Desculpe-me se abuso de falar em trânsito

 

Por Mílton Ferretti Jung

 

Havia me programado para, tão cedo, não voltar a escrever sobre trânsito. Este propósito, porém, durou pouquíssimo. Bastou que eu abrisse os jornais do dia 22 de maio para mudar de ideia. Não digo que outros assuntos de terça-feira, data em que costumo digitar e enviar os meus textos para o blog do Mílton, não existissem notícias merecedoras de minha atenção. Por exemplo: o silêncio, aconselhado por seus advogados, do bicheiro Carlinhos Cachoeira diante dos parlamentares que pretendiam o ouvir na CPMI do Congresso Nacional; as repercussões, na mídia, das revelações de Xuxa, na edição do Fantástico do último domingo, dando conta dos abusos sexuais que sofreu na infância; o fato de, em Porto Alegre, um empregado de limpeza, terceirizado, ter atacado duas meninas, num quarto do Hospital Conceição; ou ainda, dentro do mesmo tema, no Rio Grande do Sul, estatística da polícia registrar que, do início do ano até o dia 8 deste mês, houve, 1.127 casos de abusos sexuais praticados por adultos.

 

Levam-me, porém, a sofrer uma espécie de recidiva, dois fatos que dizem respeito a trânsito. Abordo-os a seguir. Já era de impressionar o número de carros que entopem vias urbanas e, como não, as nossas rodovias, graças (ou desgraçadamente) aos juros baixos e prazos longos, oferecidos, tanto pelas concessionárias quanto pelos chamados picaretas. Agora, o Governo reduz impostos sobre carros (IPI) e crediários. Pretende com isso melhorar o desempenho da economia brasileira, que sofre o impacto da crise externa. Li num jornal que a pretensão governamental é “estimular a fraca economia do país”, mas essa frase me soa tão errada quanto à adorada pelos narradores de futebol, ao dizer que determinado time “corre atrás do prejuízo”. Que eu saiba, se corre apenas atrás de lucro. A Presidente,se ouvi bem notícia do Jornal da CBN, disse que a crise externa não nos afeta. Seja lá, só para exemplificar como for, veículos 1.0,que antes pagavam 7% de IPI, passam a ter custo zero. São esses os mais procurados pelas classes com menor poder aquisitivo e/ou que estejam comprando o seu primeiro carro e que veem na redução do imposto e dos juros a chance de realizar um sonho. Não vai demorar,o nosso trânsito ficará mais complicado.

 

Lembrei há pouco a frase “correr atrás do prejuízo”, eis que outra coisa não fez, nessa segunda-feira, um dos batedores da Polícia do Exército que integravam a escolta de motociclistas da Presidente Dilma Rousseff. Ele foi vítima de um acidente raro. Chocou seu potente veículo, na Avenida Castelo Branco, contra as traseira de um Meriva e foi hospitalizado com ferimentos graves. A assessoria de imprensa do Hospital Mãe de Deus informou que o piloto da moto estava em coma e era submetido a exames. A Rádio Guaíba apresenta alguns de seus programas do Estúdio Cristal, situado no térreo do edifício do Correio do Povo, vitrinas, geralmente ocupada por populares (o estúdio fica na esquina da Rua da Praia com a Caldas Jr.). Nele participo de um debate esportivo e, volta e meia, quando alguma autoridade – cônsules, por exemplo – é conduzida em automóvel, precedido por batedores, pilotando motos que descem a Caldas Jr. em alta velocidade, que eu considero abusiva, porque coloca em risco, pedestres, em especial, surpreendidos com o estardalhaço feito pelos motociclistas. Tenho ou não razão para trazer a este blog,com insistência, assuntos relativos ao trânsito? Espero não estar cometendo também um tipo de abuso. Pelo menos, se os pratico, não faço mal a ninguém.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Água mole em pedra dura

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Criei-me ouvindo esse provérbio da boca dos meus avós. Eles devem o ter escutado dos seus avós. Curioso, coloquei-o no Google para ver se esse sítio da internet, acostumado a responder a milhões de perguntas sobre as mais variadas questões levantadas por internautas do mundo inteiro, deixou-me a ver navios – este também não um provérbio, mas um dito popular cuja idade igualmente desconheço. Se é que alguém, talvez desavisadamente, começou a ler este texto, apresso-me a explicar por que lembrei o provérbio ancestral. Ocorre que, tal qual já fiz em mais de uma dessas quintas-feiras, inclusive na da semana passada, na qual escrevi acerca de uma ciclovia porto-alegrense que, antes de ser inaugurada, foi alvo de polêmicas, vou tratar outra vez de trânsito.

