Nenhum adjetivo é capaz de expressar o que sentimos

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Gostaria de possuir capacidade para expressar em palavras o que passou pela minha cabeça quando a Seleção Brasileira,muito cedo,levou o primeiro gol da Alemanha e,quase a seguir,os outros seis que,”al fin y al cabo”,se transformaram não apenas num maldito 7 x 1,mas na derrota mais vexatória do nosso selecionado em toda a sua historia. Essa nem pode,pelo menos,ser comparada ao ocorrido,no jogo final do Mundial de 1950,contra o Uruguai. Se aquele foi chamado de “maracanaço”,apelido derivado do espanhol “maracanazo”, que foi assistido por 200 mil torcedores,pode ser visto como café pequeno. Quem dera que todas as derrotas brasileiras fossem por diferença mínima – 1 x 0,2 x 1 ou pelo escore clássico de 3 x 1. Fosse o que aconteceu na semifinal de 2014,não no Mineirão,mas na final,no Maracanã,os estrangeiros estariam rindo da nossa cara,ressuscitando o maracanaço.

 

A derrota de terça-feira,que eu saiba,ainda não tem apelido. Os adjetivos que vem sendo usados,porém,pela mídia impressa,são muito mais pesados do que qualquer alcunha inventada por algum desaforado rival do futebol brasileiro. Refiro-me aos usados por jornais porque,após a derrota por 7 x 1,somente liguei o rádio para ouvir o Jornal da CBN,com o qual desperto antes mesmo de escutar os relinchos do despertador. Vou ficar somente com os adjetivos ou coisa parecida que li na ZH,aqui em Porto Alegre. Está,na capa do Jornal da Copa,a seguinte manchete: “VERGONHA” (caixa alta).Abaixo se lê a conclusão em letras menores um pouco:”para sempre”. Ao folhear as páginas 2 e 3 de Zero Hora dei com este titulo em letras bombásticas e,por acaso,com o mesmo bordão que eu usava quando narrava futebol ao relatar um gol: “NO FUNDO DO POÇO”. O diabo é que o “fundo do poço”,no contexto atual,é muito mais profundo do que o gritado em meu bordão. Há muitos outros adjetivos que não vou me dar o trabalho de repetir. Por quê? Porque,de tantos que estão sendo veiculados,nenhum chega ao ponto de exprimir o que nós,brasileiros,sentimos ao descobrir que o primeiro gol alemão seria seguido de outros seis. Também não acho que os jogadores que sofreram a goleada,ficaram marcados pelo fracasso e humilhados por sepultar o Hexa em casa. Eles,não importa o que vai acontecer no sábado,na disputa pelo terceiro lugar,voltarão aos clubes de origem,nos quais a maioria deles não perdeu prestígio e sequer um dólar dos principescos salários que recebem no exterior. Claro,todos eles e os seus fracassados comandantes ficarão um certo tempo com a goleada atravessada na garganta. Afinal,diz um velho provérbio que não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe.

 

Na vida e,como não,em futebol,não há nada inexplicável. Existe,isso sim,o que não se sabe explicar. Há,porém,quem encontrou a explicação para seus fracassos. Os alemães descobriram como evoluir a partir de derrotas. Sua história já foi contada e não é segredo. Convém que o Brasil procure imitar a Seleção Alemã que,neste domingo, fará a final desta Copa do Mundo,enfrentando a Argentina. E tem mais:que não repita o erro dos cartolas trapalhões que demitiram Mano Menezes cujo trabalho de renovação da Seleção Brasileira deveria ter sido preservado. Vá lá,o futuro a Deus pertence. Quem sabe,todavia, não tivéssemos,com Mano no comando,uma equipe capaz de não envergonhar o povo desta terra.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Porto Alegre, 22 gols depois da Copa do Mundo

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Na semana passada fiz algumas projeções ao tratar da Copa do Mundo e os seus reflexos em Porto Alegre,porque é daqui que escrevo no blog ancorado pelo Mílton. Algumas se confirmaram,outras não. Redigi as projeções,como sempre,dois dias antes da postagem. Foi um risco,mas bem menor do que andaram correndo as oito seleções classificadas para disputar as Quartas de Final. Não foi fácil para nenhuma delas alcançar a segunda meta da mais importante competição de futebol do planeta. Como o recomeço está marcado para sexta-feira,desta vez,não será necessário me meter de pato a ganso com prognósticos acerca de quem está mais perto das Semifinais.Vou escrever sobre o que já ocorreu nesta Copa do Mundo.

