Por que falar é viver

 


Por Nei Alberto Pies
Ouvinte-internauta do Jornal da CBN

 

“A quem mais amamos, menos sabemos falar” (Provérbio inglês)

 

Todo tipo e forma de discriminação, além de ser um problema pessoal de quem os sofre, é também um problema social. A gagueira, como outros tantos limites humanos, deixa marcas e imprime jeitos de resistir para sobreviver socialmente. Como eu, pelo menos 1.700.000 pessoas em todo o nosso país apresenta algum grau de gagueira na sua comunicação, conforme dados do Instituto Brasileiro de Fluência. A gagueira ganhou também um dia internacional: dia 22 de outubro.

 

A fala é o meio mais eficaz e mais utilizado para a nossa comunicação e interação social, porém não a única. Esta é a maior descoberta para alcançarmos reconhecimento social, através da comunicação. Se não falamos fluentemente ou temos algum grau de timidez, arranjamos jeitos de ser reconhecidos e valorizados socialmente por alguma outra habilidade ou virtude. Se não somos “experts” na fala, podemos ser bons na escrita, no canto, na representação, no estudo, na convivência ou nas relações. A qualidade da nossa comunicação depende da interação de todos, inclusive do apoio e compreensão que temos de dar àqueles que sofrem para se comunicar.

 

O ser humano é especialista na arte de compensar. Sem compensar não sobreviveria, porque se não é possível ser bom em tudo, é necessário ser bom e útil em alguma coisa. Por isso a gente se faz “agarrando-se” ao que tem de bom, àquilo que tem facilidade e àquilo que nos renda reconhecimento dos outros. A gente inventa e re-inventa jeitos e trejeitos para ser querido, amado e promovido pelos outros. O reconhecimento social é uma das maiores necessidades humanas, pois ninguém sobrevive se não comprovar para si mesmo o quanto é útil, importante, querido e estimado pelos outros.

 

O resgate da auto-estima e a auto-aceitação são preponderantes para a cura ou convivência com a gagueira. A gagueira é influenciada por fatores neurobiológicos ou emocionais. Conhecer-se, estudar o seu problema, procurar auxílio e terapias, aumenta as possibilidades de conviver socialmente, sem maiores traumas. É fundamental, ainda, assumir publicamente os limites da fala e da comunicação sempre que se puder. Assumir os limites da fala propicia discernimento e tranqüilidade interior para lidar com os desafios de se comunicar melhor. Quem fala se liberta!

 

Falar é a forma mais concreta de nos apresentar ao mundo. Por isso mesmo, falar pressupõe primeiro aceitar-se como se é para depois buscar o reconhecimento junto aos outros. A felicidade de “seres humanos falantes” alicerça-se tanto nos fracassos e limites como nos êxitos e nas conquistas, pessoais e coletivos. Uma boa convivência social pressupõe a aceitação de todos os limites humanos e a superação de todas as formas de discriminação.

De mudança de vento

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Grande parte do tempo percebo pelo menos dois estratos de realidade. O que parece nascer de dentro e o que eu poderia jurar que vem de fora. Pulso em todas as latitudes e longitudes, é verdade, mas não alcanço tantas nuances. Sinto no escuro. Entrego à minha essência boa porção do meu ego, mergulho no roteiro e acredito na trama. Ou não. Sinto-me carimbada por eventos que se originam num ponto onde moram presente, passado e futuro. Pulso na herança genética e na dosagem de cada ingrediente da minha receita. Minha pele se expressa, e meus olhos confessam.

 

meu sangue corre
e tropeça em obstáculo
feito de tudo que comi
pensei
falei
bebi
senti
ouvi
vivi
vi

 

É viciante, contorcer-se para se adaptar ao reino do Senhor do Tempo, onde regem em triunvirato presente, passado e futuro.

 

será desviver
?
prova perdida
no aceno de largada

 

resistir ao conviver
?

 

É possível ficar menos e ao mesmo tempo mais resistente, se me entende. Menos espaço, mais gente; mais violência, menos compaixão. Acreditei que vivia um tempo de cada vez. Hoje posso adaptar o colorido do passado ao formato e disposição do destino desenhado. Escolho quem retoca o som, a cor e a imagem da tela do meu tempo, e vou em frente.