 

O jornal Zero Hora de sexta-feira passada, publicou excelente matéria sobre o assunto que tanto me preocupa. “Motoristas morrem mais aos sábados”. Essa foi a chamada de capa, seguida de um texto, em corpo menor, onde se lia que, das 482 mortes em acidentes no primeiro trimestre de 2012 no RS,117 ocorreram no último dia da semana. O número de acidentes com vítimas fatais vem subindo ano a ano. Com certeza, a quantidade crescente de veículos que enchem as rodovias federais, estaduais e municipais, principalmente nos fins de semana, é uma das razões da existência dessa trágica estatística. Eu diria que, além dos carros novos, cuja aquisição se tornou possível, em especial, devido às elásticas modalidades de prestações oferecidas pelas concesssionárias, existem, rodando por aí, principalmente nas estradas municipais, veículos usados, alguns apelidados de seminovos, dirigidos por “barbeiros” ou por irresponsáveis.

 

Há outras causas que se somam às por mim citadas. Zero Hora lembra que, sábado, é o “dia da balada”, em que muitos bebem. As estatísticas indicam também que 47,8% dos mortos aos sábados no primeiro trimestre de 2012 tinham entre 18 e 34 anos. ZH revela que, em abril, houve 29 mortes aos sábados, contra 7 às sextas-feiras e 20 aos domingos. O jornal lembra que o DETRAN contabiliza os mortos em hospitais até 30 dias após os acidentes. O que as autoridades podem fazer visando a diminuir esses malditos números? Fiscalizar, fiscalizar e fiscalizar, não só nas estradas, mas igualmente nas cidades. Encerro o texto como comecei: água mole em pedra dura tanto bate até que fura.

O símbolo da cruz vai além da religião

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Peço licença aos leitores deste blog para tratar de uma questão que, embora cause polêmica numa cidade gaúcha, talvez interesse, especialmente, aos leitores católicos. Aos que prezam as tradições do Rio Grande do Sul, com certeza, ficarão revoltados. Refiro-me ao ocorrido no município de Santo Ângelo, situado na encosta ocidental, região noroeste do planalto médio do estado, fundado em 1706 pelo padre belga Diogo de Haze. O então Sant’Angelo Custódio foi consagrado ao Anjo Custódio das Missões, considerado o protetor de todos os povos missioneiros. Não faz muito, causou espanto por aqui, a retirada dos crucifixos presentes nos prédios do Judiciário gaúcho por determinação do Conselho da Magistratura. Foi uma decisão unânime dos conselheiros, atendendo a pedido da Liga Brasileira de Lésbicas e entidades de defesa dos direitos dos homossexuais. A explicação para a atitude dos conselheiros não me convenceu: o estado é laico. Logo, não pode manter símbolos religiosos.

 

A mesma “justificativa” esfarrapada foi dada agora para a retirada da cruz missioneira da frente do quartel do 1o Batalhão de Comunicações do Exército, em Santo Ângelo, presente há 18 anos no local. A cruz missioneira ou cruz de Caravachia, foi trazida para o Rio Grande do Sul pelos padres jesuítas em 1626, durante a colonização do Brasil. Alegadamente, essa cruz teve origem numa espada usada pelos espanhóis durante as Cruzadas, na Idade Média. Já o tenente-coronel Luiz Carlos Damasceno, que o texto de Zero Hora, lido por mim, não esclarece se é o comandante do 1o Batalhão de Comunicações ou apenas um porta-voz do comando, tenta justificar a retirada dessa cruz, dizendo que, embora a fé seja valorizada pelos militares, o Exército é uma instituição laica e de todos. Prefiro ficar com a opinião da professora do curso de História da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões Nadir Damiani a respeito de mais esta polêmica provocada na cidade, que faz parte dos Sete Povos das Missões, pelos defensores do laicismo. Disse ela: “O símbolo da cruz vai além da religião. A cruz é uma referência à origem dos nosso povo, à nossa História”.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Cães, gatos e homens

