"Um lugar para todos"

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Há muitas coisas sem as quais, hoje em dia,não conseguiria viver. Claro que não me criei usufruindo as satisfações e os benefícios que elas me trouxeram ao longo da minha vida. Já escrevi neste blog, por exemplo, que considero indispensável o telefone celular. Para mim, as facilidades oferecidas aos seus usuários por este aparelho, cada vez mais sofisticado, são infinitamente superiores aos incômodos que provoca. Antes que a telefonia móvel estivesse à nossa disposição, tudo era mais difícil. Como, porém, nem só de criações tecnológicas se sobrevive no dia-a-dia, existe um invento bem mais antigo que preenche as minhas horas de lazer e têm ainda muitas outras utilidades. Refiro-me aos livros. Minha vida não seria a mesma sem eles.

 

Comecei a ler muito cedo. No quarto da minha avó paterna, onde eu dormia na minha infância, meu pai mantinha um armário cujo conteúdo me atraía.Entre os que li com tenra idade,lembro-me até hoje, estavam alguns que papai jamais imaginara que pudessem chamar a minha atenção: O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós; |Zadig,novela escrita pelo filósofo Voltaire…e Minha Vida Sexual. Agora, entretanto, prefiro ler livros policiais e, não se espantem, de terror. Sou fã, entre outros autores, de Frederick Forsyth, Stephen King, Scott Turow, Ken Follett, Thomas Harris, James Patterson, Tom Clancy. Essa gente me acompanha no almoço, na janta e em diversos outros momentos.

 

A biblioteca que Maria Helena e eu montamos em nossa casa está recheada de livros. Não foi uma nem duas vezes que compramos obras que já possuíamos. Agora, enquanto aguardo a chegada de uma encomenda, resolvi ler um livro de uma escritora sobre a qual nunca ouvira falar: Thrity Umrigar. Ela é indiana, cresceu em Bombaim, mas mora atualmente nos Estados Unidos. O título original do livro que recém comecei a ler é Um Lugar para Todos ou, no original inglês, Bombay Time. Como está claro, a história tem Bombaim por ambiente. O primeiro personagem a surgir é um empresário que vai ao um casamento com sua mulher “A bem da verdade – escreveu Thrity Umrigar – ele nem queria ir ao casamento. Os mesmos convidados de sempre, as mulheres cravando seus olhos penetrantes nos dois…” Mais adiante, lê-se o que pensava o empresário sobre a sua cidade: “Quanto mais velho ficava, menos lhe agradava sair de casa, a não ser para ir à própria fábrica. A Bombaim da sua juventude – ao menos aquela que ele guarda na lembrança – dera lugar a uma cidade fétida, apinhada e sufocante, que lhe insultava os sentidos. Pôr os pés na rua equivalia a enfiar uma meia suja, malcheirosa, suarenta e pútrida. Quase em sequência, o homem continua pensando: “E, cada ves mais, a cidade – o barulho, a violência, a poluição, a sujeira – invadia sua casa. Diariamente o jornal aterrissava como um míssil na sua porta. Professora idosa morta em assalto. Ministro envolvido em escândalo financeiro. Ladrões Armados fogem depois de assaltar banco.”

 

Bombaim – lembro eu – em 2011 abrigava 12.478.447 habitantes. Esse número, hoje, deve ter crescido muito. O que Thrity Umrigar usou no seu romance “Um Lugar para Todos” vale para São Paulo, para o Rio de Janeiro, para a minha Porto Alegre e todas as grandes cidades do mundo. Se não forem buscadas soluções visando, pelo menos, a diminuir os nossos problemas, não sei aonde isso nos levará.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o pai dele)

Confusão com as malas da Copa (de 1974)

 

Por Milton Ferretti Jung

 


Vou contar, nesta quinta-feira, mais uma história de rádio. Gostaria de escrever sobre o que foi discutido pelos especialistas em mobilidade urbana, que estiveram em Porto Alegre na semana passada, representando vários países, para relatar o que foi feito nas suas cidades de origem visando a resolver os angustiantes problemas de trânsito. A nossa mídia, porém, tratou do tema apenas antes da realização do Congresso de Trânsito Idéias que Salvam Vidas.

