Meu filho, o rádio e o futebol

 

Por Milton Ferretti Jung

Meu filho, o Christian, também tem um Blog, como o Mílton, mas, se o deste é quase que totalmente dedicado às coisas de São Paulo, tirante o espaço chamado Avalanche Tricolor, invariavelmente postado após jogos do seu Grêmio (nosso, aliás), e este que escrevo todas as quintas-feiras, o do caçula dos irmãos Jung trata de um objeto de sua paixão. Basta que eu diga o nome do blog para que fique claro aos pacientes leitores que me concedem sua atenção qual o principal assunto abordado nele: MacFuca. Sugiro a quem gosta de carros antigos,especialmente os da marca Volkswagen, que tiveram sua época no Brasil e no mundo, que dêem uma olhadinha no MacFuca.

Toda regra tem a sua exceção,diz um adágio mais velho do que eu. O MacFuca não fugiu dela. Às vezes, além de falar em fucas, no seu e nos alheios, escreve sobre o seu pai. Afinal, se existem pais corujas, há filhos que também são. Quem se der ao trabalho de ler o desta semana vai encontrar uma história que começa com um crachá, no qual se vê uma foto de um jovem de 18 anos (os narradores de futebol diriam que se trata de um garoto) que chegava ao seu segundo emprego. Saíra de uma pequena rádio e buscava espaço em outra que, embora ainda sem ter completado um ano, já podia ser considerada grande, uma vez que pertencia a uma empresa importante no Sul: a Companhia Jornalística Caldas Jr. e, de certa forma, herdava a tradição desta: a Rádio Guaíba.

A história só começou pela imagem do crachá, para ilustrar o texto do Christian. Mais abaixo, está uma foto de um rádio que pertencera ao avô paterno do…meu filho. Os leitores, sempre sagazes, já descobriram, é claro, quem era o jovem da fotografia. Quanto ao rádio, tinha Wells como marca. Quem o olhasse por detrás, veria que possuía uma entrada para toca-discos. Nesta, resolvi introduzir um fone e descobri que podia o usar como se fosse um microfone. Daí a passar a narrar as partidas de futebol-de-mesa dos meus amigos, em minha casa, foi um pulinho.

Fazia, sem me dar conta, minha primeira experiência “radiofônica”, muito distante ainda do teste que acabei realizando, com sucesso, na Rádio Canoas, em 1954. Quatro anos depois,estreava na Guaíba. Nesta, fui locutor comercial, radioator, apresentador de notícias e narrador de futebol.

Em 1964,o então chefe do Departamento de Notícias me escolheu para apresentar a síntese informativa mais importante da Emissora – o Correspondente Renner – que esteve presente na programação da Guaíba desde a sua inauguração. Como escrevi na quinta-feira anterior, já com outros patrocinadores a partir de 1999, o ciclo foi interrompido e só retomado, para minha alegria, nessa segunda-feira, 2 de maio, conforme anunciei que seria, aqui neste meu espaço.

Choveram e-mails e torpedos de ouvintes que se confessavam saudosos do Correspondente e, a modéstia que, desta vez, se dane, deste locutor que, neste momento, não lhes fala, mas escreve, tomado por insopitável prazer.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

A volta da síntese noticiosa

 

Por Milton Ferretti Jung

Dia 30 de abril de 2010. Saía do ar, nesta data,o Correspondente Renner, síntese informativa que vinha sendo irradiada desde a fundação da Rádio Guaíba e era um marco na programação da emissora. Ao deixar de ser apresentado já não tinha a chancela de seu primeiro patrocinador. Este, porém, quando alguém fazia referência à síntese informativa, geralmente continuava sendo citado. O nome – Correspondente – e o sobrenome – Renner – permaneciam na cabeça dos ouvintes, que teimavam em não se acostumar com as novas e mais recentes denominações do noticiário. Com Renner a patrociná-lo, o noticioso teve quatro apresentadores: Ronald Pinto, Mendes Ribeiro, Ênio Berwanger e este seu criado.