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Em uma dessas quintas-feiras escrevi ou, se preferirem, digitei um texto no qual confessei que aprecio os animais, especialmente, é claro, os domésticos. Entenda-se, como tal, cães e gatos. Não esqueci que uma leitora do blog ficou braba comigo porque, ao tratar de gatos, acentuei que esses são interesseiros, o que não chega a ser uma ofensa à classe dos bichanos. Foi, isto sim, uma constatação que fiz, fruto da minha longa experiência com felinos domésticos e, de maneira alguma, diminui a minha admiração por eles. Minha gata Micky, dona de um pelo negro e volumoso por ser, provavelmente, resultado do cruzamento de uma angorá com um gato preto sem raça definida, visita o meu quarto, pela manhã, e mia até que eu acorde e lhe faça carinhos. Depois de ser alimentada por mim ou por Maria Helena, minha mulher, com miados exigentes, pede que um de nós abra a janela do living para que ela ganhe a rua de onde volta correndo se vê pessoas estranhas. Isso me deixa tranquilo quanto à sua segurança. Fosse mansinha, se deixaria pegar. Antes dela, tive o Sammy, um gatão legal, que desapareceu sem deixar rastros. Creio que foi morto. Sinto saudade dele até hoje.

 

Gosto tanto de gatos quanto de cães, mas Maria Helena não compartilha deste gosto. Consolo-me ao visitar minha filha. Ela divide o seu apartamento com Malu, uma lhasa dominadora, que adora crianças e pára a fim de olhar meninos que andam de skate. Por falar em cães, chamou-me a atenção um artigo publicado na edição de Zero Hora, dessa segunda-feira, pelo Presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Civil de Porto Alegre, Valter Souza. O título do artigo é “A morte do cachorro e do trabalhador”. Ele começa lembrando a execução de uma cadela pitbull por um vigilante do Hospital Universitário da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, fato ocorrido no dia 6 de abril e que ganhou grande repercussão na mídia e nas redes sociais, retratando a comoção dada a agressividade do ato. Valter Souza concorda que as pessoas fiquem revoltadas diante de episódios como o lembrado, mas compara a repercussão desse com as mortes de cinco trabalhadores da construção civil, em Porto Alegre. Salienta que “infelizmente, tais mortes não são focalizadas a partir da dimensão humanas dessas tragédias”. E pergunta: “Se nos revoltam tiros que matam um cachorro, por que não bradar contra o risco de vida diário em obras que alicerçam o crescimento das cidades, porém cuja execução feita com a imprevidência que custa a vida humana?”. E acrescenta Valter Souza: “A ira da comunidade e dos familiares dos mortos em acidentes de trabalho deveria merecer mais atenção da mídia, das autoridades e do cidadão que desabafa nas redes sociais. Conclui com esta frase:”Quando isso acontecer e melhorarem as condições gerais de trabalho, o respeito aos direitos básicos dos trabalhadores e a civilidade, certamente os fatos serão retratados com a dimensão real e não midiática”. Por mais que goste dos animais, assino embaixo.

Milton Ferretti jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton jung (o filho dele)

Excessos na direção e na fiscalização

 

Por Milton Ferretti Jung

 

O trânsito é um tema que se tornou recorrente nos meus textos. Quem me acompanha nas quintas-feiras, mesmo não sendo leitor assíduo, deve ter-se dado conta da minha preocupação com a matéria. Aqui no Rio Grande do Sul, de onde escrevo, as autoridades às quais cabe a difícil missão de cuidar do comportamento de motoristas, motociclistas e ciclistas, em especial nos feriados prolongados, pródigos em acidentes, muitos deles trágicos, costuma agir com mais rigor do que em épocas normais para coibir abusos, principalmente os dois piores, isto é, a velocidade excessiva e a embriaguês. Imagino que tal procedimento seja idêntico nas principais rodovias do país.