 

O Internacional encerrou gloriosamente as suas atividades copeiras. Foram cinco jogos muito interessantes realizados na Arena Beira-Rio,começando por Austrália x Holanda e se encerrando com a disputa entre uma das seleções favoritas e outra que nunca havia ido além da fase de grupos do Mundial,a Argélia. Não vou esquecer tão cedo dessa partida. Para homenagear postumamente a memória dos meus avoengos – foi da Alemanha que veio o meu bisavô Jung – torci pelos germânicos. E não me arrependi. Diga-se a bem da verdade que os eliminados argelinos lutaram bravamente durante 120 minutos,mas tiveram de se render aos alemães. Esses,no entanto,tiveram em Neuer,um misto de goleiro e volante,eis que saiu cinco vezes da goleira para desarmar perigosos contra-ataques. A Alemanha,com seis titulares do Bayer, me fez lembrar do Grêmio,que conquistou o seu primeiro Campeonato Brasileiros em 1981 enfrentando,no Morumbi,sob o comando de Ênio Vargas de Andrade,um São Paulo com sete jogadores da Seleção Brasileira. Choramos todos com a comoção provocada pela vitória:Jacque,Mílton,Christian,a mãe deles,Ruth e eu.

 

A conclusão dos jogos na Arena Beira-Rio,durante os quais foram marcados 22 gols,demonstrou que a Copa,por aqui,deixou felizes os torcedores das nações que jogaram no estádio colorado e os que assistiram a bem disputadas partidas de futebol. Os moradores da Zona Sul de Porto Alegre vão,por sua vez, contar com obras que prometem facilitar acesso ao Centro Histórico e demais regiões da Capital gaúcha. A rigor,a prefeitura ficou devendo a conclusão da Avenida Tronco. Essa não progrediu porque vai ser necessário remover para outro locais moradores de casas situadas ao longo da via. Outro projeto que gorou foi o do metrô. A mobilidade urbana melhoraria muito se essa obra fosse realizada,mas não houve tempo hábil para que pudesse ter sido,pelo menos,iniciada. Vamos,a partir de sexta-feira,assistir aos jogos das Quartas de Final,torcendo,é claro,para que a Seleção Brasileira faça o que dela se espera. Ser campeã!

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, publica seu texto no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Nem os deuses do trânsito salvam

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Sei que há quem se dá ao trabalho de ler o que escrevo no blog do Mílton. Não penso que sejam muitos esses abnegados.Tenho por eles (ou ele?),como não poderia deixar de ser,grande respeito. Por isso,afora outros cuidados,lembro que digito o texto nas terças-feiras,mas esse somente é postado nas quintas.Assim,sou obrigado,dependendo do assunto,a correr o risco de que ele fique defasado. Vou usar,no do dia 26,um subterfúgio. Isto é,morador que sou de Porto Alegre,só não sofro com o trânsito caótico dos dias de jogos da Copa do Mundo na Arena da Beira-Rio,porque fico acoitado – ou quase isso -em minha casa. Morador,que sou,da Zona Sul,sofro com a proibição de ir,pelas vias normais,ao Centro da cidade. Já as anormais,que aumentam o trajeto uma enormidade e não contribuem em nada com a velocidade do deslocamento,só podem ser utilizadas por quem tem necessidade de chegar,depois de gastar muito combustível e torrar a paciência,ao local de destino.

