Reforma ortográfica só é boa para amansa-burro

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Existem muitas coisas as quais,por mais que me esforce,não consigo aceitar.São tantas que vou me atrever apenas a citar uma para não encher a paciência dos meus raros leitores,se é que os tenho: a tal de Reforma Ortográfica,fruto de mais um acordo estapafúrdio entre os países que falam a língua portuguesa. Aliás,esse acordo,aprovado em 2008,pelo jeito,satisfez somente os dicionaristas,que lançaram,de imediato,novos amansa-burros e,graças a eles,encheram de dinheiro as suas burras. A propósito,escreve-se amansa-burros ou amansa burros,sem hífen? O verbete,que não aparece nos dicionários,é separado por esse sinal. Ou era.

 

Na nova ortografia,hifenizar ou deixar de colocar hífen transformou-se em um dos piores problemas da estúpida mudança. Nesse 1º de janeiro,a mais racente reforma (já enfrentei,no mínimo,outra)deveria ter sido efetivada de direito,eis que,de fato,já foi. Os colégios maristas já a adotaram em 2009. Nas escolas Estaduais,a recomendação é que seja incorporada ao processo de alfabetização. O Senado, entretanto,quer discutir o assunto e,com isso,as alterações ortográficas podem se oficializadas em 2016.

 

Quando começou a se falar na Reforma Ortográfica e tomei conhecimento das mudanças que ela provocaria e que atingiriam os recém alfabetizados e os já acostumados em grafar palavras com trema, acentos, alguns deles diferenciais etc.,fiquei furioso com os autores desse despropósito. Não fui,porém,somente eu quem detestou a “novidade”. Darcília Simões,professora de língua portuguesa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNP),descreve assim o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa:”Um acordo desnecessário e complicado”.

 

E disse ainda:”Hoje em dia, ninguém mais sabe usar hífen. Do ponto de vista prático do usuário,essa reforma foi um problema”. Para a Professora,o novo acordo teve motivações políticas e econômicas,em vez de ter como objetivo facilitar a vida dos usuários da língua. Para a Professora,o que houve foi um confronto de força entre Brasil e Portugal,cada um dizendo “eu quero que você escreva como eu”. Deixo aqui meus cumprimentos à Professora Darcília Simões por ter posto os pontos nos ii.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

A tragédia de Newtown

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Não sou a pessoa mais indicada, confesso, para falar de certos gostos dos americanos. Só estive nos Estados Unidos de passagem para o México, em 1986, escalado que fui para narrar a Copa do Mundo. Como quem de direito esqueceu de solicitar o visto no consulado dos EUA em Porto Alegre, talvez por imaginar que meus companheiros e eu apenas desceríamos em solo americano e embarcaríamos imediatamente para a capital mexicana, ficamos quarando horas e horas (não me lembro quantas, mas foram muitas) nas dependências do aeroporto de Miami. Nesse longo período, estivemos sempre acompanhados por um policial. A PF deles pôs somente agentes oriundos de Cuba e outros países de língua espanhola para ficar de olho em nós. Com esses conseguimos, pelo menos, conversar. Somente o Dante Andreis, representante da Rádio Caxias, saiu do aeroporto e deu uma banda em Miami.

 

Não deixa de ser uma terrível coincidência que a da última sexta-feira tenha sido a quarta tragédia do mesmo tipo acontecida durante o primeiro e ao iniciante segundo mandato de Barak Obama. A primeira foi a de 2009, em Fort Hood, no Texas, na qual morreram 13; a segunda, dois anos depois, em Tucson, no Arizona, em que as vítimas fatais foram 6; a terceira, que resultou em 12 mortes, enlutou Aurora, no Colorado. A de Newtown se tratou, entretanto da mais chocante, porque envolveu crianças, aluninhas da Sandy Hook Elementary School. Claro que não vou descrever aqui os detalhes do morticínio, porque dificilmente existe alguém que não tenha conhecimento do que ocorreu.

