A caminho de São Paulo

Um mendigo da Rua Miguel Lemos, em Copacabana, juntou as coisas e foi para São Paulo. Um carioca o encontrou perto de Congonhas e ouviu sua explicação: “Vim passar uns quatro meses para levantar uma grana. O Rio tá muito pobre”

A piada está reproduzida na coluna de Alcelmo Gois, em O Globo de hoje.

Somos cada vez mais favelados

Um em cada seis paulistanos vive em favelas, é o que diz um estudo divulgado pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, no domingo. Em quatro anos, a população favelada da cidade cresceu 38%. Eram 290 mil famílias nas favelas em 2003; e, hoje, são 400 mil famílias – quase dois milhões de pessoas. Interessante é que a área tomada por favelas não aumentou da mesma forma. Ou seja, cada família tem menos espaço para viver e as construções sobem como os prédios de luxo na cidade.

De volta ao batente



Chove forte em São Paulo no início desta manhã quando me preparo para retomar o trabalho, após um mês de férias. Navegando na internet, antes de ter de navegar pelas ruas da cidade, folheando os jornais entregues na porta e de ouvido ligado na CBN, descobre-se poucas novidades em relação ao que se deixou para trás (apenas modo de dizer, porque com a velocidade da informação e a facilidade de acesso as notícias de qualquer lugar estão em todos os lugares).

Renan continua Renan. Lula está triste com a vaia. Serra é líder de pesquisa. ACM resiste. A Assembléia Legislativa de São Paulo não investiga nada. A prefeitura recebe reforço da PM no trânsito. E o trânsito está parado.

Até o esporte é o mesmo: o vôlei é hepta, o futebol é octa, e quem ganha medalha no Pan aproveita para mostrar o Brasil que não são heróis pelo pódio conquistado, mas por resistirem as barbaridades dos cartolas.

Só o Heródoto está mais bonito. O que teria feito ?

Em busca de novidade, estou de volta.

Força do hábito

Por Maria Lucia Solla

Olá,

– Não encosta em mim!
– Como??
– Você entendeu muito bem.
– Desculpe, mas não entendi.
– Você sempre se faz de desentendido, não é?
– Claro que não… Eu…
– E tem resposta pra tudo. Claro que não, claro que sim… Tudo é sempre muito claro pra você. Como se nunca tivesse dúvida; como se estivesse sempre certo. Mesmo quando sapateia em cima de mim, do meu coração do meu ego, do meu orgulho. E eu vou vivendo assim, ferida, sangrando, sempre chorando. Diminuída!
– Por favor, não chore. Você sabe que eu não posso ver mulher chorando.
– Ah, mas pelo jeito uma mulher lançando olhares furtivos na tua direção você pode, não é? Pensa que eu não vi? Bastou um sorrisinho na tua direção pra você se derreter todo. Por que, meu Deus, por que vocês homens são todos assim? Não podem ver um rabo de saia abanando que já ficam animadinhos. É a ruga nova que descobri ontem de manhã, no espelho? Só pode ser. Ou talvez a marca de expressão em volta da boca e os primeiros cabelos brancos. Você também não é imortal, sabia?
– Desculpe, mas não sei do que você está falando. E que voz é essa?
– Pois devia saber porque a minha voz tem este tom toda vez que você faz isso, e faz sempre! Insiste em me magoar, em me ignorar e ficar olhando pras outras. Por quê? Essa aí é mais bonita do que eu? Mais jovem? Mais interessante você não poderia saber se é, porque ainda nem trocaram telefones. Quantas estações são necessárias pra você conseguir o telefone dela, ou será que já se conhecem? E eu aqui, na santa inocência, fazendo tudo por você, dia após dia. E você sabe que toda vez que choro assim, acabo com os olhos inchados e não tem compressa no mundo que conserte. Então, o que acontece? Mais rugas, mais traição. Mais traição, mais rugas.
– Está todo mundo olhando, por favor, eu nem…
– Ah! Agora, se todo mundo olha a culpa é minha. Você se derrama, se espalha, fica flertando descaradamente com a primeira zinha que aparece e eu é que estou errada. Só estou tentando me defender, defender o nosso amor! Se é que ele ainda existe, se é que sobreviveu a tanta infidelidade. Não pense que sou boba. Vejo muito bem. E quando não vejo sinto, pressinto, vislumbro a possibilidade. Esses óculos escuros são pouco pra disfarçar seus olhares sorrateiros.
Senhoras e senhores, Estação Sé.
– Amor, amor, acorda. Chegamos. Você cochilou.
– – Não encosta em mim!
– – ?
Pense nisso, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano

Genesis no Circo Massimo

De Roma


Operários começam construir palco de 64m de largura e 28 de altura

Phil Collins conclui turnê que marcou o reencontro do Genesis, neste sábado, em Roma. A cidade é um espetáculo construído pela civilização. Tê-la como cenário engrandece ainda mais concertos, óperas e peças de teatro. A programação cultural é intensa e desenhada pela iluminação que contorna monumentos históricos. O Circo Massimo foi o local escolhido para apresentação gratuita do grupo que fez sucesso nos anos 70 e 80.

