Um passeio de bonde

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Há várias semanas,não mais que de repente,deu-me uma saudade danada do primeiro veículo de transporte público que conheci:o bonde. Quando,com bem menos de um ano de vida meus pais alugaram uma casa em Porto Alegre,na Rua Conselheiro Travassos,onde nós três,eles e eu,recém nascido,passamos morar,esta cidade já era servida por bondes. Não cheguei a conhecer esses veículos que,no início da sua existência eram tracionados por mulas, rodavam sobre trilhos de madeira que, mal sedimentados, produziam barulho insuportável e,pior do que isso,descarrilavam com frequência. Nasci em 1935. Somente em 1908 iniciou-se o tráfego dos bondes elétricos. Os primeiros bairros que percorreram foram Menino Deus,Glória,Teresópolis e Partenon. Até estar em idade de viajar sozinho nos que faziam,já então,as linhas Floresta e São João,passaram-se muitos anos.

 

Os dois primeiros nos quais me desloquei foram os que percorriam as duas linhas que acabei de citar. Ambas me levavam ao Colégio Anchieta,no qual estudei vários anos. O Floresta,quando chegava à parada que ficava na Rua Benjamin Constant,quase na esquina da São Pedro,em geral,estava lotado.O remédio era viajar,perigosamente,no estribo. É evidente que eu e os guris da minha idade,não nos importávamos de correr riscos. Cada viagem com bonde cheio era uma aventura apreciada por nós. O Anchieta ficava na Rua Duque de Caxias. Eu desembarcava do Floresta, na Praça 15 de Novembro,subia a Borges de Medeiros e a escada do viaduto. Na volta,fazia o caminho inverso. Era uma pernada e tanto.Com 11 anos,porém,ou pouco mais que isso,a gente resiste a muito mais.

 

Ao retornar para casa,muitas vezes dava preferência ao bonde São João,que tinha o terminal na Praça Parobé. Esse,tinha,no entanto,uma particularidade:ia do centro até a Rua São Pedro,esquina com a Farrapos. Dali em diante,havia apenas um trilho. Se existia um bonde na São Pedro com Floresta,o que visava seguir,tinha de esperar o retorno do outro veículo. Seja lá como fosse,quando o bonde acabava chegando ao fim da linha,os guris que viajavam nele corriam para trocar o engate desse ao cabo que o ligava ao fio que eletrificava a máquina.Os cobradores de passagens,de tanto ver a gente,ficavam amigos e nos deixavam fazer o serviço do qual eles eram os responsáveis.Outra coisa que fazíamos,era fazer de conta que estávamos no controle do bonde. A gente disputava a permanência na roda,que ficava ao lado dos controles do motorneiro e cuja função era frear o veículo em caso de emergência. Nunca fiquei sabendo que fosse necessário esse tipo de freio.

 

Os bondes da minha saudade,no distante ano de 1926,chegaram a alcançar mais de uma centena em circulação.Eles seguiram em operação durante décadas. Passaram,então,a ser substituídos por empresas de ônibus. Essas,na base do devagar se vai ao longe,foram tomando conta do promissor mercado que para elas se abriu. Porto Alegre chegou a aturar os Trolebus, ônibus elétricos que,entretanto, não deram certo. Problemas de voltagem e defeitos nos freios,desaconselharam. Convém lembrar que,na Europa,os bondes continuam rodando – e silenciosamente – facilitando a mobilidade urbana.

 

Jamais,imagino com pesar,voltarão a atividade. No dia 8 de março de 1970,o último deles circulou,com direito à solenidade de despedida. Por iniciativa de Ruth Muller Jung,a mãe dos meus filhos,esses viajaram,de graça,no último bonde de Porto Alegre.Vou encerrar o meu texto desta quinta-feira com um anúncio que a gente não podia deixar de ler nos nossos bondes.Que os meus netos não se espantem com o arcaico português da propaganda:

 

Veja illustre passageiro
O bello tipo faceiro
Que o senhor tem a seu lado…
E,no entretanto,acredite
Quase morreu de bronquite,
Salvou-o o RHUM CREOSOTADO.

 

Milton Ferretti Jung é radialista, jornalista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

4 comentários sobre “Um passeio de bonde

  1. Milton pai, em São Paulo havia dois tipos de bonde. O fechado, com assentos impecáveis de palhinha eram chamados de CAMARÃO. O aberto, que permitia passageiros no estribo, os bancos eram de madeira e tinham a frase escrita em letras amarelas : PREVENIR ACIDENTES É DEVER DE TODOS.
    Em ambos, motorneiro e cobrador vestiam uniforme de lã grossa com gravata.
    Aliás, a maioria dos passageiros também usava terno e gravata.
    A indústria automobilistica demonizou os bondes, que foram então retirados de circulação.

    • Carlos e Milton,

      O curioso é perceber que a concepção dos antigos bondes era extremamente moderna. A começar pelo fato de que geravam pouca poluição, a não ser a sonora – coisa que nos dias de hoje, seria facilmente resolvida. Além de tudo, costumavam ser abertos, representando época em que confiávamos no próximo (apesar de conhecermos muitas histórias de passageiros que faziam de tudo para escapar do cobrador).

  2. Milton Pai,

    delícia de lembrança.

    Também andei de bonde. Ia para o Fernão Dias Pais, da Vila Madalena até a Rua Teodoro Sampaio de ônibus, quando estava no ginásio.
    Prometi para mim mesma que não me tornaria um ser saudosista, mas esse tipo de lembrança, não dá para segurar.

    Bem lembrado.

  3. Prezado Milton pai

    Também andei muito nos bondes em SP, Santos, RJ
    Gostava de andar nos bondes abertos quando trabalhava de office boy numa loja de ferragens no Itaim Bibi e sempre tinha que ir pagar contas na “cidade”
    E para vários bairros me deslocava através dos bondes,
    Como toda criança levada da breca, preferia andar nos bondes abertos porque, quando o cobrador vinha em minha direção, mudava de lado e ia para outro estribo.
    Ao invés de barulhentos e poluidores onibus a diesel nos corredores de onibus, deveriam ter pensado melhor e projetado novos e modernos bondes com tecnologia de ponta, mais silenciosos.

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