Ditos e malditos nos bastidores do rádio, e dos quartéis, também

General Braga Netto Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Acordamos sob a ameaça da manchete do Estadão de que o Ministro da Defesa Walter Braga Netto mandou recado para o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, de que sem voto impresso não terá eleição, em 2022. A mensagem teria chegado ao parlamentar, no dia 8 de julho, através de um importante interlocutor político —- que não teve nome identificado:

“A quem interessar, diga que, se não tiver eleição auditável, não terá eleição”

A apuração das repórteres Andressa Matais e Vera Rosa lembra que na mesma data, o presidente Jair Bolsonaro, fez ameaça semelhante, explícita e pública, em conversa com os que vivem no cercadinho do Palácio:

“Eleições no ano que vem serão limpas. Ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições”.

No vocabulário bolsonarista, eleição limpa é com voto auditável e voto auditável é voto impresso —- uma falácia, como bem sabem todos os supostos hackers de urnas eletrônicas. 

O fato é que quando se acorda com uma notícia dessas, o Jornal vira de cabeça pra baixo. O que era prioridade na pauta, perde espaço. O que anunciamos na abertura, corre o risco de ser deixado de lado. A entrevista previamente marcada cai —- jargão que costumamos usar quando algum assunto agendado deixa de ir ao ar. No rádio, assim como na padaria, o freguês quer “pão quentinho”; se sintonizar e encontrar pão amanhecido — ou notícia velha —-, troca de padeiro

E na nossa padaria, enquanto aos apresentadores cabem relatar os fatos, contextualizá-los e mantê-los atualizados; aos produtores, resta a ingrata função de encontrar alguma fonte disposta a tratar do tema. Ao mesmo tempo, repórteres saem em busca de confirmações e comentaristas reordenam seus argumentos para avaliações. Foi o que fizeram Carlos Alberto Sardenberg e Miriam Leitão, na manhã desta quinta-feira. 

Sardenberg aproveitou as trocas que o presidente Jair Bolsonaro anunciou que fará no seu ministério para mostrar duas facetas deste governo: a entrega da gestão para o Centrão ( “… não sobra um meu irmão”, disse um dia o general Augusto Heleno) e a ameaça constante ao Congresso e à democracia. Miriam, que há algum tempo alerta para os riscos de a política entrar nos quartéis, disse que os sinais de golpe estão muito claros e “só não os teme quem não conhece a história do Brasil”. Aliás, Miriam também comentou que provavelmente todos os envolvidos negariam a existência dos fatos.

Sequer havia se encerrado o Jornal da CBN e o presidente da Câmara Arthur Lira já negava a existência de qualquer ameaça por parte do Ministério da Defesa e de ter tido alguma conversa com o presidente Jair Bolsonaro sobre o assunto —- informação publicada pelo nosso colunista e de O Globo Lauro Jardim. Não demorou muito para o ministro Walter Braga Netto — que vinha sendo procurado para falar do assunto desde a segunda-feira — acusar de invenção a reportagem do Estadão

Convenhamos, todos cumpriram o seu papel. 

Até porque é assim que as ameaças funcionam: 

O emissor diz o que quer dizer com todas as palavras para que o seu dito seja bem dito; assim que o dito é revelado, volta para dizer que tudo é resultado de algo maldito, de jeito que até a coisa propriamente dita comece a desconfiar que não foi propriamente dita. 

(com a inspiração de Mário Quintana)

Dito isso, lá estávamos nós com a massa no forno tendo de trabalhar com os novos ingredientes. E se os personagens diretos do tema não queriam se pronunciar em viva voz, precisávamos encontrar pessoas relevantes e conhecedoras dos bastidores políticos e militares para ajudar o ouvinte a entender o que acontecia no país.

Foi, então, que chegamos no ex-ministro e general Carlos Alberto dos Santos Cruz, que ocupou o cargo de secretário de Governo de Jair Bolsonaro — a quem inadvertidamente apresentei como sendo Raul Jungmann, ex-ministro da Defesa. Por que fiz isso? Porque na distância do estúdio para a minha casa, percorrida pelo WhatsApp, entendi o dito errado e cometi o maldito erro. Isso tudo dito para também descrever como as coisas se desenrolam nos bastidores de um programa de rádio até se chegar a alguém relevante para que o pão quente seja servido ao ouvinte.