 

Não chega a causar espanto que, em um país no qual as armas são vendidas até em supermercados, como me lembrou o Mílton, meu filho, psicopatas de toda espécie tenham acesso fácil a elas. Para usarem-nas, sem dó nem piedade, quando lhes dá na telha, basta que sofram um ataque de loucura, o que não é incomum em gente com as faculdades mentais prejudicadas. Obama, a meu ver, tem de criar coragem para enfrentar os patrícios que adoram armas de todos os calibres. Chorar e solidarizar-se com os familiares das vítimas, como voltou a fazer agora em Newtown, não serve mais de consolo para quem sofre as consequências dos repetidos massacres. O Presidente precisa agir e enfrentar maníacos por armas como, por exemplo, esses caras da National Rifle Association que, diante da última tragédia, não fizeram qualquer manifestação. Seria por terem participado de inúmeras guerras que muitos americanos não conseguem viver desarmados?

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

A culpa é da Cristina

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Os pais de Maria Helena, minha mulher, fizeram inúmeras viagens de turismo à Argentina. A primeira visita do casal Edvino e Wanda ocorreu em 1948. Na ocasião, Juan Domingo Perón governava há dois anos o país vizinho. Seu mandato, que terminaria em 1952, como Perón foi reeleito, se estenderia até 1958, mas não chegou a esse ano por força do golpe militar que o retirou do poder. Após 18 anos de exílio,Juan Domingo Perón voltou ao poder. Faleceu, porém, sem completar o seu terceiro mandato.

 

Fiz esse introito para lembrar a quem não se liga a fatos históricos quando não se trata do nosso país que, décadas atrás, o turismo de brasileiros na Argentina não chegou a ser muito prejudicado por questões políticas, envolvendo os seus governantes e governados, o que está acontecendo agora sob o governo de Cristina Fernández de Kirchner. Aliás, os prejudicados pelas absurdas exigências presidenciais não são apenas os brasileiros que gostam de visitar “los hermanos”, mas, o que é pior, os argentinos que viajam ao exterior.

 

Maria Helena e o seu filho André foram várias vezes à Argentina antes que eu e ela, ano após ano, passássemos parte das minhas férias em Buenos Aires. Nesta década, além dos passeios, da abundância de ótimos restaurantes, cafés e imperdíveis shows de tangos, a moeda argentina sempre perdeu para a nossa. Assim, reforçar o guarda-roupa com artigos oferecidos por lojas tradicionais e shoppings, era obrigatório.

 

Escrevi a frase anterior colocando o verbo no passado, pois neste ano que dá os seus derradeiros suspiros, não estivemos em Buenos Aires. Quebramos, com isso, o que tinha se transformado para nós em agradável rotina. E a culpa é de Cristina. Ficamos com medo de manifestações realizadas pelos que são contrários a Presidente. Essa, além de certas medidas estapafúrdias que machucaram impiedosamente o bolso dos patrícios dela, investe contra o Grupo Clarín, com a Lei da Mídia, fingindo que está democratizando a mídia e restringindo monopólios. “Dueña” Kirchner imita, de certa forma, Chávez, Evo Morales e outros que tais sul-americanos. Convém não perder Cristina de vista. Ditadores e seus aprendizes adoram cercear a liberdade de expressão.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Escreve, às quintas-feiras, no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Tecnologia para conter os “barbeiros”

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O Departamento Estadual de Trânsito – DETRAN – do Rio Grande do Sul está tomando importantes providências para diminuir o número de acidentes fatais neste estado. A primeira providência deve ser adotada no início de 2013 e visa a melhorar, com ajuda da tecnologia, as provas realizadas por quem pretende tirar carteira de habilitação. Os exames serão monitorados em tempo real. Os carros das autoescolas passarão a contar com câmeras que irão gravar, com áudio e vídeo, o procedimento dos professores e de seus alunos. Graças ao sistema que será implantado, os candidatos à carteira, que não se conformarem com o resultado dos testes, poderão entrar com recurso, valendo-se das imagens de suas provas, recebidas em uma central.

