Por Sérgio Vaz
Do blog Colecionador de Pedras

Imagem do projeto Caminhos Poéticos da Periferia
Nesta terça-feira, retomei o projeto de poesia com os meninos e meninas do Projeto Agente Jovem do Jardim Scândia. O CRAS é uma parceria do governo federal com a prefeitura de Taboão da Serra, onde a garotada participa de vários projetos após a aula. Não sei muito bem como funciona, só sei que é legal estar lá.
Quando fiz umas oficinas com eles há algumas semanas, fiquuei na promessa de voltar, e se eles escrevessem poesias iríamos fazer um livro com as poesias deles. Aí, quando atendo o telefone na sexta-feira, a Eliete Mendes, monitora do projeto e uma guerreira, que enfrenta o marasmo de giz em punho, ligou para mim e disse:
– Sérgio o pessoal escreveu as poesias e gostaria que você viesse aqui
novamente para dar uma olhada nos poemas, e que a gente tocasse o
esquema de publicar o livro de poesias com eles…
Mal sabia ela a alegria em que eu fiquei ao ouvir isso. A Eliete me lembra a professora do filme “Escritores da liberdade” – já assistiram? É piegas, mas é bom-, tamanha sua paixão pela molecada. Lindo ver essa gente que faz por que acredita. A Eliete é um desses seres-humanos antigos que amam primeiro e depois vão descobrir quem é o ser amado. Por isso me fez acreditar também Bom, cheguei lá senti que eles estavam empolgados, mas aí alguém falou que as poesias estavam muito desabafo, ou muito “eu isso” “eu aquilo” e que eles estava afins de escrever umas poesias de protesto e denúncia, umas coisas mais fortes, na opinião deles. Vai vendo a ousadia da meninada.
Fiquei pensando o que seria forte o bastante para motivá-los, aí veio um estalo: “A Quebrada”, a quebrada onde eles moram.
-Eliete, a gente pode sair com eles e fazer a oficina na rua, dando um rolê pela quebrada?
-Só se for agora – respondeu a guerreira já com um sorriso no rosto e um brilho nos olhos.
Então a gente saiu pela quebrada procurando poesia pra se coçar. No caminho fomos falando sobre a importância da poesia e da literatura na vida das pessoas e como ela estava abundante na periferia. Fomos andando a esmo, como quem caminha sem objetivos, mas com a fé de quem percorre o Caminho de Santiago de Compostela. Quem sabe tirar um Paulo Coelho da cartola? Aí fui perguntando a eles o que/ porque eles viam, coisas banais para aguçar o olhar poético, ou apenas pelo prazer de uma conversa com pessoas tão agradáveis quanto eles. Daria um rim para ter quinze anos novamente… os adultos maltratam os jovens porque são invejosos e não perdoam a alegria que nasce da inocência.
Nesses passos curtos chegamos a um campo de futebol onde vários garotos estavam treinando, e a outra parte estava enpinando pipa, nada mais periferia do que essa mistura. Quando eu perguntei sobre os meninos que jovam bola, eles responderam:
-Sonhos poeta. Esses meninos têm sonhos de saírem dessa vida, de comprar uma casa boa para a mãe, de ter um bom carro, etc.
-E Aquela ávore ali, o que vocês Veêm nela?
Não sei porque, um garoto a fixou por um segundo e respondeu:
-Eu Vejo a África.
-Por quê a África ? – queria saber o porque, como se tivesse que ter um porque.
-Porque eu vejo assim, é por isso – disse meio tímido o poeta promissor.
E depois quando que ele falou isso, olhei novamente para a árvore e pude ver a África e suas raízes, e suas sementes espalhando frutos pelo mundo, e cada folha do galho, tinha a face de um amigo meu. Fazia tempo que eu não olhava assim. Ele me ensinou a olhar novamente o olhar que un dia tive.
-Isso é poesia, é sobre isso que vocês devem escrever – finalizei o meu aprendizado.
-Isso é poesia ? -perguntou alguém.
Repensei e disse:
-Não, vocês é que são, o resto são árvores que viram continentes.
É isso aí, uma tarde que tinha tudo para ser zero a zero, a esperança venceu de goleada.
Quinta-feira tem jogo novamente.