 

Desde 1958, a Rádio Guaíba, com um ano de vida, transmitiu a sua primeira Copa do Mundo: a da Suécia. E deu sorte! Fomos campeões. Daí para a frente, a emissora rio-grandense esteve presente em todos os Mundiais. Como narrador, cobri a minha primeira Copa em 1974, na Alemanha. Lembro-me, como se fosse hoje, da viagem para a terra de parte dos meus ancestrais,os Jung. O comentarista Ruy Carlos Ostermann e eu embarcamos em Porto Alegre, rumando para São Paulo, de onde saímos em direção a Paris. Ali, trocaríamos de avião. Perdemos, porém, a conexão para Frankfurt porque o nosso voo chegou com atraso à capital francesa. Saímos a buscar um avião que nos levasse ao destino final. Pergunta daqui, pergunta dali, encontramos o que queríamos. Em pouco tempo, estávamos desembarcando na cidade alemã em que ficaríamos hospedados durante boa parte da Copa. Os primeiros jogos da seleção brasileira seriam disputados.

 

O nosso desembarque em Frankfurt ficou marcado pelo susto que o Ruy e eu levamos. Fomos para a esteira esperar a nossa bagagem. Malas e mais malas cruzaram à nossa frente, mas as nossas não apareciam. E tivemos de pegar um táxi portando somente a bagagem de mão. Depois de chegarmos ao hotel no qual os companheiros que nos precederam já estavam seguimos com eles para um jantar promovida pela FIFA. Minhas melhores roupas estavam na mala desaparecida. Passei o jantar inteiro constrangido por me sentir mal vestido, obrigado a continuar vestindo o terno que usara na viagem. Creio que com o Ruy ocorreu o mesmo. Dormimos preocupados. No outro dia, pela manhã, dirigimo-nos os dois para o aeroporto. Lá chegando, fomos ao depósito de bagagens não reclamadas. E lá estavam as nossas malas. Elas tinham seguido em outro avião, que não aquele em que fizéramos o trajeto Paris-Frankfurt, graças às etiquetas nas quais constava o nosso destino final. O nosso retorno ao Hotel Europe no BMW que a Rádio alugara para os nossos deslocamentos na Alemanha foi feito por dois radialistas sorridentes, bem diferentes dos que, um dia antes, haviam desembarcado imaginando que nunca mas veriam as suas malas.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Bons exemplos que podem salvar vidas no trânsito

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Os bons exemplos, venham de onde vierem e versem sobre o tema que versarem, deveriam ser sempre seguidos. O DETRAN do Rio Grande do Sul promoveu um evento, nesta semana, que trouxe a Porto Alegre autoridades de diversos países para ouvi-las discorrer acerca de trânsito. Refiro-me ao Congresso Internacional de Trânsito Idéias que Salvam Vidas. A iniciativa foi oportuníssima. Na Austrália, representada por Janet Dore, diretora executiva da Transport Accident Commission, a queda no número de mortos em acidentes caiu 60%, enquanto no Brasil, tivemos aumento de 25% na última década. Foram mais de 40 mil as pessoas vitimadas na trágica batalha travada em rodovias e áreas urbanas. A realização desse Congresso, em Porto Alegre, veio bem a calhar. Afinal, na capital gaúcha, são vistos, costumeiramente, nas nossas ruas e avenidas, motoristas despreparados ou tresloucados, conduzindo de maneira irresponsável os seus veículos, dos de duas rodas em diante.

 

Estou usando por base, neste texto, reportagem de Itamar Melo, publicada pelo jornal Zero Hora. Por falar em veículos de duas rodas, vem daí de São Paulo um dos bons exemplos, cujos resultados – os paulistanos devem saber melhor do que eu – se não são mais significativos, não é por falta de iniciativas das autoridades do setor. Desde 2005, para combater a mortandade de motociclistas, especialmente motoboys, foram oferecidos cursos gratuitos de pilotagem, teóricos e práticos. As empresas – e isso poderia ser feito em Porto Alegre – proporcionam aulas profissionalizantes e incentivos às que implantarem programas de prevenção.