No caso, o general da reserva que, com a experiência de quem já circulou nos gabinetes da política e nos corredores dos quartéis, disse que não vê risco de golpe, mas que devemos estar preocupados:

“Não é possível que num país como o Brasil tenha esse tipo de blefe” 

Ouça a entrevista completa com o general Carlos Alberto dos Santos Cruz no Jornal da CBN:

Os farejadores de vacina e a pandemia dos não vacinados

Foto: Governo do Estado de SP

Pra uns é um resfriado. Para outros, uma intensa dor no corpo. Tem quem sequer ficará sabendo. Há os que precisam recorrer aos hospitais. E os que, infelizmente, deles não saem mais — entre os quais muito mais jovens do que no início desta pandemia. A variante Delta que predomina na Europa e nos Estados Unidos — e já é “influencer” no Rio de Janeiro  —-, pelo que se sabe até agora, mata menos e contamina mais (de 30 a 50% mais do que sua irmã mais velha). No entanto, quanto mais gente contaminada, maior a pressão no atendimento da rede hospitalar, menos leitos à disposição e o risco de morrer por falta de atenção. 

Falamos do assunto, nesta terça-feira, com o doutor Jarbas Barbosa, médico sanitarista e epidemiologista, que faz às vezes de vice-diretor da Opas, a Organização Pan-Americana de Saúde, braço da OMS aqui na nossa área. Com experiência internacional e de quem já comandou, também, a Agência de Vigilância Sanitária — Anvisa, no Brasil, Dr Jarbas tem ajudado a fazer alertas importantes, desde o início da pandemia, às nações, às autoridades e às populações.

Na entrevista ao Jornal da CBN, da qual participamos Cássia Godoy e eu, o médico foi claro no recado que enviou: 

“Vivemos uma pandemia de não vacinados”

Mesmo diagnóstico que havíamos ouvido, lá dos Estados Unidos, um dia antes, da doutora Rochelle Walensky, diretora dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças quando informou que a média diária de pessoas infectadas teve aumento de 70% em relação a semana anterior; e a média de internações, alta de 36%, em solo americano.

A despeito de o número de casos de pessoas contaminadas com a variante Delta, aqui no Brasil, ser incerto e inseguro —- já que investigamos bem menos do que o necessário —, não se tem mais dúvidas de que precisaríamos acelerar as medidas de proteção. Baseado no que acontece em outros países, fica evidente que o aumento da cobertura vacinal é a melhor resposta que poderíamos dar para impedir a disseminação dessa variante. Foi o que falou o Dr Jarbas. Foi o que ratificou o Dr Luis Fernando Correia, nosso comentarista, em entrevista ao jornal Extra: 

“Em alguns países, aumenta o número de casos, porém não aumenta o de mortes de internações, como no caso do Reino Unido. Já em casos como Rússia, Vietnam e África do Sul, as três curvas sobem juntas. Muitos casos, muitas hospitalizações e muitas mortes. O que parece fazer diferença é a cobertura vacinal”.

A fala dos dois tem o mesmo alvo: os negacionistas e os farejadores de vacina

Os primeiros são os que mais incomodam nos Estados Unidos —- onde a campanha antivacina sempre foi intensa, promovida por setores mais conservadores do  país, quase sempre ligados ao Partido Republicano; e por comunidades que foram vítimas de práticas discriminatórias de instituições de pesquisa no passado, como os afro-americanos. O outro grupo de não vacinados — em especial aqui no Brasil, mas não apenas no Brasil — é de pessoas que deixam de se imunizar enquanto buscam a vacina de estimação. 

No Brasil, especialmente uma elite mal-informada, seleciona vacina como se escolhesse roupa para viajar. Corre de posto em posto para saber se ali estão aplicando o imunizante que aceitam nos Estados Unidos, na Europa e, especialmente, em seu grupo social. Tomar Coronavac, é de última. AstraZeneca, toda a periferia tem. O chique é a Pfizer. A Janssen é um luxo. E por aí vai. Enquanto escolhe, fica exposto ao vírus. Corre o risco de morrer e de matar, disse Jarbas Barbosa:

“É um atentado contra você mesmo, porque você perde um tempo que é vital para garantir a sua proteção individual, mas, também, vamos relembrar que a vacina tem um papel coletivo”.