Vou ter de falar, com a devida licença dos leitores, na primeira pessoa. Explico: comecei a apresentar o Correspondente Renner em 1964 e cumpri esta agradável tarefa até a sua penúltima edição, da qual não fui o apresentador, o que me poupou uma leitura que faria, provavelmente, com imensa tristeza. Afinal, cheguei a ser o locutor que, no Brasil, permaneceu mais tempo apresentando o mesmo noticiário. Eron Domingues e Lauro Hagemann, locutores do Repórter Esso, aquele no Rio, este no Rio Grande do Sul, síntese que balizou o Renner, marcaram época na radiofonia brasileira, mas ficaram no ar menos tempo que eu. Confesso que ambos foram meus mestres. No início, tentava imitá-los,o que durou até encontrar meu próprio estilo.

No próximo dia 30, data do quinquagésimo-terceiro aniversário da Rádio Guaíba, o Correspondente estaria de aniversário. Eu escrevi estaria? Ledo engano. Vou revelar agora o motivo pelo qual, data vênia do responsável por este blog, meu filho Mílton Jung, estou tratando de um assunto que, embora possa parecer estranho aos paulistas, toca-nos – a mim e a ele – muito de perto, uma vez que eu ainda sou locutor da Guaíba e o Mílton começou nela sua exitosa carreira radiofônica.

Há menos de um mês,Solange Calderon,Diretora de Programação da Rádio,convocou-me para dar-me uma notícia das mais alvissareiras: o Correspondente voltará ao ar um ano e dois dias depois de ter deixado a programação da Guaíba.E,praticamante,nos mesmos moldes dos bons tempos. E com o mesmo nome porque patrocinado pelo Banco Renner.

Os alunos de jornalismo gaúchos – o Mílton e a nossa Diretora estiveram entre eles – poderão, novamente, escolher como tema para o trabalho de encerramento do curso, o Correspondente Renner. Tenho certeza que os ouvintes desta síntese informativa,os antigos, que se diziam saudosos dela, e os que aprenderão a apreciá-la por sua credibilidade, serão nossos ouvintes, de segunda a sábado, às 09h, 13h, 18h50min e 20h.


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Os animais e estes homens exagerados

 

Por Milton Ferretti Jung

Sou telespectador assíduo dos “sites” (ou, se preferirem, sítios, em bom português) que têm como tema a vida dos animais. Assisto até mesmo àqueles que mostram os grandes predadores e os peçonhentos das mais diversas espécies. As emissoras, que se dedicam a pôr na tela esses “artistas” das selvas, os perigosos em especial, permitem-me que os veja sem experimentar temor algum. Digo isso porque sei de muita gente que sequer aceita olhar os bichos ferozes, embora sabendo que, na televisão, sejam completamente inofensivos.

Não vá, contudo, alguém pensar que somente os mais brabos, os que possuem dentes enormes ou venenos fatais, me empolgam. Os mansos, como cervos, gazelas, zebras, certos macacos (orangotangos fora), agradam-me também. Olho com simpatia, igualmente, todas as aves, inclusive as de rapina, apesar de que se incluam na classe dos predadores. Não sei de nenhuma dessas que seja hostil aos humanos.

Até aqui tratei dos animais que vemos apenas pela televisão e em alguns raros zoológicos. Gosto, entretanto, de fato, dos domésticos: os cães e os gatos. Nos meus 75 anos de vida tive vários de ambas espécies. Contento-me, hoje, com uma gata preta e boa companheira. Por mim, teria também um cão. Estes, todavia, dão mais trabalho que os gatos, não há quem não saiba. Enquanto os cães dependem dos seus donos, os gatos prezam a liberdade. Chama-se um cachorro pelo nome, e ele atende. Gato só obedece ao chamado se é do seu interesse.