Em entrevista, Phil Collins falou sobre o retorno: “Sting disse que voltar no Police significa voltar a um casamento. Para nós é a mesma coisa, sendo que nosso casamento é mais velho do que o dele”. No altar do matrimônio, alem de Collins, estarão Tony Banks e Mike Rutherford.

Sábado é dia de voltar para casa. Assim, o consolo é ouvir Genesis no computador, ao som de I Can’t Dance:

“Muro Limpo” começa com água e sabão, na segunda

De Roma

Morador paulistano está ficando metido. Ao chegar na cidade dos amigos, a primeira coisa que quer saber é se a poluição visual está sendo combatida. Na capital italiana, não tem outdoor dos moldes que havia em São Paulo, mas cartazes menores colocados sobre a calçada, ou seja, em domínio público e controlado pelo município.

Por contraditório que pareça, em Roma, que conserva como poucas seu patrimônio histórico, revelando fachadas e recuperando monumentos, o desrespeito e a sujeira são grandes, haja vista as condições que estão muros e espaços publicitários da cidade.

Na segunda, dia 16, para mudar esta cara, a prefeitura lança a campanha “Muro Limpo” , com 38 equipes tomando as ruas da região do Campidoglio. Cada uma com três operários munidos de sabão e máquina automática de água. Hoje, somente oito grupos atuam na área. O alvo são os escritos nos muros e a remoção de cartazes irregulares.

O projeto atenderá não apenas o centro histórico. “Mais atividades de decoro vão avante”, disse o prefeito de Roma, Walter Veltroni, que investirá € 5 milhões – pouco mais de R$ 13 milhões – na operação.

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, poderia convidar o colega Veltroni a visitar a capital paulista e ver que apenas a ação radical de controle da poluição visual foi capaz de coibir a ilegalidade.

Seu passado está condenado a desaparecer

De Roma (de olho em Buenos Aires)

A foto é do autor do texto, Julian Gallo, aos 6 anos

Lembro-me das sessões de slide na sala de casa, a familia em volta da mesa baixa, alguns atirados no sofá e o resto da turma sobre o tapete. Já havíamos decorado a ordem das imagens, mas sempre nos divertíamos como se fosse a primeira vez. Tinha uma que minha irmã odiava, e sempre que aparecia lhe tirava um sorriso amarelo.

Dia desses tentei rever, ao lado de meu irmão, algumas daquelas imagens. O reprodutor exalou cheiro de queimado e slides entortaram. A maioria está salva para a gente rir das nossas roupas, cabelos e poses. Ainda bem.

O arquivo fotográfico tornou-se mais simples com a digitalização, e em uma armadilha que pode condenar nosso passado, como alerta o jornalista argentino Julian Gallo. Especialista em assuntos de tecnologia, ele chama atenção para um cuidado especial que devemos ter com nossas fotografias, em texto publicado no blog Mirà (www.juliangallo.com.ar)

Diz um dos trechos:

“Temos que entender muito claramente que a função de um album online como Flickr não é conservar fotos, e, sim, ajudar a compartilhá-las, ajudar que os outros as vejam. Nada mais. Porém, é inquietante descobrir que as fotos digitais desaparecem sem demasiadas explicações.”

Leia o artigo “Hay que imprimir la memória fotográfica” acessando o link abaixo e aproveite para conhecer muito mais deste interessante argentino (que, além de tudo, é torcedor do Boca Junior):

http://www.juliangallo.com.ar/2007/07/hay-que-imprimir-la-memoria-fotografica/

Recado ao Senhor Walter Maierovitch

De Roma

Leitor assíduo de seu blog, me interessei em especial pela sua nota a propósito da Bocca de La Verittà. Estou habitando em um pequeno e charmoso apartamento na Via Merulana, portanto a E 1,00 e alguns minutos da igreja de Santa Maria in Cosmedin, se pegar o ônibus certo.

Não resisti a tentação e segui para as margens do rio Tevere em busca da verdade. nesta manhã. A igreja do século IV é singela se comparada com outras dezenas que visitamos por aqui como a Basílica de S. Maria Maggiore. Bastante humilde, principalmente para quem ainda tem em mente a riqueza esbajada na Basílica de São Pedro, no Vaticano.