 

Nesta terça-feira,estou redigindo o meu texto e lendo na Zero Hora,jornal gaúcho,esta manchete: “PARA (TENTAR) EVITAR O CAOS NO TRÂNSITO”

 

Explica o matutino que,”depois dos congestionamentos no dia de Austrália x Holanda,a EPTC – Empresa Pública de Transportes – preparou ações para tentar aliviar a vida dos motoristas porto-alegrenses”. Afora essa providência,Prefeitura e Estado – leio na ZH – apenas para os seus servidores em Porto Alegre ,anunciou ponto facultativo. Tomo a liberdade de duvidar que essas e outras decisões tenham obtido o esperado efeito (ou seria o desesperado efeito)adotado pelas autoridades ditas competentes,visando a ter evitado,na quarta-feira,25/6,a repetição do caos. Tenho pena dos moradores de prédios,alguns luxuosos,situados nas proximidades do Beira-Rio:eles nunca imaginaram que bem à frente de suas residências,o que era um estádio clubista, viraria Arena.Lembro isso porque,nos dias de jogos da Copa, os proprietários de apartamentos,no local, têm de mostrar documento oficial comprovando que residem na área com entrada restrita. Oxalá,me engane,mas creio que somente os deuses do trânsito podem ter evitado um novo caos na Zona Sul de Porto Alegre,suas adjacências e as supostas vias de mobilidade para quem tem urgência de ir ao Centro Histórico desta cidade.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, publica seu texto no Blog do Mílton Jung (o filho dele). Desta vez, porém, dado o tema escrito, o editor (seu filho) antecipou a publicação em um dia e, pelo descrito na imprensa gaúcha, a expectativa de que haveria grande congestionamento nesta quarta-feira, antes do jogo da Argentina, estava correta.

Um empate em memória do amigo Salvador

 

Milton Ferretti Jung

 

Somos dois aqui em casa que acompanhamos a Copa do Mundo pela televisão:Maria Helena,minha mulher,e eu. Não faço a mínima questão de assistir a algum jogo na Arena Beira-Rio ou seja lá como estão chamando o reformado estádio do Inter. Não deixei de ver até agora nenhuma das já várias partidas disputadas. Somente sento à mesa da cozinha para tomar o café da manhã. Faço as restantes refeições diante da tevê do living. Já Maria Helena divide o interminável CityVille,que ela joga no computador,com os embates que rolam pela televisão. Não sei como ela consegue acompanhar a Copa e o seu jogo compartilhado por amigas de várias nacionalidades. Sei que Malena,como é chamada pelos íntimos,não gosta do futebol português e implica,especialmente,com o craque Cristiano Ronaldo. Nem preciso dizer para que seleção ela torceu no dia 16.

 

Ao contrário de Malena,eu fiquei com pena do Melhor Jogador do Mundo. Ele é vaidoso,mas vá lá. No jogo contra a Alemanha,Cristiano,além de estar enfrentando uma equipe que, em matéria de futebol pode ser vista como,no bom sentido,Deutschland über alles,não contou com o apoio dos seus companheiros. Deixaram-no abandonado. Não há quem não saiba que,em um esporte coletivo,embora alguns sejam protagonistas,os demais têm de exercer da melhor maneira possível as suas funções. E não foi isso que se viu em Alemanha 4 x 0 Portugal.

 

Assim como não gosta de Cristiano Ronaldo e,por tabela,da Seleção Portuguesa,Maria Helena cai de amores pelo México. Ocorre que,por seis anos,cultivamos forte amizade com um mexicano,odontólogo e professor universitário,com quem conversamos diariamente pela internet. Ele sabia tudo sobre computadores. Quando as nossas máquinas não funcionavam a contento,Ignacio Salvador Mendés Ordóñes as corrigia por controle remoto. Malena e eu tivemos nele um extraordinário professor de espanhol. Hoje,ela fala e escreve nessa língua com perfeição. Em troca,eu escrevia para ele em português,bancando professor. Salvador,de uma hora para outra,desapareceu. Creio que morreu,porque era uma pessoa com saúde frágil. Sentimos sua falta,mas ficamos apreciando o México e,por extensão,a sua Seleção,graças à nossa amizade com ele. Em homenagem a Salvador,torcemos por um empate no jogo dessa segunda-feira. Achamos que,com isso não estaríamos traindo a nossa Seleção.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

A Copa, quase uma obrigação

 


Por Milton Ferretti Jung

 