Em tempo: passou-se a identificar os que escolhem a marca da vacina que vão tomar como ‘sommeliers’ —- termo usado, inclusive, por especialistas na área de saúde. Sempre achei chique de mais para a atitude que adotam. Prefiro chamá-los de ‘farejadores de vacina’, pois passa a ideia daqueles cães que esfregam o nariz na terra em busca de algum cheiro para o qual foram treinados. Dr Luis Fernando ,que concorda com minha discordância em relação a expressão ‘sommelier’, foi mais direto ao ponto, na entrevista ao Extra

“… Tem me incomodado essa história de sommelier de vacina. Porque a elite brasileira adora esse tipo de coisa. Então, se a gente continua a usar esse termo sommelier de vacina, esses imbecis vão continuar achando que estão fazendo a coisa certa. Temos que chamar eles de imbecis e ponto”.

Ponto.

Ouça a entrevista completa com o Dr Jarbas Barbosa, da OPAS, ao Jornal da CBN:

Programa social para governo chamar de seu será anunciado em agosto

Foto: Divulgação/Ministério da Cidadania

Todo governo sonha em ter um programa social para chamar de seu. É legítimo. Faz parte do jogo. Eleitoral. FHC fez seus programas. Lula chegou, juntou tudo, reformatou e entregou com o nome de Bolsa Família. Dilma deu sequência. E agora é a vez de Bolsonaro, que tem soluços todas as vezes que precisa pronunciar o nome do programa que está bastante vinculado à imagem dos governos petistas. Lembre-se que ele e sua turma sempre venderam a ideia de que o Bolsa Família era um criadouro de vagabundos, gente que vivia mamando no Governo e não queria trabalhar. Acabou a mamata!

Veio a pandemia e o auxílio emergencial se fez necessário. Bolsonaro só queria duzentinhos no bolso dos brasileiros mais pobres. O Congresso enfiou intestino abaixo os 600 reais. Foi a salvação da turma que vivia aquém da linha de miséria. E o que sustentou por algum tempo a popularidade do governo dele. Mesmo assim, relutou em renovar o auxílio e devolveu 27 milhões de brasileiros para o andar mais debaixo da escala social. Em maio, com valor bem menor do que no ano passado —- afinal a a pandemia já está acabando, né?!? —, o auxílio voltou e acabou sendo estendido até outubro.

E quando novembro chegar?

O ministro da Cidadania João Roma, em entrevista ao Jornal da CBN, disse que um novo programa social começará a atender número maior de brasileiros necessitados, em outubro. A intenção é subir de 14,6 milhões de pessoas —- atendidas atualmente pelo Bolsa Família —- para 17 milhões, com valores que devem variar entre R$ 200 e R$ 300, em média. Outros instrumentos que possam colaborar com a distribuição de renda devem ser usados, de acordo com o ministro,  tais como programa de aquisição de alimentos, ajuda aos micro e pequenos produtores e capacitação profissional. O programa ainda não tem nome, mas será anunciado em algumas semanas —- ao menos é a intenção do Governo, que pretende armar o palanque no Planalto, em agosto. 

Roma, que está de malas prontas para Tóquio, onde representará o Governo Bolsonaro na abertura dos Jogos Olímpicos, não comprou a ideia do “programa social para chamar de seu” — expressão que usei em uma das perguntas. Foi mais formal:

“O governo quer um programa que sirva não apenas como teia de proteção aos mais necessitados mas também de um caminho para a promoção social, através da emancipação”

João Roma, Ministro da Cidadania

O risco de um programa social lançado faltando menos de um ano para a eleição —- que será em 2 de outubro de 22 — é vir pintado com as cores da campanha, fora da realidade e mal estruturado —- não seria surpresa, se considerarmos o DNA do Governo Bolsonaro. Planejamento não é o seu forte. De qualquer forma, é importante que a mão do Estado alcance muitos daqueles brasileiros que até o Bolsa Família desconhecia, não fosse a urgência do auxílio no ano passado. Sem esquecer das micro e pequenas empresas que podem absorver parte dos desempregados, desde que se derrube as muitas barreiras que impedem o acesso ao crédito. Sem elas, mais gente vai precisar da ajuda do governo.