 

Para resumir e não cansar a beleza dos raros leitores destas que costumo chamar de mal digitadas linhas, cito uma frase da campanha que visa a evitar tragédias, nas estradas, cometidas por quem bebe, lembrada pela australiana Janet Dore, diretora executiva da Comissão de Acidentes de Trânsito do Estado de Victoria: “Se bebe e depois dirige, você é um maldito idiota”. Já na Espanha, representada no Congresso, por Maria Segui Gomes, em 2003, o índice de mortes no trânsito era de 21,8 por milhão de habitantes. Em 2009, esse índice, que chegava a ser uma dos mais altos da Europa, havia caído para 5,9, poupando 10 mil vidas.

 

Preciso enviar este texto para o Mílton para que ele o poste no blog nesta quinta-feira. Estou digitando-o na terça-feira. Talvez possa voltar aos pontos altos do importante evento numa próxima quinta.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Da perna errada da mulher ao gesto certo dos catadores

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Duas notícias, por serem incomuns, chamaram, particularmente, a minha atenção. Confesso que me senti tentado a voltar a um assunto que já preencheu alguns textos anteriores por mim digitados para este blog: trânsito. Escrever sobre tal tema, porém, é chover no molhado. Torna-se repetitivo. Referindo-se a acontecimentos de segunda-feira, por exemplo, Zero Hora, na sua vigésima sexta página, pôs em manchete: ”Trânsito fatal. Dia trágico deixa dez mortos”. Trata-se isso de alguma novidade? Claro que não. Acidentes trágicos registram-se com indesejável frequência. Geralmente envolvem automóveis e caminhões. Com a chusma de veículos que circulam por este país, muitos comprados em longas prestações, acidentes graves já não são de espantar. Perdão. Passo de imediato para o que hoje fez a minha cabeça.

 

Maria Nunes da Silva, de 87 anos, quebrou a perna esquerda ao cair no pátio de sua casa. Esperou 13 dias para fazer uma cirurgia pelo SUS – que novidade! – a fim de corrigir a fratura. Enquanto aguardava, ficou internada no Hospital Municipal de Novo Hamburgo. A operação, depois da pressão feita por um de seus filhos para que o procedimento fosse realizado sem mais tardança, ocorreu na última sexta-feira. Cirurgia executada,foi colocada em sua perna uma placa de platina. Ao perguntar a uma enfermeira do bloco cirúrgico se estava tudo bem com a sua mãe, foi informado tinha dado tudo certo com a operação da perna direita de dona Maria. Perna direita?!? Caiu a ficha da família. A senhora idosa havia quebrado a perna esquerda e não a operada. Erro crasso! E eu me pergunto como um médico pode se enganar tão redondamente, logo ele que teve diante de seus olhos o corte cirúrgico que, imagino eu, não mostrava osso rompido na perna direita da paciente. O Hospital Municipal de Novo Hamburgo, em nota da sua direção,confirmou o erro. O prontuário indicava lesão no fêmur da perna esquerda. No dia seguinte, ou seja, no sábado, dia 8 do corrente, Maria Nunes da Silva teve operada a perna certa. “Falha Humana”, rezou a nota da direção. O caso foi parar na Delegacia Distrital de Novo Hamburgo.

 

Caso de polícia virou, também, o episódio protagonizado pelo casal de catadores de lixo que achou, em sacos, 20 mil reais roubados do restaurante Hokkai Sushi, aí em São Paulo (lembro que escrevo de Porto Alegre e, por isso, o aí), Rejaniel de Jesus Silva Santos e Sandra Regina Domingues, que andou sendo ameaçado de morte pelos ladrões. No Brasil, pelo jeito, ser honesto como esses dois, apesar dos maus exemplos dados por gente grandona de nossa República Federativa, é altamente perigoso. Ainda bem que os proprietários do restaurante assaltado, em razão das ameaças sofridas pelos dois honestíssimos atores deste episódio urbano, os colocaram em um hotel, ofereceram-lhes um curso de qualificação para trabalharem em uma das unidades da empresa ou, se preferirem, lhes darão passagem a fim de que se mudem para o Maranhão, onde vive a família de Rejaniel.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Há 48 anos narrando notícias no rádio