Não costumo tratar de futebol nos meus textos de quintas-feiras. Isto,porém,desta vez,com a Copa do Mundo começando hoje e se realizando no Brasil,escrever sobre este evento é quase uma obrigação. Não vou me furtar de fazer do Mundial o meu assunto. Na minha carreira radiofônica,que durou sessenta anos,fiz quase de tudo neste extraordinário veículo de comunicação:fui locutor comercial,apresentador de notícias,narrador de esportes e ator de radioteatro enquanto este item se manteve na programação da Rádio Guaíba. Fiz,inclusive,papéis caricatos. A equipe de atores participava de dois programas infantis – Teatrinho Cacique e Mestre Estrela – além de um dominical – Grande Teatro Orniex – este uma radiofonização de textos sérios para ouvintes adultos. Sinto uma grande saudade dessa época. Mas me propus a falar em Copa do Mundo e não vou fugir do tema.

 

Participei de três Copas como narrador da Guaíba:Alemanha,em 1974;narrei um jogo – Itália e Suécia – na competição sediada pela Argentina,em 78;finalmente,fui o narrador titular no México,em 1986. Fiquei,porém, mais contente quando Armindo Antônio Ranzolin,chefe de esportes da Guaíba,me escalou para trabalhar na Copa da Alemanha. Eu tinha muita vontade de conhecer a terra dos meus antepassados. Ruy Carlos Ostermann e eu viajamos para Frankfurt, onde o Brasil jogou na primeira fase do Mundial. Nessa viagem,fizemos uma escala em Paris. O nosso avião se atrasou e o que nos levaria até Frankfurt já tinha partido quando desembarcamos nessa cidade. Com sorte, conseguimos embarcar para o nosso aeroporto de destino em outro voo. Já com o traseiro doendo depois de mais de dez horas de viagem,descemos do avião e fomos em busca de nossas bagagens num dos terminais do aeroporto.

 

Até hoje,depois de inúmeras viagens aéreas,sempre que espero pelos meus trastes em terminais aeroportuários,não descanso enquanto não ponho a mão no que é meu. Dessa vez,logo na minha primeira viagem para mais longe de casa,eis que as nossas bagagens não nos acompanharam. Para aonde teriam ido? Ou,quem sabe,estariam irremediavelmente perdidas. Fomos ao recinto no qual ficam as bagagens não reclamadas e lá nos disseram que voltássemos no outro dia seguinte porque talvez tivessem vindo em outro voo. À noite,em um palacete,a FIFA receberia jornalistas de vários países com um jantar. Era para já estar quente na Alemanha,mas fazia um friozinho danado e garoava. Eu estava só com a roupa com a qual havia viajado. As demais,até então,em lugar incerto e não sabido.

 

Acordamos cedinho na manhã do nosso segundo dia em Frankfurt. No carro alugado pelos companheiros que nos precederam na Alemanha,voamos baixinho para o aeroporto.Lá chegando,corremos para o local em que ficavam as malas não reclamadas. E,para sorte minha e do Ruy,achamos ali as nossas roupas e tantas outras coisas que se põem em malas. Depois do susto na chegada,tivemos uma ótima passagem pela Alemanha dos meus ancestrais. Passamos a maior parte da nossa permanência no organizado país que nos recebeu sem ter de enfrentar problemas,seja na nossa cobertura jornalística,seja nas horas de folga.

 

Em 1986,a Copa do México,para quem passou a maior parte do tempo em Guadalajara,que foi o meu caso,eis que narrei apenas os jogos disputados nessa bela e agradável cidade, Samuel Souza Santos narrou os realizados na capital mexicana. Nas duas Copas do Mundo a que eu assisti,nem seria necessário dizer,o Brasil se deu mal. Espero que, na segunda competição em nossa terra,a sorte ajude o Felipão, sua Seleção e os brasileiros que torcem por ela e para que consigamos dar ao mundo uma demonstração de civilidade.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Minha sobrinha tem razão: reclamar é preciso

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Esta é,se não me engano,a segunda vez que vou me valer de um texto de Claudia Tajes,minha sobrinha escritora,publicado na revista Donna,que recebo encartada na edição dominical de Zero Hora. Em um desses domingos já um tanto distantes,ela usou uma palavra que,embora minha conhecida,jamais havia utilizado:procrastinar. A propósito,graças a ela,Claudia,recuperei um álbum de fotografias que,no mínimo,estará completando 78 anos em outubro. Tem a minha idade. Fui,como primeiro rebento do casal Aldo e Ione,protagonista desse álbum. O meu pai tinha uma Agfa,máquina fotográfica das melhores na sua época. E não poupou me fotografar desde a mais tenra idade.