Assista à entrevista completa com o ministro da Cidadania, João Roma, ao Jornal da CBN

Passar as férias no carro não era programa para a Dona Ruth

A procura por trailers e motorhomes cresceu quase 100% com a pandemia, informa reportagem publicada no Portal UOL. Costumo ter uma certa desconfiança em relação a esses números especialmente quando oferecidos pelos próprios fabricantes. Tendo a pensar que são inflados para chamar atenção da mídia e daqueles que não tinham se atentado para a possibilidade de comprar esses veículos que servem de moradia. A justificativa para o crescimento — querem nos fazer crer — é que as casas móveis para a ser uma alternativa para as viagens aéreas que estão proibidas, com o fechamento de fronteiras, e para quem teme riscos sanitários ao se hospedar em hotéis, resorts ou pousadas. 

O tema voltou a ser assunto, na conversa desta manhã, no CBN Primeiras Notícias, apresentado interinamente pelo Gabriel Freitas. Meu colega de rádio estava mesmo impressionado é com a criatividade de um paulista, Luiz Henrique Torelli, que transformou seu Uno 2002 em um “Unohome”, ao criar espaço para cama, geladeira portátil, pia, armários e itens de cozinha. Disse à reportagem que tem até um local ‘secreto’ para quando não encontra banheiro no seu caminho. Apertado, pelo espaço restrito, e feliz pelo sonho realizado, é como se declara Luiz Henrique:

“Olhei para o meu Uno e me perguntei: ‘por que não fazer um motorhome com o que tenho na mão?’. E, com meu carro, consegui alcançar o sonho de viajar e levar minha casa junto”. 

Logo que me propuseram o tema para falar no bate-papo que encerra o Primeiras Notícias, me vieram à mente duas lembranças. Uma dos anos 1980, proporcionada por Luis Fernando Veríssimo, em crônica que virou clássico, intitulada o “Engarrafamento”, publicada no livro O Gigolô das Palavras. Veríssimo, que sofre do mal de ser colorado no Rio Grande do Sul, denuncia o impacto que o excesso de carros e a ausência de infraestrutura geram no bem-estar das pessoas que vivem na cidade. Descreve um grande congestionamento, em que sem alternativa, os motoristas abandonam seus carros nas vias. Para em seguida esses carros serem ocupados por marginais  que os transformam em habitação e passam a alugar os espaços internos para outros pessoas viverem nesse enorme condomínio de carros.

É curioso que depois de tantos anos maldizendo os automóveis mesmo que os adorando, agora os usamos para moradia diante das restrições sanitárias.

A segunda lembrança antecede a década de 1980. Desde que me conheço por gente, ouvi meu pai convidar minha mãe, Dona Ruth, a aproveitar as férias em algum camping no Rio Grande do Sul. Poderia ser esticando uma barraca para toda a família ou estacionando um trailer na beira do lago. Invariavelmente, ele aparecia em casa entusiasmado com a ideia — imagino que por influencia de amigos acostumados a acampar. Alegria que durava pouco porque a mãe era implacável: “se é pra passar trabalho, tiro férias em casa”, dizia Dona Ruth que, sem dúvida, não era uma aventureira.

Bolsonaro talvez não seja mesmo servidor público

Felipe Santa Cruz. FOTO: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

A Polícia Federal abriu inquérito para apurar se houve crime de prevaricação, cometido pelo presidente da República, no caso da compra da vacina indiana Covaxin. Pra você, caro e raro leitor deste blog, não se emaranhar nos fios das denúncias, esse é o caso que os irmãos Miranda —- um deputado e o outro servidor público —- levaram para o presidente depois que perceberam que os contratos e recibos emitidos eram no mínimo estranhos. Apresentaram as suspeitas e papeis naquela reunião em que o presidente teria dito que isso era “rolo do Ricardo Barros”. Quanto a esta última parte, por enquanto, temos apenas a palavra dos Miranda e  o silêncio do presidente —- que ameaçou encerrar entrevista ontem quando foi perguntado sobre o assunto. Talvez uma ‘fita k7’ refresque a memória do presidente, em breve.

