Prefeito defende água da pena

De Roma (mas de olho em Nova Iorque)


Fontes de água natural são comuns, em Roma

Não sei se a gente fala água da pena ou da bica, em São Paulo. Água da torneira é mais comum, com certeza. Da pena, da bica ou da torneira, é de lá que o prefeito de Nova Iorque quer que o cidadão tome água. A notícia ganhou espaço no noticiário italiano, onde o hábito é comum. Alguns pequenos restaurantes não se acanham em servi-la aos clientes. Água, por sinal, não é problema para moradores e turistas que encontram fontes naturais por todos os lados.

Michael Bloomberg lança o movimento, em Nova Iorque, para reduzir o desperdício e a poluição provocada pelas garrafas de plástico. Segundo a BBC, os nova-iorquinos apóiam a iniciativa. Quem não gostou da proposta foram os produtores de garrafas PET.

Os “nigerianos” chegaram aqui

De Veneza

Negros e altos, eles se vestem muitas vezes com roupas que fogem do estilo ocidental, apesar de ser possível, também, encontrá-los vestindo camisetas de algum ídolo do basquete americano. Todos são muito bons de papo e a abordagem é feita com uma largo sorriso e gestos extravagantes que não escondem seu objetivo. É incomum a capacidade que têm de manter uma conversa por longo tempo com seu interlocutor – na maioria das vezes, mulher – mesmo que este se esforce para seguir em frente. Ou sequer compreenda a língua com que se comunicam.

Os nigerianos (assim são identificados, por aquim, todos que nasceram em qualquer pais da África) se globalizaram. Antes eram vistos em capitais mundiais como Nova Iorque, passaram a atuar em outros centros, como São Paulo, agora se integram, também, ao cenário de Veneza, a pequena cidade italiana que insiste em se manter viva sobre o mar. Com um lençol estendido nas calçadas das estreitas vias, espalham cuidadosamente dezenas de bolsas de “ótima qualidade”, garantem.

Acesse a internet e procure os últimos lançamentos das coleções da Gucci, Fendi e Dolce Gabbana. São estes modelos que estarão à venda por preços convidativos. Começam com uma pechincha, € 80,00 (algo em torno de R$ 216), mas ao ouvirem o primeiro “não” – seja na língua que for – fazem nova proposta. O preço cai a medida que a cliente tenta se desvencilhar do vendedor. Eles nunca desistem, seguem caminhando ao seu lado. É possível conseguir um “desconto” de até 50%.

Se a presa não resistir a tentação, voltar atrás e conferir a qualidade do produto, estará perdida. Dificilmente escapará da compra. O visual das bolsas é convicente.

“O preço é excelente”, insistem. Se o cliente tiver dúvida, basta ir a loja da frente onde as mesmas bolsas podem ser encontradas por até € 800 (R$ 2.160). Esta é outra curiosidade neste comércio ilegal: os nigerianos não se acanham em colocar suas “bancas” e bolsas falsificadas diante da loja “oficial”, para desespero dos lojistas.

Em dois dias, jamais assisti ao “rapa” seja por carabinieri ou qualquer autoridade de fiscalização, apesar de que eles parecem estarem sempre prontos para correr, mesma rotima dos ambulantes ilegais das cidades brasileiras. Os comerciantes – os das lojas – dizem que de vez em quando eles são retirados dali.

Na última noite em Veneza, um deles sorriu para a moça da frente, se aproximou, fez genuflexão, estendeu os braços como lhe abrindo caminho para o consumo, reproduziu algumas palavras em uma língua qualquer e, em poucos segundos, voltou sem a venda: “Venezuela”, disse ao mesmo tempo que levantava os ombros em sinal de resignação.


Pelo Grande Canal passam parte dos produtos falsificados

Perde-se algo, encontram-se verdades

De Peschiera del Garda

Uma carteira com dinheiro, documento e cartões de crédito e de banco é perdida dentro de um parque de diversões por onde cruzam milhares de turistas, em sua maioria, italianos.

Duas horas depois, a carteira volta ao dono sem dano; enquanto a administradora não foi capaz de cancelar o cartão, mesmo após impor ao cliente uma enxurrada de perguntas, confirmações e repetições.

No incidente descobre-se a honestidade do cidadão e a incompetência da administradora de cartão.

Obs: o fato levou a outras histórias, como a do cidadão, anônimo até hoje, que encontrou o cartão de crédito de uma brasileira e como não havia maneira de encontrá-la teve o cuidado de cancelá-lo na administradora. Ambos tiveram sorte.

As linhas tortas da arte que levam a Paraisópolis

De Viena

A irregularidade no desenho de Friedensreich Hundertwasser é proposital e oferece um visual equilibrado com a natureza. Na contradição, está a idéia da sustentabilidade discutida por todos nós, assustados com o aquecimento global, que já se praticava no trabalho deste artista vienense que morreu, em 2000, aos 71 anos.