 

Se alguém está lendo este texto,talvez pergunte o que a Claudia e o verbo procrastinar têm a ver com o meu assunto desta quinta-feira. Explico,no seu texto,ela conta que parou de procrastinar e resolveu mexer num movelzinho com muitas fotografias que estavam atiradas. Minha sobrinha,corroída pelo remorso ao ver as fotos bagunçadas,percebeu que essas acabariam se estragando caso não voltassem a ser mais bem cuidadas. Ao ler o que ela havia escrito,mandei-lhe um e-mail perguntando se,em meio a fotos,algumas já amareladas,outras ainda em bom estado,não haveria um álbum. Pois não é que havia? O documentário antigo,como apelidei a relíquia,tinha ficado,enquanto esta viveu, com a minha irmã Mirian,mãe de Cláudia. O álbum voltou para as minhas mãos sem mais procrastinações. Na edição de Donna,do dia 16 de março,Claudia ilustrou o seu texto com fotografias antigas. Numa dessas ilustrações está uma foto do casamento dos meus pais.Em outra,a de um aniversário de primeiro ano. Nessa vê-se Ruth,minha falecida mulher,com Jacqueline,minha filha mais velha,no seu colo.Creio que,contando a história do retorno do álbum às minhas mãos,é mais um agradecimento que faço à Claudinha por ter vencido a procrastinação.

 

Passo,agora,ao meu texto desta quinta,aproveitando o que Claudia escreveu para Donna do último domingo,intitulado “Reclamar é preciso”. Neste,ela se refere às audiências no Juizado Especial Cível de Porto Alegre,local em que clientes de operadoras de telefonia e televisão,lojas, etc.,se queixam de todo tipo de empresas que não age corretamente com os seus clientes. Ela conta,por exemplo,o ocorrido com a sua mãe que,em uma loja,aguardava para ter o crediário aprovado,quando ouviu a atendente gritar:”a dona Mirian está no SPC. Mania que vocês têm de comprar o que não podem”.Minha irmã e mãe da Claudia entrou no Pequenas Causas e ganhou uma reparação.

 

Eu nunca fui ofendido em público por uma atendente cretina. Fui agredido,isso sim, de maneira sutil por uma “empresa” que vendia eletrodomésticos online,sediada em Ribeirão Preto. Comprei uma máquina fotográfica de boa marca e por preço mais baixo do que o de outras do mesmo tipo. Não lembro qual era o tempo do prazo de entrega do produto. Quando esse venceu,passei a telefonar para o número do vendedor. Inicialmente,ouvi desculpas pelo atraso. Como o tempo passasse e a minha compra não aparecesse,dei-me conta de que havia sido ludibriado. Tratava-se de uma loja fictícia. Um colega meu,funcionário de uma secretaria estadual, cedido ao PROCON,levou-me ao diretor da Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor,onde fui muito bem atendido.Prestei a minha queixa,preenchi-a com o relato do ocorrido e,de cara,o diretor me disse que,provavelmente,não havia como rastrear empresas safadas do tipo da EURONOTE Comércio de Produtos Eletrônicos,cujo nome nunca esqueci.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai.Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