 

O controle biométrico, também será aperfeiçoado para evitar fraudes. Terminais de autoatendimento serão instalados, por exemplo, em shoppings, nos quais poderão ser agendados exame de saúde, provas técnicas e práticas etc. Por outro lado, os agentes de trânsito – leia-se EPTC – já estão testando o registro de multas em tablets ou smartphones. Com isso, o preenchimento errado dos talonários atuais, o que não é incomum, tenderá a evitar o que ocorre agora, isto é, que uma em cada 10 infrações não seja enviada ao infrator.

 

Até março de 2013,o governo do estado afiança que cadastrará os Centros de Desmonte de Veículos, na tentativa de inibir a venda de peças sem procedência. Há, no momento, 311 CDVs registrados. Outra medida elogiável é a que se refere ao acordo com a Secretaria Estadual da Educação para a compra de 4 mil livros didáticos sobre educação no trânsito que serão distribuídos nas escolas de Ensino Fundamental e Médio. Afinal, como garante um velho adágio popular, é de pequenino que se torce o pepino.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Da inauguração à despedida do estádio Olímpico

 

Por Milton Ferretti Jung

 

 

Conheci quando criança – nem me lembro que idade tinha – a primeira praça de futebol do Grêmio: o Estádio da Baixada ou, se preferirem os mais velhos, o Fortim da Baixada, situado na Rua Dona Laura, no bairro Moinhos de Vento. Meus amigos e eu, deixamos Higienópolis, onde morávamos, caminhando até a Baixada. Era um domingo e pretendíamos dar um jeito de entrar no Estádio. Queríamos ver o Grêmio jogar. O máximo que conseguimos foi espiar a partida por uma fresta. Eu, pelo menos, não voltei mais a ver o Grêmio atuar naquele local, cujo pavilhão de madeira foi cedido ao Força e Luz, dono do Estádio da Timbaúva, em troca do zagueiro Airton, de saudosa memória para os gremistas.

 

Minha carreira radiofônica começou em 1954,na Rádio Canoas, um pequena emissora, por coincidência, no mesmo ano em que o Presidente tricolor, Saturnino Vanzelotti via realizar-se o seu sonho de dar ao seu Clube um moderno Estádio, o Olímpico Esse, mais tarde, foi ampliado por outro dirigente: o Dr.Hélio Dourado. Uma das minhas primeiras tarefas, na Canoas, foi a de fazer a cobertura jornalística da inauguração do Estádio Olímpico. Há quem imagine que eu tivesse narrado o Gre-Nal, que havia sido o jogo escolhido para a festa inaugural, de má memória para o Grêmio. Eu era solteiro e ainda morava no bairro de Higienópolis. Casei e nos mudamos para bem bem perto do Olímpico, onde o Christian, meu caçula,ainda reside, isto é, na Rua Saldanha Marinho. O Mílton Jr., que jogou na escolinha de futebol do Grêmio e depois, passou 12 anos no basquete gremista, atuando do time infantil ao adulto, hoje âncora do Jornal da CBN, em São Paulo, no blog dele, sempre que o Grêmio joga, não deixa de escrever a “Avalanche Tricolor”. Nessa, não faz muito, lembrou, que considerava o pátio do Olímpico, uma extensão do quintal da nossa casa.

 

Neste domingo, Mílton e Lorenzo, um dos meus netos, mais Christian e Fernando, o filho dele, ambos que seguem morando na Saldanha Marinho, vão tentar acostumar-se a viver longe do novo e moderníssimo estádio gremista: a fabulosa Arena. Ficamos com dois corações, um deles triste, com a despedida do passado; o outro, alegre com o a praça de esportes do presente, que se inicia daqui a alguns dias.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Minha profissão dos sonhos de infância

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Sou ouvinte assíduo da primeira edição do Jornal da CBN. Em geral, ouço o programa a partir das 8 horas ou pouco antes. Costumo acompanhar a ancoragem do Mílton pela internet ou, quando estou dirigindo, pelo rádio do carro. Gostei muito da pergunta que os ouvintes foram instados a responder, nessa terça-feira, durante o Jornal, ou seja, qual a profissão sonhada por eles quando crianças. Nem todos chegaram, como contaram, a realizar o sonho de infância. O próprio comandante deste blog foi um deles. Confesso não me lembrar que o Mílton tivesse a pretensão de ser lateral esquerdo do Grêmio. Logo esquerdo. Afinal, ele é destro. Tenho, no entanto, absoluta certeza de que o meu filho está exercendo a profissão que lhe caiu como uma luva. Não digo mais, para não ser acusado de pai coruja. Mílton chegou a cursar a Faculdade de Educação Física, mas descobriu que poderia fazer carreira como jornalista e radialista. E acertou em cheio.  
 