“Na natureza não há maldade, somente há maldade no homem”, dizia Hundertwasser.

Na casa (foto acima), o visionário provou que é possível o cidadão viver com a natureza sem que nenhuma das partes tenha de abrir mão de seus direitos.

Desde 1986, quando foi concluída, Hundertwasser House, na capital austríaca, foi visitada por milhares de pessoas de todo o mundo. Um passeio na calçada em frente a casa colorida e arborizada e você encontra estudantes e professores de arquitetura e urbanismo debatendo, em inglês, alemão e espanhol (foi o que consegui identificar) , cada detalhe ao nosso alcance.

Os neófitos (dentre os quais este vos bloga), de boca aberta, tem a impressão de que o artista brincava de desenhar, e transformava o brinquedo dele em realidade. É verdade. Basta verificar outros trabalhos que podem ser acessados na internet, em qualquer site de busca.

Enquanto alunos e profissionais, grupos de turistas e curiosos ficam admirados diante do trabalho de Hundertwasser, lá dentro famílias tocam suas vidas. E saber disso, torna tudo ainda mais incrivel.

Olhar o predio residencial de Hundertwasser, no terceiro distrito da capital vienense, me fez lembrar por – e pelas – linhas tortas de Estevão da Paraisópolis, favela da zona sul de São Paulo. Artista, também, sem a fama do personagem desta história, transformou o ritual de uma casa em arte (foto abaixo), apesar de jamais ter passado por escola especializada (coisa, aliás, que Hundertwasser o fez não por mais de três meses).

Olhares rápidos de uma cidade

De Viena

Os bondes, banidos das cidades brasileiras pela indústria do petróleo, circulam com elegância nas ruas e avenidas da capital austríaca, integrando o sistema de transporte público. É transporte considerado moderno. Aqui, dizer que “pegou o bonde” não revela a idade de ninguém, Heródoto Barbeiro !

Não incomodar os outros é cuidado levado até as últimas conseqüências. Todas as estradas que cruzam a capital e arredores têm paredes anti-ruído, semelhantes as que encontramos em um ou dois pontos do Rodoanel, em São Paulo. Há casos, em que o custo para levantar o muro foi superior ao conjunto das casas protegidas do barulho dos carros e caminhões. O Psiu funciona !

Os rios estão integrados a vida dos vienenses. Praias artificiais, passeios de barco, espaço para nadar e até piscina construída dentro do Danúbio. Nesta foto, a 150 metros de altura, no topo da Torre do Danúbio, você vê uma ilha artificial com 21 quilômetros de extensão e um conjunto de bares e restaurantes batizado Copacabana, em homenagem a praia brasileira. Que saudade do Tietê !

É proibido cortar grama aos domingos

De Viena

A primeira notícia que levei a um amigo sueco que trocou o Brasil pela Áustria há cinco anos foi a proibição de toda e qualquer publicidade externa, em São Paulo. Falei com certo orgulho do avanço paulistano, mas o sentimento foi cortado com uma pergunta que me atingiu como uma flecha: “É uma prioridade ?”.

Para ele é preciso antes atacar questões centrais no Brasil e na cidade de São Paulo em particular, onde viveu 17 anos, para depois encarar de frente problemas que considera menores. Foi assim, combatendo os grandes temas, que Viena se desenvolveu, explicou.

Nossa conversa enveredou para os assuntos que preocupavam os vienenses neste início de verão em que as grandes orquestras estão fora do país: radares, falta de lugar para estacionar e a imigração.

Lá pelo meio do bate-papo soube de uma das prioridades atendidas pelos legisladores vienenses: o repouso de fim de semana perturbado pelos cortadores de grama. E para dar um basta a este desrespeito, uma medida dura: a partir do meio-dia de sábado até o fim de domingo é proibido cortar grama com máquinas elétricas.

Quem dera chegarmos um dia no estágio de discutirmos a proibição do uso dos cortadores de grama, em São Paulo. Quem dera um dia termos grama em nossas casas para incomodar o vizinho com o barulho das máquinas.

Impunidade prejudica luta contra mortes no trânsito

De Madri

Há um ano, os motoristas espanhóis estão sob leis de trânsito rígidas com o objetivo de reduzir o número de mortes. O sistema de pontuação, que lembra o implantado no Código Brasileiro de Trânsito, conseguiu derrubar em 14,6% a mortalidade. A lentidão na punição e erros nos registros, contudo, podem se transformar em barreira para os avanços conquistados até aqui.

De julho do ano passado, quando entrou em vigor a regra, até agora haviam morrido 2759 pessoas em acidentes de trânsito. Entre julho de 2005 e julho de 2006 havia sido registradas 3272 mortes. Em média, 47 pessoas deixaram de morrer a cada mês.