 

No feriado de Páscoa, deixaram Porto Alegre cerca de 180 mil veículos, em migração que começou na última quinta-feira. Envolveram-se na Operação Viagem Segura, Brigada Militar (é como chamamos a Polícia Militar), Comando Rodoviário da BM, Polícia Rodoviária Federal, além da Polícia Civil e, claro, da Empresa Pública de Transporte e Circulação. Mesmo com todo esse controle, verificaram-se 1.071 acidentes nas estradas gaúchas. Morreram nesses 15 pessoas e 548 resultaram feridas. Pelas contas do DETRAN (Departamento Estadual de Trânsito), o número de acidentes, em comparação com os feriados anteriores, teve redução de 46 por cento, sinal de que o trabalho das autoridades foi bem feito e seria completamente louvável se, no retorno a Porto Alegre, os motoristas não fossem surpreendidos com aquilo que considero o tipo de “cuidado” desnecessário.

 

Ao chegarem à capital do Rio Grande do Sul, depararam-se, para desespero geral, com blitze policiais nas duas principais entradas da cidade. O resultado delas, como não poderia deixar de ser, foi um congestionamento fantástico, algo que aí em São Paulo é habitual, mas ainda causa revolta aqui. Eu gostaria de saber que cabeças decidiram realizar blitze na chegada de um feriadão. Alessandro Barcellos, Diretor-Presidente do DETRAN, entende que todo o processo de fiscalização pode trazer algum tipo de inconveniência. Põe inconveniência no que ocorreu nesse domingo. Barcellos tranquiliza, porém, os motoristas que se não houver avaliação positiva do episódio – creio que não haverá – não há razão para que tal tipo de blitze volte a interferir no trânsito.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Demóstenes Torres, o senador ganancioso

 

Por Mílton Ferretti Jung

 

Meu assunto de hoje é a ganância. Escrevo inspirado nesta frase: ”Não se admite que os destinos da nação (o cacófato danação foi cometido pelo autor) possam ser geridos por representantes que não possuem conduta adequada à dignidade das relevantes funções públicas”. Quem costuma acompanhar o noticiário sobre a política brasileira está, com certeza, muito bem informado sobre a imensa contradição entre o que aparentava ser o senador Demóstenes Torres e o que se ficou sabendo dele, agora, para espanto geral. Demóstenes, relator da Lei da Ficha Limpa, deu à luz à frase com a qual abri o meu texto, usada por Ophir Cavalcante, presidente da OAB, autor do livro Ficha Limpa: a Vitória da Sociedade, obra prefaciada pelo senador, que se danou por ser amigo do bicheiro Carlinhos Cachoeira “y otras cositas más”, por exemplo, o fato de o Procurador de Justiça, professor e advogado, senador da República, abrigar em seu gabinete servidores fantasmas.

 

É de se perguntar o que leva muitas pessoas com vida mansa, sem problemas financeiros ou de qualquer outra ordem, a querer enriquecer sempre mais e mais, demonstrando ambição exacerbada de ganho, esquecendo-se que, de repente, a sorte pode mudar de lado, tal qual ocorre, neste momento, com o antes impávido cavaleiro da moralidade Demóstenes Torres. A ganância ilimitada, que maculou muitos políticos brasileiros, inclusive ministros, por se tratar de quem se imaginava que fosse, tornou maior o descrédito já volumoso que vem denegrindo a classe. Salve-se dele, descrédito, quem puder. E não for ganancioso.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Minha cidade adotiva faz 240 anos

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Permitam-me que escreva sobre uma cidade que está completando 240 anos, fundada que foi por açorianos em 1772. É de onde envio todas as quintas-feiras esta coluna para o blog do meu filho. Quem vem me concedendo um pouco do seu tempo para ler as que, no passado, eu próprio chamaria de mal traçadas linhas, sabe a qual aniversariante me refiro. Já para quem me acompanha pela primeira vez, informo que Porto Alegre é o meu assunto de hoje. Minha relação com esta que é uma das principais metrópoles do país começou há 76 anos. Nasci em Caxias do Sul, na casa dos meus avós e onde nasceu e morou minha mãe e seus dez irmãos. Nunca perguntei aos meus pais, falta de curiosidade da qual me arrependo até hoje, com quantos dias de vida me trouxeram para Porto Alegre. Creio que dificilmente tenha passado de uma semana. Fotos em preto e branco confirmam que o meu primeiro aniversário foi festejado na Rua Conselheiro Travassos, bairro da zona norte. Em outra fotografia, apareço sentado na janela da frente da primeira casa em que morei na capital gaúcha, a poucos metros da rua inundada pela cheia de 1936, do Guaíba, rio que, de repente, passaram a chamar de lago. Esta foto foi tirada em setembro, um mês antes que eu completasse um ano.

