De Veneza

Negros e altos, eles se vestem muitas vezes com roupas que fogem do estilo ocidental, apesar de ser possível, também, encontrá-los vestindo camisetas de algum ídolo do basquete americano. Todos são muito bons de papo e a abordagem é feita com uma largo sorriso e gestos extravagantes que não escondem seu objetivo. É incomum a capacidade que têm de manter uma conversa por longo tempo com seu interlocutor na maioria das vezes, mulher mesmo que este se esforce para seguir em frente. Ou sequer compreenda a língua com que se comunicam.
Os nigerianos (assim são identificados, por aquim, todos que nasceram em qualquer pais da África) se globalizaram. Antes eram vistos em capitais mundiais como Nova Iorque, passaram a atuar em outros centros, como São Paulo, agora se integram, também, ao cenário de Veneza, a pequena cidade italiana que insiste em se manter viva sobre o mar. Com um lençol estendido nas calçadas das estreitas vias, espalham cuidadosamente dezenas de bolsas de ótima qualidade, garantem.
Acesse a internet e procure os últimos lançamentos das coleções da Gucci, Fendi e Dolce Gabbana. São estes modelos que estarão à venda por preços convidativos. Começam com uma pechincha, 80,00 (algo em torno de R$ 216), mas ao ouvirem o primeiro não seja na língua que for fazem nova proposta. O preço cai a medida que a cliente tenta se desvencilhar do vendedor. Eles nunca desistem, seguem caminhando ao seu lado. É possível conseguir um desconto de até 50%.
Se a presa não resistir a tentação, voltar atrás e conferir a qualidade do produto, estará perdida. Dificilmente escapará da compra. O visual das bolsas é convicente.
O preço é excelente, insistem. Se o cliente tiver dúvida, basta ir a loja da frente onde as mesmas bolsas podem ser encontradas por até 800 (R$ 2.160). Esta é outra curiosidade neste comércio ilegal: os nigerianos não se acanham em colocar suas bancas e bolsas falsificadas diante da loja oficial, para desespero dos lojistas.
Em dois dias, jamais assisti ao rapa seja por carabinieri ou qualquer autoridade de fiscalização, apesar de que eles parecem estarem sempre prontos para correr, mesma rotima dos ambulantes ilegais das cidades brasileiras. Os comerciantes os das lojas – dizem que de vez em quando eles são retirados dali.
Na última noite em Veneza, um deles sorriu para a moça da frente, se aproximou, fez genuflexão, estendeu os braços como lhe abrindo caminho para o consumo, reproduziu algumas palavras em uma língua qualquer e, em poucos segundos, voltou sem a venda: Venezuela, disse ao mesmo tempo que levantava os ombros em sinal de resignação.

Pelo Grande Canal passam parte dos produtos falsificados