 

Sou cara e sou coroa, sou verso e reverso, côncavo e convexo. Lady e vagabundo, bela a fera. Ser e não-ser.

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Parque Villa Lobos será cenário do SPFW

 

Por Dora Estevam

 

 

A temporada de inverno 2013 será apresentada em apenas quatro dias, de 29 de outubro a 1º de novembro, no mirante do Parque Villa Lobos, zona oeste de São Paulo, em um cenário inspirado em estufas de plantas, idealizado pelo artista plástico Felipe Morozini. As mudanças do calendário e do tempo de desfiles fazem parte do momento de transição do SPFW.

 

Algumas grifes que tradicionalmente integram o line-up do evento vão apresentar as coleções de maneira pouco diferente das que estamos acostumados, através de vídeos ou exposições de fotografias. Neon, Fernanda Yamamoto e Paula Raia aderiram ao novo estilo de apresentação.

 

Como sempre tem muitas novidades em torno das marcas, a começar com o retorno da Maria Garcia, na programação dos desfiles, após um tempo de três anos, desde 2010. Segundo a diretora criativa, Clô Orozco, a marca está mais madura e mais comercial, a coleção está completa e pronta para alcançar muitas clientes, vender muito.

 

Vamos matar a curiosidade logo e ver quem desfila e quando:

 

Segunda-feira, 29 de outubro

 

12h Osklen
15h Têca por Helô Rocha
16h Ronaldo Fraga
17h30 FH por Fause Haten
19h Tufi Duek (foto)
20h Triton
21h Ellus

 

Terça-feira, 30 de outubro

 

16h João Pimenta
17h30 Uma Raquel Davidowicz
19h Samuel Cirnansck
20h30 Lino Villaventura
21h30 Colcci

 

Quarta-feira, 31 de outubro

 

11h30 Gloria Coelho
16h Alexandre Herchcovitch
17h30 Maria Garcia
19h R. Rosner
20h15 Vitorino Campos
21h30 Forum

 

Quinta-feira, 1º de novembro

 

11h Reinaldo Lourenço

 

Lembrando que o evento é destinado à mídia que cobre moda e a convidadas especiais. Não é aberto ao público.

 

Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda no Blog do Mílton Jung, aos sábados.

O carro

 

Sérgio Mendes é companheiro de Adote um Vereador, apóia o Movimento Voto Consciente, dá aula de inglês e passa sempre a impressão de que está de bem com os amigos. Não bastassem todas estes predicados, ainda escreve contos sobre sua vida e os deixa guardados no computador, máquina que ele também sabe mexer como poucos. Resolvi provocá-lo e ele aceitou a ideia de ceder alguns textos para o blog. O primeiro, publico hoje. Os demais, vamos ter de pedir para ele.

 

Bom proveito !

 

Causa de problema muito comum aos metais nas cidades do litoral, a maresia não perdoa. E um carro velho sempre tem aqueles grilos escondidos que ainda que bem escondidos, revelam-se qual orquestra de pífanos depois que o carro velho imprime algum movimento. Um grilinho até a gente deixa passar se o assunto é o sonho dourado de possuir um carro. Mesmo velho e com grilos falantes, a gente perdoa. Só que carros que envelhecem em cidades do litoral, não tem assim digamos, grilos. São uns besouros aqueles nhec, nhec….!

 

Estava se formando o cenário da nossa odisséia cruzando o Brasil. E nhec, nhec seria a trilha sonora. O diacho do carro não tinha um toca-fitas sequer.Mas também, não tínhamos fitas.

 

Fazia algumas semanas que estávamos em Picos outra vez. Eram as férias. De fato fim delas e precisávamos voltar. Minha mãe até já tinha planejado algumas vezes comprar um carro pra nós, ha anos nunca mais tivemos um. O problema é que eram daqueles planos que a gente faz sem pensar na parte prática da coisa. Os tempos eram outros, carro era coisa cara de se compra e ela tinha três filhos. A prioridade certamente não seria aquela. Pra completar o quadro, na cidade pra onde nos mudamos, todo mundo usava bicicleta e conosco em casa não era diferente.