Levando-se em consideração estarmos em período de férias escolares e o bom tempo que se registra na Itália, a fila que se estendia desde a calçada até o interior da igreja não era das mais desafiadoras – nesta época, para entrar na Capela Sistina ou no Coliseu é preciso rogar aos Deuses da Paciência.

Isto, aliás, facilitou uma das tarefas das quais havia me imbuído, verificar se havia a presença de algum brasileiro ilustre e letrado em busca da verdade. Além de um vendedor de pequenas lembranças, logo após o portão de entrada, que ensaiava alguns assovios com o apito que forjava no local, constatei a existência de enorme quantidade de turistas japoneses e, com menos expressão, de outras nacionalidades, também. Brasileiro, era o único representante no momento.

Aproveitei para perguntar ao ambulante, que vendia produtos com autorização da igreja, se havia notado um aumento na freqüência de brasileiros nestes últimos dias. Com certeza, respondeu. Alguém que o senhor tenha visto lhe chamou atenção ? Quase todos com camisa da seleção. Algum de terno e gravata ? E carro oficial ? Nenhum, repetiu várias vezes, sacudindo a cabeça.

Cerca de 15 a 20 minutos depois de chegar, consegui me aproximar da lenda. Como qualquer turista, até para não chamar atenção, coloquei a mão dentro da boca e posei para fotografia. Enquanto o resto do pessoal preparava seus flashes, aproveitei para realizar minha segunda e mais importante tarefa: convidar a Bocca de La Verittà para viajar a Brasília e se instalar na porta de acesso do Congresso Nacional.

Confesso que não tive muito tempo para convencê-la. Os japoneses que vinham logo atrás estavam impacientes. Sugeri que aparecesse na capital federal após o recesso parlamentar, já que entendia o abalo que haveria nas finanças de Santa Maria in Cosmendin se resolvesse deixar o local nestas férias. Tentei-a com a possibilidade de conhecer o nosso “Cristo Maravilha”, no Rio de Janeiro. Disse ter medo (deve ser da concorrência). Insinuei com uma camisa autografada pelos jogadores da seleção de Dunga (sem Ronaldinho e Kaká, ela sequer abriu a boca).

Impassível mas compreensiva, a Bocca me disse que de todos os brasileiros que por lá passaram nessas últimas semanas nenhum teria motivo para perder o dedo que fosse, e sugeriu que voltasse ao portão de entrada, comprasse do vendedor uma miniatura por apenas 6 euros e a levasse para Brasília com um recado: Provate, Renan !


Fila da verdade: sem brasileiros

Leia a nota “Boca da Verdade” escrita por Walter Maierovitch no link abaixo:

http://www.waltermaierovitch.globolog.com.br/archive_2007_06_30_0.html

Uma vitrine para a pirataria

De Roma

Na Piazza del Popolo, após quase duas horas de passeio em uma das mais famosas ruas de comércio da capital italiana, a Via del Corso, entre as principais marcas da moda internacional, o cidadão se depara com a vitrine acima. Lá dentro, uma série de produtos piratas – tipo aqueles vendidos nas ruas de Veneza (veja nota anterior) – recolhidos das mãos de contrabandistas e vendedores ambulantes, que podem ser encontrados nos corredores das estações de metrô e ruas secundárias.

No alto, a mensagem principal: “ No nosso país, os falsos são… bandidos!”. Em baixo, a ameaça para quem ficar tentado às facilidades do comercio ilegal: comprar produtos de contrabando é crime passível de multa de € 10 mil.

Do jeito que crescem as vendas ilegais, logo a campanha terá que expor, em praça pública, não apenas os produtos falsos, mas os próprios falsificadores.

Obs: A vitrine antipirataria fica na Piazza del Poppolo e a vitrine da pirataria na feira de Porta Portese, as margens do Rio Tevere (foto abaixo). Contrabando e produtos falsificados tomam as bancas do comércio popular.

Italianos “cheiram” cocaína e consumo aumenta 62%

De Roma

A poluição da cidade incomoda mesmo turistas acostumados a respirar a sujeira de São Paulo. Não bastasse a fumaça provocada pelos carros, Roma tem uma peculiaridade: partículas de cocaína. Ninguém fica “chapado” só por caminhar na região do Campidoglio, mas o estudo de um grupo de pesquisadores do Instituto de Poluição Atmosférica, do Conselho Nacional de Pesquisa, encontrou vestígio de coca, assim como do componente ativo da maconha e do haxixe. Foi a primeira vez no mundo que se constatou partículas de droga suspensas no ar na cidade.

Um relatório apresentado nesta quarta ao Parlamento talvez explique em parte a constatação anterior: o uso de cocaína cresceu 62% entre os homens de 25 a 34 anos, e 50% entre as mulheres, na comparação entre os anos de 2001 e 2005. Um em cada três italianos fumou maconha pelo menos uma vez na vida.