Ao abordar os animais, neste texto, preciso confessar que me irrito quando vejo que eles se tornam alvo de exageros.  Estes são cometidos de diversas maneiras. Fala-se muito em atitudes politicamente corretas e/ou incorretas.Um exemplo desta última li no site terra.com.br. A manchete me chamou a atenção: “ Uso de pele de animal em coleção da Arezzo causa indignação na internet”. Eis o que está no primeiro parágrafo da notícia: ”A marca de acessórios Arezzo se encontra em uma polêmica que lhe rendeu, na tarde de segunda-feira (18), o primeiro lugar nosTrending Topics brasileiro (os assuntos mais comentados no microblog Twitter).  A coleção PeleMania, lançada na quinta-feira (14), que tem como material  peles de raposa e coelho para confecção de sapatos, bolsas e echarpes, causou fúria nos internautas”. Eu acrescento, somente, justa indignação.

Dou outro exemplo de exagero. Valho-me também da manchete da notícia divulgada pelo Jornal Zero Hora: “Bichos do minizoo serão levados para Santa Maria”. O local,situado no Parque da Redenção, vem fazendo há muitos anos a alegria de crianças em Porto Alegre. Araras, ratões-do-banhado, jabutis e micos-prego viajarão para longe porque Prefeitura, Ibama e entidades que defendem o direito dos animais entendem que o minizoo é inadequado devido ao barulho e à poluição. É ou não uma demasia que sejam retirados do Parque por essas “razões”.

A estes exageros se pode acrescentar o da frase “quanto mais conheço os homens, mais gosto dos animais”. Vá lá que gosto seja gosto, mas, convenhamos, nem tanto ao mar nem tanto à terra.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (o pai dele)

Os caminhos de Buenos Aires

 

Ciclofaixa em Buenos Aires

Por Milton Ferretti Jung

Minha mulher e eu estivemos, desde domingo, dia 3 de abril, visitando Buenos Aires, para onde temos ido quase todos anos. Graças ao fato de estarmos no vigésimo-sétimo andar do hotel em que nos hospedamos, com vista, a partir da Avenida Corrientes, para boa parte da cidade, constatei que, apesar das queixas dos portenhos, lá o trânsito apenas tende a ficar congestionado quando piqueteiros de todos os credos realizam suas manifestações.

Aliás, a Presidenta da República Cristina Fernandez de Kirchner costuma incentivar algumas dessas manifestações. Faço um parênteses a fim de esclarecer que, para os argentinos, há presidentes e presidentas, enquanto para nós,brasileiros, o certo é chamar o primeiro mandatário da nação de presidente, seja qual for o seu sexo. Lembro que Isabelita Perón foi a primeira presidenta deles. Então, neste particular, se nos fixarmos somente em números.os “hermanos” estão a nossa frente.

Volto ao meu assunto: trânsito. É claro, em horários de pico, o fluxo de veículos se torna mais denso, o que é absolutamente normal. O desenho de Buenos Aires é muito melhor que o de São Paulo, uma das razões para que os problemas sejam menores que os vividos pelos paulistanos.

Nas outras visitas que fiz a Buenos Aires não notei que as autoridades se preocupassem (posso estar iludido) com a criação de “bicisendas”, o equivalente as nossas ciclovias. Agora, entretanto, fiquei surpreendido com a existência de “bicisenda” numa das transversais da Corrientes, a Suipacha. Plantaram na rua árvores que estão ainda em fase de crescimento. Esta via é estreita. Há ônibus que descem pela Esmeralda e subiam pela Suipacha. Estes são obrigados, agora, a fazer uma volta bem maior para que cheguem ao seu destino.

Outro problema que constatei é que os ciclistas, em sua maioria, aproveitam a ciclovia para rodar em alta velocidade quando descem a rua, sem respeitar os pedestres que correm risco de atropelamento se, por distração, tentam atravessar a via de costas para as bicicletas. Entre as duas ciclovias – a que sobe e a que desce – há uma faixa exclusiva para pedestres: uma “peatonal”.

Seja lá como for, creio que a intenção dos idealizadores da inovação foi das melhores. Seria interessante, todavia, que procurassem encontrar jeito de corrigir os problemas por mim citados.