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Acredito que os leitores mais idosos deste blog (se é que tenho leitores) têm bons motivos para apreciar as histórias de rádio que, por sugestão do Mílton, venho contando em algumas quintas-feiras. Particularmente, é o assunto de que mais gosto. Vivencio-as desde 1954, data em que me atrevi a fazer um teste numa emissora que estava para ser inaugurada e buscava profissionais do ramo ou, no meu caso,de quem se dispusesse a passar da condição de ouvinte à de radialista, mesmo alguém cuja única experiência diante de microfones fosse mínima: era, na paróquia que frequentava, um “speaker” de esporádicas quermesses e cuja “rádio” se chamava Voz Alegre da Colina. No Colégio Nossa Senhora do Rosário, tradicional educandário marista de Porto Alegre, último dos muitos em que estudei, havia uma equipezinha de locutores que, antes das aulas, levava aos colegas todo tipo de informação que lhes pudesse interessar.

 

Havia, no mínimo, duzentos candidatos. No teste, tínhamos de ler anúncios e notícias. Depois, os candidatos recebiam folhas com a programação musical da Rádio Canoas. Queriam saber se a gente sabia pronunciar os nomes de músicas em diversas línguas. Três apenas foram aprovados. Um era radioator, outro trabalhara na Rádio Difusora, hoje Bandeirantes. O terceiro foi este “que lhes fala”. Fiquei por quatro anos na Canoas que, embora usasse o nome de um município da Grande Porto Alegre, sempre teve sua sede em Porto Alegre. Transferi-me, em 1958, para a Rádio Guaíba, emissora da Companhia Jornalística Caldas Jr., que foi ao ar com uma proposta diferente das suas concorrentes. Seus dez locutores comerciais (eram nove homens e um voz feminina) liam os textos ao vivo. Somente os programas de radioteatro – Mestre Estrela e Teatrinho Cacique e o Grande Teatro Orniex, esse apresentado aos domingos, eram gravados. A Guaíba (alguém me corrija se estiver enganado) não aceitava propaganda em jingles e spots. Era um grande diferencial. Fez diferença na época, igualmente, o fato de, em 1958, com pouco mais de um ano de existência, ter feito a cobertura da Copa do Mundo, disputada na Suécia. Seu diretor-técnico, Homero Simon, graças à sua “expertise”, criou um sistema que proporcionou à Guaíba a possibilidade de acompanhar a vitória Brasileira na competição, com narração de Mendes Ribeiro. Foi ele que me transformou em narrador de futebol e outros esportes. Eu tivera uma experiência em narração na Rádio Canoas. Transmiti um jogo entre o Cruzeiro e o Renner. Creio que vivi essa experiência em 1957. A partida foi disputada no Estádio da Montanha, onde se vê, hoje, o Cemitério João XXIII. Comecei a apresentar, na Guaíba, em 1964, o seu principal noticiário: o Correspondente Renner. Hoje,a síntese informativa é patrocinada pelo Banco Renner. Das suas quatro edições, me encarrego, hoje, apenas a da uma da tarde. Creio que nenhum apresentador de notícias está faz tanto tempo no ar quanto eu: 48 anos.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

A história de um radialista fugitivo

 

Milton Ferretti Jung

 

Esta é mais uma história de rádio. Sei que quando escrevo sobre tal tema garanto, pelo menos, o interesse de um leitor: o Mílton, comandante deste blog, cujo gosto por este veículo sem o qual, é voz corrente, brasileiro não vive, rivaliza com o meu. Aliás, ele me mandou um e-mail, um dia desses, sugerindo que, volta e meia, contasse minhas experiências radiofônicas ou as vividas pelos meus colegas de profissão. Então, aí vai mais uma por mim protagonizada.

