Por decreto: proibido ficar doente no feriado

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Não sei como as autoridades lidam com a saúde da população de baixa renda em São Paulo, mas imagino que o tratamento em todas ou, pelo menos, na maioria das cidades brasileiras seja semelhante. Faço questão de lembrar, volta e meia, que os textos que o Mílton publica nas quintas-feiras são enviados por mim de Porto Alegre, razão pela qual o que abordo neles geralmente se refere ao que ocorre no Rio Grande do Sul. No de hoje, apenas a introdução é da minha lavra. Mesmo sem ter pedido licença ao responsável por este blog, vou deixar que um médico, o Dr.Luís Schneider, ocupe o meu espaço com o seu desabafo. Esclareço que, como profissional de medicina, ele tem mais condições do que eu de criticar com conhecimento de causa, o ponto facultativo concedido pelo prefeito da capital gaúcha aos funcionários municipais, por ocasião do feriado de Corpus Christi. O título do seu texto é “Desrespeito por decreto”:

 

Assim é que o aviltamento do ser humano ganhou, definitivamente, o reconhecimento oficial. A autoridade constituída decretou que não há mais a menor necessidade de ser respeitada a condição de humanidade do cidadãos porto-alegrenses. Aliás, dos cidadãos pobres. Sim, porque, para os bem aquinhoados, que têm condições de manter planos de saúde para si e para seus familiares ou aqueles raros afortunados que dispõem de recursos financeiros para suprir, sempre que necessário, as despesas com a saúde. Esses não encontram dificuldades para obter consultas, exames e outros procedimentos médicos. Aqui, o canetaço suplantou a enfermidade ao determinar que o pobre não pode adoecer no feriado. E os postos de atendimento fecharam, como se não bastasse cerrarem as portas nos fins de semana. Tornou-se obrigatório, com isso, que não ocorram crises asmáticas, febres de quaisquer etiologias, infecções respiratórias, acidentes vasculares cerebrais ou outras patologias. A saúde é condicionada pela caneta do prefeito. Azar de quem agendou consultas, de quem veio de um município pequeno, gente que esperou meses ou até anos pelo dia marcado para ser examinado. Azar delas se perderam tempo e dinheiro em deslocamentos até as unidades de saúde fechadas em função do ponto facultativo. Azar que se sintam frustradas, humilhadas, pisoteadas. Quem se preocupa com esses pobres seres humanos? Como podem as mesmas autoridades que solicitam sejam os postos de saúde procurados a fim de que não fiquem sobrecarregadas as emergências dos hospitais, manter fechadas as unidades básicas aos sábados, domingos e feriados? Como a vida ser desrespeitada oficialmente, e por decreto.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

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