Antes de encerrar o texto, sugiro a quem puder, que faça uma visita a Buenos Aires A diferença entre o valor do cruzeiro e do peso, favorável a “nosotros, permitem que os brasileiros façam o mesmo que os argentinos, décadas atrás: “dame dos” – diziam ao comprar em nossas lojas ou ao visitar nossos restaurantes.


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Torcer por um clube de futebol

 

Por Milton Ferretti Jung

Nem todos possuem um time para o qual torcem. Há quem nem sequer goste de futebol ou somente se fixe neste esporte quando a Seleção Brasileira entra em campo. Existem torcedores de todas as espécies, dos apaixonados aos raivosos, dos que freqüentam estádios aos que preferem acompanhar os jogos pelo pay-per-view e também pelas rádios.

Vou tratar, hoje, dos que têm time ou clube, que não chegam a ser sinônimos, mas podem ser entendidos como tal. Talvez quem me dá o prazer de ler o que escrevo aqui prefira falar em clube, eis que os times, ao contrário daquele, mudam de formação com freqüência. O clube, dependendo de sua grandeza, é eterno ou quase isso.

Minha abordagem versará sobre como se cria um torcedor. Creio que a maior influência venha dos pais, nem digo que seja paterna, porque muitas vezes o casal torce para times diferentes e a força de persuasão de um é mais forte do que a do seu par. Tirante esta dupla, há também padrinhos, tios, irmãos e outros parentes que tentam puxar o visado para o seu lado com todo o tipo de artimanhas, inclusive as que começam com os presentes que são dados aos recém-nascidos: camisetinhas, calções e meias de times de futebol. Esses, quando chegam à idade da razão, nem sempre fazem o que é esperado… e passam a torcer para o rival. Existem também os que, para fazer desfeita ao pai, vão para o lado oposto.

Na minha casa, impera a democracia. Todos têm de ser gremistas. E ninguém traiu o seu pai. Estão aí o Mílton (o texto da Avalanche Tricolor diz bem qual a sua paixão clubista), a Jacque, que vai ao Olímpico às vezes, mas prefere ficar acompanhando a marcha do jogo pela Internet, e o Christian, torcedor gremista também, mas mais ligado em música e apaixonado por fucas, sobre os quais escreve no blog MacFuca. Na sua infância e adolescência, o Mílton não só jogou na escolinha de futebol do Grêmio como foi integrante do times tricolor de basquete, no qual jogou dos juvenis à equipe de adultos.

Quanto ao pai deles, este seu criado, que estreou no rádio, como locutor, no distante ano de 1958, jamais escondeu sua paixão pelo Grêmio. No meu tempo de foca no ofício, na Rádio Canoas, cheguei a narrar um jogo no Estádio da Montanha, entre o dono da casa – Cruzeiro – e o Renner, equipe que foi campeã gaúcha em 54 e, no mesmo ano, acabou extinta. Muitos de seus jogadores, entre eles Ênio Vargas de Andrade, depois técnico famoso, trabalhavam na fábrica Renner. Mas retorno ao assunto. Na Rádio Guaíba, onde estou desde 1958, fui narrador durante muitos anos e – desculpem-me por falar sobre mim – participei do Terceiro Tempo e, hoje, do Ganhando o Jogo. Cito isso para dizer que já não preciso ser imparcial, o que era como narrador.

Faltou contar que, quando menino, um companheiro de peladas me convenceu a torcer para o Grêmio. Meu pai se dizia torcedor do São José. Logo, não teve nenhuma influência na minha escolha. Minha paixão só apareceu, de fato, quando, no internato, ouvi a transmissão de um jogo via rádio. Nessa, fã que era do goleiro Júlio Petersen, fiquei sabendo que ele se aposentara e seu substituto se chamava Sérgio Moacir. Foi a primeira irradiação de um jogo do Grêmio que acompanhei. Faço questão de lembrar, para concluir, que o meu gremismo, por não atentar contra a minha imparcialidade, nunca me criou problemas com os torcedores do Inter.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

I-Juca Pirama para os fujões

 

Por Milton Ferretti Jung

Não sei até quando os leitores deste blog vão aturar que eu conte histórias como as que já postei, isto é, nas quais sou personagem. Vou me arriscar a lhes pedir licença para relatar mais uma.