 

‘Vejamos como vai ser’ era o que ela devia pensar.

 

Nós os meninos não tínhamos acesso a discussões muito sérias e carro era a típica conversa de adultos. Não podíamos, mas também nenhum de nós estava tão interessado assim.

 

O comando,‘menino sai pra lá’, também já tinha selado que não participaríamos daquele tema e por isso minha aguçada memória não registrou nada do que antecedeu aquela compra. O que eu sei e que creio que era o que acontecia então, é o que uma amiga pontuou numa situação semelhante:

 

‘Carro é sempre assim, a classe média pira!

 

Mas voltando pra onde parei, ele chegou!
E vinha de uma cidade do litoral, Fortaleza.
Era um belo Corcel II cor…, acho que era amarelo mas também puxava pra um bege. Ta bom vai, a cor era a mesminha da de um burro pálido fugido!

 

Acordei bem cedo como de costume e como de costume ninguém mais estava com os olhos nesse mundo a aquelas horas. Fui logo na cozinha beber água pra refrescar e procurar alguma coisa que pudesse matar a fome antes que ela me matasse.

 

Mal entrei e na mesa encontrei aquele chaveiro e sua chave encantada!
WoW!!! Ele chegou! Nosso carro chegou!
Corri pra fora e lá estava.
Eu não o tinha visto chegar, só sei que naquela manhã ele estava ali na minha frente. Lindo e cor de burro fugido, parado na frente de casa. E como se ele também tivesse acordado naquele instante, me chamava para um passeio matinal!

 

Esqueci da fome mas me lembro exatamente daquela sensação incrível de ser o todo poderoso dono de um carro e poder dar-lhe ordens de me levar para onde eu quisesse ir!

 

De tão confiante, voltei pra casa e peguei as chaves sobre a mesa. Até parecia que eu sabia ou podia dirigir.
Meus pais como todos, ainda estavam dormindo. Na noite anterior o meu pai tinha saído para uma volta pela cidade. Foi encontrar com os amigos e voltou, também como era de costume muito tarde ainda que ele soubesse, no dia seguinte viajaríamos rumo a nossa aventura inesquecível.

 

Paciência! A vida é assim mesmo.

 

Peguei as chaves como disse e fui dar uma olhada naquela belezura. Tentei abrir a porta do lado certo, o do motorista. Eu estava disposto inclusive a fazer o motor roncar! Recordei perfeitamente da lição em que um tio me ensinou que com a marcha em ponto morto o carro não pula na partida. Pronto, era tudo que eu precisava para guiar aquele corcel de vários cavalos. Aquilo sim era um super cavalo, era um Corcel II! Cor de burro, mas burro puro sangue eu cria!

 

Infelizmente ou felizmente não foi possível abrir o bicho por aquele lado. No lapso de tempo de tentar abrir, a sensatez que nunca havia sido o meu forte, me sussurrou que dar a partida não seria uma boa idéia.
De pronto refreei o impulso de piloto e dei a volta para abrir a porta do outro lado, aquele que segundo a sensatez, minha amiga pouco presente, seria o mais apropriado pra mim. Enfiei a chave e girei descuidado esperando que a porta abrisse. Senti um click e ela abriu.

 

Oba, pensei.

 