As minhas Copas e a do Brasil

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Sou um veterano em Copas do Mundo. Na de 50,confesso,minha ligação com o futebol resumia-se às peladas com os meus companheiros de zona. Já contei neste blog,mas não custa repetir, que assistia a um filme, no cinema Eldorado, quando esse foi interrompido para que um “speaker” informasse que o Brasil perdera a Copa para o Uruguai. Em 1954,ouvi pelo rádio a vitória da Alemanha sobre a Suíça. Trabalhava,então,no meu primeiro emprego:Rádio Clube Metrópole. Em 1958,já na Guaíba,festejamos a vitória brasileira na final,contra a Suécia.Escutei os jogos, narrados por Mendes Ribeiro. Depois,percorremos as congestionadas ruas do centro de Porto Alegre,rodando com o Oldsmobile do pai de Pedro Carneiro Pereira. Ele ainda trabalhava na Clube Metrópole. Como narrador da Guaíba fiz,na Alemanha, a minha primeira Copa do Mundo. Em 78,na Argentina,narrei apenas um jogo. Já,no México,em 1986,na condição de narrador titular da Guaíba,não tive o prazer de vibrar com uma vitória brasileira. Ganharam os nossos sempre rivais,os argentinos.

 

O Brasil recebe agora as seleções de boa parte do mundo em uma competição que,como ouvi de Parreira,se considera favorito. Há,entretanto,instituições de nosso país que não foram favorecidas com verbas governamentais. Hospitais,por exemplo. Bilhões foram despejados,porém, na construção de estádios capazes de agradar a exigente e poderosa FIFA. Aqui,em Porto Alegre,duvido que todas as obras destinadas a facilitar a mobilidade urbana possam ser entregues totalmente finalizadas.Morador que sou da Zona Sul,transito diariamente pelas proximidades do Beira-Rio.Está ali, esperando finalização,o Viaduto da Pinheiro Borda.

 

Os problemas provocados pela realização de uma competição como a que se iniciará em junho não ficam somente restritas a obras e quejandas. Para não me estender,vou citar duas. A nossa Brigada Militar,preocupadíssima com a segurança da população de Porto Alegre e dos turistas que vierem para ver suas seleções nos cinco jogos marcados para o Beira-Rio,decidiu trazer do Interior cerca de 2 mil PMs. Despe-se um santo para vestir outro,é o que dizem prefeitos de cidades interioranas que,sofrem com assaltos,principalmente,os que sofrem instituições bancárias. Quem comanda a BM garante que não faltarão patrulhas no interior. É preciso ver para crer.

 

Às obras que, não se sabe ao certo, se serão entregues aos munícipes,decreto da prefeitura de Porto Alegre,em vigor desde ontem,proíbe que os nossos taxistas vistam camisas xadrez,de bolinhas,com listras e,menos ainda,caso sejam de um time de futebol. Ah,claro,o taxista tem de estar bem vestido. Concordo.Isso é uma coisa,outra é a exigência de uniforme. Não sei (porque sempre escrevo às terças-feiras)se o Sinditáxi aceitará o que reza o decreto sem ameaçar com greve. Era só o que faltava às vésperas da Copa do Mundo.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Fifa quer proibir rádio de pilha em estádio da Copa

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Foi com surpresa que,na semana passada,recebi uma ligação de um moço da TV Record me perguntando se eu aceitaria conceder entrevista sobre assunto que provocou estranheza na mídia: a FIFA,uma dama que está mandando e desmandando nesta ano em que teremos a Copa do Mundo aqui em nosso país,resolveu proibir que torcedores ingressem nas Arenas,cujas construções custaram os olhos não só de uma,mas de várias caras,seja de estados,municípios e do próprio governo,portando rádios de pilha por menores que sejam. Demorei a acreditar que a entidade, que comanda o futebol mundial,se preocupasse com a presença de tão inocentes dispositivos,imaginando que possam ser mal usados,isto é,que sejam jogados para dentro dos gramados,tendo como alvo quem trabalha neles:árbitro,os seus auxiliares e jogadores. Os estádios recém inaugurados ou reinaugurados,caso do Gigante da Beira-Rio,não possuem mais alambrados.

 

Duvido que,em Porto Alegre,pelo menos,algum torcedor vá assistir a um dos cinco jogos que serão aqui realizados,disposto a atirar uma radiozinho em algum profissional que esteja nas proximidades ou dentro do campo de futebol. Imagino que essas partidas serão assistidas,principalmente,por torcedores da nacionalidade das seleções participantes. A minoria brasileira não teria razão para atirar qualquer objeto para dentro do gramado,eis que verá os jogos com sangue doce. Os estrangeiros,com certeza,sequer pretendem levar rádios de qualquer tamanho para os estádios. Afinal,não têm o hábito de portar esses aparelhos em estádios de futebol.Quem não vive sem rádio é o brasileiro,que se acostumou a ouvir as narrações,os comentários e as reportagens radiofônicas. Os radiozinhos,ainda por cima,estão perdendo o seu espaço, no bolso dos torcedores,para os telefones celulares. Esses,conforme informaram as concessionárias de telefonia móvel,estarão finalmente aptos para captar o som transmitidos pelas rádios,o que não era possível no Beira-Rio.

