que já têm nome certo na passarela: Alicia Kuczman, da Way; Aloine Weber, da Ford; Izabel Goular, Mega Model; Bruna Tenório da Ford Model, entre outras maravilhosas.

 

 

Antes de falar sobre as mudanças ocorridas no evento, eu quero mostrar vídeo realizado pela empresa Luminosidade, do próprio Paulo Borges, sobre a movimentação em torno do SPFW, nos últimos anos, que ele preside. É um balanço do que ocorreu por lá. É só dar play no vídeo!

 

Inside Sao Paulo Fashion Week / SPFW- official content from luminosidade on Vimeo.

 

Esta edição vem com algumas mudanças, a começar pelo local do evento; antes Ibirapuera, na zona Sul, agora Parque Villa-Lobos, na zona Oeste. O prédio da Bienal está ocupado pela própria Bienal de São Paulo e ao migrar para outra região, o SPFW leva o tema “Garden Party”, que celebra o novo momento da moda brasileira com uma festa em um jardim.

 

Outubro e Novembro (inverno) e Março e Abril (verão), as datas foram solicitadas e resolvidas em comum acordo com os estilistas e administradores do SPFW: “somos um grande sistema que trabalha de forma integrada para que todos ganhem. A revisão das datas vai permitir um planejamento mais adequado para todos”, diz Paulo Borges, a propósito da decisão sobre o calendário de desfiles.

 

Ao que tudo indica a ideia é aperfeiçoar o intervalo entre o lançamento e a entrega para o varejo. O que a imprensa especializada em moda vai ver e clicar os consumidores poderá comprar em março de 2013.

 

Dentro do Parque foram montadas duas tendas no espaço Mirante, o cenógrafo e artista multimídia Felipe Morozini se inspirou na beleza das grandes estufas de plantas para compor o ambiente. “Gosto de pensar que na estufa germinam e crescem novas vidas, novas ideias, como o momento atual da moda brasileira”, diz Morozini.

 

Alguns estilistas preferiram suas locações externas, caso da marca Osklen, que está marcada para abrir o evento, apenas 70 convidados poderão assistir ao lançamento dele. O estilista Reinaldo Lourenço escolheu a FAAP para ambientar a coleção nova, o desfile será no dia primeiro de novembro. A coleção da estilista Fernanda Yamamoto será apresentada à imprensa através de um vídeo. Anote os endereços das locações externas que esta logo abaixo:

 

Osklen – Galeria Zipper – Rua Estados Unidos, 1494 – Jardim Paulista

Gloria Coelho – Casa Eletrolux – Rua Colômbia, 157 – Jardim América

Reinaldo Lourenço – Teatro FAAP – Rua Alagoas, 903 – Higienópolis

 

Anote o line-up na sua agenda para ver a sua marca predileta. O site Fashion Forward vai transmitir todos os defiles através do canal de vídeos deles.

 

29.10 – Segunda-feira


 

12h00 Osklen

15h00 Ronaldo Fraga

16h00 Têca por Helô Rocha

17h30 FH por Fause Haten

19h00 Tufi Duek

20h00 Triton

21h00 Ellus

 

30.10 – Terça-feira


 

16h00 João Pimenta

17h30 Uma Raquel Davidowicz

19h00 Samuel Cirnansck

20h30 Lino Villaventura

21h30 Colcci

 

31.10 – Quarta-feira

 


11h30 Gloria Coelho

16h00 Alexandre Herchcovitch

17h30 Maria Garcia

19h00 Vitorino Campos

20h15 R.Rosner

21h30 Forum

 

01.11 – Quinta-feira


 

12h00 Reinaldo Lourenço

Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda no Blog do Mílton Jung, aos sábados

Para onde vamos?