Já escrevi sobre o tempo em que meus pais,cansados das minhas artes, decidiram me mandar para um internato, o Colégio São Tiago, em Farroupilha, na época uma cidadezinha situada na serra do Rio Grande do Sul que, como tantas outras, foi colonizada por italianos. Eles já me haviam ameaçado me internar no São Jacó, em Novo Hamburgo, um pouco além da Grande Porto Alegre e pilotado por maristas,tal qual o São Tiago. O número que deveria ser bordado nas minhas roupas seria 86. Como no internato para o qual acabei indo seria o oitavo hóspede, bastou que o 6 fosse retirado.

Meu antecessor no educandário morava na mesma rua que eu, na capital gaúcha. Meus pais se informaran sobre o colégio com os dele, cuja paciência com o comportamento do filho foi seis meses mais curta que a dos meus. Bruno, este o nome do meu companheiro de desdita, havia chegado no início do primeiro semestre de 1947 e eu, no começo do segundo. Viajamos juntos ,acompanhados pelos meus genitores. O trem, então, era o melhor meio de transporte. A viagem começava em Porto Alegre, passava por Farroupilha e terminava em Caxias.

Na primeira semana de aula dei parte de doente. Foi quando,como já relatei numa dessas quintas-feiras em que tratei dos estranhos sabores do vinho,que o Irmão Inácio me serviu,no dormitório,o primeiro copo desta bebida,sem que estivesse misturado com água,como ocorria,por ordem paterna,na minha casa. Vinho à parte, volto a história. Depois que comecei a comparecer às aulas normalmente,apenas às vespertinas me deixavam um tanto contrariado. Após as matutinas, almoçava-se e, em seguida, no gramado ao lado do ginásio de esportes, jogava-se uma pelada,todos vestidos com suas roupas normais,nada de fardamento. Esse, somente usávamos nas quartas-feiras, dia em que se jogava para valer. Os do selecionado do colégio, diariamente, tinham de acordar às cinco da manhã para fazer exercícios físicos. No inverno,era um horror levantar tão cedo. Eu jogava na seleção. Comecei como lateral e terminei no gol, posição em que era menos ruim.

Um belo dia ou, para ser mais preciso, uma bela tarde, quando faziamos fila para entrar nas salas de aula, o Bruno ficou na minha frente. Não sei por que cargas d’água (expressão antiguinha esta,não?) talvez por culpa do nojo que me dava ser obrigado a estudar em dois turnos, fiz uma indecorosa proposta ao Bruno:

– Cara,vamos fugir do colégio?

Ele me olhou meio espantado, mas, para minha surpresa, topou. Bolei como seria o nosso procedimento. Após as aulas, havia breve interrupção e logo tínhamos que ir para o que era conhecido por “estudos”, na minha ótica, outra chatice sem tamanho. Combinei com Bruno que a gente pediria licença para ir à privada, coisa que nos daria chance de escapar e que escapar pela porta lateral do ginásio esportivo. Não contávamos, porém, que um colega fosse usar o WC exatamente na hora em que iniciaríamos o nosso plano. O que fazer? Simples, pensei e pus em prática: fechamos o colega pelo lado de fora. E nos largamos com a meta de chegar a Caxias do Sul, minha cidade natal. Nem Bruno nem eu tínhamos e menor idéia do que fazer depois.