 


O meu sonho foi diferente. Eu queria ser aviador,talvez influenciado pelos aviões que passavam sobre a casa em que eu morava roncando forte, tanto os de dois quanto os de quatro motores, ainda  movidos a hélice. A residência ficava bem próxima do Aeroporto Salgado Filho e ao descerem as aeronaves já voavam com  o trem de pouso pronto para a aterrissagem. Talvez isso tenha me levado a sonhar em, um dia, estar pilotando um desses aviões. Mas, confesso, nada fiz para concretizar o meu primeiro sonho. Na minha adolescência, costumava brincar de narrar futebol quando, com os meus companheirinhos, jogávamos botão. Até descobri que podia plugar um par de fones de ouvido na entrada de toca-discos de um rádio da marca Wells,importado dos Estados Unidos pelo meu pai. E minhas narrações, para desespero dos vizinhos, passaram a contar com amplificação.

 

Quando tinha dezoito anos, minha experiência com microofones já havia crescido comigo. Não só soltava a voz nos alto-falantes da Voz Alegre da Colina, nas quermesses da minha paróquia, como enviava por esses aparelhos as notícias e avisos que os irmão maristas do Colégio Nossa Senhora do Rosário pediam-me que passasse para os meus colegas no momento em que entravam nas sala de aula. Minha “experiência” microfônica me levou a fazer um teste numa rádio que funcionava ainda em fase experimental, chamada Canoas, mas, apesar de ter tal nome, com estúdios em Porto Alegre. Entre 200 candidatos, três foram aprovados. Fui um deles.

 



Os pais também sonham que os seus filhos sejam médicos, advogados e engenheiros ou algo semelhante. O meu gostaria que eu fosse para uma faculdade de Direito. Inicialmente, pelo menos, não aprovou a minha escolha. Creio que ele teria sido um excelente advogado. Costumava assistir a julgamentos. Obrigou-se, entretanto, a se contentar com um diploma de guarda-livros, sem tempo para frequentar uma universidade, porque tinha  família para sustentar. Papai acabou aceitando – e bem – a minha eleição, especialmente após perceber que eu progredira como radialista, quando fiz teste e fui aprovado para compor o quadro de locutores da Rádio Guaíba, onde estou desde 1958.  

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Tecnologia demais é graça de menos no futebol

 

Por Milton Ferretti Jung

 

“Quando você sabe que está derrotado, aceite a derrota com dignidade”. Ao ler essa frase no romance ‘As Trilhas da Glória’, de Jeffrey Archer, escritor inglês, que a colocou na boca do tutor de George Leigh Mallory, protagonista desse seu livro, me lembrei do conselho dado por Marcos, ex-goleiro do Palmeiras, à direção do clube, ao saber que o presidente Tyrone pretendia obter a anulação do jogo de seu ex-time contra o Inter. Em outras palavras, Marcos praticamente repetiu a frase usada por Archer. Os que acompanham o Brasileirão sabem que Barcos, centroavante palmeirense, marcou um gol com a mão, gesto não flagrado pelo árbitro Francisco Carlos Nascimento. A alegação palmeirense, não aceita pelo STJD, foi que o delegado do jogo, avisado por um repórter, soprara para Jean Pierre, o quarto árbitro, que a televisão havia mostrado o toque. A legislação não permite que sejam usados recursos televisivos para definir lances de jogos. Mas a causa do Palmeiras não prosperou. Não houve como provar que a informação passada para o juiz fosse fruto do que a televisão mostrara.