 

Por Julio Tannus

 

Monteiro Lobato fez parte de minha infância e de toda uma geração de crianças. Em nenhum momento fui impelido a qualquer tipo de preconceito. A revista Época, em novembro de 2011, publicou um texto de Celso Masson, Humberto Maia Junior e Rodrigo Turrer: “Como qualquer fábula, as de Monteiro Lobato (1882-1948) apresentam seres encantados, bichos falantes e situações inverossímeis. Foram escritas para despertar na criança o gosto pela leitura e fecundar a imaginação. Desde a década de 1920, as histórias do criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo têm sido adotadas nas escolas públicas de todo o país. Agora, o Conselho Nacional de Educação acolheu uma acusação de racismo contra uma dessas fábulas e pode bani-la das salas de aula por, de acordo com essa acusação, não “se coadunar com as políticas públicas para uma educação antirracista”. Ficar sem Monteiro Lobato é evidentemente ruim para as crianças – mas proibi-lo é pior ainda para o Brasil”.

 

Friedrich Nietzsche foi considerado, pela Alemanha nazista, um autor nazista por suas considerações sobre o ser humano. Isto não quer dizer que o autor tenha sido nazista. Ao contrário, o professor Osvaldo Giacóia-Júnior, um dos autores brasileiros com excelente capacidade de interpretação da obra de Nietzsche, apresenta algumas considerações sobre Nietzsche e o Nazismo: “Nem mesmo entre os críticos da obra de Nietzsche, em sentido acadêmico, utilizam o falso argumento de que o filósofo sustenta o Nazismo. Há sim, evidentemente, as apropriações que o Nazismo fez da obra de Nietzsche, o que de nada representa ao filósofo”.

 

Cotas raciais nas universidades brasileiras. Por que ao invés do investimento público para estabelecimento de cotas, não investir na educação pública básica propiciando um nível adequado de educação as camadas pobres da população? Para a antropóloga da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Yvonne Maggie, tais projetos não promoverão a inclusão nem resolverão as desigualdades que existem no país: “Sabemos que a sociedade é dividida em classes e é aí que reside a fonte de toda a desigualdade. O Brasil optou por um sistema econômico altamente concentrador de renda. Sem lutar contra isso, sem lutar pela igualdade de direitos e pelos direitos universais não há como construir uma sociedade mais igualitária e justa”. A professora explica que é contra a proposta de cotas raciais nas universidades porque ela produz divisões perigosas: “Essa política exige que o cidadão se defina perante o Estado segundo sua ‘raça’ ou sua origem. Sabemos que toda vez que o Estado se imiscuiu nos assuntos de identidade dos indivíduos, obrigando-os a se definirem, o resultado foi a produção da violência.”

 

Manifesto “Todos têm direitos iguais na República”, assinado por 114 intelectuais e artistas contrários à aprovação da Lei de Cotas e do Estatuto da Igualdade Racial: “Políticas dirigidas a grupos ‘raciais’ estanques em nome da justiça social não eliminam o racismo e podem até mesmo produzir o efeito contrário, dando respaldo legal ao conceito de raça e possibilitando o acirramento do conflito e da intolerância. O principal caminho para o combate à exclusão social é a construção de serviços públicos universais de qualidade nos setores de educação, saúde e Previdência, em especial a criação de empregos”.

 

Thomas Mann, escritor alemão cuja mãe, Julia Mann, nasceu em Paraty no final do século 19, onde seu pai (avô de Thomas Mann) era fazendeiro, nasceu na Alemanha porque seu avô, desgostoso por estar sendo pressionado por alguns fazendeiros da região que eram contra a abolição da escravatura, voltou para sua terra natal. Isto não quer dizer que os fazendeiros do século 20 sejam escravocatras.

 

E Hannah Arendt nos diz: “a cultura se encontra ameaçada quando todos os objetos do mundo produzidos atualmente ou no passado são tratados unicamente como funções dos processos sociais vitais – como se não tivessem outra razão a não ser a satisfação de alguma necessidade – e não importa se as necessidades em questão são refinadas ou básicas”.

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada, co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier) e escreve às terças-feiras no Blog do Mílton Jung