 

Não esqueço que na minha longa carreira de radialista,na qual atuei apenas em duas emissoras porto-alegrenses,somando 60 anos de trabalho,rádios de todas espécies,dos grandes aos de bolso,fizeram parte da minha vida. Nos estádios,tínhamos de ser caprichosos,eis que os nossos ouvintes,em boa parte,queriam que,no mínimo,não errássemos os nomes dos jogadores e gritássemos eventuais gols com total vibração,às vezes,com a voz distorcida pelo berro exagerado. Narrei o gol mil de Pelé,no Maracanã. Quando ele marcou,de pênalti,o estádio inteiro gritou enlouquecido e fez-me levantar demasiadamente a voz.Até hoje não gosto de ouvir a minha desafinada narração.

 

As narrações,no rádio,pautaram as que são feitas,hoje,nas televisões. Os que relatam os jogos parece que estão falando para quem não está na frente de um televisor FULL HD.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

No caminho da Copa

 


Por Milton Ferretti Jung

 

Toda vez que,como se dizia antigamente,preciso dar tratos à bola a fim de encontrar assunto para este blog,antes de mais nada,passo os olhos pelos jornais. A expressão que usei acima não tem nada a ver,explico aos mais jovens,com a bola de futebol,objeto muito em moda nesta primeira metade de 2014 por força da Copa do Mundo. Não é,porém,por aí que vou começar o meu texto,não sem antes lembrar que o posto sempre ou quase sempre,nas terças-feiras. Alguns dos temas que elejo ficam,às vezes,sujeitos a chuvas e trovoadas,isto é,podem perder atualidade.

 

Chamou-me a atenção – e como! – nos jornais desta terça,a notícia de que a gasolina vai subir. Segundo a presidente da Petrobras,Graça Foster,o aumento se justifica,eis ser necessário o reajuste visando ajustar os preços internos aos do mercado externo. Será,entretanto,conforme a executiva,um aumento moderado. Acredite quem quiser na tal de moderação. Mesmo com o aumento da gasolina,graças a uma iniciativa governamental,veículos poderão ser comprados com financiamentos menos pesados. É fácil imaginar-se que o número de carros em circulação,depois de pequeno hiato,voltará a crescer e,por óbvio,a entupir as vias urbanas e as rodovias,as primeiras porque é nas cidades que os engarrafamentos tendem a ficar piores. Esse tipo de problema que as metrópoles enfrentam faz já muito tempo,está se estendendo agora até para cidades menores e não sofrerá solução de continuidade enquanto o transporte público não contribuir,de verdade,para que sirva, com qualidade, a maioria das pessoas. Estamos longe deste dia.Por enquanto, baderneiros de todo tipo estão tratando de incendiar coletivos,principalmente, no Rio e em Paulo.

 

Eu,particularmente,acredito tão pouco na melhoria do transporte público quanto na exigência da Anac – Agência Nacional de Aviação Civil – de que os voos,durante a Copa do Mundo,não sofram atrasos. A partir dessa terça-feira,empresas que não cumprirem a exigência receberão multas de R$ 12 mil a R$ 90 mil. Desculpem-me se me acham pessimista de carteirinha,mas também não creio que,aqui em Porto Alegre,a prefeitura conseguirá finalizar o viaduto da Pinheiro Borda e o corredor da Padre Cacique,antes do início da Copa.O prefeito Fortunatti garante que a data prevista para o término destas obras é 31 de maio. Faço votos que José Fortunatti possa cumprir o prometido.Ainda bem que a minha cidade sediará apenas cinco jogo do Mundial..

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele).