 

Corria o ano de 1977,véspera de uma Copa do Mundo que seria disputada na Argentina. Nossa seleção, que não obtivera sucesso na anterior, com sede na Alemanha, precisou participar das Eliminatórias do Mundial, competição em que não estava se saindo bem. Fui escalado para narrar Colômbia x Brasil. Ser escolhido pelo chefe da equipe esportiva da Rádio Guaíba, Armindo Antônio Ranzolin, para narrar um jogo desta envergadura era um privilégio. Meus companheiros na viagem com destino a Bogotá eram o comentarista Ruy Carlos Ostermann, o repórter João Carlos Belmonte e o operador Ronaldo Krebs.

 

Deixamos Porto Alegre num voo que nos levou a São Paulo. Lá (ou aí, como queiram) embarcamos para o destino final: a capital colombiana. Depois de uma escala em Manaus, viajamos mais algumas horas até desembarcar em Bogotá, onde chegamos no dia 4 de fevereiro, uma sexta-feira. No aeroporto de Eldorado tive minha primeira experiência com os 2.591 metros de altitude desta cidade andina. Há quem fique com falta de ar. Não foi o caso de nenhum do nosso grupo. Fomos de táxi para o Tequendama, hotel de cinco estrelas, um luxo. Nossa estada em Manaus seria de vinte dias. A seleção brasileira marcou para o domingo, 6 de fevereiro, um amistoso contra o Millionários, na época um dos mais badalados clubes de futebol bogotano.

 

No sábado, à noite, saímos a caminhar e acabamos jantando numa boate de bom nível. Até então, eu não tivera qualquer problema com a altitude. Comemos bem e bebemos moderadamente. Afinal, não se pode cometer qualquer tipo de exagero em véspera de uma jornada esportiva internacional. Voltamos os quatro para o Tequendama. Era madrugada e acordei com o estômago que parecia ter virado ao avesso. Se estivesse no México, pensaria estar sofrendo do Mal de Montezuma. Diz a lenda que todo estrangeiro que visita a Cidade do México arrisca-se a sofrer dele. Acordei mal. Não quis almoçar. Fomos para o El Campin para cobrir o amistoso da seleção brasileira contra o Millionarios. Narrei o jogo sentindo-me como um condenado. Meus companheiros foram passear na noite dominical de Bogotá. Fiquei sozinho no hotel e aproveitei para telefonar à Varig. Perguntei se a empresa tinha voo na segunda para o Brasil. Tinha, mas eu fui posto na lista de espera. Trocamos de hotel. No apartamento deste, dei um susto no Ruy ao lhe informar que eu logo iria para o aeroporto disposto a retornar a Porto Alegre. Solidariamente, os outros três me acompanharam. Antes, porém, sem que eu soubesse,o Ruy telefonara para a Guaiba comunicando que eu retornaria.

 

Voltei. O Ranzolin pediu ao Antônio Britto, coordenador do esporte,que me convencesse a retornar a Bogotá. O futuro governador gaúcho teve sucesso na empreitada. No dia seguinte, voei de retorno. No dia 20 de fevereiro narrei o  zero a zero de Brasil e Colômbia. Meu castigo foi pagar a viagem de volta. “Al fin y al cabo”, não tive prejuízo. As nossas diárias eram excelentes. O Belmonte, que viajava muito a serviço da Guaíba, com o que poupou em diárias, conseguiu construir sua casa. Talvez eu escreva alguma história sobre o João Carlos Belmonte.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