Ato contínuo fiz menção de retirar a chave como seria natural e como também natural em carros velhos de cidades litorâneas, a ferrugem tinha feito a sua parte. A chave trouxe junto com ela a fechadura. Não me lembro se me espantei. Era como se meu inconsciente estivesse disposto a não registrar nada daquilo para não quebrar o encantamento de estar do lado daquele possante só meu. Mas não teve jeito. O fato era concreto demais! Dei uma boa olhada naquele buraco e percebi que ele cheirava a menta. Duas fungadas desconfiadas e identifiquei que o cheiro era menta, mas não da folha que eu conhecia do jardim de vovó. Aquele cheiro era de goma de mascar. Sim senhor! Chiclete-bola Plóc!!! Esse sujeito eu também conhecia e realmente era ele quem estava ali. A fechadura estava grudada com goma de mascar mastigada. O autor daquela façanha mastigatória eu não fazia a menor idéia mas também nem estava interessado. Mesmo um tanto desgostoso com aquele primeiro contato, e sem querer entender que aquilo era prenúncio de coisa alguma, com muito cuidado, tratei de recolocar tudo no lugar e meio de soslaio puxei a porta e entrei. Primeiro no banco do passageiro na frente.
Um susto!!! Apreensivo e arrepiado me sentei e bem devagar me estiquei como que tomando posse daquele espaço.
Olhei tudo do piso ao teto. Olhei bem nos detalhes onde pudessem se esconder mais daquele fenômeno inimigo dos dentes saudáveis e mesmo entendendo que já não encontraria mais do engodo, continuei olhando. E olhei, olhei e olhei muitas vezes.

 

Estava aparentemente tudo lá, com exceção do toca-fitas. Algumas vezes forcei com cuidado as maçanetas internas que se moveram aparentemente bem.

 

Carros não eram novidade pra mim, claro que não. Na verdade a alguns anos meu pai já tinha comprado um outro Corcel II daquele mesmíssimo modelo na cor azul. Ele tinha até a buzina na manopla do limpador do para-brisa igualzinho ao primeiro. Só que diferente deste em que eu estava me acostumando era novo. Um carro zero quilômetro que depois de nós passou por muitas mãos na família. Primeiro ele tinha sido nosso depois foi para as mãos da minha tia Cecília e dela para o meu avô, pai de minha mãe. Com ele permaneceu muito tempo graças a ajuda dos conhecimentos de mecânica de carros velhos dos meus tios.

 

Carros não eram surpresa pra nenhum de nós, da mesma maneira que o Corcéu também não. Mas aquele era o primeiro que na sua constituição corpórea tinha chiclet, e tanto o chiclete como o fato daquele carro ser tão misterioso, teriam que se transformar numa viagem de mais de 2000km Brasil a dentro e levar no seu interior, seis pessoas.

 

Entre tantos pensamentos, olhei bem o painel, os pedais, cambio, bancos, inclusive forçando um pouco o encosto do de onde eu estava. Bem com cuidado é certo.

 

Pronto! Dei por completa a minha inspeção. A fome voltou com toda força e o possante lindo e cor de burro pródigo agora parecia assustador. Perdi a graça até de tentar ligar o muar.
Só queria pensar que correria tudo bem!

 

Saí dele, fechei a porta sem passar a fechadura e tornei a entrar em casa para depositar as chaves exatamente onde elas estavam.

 

Todos ainda dormiam.

 

Silenciosamente, saí outra vez e depois de fechar o portão de tábuas num tropeço das idéias, tomei a calçada que margeava o jardins de vovó seguindo o comando do estômago vazio. Eu estava determinado a me esquecer daquela fechadura suspeita como que para acreditar que ela não tivesse feito o que fez. Pensei num pensamento danado com toda a glicose que já escasseava mas apesar do esforço, a fechadura não queria deixar os meus neurônios em paz.

 

Rumei trançando as pernas e pálido feito uma vela, fui para a o reino encantado de vó Remédios, a cozinha.

Onde estão nossas crianças?

 

Por Julio Tannus

 

Família de rua

 

Após passar por várias mães com crianças sentadas na calçada, desde bebês quase recém-nascidos até meninas e meninos de várias idades, no bairro de Higienópolis, em São Paulo, não resisti. Resolvi fazer uma pesquisa:

 

Perg: O que a sra. quer?
Resp: Uma ajudazinha

 

Perg. Para que a sra. quer uma ajudazinha?

 

Resp: Para dar de comer para meu/minha filho(a)
Resp: Para ter dinheiro para ir embora daqui
Resp: Para comprar um sapato para meu filho
Resp: Para comprar uma roupa para meu neném

 

Perg: Posso tirar uma foto?