Enquanto aceitou responder aos repórteres, Bolsonaro colocou em dúvida a possibilidade dele ser incriminado por prevaricação, não por inocente que diz ser, mas pelo cargo que ocupa:

“O que eu entendo é que a prevaricação se aplica ao servidor público, não se aplicaria a mim” 

Isso não tem senso nenhum. O presidente é o servidor público número 1 do País. Sempre foi assim. E sempre será. Hoje, no Jornal da CBN, o presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz, ratificou essa condição, a partir de consulta feita a estudiosos do tema:

“Não faz nenhum sentido. Tenho conversado com vários professores de direito administrativo e todos entendem que o presidente exerce essa função pública”.

Se os advogados sabem disso, se os juristas, também, e a regra é clara, então por que o presidente se saiu com essa ideia estapafúrdia. Com a palavra, o advogado Felipe Santa Cruz:

“Ele permanece na estratégia de confundir e manipular um setor do eleitorado que, sem informação, ainda acredita no que ele fala. O presidente não tem qualquer compromisso com a verdade”

Ouvi toda a fala de Felipe Santa Cruz, acompanhei o comentário do Sérgio Abranches, no Conversa de Política, logo depois, e pensei cá no meu microfone:

Talvez o que o presidente esteja fazendo é apenas um ato de confissão involuntário. Porque ele realmente deixa de ser um servidor público quando atua no Palácio do Planalto para servir à família (a sua), aos comparsas e a interesses privados —- como as apurações feitas na CPI da Covid têm demonstrado.

Ouça a entrevista completa com o presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz, no Jornal da CBN:

“Adeptos do presidente estão usando esta questão (do voto impresso) para incitar tumultos”, diz Gilmar Mendes, do STF

Reprodução do vídeo da entrevista com Gilmar Mendes no Jornal da CBN

Que Gilmar Mendes não gosta de Marco Aurélio de Mello —- e vice-versa —- qualquer rábula sabe bem. O próprio Mello, que aposentou a toga, na hora de se despedir definiu a relação com Mendes como sendo uma convivência judicante ..  e apenas judicante. Aos demais falou em convivência fraterna. A despeito disso, na entrevista desta segunda-feira, ao Jornal da CBN, o agora decano do STF Gilmar Mendes foi bastante comedido nas palavras de despedida ao dizer apenas que desejava felicidades a Marco Aurelio.

Nos 22 minutos de entrevista, Gilmar Mendes, falando de Portugal, mediu palavras, mas não deixou de dar seus recados. Ficou claro que não esqueceu ainda seus confrontos com o ex-PGR Rodrigo Janot —- com quem travou embates verbalmente violentos na época da Lava Jato. Por outro lado, foi ameno ao comentar sobre o fato de o atual procurador, Augusto Aras, ser bastante sintonizado com o presidente Jair Bolsonaro.

Sobre Bolsonaro, com quem diz dialogar, Gilmar Mendes entende que o presidente não é um risco à democracia, apesar das constantes críticas ao STF, ao Senado e outras instituições. Para ele o presidente fala para os convertidos. 

O problema —- e aí não é mais Gilmar falando, sou eu comentando —- é que ao manter esse discurso bélico a ponto de dizer que ou tem voto impresso ou não tem eleição, o presidente incita os convertidos. Nesse ponto parece que Gilmar concorda:

“É notório que muitos dos adeptos do presidente estão usando esta questão (do voto impresso) para incitar tumultos”.

Justiça seja feita, se há um ponto em que Gilmar Mendes discorda abertamente do presidente Bolsonaro é quanto a tentativa de reviver o voto impresso. Lembrou até de cenas absurdas, nos colégios eleitorais onde ocorriam a apuração, de fiscais de partido engolindo cédulas para que o voto não fosse registrado na ata. Diante da insistência do presidente—- sem provas —- de que as eleições têm fraude, Gilmar disse na entrevista:

“(a notícia de fraude no voto digital) é tão consistente quanto a mensagem que diz que o homem não foi à lua”

Cássia Godoy e eu tratamos de outros temas com Gilmar Mendes que você comapnha na gravação disponível aqui no blog. Destaco só mais uma antes de encerrar: quando falamos da pressão das Forças Armadas contra a CPI da Covid, que investiga militares com patente suspeitos de envolvimento de irregularidades, Gilmar também deixou seu recado:

“Não é função das Forças Armadas fazer ameaças à CPI ou ao Parlamento”

No mais, ouça a seguir e comente se desejar:

O que o presidente da República melhor faz, segundo um senador também da República

Presidente da CPI da Covid, Omar Aziz (Foto: Pedro França/Agência Senado)

“Cada um faz aquilo que melhor faz, ele (o presidente) tem feito muito isso no governo, né!?!”