15 quilômetros na contramão e sem fiscalização

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Levar-me de volta a um assunto sobre o qual já escrevi várias vezes neste blog – trânsito – só mesmo um fato inusitado e, ainda por cima, ocorrido em rodovias que passam pelo Rio Grande do Sul,de onde, se é que algum leitor ainda não saiba, envio os meus mal digitados textos para o Mílton. Rendeu manchete nos jornais de Porto Alegre e nos demais veículos de comunicação daqui a façanha do motorista de um automóvel Pálio que trafegou 15 quilômetros na contramão. Olhem que não cometeu a estrepolia dirigindo em estradinhas vicinais. Não, ele começou seu tresloucado passeio (ou coisa que o valha) dirigindo na BR-116, no trecho entre Porto Alegre e São Leopoldo, depois de ingressar na rodovia em Esteio, e conduziu o seu carro até as proximidades do aeroporto Salgado Filho. Por muita sorte, o único acidente cometido por Leo Deimling, 55 anos, aconteceu em Canoas. Uma motorista, que vinha para Porto Alegre, dirigindo em sentido correto, foi ofuscada pelas luzes do Pálio e, para fugir de uma batida frontal, jogou o seu carro contra uma mureta. Ela e seus caroneiros sofreram ferimentos leves. Daimling fez um retorno na altura do aeroporto e entrou na freeway na mão certa,mas deu meia volta e retornou a dirigir na contramão. Para não cansar a beleza dos meus raros leitores, como costuma acentuar o Mílton, acrescento que a saga perigosa vivida pelo contraventor ocorreu em hora de pouco movimento, seja na BR-116, seja na freeway, onde teve a sua trajetória bloqueada, finalmente, por uma viatura policial. Ao tentar desviar dessa, chocou o seu Corsa no guard-rail. Foi encontrada, no automóvel de Leo Deimling, uma lata de cerveja. O bafômetro acusou consumo de bebida alcoólica nove vezes acima do tolerado. Leo foi preso em flagrante por tentativa de homicídio doloso. Disse ter bebido uma cerveja e não queria acreditar que andara 15 quilômetros na contramão.

 

As câmeras, que controlam o trânsito, detectaram parte do temerário trajeto do protagonista dessa história real. Não seria o policiamento, tão bom e muito presente nos feriados prolongados,insuficiente nos dias úteis? Ou, quem sabe, no período em que o motorista faltoso andou na contramão – 1h45min às 2h – o efetivo policial não precisa estar mais presente? Perguntar, não ofende.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Por decreto: proibido ficar doente no feriado

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Não sei como as autoridades lidam com a saúde da população de baixa renda em São Paulo, mas imagino que o tratamento em todas ou, pelo menos, na maioria das cidades brasileiras seja semelhante. Faço questão de lembrar, volta e meia, que os textos que o Mílton publica nas quintas-feiras são enviados por mim de Porto Alegre, razão pela qual o que abordo neles geralmente se refere ao que ocorre no Rio Grande do Sul. No de hoje, apenas a introdução é da minha lavra. Mesmo sem ter pedido licença ao responsável por este blog, vou deixar que um médico, o Dr.Luís Schneider, ocupe o meu espaço com o seu desabafo. Esclareço que, como profissional de medicina, ele tem mais condições do que eu de criticar com conhecimento de causa, o ponto facultativo concedido pelo prefeito da capital gaúcha aos funcionários municipais, por ocasião do feriado de Corpus Christi. O título do seu texto é “Desrespeito por decreto”:

 

Assim é que o aviltamento do ser humano ganhou, definitivamente, o reconhecimento oficial. A autoridade constituída decretou que não há mais a menor necessidade de ser respeitada a condição de humanidade do cidadãos porto-alegrenses. Aliás, dos cidadãos pobres. Sim, porque, para os bem aquinhoados, que têm condições de manter planos de saúde para si e para seus familiares ou aqueles raros afortunados que dispõem de recursos financeiros para suprir, sempre que necessário, as despesas com a saúde. Esses não encontram dificuldades para obter consultas, exames e outros procedimentos médicos. Aqui, o canetaço suplantou a enfermidade ao determinar que o pobre não pode adoecer no feriado. E os postos de atendimento fecharam, como se não bastasse cerrarem as portas nos fins de semana. Tornou-se obrigatório, com isso, que não ocorram crises asmáticas, febres de quaisquer etiologias, infecções respiratórias, acidentes vasculares cerebrais ou outras patologias. A saúde é condicionada pela caneta do prefeito. Azar de quem agendou consultas, de quem veio de um município pequeno, gente que esperou meses ou até anos pelo dia marcado para ser examinado. Azar delas se perderam tempo e dinheiro em deslocamentos até as unidades de saúde fechadas em função do ponto facultativo. Azar que se sintam frustradas, humilhadas, pisoteadas. Quem se preocupa com esses pobres seres humanos? Como podem as mesmas autoridades que solicitam sejam os postos de saúde procurados a fim de que não fiquem sobrecarregadas as emergências dos hospitais, manter fechadas as unidades básicas aos sábados, domingos e feriados? Como a vida ser desrespeitada oficialmente, e por decreto.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Mais uma boa história do rádio

 

Por Milton Ferretti Jung

 

‘’Estou com o seu texto editado. Amanhã publico. Espero que sempre lhe falte assunto para a coluna. Assim você encontrará espaço para estas boas histórias de rádio”.