 

Passou-se,então a discutir, mais uma vez, à luz do ocorrido, a validade do uso de recursos tecnológicos – imagens de TV – para esclarecer lances polêmicos. Se o assunto fosse colocado em votação, com certeza, a maioria da mídia esportiva seria favorável ao sistema. Eu, porém, não gostaria de vê-lo vigorar. Entendo que uma das graças do futebol – a de permitir que tudo o que acontece neste jogo seja discutido à saciedade, especialmente a atuação do árbitro e de seus auxiliares – tem de permanecer imutável. Duvido que a tecnologia possa ser posta em prática em todas as competições futebolísticas, eis que encareceria, por exemplo, os campeonatos estaduais. Afinal, todos as partidas teriam de ser filmadas e seria preciso que os árbitros fossem imediatamente avisados sobre irregularidades imperceptíveis para os seus olhos e os de seus auxiliares. Sei que juízes e assessores se comunicam entre si, mas apenas com o uso de transmissores de voz. Para mim, isso fica no limite do que é possível. Esses novos assistentes, que ficam de olho no que ocorre no fundo dos gramados, já se constituem em acréscimo desnecessário. O que dizer, então, de estragar o futebol de todos nós com a utilização de tecnologia.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung

Velocidade máxima de 120km aumentará risco de mortes em rodovia

 

Por Milton Ferretti Jung

 

No jornal gaúcho Zero Hora, dessa segunda-feira, li e não gostei do que, por enquanto, está apenas em estudo, mas, mesmo assim, me assustou: ”Concepa estuda limite de 120 km/h na freeway”. Se é que alguém não saiba, freeway – que de “free” não tem muito – é a rodovia que une Porto Alegre a Osório e, nos fins de semana do verão, em geral, com o esparramo de veículos que se vê hoje em dia em circulação, para gáudio da indústria automobilística, torna-se congestionada. Não me lembro, mas, no jornal, há um quadradinho, no qual se vê uma foto da freeway, na época em que fazia jus ao apelido. Logo abaixo, lê-se que a fotografia é de 1973. Naquele ano, já um tanto longínquo, existia sinalização indicando que a velocidade máxima permitida na rodovia era a que a Concepa deseja reimplantar agora, isto é: 120 km/h.

 

Em novembro de 2011, o alargamento da rodovia e outras melhorias deram chance a que a velocidade máxima para veículos de pequeno porte – que ridiculamente são chamados de carros de passeio – passasse para 110 km/h. Já os pesados, podem viajar a 90. Não sou dos que mais viajam pela freeway. Neste ano, fui e voltei a Tramandaí duas vezes. Em ambas, mantive-me na velocidade máxima permitida, mas, às vezes, tirei o pé, especialmente para ser ultrapassado por quem dirigia, é fácil imaginar, muito acima dos 110 km/h. Esses, que não são poucos, não querem saber se você está pilotando dentro da velocidade permitida. Sai da frente deles ou se arrisca a ser abalroado.

 

A presidente da Fundação Thiago Gonzaga, Diza Gonzaga, tal como eu e, provavelmente, inúmeros outros, entende que o aumento da velocidade está ligado à letalidade dos acidentes. Para essa batalhadora, que perdeu um filho, vitimado em acidente de trânsito, os 10 quilômetros a mais que a Concepa pretende implantar, diminuirá a segurança das pessoas que usam a rodovia. A concessionária da freeway, por conta de pequisa por ela realizada, afirma que o número de acidentes diminuiu na estrada que liga Porto Alegre às praias do litoral. A mesma pesquisa não esconde, porém, que o número de acidentes com morte caiu de 14 para 13. A pesquisa da Concepa não me convence. Vou continuar defendendo que, sejam quais forem as melhorias que a estrada experimentou neste ano e que são prometidas para 2013, aumentar a velocidade máxima em 10 quilômetros por hora ,parece pouco, mas será uma temeridade e um risco desnecessário. Afinal, tivéssermos, por exemplo, autobahns como as da Alemanha, as velocidades máximas poderiam ser bem maiores. Estamos, porém, distantes delas.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