O presidente da CPI, senador Omar Aziz, foi curto e grosso na primeira resposta que deu hoje, na entrevista que Frederico Goulart e eu fizemos, no Jornal da CBN, quando perguntei a ele sobre um inusitado palavrão dito por Bolsonaro em seu “cercadinho” digital.

O que o presidente melhor faz, segundo o senador da República pelo estado do Amazonas? Para que fique claro, vamos antes a sequência de fatos que levaram à frase de Aziz, hoje cedo.

No dia 25 de junho, os irmãos Miranda —- o Luis Deputado e o Luiz Servidor — estiveram na CPI da Covid e disseram que levaram ao presidente Jair Bolsonaro denúncia de irregularidades na compra da vacina Covaxin, da Índia. No encontro que ocorreu no Palácio do Planalto, em 20 de março, Bolsonaro teria dito que entregaria o caso à Polícia Federal. Teria dito mais, segundo os Miranda: 

“Isso é coisa do Ricardo Barros. [Palavrão], mais uma vez” 

Ricardo Barros, deputado federal e líder do Governo Bolsonaro na Câmara, foi rápido no Twitter: no mesmo dia, negou qualquer envolvimento com irregularidades. 

Já o presidente, se calou. E calado se manteve. 

Diante do silêncio —- nem no cercadinho havia se pronunciado —-, a CPI entregou, ontem, dia 8 de julho, uma carta no Palácio do Planalto, assinada por Omar Aziz, Randolfe Rodrigues, vice-presidente da CPI, e o relator Renan Calheiros. Eles pediram para que Bolsonaro se pronunciasse quanto as denúncias. E o fizesse de forma ‘clara, cristalina, republicana e institucional’:

“Somente Vossa Excelência pode retirar o peso terrível desta suspeição tão grave dos ombros deste experimentado político, o Deputado Ricardo Barros, o qual serve seu governo numa função proeminente.”

À noite, Bolsonaro, já no “cercadinho digital” — aquela live que realiza todas as quintas-feiras —, proferiu a frase que deve ter saído dos anais dele:

“Caguei para a CPI, não vou responder” 

Fatos relacionados e contextualizados, imagino, fica claro e cristalino —- ao mesmo tempo que pouco republicano e nada institucional —- o que o presidente da CPI pensa ser o maior “mérito” do presidente da República.

Se quiser saber mais, ouça a entrevista completa com o senador Osmar Aziz:

Vacina na hora certa teria salvado muitas vidas

Era bem cedo, 6h30 da manhã, quando o doutor João Gabardo já dava explicações na rádio sobre porque São Paulo havia relaxado às restrições ao comércio mesmo diante da informação de que a variante delta está circulando entre nós. Ele é o coordenador-executivo do Centro de Contingência de Combate ao Coronavírus do estado de São Paulo —- grupo que olha para índices de morte, contaminação e internações nos hospitais e avisa ao Palácio do Governo: a coisa está ruim, melhor fechar tudo; não vamos mexer em time que está ganhando porque está estável; ou, o que mais os palacianos gostam de ouvir, melhorou um pouco, pode afrouxar. Nesta semana, afrouxaram: comércio fica aberto até mais tarde, permitiu-se mais gente dentro de bares e restaurantes e se planeja eventos testes.

No mesmo horário — no relógio do Mato Grosso do Sul, que está uma hora atrás em relação a São Paulo —-, o governador Reinaldo Azambuja, atendeu ao telefone para conversar com a gente na rádio e falar de como está a situação do estado no combate a pandemia. No início de junho, Mato Grosso do Sul exportava pacientes com Covid-19 para São Paulo, hoje reduziu número de internações e tem a maior cobertura vacinal de todas as unidades da federação: 24,47% da população recebeu as duas doses. 