 

Este foi o teor do e-mail que o Mílton me enviou na última quarta-feira. Na verdade, quando sentei diante do computador para redigir o texto de quinta-feira estava em dúvida: trataria de um crime praticado com requintes de crueldade num município vizinho de Porto Alegre ou escreveria uma história de rádio. Elegi – e quem me leu sabe disso – escrever acerca de uma experiência vivida por mim na época em que a Seleção Brasileira se preparava para a Copa do Mundo de 1966. Creio que não tratar, nesta coluna, de um assunto escabroso, ultimamente muito explorado por todos os veículos midiáticos, valeu a pena. E tem mais: sugestão de filho, principalmente quando este é o responsável pelo blog, o pai aceita de muito bom grado. Sei que o Mílton, pelo menos,vai gostar. Então, vamos à história.

 

O comentarista Ruy Carlos Ostermann, este seu criado e o Celso Costa, técnico de áudio e, hoje, o mais antigo funcionário da Guaíba, uma vez que começou a trabalhar nela antes mesmo da sua inauguração, fomos escalados para fazer a cobertura de uma partida de futebol, em Minas Gerais, no Estádio Raimundo Sampaio, mais conhecido como Independência. Acompanharíamos o Grêmio que enfrentaria o Atlético Mineiro. Nossa viagem começou numa terça-feira em Porto Alegre, havia uma escala no Rio de Janeiro e trocaríamos de avião, no Aeroporto do Galeão, antes de seguir para Belo Horizonte. Tivemos,entretanto, que mudar de plano. A Cidade Maravilhosa estava coberta por névoa seca e nenhum avião decolaria naquele dia. O que fazer? Escolhemos pegar o Vera Cruz, magnífico trem que saía à noite do Rio e nos levaria numa viagem agradável até a capital mineira. Viajei muito de trem, na minha infância, entre Porto Alegre e Caxias, mas sempre durante o dia. Dormir numa cabina do Vera Cruz foi uma nova experiência, que eu gostaria de repetir. Isso, porém, é impossível. O trem com esse nome e as ferrovias são coisas do passado. Lamentavelmente.

 

Chegamos a Belo Horizonte na manhã do jogo. No fim da tarde, fomos para o Independência. Na época, a operadora que nos daria (?) condições de transmitir Atlético Mineiro x Grêmio era a RADIONAL. A EMBRATEL viria bem depois. A primeira providência que a gente toma ao chegar a um estádio é instalar a aparelhagem e, isso feito, entrar em contato com a rádio. A operadora, todavia, não conseguiu estabelecer a conexão. Tentamos utilizar a onda curta de 25 metros. Começamos a temer pelo insucesso da nossa cobertura. Os times entraram em campo. Não ouvíamos a Guaíba nos nossos fones. Em tais circunstâncias costumamos ligar o microfone e, na esperança de que estejam nos ouvindo na central técnica, avisamos que, após contar até dez, abriremos a transmissão. E foi o que fizemos. Realizamos a abertura habitual, anunciando as escalações das equipes, etc. A partida começou, o primeiro tempo terminou, começou o segundo e nada de ouvir-se o retorno nos fones do que se falava no microfone. Em voo cego narrei a partida até que, quando faltavam cinco minutos para o seu encerramento eis que uma voz, ouvida pela onda curta antes silenciosa, chegou aos nossos ouvidos. Não era, porém, a minha ou a do Ruy e sim a do colega Marcos Aurélio, em plena leitura do Jornal da Noite. O nosso voo não tinha apenas sido cego, mas mudo também.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

 