 

Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não
Resp: Não

 

Até que finalmente consegui uma autorização, com a seguinte ressalva: “só pode tirar se não for sair na televisão”.

 

Perg: Onde a sra. mora?

 

Resp: Debaixo da ponte

 

Carlos Drummond de Andrade

Moravam debaixo da ponte. Oficialmente, não é lugar onde se more, porém eles moravam. Ninguém lhes cobrava aluguel, imposto predial, taxa de condomínio: a ponte é de todos, na parte de cima; de ninguém, na parte de baixo. Não pagavam conta de luz e gás, porque luz e gás não consumiam. Não reclamavam contra falta dágua, raramente observada por baixo de pontes. Problema de lixo não tinham; podia ser atirado em qualquer parte, embora não conviesse atirá-lo em parte alguma, se dele vinham muitas vezes o vestuário, o alimento, objetos de casa. Viviam debaixo da ponte, podiam dar esse endereço a amigos, recebê-los, fazê-los desfrutar comodidades internas da ponte.

 

À tarde surgiu precisamente um amigo que morava nem ele mesmo sabia onde, mas certamente morava: nem só a ponte é lugar de moradia para quem não dispõe de outro rancho. Há bancos confortáveis nos jardins, muito disputados; a calçada, um pouco menos propícia; a cavidade na pedra, o mato. Até o ar é uma casa, se soubermos habitá-lo, principalmente o ar da rua. O que morava não se sabe onde vinha visitar os de debaixo da ponte e trazer-lhes uma grande posta de carne.

 

Nem todos os dias se pega uma posta de carne. Não basta procurá-la; é preciso que ela exista, o que costuma acontecer dentro de certas limitações de espaço e de lei. Aquela vinha até eles, debaixo da ponte, e não estavam sonhando, sentiam a presença física da ponte, o amigo rindo diante deles, a posta bem pegável, comível. Fora encontrada no vazadouro, supermercado para quem sabe freqüentá-lo, e aqueles três o sabiam, de longa e olfativa ciência.

 

Comê-la crua ou sem tempero não teria o mesmo gosto. Um de debaixo da ponte saiu à caça de sal. E havia sal jogado a um canto de rua, dentro da lata. Também o sal existe sob determinadas regras, mas pode tornar-se acessível conforme as circunstâncias. E a lata foi trazida para debaixo da ponte.
Debaixo da ponte os três prepararam comida. Debaixo da ponte a comeram. Não sendo operação diária, cada um saboreava duas vezes: a carne e a sensação de raridade da carne. E iriam aproveitar o resto do dia dormindo (pois não há coisa melhor, depois de um prazer, do que o prazer complementar do esquecimento), quando começaram a sentir dores.

 

Dores que foram aumentando, mas podiam ser atribuídas ao espanto de alguma parte do organismo de cada um, vendo-se alimentado sem que lhe houvesse chegado notícia prévia de alimento. Dois morreram logo, o terceiro agoniza no hospital. Dizem uns que morreram da carne, dizem outros que do sal, pois era soda cáustica. Há duas vagas debaixo da ponte.

 

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada e co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier). Às terças-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Foto-ouvinte: coreto dos moradores de rua

 


Por Devanir Amâncio

 

Sem-teto da República

 

O coreto todo quebrado da Praça da República – a praça dos mais de três milhões de reais em reforma no Centro – abriga 12 mendigos de todas as idades. Perguntados quem são os candidatos a prefeito da cidade, responderam: “Lula e Fernando Henrique.” Para alguns, mendigo é coisa de Deus, do destino; para outros, da vadiagem, do sistema ou da administração municipal ruim que não cuida de nada -, ou ainda fruto da corrupção. Para alegrar o coreto os mendigos da República vão ganhar um churrasco de abacaxi.

De confissão

 

Por Maria Lucia Solla

 

Rosa

 

sabe a ladainha de
vou levando a vida
como se fosse um fardo
do bonzinho injustiçado
?
quanto mais rezo
mais assombração aparece
?

 

Canoa furada
!