Contudo, a demora para que as multas cheguem a casa dos espanhóis e, pior, erros nos registros feitos pelas autoridades em algumas cidades – e Madri é um dos casos – já dão sinais de que o sucesso inicial está para falir. Desde fevereiro começaram a chamar atenção o retorno ao noticiário dos acidentes de trânsito com mortes.

A associação Automobilistas Europeus Associados (AEA) assegura que milhares de condutores multados não terão acrescidos pontos em suas carteiras por erros da Direção Geral de Tráfico, na Espanha. Sem uniformização, cada cidade utiliza nomenclatura diferente para as mesmas irregularidades e a informação não é aceita pelo sistema de informatização implantado pela DGT.

Da Espanha, o exemplo de algo que conhecemos bem no Brasil. A impunidade, seja no trânsito seja em qualquer outra instância, tende a gerar mais vítimas, tornando inócua qualquer tentativa de enrijecimento das leis.

Espanha discute lei mais dura contra menor infrator

De Madri

Quatro anos após o assassinato brutal de Sandra Palo, um dos autores do crime, Rafael Garcia, deixou o centro de internamento de menores. Legalmente, Rafita, como é conhecido, continuará submetido ao regime penitenciário mas permanecerá livre, necessitando atender apenas algumas exigências previstas na lei que trata de crianças e adolescentes infratores.

A notícia por mais brasileira que pareça está nos jornais espanhóis, provocada pela ação dos pais da menina Sandra Palo raptada, violada, atropelada e queimada por seus assassinos em um crime que chocou a Espanha, em 2003. Eles foram para a frente do centro de internamento para assistir à liberação do rapaz em mais uma atitude com o objetivo de chamar atenção da opinião pública para a necessidade de revisão na legislação.

Os pais de Sandra têm sido incansáveis na mobilização da sociedade espanhola para que o debate, jurídico e social, se aprofunde e medidas eficazes sejam adotadas pelo governo.

Aqui, eles também procuram uma fórmula conciliadora entre os que pedem maior rigidez na punição a estes menores de idade e os que alertam para o alcance que deve ter as medidas de reabilitação.

Caminhe para o lado que for, a Espanha, assim como o Brasil, deve rever o código que pune crianças e adolescentes infratores no sentido de não lhes fazer perder a noção da violência cometida e impedi-los de repetir estes atos.

Espanha quer garçom no combate as drogas

De Madri

Os espanhóis, assim como os brasileiros, estão preocupados com o aumento no consumo de cocaína, principalmente após a divulgação de dados da ONU que coloca o país no topo da classificação mundial. Segundo editorial do jornal ABC, de Madri, o número de usuários menores de idade se multiplicou por quatro nos últimos dez anos.

O inusitado está na fórmula encontrada pela ministra espanhola da Saúde, Elena Salgado, que apresentou um programa estratégico, aplicável até 2010, para reduzir o consumo de cocaína, aumentar a percepção de risco, retardar a idade de início do contato com a droga e melhorar o atendimento as pessoas viciadas.

A ministra pretende, por exemplo, que os garçons vigiem o uso da droga nos bares e discotecas, transformando-os em espécies de “soldados da moral e dos bons costumes”. Incluem-se neste “exército” os donos dos estabelecimentos que passariam a controlar seus clientes. Há intenção, ainda, de distribuir certificados de “centros sem droga” para aqueles locais em que o consumo tenha sido, comprovadamente, eliminado.

Que a sociedade tem responsabilidade a assumir, não há dúvida, mas transferi-la a garçons parece ser uma ação inócua e de pouca criatividade para interromper um negócio tocado de maneira extremamente profissional

Quando a profissão te chama pelo nome

São Paulo já teve secretária de Esporte batizada Nadia Campeão e de Saúde, Roberto Baratas. Dia desses apareceu na televisão um diretor do departamento de obras de sobrenome Pontes.
Se parar para pensar você lembrará de outros exemplos de pessoas com nomes associados ao destino. O argentino Walter Duer teve paciência, relacionou os casos e lançou “Marcados por el destino: Cuando la Vocacion te Llama por tu Nombre”.

O livro é citado na crônica do médico-escritor Moacyr Scliar que confessa colecionar nomes que condicionam o destino. No trabalho do argentino Duer descobre-se o caso do general romeno chamado de Nicolai Militaru, do chapeleiro que atende pelo nome de A.Cabezas, do médico Fernando Cura e do advogado Eduardo Leyes.

Álvaro Trigo é ministro da Agricultura do Uruguai, Carlos Vaquer comanda a Sociedade Rural, enquanto Diego Buraco está à frente da Câmara de Construção da Argentina.

E você conhece algum nome marcado pelo destino?