A versão brasileira do Barão de Münchhausen

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Os mais novos, imagino, jamais ouviram falar no Barão de Münchhausen e, muito menos, de Karl Friedrich Hieronymus Von Münchhausen. Mas essa pessoa, com nome difícil de pronunciar, a menos que se tenha algum conhecimento de sua língua – a alemã – existiu e entrou na história. O Barão nasceu no dia 11 de maio de 1720 e viveu durante 77 anos. Foi militar e senhor rural alemão. Sua vida rendeu, inicialmente, uma série que ficou célebre ao ser compilada por Rudolf Erich Raspe, com o título de “As Loucas Aventuras do Barão de Münchhausen”. Os livros destinavam-se, de maneira especial, a leitores juvenis. Contavam histórias fantásticas, alegadamente vividas pelo Barão que, em sua carreira militar, serviu não apenas ao exército do seu país, mas ao da Rússia. Depois de participar de duas campanhas contra os turcos, retornou para casa e começou, sabe-se lá por que, a espalhar relatos inacreditáveis, como, por exemplo, o de uma fuga durante a qual entrara em um pântano e, para não afundar e se afogar, puxou-se pelos próprios cabelos ou, dependendo da versão, pelo cardarço de suas botas.

 

Quem conta um conto, aumenta um ponto. Ou vários pontos. No caso de Münchhausen, tantos foram os exageros, que até o Barão os achou demasiados. Diziam que ele fizera viagens em balas de canhão e jornadas para a lua. Suas histórias, no entanto, não foram postas somente em livro e traduzido em várias línguas, mas rendeu um filme. Esse chegou aos cinemas da Alemanhã no auge da Segunda Guerra – 1943 – e foi usado pelo governo nazista para celebrar os 25º aniversário da UFA, a principal companhia cinematográfica do país. O Barão voltou ao cinema em 1989, quando Terry Gillian, que havia integrado o grupo cômico Monty Python, lançou a sua versão das “Aventuras do Barão de Münchhausen”.

 

Tenho um querido colega, cujo nome prefiro omitir, não vá ele pretender me cobrar direitos autorais, que é um emérito contador de histórias em que é protagonista, segundo ele, todas “reais”. Não são tão fantásticas quanto as do Barão, algumas das quais que me permiti apresentar aos leitores mais jovens deste blog, se é que esses existem. Aí está a primeira. Falávamos sobre aviões, se a memória não me falha, quando o nosso ou o meu Barão – como acharem melhor – contou-me que já havia sido piloto. E lembrou de uma ocasião em que o aparelho sofreu uma pane e ele se obrigou realizar pouso de emergência: desceu sobre uma rede de fios elétricos. Não deu, e não pedi maiores detalhes. Creio que, depois daquela aterrissagem, perdeu o jeito de voar: sentiu-se mal na primeira viagem aérea que fizemos juntos.

 

Esta é a segunda e, quem sabe, possa ser considerada mais “creativa” do que a primeira história. Adiléia Silva da Rocha, que ficou famosa com o nome artístico de Dolores Duran, cantora que nasceu no dia 7 de janeiro de 1930 e morreu com 29 anos, fez sucesso na sua época. Entre suas canções,havia uma que, relatou-me o Barão, ela fez em sua homenagem: “A noite do meu bem”. Ao ouvir a peta, fiquei imaginando o meu colega dançando com Dolores Duran e essa lhe sussurando ao ouvido que a música havia sido composta quando ela pensava nele.

 

A terceira história de hoje é a mais fantástica deste texto. O Barão, em uma de suas idas a serviço para os Estados Unidos, desembarcou em Washington. Nunca explicou direito como JF Kennedy ficou sabendo de sua presença em um hotel da capital americana. Não demorou, o telefone de seu apartamento tilintou. Imaginem, um assessor de JFK, falando português, transmitiu-lhe um convite do Presidente. Este queria recebê-lo nos jardins da Casa Branca…para um cafezinho.

 

Para encerrar as baronescas criações ou, melhor dizendo, invenções, existe a que o colega relatou quando foi à Argentina para cobrir uma competição automobilística. Depois de realizar o seu trabalho, contou-me que não encontrava condução para retornar ao seu hotel, no centro de Buenos Aires. Resolveu, então, seguir a pé até o seu hotel no centro de Buenos Aires. Eis que, de repente, um carro que ia na mesma direção, parou ao seu lado. O senhor que estava ao volante abriu a porta e, ”hablando español”, o convidou para entrar:

 

– Amigo,venga conmigo!