 

Mas quem não entoa ou não entoou o mantra sinistro. Viés para vitimismo, aiai-de-mim, me-ajuda-Pai, quando ninguém se voluntaria para ajudar a remar o barco, porque está todo mundo remando o seu; pelejando para não fazer água, também.

 

Pai faz assim olha
e dá-Lhe receita

 

Afasta esse encosto da minha vida, traz o afastado e encosta ele em mim, que não dou conta da ausência que leva a luz da permanência. Acende a luz no meu viver, reforma o presente que Você me deu. Recebe ele de volta, desembrulha e faz funcionar. Brinca, Você, com ele. Abre meu caminho para dinheiro, amor, amizade, alegria, saúde. Não necessariamente sempre na mesma ordem, mas basicamente é esse, o terço. Ou não é? Me emagrece, me enriquece, me satisfaz, me livra do que não quero e me dá e-xa-ta-men-te o que eu insisto em ter. Me entupo de porcaria, fumo, bebo, caio na gandaia mais do que o meu corpo aguenta, me boicoto, boicotando o mundo à minha volta. Não li o manual que acompanha o pacote da compaixão, e desconheço para que serve, mas me dá isso tudo, mesmo assim. De mão beijada, ou em troca de oração, contrição, contribuição.

 

Que parte é do “Seja feita a Tua vontade, assim na Terra como no Céu” que a gente não entendeu?

 

Ação reação
com mínima previsão
página em branco

 

Minha cabeça e meu corpo redemoinham. Desfoco o pensar de caso pensado. Me agarro no sentir com a mente, e no pensar com o coração. Consciente da postura de todos os corpos. Menos harmonia que postura. Nada filosófico. Pão-pão-queijo-queijo da carona do Ser. E respiro. Ah! como preciso me lembrar de respirar. O tempo todo.

 

Nesse caminho chego à conclusão – que dura cada vez menos e se afasta cada vez mais do definitivo – de que meu ritual religioso favorito é viver; estar o mais acordada possível para não perder nem mesmo o sabor do maior dissabor. O mais acordada possível para não abrir frestas no tic-tac que não tem pause, por onde o tempero da vida possa escoar, incentivado por fantasmas da suposição e do medo.

 

Escrever me fortalece, me abre portas para mais e mais incertezas, me faz perceber melhor a vida. Não sei, talvez nenhuma das sensações acima, mas o certo é que me faz sentir bem. Recompõe minhas energias, tipo o sono. Sinto e escrevo. Cara e coroa, tic-tac, coroa e cara. Dou o primeiro passo, colho um ramo de ânimo-do-campo para o segundo e, se não consigo o combustível suficiente para o segundo passo, aceito a limitação e me entrego à não-ação, no inspirar e expirar que é expressão de vida, e não impeço “que o ciclo evolutivo do planeta cumpra o seu dever”. Lavo louça, cozinho, preparo aulas, dou aulas, estudo, leio, crio, lavo o terraço, cuido da casa e de seus viventes, sonho, divago, mas me trago de volta ao reino do divino, o tempo todo, sempre que o ego tenta se meter de pato a ganso. E agradeço. Milhões de vezes por dia.

 

Fico sem gasolina na rua, a testa enruga, viciada, e eu aliso a danadinha, faço o que precisa ser feito e anoto na lista de não-deixar-que-aconteça-de novo, que já ignorei mais de uma vez. Vivo passo a passo, no um-dois-três, acreditando no que sempre disse minha mãe – que esteve hospitalizada no mês passado e já está melhor – Isso é vida!

 

Tenho Deus no coração, nos rins, no bulbo capilar, na solla dos pés e na crista da onda. Sou religiosa. Como não ser? Mas sinto que somos Sua criação, Sua expressão, e não Seus filhos. Essa coisa de Filho é muito esquisita e me arrepia porque humaniza o divino e formata o informatável. Estratifica, faz esquecer que o ser-humano não é Sua única expressão. Será que o Deus que louvamos é o Deus que nos criou, ou aquele que criamos nós, à nossa excelsa imagem e semelhança?