 

Tirante o ano e meio que sofri num internato na cidade de Farroupilha, por sinal, apenas 18 quilômetros distante de Caxias, foi em Porto Alegre que estudei até conseguir o meu primeiro emprego como radialista, profissão que exerço ainda hoje. Foram quatro anos na Rádio Canoas e depois, na recém inaugurada Guaíba, com passagem pelo Canal 2. Como jornalista escrevi colunas esportivas no Correio do Povo e na Folha da Tarde. Integrei, também, os departamentos de criação de três agências: Standard, Publivar e Idéia.

 

Não imaginem que, ao fazer este relato, esqueço que sou caxiense de nascimento. Tenho muita saudade da Caxias dos meus avós, da minha mãe, dos meus tios e inúmeros primos. Visitei-a incontáveis vezes, inclusive em campeonatos gaúchos, como narrador da Rádio Guaíba. Foi lá até que fiz minhas primeiras narrações esportivas. Mendes Ribeiro, meu chefe, escalava os neófitos para narrar os jogos disputados lá, que começavam meia hora antes que os de Porto Alegre. Tal qual fez o meu filho que, tendo desembarcado em São Paulo em 1991, virou paulistano de coração por vários e bons motivos que ele mesmo não cansa de repetir, eu adotei Porto Alegre e Porto Alegre me adotou. Afinal, por iniciativa de um de seus vereadores, o saudoso Isaac Ainhorn, falecido em 2006, tornei-me Cidadão Honorário de Porto Alegre e, nesta semana, em que minha cidade adotiva festeja seus 240 anos, torço para consiga resolver,mesmo que paulatinamente, os problemas que todas as grandes cidades não podem se furtar de enfrentar.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Crucifixo crucificado

 

Por Milton Ferretti Jung

 

A decisão do Conselho de Magistratura do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, obrigando a retirada dos crucifixos dos prédios do Judiciário, era de se imaginar, como qualquer medida capaz de provocar polêmica, e essa foi uma delas, ganhou grande repercussão não digo em todo o estado, mas, pelo menos, na capital gaúcha. Lembro que a crucificação dos crucifixos – e não vejam aí um pleonasmo – acolheu, lembro, solicitação da Liga Brasileira de Lésbicas e entidades de defesa dos homossexuais. Católicos e evangélicos praticantes, que levam a sério a religião, estão, com certeza, entre os que nunca viram qualquer problema nem nunca se sentiram mal ao se deparar com a imagem de Jesus no ápice do seu calvário.

 

É claro que li nos jornais manifestações favoráveis à retirada dos crucifixos. Houve um magistrado, cujo nome não lembro, que citou até mesmo os desmandos cometidos por uma Igreja extremamente preconceituosa e cheia de pecados, na época da “Santa Inquisição”, visando a defender a atitude de seus colegas. Vi, entretanto, em compensação, dois desembargadores, entre muitos outros, frontalmente a favor da permanência das esculturas. Resumo-as, começando com a de Carlos Marchionatti:

 

“O crucifixo, no âmbito do Judiciário, representa a Justiça e o Justo. Cristo foi um homem justo, como devem ser os juízes”

 

O desembargador Alexandre Moreira, ouvido pelo jornal Zero Hora, disse não ver porque retirar, pois mais que um símbolo religioso, a cruz é um lembrete aos juízes para que não se precipitem ao julgar. Precipitação, concluiu, como a de Pilatos com Cristo, que acabou crucificado no lugar de um assassino, Barrabás. Paulo Brossard, ex-ministro da Justiça, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, ex-senador e ora advogado, lembrou que Cristo foi julgado três vezes, três pelos romanos e três pelos judeus, sem que fosse obedecido o rito processual. Pôncio Pilatos, para Brossard foi um juiz covarde, lavou as mãos na hora de decidir. A entrevista foi concedida ao jornal ZH quando da visita do jurista Paulo Brossard ao arcebispo Dom Dadeus Grings.