N.B: Quer ler outra boa história do rádio contada pelo Milton Ferretti Jung, clique aqui

Uma boa história do rádio

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Ao sentar diante do computador para digitar o meu texto das quintas-feiras fiquei em dúvida a respeito do assunto. Ocorreram-me,no mínimo, dois temas. Cheguei a pensar em escrever sobre a crueldade humana. Apenas o homem é capaz de ser cruel. Os animais, não. Sabemos que, mesmo os mais ferozes predadores, ao matar suas presas, fazem-no somente para sobreviver. Se não as devoram, morrem de fome. Não foi – nem poderia ser, claro – o caso da mulher que mandou matar o marido, confessou o crime e, apesar disso, foi solta um dia depois de ser presa. O triste episódio aconteceu em Cachoeirinha, cidade da Grande Porto Alegre. Era acerca da crueldade dessa mulher que pretendia escrever. Creio que, em boa hora, desisti.

 

Acabei optando pelo segundo assunto que tinha na cabeça. Faz horas que não conto histórias dos meus primeiros anos na Rádio Guaíba. Transferi-me para essa quatro anos após estrear no microfone numa pequena emissora, tão estreante no ramo quanto eu: a Rádio Canoas. O veículo rádio, naquela época, não tinha muito a ver com o de hoje. Entrei na Guaíba como locutor comercial (assim éramos chamados). O quadro contava com dez “speakers”, com vozes de quase idêntico padrão. Apresentávamos também os noticiários existentes no horário de trabalho. Cheguei a atuar como radioator. Mas essa parte talvez mereça outra história..

 

Não me lembro bem em que ano comecei a acrescentar às minhas funções a de narrador de futebol e outros esportes. O nosso diretor de broadcasting ou diretor artístico, como preferirem, era Mendes Ribeiro. Depois de testado por ele como narrador em jogos do campeonato gaúcho, escalando-me para relatar um tempo das partidas que, em Caxias do Sul, começavam meia hora antes das demais, me aprovou. Uma de suas idiossincrasias era o medo de viajar de avião. Nas eliminatórias da Copa do Mundo de 1958, Ribeiro preferiu ir de kombi a Assunção para transmitir Paraguai x Brasil. As condições das estradas, naquele tempo, eram horrorosas. A viagem demorou tanto que o nosso narrador número um por muito pouco não chegou atrasado ao Defensores del Chaco. Foi Mendes Ribeiro que, bem mais tarde, viajou, com este que lhes escreve, para Águas de Lindóia, a fim de transmitir um jogo-treino da Seleção Brasileira. Fomos de kombi, claro.

 

Em 1966, cobri os treinos da nossa Seleção, que se preparava para a Copa do Mundo. Conheci Lambari e Caxambu, pertencentes ao Circuito Das Águas de Minas Gerais. Estive ainda, na mesma cobertura, em Teresópolis, Macaé e Niterói. Foi lá que Alcindo, jovem centroavante do meu Grêmio, torceu o tornozelo, o que acabou prejudicando sua participação na Copa da Inglaterra. Nossa viagem com o Selecionado não foi nada fácil. Como não havia, na época, condições tecnológicas sequer semelhantes às de hoje, levávamos, no meio da Kombi, um transmissor pesado, conhecido por SSB – Single Side Band – cujas válvulas não eram confiáveis. Nossos técnicos precisavam adquirir dois postes de bom tamanho, em cada nova cidade por nós visitada. Montava-se sobre esses postes os cabos que, partindo do transmissor, levavam ao ar o som da Guaíba. No alto do Morro da Polícia, em Porto Alegre, um outro técnico era responsável pela manutenção da sintonia do SSB, muito delicada. Essa, se perdia ao menor descuido do operador. Confesso que, embora com todos os percalços de ordem técnica, por mim relatados, eu gostava bem mais do rádio de antigamente – e olhem que não sou saudosista – do que deste que temos hoje, repleto de avanços tecnológicos e ouvido, por mais distante de nós que esteja a emissora, com som local, pela internet. Ah, que saudade das ondas curtas com aquele som que ia e voltava, ia e voltava.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)