 

Escrever me permite perceber quantas respostas existem para cada pergunta e também me leva a encontrar e a reparar sempre mais um furo no casco da minha canoa. O que sou e tenho é o que sou e tenho, E agradeço. Agradeço por tudo. Não ajoelhada, não paramentada, não rotulada, mas a qualquer hora do dia e da noite e em todo lugar.

 

agradeço à Vida
com a boca de tudo que é
da falta
da fartura
do sonho
do medonho
do Pai João
do Cramunhão

 

agridoce
pura magia
Vida com sabor de alquimia

 

obrigada Criador
!

 


Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Que tal um sorvete?

 

Por Dora Estevam

 

O Dia das Crianças, que abriu o feriado estendido até segunda-feira quando se comemora o Dia dos Professores, me inspirou a falar sobre sorvete. Quem não gosta? E nesta época eles estão em evidência (se bem que eu gosto em qualquer época do ano).

 

Apesar das inúmeras opções que existem no mercado pensei na hipótese de você preparar uma receita de sorvete em casa com os familiares ou amigos. A primeira dica vem da chef Leonor de Souza Bastos, especialista em doces e que tem um blog desde 2008 – uma pioneiro em receitas na rede. O Gelato de Doce de Leite (quem gosta?), pode ser feito sem ajuda de máquinas especiais.

 

Anote os ingredientes:

 

198 g de leite condensado cozido (1/2 lata) (receita de doce de leite)
250 g de natas com 35% de M.G.
1 clara
40 g de chocolate 70 % (opcional)*

 

Agora, veja como se prepara:

 

Bater as natas até que fiquem firmes.
Bater a clara em castelo.
Bater o leite condensado até estar cremoso, juntar 1/3 das natas e misturar até que esteja um preparado homogéneo.
Juntar as natas restantes, aos poucos, envolvendo delicadamente.
Juntar a clara batida com movimentos suaves.
Adicionar o chocolate, cortado em pequenos pedaços.
Verter a mistura numa forma com 20x11x7 cm e congelar durante a noite ou até que esteja completamente firme.
Desenformar, mergulhando a forma durante uns segundos em água quente ou servir em bolas, diretamente da forma.

 

Gostaram? A Leonor fez a receita sem os tabletes de chocolate, você pode tentar assim também, o que acha?

 

 

Imagino que neste feriado você vai levar suas crianças ao shopping, então vamos às dicas incríveis de gelato facilmente encontradas, aqui em São Paulo. A começar pelo Shopping Cidade Jardim: as minhas escolhas ficaram com os sorvetes da marca Dileto (vários sabores) e da Mil Folhas, que aliás tem um sorvete de doce de leite delicioso e irresistível.

 

Caminhando pelo Market Place a ideia é a sorveteria Vipitteno. Que vitrine fantástica ! O destaque fica com o sorvete de algodão doce, maravilhoso. Os sorvetes são cremosos, leves e levam uma das melhores receitas italianas. Uma gelateria com sabores diferenciados e trabalhos artesanais. Sem contar os docinhos que compõem a vitrine para os pais tomarem com café expresso. Veja este vídeo que encontrei no site da marca, conta bem a história e fala sobre o produto, uma delícia.

 

 

Estas marcas são conhecidas e fáceis de serem encontradas em todos os shoppings, não apenas de São Paulo.

 

Outra situação gostosa também é comprar vários potes nos supermercados e formar bola, coloridas ou não. A ideia é se refrescar e se divertir. Você pode reunir as amigas e os familiares, tenho certeza que todos vão amar e passar horas incríveis se deliciando com os gelados.

 

Para quem faz dieta e não pode comer doces a dica são os sorvetes de yogurte, facilmente encontrados em shoppings e lanchonetes. Não engordam e são super gostosos.

 

 

Na moda, o sorvete também está com tudo. Muitas marcas desenvolveram parte de suas coleções inspiradas nas cores dos sorvetes: o rosa algodão doce, o limão, entre muitas outras cores que remetem aos sabores dos deliciosos. E os modelos vão desde os sapatos, passando especialmente nas calças e cintos, até as blusas.

 

 

Quem vai resistir?

 

Escolha a sua tigela ou a sua taça e boa farra!