 

O jornalista Flávio Tavares, também na ZH, no último domingo, ao escrever sobre o assunto, pergunta com muitas propriedade: “Desejarão as lésbicas repetir a intolerância de que foram vítimas?” Para Tavares, ”dizer que somos um Estado laico que não admite símbolos religiosos é falso e inadmissível. A ser assim, teríamos de terminar com o Natal e os feriados religiosos que pululam no calendário”. Se alguém estiver estranhando que preenchi meu espaço com opiniões alheias, lembro que já dei a minha, sem a brilhante argumentação, é claro, das que reproduzi nesta quinta-feira. Se isso me redime, digo a quem interessar possa, que as assino embaixo.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quntas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Cruz credo, más notícias

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Das múltiplas informações que me chegam pela mídia,pelo meu PC e por tantos outros meios ao alcance das pessoas, hoje em dia, existem algumas que me irritaram profundamente, outras que me estarreceram. Vou citar três para não extrapolar o espaço que o Mílton, bom filho que é, me reserva em seu blog nas quintas-feiras. Em férias, não enviei textos nas duas últimas. Sei que ele, porque avisado por mim, se deu conta de que eu não compareceria.Se mais alguém notou minha breve ausência, agradeço.

 

Vou enumerá-las em ordem inversa. Ouvi, na manhã de hoje, ao acompanhar, como faço sempre, as notícias locais do Jornal da CBN, além é claro, das do restante do Brasil e do Mundo,apresentadas pelo meu filho, que foram 19 as vítimas fatais de acidentes de trânsito registrados apenas nesse fim de semana aqui no Rio Grande do Sul. Este número é maior do que as ocorrências deste tipo que se verificaram durante o prolongado feriado do carnaval. Não pretendo ser injusto com as Polícias Federal e Estadual às quais está afeta a segurança das rodovias gaúchas. Creio que a redução do número de acidentes nos feriados mais longos se deve ao aumento dos efetivos das duas polícias, o que facilita a fiscalização, seja a feita com radares, seja as que preveem, em determinados locais, a vistoria de veículos. Estamos todos cansados de saber que, com o crescimento estupendo do número de carros, muitos saem para as estradas sem as melhores condições e, outos tantos, dirigidos por neófitos, com experiência zero em rodovias. Seria interessante que o policiamento nas estradas federais e estaduais fosse, pelo menos nos fins de semana, parecido com o que é programado cuidadosamente para os feriados prolongado.s Não reparem se não uso o termo feriadões, que acho um aumentativo horroroso, pura mania de grandeza de quem se serve deles.

 

Embora eu seja velho e digite debaixo do peso de meus 76 anos, revolta-me saber que todos os aviões que transitarem nos céus deste país deverão oferecer, a cada voo, dois assentos gratuitos para velhos com mais de 65 anos e renda de até dois salários mínimos. Isso se for aprovado o demagógico projeto do senador Vital do Rêgo (PMDB-PB). O projeto prevê outras asneiras. O pior dele é que, se entrar em vigor, ”jovens de 15 a 29 anos” (agora um cara com 29 anos é jovem. Se fosse profissional de futebol seria considerado semiveterano). Esta é a tal de “bolsa-avião”, como se já nas bastasse as demais criadas pelos último governos.

 

Prometi tratar de três notícias que, para mim, foram, no mínimo, desagradáveis. Esta eu li no dia 22 de fevereiro, por infeliz coincidência quarta-feira de cinzas, o início da quaresma. Prédios da Justiça do Rio Grande do Sul não poderão mais ostentar crucifixos nas suas paredes, uma decisão do Conselho da Magistratura do Tribunal de Justiça. Tenho ganas de escrever “justiça”. O TJ atendeu solicitação da Liga Brasileira de Lésbicas e de grupos de defesa dos direitos dos homossexuais. Foi chutada, escorraçada a botinadas, uma das mais puras tradições do nosso estado. A quem faz mal, num tribunal, olhar para um crucifixo? Nunca a presença de um emblema como este causou qualquer espécie de constrangimento a não ser para quem possui, para tal, razões que fogem ao meu envelhecido e revoltado alcance. A desculpa absurda é que respeita a diversidade de religiões. E li isso de um jesuíta. Deus me livre de precisar entrar num tribunal gaúcho. A militância anticristã está em festa, escreveu o advogado e jornalista Cleber Benvegnú,na Zero Hora do dia 8 do corrente. E eu concordo.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)