Para não sermos vistos por algum conhecido, precisamos dar uma grande volta até atingir os trilhos do trem e seguir, pela linha férrea, em direção ao nosso destino. Com isso, perdemos muito tempo. Não tardou e começou a escurecer. Logo era noite fechada. Andáramos apenas nove quilômetros. E bateu o medo. Mato fechado em torno dos trilhos. Ir adiante ou voltar? Retornar foi a decisão que tomamos unanimemente. E voltamos rezando o terço durante todo o caminho de regresso. Não me lembro da hora, mas era bem tarde quando chegamos ao São Tiago, para alívio geral: dos fugitivos, isto é, nós: dos maristas e dos nossos pais,que haviam sido informados do desaparecimento da dupla pelos irmãos. Para nossa surpresa,o castigo não foi dos mais pesados: cada um teve de escrever uma carta aos pais,explicado o que fizéramos e a falta de razão para justificar a atitude tomada; tivemos também que decorar o I-Juca Pirama, poesia interminável. Recordo-me que precisei escrever mais de cinco cartas até que a última não fosse censurada pelo irmão regente. Ainda bem que meus filhos e netos não me tomaram como exemplo.


Mílton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Até com o Citroën do meu pai

 

Por Milton Ferretti Jung

Estamos longe, em Porto Alegre, de assemelharmo-nos a São Paulo em matéria de trânsito. Mesmo assim, acredito que um de nossos conterrâneos poderia entrar no Guiness Book na condição de maior atropelador de ciclistas do mundo. No momento, ele está sendo castigado. Foi recolhido a um presídio, depois de passar algum tempo hospitalizado, com a desculpa de ter problemas mentais. Na semana passada, outro sujeito atropelou dois ciclistas. Esse nem sequer possuía carteira de habilitação. Foi identificado ,mas está (ou estava) foragido.

Não se imagina, porém, que todos os motoristas alimentem animosidade em relação a quem pedala por essas ruas da capital gaúcha, sem as sempre reclamadas ciclovias, embora muito prometidas. Seja lá como for, uma coisa é certa: bikes (apelido das bicicleta que é um modismo dos tantos que já andei criticando), não criam congestionamentos, pelo menos, nas cidades de nosso país.

Quando abordo assuntos que envolvem trânsito, sinto muita saudade dos tempos em que na minha cidade, nos domingos, bem cedo, especialmente (e até nos outros dias da semana), dirigia-se por e para qualquer bairro sem encontrar carros em profusão, situação bem diferente da experimentada hoje.

Lembro-me de que meu pai era proprietário de um Citroën 1947 ,importado da França. Esses automóveis (há pouquíssimos, agora, em mãos de colecionadores de carros antigos) tinham uma peculiaridade em relação à pintura com a qual desembarcavam por aqui (ao menos em Porto Alegre): vinham com apenas duas demãos de tinta, a básica e a outra de um preto fosco, e o revendedor possuía a que seria usada gratuitamentre, no acabamento. Isso nunca aconteceu. Afinal, na época, não se falava em “recall”.

Meu pai me emprestava o carrinho para que, nas manhãs dominicais, fosse com ele à igreja. Seria só para isso. Não era o que eu fazia. Saía a passear pela cidade e retornava no fim da missa. Apenas mentiras de políticos conseguem possuir pernas grandes. As nossas, simples mortais que somos, todos afirmam que são curtas. No meu caso, tratou-se de pura verdade.

Em um certo domingo, para emprestar veracidade à minha mentira, no fim da missa, passei pela igreja e dei carona para uma vizinha. Não pensem mal de mim, não. A vizinha era casada, mãe de meus amigos. Minha paróquia ficava – e ainda fica – no alto de uma colina. Foi nas festas que o pároco realizava visando a angariar dinheiro para completar o templo, que comecei a bancar o locutor. Depois deste parênteses, volto ao episódio dominical. Costumava descer a lomba da então igrejinha, em ponto-morto. Mas havia um cruzamento. Não percebi que um táxi (era um Mercury imenso), por ser grandão, nem ligou se estava ou não na via preferencial e bateu no pára-lama traseiro do Citroën. Não deu nem para discutir quem tinha razão. Até poderia ser eu, mas ainda não possuía carta de habilitação.