Azambuja disse que isso é resultado de diálogo. Eu prefiro traduzir por vacina, que é o que realmente interessa nesta hora:

“O estado está oferecendo incentivos financeiros para os municípios que aplicam mais doses do imunizante, com equipes que trabalham aos finais de semana”

São Paulo tem até agora 14,7% da população com o ciclo vacinal completo. Vai ter de acelerar. E não é para superar o Mato Grosso do Sul. É para impedir que a variante delta impulsione novamente para cima os números de mortes, contaminados e internados em estado grave.

Gabbardo disse que número de óbitos caiu 10,6% na semana passada; de novos casos, 20%; e de novas internações, 10,4%. As UTIs têm folga para atender pacientes mais graves. Na Grande São Paulo, por exemplo, a ocupação é de 62%. Foram esses os dados que permitiram o estado dar uma folga para o comércio. 

Quanto a variante delta —- aquela que surgiu na India —, Gabbardo falou que, primeiro é preciso monitorar e fazer mapeamento genético e, depois, entender como esse vírus se comporta. Lembra que o Reino Unido — onde a variante delta predomina — aumentou a circulação e transmissão do vírus e tem uma taxa de novos casos maior do que São Paulo, no entanto esse aumento não veio acompanhando de crescimento nos casos graves e óbitos. Se em São Paulo, a taxa de mortalidade é de 1,14 pessoas por 100 mil habitantes, no Reino Unido é de 0,03.

“No Reino Unido, a taxa de mortalidade é 38 vezes menor do que no estado de São Paulo, porque as pessoas mais idosas e o público mais vulnerável estão vacinados e a imunização está bem mais avançada”.

Nas duas entrevistas, ouvimos o compromisso de que SP e MS vão aumentar a velocidade da vacinação e espalhar o imunizante para a maior parte da população até o fim de agosto. 

Encerradas as conversas com Gabbardo e Azambuja, fiquei com a convicção de que se comprássemos vacina na hora certa — em lugar de criar dificuldade para ganhar pixuleco — muitas mortes seriam evitadas. Quantas? Não sei ao certo. Dia desses, ouvi, na CPI, o doutor Pedro Hallal, epidemiologista da UFPel, falar em até 400 mil mortes a menos, mas para isso era necessário ter investido de verdade nas medidas de controle, no distanciamento social e na celeridade da vacinação.

O desafio de resgatar 5 milhões de jovens que perderam o vínculo com a escola, no Brasil

 Foto: Freeimages

“A crise da educação não é uma crise, é um projeto”

A frase de Darcy Ribeiro foi lembrada hoje cedo pelo professor Mário Sérgio Cortella, em nossa Conversa de Primeira, para ilustrar a notícia de que o presidente Jair Bolsonaro vai ao STF para impedir que R$ 2,5 bi sejam investidos na infraestrutura que permitiria acesso de alunos da rede pública à internet. Informação que se soma a outra publicada pelo O Globo, manchete na editoria de Educação:

Retorno adiado: com R$1,2 bi para estruturar escolas para volta às aulas, MEC ainda não gastou nada, diz relatório”. 

Tudo isso foi dito pouco depois da entrevista que Cássia Godoy e eu fizemos com Florence Bauer, representante do Unicef no Brasil, que antecipou alguns dos argumentos e dados que seriam apresentados em seminário com o tema “A reabertura segura das escolas”: 

“O Brasil foi um dos países que mais tempo mantiveram as escolas fechadas e, hoje, apenas dois em cada 10 adolescentes têm algum tipo de contato com a sala de aula”.

Um número que foi registrado em novembro do ano passado —- e como nada mudou de lá para cá, tende a ser ainda pior: 5 milhões das crianças brasileiras perderam o vínculo com a escola durante a pandemia. Antes eram 1,5 milhão. 

Por aí se vê o tamanho do desafio que o país enfrenta. Esses jovens precisarão ser resgatados pelo ensino e não se vê quase nenhuma ação de governo para engajá-los. Florence sugere a estratégia da busca ativa, que já é desenvolvida corriqueiramente pelas prefeituras, que identificam as famílias que não colocam seus filhos na escola —- mesmo que alguns estejam matriculados —,  fazem contato com os pais e tentam convencê-los da importância de os filhos voltarem à sala de aula. 