 

O Barão olhou para o gentil cavalheiro e, espantado, o reconheceu. O cidadão era, adivinhem, o lendário campeoníssimo Juan Manuel Fangio.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Jorge Marimon Mendes, um repórter esportivo inesquecível

 

Por Milton Ferretti Jung

 

 

O meu pai foi assinante durante muitos anos da Revista Selecções Reader´s Digest. Ele começou a lê-la na época da Segunda Grande Guerra. Claro, suas edições estavam sempre recheadas com histórias do conflito, nas quais as tropas dos Estados Unidos e de seus aliados protagonizavam batalhas fantásticas em que, via de regra, saiam vitoriosas. Já naquela época eu costumava ler desde revistas em quadrinhos – Gibi, Globo Juvenil e congêneres – a romances cujo conteúdo nem sempre era apropriado para adolescentes. Nas Selecções Reader’s Digest eu não deixava de ler, “O Meu Tipo Inesquecível”, presente em todos os números. Sob tal título, havia histórias acerca de pessoas que, de alguma forma, marcaram a vida e ficaram na lembrança de quem as relatava. Na manicure em que todas as quartas-feiras levo Maria Helena, minha mulher, existem revistas de vários tipos – Cláudia, Caras, Contigo etc. – mas, enfiadas numa pequena estante, meio escondidas, existem Selecções. São de meses passados,é verdade, o que não chega a ser problema, porque não se desatualizam, o que, por exemplo, ocorre com a Veja. Abro um parêntese para dizer que destesto as enormes revistas, repletas de fotos de pessoas que nunca vi mais gordas ou tão magras quanto as “top models” dos dias atuais.

 

Ao abrir a primeira das Selecções com que me deparei, procurei imediatamente, uma história sobre ”O Meu Tipo Inesquecível”. Folheei o exemplar e nada encontrei. O que fazer? Talvez o atual editor da Revista tenha entendido que não é fácil encontrar quem queira escrever acerca desse assunto. Ocorreu-me, nessa segunda-feira, que, se Selecções ainda tivesse “O Meu Tipo Inesquecível”, eu teria um capaz de preencher o espaço agora inexistente. Ao chegar à Rádio Guaíba, fiquei sabendo que Jorge Marimon Mendes fora encontrado morto, no sofá de sua casa, por sua filha Rosângela. Essa, viera a Porto Alegre para buscar o seu pai e levá-lo para comemorar, em Santa Catarina, o seu nonagésimo aniversário, que completaria nesta quinta-feira. Aparentemente, Jorginho, como era conhecido carinhosamente por seus colegas e amigos, aparentemente foi vitimado por um ataque cardíaco fulminante. Ao vê-lo a última vez, cheguei a pensar que o meu colega havia descoberto o elixir da eterna juventude. Prestes a fazer 90 anos, parecia ter pouco mais de 60, magro enxuto, disposto. Colorado, não perdia jogo do Inter e, pasmem, nem do Grêmio, desde que ambos não jogassem no mesmo dia.

 

Jorginho, que era o último ex-atleta vivo do Bambala, clube amador de Porto Alegre nos bons tempos dos campos de arrabaldes, começou sua carreira de jornalista em 1939, na Rádio Farroupilha. Teve passagens pelo Diário de Notícias, Zero Hora e Jornal do Comércio, em Porto Alegre; Jornal dos Sports e Globo, do Rio de Janeiro; Jornal da Semana, de Novo Hamburgo. Foi meu colega, na Guaíba, em 1958. Lembro-me que, quando Mendes Ribeiro era o principal narrador dessa Emissora, Jorginho tinha, nas nossas jornadas esportivas, uma única função: era ele quem informava as escalações das duas equipes e os nomes do árbitro e seus auxiliares. Jorge Marimon Mendes foi, também, presidente e vice-presidente da ACEG – Associação dos Cronistas Esportivo Gaúchos. Presto ao saudoso e insubstituível Jorginho minha última homenagem ao adotá-lo como “O Meu Tipo Inesquecível”.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)