Ao parar com o carro na entrada da garagem lá de casa, meu pai, preocupado com minha demora, esperava-me na porta. Contei-lhe o acontecido… e passei um monte de tempo sem licença paterna para dirigir. Sem dúvida, não é necessário enfrentar o tráfego intenso dos nossos dias para a gente se meter num acidente de trânsito.


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Minha bicicleta Centrum era mais bonita e segura

Por Milton Ferretti Jung

Os pais, que têm condições financeiras, mais cedo ou mais tarde acabam dando uma bicicleta ao seu filho. Custei, mas também ganhei minha “magrela”. Ao contrário do que ocorreu com minha irmã, cujo comportamento era considerado melhor que o meu, mesmo sendo mais moça, foi a primeira a ser agraciada com uma Monark. Obrigava-me a pedir a dela emprestada enquanto aguardava o almejado presente paterno. Recebi-o, não, porém, no Natal, época apropriada para tal tipo de mimo. Foi quando passei, em segunda época, num exame de matemática,o que não chegou a ser surpreendente na minha vida de estudante. Surpreendente, isso sim, foi a qualidade da bicicleta. Tratava-se de uma Centrum,de fabricação sueca, raríssima naquele tempo, com pneus tipo balão, tamanho 28, guarda-lamas e aros de alumínio, uma jóia. Até hoje ela está com meu filho Christian e ainda roda, se ele quiser usá-la.

Por falar em naquele tempo, lembro-me que realizei com ela vários e longos passeios. Ir de bicicleta ao centro da cidade de Porto Alegre, que para quem ainda não sabe, é de onde posto meus textos, não representava perigo. Bastava a gente tomar, é claro, alguns cuidados. O espelho retrovisor, que não vinha com a bicicleta, talvez porque os suecos já então respeitavam este tipo de transporte, era indispensável. Os veículos motorizados estavam longe de ser ameaça para quem pilotava a prima pobre movida por pedais e que não poluía o meio ambiente.

Agora tudo mudou. O trânsito é pesado e a bicicleta é a menos respeitada das conduções sobre duas, quatro ou inúmeras rodas, como a do caminhão que provocou a morte de vinte e sete pessoas. Na época a que me refiro ninguém imaginaria que Porto Alegre desse mote para uma notícia que seria veiculadas no mundo inteiro. O leitor que ligou o meu assunto desta quinta-feira – bicicleta – já deve ter imaginado que lembrei o passado para chegar ao episódio ocorrido no dia 25 de fevereiro, no qual o motorista de um Golf atropelou pelas costas um grupo de ciclistas que participava de protesto contra a carência de ciclovias na capital gaúcha. A reivindicação é justíssima. A cidade se ressente da ausência de faixas pelas quais ciclistas possam se deslocar com segurança. Sei que em São Paulo as ciclovias também não preenchem as necessidades da cidade.

Fiquei, outro dia, apavorado quando descobri que o responsável por este blog – meu filho, por sinal – iria se deslocar, de bicicleta, de casa até a CBN, ida e volta. Felizmente, afora o cansaço natural, passou ileso pela rota que escolheu. Mas retorno ao acidente, que acredito ser inédito na batalha entre quem pedala bicicletas e dirige veículos motorizados. Sabe-se que os que protestavam não possuíam licença para obstruir o trânsito. A reação do motorista, todo o modo, foi completamente desproporcional. Se em algum momento ele teve razão, perdeu-a ao investir sobre os ciclistas. Os nossos colégios deveriam preocupar-se mais com a educação no trânsito. Esta é mais importante, porque custa vidas, que outras matérias que recebem mais cuidados dos educadores.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Por um veraneio tranquilo à beira mar

 

Por Milton Ferretti Jung

Não sei como o litoral paulista funciona para quem nele aproveita os meses de verão. Aqui – e os leitores deste blog sabem que escrevo do Rio Grande do Sul – creio que o veranista, cujo único interesse é descansar ou se divertir à sua maneira, especialmente os que possuem ou alugam casas nas várias praias que compõem a orla marítima, nem sempre atingem por inteiro o objetivo que os leva a elas.

