A tragédia de Newtown

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Não sou a pessoa mais indicada, confesso, para falar de certos gostos dos americanos. Só estive nos Estados Unidos de passagem para o México, em 1986, escalado que fui para narrar a Copa do Mundo. Como quem de direito esqueceu de solicitar o visto no consulado dos EUA em Porto Alegre, talvez por imaginar que meus companheiros e eu apenas desceríamos em solo americano e embarcaríamos imediatamente para a capital mexicana, ficamos quarando horas e horas (não me lembro quantas, mas foram muitas) nas dependências do aeroporto de Miami. Nesse longo período, estivemos sempre acompanhados por um policial. A PF deles pôs somente agentes oriundos de Cuba e outros países de língua espanhola para ficar de olho em nós. Com esses conseguimos, pelo menos, conversar. Somente o Dante Andreis, representante da Rádio Caxias, saiu do aeroporto e deu uma banda em Miami.

 

Não deixa de ser uma terrível coincidência que a da última sexta-feira tenha sido a quarta tragédia do mesmo tipo acontecida durante o primeiro e ao iniciante segundo mandato de Barak Obama. A primeira foi a de 2009, em Fort Hood, no Texas, na qual morreram 13; a segunda, dois anos depois, em Tucson, no Arizona, em que as vítimas fatais foram 6; a terceira, que resultou em 12 mortes, enlutou Aurora, no Colorado. A de Newtown se tratou, entretanto da mais chocante, porque envolveu crianças, aluninhas da Sandy Hook Elementary School. Claro que não vou descrever aqui os detalhes do morticínio, porque dificilmente existe alguém que não tenha conhecimento do que ocorreu.

 

Não chega a causar espanto que, em um país no qual as armas são vendidas até em supermercados, como me lembrou o Mílton, meu filho, psicopatas de toda espécie tenham acesso fácil a elas. Para usarem-nas, sem dó nem piedade, quando lhes dá na telha, basta que sofram um ataque de loucura, o que não é incomum em gente com as faculdades mentais prejudicadas. Obama, a meu ver, tem de criar coragem para enfrentar os patrícios que adoram armas de todos os calibres. Chorar e solidarizar-se com os familiares das vítimas, como voltou a fazer agora em Newtown, não serve mais de consolo para quem sofre as consequências dos repetidos massacres. O Presidente precisa agir e enfrentar maníacos por armas como, por exemplo, esses caras da National Rifle Association que, diante da última tragédia, não fizeram qualquer manifestação. Seria por terem participado de inúmeras guerras que muitos americanos não conseguem viver desarmados?

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

5 comentários sobre “A tragédia de Newtown

  1. Milton pai,
    Acredito que o hábito do uso de armas vem do tempo da ocupação do Oeste norte americano. O velho FAR WEST.
    Além disso o lobby da industria de armas é notoriamente forte.
    Este histórico aliado ao bullying nas escolas é pura dinamite.

  2. Bom dia Milton,

    é isso mesmo Carlos, e usavam as armas para espantar os nativos que costumavam não reagir muito bem aos avanços dos novatos na terra.
    Milton, vou supor que 20% da economia americana venha da indústria das armas. Neste caso a tarefa já seria hercúlea para o presidente, mas imagine que seja mais que isso e o bicho mostra bem tamanho que tem.
    Fico me perguntando como a nossa bancada da bala estaria se preparando para os próximos movimentos da sociedade contra a, ainda pífia, atividade econômica dela aqui pelos nossos lados. Será se ainda vão insistir na propaganda da liberdade?
    Abraço forte e boas festas.

  3. Prezado Milton Ferreti, permita-me discordar um pouco de você. Não sou um defensor de armas, mas acredito que o assunto seja um pouco mais complexo do que apenas criticar os americanos por seu gosto belicista.
    Criticarmos o aceso fácil às armas, seria o mesmo que culparmos o sofá de casa por encontrarmos nossa esposa agarrada com um amante nele.
    Fosse o problema isso, como poderíamos explicar dois casos idênticos terem acontecidos no Brasil, um país com uma população exemplarmente pacifista, que não ousa troca uma guerra por um carnaval? Temos aqui no Brasil um caso num cinema de um shopping de SP em 1999 e outro na escola de Realengo no RJ em 2011? Não temos acesso fácil às armas no Brasil, mas mesmo assim tragédias desse tipo aconteceram.
    Agora, veja o exemplo Israel, onde praticamente todo cidadão possui uma arma em casa, que adquire quando presta o serviço militar obrigatório, por 2 anos, e lá nunca tivemos uma notícia sequer de um atentado dessa natureza (que fique claro, dessa natureza).
    Para mim, o grande problema desses atentados está no deficiente sistema público de saúde americano, que posso dizer tranquilamente que é tão ruim quanto o nosso, que não consegue identificar pessoas com desvio de comportamento e tratá-las adequadamente. O sistema de saúde deles, assim como o nosso, negligencia esses casos e os esconde debaixo do tapete. Preferem gastar recursos de outra forma.
    Com o tempo essa ‘economia’ (porca) reaparece na forma desses atentados.
    Tenho por mim que mesmo que seja dificultado o acesso a armas, esses atentados ocorrerão de qualquer forma, mas apenas de outras maneiras.

    • Alberto,

      Uma correção na sua metáfora: o sofá não mata ninguém; armas e balas, sim. Tanto quanto esta comparação, as explicações sobre os atos de violência no Brasil e nos Estados Unidos não podem ser simplificadas. Você tem razão, por exemplo, em apontar o sistema de saúde, e poderia incluir, também, os valores desenvolvidos na família e a educação oferecida. Mas, não há como negar, a permissividade americana é um componente importante na análise dos fatos. Ao permitir a compra de armas de assalto – como a usada por Lanza em Newtown – a atitude do matador foi facilitada. No Brasil, mesmo que a venda de armas seja desestimulada, tê-las, convenhamos, não chega a ser tarefa das mais complicadas.

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