“Apesar de todos os esforços feitos pelas escolas e educadores para manter a educação remota, os adolescentes mais vulneráveis não conseguem estudar”

Eis outra encrenca. Porque, mesmo que se ofereça o mínimo de segurança sanitária para que as aulas sejam retomadas —- e isso se faz urgente —, a maioria dos alunos chegará com ensino defasado, sem contar outras condições socioemocionais que podem tornar essa volta à escola mais difícil. 

A fórmula para a retomada das aulas já é conhecida, ensinou Florence Bauer: máscara, distanciamento, ventilação e diálogo com professores e toda comunidade escolar.

Ouça a entrevista completa com Flaurence Bauer, do Unicef Brasil:

Auxílio emergencial: “não fizemos nada pelos jovens e isso deixa cicatrizes”, diz Marcelo Neri da FGV Social

Reprodução Flickr

Responder o que você faria com 150 reais a mais no bolso diz muito sobre qual é a sua situação financeira. Para alguns brasileiros, esse dinheiro não paga o happy hour no fim do dia de trabalho. Para outros, será um reforço no orçamento doméstico. Para muitos, é a diferença entre comer e passar fome. Esse é valor que um trabalhador informal com renda familiar até três salários mínimos, morando sozinho, tem direito a receber de ajuda pelas regras do auxílio emergencial, criado ano passado para atender as pessoas que mais sofrem com as restrições necessárias para combater a Covid-19.

O governo decidiu agora que vai pagar o auxílio por mais três meses estendendo a ajuda para agosto, setembro e outubro. Para quem mora sozinho e tem direito ao benefício é a garantia de mais 450 reais no bolso; para mulheres que são chefe de família, mais 1.125 reais; e para os demais entrarão na conta 750 reais, parcelados em três vezes.

Vamos lembrar que no ano passado o auxílio era de 600 reais, por mês —- mulheres chefe de família recebiam até 1.200 reais —, foi interrompido em dezembro e retornou com valores menores em abril deste ano. Esse vai e vem de pagamento e sobe e desce de valores mexeu consideravelmente na vida de pessoas que vivem próximo da linha pobreza, como constataram estudos da FGV Social.

Pra ter ideia, até agosto de 2020, 15 milhões de brasileiros deixaram a situação de extrema pobreza, uma queda de 23,7% em comparação com o ano anterior, graças a essa transferência de renda. Mesmo considerando que ainda havia 50 milhões de pessoas em situação de miséria, foi o maior movimento social que se assistiu no país. 

O diretor da FGV Social, Marcelo Neri, entrevistado de hoje do Jornal da CBN, calcula que a prorrogação do auxílio emergencial vai evitar que 6 milhões de pessoas voltem para a linha de pobreza. Para o economista, a medida de continuidade foi uma solução razoável: 

“Não é a cura do problema, mas uma anestesia importante”

A despeito de que toda e qualquer ajuda é bem-vinda, é preciso ressaltar que este dinheiro chegará às mãos dos mais pobres com 1/4 do seu valor comprometido pela inflação —- o aumento de preços do gás, energia e alimentos pesa muito mais nas classes sociais mais baixas.

Na conversa que Cássia Godoy e eu tivemos com Marcelo Neri ouvimos dele o alerta para o que considera ser dois pecados cometidos na pandemia: a questão da saúde, que tornou os mais pobres ainda mais vulneráveis, e a da educação, com crianças e adolescentes fora da escola, “como se isso não gerasse nenhuma perda” —- o que vai cobrar um preço caro no longo prazo, segundo o economista. 

Um dos pontos que me chamaram atenção na entrevista foi quanto a preocupação dele com a juventude que deixa de estudar e não encontra vaga no mercado de trabalho — tema que já foi assunto aqui no blog e voltaremos a tratar em breve. São necessárias ações específicas de incentivo para a contratação de mão obra mais jovem que foram os que mais perderam renda de trabalho na pandemia —- 18%, segundo cálculos da FGV Social. 

“Precisa algum tipo de iniciativa. O jovem não tem experiência e não consegue emprego. É preciso alguma coisa para conciliar trabalho e estudo. Até agora, a gente, concretamente, não fez nada com isso, embora tenham ocorrido alguns balões de ensaio … e isso deixa cicatrizes

Ouça a entrevista completa com Marcelo Neri, da FGV Social