Um passeio de bonde

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Há várias semanas,não mais que de repente,deu-me uma saudade danada do primeiro veículo de transporte público que conheci:o bonde. Quando,com bem menos de um ano de vida meus pais alugaram uma casa em Porto Alegre,na Rua Conselheiro Travassos,onde nós três,eles e eu,recém nascido,passamos morar,esta cidade já era servida por bondes. Não cheguei a conhecer esses veículos que,no início da sua existência eram tracionados por mulas, rodavam sobre trilhos de madeira que, mal sedimentados, produziam barulho insuportável e,pior do que isso,descarrilavam com frequência. Nasci em 1935. Somente em 1908 iniciou-se o tráfego dos bondes elétricos. Os primeiros bairros que percorreram foram Menino Deus,Glória,Teresópolis e Partenon. Até estar em idade de viajar sozinho nos que faziam,já então,as linhas Floresta e São João,passaram-se muitos anos.

 

Os dois primeiros nos quais me desloquei foram os que percorriam as duas linhas que acabei de citar. Ambas me levavam ao Colégio Anchieta,no qual estudei vários anos. O Floresta,quando chegava à parada que ficava na Rua Benjamin Constant,quase na esquina da São Pedro,em geral,estava lotado.O remédio era viajar,perigosamente,no estribo. É evidente que eu e os guris da minha idade,não nos importávamos de correr riscos. Cada viagem com bonde cheio era uma aventura apreciada por nós. O Anchieta ficava na Rua Duque de Caxias. Eu desembarcava do Floresta, na Praça 15 de Novembro,subia a Borges de Medeiros e a escada do viaduto. Na volta,fazia o caminho inverso. Era uma pernada e tanto.Com 11 anos,porém,ou pouco mais que isso,a gente resiste a muito mais.

 

Ao retornar para casa,muitas vezes dava preferência ao bonde São João,que tinha o terminal na Praça Parobé. Esse,tinha,no entanto,uma particularidade:ia do centro até a Rua São Pedro,esquina com a Farrapos. Dali em diante,havia apenas um trilho. Se existia um bonde na São Pedro com Floresta,o que visava seguir,tinha de esperar o retorno do outro veículo. Seja lá como fosse,quando o bonde acabava chegando ao fim da linha,os guris que viajavam nele corriam para trocar o engate desse ao cabo que o ligava ao fio que eletrificava a máquina.Os cobradores de passagens,de tanto ver a gente,ficavam amigos e nos deixavam fazer o serviço do qual eles eram os responsáveis.Outra coisa que fazíamos,era fazer de conta que estávamos no controle do bonde. A gente disputava a permanência na roda,que ficava ao lado dos controles do motorneiro e cuja função era frear o veículo em caso de emergência. Nunca fiquei sabendo que fosse necessário esse tipo de freio.

 

Os bondes da minha saudade,no distante ano de 1926,chegaram a alcançar mais de uma centena em circulação.Eles seguiram em operação durante décadas. Passaram,então,a ser substituídos por empresas de ônibus. Essas,na base do devagar se vai ao longe,foram tomando conta do promissor mercado que para elas se abriu. Porto Alegre chegou a aturar os Trolebus, ônibus elétricos que,entretanto, não deram certo. Problemas de voltagem e defeitos nos freios,desaconselharam. Convém lembrar que,na Europa,os bondes continuam rodando – e silenciosamente – facilitando a mobilidade urbana.

 

Jamais,imagino com pesar,voltarão a atividade. No dia 8 de março de 1970,o último deles circulou,com direito à solenidade de despedida. Por iniciativa de Ruth Muller Jung,a mãe dos meus filhos,esses viajaram,de graça,no último bonde de Porto Alegre.Vou encerrar o meu texto desta quinta-feira com um anúncio que a gente não podia deixar de ler nos nossos bondes.Que os meus netos não se espantem com o arcaico português da propaganda:

 

Veja illustre passageiro
O bello tipo faceiro
Que o senhor tem a seu lado…
E,no entretanto,acredite
Quase morreu de bronquite,
Salvou-o o RHUM CREOSOTADO.

 

Milton Ferretti Jung é radialista, jornalista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)