Todos, é claro, sabem que precisam contar com as graças de São Pedro, isto é, que a chuva não prejudique boa parte de sua temporada, o que não chega a ser incomum. Existe, além dela, um vento que vem do nordeste, que costuma durar três dias e castiga quem se dispõe a o enfrentar, jogando areia no rosto das pessoas e fazendo cair a temperatura. Banho, nesses dias, nem pensar. Estou, até agora, tratando de problemas que somente com sorte podem ser minimizados.

Há outros, entretanto, que um pouco de interesse das prefeituras em melhorar a pavimentação das ruas e dos calçadões à beira mar seria suficiente para diminuir. Não é o que se vê. No balneário em que tenho casa a avenida que margeia o mar se liga à praia por passarelas de madeira. Quando eram novas, que beleza. Algumas, com o tempo, ficaram esburacadas e exigem cuidados para que sejam transpostas.

Tudo isso se poderia relevar. Difícil mesmo é suportar as invenções de rádios e tevês, que realizam os mais diversos tipos de promoções, que perturbam o sossego, o principal objetivo de quem vai à praia passar férias no litoral gaúcho. Dou um exemplo: uma emissora de Porto Alegre, no último domingo deste mês, estabeleceu-se sobre a areia com armas e bagagens (caixas de som podem ser consideradas armas em certos casos) e cruzou a tarde obrigando quem não estava interessado em ouvir um locutor berrando nos seus ouvidos nem na programação musical, brega, diga-se de passagem, transmitida a todo volume. Na minha casa, que fica a três quadras do mar, quase não consegui ouvir o narrador da partida entre Grêmio e Cruzeiro, tamanha a barulheira.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Mais um festival de besteiras na nossa língua

 

Por Milton Ferretti Jung

Meu filho, responsável por este blog, fez-me uma sugestão: a de escrever mais sobre o novo festival de besteiras que assola o país. Creio que Stanislaw Ponte Preta, o criador desse título, falecido em 68, me  perdoará pelo plágio. Mas vamos ao assunto.

A principal asneira a que chama a minha atenção, talvez até passe despercebida pela maioria. Refiro-me à reforma ortográfica, a mais recente e, ao mesmo tempo, uma das piores a que assisti, não, é claro nos  meus 76 anos de vida porque se passou um bom tempo até que tivesse idade para me preocupar com mudanças do tipo da que citei. O que me deixa danado da vida é que todos os que falam português deveriam, pelo menos ,ter a obrigação de adotá-la. Em Portugal, porém, ainda se escreve facto, acto e assim por diante. Por que os portugueses não seguem os ditames da reforma? E como ficam os mais velhos e muitos jovens também que aprenderam, por exemplo, a pôr trema em inúmeras palavras, e este já não pode mais ser usado?  Seja lá como for, não existe reforma ortográfica capaz de resolver todos os descalabros que são cometidos por aí afora com a “última flor do Lácio”.

Esta, que li num portal da internet, é de doer. O redator deve ter imaginado que estava produzindo uma frase criativa ao escrever que “o atacante só range um pouco o  cenho da testa ao falar de um assunto: Flamengo”. Existiria algum cenho além do da testa?

Li na Wikipédia, ao procurar o que esta dizia sobre “blitz”, que o  termo significa guerra relâmpago e foi criado “a nível operacional…” Ainda há quem use este desgraçado “a nível”. Por falar em blitz, palavra que vem do alemão “blitzkrieger”, estranho que, como foi aceita pelos nossos dicionários, no plural seja “blitze” ou “blitzen” e não blitzes, bem mais de acordo com o que seria de se esperar.

Seria de se esperar, igualmente, que a mídia parasse com o uso abusivo de blindar. Nos últimos tempos o verbo sempre aparece e, em geral, com sentido figurado.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)