 


Dora Estevam
é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida, aos sábados, no Blog do Mílton Jung.

A Violência do Mundo

 

Por Julio Tannus

 

 

Escrevi aqui, há pouco tempo, sobre a questão da segurança em nossa cidade. Volto ao tema, mas com um foco ampliado e direcionado para a violência no nosso planeta. Após sobrevoo em alguns autores, suas reflexões apontam para uma realidade nada confortadora. Tomo como exemplo o filósofo francês Jean Baudrillard, que tem visão bastante pessimista de nosso coletivo humano. Para ele, “se os progressos científicos, técnicos, médicos e sociais são admiráveis, não se deve subestimar o terrível poder destrutivo e manipulador da ciência e da técnica. Pela primeira vez na história do homem, graças à ciência e à técnica, pode-se aniquilar irremediavelmente toda a humanidade. A biosfera também está ameaçada de degradação: os perigos são o fruto de nosso progresso. O desenvolvimento, cujo modelo é ocidental, ignora que ele comporta também grandes inconvenientes. Seu bem-estar gera mal-estar, seu individualismo comporta egocentrismo e solidão, seus desenvolvimentos urbanos geram estresse e danos, e suas forças irreprimíveis conduzem à morte nuclear. O que isso quer dizer? Não se deve continuar nessa estrada nem indicar o caminho que percorremos: é preciso mudar de estrada”.

 

E tem uma visão pessimista de nosso coletivo. Para ele, o coletivo humano acumula tensões com o passar do tempo. Essas tensões só são aliviadas com guerras, distúrbios sociais, e outras violências. Faz uma associação com nossa atmosfera: as nuvens vão acumulando tensões que só são dissipadas a partir de descargas atmosféricas.

 

Segundo relatório divulgado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a violência mata mais de 1,6 milhão de pessoas no mundo a cada ano. Afirma também que outros milhões de pessoas são mutiladas por ataques. A violência é hoje a principal causa das mortes de pessoas com idades entre 15 e 44 anos. Ao divulgar o relatório, a OMS pediu aos governos em todo o mundo que adotem medidas urgentes para diminuir índices de assassinatos, violência doméstica e conflitos armados. 

Ainda segundo o relatório, a violência responde por 14% das mortes de homens e 7% das mortes de mulheres. Isso quer dizer que uma pessoa morre em algum lugar do mundo a cada minuto. Outras estatísticas publicadas dizem que uma pessoa comete suicídio a cada 40 segundos e 35 pessoas morrem a cada hora em conflitos envolvendo armas. Metade das mulheres mortas em crimes violentos é assassinada pelo marido, ex-marido ou namorado. Em alguns países, o índice sobe para 70%. Uma em cada quatro mulheres no planeta vai sofrer violência sexual por parte do parceiro. A violência contra os idosos também é um problema crescente com 6% de idosos tendo se declarado vítimas de abuso.



 

E aqui uma esperança, onde uma frase de Heidegger ganha toda a sua dimensão (“a origem não está atrás de nós, mas sim diante de nós”). O diretor da OMS, Gro Harlem Brundtland, disse que o relatório representa um desafio. “Ele nos força a ir além das noções do que é aceitável e confortável, a questionar a crença de que a violência é uma questão de privacidade da família, escolha individual ou um fato inevitável da vida.” 

O diretor do departamento de prevenção de ferimentos e violência da OMS, Etienne Krug, disse que as mortes podem ser evitadas com uma mudança de atitude. “No mundo inteiro, há evidências de que a violência pode ser evitada por uma série de medidas envolvendo indivíduos, famílias e comunidades.” O relatório reivindica programas educacionais para crianças nas escolas, treinamento para os pais e esquemas para diminuir o uso de armas de fogo, além de melhor suporte para as vítimas da violência.

 

Esperemos que isso aconteça!

 


Julio Tannus é consultor em Estudos e Pesquisa Aplicada, co-autor do livro “Teoria e Prática da Pesquisa Aplicada” (Editora Elsevier) e escreve às terças-feiras no Blog do Mílton Jung